16 de agosto de 2016

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: IDA BAUER



IDA BAUER (1882-1945), posteriormente tendo Adler como sobrenome de casada, ficou conhecida através do pseudônimo “Dora”, famoso caso clínico de Freud.
Primeiro grande tratamento psicanalítico realizado por Sigmund Freud, anterior aos do Homem dos Ratos (Ernst Lanzer) e do Homem dos Lobos (Serguei Constantinovitch Pankejeff), a história de Dora, redigida em dezembro de 1900 e janeiro de 1901 e publicada quatro anos depois, desenrolou-se entre a redação de A interpretação dos sonhos e a dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Originalmente, Freud queria dar a esse “Fragmento da análise de um caso de histeria” o título de “Sonho e histeria”. Através desse caso, ele procurou provar a validade de suas teses sobre a neurose histérica – etiologia sexual, conflito psíquico, hereditariedade sifilítica – e expor a natureza do tratamento psicanalítico, muito diferente da catarse e da hipnose, e já então fundamentado na interpretação do sonho e na associação livre.
Ao longo dos anos, o texto adquiriu um estatuto particular: trata-se, com efeito, do documento clínico que mais se comentou, desde sua publicação. Dezenas de artigos, vários livros, um romance e uma peça teatral foram criados a propósito de Dora, e o caso dessa jovem tornou-se o objeto privilegiado dos estudos feministas. Aliás, muitas vezes foi aproximado do caso de Bertha Pappenheim. A maioria dos comentadores observou que esse tratamento não foi tão “bem-sucedido” quanto os outros dois. De fato, Freud teve muitas dificuldades com sua paciente, e não as mascarou. Como observou Patrick Mahoney a propósito de Ernst Lanzer: “Quando comparamos as contratransferências de Freud com seus principais pacientes, temos a sensação de que ele simpatizava mais com o Homem dos Ratos do que com Dora ou com o Homem dos Lobos. Se Freud foi um procurador com Dora, foi um educador amistoso com Lanzer”.
Para a publicação desse primeiro tratamento exclusivamente psicanalítico, conduzido com uma mocinha virgem de 18 anos de idade, Freud tomou precauções inauditas. Na época, de fato, a cruzada que se travava contra o freudismo consistia em fazer com que a psicanálise passasse por uma doutrina pansexualista, que tinha por objetivo fazer os pacientes (sobretudo as mulheres) confessarem, por meio da sugestão, “sujeiras” sexuais inventadas pelos próprios psicanalistas. Na Grã-Bretanha e no Canadá, por exemplo, Ernest Jones suportaria o peso de acusações dessa ordem.
Logo em sua introdução, portanto, Freud resolveu responder de antemão a esse tipo de objeção, mostrando que sua teoria não era uma trama diabólica, destinada a perverter mocinhas e mulheres: “Pode-se falar de toda sorte de questões sexuais com moças e mulheres, sem lhes causar nenhum prejuízo e sem acarretar suspeitas sobre si mesmo, desde que, em primeiro lugar, se adote uma certa maneira de fazê-lo e, em segundo, se desperte nelas a convicção de que isso é inevitável. A melhor maneira de falar dessas coisas é sendo seco e direto; e ela é, ao mesmo tempo, a que mais se afasta da lascívia com que esses assuntos são tratados na ‘sociedade’, lascívia esta com que as moças e mulheres estão plenamente habituadas. Dou aos órgãos e aos fenômenos seus nomes técnicos e comunico esses nomes, na eventualidade de eles serem desconhecidos”. E acrescentou em francês: ”J’appele um chat um chat”.
A história de Ida Bauer é a de um drama burguês, tal como encontrado nas comédias ligeiras do fim do século XIX: um marido fraco e hipócrita engana sua mulher, uma dona de casa ignorante, com a esposa de um de seus amigos, conhecida numa temporada de férias em Merano. A princípio enciumado, depois indiferente, o marido enganado tenta, de início, seduzir a governanta de seus filhos. Depois, apaixona-se pela filha de seu rival e a corteja durante uma temporada em sua casa de campo, situada às margens do lago de Garda. Horrorizada, esta o rejeita, pespega-lhe uma bofetada e conta a cena a sua mãe, para que ela fale do assunto com seu pai. Este interroga o marido da amante, que nega categoricamente os fatos pelos quais é recriminado. Preocupado em proteger seu romance extraconjugal, o pai culpado faz com que a filha passe por mentirosa e a encaminha para tratamento com um médico que, alguns anos antes, prescrevera-lhe um excelente tratamento contra a sífilis.
A entrada de Freud em cena transforma essa história de família numa verdadeira tragédia do sexo, do amor e da doença. Sob esse aspecto, sua narrativa do caso Dora assemelha-se a um romance moderno: hesitamos entre Arthur Schnitzler, Marcel Proust (1871-1922) e Henrik Ibsen (1828-1906). Com efeito, o drama inteiro gira em torno da introspecção através da qual a heroína (Ida) mergulha, progressivamente, nas profundezas de uma subjetividade que se oculta de sua consciência. E a força da narrativa prende-se ao fato de que Freud faz surgir uma impressionante patologia por trás das aparências de uma grande normalidade. Com isso ele pode restituir a Dora uma verdade que sua família lhe roubara, ao chamá-la de simuladora.
Nascida em Viena, numa família da burguesia judaica abastada, Ida era a filha caçula de Phillip Bauer (1853-1913) e Katharina Gerber-Bauer (1862-1912). Acometido por uma afecção sifilítica antes do casamento, Phillip só enxergava de um olho desde que ela nascera. Freud o descreveu como um homem ativo e muito talentoso: “A personalidade dominante era o pai”, escreveu, “tanto por sua inteligência e suas qualidades de caráter quanto pelas circunstâncias de sua vida, que condicionaram a trama da história patológica e infantil de minha cliente”. Grande industrial, ele desfrutava de uma bela situação financeira e era admirado pela filha. Em 1888, contraiu tuberculose, o que o obrigou a se instalar com toda a família longe da cidade. Assim, optou por residir em Merano, no Tirol, onde travou conhecimento com Hans Zellenka (Sr. K), um negociante menos abastado que ele, casado com uma bela italiana, Giuseppina ou Peppina (Sra. K), que sofria de distúrbios histéricos e era uma assídua frequentadora de sanatórios. Peppina tornou-se amante de Phillip e cuidou dele em 1892, quando ele sofreu um deslocamento da retina.
Nessa época, havendo retornado a Viena, Phillip instalou-se na mesma rua que Freud e foi consultá-lo (como médico) por conta de um acesso de paralisia e confusão mental de origem sifilítica. Satisfeito com o tratamento, encaminhou-lhe sua irmã, Malvine Friedmann (1855-1899). Afetada por uma neurose grave e imersa na infelicidade de uma vida conjugal atormentada, ela morreu pouco depois, vítima de uma caquexia de evolução rápida.
Katharina, a mãe de Ida, provinha, como o marido, de uma família judia originária da Boêmia. Pouco instruída e bastante simplória, sofria de dores abdominais permanentes, que seriam herdadas pela filha. Nunca se interessara pelos filhos e, desde a doença do marido e da desunião que se seguira a ela, exibia todos os sinais de uma “psicose doméstica”: “Sem mostrar nenhuma compreensão pelas aspirações dos filhos, ela se ocupava o dia inteiro”, escreveu Freud, “em limpar e arrumar a casa, os móveis e os utensílios domésticos, a tal ponto que usá-los e usufruir deles tinha-se tornado quase impossível. Fazia anos que as relações entre mãe e filha eram pouco afetuosas. A filha não dava a menor atenção à mãe, fazia-lhe duras críticas e escapara por completo de sua influência”. E era uma governanta quem cuidava de Ida. Mulher moderna e “liberada”, esta lia livros sobre a vida sexual e dava informações sobre eles à sua aluna, em segredo. Abriu-lhe os olhos para o romance do pai com Peppina. Entretanto, depois de Tê-la amado e de lhe ter dado ouvidos, Dora se desentendera com ela.
Quanto ao irmão, Otto Bauer (1881-1938), ele pensava sobretudo em fugir das brigas familiares. Quando tinha que tomar algum partido, alinhava-se do lado da mãe: “Assim, a costumeira atração sexual havia aproximado pai e filha, de um lado, e mãe e filho, do outro”. Aos nove anos de idade, ele se tornara um menino prodígio, a ponto de escrever um drama em cinco atos sobre o fim de Napoleão. Depois, rebelara-se contra as opiniões políticas do pai, cujo adultério aprovava, por outro lado. Tal como o pai, Otto levou uma vida dupla, marcada pelo segredo e pela ambivalência. Casou-se com uma mulher dez anos mais velha, já mãe de três filhos, mantendo ao mesmo tempo um romance prolongado com Hilda Schiller-Marmorek, dez anos mais moça que ele, e que seria sua amante até sua morte. Secretário do Partido Social-Democrata de 1907 a 1914 e, depois, assessor de Viktor Adler no ministério de Assuntos Exteriores em 1918, viria a ser uma das grandes figuras da intelectualidade austríaca no entre-guerras. No entanto, apesar de seu talento excepcional, nunca se refez do desmoronamento do Império Austro-Húngaro e despendeu mais energia atacando Lenin do que combatendo Hitler: “Essa ingenuidade”, escreveu William Johnston, “ainda era uma herança do Império de antes da guerra, no qual a tradição protegia os dissidentes. Bauer insistiu, até 1934, em fazer cruzadas típicas do pré-guerra contra a Igreja e a aristocracia, num momento em que, justamente, deveria ter-se associado a seus inimigos de outrora para repelir o fascismo. Poucas cegueiras tiveram consequências tão pesadas”.
Portanto, foi em outubro de 1901 que Ida Bauer visitou Freud para dar início a esse tratamento, que duraria exatamente onze semanas. Afetada por diversos distúrbios nervosos – enxaquecas, tosse convulsiva, afonia, depressão, tendências suicidas -, ela acabara de sofrer uma terrível afronta.
Consciente, desde longa data, do “erro” paterno e da mentira em que se apoiava a vida familiar, ela havia rejeitado as propostas amorosas que Hans Zellenka (Sr. K) lhe fizera à margem do lago de Garda e o esbofeteara. E então tinha eclodido o drama: ela fora acusada por Hans e por seu pai de ter inventado a cena de sedução. Pior ainda, fora reprovada por Peppina Zellenka (Sra. K), que suspeitava que ela lesse livros pornográficos, em particular A fisiologia do amor, de Paolo Mantegazza (1831-1901), publicado em 1872 e traduzido para o alemão cinco anos depois. O autor era um sexólogo darwinista, profusamente citado por Richard von Krafft-Ebing e especializado na descrição “etnológica” das grandes práticas sexuais humanas: lesbianismo, onanismo, masturbação, inversão, felação, etc. Ao encaminhar sua filha a Freud, Phillip Bauer esperava que este lhe desse razão e que tratasse de pôr fim às fantasias sexuais da moça.
Longe de subscrever à vontade paterna, Freud enveredou por um caminho totalmente diverso. Em onze semanas e através de dois sonhos – um referente a um incêndio na residência da família e outro à morte do pai -, ele reconstituiu a verdade inconsciente desse drama. O primeiro sonho revelou que Dora era dada à masturbação e que, na realidade, estava enamorada de Hans Zellenka. Por isso havia pedido ao pai que a protegesse da tentação desse amor. Quanto ao segundo, ele permitiu ir ainda mais longe na investigação da “geografia sexual” de Dora e, em especial, trazer à luz seu perfeito conhecimento da vida sexual dos adultos.
Freud se deu conta de que a paciente não suportou a revelação de seu desejo pelo homem a quem havia esbofeteado. Por isso, deixou-a partir quando ela resolveu interromper o tratamento. Como agir de outro modo? O pai, de início favorável à análise, logo percebeu que Freud não havia aceitado a tese da fabulação. Por conseguinte, desinteressou-se do tratamento da filha. Por seu lado, esta não encontrara em Freud a sedução que esperava dele: ele não fora compassivo e não soubera empregar com ela uma relação transferencial positiva. Nessa época, com efeito, ele ainda não sabia manejar a transferência na análise. Do mesmo modo, como sublinharia em uma nota de 1923, foi incapaz de compreender a natureza da ligação homossexual que unia Ida (Dora) a Peppina. No entanto, fora a própria Sra. K que fizera a moça ler o livro proibido, para depois acusá-la. E fora também ela quem lhe havia falado de coisas sexuais.
Esse tema da homossexualidade inerente à histeria feminina seria longamente comentado por Jacques Lacan em 1951, enquanto outros autores fariam questão de demonstrar ora que Freud nada entendia de sexualidade feminina, ora que Dora era inanalisável.
Ida Bauer nunca se curou de seu horror aos homens. Mas seus sintomas se aplacaram. Após sua curta análise, ela pôde vingar-se da humilhação sofrida, fazendo a Sra. K confessar o romance com seu pai e levando o Sr. K a confessar a cena do lago. Transmitiu então a verdade ao pai e, depois disso, suspendeu qualquer relacionamento com o casal. Em 1903, casou-se com Ernst Adler, um compositor que trabalhava na fábrica de seu pai. Dois anos mais tarde, deu à luz um filho, que posteriormente faria carreira musical nos Estados Unidos.
Em 1923, sujeita a novos distúrbios – vertigens, zumbidos no ouvido, insônia, enxaquecas -, por acaso chamou à sua cabeceira Felix Deutsch. Contou-lhe toda a sua história, falou do egoísmo dos homens, de suas frustrações e de sua frigidez. Ouvindo suas queixas, Deutsch reconheceu o famoso caso Dora: “Desse momento em diante, ela esqueceu a doença e manifestou um imenso orgulho por ter sido objeto de um texto tão célebre na literatura psiquiátrica”. Então, discutiu as interpretações de seus dois sonhos feitas por Freud. Quando Deutsch tornou a vê-la, os ataques tinham passado.
Em 1955, havendo emigrado para os Estados Unidos, Deutsch teve notícia da morte de Dora, ocorrida dez anos antes. Através de Ernest Jones, ficou sabendo que ela havia morrido em Nova York, e, através de um colega, soube como se haviam desenrolado seus últimos anos de vida. Dora tinha voltado contra o próprio corpo a obsessão de sua mãe: “Sua constipação, vivida como uma impossibilidade de ‘limpar os intestinos’, causou-lhe problemas até o fim da vida. Entretanto, habituada a esses distúrbios, ela os tratou como um sintoma conhecido, até o momento em que eles se revelaram mais graves do que uma simples conversão. Sua morte – de um câncer de cólon, diagnosticado tarde demais para que uma operação pudesse ter êxito – veio como uma bênção para seus parentes. Ela fora, nas palavras de meu informante, uma das ‘histéricas mais repulsivas’ que ele já havia conhecido”.

OBS.: Este Artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

14 de julho de 2016

A BICICLETA, A INSUSTENTÁVEL AUSÊNCIA (Marcos InHauser Soriano)



O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer
(JACQUES LACAN)

Este artigo se dá sob o olhar particular do autor sobre Hélène, personagem de “Le Sang Des Autres”, escrito por Simone de Beauvoir em 1945.
Inquieta, trabalhando em uma loja de doces, a jovem Hélène é uma sonhadora, perdida em devaneios apaixonantes de viver um grande amor, de viver grandes aventuras que preencham certo espaço de sentido. Algo falta para uma Hélène completada, autobastante.
O namoro com Paul é morno demais. Ele não responde, metido que está em sua relação com ideias sindicalistas, à solicitação de Hélène, que deseja ser objeto único e absoluto a ocupar a mente do rapaz.
Às vezes surge outra Hélène. Uma outra, que questiona a nadificação do Mundo sem sua presença: o que seria do sentido do Mundo com sua morte, senão sentido algum? A morte extrai qualquer possibilidade de sentido. Mas essa outra Hélène é fugaz. Some à frente de um bom prato. Some a uma Hélène insaciável, devoradora de vida, bifes e batatas.

O que é isso que sentimos que falta?
Em alguns momentos, raros e fugazes é verdade, sentimos uma estranha ausência, um buraco, um nada, como se faltasse uma ponte de ligação que desse sentido à percepção, à realidade que vivemos, a nós mesmos como seres integrados em uma unidade identitária. Em alguns momentos sentimos isso, de uma angústia em busca de representação.
Não me parece aqui que falamos da “falta do falo”. Aqui nos aproximamos mais da teoria pulsional, considerando seu núcleo teórico1. As “angústias impensáveis”2 de Winnicott, bem como o “objeto a”3 de Lacan, seriam boas aproximações, mas ainda falta algo... Uma insustentável ausência.
Acredito que aqui, na tentativa de apreender isso de estranho, que nos localiza como em um universo paralelo da ficção científica - que, aliás, explora com perfeição esse sentimento de falta de ligação de sentido entre o Eu e a Realidade -, estamos no lugar teórico da passagem do biológico ao humano, fundante portanto. No início há a criatura biológica que, aos poucos, através das inúmeras formas de linguagem/transmissão da cultura em que surge, vai se transformando em esboço humano. Rompendo com o cerco biológico4, reconhece-se Eu, humano, detentor de uma linguagem complexa e abstrata a tender para o infinito de possibilidades representacionais. Momento instaurador que, no decorrer da sustentação e unificação da identidade à realidade – uma específica, duradoura e insistente elaboração secundária -, se perde para sempre como possibilidade simbólica, deixando um eco, isso de estranho, um rastro onde não há pistas a rastrear-se. Assim passa a ser no mundo.
Na interpretação deste autor, nesse ponto se dá a origem dos questionamentos de Hélène, representados pela falta de sentido inserida na ideia de Morte. Posto que tentamos buscar representações possíveis, estamos sempre a representar – este ato mental de eterno descompasso5.

A COMÉDIA
Ela olha, dissimula, torna a olhar. Hélène, pela fresta da cortina, fica a admirar a bicicleta azul-claro reluzente, esbelta, elegante, encostada na pedra escura da parede, na rua. Sente-se boba, mas a atração é irresistível. A pintaria de verde-escuro.
A bicicleta era da porteira do prédio em que ficava a confeitaria. Não havia sentido a porteira na bicicleta. Sentido havia em Hélène e a bicicleta, um ser unificado, rasgando o espaço livremente, preenchendo todos os vazios de Paris. Ela/bicicleta poderia ir aonde quisesse.
Debruçava-se à janela vinte vezes por dia flertando a bicicleta. A bicicleta deveria ser dela.
Não há de se procurar inveja em Hélène. Ela não invejava a porteira, dona da bicicleta. Apenas não encontrava encaixe, nenhum sentido. Hélène sentia sentido nas vísceras, ao imaginar-se fundida com a bicicleta. Mas não tinha como se apossar do objeto de guidão niquelado, brilhante, que a chamava para a liberdade das ruas de Paris, tão lisa, tão limpa, tão alegre.

A comédia se dá no desencontro da palavra com o sentido. É o tempo do condicional, das possibilidades paradoxais de ser sujeito, condensando uma história inteira em curto momento de perplexidade. Uma comédia de erros, o reconhecimento do absurdo em nós. Pensa-se mal, replica-se pior, em uma conversa em que o certo e o errado perdem o sentido de julgamento.
Hélène percebe a tolice em que se encontra mergulhada, mas a sensação do objeto fusionado ela/bicicleta é forte, ganha espaço ao dar/buscar sentido no buraco visceral de uma ausência indizível. Momento fugaz. Hélène retorna a seu cotidiano, à sua rotina. Atende um menino que quer guloseimas coloridas. Ela/bicicleta permanece como um eco que não mais encontra sua origem.

O DRAMA
Hélène conhece Jean através de Paul. Paul é um namorado muito morno, critica a absurda fixação na bicicleta. Nesse momento, como montado em um cavalo branco, Jean realiza a proeza para a mocinha – rouba o objeto tão desejado e o entrega para Hélène.
Que ser humano mais incrível. Jean vai se introduzindo no mundo de Hélène: misterioso, indiferente, provocador.
Em um jogo de sutis agressões, Jean, sem perceber, vai se aproximando de Hélène, capturado pela coisa viva que ela representa. Negando profundamente, Jean cede a uma relação nunca antes imaginada.
Hélène quer, como sempre quis, ser a única coisa importante no mundo de Jean. Subjulgado por si mesmo, envolto em culpas sombrias, acusando-se de ter a mancha do “sangue dos outros” em suas mãos, Jean resolve mentir: ele deve amar Hélène. Em sua mentira, não percebe a verdade de que ele a ama.
Hélène vive, então, uma vida de sonhos e guloseimas coloridas, passeando no parque de mãos dadas com aquele homem misterioso, indiferente, provocador.
Do viver encantado surge a dúvida e a certeza do engodo. Para Hélène, Jean não a ama suficientemente. Sob pressão, a relação se destrói para Jean. Para Hélène não. Para Hélène vira obsessão. Deita-se com outros, rebela-se, aborta-se e adoece para ferir o homem que tomou o lugar da bicicleta.
A bicicleta fora largada no meio da rua, logo nas primeiras pedaladas. Agora é Jean que supre a ausência e traz sentido de um romântico passeio pelo parque.
Sem Jean não há sentido, como não há sentido em ele não amá-la. O Jean dela, criado por ela, na fresta da mesma estranha ausência que, em momentos fugazes, a persegue.

O Drama é o tempo do cotidiano vivido dos homens, dos sentimentos delicados e vivências dolorosas. No drama da vida, a dúvida tangencia o sofrimento.
Faz-se, aqui, o resumo da novela de Hélène. Larga-se a bicicleta, agarra-se a Jean. Hélène, num repente, se vê mergulhada em uma cena de verdade, cena desejada, cena duvidosa, dolorosa. Uma cena de verdade não é um conto de fadas, nem termina com “happy end”. Uma cena de verdade é construída, compasso a compasso, à revelia dos personagens que a compõe. Ao desejo, deve-se dar tempo ao tempo – o insustentável da paciência. Não somos bons em ter paciência.

A TRAGÉDIA
Hélène e a bicicleta, um pouco enferrujada, deslizam pelo Bulevar Saint-Michel. Ela está de namorico com Herr Bergmann. Ela vai para Berlim. Os alemães invadiram Paris, o fascismo avança. Ela está à parte de tudo isso. Sonha com Berlim.
“Robert Jardiller, engenheiro de Lorient, condenado à morte por ato de sabotagem, foi fuzilado esta manhã” – o pequeno cartaz amarelo choca um pouco, mas ela vai animada encontrar o namorado alemão no restaurante. Ela está com fome. Nada disso tem importância... Nada. As pessoas viviam e sofriam, mais nada.
Hélène despertou na Praça de Contrescarpe – uma cena, um despertar outra. A visão de uma mãe judia sendo separada da filha pequenina caiu como chumbo na francesa. Enfim, o eco fantasmático voltou a ecoar: qual o sentido? Reconhecera-se, então, como uma menina mimada, a não fazer absolutamente nada. Voltaram as ideias do sindicato e do movimento da Resistência. Voltou a figura de Jean.
A existência enchera-se de sentido. Prestes a morrer, após uma missão fracassada da Resistência, com o pulmão perfurado à bala, Hélène encontra-se serena. Viveu sua aventura. Ficara, para sempre, marcada no pensamento de Jean.
A bicicleta desliza, livre, pelas ruas de Paris... Tranquila. Os olhos se fecham para sempre, a respiração cessa... Tranquila.
Hélène ficará para sempre em Jean: “Você me trouxe a coragem de suportar meus crimes e o remorso que sempre me há de torturar. Não há outro caminho”.

A Tragédia é o tempo em que a vida encontra o destino. Na Tragédia não há solução humana. A Tragédia é o roubo, o trauma, a que, costumeiramente, chama-se história. Uma história que se vai descobrindo no fundo do sentido buscado nos acontecimentos particulares – tragédia inescapável.
Hélène, ao buscar sentido em mundo sem sua presença, o encontra na morte. O passeio de bicicleta vai, sem a autonomia do sujeito, tecendo os fios do desejo de Hélène, qual seja, ser para sempre em Jean. É no mundo vivido de Jean que Hélène terá, enfim, sentido. Aqui, de forma sublime, Simone de Beauvoir nos mostra que Jean não importa... O que importa é a sobrevivência de Hélène e sua bicicleta, a apontar a liberdade do ser, perdida para sempre na brecha da passagem enigmática do biológico para o pulsional humano – o trauma, a matriz de estampagem do desenho do desejo, o diagnóstico do Homem.

Estranho momento esse. Remoto, distante, perdido no tempo. O momento no qual, de repente, nos sentimos alguém, um sujeito, passamos a ser gente. Na maioria das vezes, em quase sua totalidade na verdade, não pensamos nisso. Nossa rotina cotidiana torna essa reflexão desprovida de sentido racional. Raramente vem à mente a busca por esse sentido, o de que, em certo momento, nos tornamos gente.
Mas está em nós. Uma lacuna, essa que nos faz romper o cerco biológico e adentrar no mundo humano, na maioria das vezes sem escolher o lugar que ocuparemos – somos ocupados pelo destino, pelo Real.
Fica certa angústia, certo eco, qual fantasma a assombrar a periferia de nossas representações. De sobressalto somos tocados por essa ausência de sentido, seja cômica, dramática, ou tragicamente6.
Uma insustentável ausência: aquilo que fui sem nunca ter sido.

NOTAS
1. O conceito de pulsão (Trieb) é, dentro do corpo teórico da Psicanálise, de complexidade ímpar, aparecendo pela primeira vez em 1905, e sendo trabalhado até os dias atuais. Freud escreve em 1933 que a Teoria das pulsões deve ser considerada a Mitologia da Psicanálise. Para nossos fins, o que denomino de núcleo teórico é a base lógica de toda a estrutura do conceito, qual seja, a pulsão é uma carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico do humano, portanto, um impulso proveniente do biológico e do psíquico. A pulsão, delimitada em sua área conceitual - importante salientar a ideia de “área conceitual”-, coloca em movimento todo o aparelho mental.
2. As “angústias impensáveis”, ideia desenvolvida por Winnicott, nos remetem ao perigo extremo de o indivíduo “cair” fora da existência, de que a existência enquanto tal não se dê, ou se perca. Partindo da experiência da observação de mães segurando seus bebês, Winnicott situa um tipo original de angústia, localizada em um momento pré-verbal, pré-psíquico e pré-representacional, anterior ao início de qualquer capacidade relacionada a mecanismos mentais, e muito anterior ao reconhecimento de impulsos instintuais, momento anterior ao fazer parte de si-mesmo auto-significante. A queda do bebê dos braços da mãe, ainda um esboço do humano, em um cair e cair e cair, sem espacialidade, sem temporalidade.
3. O “objeto a”, termo introduzido por Lacan em 1960, designa o objeto desejado pelo sujeito, mas que se furta a ele, a ponto de ser “não representável”, ou de se tornar um “resto” não simbolizável, uma “falha-a-ser”. Em um aforismo deslumbrante, e importante para o presente artigo, Lacan, em 1965, resume: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”.
4. Fabio Herrmann denomina o simulacro biológico de “cerco das coisas”. Através do equívoco no diálogo afetivo/linguístico/corporal entre mãe e bebê, a pequena criatura biológica vai inserindo-se no campo humano, processo denominado por Herrmann como “familiarização”.
5. A representação, para Fabio Herrmann, é como o “abecedário” do aparelho mental, sempre em descompasso em um tentar representar a união do sujeito a seu mundo. O “Eu”, citado algumas vezes no presente artigo, é tido como função defensiva da representação, forçado núcleo identitário a promover uma falsa síntese de tantos possíveis de ser-em-si – forma exemplar do que denomino de “descompasso”.
6. Fabio Herrmann encontra analogia entre a Comédia, o Drama e a Tragédia, com os três tempos de uma análise: o tempo curto, o tempo médio, e o tempo longo, respectivamente. Os três tempos estão aqui representados na apresentação de Hélène em três formas possíveis, portanto, sobrepostas.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br

18 de junho de 2016

PSICANÁLISE E PLANOS DE SAÚDE: A QUE PREÇO? - A EXPANSÃO DA PSICANÁLISE A USUÁRIOS DOS PLANOS DE SAÚDE (Aline Augusta Silveira Dias & Maria Alzira Marçola)


Sob Orientação de Maria Alzira Marçola

Na atualidade, há uma demanda considerável de pacientes que buscam acompanhamento psicológico por intermédio dos convênios de saúde. A partir disto, visa-se com este artigo, articular os desafios da psicanálise em intervenções clínicas de pacientes conveniados aos planos de saúde e seus desdobramentos na prática clínica. Neste estudo objetiva-se compreender os impasses da criação de vínculo entre analista e paciente, e como o intermédio do convênio pode influenciar na transferência. Espera-se com este trabalho contribuir para que os analistas possam repensar sua prática clínica nos planos de saúde, e colaborar para que essa demanda crescente possa ser atendida pela psicanálise. Acredita-se que, mantendo o método psicanalítico, é possível haver análise, independente do setting, sendo a técnica manejada de acordo com o analista.


PSICANÁLISE E OS PLANOS DE SAÚDE
Na atualidade, há uma demanda considerável de pacientes que buscam acompanhamento psicológico por intermédio dos convênios de saúde. Para tanto, visa-se com este artigo articular os desafios da psicanálise em intervenções clínicas de pacientes conveniados aos planos de saúde e seus desdobramentos na prática clínica.
O atendimento por intermédio dos planos de saúde reflete um novo tempo, que deve ser entendido e englobado no saber-fazer da prática psicanalítica aos profissionais que se propõe a este trabalho. Tornou-se possível a entrada de psicólogos nos planos de saúde, de origem médica, passando a oferecer atendimento psicológico a pessoas que mal compreendiam a importância deste acompanhamento (Pires, 2014).
Em 2006 foi aprovada a resolução 211, da Agência Nacional de Saúde, tornando obrigatória a cobertura de atendimento psicológico por parte dos convênios de saúde. Com esta obrigatoriedade, aumenta-se a demanda clínica, fazendo-se necessário pensar a prática clínica psicológica, para além das regras do convênio. Desta forma, segundo Pires (2014), precisamos refletir, ampliar e validar saberes da prática clínica, aprofundando os conceitos fundamentais da Psicanálise.
Junto a esta possibilidade de ampliação do atendimento psicológico, há muitos aspectos para se pensar na prática clínica do analista. Uma delas, é que o convênio torna-se um elemento que entra no consultório impondo condições pré-estabelecidas a uma técnica que tem como única regra a associação livre, na qual o paciente deve dizer tudo o que lhe vier à cabeça (Raphael, 2004). Dentre esses elementos impostos estão a quantidade de sessões anuais liberadas pelo convênio, a exigência de diagnósticos clínicos de acordo com o CID 10 – Classificação Internacional de Doenças -, sua relação com o tempo de tratamento, e a falta de participação do paciente quanto ao pagamento das sessões.
As condições determinadas pelas instituições gerariam impasses na técnica psicanalítica?  Se de um lado o convênio demanda o cumprimento de normas, por outro lado a Psicanálise tem seus próprios princípios. Seria isto fazer psicanálise? (Raphael, 2004).
Poderia a psicanálise se adaptar às novas condições da contemporaneidade? Freud, em 1919, expressava a importância de estender a psicanálise para um número maior de pessoas:

Defrontar-nos-emos, então, com a tarefa de adaptar a nossa técnica às novas condições. Qualquer que seja a forma que essa psicoterapia para o povo possa assumir, quaisquer que sejam os elementos dos quais se componha, os seus ingredientes mais efetivos e mais importantes, continuaram a ser certamente, aqueles tomados à psicanálise estrita e não tendenciosa” (Freud, 1919, p. 211).

Para se pensar a técnica psicanalítica consideramos os princípios do bem-fazer de uma análise. E devemos trabalhar de maneira que a técnica adeque-se ao método da Psicanálise, e este deve sempre ser mantido. Dentre as questões pertinentes à técnica tem-se a associação livre de ideias e a atenção flutuante, que devem levar em conta o processo transferencial (Herrmann, 1989).
Segundo Herrmann (1999), o método em Psicanálise é a interpretação. Para interpretar há diretrizes, momentos propícios, formas de atenção do analista, ritmos e estilos para elaborar a interpretação, considerando a individualidade de cada paciente, em cada momento da análise.
    
É evidente que método (caminho) e técnica (encaminhar) não são a mesma coisa. Pode-se compreender, por exemplo, que um apego muito grande à moldura desvie o analista de seu trabalho com as emoções e/ou conflitos psíquicos, tornando a clínica esvaziada. Resumindo: ‘Processo: encarnação do método em fato clínico. Técnica: arte de bem conduzi-lo em conformidade ao método’” (Herrmann, 1989, p. 17).

Para tanto, entende-se que o método deve ser mantido, porém há uma flexibilização da técnica. Desta forma, tem-se o seguinte questionamento: pode a técnica psicanalítica ser manejada em pacientes atendidos por mediação dos convênios de saúde? As exigências dos planos de saúde permite manter-se o método psicanalítico nos atendimentos clínicos?
A prática profissional na clínica psicanalítica leva a pensar em vários questionamentos que serão tratados ao longo do trabalho. Destaca-se neste estudo a transferência no processo psicanalítico, a exigência de diagnósticos clínicos nas entrevistas iniciais de acordo com o CID 10 – Código Internacional de Doenças -, e sua relação com o tempo de análise, e o pagamento.
Este trabalho visa contribuir para que os analistas possam repensar sua prática clínica nos planos de saúde e colaborar para que essa demanda crescente de pessoas que buscam psicoterapia possa ser atendida pela Psicanálise.
Neste estudo objetiva-se compreender os impasses da criação de vínculo entre analista e paciente, e como o intermédio do convênio pode influenciar na transferência.
Tem-se, hipoteticamente, que se o método psicanalítico é mantido, é possível haver análise. A técnica pode ser manejada de acordo com o analista. Portanto, se a demanda institucional não interfere na técnica, é sim possível a parceria entre a Psicanálise e os convênios de saúde. Segundo Marçola (2006), a Psicanálise cabe em qualquer lugar ou tempo.
Este estudo tem como principais fontes de pesquisa Freud, Lacan e Herrmann, e autores que tenham o embasamento teórico destes.
Para a concretização do presente artigo, partiu-se de um levantamento bibliográfico sobre a clínica psicanalítica em extensão, associado com a vivência no consultório particular, buscando identificar os impasses vivenciados na clínica e o possível manejo destes no trabalho analítico.
Definido o objetivo do trabalho, passo a apresentação do conteúdo.

A CLÍNICA PSICANALÍTICA E A CONTEMPORANEIDADE
A vida contemporânea requisita outro olhar em relação às novas formas de organização social, e cada época pode ser pensada através das características de seu laço social. Na era industrial, tinha-se um ideal a se alcançar em uma organização, pois eram laços que se constituíam de forma vertical. Com a modernização, a globalização, os laços sociais se tornaram horizontais, e as pessoas não sabem mais chegar ou mesmo aonde ir (Garcez, 2009).
Com essa atual paisagem social, a Psicanálise vem respondendo de outro lugar, aplicada em diversos campos de atuação, trazendo essa nova modalidade de atendimento desafiadora para a Psicanálise, que é o atendimento via plano de saúde (Garcez, 2009).
Segundo Marçola (2006), pensar a psicanálise vinculada ao atendimento institucional, não se trata de adaptá-la ao contemporâneo, mas sim de ampliar seu campo de atuação, mantendo a regra fundamental.
Relativo a isto, Pires (2014) nos traz que “novos tempos exigem a construção de novos paradigmas capazes de tornar possível a construção e manutenção do vínculo terapêutico” (p. 37), o que nos remete ao estudo da transferência no processo terapêutico.

A TRANSFERÊNCIA NA PSICANÁLISE
Em se tratando dos atendimentos por intermédio dos planos de saúde, a transferência, condição de entrada do sujeito em análise, se dá, em grande parte, inicialmente ao convênio e não ao institucional do analista.
A transferência é o movimento do sujeito que apresenta ao analista algo da sua realidade através da fala. A interpretação é um recurso do analista(Figueiredo, 1997, p.125). Portanto, se pode haver um impasse na transferência, há um embaraço no manejo da clínica psicanalítica que precisa ser pensado. À vista disso, o atendimento por via do plano de saúde impossibilitaria o processo transferencial do paciente para com o analista? Esta foi a questão central que motivou o desenvolvimento deste trabalho. Assim, discorreremos mais sobre a transferência e por consequência também sobre o sujeito suposto saber direcionado ao analista, termo cunhado por Lacan.
Quando o paciente busca por uma análise dizendo querer desvincular-se de um sintoma, ele se coloca diante de um enigma que supõe um saber no analista (Raphael, 2004).
Figueiredo define o conceito de suposto saber:

O conceito de suposto saber é central para definir o estatuto da transferência. O analista, ao ser autorizado a escutar um sujeito, está suposto, não como aquele que sabe, mas como aquele que deve receber a fala do sujeito como produção de saber, para dar-lhe um destino pela via da interpretação. O sujeito, por sua vez, só fala porque supõe que isso irá levá-lo a algum lugar ainda não sabido. Seria uma espécie de prova de fé no inconsciente como promessa de significação.(Figueiredo, 1997, p.27)

Ao mesmo tempo em que o paciente supõe o saber do analista, ele também deve duvidar. Este suposto saber, no qual se acredita que o analista sabe, mas ao mesmo tempo o paciente duvida, permite o bom andamento do trabalho analítico. Contudo, é comum que a transferência nesta modalidade de atendimento, mesmo que direcionada ao analista, esteja relacionada ao que Lacan nomeia como discurso do mestre. Neste discurso, o paciente coloca o analista na posição de mestre, ou seja, daquele que detém o saber sobre o outro. Assim sendo, como manejar esta relação transferencial?
Segundo Forbes, o conceito lacaniano de discurso do mestre aponta para aquele que sabe sobre o outro, sendo “aquele que tem todo o saber” (Forbes, 1993, pag.17).

O discurso do mestre é o ponto de partida e após o encaminhamento para análise, esse discurso poderá versar para o discurso analítico e então o sujeito advir.” (Garcez, 2009, p.93)

Para tanto, há necessidade de um trabalho inicial diferente de quando um paciente nos procura a partir da indicação que buscou o atendimento terapêutico, que já tem formulada a sua questão a ser dirigida a aquele que supõe saber a resposta. No caso dos pacientes encaminhados pelos Planos de Saúde, a entrevista inicial é considerada por eles uma consulta única de solução de um problema levantado pelo médico. A transformação dessa demanda médica em demanda pessoal é apenas o primeiro passo de um longo trabalho de construção do lugar onde analista e analisando poderão, enfim se encontrar.” (Pires, 2014, p.130)

Portanto, o analista deve intervir para que essa transferência destinada inicialmente ao convênio, possa então transformar-se em outro vínculo, um vínculo transferencial ao analista.
O convênio constitui-se como um terceiro elemento na análise. Inicialmente o convênio sustenta a análise ao indivíduo e depois há possibilidade de convocar o sujeito ao trabalho, passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita (Garcez, 2009).

Este terceiro, o convênio médico, intervirá e determinará os caminhos da dupla, mas não poderá restringir suas possibilidades de escolha dentro do que acontece dentro da sessão, inclusive no reconhecimento do quanto esta dependência necessária do convênio médico pode estar a serviço do sintoma.” (Pires, 2014, p.62)

No parágrafo seguinte, as colocações de Raphael permitem refletir o que acontece quando o terceiro elemento perde a importância no trabalho de análise e então a transferência está destinada ao analista. 

Nesse processo, o analista ocupa o lugar do Outro, através do endereçamento da demanda do analisando quando se constitui a transferência. Por intermédio do seu discurso o analisando vai construindo sua história pela cadeia de significantes, buscando um sentido para seu enigma. De quando em quando um outro sentido se confere, fazendo surgir uma significação. É esse processo de novas significações que permitirá ao sujeito se inserir na sua história.” (Raphael, 2004, p.2)

Na citação anterior, o autor traz o termo lacaniano Outro, utilizando a primeira letra em maiúsculo. Quinet nos explica do que se trata o grande Outro:

O grande Outro, cujo discurso é o inconsciente, que se manifesta nos sonhos, lapsos, sintomas e chistes e que, por ser da ordem do simbólico, é tecido de linguagem e pode ser ‘encarnado’ no Outro do amor – inclusive o amor de transferência –, ao qual se dirigem as demandas e ao qual está articulado o desejo.” (Quinet, 2012, p.7)

Nessa modalidade clínica nos deparamos com outro tipo de demanda: a ausência dela. Muitos pacientes precisavam desse estímulo para chegar à clínica, ou estão curiosos; mas em outros momentos querem somente usufruir das sessões que o plano de saúde oferece, como uma forma de gozo. (Garcez, 2009).

Quando um paciente, principalmente indicado pelo Plano de Saúde, procura ajuda para suas questões psíquicas, ainda não sabe direito o que veio buscar. O trabalho de construir e ajudá-lo a formular uma pergunta direcionada ao analista é o primeiro a ser realizado por esta dupla. Levantar a demanda de análise não é tarefa fácil, mesmo quando não existem intermediários a este pedido.” (PIRES, 2014, p.91)

Ao analista cabe prestar-se ao lugar de objeto que lhe cabe no momento, ouvindo ao que cada paciente veio, apostando no que pode advir desse encontro. As portas se abrem para muitos que estavam sendo em casa supervisionados e apenas medicados pela clínica psiquiátrica, e uma gama de material clínico se oferece ao analista que aposta nessa clínica e se coloca a disposição de um saber-fazer com isso (Garcez, 2009).

E mesmo com os atravessamentos, deve-se analisar que os pacientes mantêm uma regularidade nas sessões. E o que os faz voltar? Esta é a frequência que nos interessa. Cabe ao analista se valer dela ao máximo para fazer valer a sua diferença de quem volta.” (Figueiredo, 1997, p.119)

A questão de ‘por que voltam?’, se soma à de ‘como voltam?’. Aí podemos ter indícios de como vai o trabalho de elaboração, e de até onde o sujeito pôde caminhar. Curiosamente, uma norma burocrática pode funcionar com um recurso importante no manejo da transferência.” (Figueiredo, 1997, p.120)
                                                  
A EXIGÊNCIA DE DIAGNÓSTICOS CLÍNICOS ATRAVÉS DO CID-10 E SUA RELAÇÃO COM O TEMPO DE TRATAMENTO
Por determinação da ANS, Agência Nacional de Saúde, os pacientes dos planos de saúde serão encaminhados para o acompanhamento psicológico somente mediante o encaminhamento do médico da instituição conveniada, e a compreensão do sintoma através da psicanálise se difere estrategicamente do modelo médico (Pires, 2014).  Sendo assim, o início do tratamento já é atravessado pelo olhar médico. Portanto, precisamos nos atentar para estarmos a serviço do paciente e não do médico.

Se nos alinharmos com esse pedido, nos colocaremos a serviço do médico, ou seja, como um complemento de sua atuação. Esta posição implicará diretamente na relação terapêutica, na qual o paciente não se apropriará de suas dores psíquicas e o analista não se apropriará de seu lugar através da aplicação de seus conhecimentos acerca do psiquismo.” (Pires, 2014, p.31)  

A instituição do convênio exige ao psicólogo que apresente o diagnóstico através do CID – Código Internacional de Doenças -, o qual se baseia em uma linguagem médica, enquanto que o analista realiza o diagnóstico transferencial/estrutural, se baseando nas estruturas psíquicas, assim como: a neurose, a psicose e a perversão.
Compreender o diagnóstico estrutural é essencial na condução do tratamento analítico. É a partir do diagnóstico, que se dá a condução do tratamento. Contudo, os convênios de saúde poderiam abrir espaço para que os analistas sirvam-se dos moldes estruturais psicanalíticos.

Os primeiros encontros sinalizam como o sujeito se relaciona com o outro, oferecendo material para a compreensão de como está estruturado, bem como do que desestabilizou ou vem desestabilizando o ponto de estar ali, encaminhando sua queixa a alguém desconhecido. Podemos dizer que temos três tarefas a realizar: ouvir e acolher o sujeito em seu sofrimento; detectar, em suas histórias, suas defesas; e detectar como se organizou até então e descobrir o que o desestabilizou.” (Pires, 2014, p.76)

Quando os planos de saúde delimitaram a cobertura mínima de doze sessões anuais, essa quantidade foi pensada como uma possibilidade de cura de uma doença que se encontra instalada no corpo para um cérebro que não está respondendo de uma maneira adequada. Portanto, esta quantidade de sessões não foi pensada a partir do tempo de tratamento da psicanálise (Pires, 2014).
A partir do diagnóstico clínico, é que podemos pensar no tempo de tratamento oferecido pelo plano de saúde. “A gravidade é determinada a partir dos modelos médicos, bem como o tratamento” (Pires, 2014, p.20). “No entanto, na clínica que atende a pacientes de convênios médicos, o diagnóstico é fundamentalmente instrumento administrativo e burocrático, que serve para a continuidade ou interrupção do tratamento” (Pires, 2014, p.75).
E em quanto tempo deve ser um processo de análise? Lacan se refere ao tempo do analisando de uma maneira subjetiva e no processo de associação livre, entre o dizer e o dito, o tempo é o tempo do inconsciente e não um tempo cronológico. De maneira que cada um tem seu próprio tempo de análise que é intrínseco ao seu processo analítico. Ao analista, cabe conduzir o tratamento a partir da fala do analisando, sem se limitar a um tempo que se mede cronologicamente (Raphael, 2004).
Relativo a isto encontramos que:

Ao considerar o inconsciente enquanto instância de registros temporais de outra ordem que não a cronológica, e que a conscientização do próprio desejo está vinculada a um tempo lógico, surge então a hipótese de que nem sempre precisamos de um longo tempo linear para realizar uma análise.” (Marçola, Romera & Paravidini, 2010, p.136)

As doze sessões liberadas inicialmente pelo convênio, podem ser uma possibilidade para que o sujeito se implique em seu tratamento, podendo vir a bancar a sua análise de outro lugar, buscando continuar com as consultas, mesmo que de forma particular.

Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de doze sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo-se a três meses de trabalho ou pode ser alternado com sessões particulares, ficando a critério e opção para o paciente, de modo com que ele tenha que administrar sua análise e as sessões a que tem direito.” (Garcez, 2009, p.92)

Abre-se, então, uma porta para a aplicação e extensão da psicanálise, e caberá ao analista e ao sujeito em análise a engancharem-se no processo (Garcez, 2009, p.92)
           
O PAGAMENTO
As sessões são pagas ao analista pela instituição do convênio de saúde, e na maioria das vezes o paciente não tem uma participação direta neste processo. 
O pagamento faz às vezes do objeto perdido, considerando que o analisando precisa pagar, para que então consiga sair do gozo do sintoma. O dinheiro serve para amoedar o capital da libido, uma questão que não pode faltar. O sujeito quando produz um sintoma, lucra com ele, e na análise, através da transferência de capital, há um corte na economia de gozo do sintoma (Raphael, 2004). Entende-se então que o dinheiro tem um significado particular no tratamento do analisando.

O dinheiro, assim como o sexo, passa da condição de necessidade, para a qualidade de demanda e desejo, a partir do momento em que o sujeito tem acesso a linguagem, ou seja, que passa a fazer parte do mundo simbólico, dando-lhes recursos próprios do mundo subjetivo. Assim, dinheiro e sexo nunca são apenas dinheiro e sexo, mas símbolos poderosos e singulares de cada sujeito.” (Pires, 2014, p.87)

Aí, podemos nos interrogar: Se é o outro (a instituição) que paga e não o próprio sujeito, o gozo no sintoma se mantém?” (Raphael, 2014, p.4). Por mais que as alterações se façam necessárias, o que possibilitará a parceria da psicanálise com os planos de saúde é a presença do analista (Raphael, 2004).

O pagamento deve ser caro ao sujeito, é preciso cobrar não-pouco para que esse preço lhe seja mais valioso que o seu sintoma. O sujeito deve pagar bem para que possa abrir mão do seu sintoma em nome da análise. Esse não pouco só pode ser escutado pelo analista na singularidade do discurso de cada analisando.” (Garcez, 2009, p.94)

Um manejo da passagem das sessões pagas pelo plano de saúde – que é caro ao sujeito – ao pagamento com dinheiro, moeda libidinal por excelência, é parte integrante do manejo da transferência, e possibilita que as questões que estejam enlaçadas a este significante sejam relançadas no processo da análise. E quando o sujeito consegue sustentar a análise, tem um tempo próprio e se liberta do tempo contabilizado pelas operadoras (Garcez, 2009).
Quanto ao dinheiro, pode-se pensar em sugerir às operadoras para que não tenham um preço pré-fixado. E por consequência, a transferência estaria mais direcionada a figura do analista (Raphael, 2004).
E além do dinheiro propriamente dito, há outras formas de se pagar pela análise, que também podem ser caras ao sujeito. Assim como cita Figueiredo:

Por outro lado, foram mencionadas formas indiretas de pagamento como um custo real para os pacientes que se engajam nos tratamentos: o tempo e o dinheiro que gastam até o serviço pelo menos uma vez por semana; diaristas que perdem no mínimo um turno de trabalho e remuneração, donas de casa que deixam seus lares e seus filhos entregues a sorte em boa parte do dia; jovens que perdem às vezes um dia inteiro de aula, gazetas a parte, e tem que se haver com as provas e demandas dos professores; trabalhadores em geral que sofrem pressões para não ausentarem regularmente dos empregos; desempregados que conseguem emprego e têm que arcar com uma escolha difícil de abandonar seus tratamentos ou negociar com os patrões, pais que têm de levar os filhos vencendo todos os tipos de obstáculos, e por aí vai. Haja investimento e inventividade! Estes são alguns exemplos que devem ser avaliados como pagamento ou avaliação na resistência. (Figueiredo, 1997, p.106)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um primeiro momento teve-se como objetivo compreender as possíveis “saídas” para os atravessamentos da clínica, o que tinha se tornado uma questão muito eminente e necessária no desenvolver da prática clínica mediada pelos convênios de saúde.
Com o tempo de experiência com a clínica por intermédio dos planos de saúde, foi possível perceber que os impasses na clínica vinham muito mais pela forma em que o analista se coloca na clínica e como se maneja a transferência. De forma que se o analista engaja-se no tratamento, os atravessamentos pouco interferem em sua prática.

Não se trata de defender a posição ingênua de ‘psicanálise para todos’, mas de apostar numa maior aplicação do dispositivo psicanalítico que permita seu exercício além dos consultórios privados com clientes estreitamente afeitos à cultura ‘psi’.(Figueiredo, 1997, p.15)

Nessa modalidade de atendimento, via plano de saúde, a psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico (Garcez, 2009, p.94). E podemos então, ampliar a Psicanálise para o atendimento da demanda contemporânea.
É possível trabalhar dentro dessa modalidade, desde que priorizemos o sujeito e as questões fundamentais para o seu tratamento, operando no dispositivo clínico e produzindo efeitos. O que não nos impede, enquanto analistas, de propor modificações aos convênios para que o credenciamento possa estar destinado à Psicanálise (Raphael, 2004).   
Através da prática clínica, é possível perceber que os atendimentos por via dos planos de saúde, não impossibilita que se produzam os efeitos esperados em uma análise. Estes efeitos são bem mencionados, por Marçola, Romera e Paravidini:

Espera-se que a vivência psicanalítica torne a pessoa menos alienada em relação às manifestações do inconsciente, propiciando que ela seja mais tolerante, consigo mesma e com o outro. A análise aproxima o homem do centro de sua constituição, tornando-o mais capaz de se responsabilizar por sua condição desejante, levando o sujeito a reconciliar-se com o absurdo de sua constituição, pois o mal-estar do homem é um mal-estar constituinte, e dele não nos curamos. A cura numa análise desengana o sujeito até onde ele suporta ser desenganado. O sujeito é desenganado para viver. A possibilidade de isso vir a acontecer fica condicionada ao manejo que o analista faz do método psicanalítico em seu ofício cotidiano, ficando na dependência de se tomar o discurso do paciente pelo seu valor de ruptura das configurações de auto-representações.” (Marçola, Romera & Paravidini, 2010, p.144)

Os tempos atuais demandam por novas formas de atendimento, assim, precisa-se encontrar para esta nova realidade social manejos para cada prática que surgir (Garcez, 2009).

O tornar público a que me refiro, no que diz respeito à psicanálise, é fazer circular, entre os pares de profissionais afins, o cotidiano da clínica com seus impasses e sucessos. É também produzir trabalhos, estudos de casos e pesquisas para redimensionar o alcance da teoria em relação à experiência clínica, que traz desafios de todos os tipos.” (Figueiredo, 1997, p.11)

Desta forma, entendemos que atender pelo convênio de saúde não impede o saber fazer psicanalítico na clínica. Se o método psicanalítico é mantido, é possível haver análise. A técnica pode ser manejada de acordo com o analista. Portanto, se a demanda institucional não interfere na técnica, é sim possível a parceria entre a psicanálise e os convênios de saúde.
    
O fato de haver análise não depende nem de sua duração, nem do lugar, nem do ritual, mas sim do tipo de operação que se efetua sobre o gozo, graças aos poderes da fala: para nós, o enquadre é feito para servir à análise, e não que a análise seja feita para servir ao enquadre.” (Guéguen, 2007, p.19, apud Garcez, 2009, p.93)
    
Espera-se que este artigo venha constituir-se uma possibilidade de novas discussões e novos olhares para com esta prática. Pode-se entender que a psicanálise, aberta aos planos de saúde, é a psicanálise ampliada ao sujeito contemporâneo que traz demandas pertinentes à sua época. É a clínica psicanalítica em sua extensão, que abre espaço para novas pesquisas sobre o saber-fazer psicanalítico neste contexto.


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ALINE AUGUSTA SILVEIRA DIAS é psicóloga.
Email: alinediaspsico@yahoo.com.br

MARIA ALZIRA MARÇOLA é psicóloga e docente.
Email: m_alzimarcola@yahoo.com.br