12 de dezembro de 2018

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ARMINDA ABERASTURY



ARMINDA ABERASTURY (1910-1972), psicanalista argentina, pioneira do movimento psicanalítico argentino, nasceu em Buenos Aires (24 de setembro de 1910), em uma família de comerciantes pelo lado paterno, e de intelectuais pelo lado materno. Seu tio, Maximiliano Aberastury, era um médico de renome e seu irmão, Frederico, estudou psiquiatria com o suíço Enrique Pichon-Rivière, cujos pais, de origem francesa, se radicaram na Argentina em 1911 fugindo do fascismo, e que se tornou o seu amigo mais próximo. Frederico sofria de psicose e teve, por várias vezes, surtos delirantes. Sofrendo de melancolia desde a juventude, sua irmã Arminda era uma mulher de grande e rara beleza, de cabelos muito negros, o que lhe valeu o apelido de La Negra. Através de Frederico, ficou conhecendo Pichon-Rivière, com quem se casou em 1937, tendo três filhos: Enrique, Joaquin e Marcelo. Como este, desejava oferecer à Psicanálise uma nova terra prometida, a fim de salvá-la do fascismo que assolava a Europa.
Enrique Pichon-Rivière foi um dos pioneiros da Psicanálise na Argentina e um dos fundadores da Asociación Psicoanalitica Argentina (APA), em 1942. Foi analisado por Garma e fez supervisão com Cárcamo e Melanie Klein.
Assim, Arminda Aberastury integrou-se ao grupo formado em Buenos Aires por Arnaldo Rascovsky, Angel Garma, Marie Langer e Celes Cárcamo. Cinco anos depois, fez sua formação didática com Garma e tornou-se uma das principais figuras da Asociación Psicoanalitica Argentina (APA). Na linha do ensino de Melanie Klein (de quem foi a primeira tradutora em língua espanhola) e inspirando-se nos métodos de Sophie Morgenstern, desenvolveu a Psicanálise de crianças. Entre 1948 e 1952, dirigiu, no quadro do Instituto de Psicanálise da APA, um seminário sobre esse tema. Conheceu Melanie Klein em 1952, em Londres, e manteve correspondência com ela durante anos. Ela traduziu a obra kleiniana “Psychoanalyse dês Kindes” (Psicanálise da Criança) para o castelhano e tornou-se porta voz de suas ideias. Em 1953, Arminda Aberastury tornou-se analista didata da APA, e durante vinte anos ensinou no Instituto e foi sua diretora, introduzindo o ensino da Psicanálise de criança na formação do candidato a analista. Formaria uma geração de analistas de crianças. Ela foi responsável pela disciplina de Psicologia da Criança e do Adolescente na Faculdade de Filosofia e de Letras da Universidade de Buenos Aires e divulgou a formação psicanalítica junto a pediatras, puericultores, educadores, médicos e odontólogos. No Congresso de 1957 da International Psychoanalytical Association (IPA), em Paris, apresentou uma comunicação notável sobre a sucessão dos “estádios” durante os primeiros anos de vida, definindo uma “fase genital primitiva” anterior, no desenvolvimento libidinal, à fase anal.
Aberastury acreditava que a identidade genital é percebida desde os primeiros momentos da vida e depende da relação existente entre os pais entre si e entre eles e o filho ou filha. E faz da explicação da paternidade um complemento da teoria kleiniana.
Ela escreveu que a libido genital se desenvolve antes do estágio anal, chamando esse período de “estágio genital primário”, situando-o entre o sexto e oitavo mês de vida. Para ela essa fase do desenvolvimento é complementada pelo recrudescimento da pulsão genital, o desmame, a dentição, o desenvolvimento da musculatura, a aquisição da marcha, a linguagem, a ruptura da simbiose mãe-filho(a), explicando o aparecimento de sintomas e disfunções apreciados através das atividades lúdicas.
Com a idade de 62 anos, atingida por uma doença de pele que a desfigurou, Arminda Aberastury decidiu dar fim aos seus dias. Seu suicídio, como vários outros na história da Psicanálise, suscitou relatos contraditórios e foi considerado uma “morte trágica” pela historiografia oficial.
Arminda Aberastury escreveu cento e quarenta e cinco escritos que foram publicados nos números três e quatro da Revista da APA do ano de 1973, além de publicações em outros países e no International Journal of Psychoanalysis.

OBS.: Este artigo segue a diretriz biográfica redigida por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

20 de outubro de 2018

BERGGASSE: MEDITAÇÕES CURTAS (Marcos InHauser Soriano)



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: “A Mais Curta Crônica”1.
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.
O “diário”, que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o “verdadeiro Freud”, o homem do cotidiano de seu tempo, em seu ambiente doméstico.

Datada de 26 de setembro de 1931 encontra-se a anotação: “Em Berggasse”.

1. Esta anotação, registrada com um traço vermelho na margem esquerda, marca o final das férias de verão de Freud. Uma mudança ambígua: de um alojamento espaçoso em Pötzleinsdorf para o apartamento relativamente pequeno na cidade.

O Método Psicanalítico não tira férias. Duvido muito que descanse. Logo que encontra um hospedeiro apto a tamanha desgraça – o psicanalista, esse personagem inventado por Freud -, toma-o por completo. Já tentei várias e várias e várias vezes curar-me dessa coisa, o Método Psicanalítico. Falhei várias e várias e várias vezes. Desisti, enfim.
Alguns momentos de sossego consigo, com certeza. Mas, de repente, vejo-me pego de sobressalto, desassossegado, no assombro de um espanto das peripécias do estranho, buscando romper o campo de sentidos possíveis para que o estranho se torne mais humanamente digerível. Somos estrangeiros sem férias. Um livro, um filme, uma conversa despretensiosa, qualquer coisa no cotidiano, e pronto, sentidos surgem e põem-se à mostra para o hospedeiro do Método Psicanalítico.
Um músico, um jogador de basquete, um engenheiro, possuem sorte maior: conseguem sair de férias.

Férias em casa não são férias. É interessante como essa ideia encontra-se incrustrada na maioria das pessoas ditas normais. Um conhecido meu levou isso tão à sério que não teve dúvida: catou a família e foi passar as férias na casa da mãe, a 15 minutos de seu apartamento.
Férias representa um descanso, um desligamento da rotina do cotidiano - este rotineiro desagradável -, um sair de casa de qualquer jeito em viagens turísticas que, normalmente, impõe uma rotina de passeios para o turista profissional – um esvaziamento do espírito de aventura. Aventureiros, em época de pacotes turísticos, são personagens raros. Há, inclusive, quem prefira a aventura de ficar em casa e desfrutar do sofá quase esquecido, por pouco ser desfrutado.
Férias em casa não são férias... Nem Freud escapou da ideia...

2. A casa de campo em Pötzleinsdorf proporcionara a Freud um bonito e agradável ambiente no verão. Os cachorros de estimação aproveitaram a temporada e a liberdade do jardim – “Não consigo mais imaginar o verão sem estes animais”. Segundo Freud, Jofi suportou encantadoramente a maioria das visitas humanas - Freud já não suportava tão bem assim...

Ambientes ou situações agradáveis parecem-me representações de importante ligação afetiva em extinção – uma extinção de afetividade. Multiplica-se a ideia do agradável como sendo o bonito. O bonito, que não necessariamente é agradável, vem tomando proporções esvaziadas, seja na era do “self” – fotografia do vazio -, seja na caricatura de um ambiente forjado para, bonito, passar por agradável, tal qual cenário de programa de auditório. O que mais me preocupa, quando penso sobre isto, é a fusão, em quantidade assustadora, de um “self-consultório” de rostos bonitos e sorridentes com um divã ao fundo. Uma boa pose gestual de sala de aula, congelada em fotografia de perfil de rede social, não necessariamente autoriza uma clínica consistente. Freud, em Pötzleinsdorf, é bom recordar, fugia da máquina fotográfica de Anna, refugiando-se, escondido, na espreguiçadeira do jardim de um agradável verão.

Certa vez ouvi de um cão o quão ofensivo era para o animal ser tratado como uma caricatura humana.

A gata de um amigo, em uma reunião onde se discutiu Psicanálise, suportou tranquilamente a presença dos seres humanos. Passeou sossegada entre as pessoas, que olhavam curiosas para ela. Eu estava mais arisco que a gata, mesmo estando entre pessoas queridas. Para a gata, me pareceu não haver problema algum com os ponteiros do relógio que me perseguiram nesse dia.

3. Em meio às tentativas de Kazanjian sobre a prótese, Freud conseguiu trabalhar: voltou a escrever, e atendeu quatro pacientes (Dorothy Burlingham, Marie Bonaparte, Irma Putnam, e Jeanne Lampl-de Groot). O trabalho para Freud era confortador e eficaz contra as várias decepções em relação à prótese no maxilar: “Parece que nada mais pode ser feito por mim”.

O trabalho e a escrita de um analista são mais do que importantes, o constituem. O trabalho, esta coisa solitária, é a gestação de um pensar diferente, criativo, vertical em direção à ruptura do aparente, uma busca daquilo que sustenta a cena, o roteiro antes de corrigido. A escrita, para além do exercício de estudar, que obviamente existe, é uma tentativa de, no atrito com o papel, reproduzir o ato psicanalítico, esse estranho desencontro, esse ato falho a dois, essa ficção de verdade, essa busca por legitimar o humano para fora de qualquer forma de caricatura. O trabalho e a escrita são mais que tramas de conceitos, os desconstroem para que brotem dos mesmos, sentido. Deveria ser assim em Psicanálise: uma literatura – o trabalho e a escrita - mais próxima da ficção e do romance do que um mero manual técnico-explicativo.

Acredito, às vezes, mas nem sempre, que a Generosidade é o caminho mais curto para a Decepção. Decepcionar-se com o outro é, no fundo, decepcionar-se com a própria cegueira.

4. O retorno para Berggasse quase coincidiu com a data em que completaria 40 anos da mudança para o famoso endereço em Viena. Freud oficialmente registrou-se como residente na Berggasse 19 em 23 de setembro de 1891. Em 12 de setembro de 1891, escrevia para sua cunhada: “Estamos agora vivendo na IX Berggasse 19, depois de muitos problemas”.

A casa, o lar, uma forte representação da ideia de familiar, não no sentido de família – que seria o lado avesso do que se tenta representar -, mas no sentido de aconchego íntimo, de limpar a maquiagem, retirar a máscara que cansa, desnudar-se sem medo nem vergonha. A casa seria onde imprime-se o rosto, o cheiro, o jeito de ser como se é. Entrar em casa e perceber a impressão do próprio rosto, arrumar a casa para si. Infelicidade a de quem arruma a casa sempre para o outro.

O analista, esse personagem da Psicanálise, habita o consultório, que não representa necessariamente um espaço físico. Mas falemos do espaço físico... Importante se faz a impressão, aqui considerada como impressão digital, do método psicanalítico no espaço do consultório. Que espelhe o rosto do analista, seu jeito de trabalhar. Que possa não ser nem muito esvaziado de coisas humanas, nem muito carregado o rosto de maquiagem gritante, das que saltam aos olhos e, às vezes, até assustam. Que aconcheguem o Homem Psicanalítico, mas ao ponto de preparar sua saída para o mundo, diferente de um útero engolidor e aprisionante. O bom gosto de cada um faz o resto.
Para além do espaço físico, obviamente, que o consultório do analista proporcione a cura, curando o homem das desavenças de seu desejo.

A criação e a manutenção de uma clínica psicanalítica consistente, de um pensamento psicanalítico consistente, não é tarefa das mais fáceis. Ao longo do tempo, inclui, dentre outras dificuldades, a perda e a morte dos sotaques e cacoetes de referências importantes, para que se faça surgir nosso próprio “jeitão” de ser analista.

5. Atualmente um museu dedicado ao mestre vienense, o endereço na Berggasse 19 marcou a Psicanálise, bem como o próprio Freud, de forma inestimável. Um lar onde Freud sentia-se confortável...

A Escrita tem seu ritual – próprio de cada um. Uma entidade independente a exigir espaço, tempo e jeito próprios. O perfeccionismo atrapalha a Escrita, tal qual patologia infernal. Deve-se suportar que a Escrita de agora, daqui há pouco, tornar-se-á outra, diferente. Escrever é entregar-se às ideias soltas que vão tomando forma, cada qual com seu “jeitão” de atritar-se com o papel.

Existem casas suntuosas, feitas de mármore gelado, tal qual mausoléus de ideias mortas.
Existem casas enfeitadas, cheias de rococós, que encerram em si mesmas caricaturas de repetição sem sentido.
Existem casas simples, aconchegantes na medida certa, que despertam o desejo de voltar para uma visita, um bom café, uma boa conversa.
Escrever é convidar para a intimidade do lar da alma.

NOTAS
1. A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.


10 de outubro de 2018

ENCONTRO "LER & ESCREVER" / SARAU TEATRAL



Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 10/nov/2018, sábado, das 14h às 18h, o VIII Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “SENTIMENTO: ESTRANHO DESCONFORTO”.
Neste Encontro teremos, como ponto de partida da discussão, a leitura da peça teatral “Deus travou o motor do seu refrigerador, madame!”

DEUS TRAVOU O MOTOR DO SEU REFRIGERADOR, MADAME!

Autor - Waldemir Marques
Atores - Felipe Azeredo e Carmo Murano

SINOPSE
Em um pequeno apartamento no centro de uma grande cidade, uma mulher de meia idade guarda e armazena seus sentimentos e/ou vida em frascos refrigerados.
Em um momento de grande crise, daqueles em que tudo dá errado, ela descobre que seu refrigerador parou de funcionar.
O que fazer?
Chamar um “consertador” de geladeiras, simples!
Nem tanto... O “Seu” Japonês acaba não dando conta dos defeitos...
Estes conflitos e situações, tratados com poesia e humor, são resolvidos (será que serão?!) em cinquenta minutos de espetáculo.
A proposta da montagem é oferecer, numa ambientação contemporânea, sob um prisma tragicômico e a partir de um “casual” acontecimento medíocre, uma compreensão mais próxima ao sentido original do conhecido Mito de Pandora.
Ao abrir o jarro, caindo numa armadilha de Zeus, Pandora não soltou no mundo venturas ou desgraças, mas lançou sobre os homens a “maldição” de terem de viver com a consciência de seus sentimentos, bons e ruins, suas consequências e delas tirar algum resultado; em resumo: o ser humano tem de viver com a consciência de suas escolhas de vida e seguir em frente da melhor forma que puder, independente de influências, bênçãos, ou maldições sobrenaturais.
Sentimentos não devem ser reprimidos ou mascarados em ilusões, pois quando há essa tentativa, o que o ser humano vivencia é um arremedo de vida com o qual, em algum momento, por qualquer “acidente”, será obrigado a conscientizar-se, talvez tarde demais, com resultados amargos.
Para conseguir encarar o desconforto dessa consciência e continuar vivendo, buscando uma condição melhor, cada ser humano deve guardar dentro de si apenas um sentimento único, intransferível: a Esperança - se ele a perder, não há mais razão para viver.
Dora, e a trama aos poucos revelará isso, é uma mulher que expressa plenamente essa espécie de banalidade existencial, egoísta e ilusória, que numa noite, ao voltar do trabalho, defronta-se com uma situação, a princípio incômoda a qualquer um, sua geladeira parou de funcionar. Sua reação, no entanto, é de absoluto pavor e desespero.
Essa resposta aparentemente exagerada, ou meramente histérica, começa a ser desvendada com sua interação com o técnico que contata para providenciar o conserto.
Esse homem de “sabedoria” primária, Seu Japonês, faz o contraponto cômico à tragédia de Dora, que vai sendo desvendada; porém o efeito de “grilo falante” acaba sendo desastroso, pois ele é tão falso e ilusoriamente “racional” quanto as “certezas” existenciais de Dora.
Depois que, mesmo a contragosto, encara seus sentimentos “congelados”, quando o desespero a leva a revisitar todas suas vivências passadas, reais ou contaminadas por nostálgicas idealizações em referências midiáticas, Dora percebe que só o que lhe resta é a sua “verdade verdadeira”, e que só a Esperança pode agora (será que ainda há tempo?), ajudá-la a ter coragem de encarar e enfrentar sua “realidade real”.

O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, no Estúdio i9, Rua Apeninos, 689 - Paraíso.
As inscrições são restritas a um número de 30 (trinta) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 09/nov. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,


CORPO EDITORIAL