6 de junho de 2014

SIMPLICISSIMUS ABSURDUM (Marcos InHauser Soriano)


O interesse extremo que ainda hoje desperta a Psicanálise vem em grande parte do fato de ser esta a mais forte candidata à posição de teoria científica da alma, estrategicamente colocada como está entre Filosofia, Psicologia, Medicina e Literatura.
(Fabio Herrmann)

Acordou decidido. Não havia mais o que protelar. Decididamente iria ter com ela. Ela, sua bailarina escolhida. Na verdade não dormiu direito, com a cabeça repousada sobre o travesseiro ficou a devanear minuciosamente os preparativos do grande dia que iria se seguir. A cabeça sobre o travesseiro e um leve sorriso de satisfação a repousar em seu rosto.
Flores... Compraria flores. Rosas vermelhas misturadas com rosas brancas de “bandeira branca, amor”. Toda mulher gosta de flores... Rosas para sua Rosa.
Papel e envelope rosa, de boa qualidade, para escrever a mensagem que se fazia à noite, na cabeça aconchegada pelo travesseiro.
Uma bonita caixa de bombons trufados, sortidos, que ela aprecia. Aqueles que se dissolvem em sua boca, deliciosamente.

Para ele, namorar não era um verbo a ser tratado de forma leviana. Ele que nunca namorara, levava a sério essa coisa de relação. Estava há tempos a se preparar para a realização da cena de relação que havia montado em sua cabeça, a mesma que tranquilamente repousava sobre o travesseiro, por noites sem fim. Um carro, uma casa, um salário digno, um cão labrador, tal qual propaganda de margarina – moldura perfeita para encaixar sua bailarina. Mas ele tinha seus receios. Na faixa dos quase sempre quarenta, só tinha da cena a margarina. Margaridas e não rosas. Às vezes, de repente, achava tudo uma bobagem só. Para que largar a zona de conforto da casa dos pais em rumo à construção de uma relação?!? Não tinha sentido algum!!! Mas o sentido que tomava o desejo da cena da margarina que viraria rosa era mais forte... Forte, fraco, forte... Temia ser fraco. Uma doença forte.

De certa maneira somos um pouco parecidos. Temos, todos, nossa particular cena de margarina, e nossa íntima zona de conforto. Movimentar-se exige esforço e dá trabalho. Suely Rolnik, em Artigo que analisa as implicações psicopatológicas na subjetividade, a partir do que ela denomina de “capitalismo cultural”, trata da ilusão de ideias religiosas deslocadas pelos veículos de massificação, onde o paraíso, que agora é terrestre, pode ser habitado por alguns privilegiados – as celebridades. Esperançosos, ao mesmo tempo desolados, envergonhados e humilhados, passamos a acreditar na possibilidade, ainda que distante, de sermos “Very Important Person” em nossas cenas da propaganda de margarina, investindo toda nossa energia “de desejo, de afeto, de conhecimento, de intelecto, de erotismo, de imaginação, de ação, etc.”, consumindo objetos e serviços que nos constroem.

Já estavam saindo faz um tempo, se conhecendo, despretensiosamente. Ele, fascinado pelos projetos de independência dela, às vezes ficava amedrontado com a percepção de algo mais sério. Foi quando surgiu o problema: ele não tinha carro... Fraco, forte, fraco... Out, in, out...
Ao longo de sua história pessoal, ele tinha desenvolvido uma estratégia particular para momentos nos quais sua zona de conforto era cutucada: inventava, como desculpa, estar doente. A desculpa foi funcionando perfeitamente, mas, ao decorrer do uso, foi-se suspeitosamente misturando-se e confundindo-se com sua realidade. No ápice da confusão, não sabia mais dizer o que era doença e o que era invenção. Desculpa e corpo fundiram-se no inventado.
Com medo da instituição de uma relação, sumiu por uns dias: “Me desculpe, fiquei doente”.

Na Conferência XXXI, das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, de 1933, abordando a personalidade psíquica, Sigmund Freud refere-se à extraordinária capacidade do Eu em se flexibilizar perante si próprio: “O Eu pode tomar-se a si próprio como objeto, pode tratar-se como trata outros objetos, pode observar-se, criticar-se, sabe-se lá o que pode fazer consigo mesmo”. Dentro dessa concepção, Freud aponta para a divisão do Eu, e de uma de suas facetas, caracterizada pela crueldade – um Eu incisivamente julgador, exigente de perfeição frente aos ideais construídos e introjetados pelo processo sociocultural. Como possibilidade de sobrevida frente ao esfacelamento cruel, o Eu recorre ao sintoma, à fuga para a doença – às vezes, literalmente. Não nos esqueçamos de que, inicialmente, em sua origem conceitual, Freud parte da ideia de um “princípio de desprazer” (que depois se tornaria “princípio de prazer”), situando o sintoma como defesa possível - formações de atenuação frente às pressões internas e externas desestabilizantes no aparelho psíquico.

Acordou decidido. Tomou um banho, fez sua habitual higiene bucal, e vestiu seu boné – o resto da roupa seguia como detalhe. Nunca andava sem seu boné, representante da adolescência que insistia em permanecer, transformando-o em Peter Pan, em sua Terra do Nunca particular, a casa dos pais.
Decidido, foi às compras. Primeiro papel de seda rosa, com delicadas flores de tom mais escuro, combinando com o envelope, onde escreveria “Quer ser minha namorada?”. Na bombonière especializada em importados, uma bela caixa de bombons sortidos. Na floricultura, meia dúzia de rosas brancas e meia dúzia de vermelhas, formando um equilibrado buquê. Depois de tudo meticulosamente preparado por horas, the grand finale: o nó no laço que prenderia o envelope à caixa de bombons. Ele queria fazer pessoalmente, artesanalmente, pois era ótimo em fazer nós.
Apesar de pouco usá-las, possuía diversas gravatas, nas quais, de tempos em tempos, de fronte ao espelho, treinava nós – nós de gravata. Às vezes se achava um idiota, mas na maioria dos nós se encontrava como um expert refletido no espelho – Very Important Person.

Criatura interessante o nó de gravata. Atualmente sobrevive com a exigência do traje à rigor, mas, ao adentrar no salão de baile, após a primeira talagada de uma bebida alcoólica qualquer, é violentamente desfeito e morre, silenciosamente desapercebido – um ultraje.

Decididamente, após muito trabalho, tudo estava pronto. O buquê, a caixa de bombons com o pequeno envelope rosa, delicadamente unidos pelo laço, e um brilhante nó, que o enchia de orgulho. “Quer namorar comigo?” fazia do conjunto uma ode à perfeição. Irresistible. E ele ali, ao som de um bolero, a admirar sua obra de arte. Ele ali, a admirar... Admirando cada ângulo sublime qual corpo feminino. Ali... Admirando... Ao som de um bolero... Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Atônito, acordou no dia seguinte, debruçado em meio a pétalas de rosas brancas e vermelhas, papelão misturado com chocolate derretido, papel de seda com chocolate e pedaços de rosa. Irreversible.

A pulsão de morte é um dos conceitos mais contundentes e mais discutidos do corpo teórico da Psicanálise. O próprio Freud, até o fim da vida, continuava a encontrar para Tanatos, um lugar adequado dentro de seus constructos. Criticado por alguns, estudado e explorado por outros, o contraditório conceito de pulsão de morte continua e buscar lugar comum dentro do léxico psicanalítico.
Para além de uma destrutividade ativa, poder-se-ia afirmar que uma das faces de Tanatos é a representação do Tédio. Um tédio mortificante, paralisante, que mantém o sujeito, despercebido, enclausurado apaticamente em particular Terra do Nunca – estrada que leva a lugar nenhum, mantendo alucinatoriamente o status quo da zona de conforto, excludente de Eros. “The Walking Dead”, sucesso internacional da compulsão à repetição – tédio crônico e silenciosamente destrutivo da subjetividade.

Logo após às primeiras entrevistas, ouve-se o recado, quase um sussurro de tom amarelado agradecendo a paciência, na secretária eletrônica do consultório: “Me desculpe, fiquei doente”.

Ela? Dizem que virou garçonete em uma lanchonete 24 horas nos Jardins. Em suas horas de folga, vive a devanear com príncipes e labradores, cantarolando baixinho “Eu quero uma casa no campo...” e “...são dois prá lá, dois prá cá”.
O analista? Bem... Começou a se interessar por boleros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund (1933) “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XXII). 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1994.
HERRMANN, Fabio (1999) A Psique e o Eu. São Paulo: Hepsyché.
ROLNIK, Suely (2006) “Geopolítica da cafetinagem”. ide, 29(43), 123-129, São Paulo.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br

25 de maio de 2014

MUITAS VEZES OUÇO, ALGUMAS VEZES OBSERVO E QUANDO POSSO EU SINTO... (José Antonio Da Rocha Ponce Soler)



O presente Artigo trata de uma reflexão sobre a qualidade da presença do analista durante a sessão de análise. O autor classifica três terrenos onde procura organizar algumas ideias a partir de cada um destes: quando o analista ouve; quando o analista observa; quando o analista sente.
O autor propõe que tal divisão é uma maneira de organizar a compreensão da experiência a posteriori, tentando aproximar-se do miúdo do que se desenrola em sua experiência emocional quando dentro de cada um destes terrenos.

A ‘observação’ psicanalítica não concerne nem ao que ocorreu nem ao que vai ocorrer, mas ao que está ocorrendo.
(Bion, 1967)
A experiência emocional que o analista pode se valer é aquela de que pode ter consciência e ao mesmo tempo, perceber que tem algum distanciamento da mesma para poder pensá-la. Não quer dizer que aquilo que sente é o que sente o analisando – é um sentimento seu próprio que pode estar sendo mobilizado por algo que está acontecendo no consultório ou por alguma atitude ou movimento que estaria sendo feito pelo analisando.
(Castelo Filho, 2013)


Percebendo em mim a necessidade de organizar o que vem se construindo a partir de minha formação psicanalítica, procuro aqui descrever uma maneira de pensar minha clínica. Quando aponto para a minha maneira, não estou de modo algum arrogando algo novo, inédito, ao contrário, aponto para alguma coisa que parece ser um olhar já um tanto influenciado por muitas maneiras de ver a clínica - isso inclui as teorias psicanalíticas, a convivência em minha análise pessoal, supervisão e instituição psicanalítica.
Em minha cabeça surgem sempre questões quando estou tentando fazer psicanálise. Algumas delas são: mas o que é isso que eu estou ouvindo? Do que se trata? O que é isso que eu estou vendo ou observando acontecer ali na minha frente? O que é isso que estou sentindo quando estou com essa pessoa?
Eu não tenho a pretensão de responder nenhuma destas questões, procuro com elas circunscrever o campo de minha atenção, creio que estas sejam comuns aos colegas.
Tenho feito para uso pessoal uma discriminação do meu estado emocional junto ao cliente. Didaticamente divido assim: 1) quando ouço o cliente; 2) quando observo o cliente e me observo; e 3) quando sinto algo em relação ao cliente ou a partir do contato com o mesmo.
É claro para mim que este esquema é artificial e não pode ser usado durante minha prática clínica, sendo apenas uma maneira de descrever o meu estado emocional durante a sessão. Essa reflexão é algo que se passa depois da experiência. 
Dentro destes diferentes terrenos (1-2-3) procuro perceber a qualidade da minha presença durante o encontro com o outro - esta é vista a partir deste modelo de observação, alterando-se. Procuro aproximar do leitor a natureza dessas alterações.
É para mim evidente que os três terrenos são intercambiáveis e não podem ser excludentes; são, na verdade, interdependentes. No entanto, aqui aponto para aquilo que é possível ao analista tocar ou sintonizar com a experiência em trânsito a partir de cada um destes terrenos, ou seja, a natureza da presença do analista dentro de cada um destes territórios.
Começo descrevendo uma situação clínica que me discrimino predominantemente dentro do terreno (1), ou seja, quando ouço:
H chega para a sessão pontualmente, abro a porta quando o vejo não me percebo tocado por aquele encontro e tampouco noto alguma emoção vinda de H. Ele se deita e fala longamente sobre sua mulher; queixa-se da autoridade desta sobre ele, do quanto se percebe ameaçado por suas opiniões. Estou ali ouvindo o que ele me diz, minha mente é levada para um tipo de articulação que denomino agora causal [1], me lembro daquilo que H pode ao longo do tempo me contar sobre sua tumultuada relação com sua mãe, seu estado de alerta diante desta e também da figura do pai. Alguns conceitos me surgem “livremente”: Complexo de Édipo, superego, transferência, etc.
Comento alguma coisa com H sobre o quanto aquilo que me descrevia, uma figura autoritária, poderosa e ameaçadora, parecia de algum modo já bastante presente desde muito em sua mente; a conversa fica produtiva, segundo pude notar naquele momento, ele trás outras associações e eu fico de algum modo satisfeito com aquele trabalho.
Percebo-me distante do analisando, sou um ouvido atento, ligado a uma mente que articula ideias que me parecem naquele momento pertinentes. Não percebo assombro ou grandes emoções presentes entre nós, a não ser uma espécie de concordância mútua: estamos no caminho, estou fazendo análise.
A qualidade da minha presença é calma, estou seguro para falar, “pensar”, pesquisar e tenho a noção de um espaço confortável entre o analisando e eu, me vejo pouco implicado nas questões, o que não implica em descaso ou rejeição pelo material ali presente.
Trata-se, segundo posso alcançar, de uma maneira de estar durante o contato com o outro. Uma maneira participativa e até bastante ativa, mas a minha questão é: o que em mim participa e age quando estou dentro deste terreno, que denomino “1- quando ouço?”. Suponho que o que participa ativamente nessa experiência seja uma dimensão mais lógica, ou até mesmo implicada em saber sobre, ou levar o outro, a saber sobre. O que age em mim nesta situação é uma intenção bastante importante de entender e fazê-lo entender sobre o que se passa consigo. Percebo agora que escrevo o quanto nesta situação estou lidando com memória, desejo e ânsia por saber. Para Bion (1957), “Toda sessão na qual o psicanalista toma parte não deve ter nem história nem futuro. O que se conhece sobre o paciente não tem maior importância: é falso ou irrelevante”.
Como sugeri acima, estes terrenos são intercambiáveis e até mesmo, creio, que interdependentes. Assim vou descrever uma situação clínica onde segundo o meu vértice de observação estive às voltas ou dentro dos terrenos “2-quando vejo e “3-quando sinto”.
W é um homem de aproximadamente quarenta anos, não se casou e me procurou para análise trazendo como queixa uma importante dificuldade de se relacionar, namorar... W está em trabalho analítico há um ano com três sessões semanais.
Fragmento de uma sessão:
Esta é uma sessão de reposição, um domingo antes do almoço.
Aguardo W, percebo ou observo em mim entusiasmo para o encontro, me sinto disponível e me noto, depois, tomando contato com o dia, um domingo, e com que facilidade propus-me a atendê-lo.
W chega alguns minutos atrasado, quando o vejo, noto alguma coisa intempestiva em seu modo, ao mesmo tempo vejo alguma outra coisa distante de intempestividade, talvez calma ou até, quem sabe, uma amorosidade.
Estou nesta experiência implicado, sou convocado espontaneamente a observar e a sentir, me vejo confuso, existe ali turbulência.  Noto um espaço, no entanto mínimo, entre o que sinto e o que posso pensar a partir do que estou observando naquela ou daquela situação e sentindo a partir disto. Não me está disponível aqui teorias psicanalíticas, me vejo vivendo ou sendo, não conjecturando sobre ser. Meu ouvido esta entupido e as palavras funcionam como ruído indesejado, que inclusive parecem querer impedir que se ouça o que está ali evoluindo ou sendo vivido.
W se deita e diz não perceber nada para dizer. Depois de um pequeno espaço de tempo começa a relatar um acontecimento de sábado à noite onde se viu às voltas com sentimentos de desvalia e humilhação.
Procuro de algum modo aproximar o cliente de elementos que poderiam estar ali presentes na sala e sobre os quais ele não estava podendo naquele momento fazer menção ou tomar sequer contato.
Ele fica atento e diz: “sabe, talvez você tenha razão, quando eu cheguei pensei: puxa vida é domingo e ele está aqui para me atender e eu nem trouxe o pagamento...”.
Neste momento o percebo realmente próximo a situações que estava vivendo naquele momento, mesmo que pareciam ser bastante difíceis de serem vividas.
Comunico isto ao cliente. Ele me ouve com alguma atenção, depois começa a falar longamente de situações em que se vê absolutamente dispensado pela namorada, se queixa do quão pouco esta o valoriza e até o humilha, maltrata. Além disso, relata que se sente como se ela nunca estivesse de fato presente nas situações.
Esta fala dura um tempo considerável; estou longe agora, me vejo desmotivado, sinto desânimo, talvez humilhado. Fico assim por um tempo, aceito sentir...
Não o sinto mais presente, o mesmo observo se dando comigo.
Sem que eu me dê conta, um espaço entre aquilo que sinto e o que vou podendo pensar parece que se estabelece. Uso a palavra pensamento aqui, mas esta muitas vezes me parece carregada de uma ideia de algo que foi ponderado ou avaliado, peneirado, conscientizado - este não é o caso do que estou contando que vivi; aponto para algo que a princípio não tem qualquer traço de consciência, uma conjunção constante talvez, elementos que se juntam formando espontaneamente um clarão. Lembro-me aqui do que Castelo Filho (2003) diz: “A transformação dos dados sensoriais em não sensoriais, como assinalei, não é uma operação intelectual e não depende da vontade. Está vinculada à operação da função alfa.
Não resolvo dizer, digo!
Conto que percebi que enquanto ele falava, se formava entre nós dois alguma coisa realmente intransponível, algo que nos colocava de fato muito distantes um do outro e que isto talvez tenha muita relação com sua queixa sobre a falta de presença que ele sentia nas pessoas com quem se relacionava; saliento que ele também ficava ausente, sem presença para lidar com o que estava se desenrolando ainda há pouco entre nós, na situação que percebia sobre o que sentiu de não ter podido me fazer o pagamento e da percepção que teve sobre a minha disposição para com ele, e o que isto poderia desencadear...
O clima muda novamente, me sinto próximo, ali, implicado e o convidando ao contato. Nesta situação não me valho até onde noto de “teorias fortes (Rezze, 2011), estou no escuro e me sinto muito mais atento ao miúdo que se desenrola entre nós. A qualidade da minha presença é intensa, estou vendo, estou sentindo; e mesmo não sabendo em última instância o que vejo e o que sinto, trabalho ou procuro trabalhar com este miúdo quase invisível ali se dando. Suponho que neste terreno estou “considerando a experiência emocional do analista para a captação da realidade psíquica” (Castelo Filho, no prelo, 2013).
As questões aqui apresentadas neste flash de material clínico são ricas em provocar as mais diferentes associações e interpretações em nós analistas, no entanto procuro aqui discriminar, se é que seja possível isto, os níveis diversos da qualidade da minha presença no encontro analítico.
Noto que no segundo exemplo, transito de um campo do que vou observando para o que vou sentindo e estou, aqui, muito menos atento ao que escuto. 
Minhas questões iniciais não foram respondias como eu anunciei em princípio. Ao contrário de respostas, outras foram às questões que pude pensar:
I. Estou mais próximo de que quando transito do terreno “1-quando ouço”, percorro o terreno “2-quando vejo” e chego em “3-quando sinto?”.
II. Estaria transitando de uma realidade mais sensorial para uma realidade psíquica não sensorial?
III. Posso pensar em gradação da qualidade da presença do analista durante a sessão de análise?
Termino citando um pequeno trecho do livro de Clarice Lispector, “A Paixão Segundo GH”:
Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as visões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo.” (Lispector, 2009)


NOTAS
[1] Em “Transformações”, diz Bion (2004): “Categorizo a ideia de causa, neste contexto, como D2, ou seja, uma pré-concepção relativamente primitiva, utilizada para impedir que algo mais venha à tona”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BION, W. R. (2004) Transformações: do aprendizado ao crescimento. Tradução de Paulo Cesar Sandler. São Paulo: Imago Ed.

BION, W. R. (1967) “Notas sobre memória e desejo” in Melanie Klein Hoje: Artigos predominantemente técnicos (Vol.2). São Paulo: Imago Ed., 1990.

CASTELO FILHO, C. (2003) O Processo Criativo: Transformações e Ruptura. São Paulo: Casa do Psicólogo.

CASTELO FILHO, C. (2013) O trabalho na experiência emocional. Os afetos como principal instrumento de trabalho do analista e como parte essencial no desenvolvimento e na capacitação do analisando. Trabalho apresentado na SBPSP, 04/setembro, São Paulo.

REZZE, C. J. (2011) “Teorias Fracas e o Cotidiano de um Psicanalista” in Psicanálise Bion: Clinica – Teoria. São Paulo: Vetor.

LISPECTOR, C. (2009) A Paixão Segundo GH. São Paulo: Rocco.


JOSÉ ANTONIO DA ROCHA PONCE SOLER é Membro filiado do Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP.


20 de maio de 2014

O SENTIMENTO DE CULPA NA PSICANÁLISE (Wagner da Matta Pereira)


O custo de um alto nível de civilização é o sentimento de culpa.
(Sigmund Freud)

O sentimento de culpa é algo amplamente abordado pela religião, filosofia e jurisprudência. Para a Psicanálise, é a experiência edípica que inaugura as bases da moralidade; e o superego, sequela deixada pelo Édipo, a instância responsável pela veiculação da culpa. O sentimento de culpa é o pilar da civilização, pois através deste, as pulsões de destruição inerentes ao ser humano seriam redirecionadas para o bem-estar da humanidade (FREUD, 1913/1974). A Psicanálise acredita que sem o sentimento de culpa a humanidade estaria fadada à destruição (FREUD, 1997).
Segundo Kahn (2005), existem três tipos de culpa: a ruidosa, que é explícita e consciente ao sujeito; a reservada, que não se anuncia como culpa; e a culpa silenciosa, a que não dá sinal de alerta, mas que pune através de diversos mecanismos, como o sentimento de infelicidade e menos valia. No entanto, em níveis distintos, todo sentimento de culpa pode ser nocivo para o indivíduo, podendo levá-lo ao adoecimento físico-psíquico. A culpa possui um caráter inibidor e patológico, ela se alimenta de uma grande quantidade de energia psíquica para manter a constância do seu sofrimento na pessoa, a qual se acha merecedora de punição. O castigo é infringido por um superego cruel que induz o sujeito a ter atitudes autopunitivas, levando-o ao desenvolvimento da depressão, da fobia e dos transtornos de ansiedade e alimentares, por exemplo.
Mas quando e onde nasce o sentimento de culpa na teoria psicanalítica? Ao longo da elaboração da teoria psicanalítica, Freud cria diversos conceitos importantes - um deles é o de superego, que assim como outros, foi criando forma com o tempo. Em 1914 Freud escreve “Sobre o Narcisismo: uma introdução” (Zur Einführung des Narizssmus). O texto foi elaborado tendo como base o estudo das parafrenias (psicoses). Nesse momento, Freud se questionava sobre o destino da pulsão, força motriz que impele o organismo para um alvo qualquer, em busca de satisfação. Nos esquizofrênicos esta pulsão seria possivelmente retirada do mundo externo e reinvestida no próprio sujeito. “La libido sustraída do mundo exterior há sido aportada ao yo, surgiendo así um estado al que podemos dar el nombre de narcisismo” (FREUD, 1967, p. 1083). Freud comentou que tal ideia não era é nova, pois já estava presente na criança e nos povos primitivos (narcisismo primário), e concluiu dizendo que havia dois tipos de libidos: a libido do “Eu” e a do objeto.  
 A libido objetal alcança sua maior força na paixão, quando grande parte da libido do “Eu” se volta para o objeto desejado. A extrema oposição desse processo dá-se na fantasia paranoica de fim de mundo, quando a libido se centra no “Eu”.  Freud argumenta que há outras ocasiões em que o interesse libidinal é retirado do objeto externo e reinvestido no “Eu” - por exemplo, quando o “Eu” passa por uma dor física, quando fica sonolento, ou hipocondríaco. Neste caso, a libido é retirada dos objetos do mundo externo e deslocada para o órgão enfermo. Outro comentário de Freud em “Sobre o Narcisismo”, diz respeito à formação do ideal do ego e do ego ideal, dois conceitos que até hoje geram confusão. O ideal do ego é fruto de uma representação narcísica nunca abandonada; o ego ideal é o substituto do narcisismo perdido na infância, na qual a criança era o seu próprio ideal. A partir desses dois conceitos, Freud dará início à elaboração de uma nova instância psíquica: o superego. Esta, a qual ele dará maiores contornos em sua segunda teoria do aparelho psíquico, também chamada de segunda tópica, surge da influência crítica dos pais, da opinião social e da cultura. O superego cumpre com o objetivo principal de observar constantemente o ego e criticar suas intenções (do ego) como um juiz. Segundo Laplanche e Pontalis (1983), o superego tem origem quando a criança, renunciando à satisfação de seus desejos edipianos atingidos pela interdição, transforma o seu investimento nos pais em identificação com os pais, interiorizando assim a interdição. Apesar de Laplanche e Pontalis não mencionarem o aspecto biológico contido na formação do superego, Freud não o descarta e retorna a ele em artigos posteriores.

Se considerarmos mais uma vez a origem do superego, tal como a descrevemos, reconheceremos que ele é o resultado de dois fatores altamente importantes, um de natureza biológica e outro de natureza histórica, a saber: a duração prolongada, no homem, do desamparo e dependência de sua infância, e o fato de seu complexo de Édipo, cuja repressão demonstramos achar-se vinculada à interrupção do desenvolvimento libidinal pelo período de latência, e, assim ao início bifásico da vida sexual do homem”. (FREUD, 1923/1974, p. 47)

Como descreveu Freud, existe uma culpa de natureza “biológica”, decorrente do estado de desamparo do infante, que depende dos cuidados primários do adulto para a sua sobrevivência; e a culpa originária da resolução do complexo de Édipo, a qual é reeditada na cultura, isto é, a culpa que nasce no núcleo familiar através do interdito que já se encontra latente no social. A hipótese freudiana da transcendência de uma vivência individual do Édipo culminou na culpa social descrita em “Totem e Tabu” (1912/1913). O remorso que se instaura nos irmãos da ordem primeva, em decorrência do assassinato do pai, coincide com o remorso da criança. Interpelado pelas exigências do Édipo, a criança anseia por livrar-se do pai para ficar com a mãe, embora o ame. Para Freud, a ambivalência entre os sentimentos de amor e ódio seriam fundadores dos conflitos humanos.

O que até então fora interdito por sua existência real foi doravante proibido pelos próprios filhos, de acordo com o procedimento psicológico que nos é tão familiar nas psicanálises, sob o nome de ‘obediência adiada’. Anularam o próprio ato proibindo a morte do totem, o substituto do pai; e renunciaram aos seus frutos abrindo mão da reivindicação às mulheres que agora tinham sido libertadas. Criaram assim, do sentimento de culpa filial (grifo nosso), os dois tabus fundamentais do totemismo, que, por essa própria razão, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos reprimidos do complexo de Édipo.” (FREUD, 1999, p. 147)
   
O sentimento de culpa está diretamente atrelado ao nascimento do superego, como uma sequela deste. A culpa surge da observação e críticas constantes dirigidas ao ego, da incapacidade de se cumprir com as exigências de uma idealização internalizada, de uma conduta moral ou ética a ser seguida e que foram estabelecidas pelo processo de socialização, primeiramente na família e depois na comunidade.  Em ambos os processos de identificação, isto é, com o “Pai” do núcleo familiar e com o da horda primitiva, a culpa tem a finalidade de civilizar o indivíduo a partir da repressão de suas exigências pessoais, na qual o ego tem o papel de mediador entre o id, regido pelo princípio do prazer, e o superego (ideal do ego), governado pelo princípio da realidade, teorizações feitas por Freud em artigos posteriores a “Totem e Tabu” e “Sobre o Narcisismo”.

O pensamento freudiano evidencia o conflito entre as exigências individuais e as sociais, e é neste embate que se dá a formação de uma sociedade, de uma cultura. Em todo agrupamento social está em jogo a urgência de um relacionamento possível entre seres humanos e a satisfação dos desejos individuais, estes muitas vezes contrários ao bom convívio social. Freud elabora uma teoria sobre a cultura que poderia ser dividida em dois momentos cruciais.” (GOLDENBERG & PEIXOTO, 2011, p.3)

Goldenberg e Peixoto se referem aos dois períodos que marcaram a evolução do pensamento freudiano. O primeiro, chamado de primeira tópica (1900 – 1920), é marcado pela a diferenciação entre o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Neste momento, Freud já estaria selecionando o material que, mais tarde, daria origem ao superego. O segundo momento apresenta as três instâncias psíquicas mais conhecidas de sua teoria: o id, o ego e superego (ROUDINESCO & PLON, 1998).
É no primeiro momento de sua tópica, que Freud escreve “Totem e Tabu” (1912-1913). A ideia principal exposta neste artigo é a de que a sociedade civilizada se funda pela culpa, em consequência do assassinato do pai primitivo. O ato em questão instaura os tabus do parricídio e do incesto, os quais fundam a civilização. A cultura nasceria do interdito - condição indispensável para que as pulsões sexuais, que levariam à mera satisfação egoísta dos indivíduos e à sua própria destruição, sejam barradas. Em “Totem e Tabu”, a culpa se configura em um elemento fundamental para a obediência do indivíduo à lei. O livro também supõe a existência da herança simbólica da culpa, a qual passa a ser transmitida filogeneticamente. “A culpa decorrente do assassinato do pai e fundadora da sociedade marca o psiquismo humano de forma duradoura e indelével” (GOLDENBERG & PEIXOTO, 2011, p.3). Freud sugere que o sentimento de culpa está cravado na carne humana e destinado a orientar os caminhos da humanidade (FREUD, 1999).
Figueiredo e Cintra (2008) dizem que as psicoses maníaco-depressivas, os estados bipolares, e todas as formas de melancolia e depressão, estão entre as oscilações mais graves do estado patológico. O luto patológico é um estado no qual o processo de superação da perda do objeto não é concluído. As catexias, ou investimento narcísico depositado no objeto perdido, não retomam ao ego, e é sobre isso que Freud fala em “Luto e Melancolia”.
Escrito em 1915 com o objetivo de esclarecer os estados melancólicos, comparando-os com a angustia normal sentida diante da perda do objeto amado (FREUD, 1967, p. 1075), “Luto e Melancolia” (Trauer und Melancolie) estabelece a diferença entre o luto normal e o patológico. Freud diz que a pessoa melancólica se encontra num luto que pode se estender por tempo indeterminado. Sem superar a sua perda, torna-se prisioneira do ego. Mas Freud também diz que o estado melancólico pode desaparecer inexplicavelmente.
O melancólico é envolvido por um profundo desânimo, falta de interesse pelo mundo, incapacidade de amar, inibição e perda da autoestima. Estas mesmas características fazem parte do luto, excetuando-se a falta de autoestima. No luto, existe uma alteridade, um Outro, ou algo cuja perda poder-se-ia racionalmente justificar. Quando superada a perda, a tristeza desvanece e o ego está pronto para reinvestir em outro objeto. Porém, na melancolia, há uma perda de si mesmo, nele se encontram fundidos o Eu e o Outro, passando a existir uma identificação narcísica e uma perda inexplicável. O objeto perdido e desconhecido não é encontrado na consciência: pode-se saber o que foi perdido, mas não o que foi perdido com o “Outro”. O melancólico é tão vazio e pobre de si, que pode perder a vontade de viver. Diante dessa dinâmica psíquica, Freud supôs que tal autocrítica só poderia ser possível caso houvesse uma parte do ego que se voltasse contra ele. Nesse caso, supomos que o ego se encontra dividido e que, provavelmente, uma dessas partes estaria atuando como um superego, punindo severamente o “Eu”.
Em “Criminosos em consequência de um sentimento de culpa” (1916), Freud comenta que a análise de seus pacientes conduziu-o a ter um olhar mais abrangente sobre pessoas com reputação respeitada e elevada moralidade que confessaram ter praticado atos ilícitos, pois após cometerem tais crimes sentiam-se aliviados. Para Freud, as ações proibidas desses pacientes provocava-lhes um “alivio mental”, pois sofriam de um esmagador sentimento de culpa cuja origem era desconhecida. Diante de tal descoberta, Freud cria a hipótese de que existia nesses pacientes um sentimento de culpa que precedia o ato criminoso, ao invés de ter surgido em decorrência deste.
Sedimentando o conceito de superego, em 1920 Freud escreve “Para além do princípio de prazer”, dando uma virada decisiva na maneira de ver o funcionamento do aparelho psíquico, que deixa de ser regido pelo modelo prazer-desprazer para se orientar pelo embate entre pulsão de vida e pulsão de morte (Eros x Thanatos).  De acordo com esse novo paradigma, o impulso à destruição passa a ser inerente à natureza humana e, mais tarde, justificará a inevitabilidade do sentimento de culpa e do mal-estar em toda organização social. Em 1923, com “O Ego e o Id”, Freud sugere a hipótese de que o sentimento de culpa nasce concomitantemente ao complexo de Édipo e reafirma a dimensão social deste. 
Havia se passado quase vinte anos desde que Freud vinculara o sentimento de culpa ao nascimento da civilização, em “Totem e Tabu”, quando escreve sobre o desconforto da sociedade em “O Mal-estar na Civilização (1929/1930). Neste trabalho, o sentimento de culpa é abordado de forma mais cuidadosa. O título, autoexplicativo, sugere a inevitabilidade da sensação de mal-estar em qualquer forma de agrupamento social. Isto se daria pelo fato de que a organização social vai de encontro à felicidade individual, visto que há um embate entre as satisfações individuais e as sociais - portanto, a felicidade jamais poderia ser alcançada.

Esta é a surpreendente premissa do principal estudo de Freud sobre o desenvolvimento da civilização: nós sacrificamos a felicidade por um alto nível de civilização, e o mecanismo da nossa infelicidade é um sentimento de culpa crescente, muitas vezes uma culpa decorrente de impulsos inconscientes.” (KAHN, 2005 p. 179)

Freud adota a teoria de que a tendência do indivíduo à agressividade não tem somente forte disposição pulsional (liberação de energia psíquica), mas também se constitui numa grande ameaça à civilização, pois toda agressividade gerada e sem via de escape volta-se contra o próprio indivíduo. Pode-se dizer então que existe uma culpa estruturante e civilizadora; mas também que há uma culpa patológica, pois uma sociedade movida pela culpa, adoece. Até o momento, discutiu-se a culpa como sequela do complexo de Édipo, a culpa como sentimento originário do assassinato do pai da ordem primitiva, e a culpa como expressão do conflito proveniente da luta entre Eros (pulsão de vida) e Thanatos (pulsão de morte).
Em “O Mal-estar na Civilização (1930), Freud cria uma nova roupagem para o sentimento de culpa, o qual não perde o status de inibidor de pulsões destrutivas. Ao contrário, nasce da tensão entre um superego severo e o ego, e manifesta-se através da necessidade de punição. A culpa passa a ser a grande controladora da civilização e tem sua origem no desamparo, no medo da perda do amor materno ou de um cuidador (FREUD, 1997). Através do sentimento de culpa, a cultura domina nossa inclinação à agressividade, debilitando-a, desarmando-a, e colocando em seu interior um agente para cuidar dela “como uma guarnição numa cidade conquistada” (FREUD, 1997, p.84). Supõe-se que o agente em questão nada mais é do que o superego que, inicialmente, na primeira tópica da teoria freudiana, não passava de um porteiro a serviço da censura (GARCIA-ROZA, 2002). Através do binômio “agressividade e culpa”, Freud renova a teoria da origem do superego. A agressividade seria inata, mas depois de ser expulsa para fora do indivíduo, retornaria para ele, para o ego, assumindo a função de consciência moral e pronta para deflagrar, contra o próprio ego, a mesma agressividade que o ego, de bom agrado, teria posto em ação contra outros indivíduos estranhos a ele (FREUD 1997). A culpa originária de impulsos agressivos que se deslocam para o sujeito é estruturante, na medida em que é experienciada de forma saudável.  Foi sobre esta culpa primária que nos falou Melanie Klein (1948).

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WAGNER DA MATTA PEREIRA é psicanalista (NUPSIR-RN/UNEPSI-PB); Mestre em Literatura Comparada (UFRN); formado em Letras (URFJ) e Psicologia (UNIRN).
E-mail: wag_mp@hotmail.com