12 de dezembro de 2014

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ERNEST JONES


ERNEST JONES (1879-1958), psiquiatra e psicanalista inglês, fundador da Psicanálise na Grã-Bretanha, criador do Comitê Secreto, artífice do debate sobre a Antropologia, organizador e presidente da International Psychoanalytical Association (IPA) durante dois períodos cruciais (1920-1924 e 1934-1949), excelente negociador durante as Grandes Controvérsias, pioneiro da historiografia psicanalítica e da tradução inglesa da obra freudiana (por James Strachey), teve um papel considerável na história política do freudismo. Durante muitos anos, foi o líder incontestável do movimento, e, se porventura se comprometeu com o nazismo, acreditando assim “salvar” a Psicanálise na Alemanha, também ajudou os emigrantes alemães, austríacos e húngaros a encontrar acolhimento nos países anglófonos, Estados Unidos e Inglaterra. Sigmund Freud não gostava dele, mas ao longo dos anos, embora desaprovando muitas vezes as suas iniciativas, confiou nele para administrar os assuntos políticos do movimento, especialmente depois da partida de Max Eitingon para a Palestina.
A despeito de sua personalidade difícil, de sua linguagem crua, das complicações de sua vida amorosa, que lhe valeram a hostilidade das ligas puritanas, e da maneira direta com que falava do erotismo ou dos defeitos do corpo, Jones era um homem insinuante e principalmente um trabalhador infatigável, preocupado em dominar todos os campos do saber. Tinha paixão pela “causa analítica” e queria defendê-la à sua maneira, se necessário contra o próprio Freud, o que explica seu apoio às inovações kleinianas e sua ambivalência em relação à análise leiga.
Conservador, pragmático e racionalista, mostrou-se injusto para com Otto Rank e Wilhelm Reich, intratável com a “esquerda freudiana” (na Rússia, por exemplo) e com os homossexuais, e bastante invejoso de seu analista, Sandor Ferenczi, clínico bem melhor que ele e discípulo preferido de Freud. Entretanto, conseguiu que a Psicanálise européia sobrevivesse diante do poder crescente dos Estados Unidos.
Nascido em Gowertown, no País de Gales, Alfred Ernest Jones era filho de um engenheiro de minas, que começara sua carreira como funcionário de escritório de um negociante de carvão. Autoritário e incapaz de admitir que podia errar, acreditava na superioridade dos adultos sobe as crianças. Não admitia nenhuma insubordinação. Sua mulher era conservadora, piedosa e fortemente ligada à cultura galesa: “Nasci em 1º de janeiro de 1879, escreveu Jones, em uma aldeia chamada Rhosfelyn. Fui o primeiro e único filho. A grande estrada de ferro do Oeste rebatizou a aldeia como Gower Road, nome que meu pai conseguiu mudar depois para o híbrido Gowertown”.
Desde muito cedo, o pequeno Jones conheceu perfeitamente todas as práticas sexuais, não hesitando em falar francamente: “A prática do coito já me era familiar aos seis ou sete anos de idade, escreveu em sua biografia; depois, eu a interrompi e só a retomei depois dos 24 anos; esse era um hábito bastante comum entre as crianças da aldeia”.
Depois de estudar na Universidade de Cardiff, orientou-se para a Medicina, foi aluno de John Hughlings Jackson e instalou-se em Londres. Graças a seu futuro cunhado, Wilfred Ballen Lewis Trotter (1872-1939), cirurgião honorário do rei Jorge V, erudito ilustre e apaixonado por filosofia, interessou-se pelos textos de Freud e começou a aprender alemão para ler a “Interpretação dos Sonhos”.
Em 1903, entrou para o North Eastern Hospital, do qual seria demitido seis meses depois por insubordinação. Rotulado como “indivíduo problemático”, teve posteriormente muita dificuldade para se integrar a outros serviços hospitalares. Interessado pela hipnose, a Neurologia e as doenças mentais, começou a praticar espontaneamente a psicanálise em 1906. No ano seguinte, foi a Amsterdã para o primeiro Congresso de Neurologia, Psiquiatria e assistência aos alienados, e ficou conhecendo Carl Gustav Jung, que o convidou a trabalhar na clínica do Hospital Burghölzli, dirigida por Eugen Bleuler. Em 1908, encontrou-se com Freud pela primeira vez, no Congresso da IPA em Salzburgo.
Sua nova orientação e a rudeza com que evocava os problemas da sexualidade na Inglaterra, ainda muito vitoriana, lhe valeram novos problemas. Denunciado publicamente pelo irmão de uma de suas pacientes, desejosa de divorciar-se depois de uma análise, Jones foi depois acusado de ter falado de maneira indecente com duas crianças pequenas, que estava submetendo a um teste. Registrou-se queixa contra ele, que passou uma noite na prisão, antes de ser absolvido de qualquer suspeita pela justiça e pela imprensa.
Não obstante, decidiu deixar a Grã-Bretanha e radicar-se no Canadá, com sua jovem companheira Loe Kann, que ele fazia passar por sua esposa. Foi o início de uma longa correspondência com Freud: 671 cartas no total. Como observou Ernst Falzeder, faltam, nessa correspondência “a intimidade, a amplitude, o dinamismo e o caráter trágico que caracterizam outras correspondências de Freud. O estilo inimitável de Freud sofre com isso”. Na verdade, tem-se a impressão de que o tom de Freud é de um “homem de negócios”. De qualquer forma, se Freud via em Jones o aliado indispensável, este se apresentava a ele como o Thomas Henry Huxley (1825-1895) de Charles Darwin, isto é, como o primeiro discípulo da doutrina freudiana em solo inglês.
Depois de passar cinco anos em Toronto e ser mais uma vez alvo de acusações “sexuais”, Jones voltou a Londres em julho de 1912 tendo criado a American Psychoanalytic Association (APsaA) e feito um importante trabalho de implantação das ideias freudianas no Canadá e nos Estados Unidos. Em junho de 1913, a conselho de Freud, passou dois meses em Budapeste, para fazer uma análise didática com Ferenczi. Foi então que se formou um daqueles imbróglios transferenciais característicos dos primeiros anos da prática psicanalítica.
A pedido de Jones, Freud aceitou analisar Loe Kann. Sofrendo de cálculos renais que a obrigavam a sucessivas operações, a jovem tinha adquirido o hábito de tomar morfina. Assim, tornou-se toxicômana. Aliás, suas relações com Jones haviam se degradado, principalmente quando este começou uma relação com uma de suas amigas, Lina. Ao longo das sessões, Freud se apegou a Loe Kann. Quando Jones começou o seu tratamento com Ferenczi, ignorava que a sua companheira estava prestes a deixá-lo para se casar com um americano chamado Herbert Jones (apelidado Jones II), e também que Freud informava Ferenczi de tudo o que ocorria durante as sessões de Loe.
A partir do mês de junho, Ferenczi, por sua vez, descreveu a Freud o desenrolar do tratamento de Jones: “Jones é muito agradável como amigo e colega. Na análise, seu excesso de bondade constitui um obstáculo; seus sonhos se resumem a ironizar-me e ridicularizar-me, o que ele tem que admitir sem que consiga acreditar realmente nessas particularidades de seu caráter, ocultas nele. Parece também temer que eu lhe conte tudo o que fico sabendo na análise. Assim, peço-lhe que nunca mencione nossa correspondência diante da Sra. Jones. Ele não se permite nenhuma dependência, o que é compensado depois por uma tendência para as intrigas, para os triunfos secretos e para a perfídia. Creio que as semanas passadas lhe serão proveitosas. Já o acho um pouco menos modesto, isto é, mais fraco com os outros e consigo mesmo”. Freud lhe respondeu, em 9 de julho: “O que você escreveu sobre Jones me alegra muito. Agora, sinto-me menos culpado quanto ao resultado do processo com sua mulher, a partir do momento em que a vejo expandir-se na liberdade. Apeguei-me extraordinariamente a Loe e junto dela desenvolvi um sentimento muito caloroso, completamente inibido sexualmente, como raramente aconteceu antes (provavelmente graças à idade)”. Loe se tornaria amiga de Anna Freud.
Em junho de 1914, sem dizer a Jones, Freud assistiu em Budapeste ao casamento de Loe com Herbert Jones. Um mês depois, Anna Freud, com 18 anos, fez uma viagem a Londres. Ernest Jones a acolheu e a levou para visitar os melhores lugares da cidade, não hesitando em cortejá-la. Prevenido por Loe, a quem Ana contava tudo, Freud interveio duramente, para impedir a filha de ceder à sedução de seu novo discípulo: “Sei de fonte segura (isto é, através de Loe), escreveu ele, que o doutor Jones tem a séria intenção de te fazer a corte. È a primeira vez que isso te acontece e não tenho nenhuma intenção de te dar a liberdade de escolha de que gozaram tuas irmãs”. E acrescentou que Jones não seria um bom marido para ela.
Quarenta e nove anos depois, em uma carta de 3 de julho de 1953, Jones declararia a Anna: “Ele (Freud) parece ter esquecido a existência da pulsão sexual, pois eu a achei e ainda a acho muito atraente. É verdade, eu queria substituir Loe, mas não tinha nenhum ressentimento para com ela, sua partida foi para mim um alívio. De qualquer forma sempre amei você, e de uma maneira bastante honrosa”.
Em julho de 1912, marcado pela secessão de Adler, de Stekel e de Jung, Jones encontra Ferenczi em Viena para falar sobre a situação. Ele propôs a criação de um pequeno grupo composto de discípulos mais próximos de Freud, a fim de defender a causa analítica. Ferenczi acatou a ideia, Freud apoiou-os, e Jones fundou o Comitê Secreto, formado por Sandor Ferenczi, Otto Rank, Karl Abraham, Hanns Sachs e, naturalmente, Jones e Freud.
Em 1916, Jones casou-se com Morfydd Owen (1891-1918), uma jovem artista, professora na Royal Academy of Music. Destinava-se à carreira de pianista e compositora, mas morreu bruscamente, dois anos depois, de uma crise de apendicite.
Foi em 1919, aos 40 anos de idade, que Jones conseguiu formar uma família, casando-se com Katherine Jolk, uma vienense de origem tcheca, que Hanns Sachs lhe apresentou e com quem teria quatro filhos: Gwenith, morta de pneumonia com a idade de oito anos, Mervyn, Nesta e Lewis. Katherine Jones, Gwenith e Mervyn foram analisados por Melanie Klein em 1926.
A partir de 1913, a vida de Jones se misturou estreitamente à história do movimento psicanalítico inglês e internacional. Durante a Primeira Guerra Mundial, prosseguiu suas atividades, mas por causa da publicação de diversos artigos no “Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen”, foi acusado pelo “Times” de colaboração com o inimigo. Todavia, depois de um inquérito feito pela Scotland Yard, foi oficialmente autorizado a receber, através da Suíça, periódicos em língua alemã. Assim, conseguiu manter contato com os psicanalistas dos países beligerantes. Em 1919, fundou a British Psychoanalytical Society (BPS). Como presidente, reuniu meios para criar e manter uma clínica psicanalítica com custo subsidiado, em Londres. Além disso, criou o Instituto de Psicanálise, instituição que provia facilitações de administração, publicação e treinamento para atender às necessidades da crescente rede de profissionais da Inglaterra. No ano seguinte, criou o “International Journal of Psycho-Analysis (IJP)” e, em 1922, no Congresso da IPA em Berlim, lançou o grande debate sobre a sexualidade feminina, que durante muito tempo dividiria a escola inglesa e a escola vienense. Enfim, em 1926, ajudou Melanie Klein a instalar-se definitivamente em Londres. Deu assim uma sólida base à BPS e à Psicanálise de Crianças na Grã-Bretanha. Com isso, irritou profundamente Freud e sua filha.
Confrontado com a questão da análise leiga, em especial com Abraham Arden Brill, que barrava o acesso dos não-médicos à New York Psychoanalytic Society (NYPS), Jones tentou uma conciliação no Congresso da IPA em Oxford, em 1929. Brill cedeu e aceitou a filiação dos não-médicos, mas no Congresso de Wiesbaden, em 1932, o assunto ressurgiu. Uma nova regulamentação foi então adotada, estipulando que os critérios de seleção dos candidatos dependeriam, a partir de então, das Sociedades locais, que se tornavam mais autônomas.
Em dezembro de 1935, Jones aceitou presidir a sessão da Deutsche Psychoanalytische Gesellachaft (DPG) durante a qual os membros judeus foram obrigados a se demitir. Adepto da tese do “salvamento”, apoiava assim a política de Felix Boehm e de Carl Müller-Braunschweig, que resultaria na integração dos freudianos ao Deutsche Institut für Psychologische Forschung, fundado por Matthias Heinrich Göring.
Em 1949, depois de atravessar a turbulência das Grandes Controvérsias e de participar da reintegração na IPA dos antigos terapeutas alemães colaboracionistas, Jones se aposentou. Apesar de uma trombose coronariana, começou a redigir a primeira grande biografia, em três volumes, dedicada à vida e à obra de Freud. Além de todos os livros publicados, conseguiu localizar e ler cerca de 5.000 cartas manuscritas da correspondência de Freud, dando assim sua contribuição a Kurt Eissler, que estava coletando os arquivos e realizando entrevistas com os grandes discípulos da primeira hora. Esse trabalho gigantesco, redigido em sete anos e baseado em uma impressionante quantidade de documentos, faria de Jones o fundador da historiografia freudiana. Traduzida no mundo inteiro, essa obra serviria de ponto de partida para todos os trabalhos posteriores da historiografia erudita. Antes mesmo de concluir o terceiro volume, Jones teve que se submeter com urgência à exerese de um tumor vesical. Em 1957, mesmo tendo tido um segundo ataque coronariano, nada deixava transparecer de seu estado e foi ao Congresso da IPA em Paris.
Jones elaborou os conceitos de “racionalização”, adotado por Freud como um dos mecanismos de defesa, e de “afânise”, que apontava em ambos os sexos, um receio mais fundamental do que o medo de castração.
Afora suas múltiplas atividades em prol da Psicanálise, Jones foi também um célebre jogador de xadrez e campeão de patinagem artística.
Morreu em 11 de fevereiro de 1958, com a mesma coragem do herói do livro que acabava de escrever. Suas cinzas repousam no crematório de Golders Green, próximas às de Freud.

OBS.: Este Artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

18 de setembro de 2014

IV ENCONTRO "LER & ESCREVER"


Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 11/out/2014, das 15h às 18h, o IV Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “DEUTUNG: O ESFORÇO RUMO À FICÇÃO”.

A análise não é muitas vezes um ensinamento, e talvez não o seja jamais. É, de preferência, uma experiência que modificará o sujeito que passa por ela. Quanto ao papel do pensamento teórico – ou do saber metapsicológico -, não é fácil precisá-lo. Disto não é questão na análise, mas, o que não impede que o analisando empreste ao analista um saber deste gênero e que ele espere (em vão, bem entendido) da boca do analista a palavra de sua verdade (aquela do paciente, é claro). Ora, esta palavra não tem provavelmente existência alguma.” (Octave Mannoni)
O analista recebe o paciente em espaços que vão se delineando progressivamente.” (Suzete Capobianco)

Através de recortes do Artigo de Octave Mannoni – “O Divã de Procusto” -, e do Artigo de Suzete Capobianco – “Apagar-se” -, que serão apresentados, deixamos a questão a ser discutida: Por falar no esforço do analista - não há nesses espaços que vão se delineando uma necessidade de nos apagarmos de nossas teorias e de nossos analistas/supervisores para adentrar-nos no território ficcional - palco de nossos pacientes?
   
O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Cardeal Arcoverde, 833 (cj. 1).
As inscrições são restritas a um número de 30 (trinta) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 10/out. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,


CORPO EDITORIAL

8 de agosto de 2014

VERBETES: AB-REAÇÃO


AB-REAÇÃO, termo introduzido por Sigmund Freud e Josef Breuer em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos.
O termo “ab-reação” aparece pela primeira vez na “Comunicação Preliminar” de Josef Breuer e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do mecanismo psíquico atuante nos fenômenos histéricos.
Nesse texto pioneiro, os autores anunciam desde logo o sentido de seu procedimento: conseguir, tomando como ponto de partida as formas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a princípio e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno histérico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de “resistências”, e que somente o recurso à hipnose permite superar.
Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao acontecimento é evacuado, por menos que essa reação seja suficientemente intensa. Nos casos em que a reação não ocorre ou não é forte o bastante, o afeto permanece ligado à lembrança do acontecimento traumático, e é essa lembrança – e não o evento em si – que é o agente dos distúrbios histéricos. Breuer e Freud são muito precisos a esse respeito: “... é sobretudo de reminiscências que sofre o histérico”. Encontramos a mesma precisão no que concerne à adequação da reação do sujeito: quer ela seja imediata, voluntária ou não, quer seja adiada e provocada no âmbito de uma psicoterapia, sob a forma de rememorações e associações, ela tem que manter uma relação de intensidade ou proporção com o acontecimento incitador para surtir um efeito catártico, isto é, liberador. É o caso da vingança como resposta a uma ofensa, a qual, não sendo proporcional ou ajustada à ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada por esta.
Desde essa época, Breuer e Freud sublinham como é importante que o ato possa ser substituído pela linguagem, “graças à qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”. Eles acrescentam que, em alguns casos de queixa ou confissão, somente as palavras constituem “o reflexo adequado”.
Se o termo “ab-reação” permanece ligado ao trabalho com Breuer e à utilização do método catártico, nem por isso a instauração do método psicanalítico e o emprego, em 1896, do termo “psico-análise” significam o desaparecimento do termo “ab-reação”, e isso por duas razões, como deixam claro os autores do “Vocabulário da Psicanálise”: uma razão factual, de um lado, na medida em que, seja qual for o método, a análise continua sendo, sobretudo para alguns pacientes, um lugar de fortes reações emocionais; e uma teórica, de outro, uma vez que a conceituação da análise recorre à rememoração e à repetição, formas paralelas de “ab-reação”.
Por que Breuer e Freud empregaram essa palavra, que este último não renegaria ao evocar o método catártico em sua autobiografia?
Como neologismo, o termo “ab-reação” compõe-se do prefixo alemão “ab-” e da palavra “reação”, constituída, por sua vez, do prefixo “re-” e da palavra “ação”. A primeira razão dessa duplicação parece ser o cuidado dos autores de repelir o caráter excessivamente genérico da palavra “reação”. Além disso, porém, a palavra remete ao procedimento da fisiologia do século XIX, em cujo seio ela funciona como sinônima de “reflexo”, termo pelo qual se designa o elemento de uma relação que tem a forma de um arco linear – o arco reflexo – que relaciona, termo a termo, um estímulo pontual e uma resposta muscular. Essa referência constituía para Freud, nos anos de 1892-1895, uma espécie de garantia de cientificidade, consoante com sua esperança de inscrever a abordagem dos fenômenos histéricos numa continuidade com a fisiologia dos mecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean Starobinski em 1994, a referência ao modelo do arco reflexo sobreviveria à utilização dessa palavra, já que Freud se refere explicitamente a ela em seu texto sobre o destino das pulsões, onde distingue as excitações externas, que provocam respostas no estilo arco reflexo, das excitações internas, cujos efeitos são da ordem de uma reação.
Mais tarde, Freud utilizaria o termo “reação” num sentido radicalmente diferente: em vez de designar uma descarga liberadora, ele seria empregado para evocar um processo de bloqueio ou contenção, a “formação reativa”.

OBS.: Verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.