6 de fevereiro de 2016

CINE VÓRTICE


A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE tem o prazer de convidar para mais uma edição do CINE VÓRTICE.
No evento, será exibido o filme "VIVRE SA VIE: FILM EN DOUZE TABLEAUX" (Jean-Luc Godard, França, 1962). Após a exibição será aberta uma pequena discussão sobre o filme.

Data: 05/mar/2016, das 15h às 18h.
Local: Rua Tuiuti, 2530 (sala de reunião) - Tatuapé, São Paulo/SP.

A sessão terá início, impreterivelmente, às 15h15min.

As inscrições devem ser feitas até o dia 04/mar através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br). Só poderão participar do evento as pessoas previamente inscritas, pois haverá uma "lista de presença". As inscrições estão limitadas a um número de 20 pessoas.

SINOPSE & FICHA TÉCNICA
Contado em doze capítulos sem nenhuma ligação, Nana (Anna Karina) é uma jovem que abandona seu marido e seu filho para iniciar sua carreira como atriz. Para financiar sua nova vida começa a trabalhar numa loja de discos, mas não ganha muito dinheiro. Como não consegue pagar o aluguel, Nana é expulsa de casa e decide virar prostituta. No primeiro dia que começa a trabalhar na rua, reencontra Yvette (Guylaine Schlumberger), uma velha amiga que lhe confessa que também se prostitui por necessidade. Yvette lhe apresentará a Raoul (Sady Rebbot), que se tornará seu cafetão. A partir desse momento, Nana irá introduzindo-se progressivamente no mundo da prostituição

Uma das maiores obras de Godard, “VIVRE SA VIE” foi a segunda colaboração que Anna Karina haveria de ter com vários filmes do diretor (com quem foi casada por seis anos) - o filme faz parte do famoso movimento cinematográfico francês “Nouvelle Vague”.
Diferente dos outros filmes do diretor, “VIVRE SA VIE” contém um tom mais realista e sem muitos dos diálogos icônicos do diretor.
Para manter a atuação de Karina o mais natural possível, Godard só entregava o roteiro para a atriz minutos antes das filmagens, e raramente fazia mais de uma tomada de cada cena.

França, 1962, 83 min.
Direção de JEAN-LUC GODARD, com ANNA KARINA, SADY REBBOT, ANDRÉ S. LABARTHE e GUYLAINE SCHLUMBERGER.
Roteiro de MARCEL SACOTTE & JEAN-LUC GODARD.




26 de janeiro de 2016

SOBRE A POSITIVIDADE DO DEMÔNIO (Thomas Ferrari Ballis)


O empreendimento ousado, a desconfiança prolongada, o cruel não, o tédio, o corte na carne viva – quão raramente se vê isto tudo reunido! Mas é de tais sementes – que brota a verdade.”
(Nietzsche, 2014, p.270)

No ano de 2014 publiquei nesta mesma REVISTA um texto intitulado “Do efeito ao feito: Memória Madalena”, que trazia pequenas reflexões sobre a memória. Destas reflexões, muito se deveu a memória involuntária tratada por Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido” - mais especificamente na passagem da “madalena”, narrada no primeiro volume da obra, intitulado “No Caminho de Swann”. Lembro que algumas passagens desta obra me despertaram novos questionamentos, que permaneceram agarrados aos meus devaneios, em completa penumbra. O que pretendo neste texto é expor o que pôde ser pensado dessas obscuras passagens da obra proustiana, após serem cultivadas nas reflexões dos textos freudianos.

MEU MUNDO INTERNO LÁ FORA
As passagens que mais me interessam neste momento, são as que narram o clima emocional do narrador previamente ao seu contato com a “madalena”. Elas se iniciam com as lembranças de Combray, lugarejo de sua infância:
Nunca revi mais que essa espécie de fragmento luminoso, recortado em meio a trevas indistintas.” (p.62)
Numa palavra, sempre visto à mesma hora, isolado de tudo que poderia existir ao seu redor, se destacando sozinho da escuridão, havia tão somente o cenário estritamente necessário (como os que se veem indicados no início de velhas peças para representações provincianas) ao drama de me despir; como se Combray tivesse consistido apenas de dois andares ligados por uma escada estreita, e como se fossem sempre sete horas da noite.” (p.63)
Tudo aquilo estava na realidade morto para mim. Morto para sempre? Era possível.” (p.63)
Fazia já muitos anos que, de Combray, tudo o que não era o teatro e o drama de me deitar não existia mais para mim.” (p.64)
Antes de saborear a madalena, o narrador se encontra “abatido pelo dia sombrio e a perspectiva de um triste amanhã” (p.64).
Para além da maquinal repetição de um estado emocional, é preciso, como afirmo em meu texto anterior, notar que há um todo harmônico na narrativa: “Sombrios se revelam os dias e as noites, um relógio que só vive de sete horas, um drama que não vive sem a hora de deitar, angustia e desamparo que não vivem sem narrador. Representantes e afetos especialmente selecionados que se harmonizam e se fusionam em uma gestalt, esteticamente em ordem e solidamente integrada. Representantes bifácies que dizem de narrador e seu mundo” (p.5).
Estas passagens despertam meu interesse, primeiramente, porque nelas há clara evidência de que a topografia narrada é uma topografia da mente. Os detalhes da narrativa revelam os acidentes de uma geologia mental, os caminhos descritos são explorações mentais já mapeadas, ou como escreve Christopher Bollas em seu texto “A arquitetura e o inconsciente”: “Que dinâmico e bonito objeto é um caminho, escreve Bachelard, pois ao longo dos caminhos que escolhemos estão os objetos que representam algo para nós. Elegemos os nossos próprios caminhos ao longo de nossas vidas, mesmo que alguns deles estejam ordenados pela mentalidade da cidade” (p.32). O que mais surpreende é o que há de extremamente contemporâneo no estado emocional do narrador nestas passagens. Mas que estado emocional seria esse? Penso que seria impossível enquadrarmos o que foi destacado acima em um único nome, mas o que estou chamando de contemporâneo, do que pode ser extraído como uma das matérias primas que engendra a narrativa dessas passagens, é o que nomeamos trivialmente de tédio.

QUE TÉDIO
Lars Svendsen (2006), no livro “Filosofia do Tédio”, afirma que o tédio só passou a ser um fenômeno cultural central há cerca de dois séculos: “É impossível, claro, determinar quando ele surgiu. Ademais, naturalmente teve precursores. Mas ele se destaca como um fenômeno típico da modernidade. Em geral, os precursores ficaram restritos a grupos pequenos, como a nobreza e o clero, ao passo que o tédio da modernidade tem amplo efeito e pode hoje ser encarado como um fenômeno relevante para praticamente todos no mundo ocidental” (p.47).
Talvez o que eu esteja chamando de contemporâneo seja a semelhança de alguns personagens e narrativas (de vidas vegetativas) do universo proustiano, com alguns personagens que me deparo na sala de análise. O fato é que o tédio talvez seja pouco estudado por não se tratar de uma entidade psicopatológica; a própria complexidade do fenômeno torna quase impossível sua classificação, por se tratar de uma multiplicidade de humores e sensações.
Lars Svendsen (2006) tenta mapear as origens históricas do tédio, retomando o conceito medieval “acédia” (accedia ou accidia), um pecado particularmente grave, já que dele nasciam todos os outros. O conceito de acédia se estende por mais de um milênio, desde seu surgimento na antiguidade até o fim da idade média, quando, no Renascimento, foi substituído pela melancolia. As explicações de pensadores cristãos do fim da antiguidade e da Idade Média sobre a acédia correspondem, em grande medida, ao que conhecemos hoje como tédio, com suas características de indiferença e ociosidade. A diferença fundamental é que a acédia é, sobretudo, um conceito moral, ao passo que o tédio descreve um estado psicológico. É interessante pensar a acédia como um pecado grave e raiz de todos os outros pecados, pois ela também pressupõe uma crise ou esvaziamento de significado - e isso colocava em cheque o significado absoluto de Deus e sua criação. Svendsen cita uma curiosa descrição de Evágrio Pôntico (c.345-399), que via na acédia um demoníaco estado de saciedade com a vida, ou cansaço: “O demônio do meio dia (daemon meridianus) é o mais ardiloso de todos: ataca o monge em pleno dia, fazendo o sol parecer absolutamente imóvel no céu. Tudo parece uma ilusão, as coisas passam a não ter sentido algum. O demônio o faz detestar o lugar onde se encontra – e até a própria vida. Faz o monge lembrar-se da vida que tinha antes de entrar no mosteiro, com todos os seus atrativos, tentando-o a desistir da devoção a Deus” (p.53).
A tese central do livro “Filosofia do Tédio” consiste na afirmação de que o Romantismo constitui a base mais importante, em termos da história das ideias, para uma compreensão do tédio moderno: “Foi só a partir do advento do Romantismo, perto do final do século XVIII que surgiu a necessidade de que a vida fosse interessante, com a pretensão geral de que o eu deveria se realizar (...). A corrida desordenada às diversões, ao lazer, indica precisamente o medo do vazio que nos cerca. Essa corrida, a necessidade de satisfação e a falta de satisfação estão inextricavelmente entrelaçadas. Quanto mais a vida individual se torna o centro do foco, mais forte se torna a insistência no significado em meio às trivialidades da vida cotidiana. Uma vez que o homem, há cerca de dois séculos, começou a se ver como um ser individual que deve se realizar, a vida cotidiana parece agora uma prisão. O tédio não está associado a necessidades reais, mas ao desejo. E esse é um desejo de estímulos sensoriais. Estímulos são a única coisa interessante” (p.28).

TÉDIO E SIGNIFICADO
Descubro em Bernardo Soares (1995), heterônimo de Fernando Pessoa, uma alma versada no fenômeno do tédio: “Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum” (p.85). Das inúmeras descrições do tédio, se sobressaem com muita frequência referencias ao vazio e a falta de significado. Nos poetas, são frequentes as descrições que se revelam nas sensações físicas. De todo o universo do tédio é possível destacar um vazio de significado - tédio e perda de sentido estão conectados de alguma maneira.
Refletir sobre o tédio culmina em paradoxos. Afinal, o mundo parece sem sentido porque ficamos entediados ou ficamos entediados porque o mundo parece sem sentido? Podemos responder esta questão supondo que o tédio tenha aumentado de forma espetacular no mundo, exatamente pela imensa oferta e procura de significados para vida. Quando Deus perde sua hegemonia no “top of mind” da transmissão de significados, o homem se torna um pequeno Deus propagador. Os significados estão aos cotovelos na internet, estão nas prateleiras dos mercados, nas capas das revistas, nas vitrines do shopping center, nas propagandas de TV, na “vida” das celebridades, nas ideologias da ultima estação. Um transmissor de significado atrás de cada balcão do mundo, com a promessa de ludibriar os homens da sua espera de um Godot que nunca chega.
Lars Svendsen (2006) afirma que “se o tédio aumenta, isso significa que há uma falha grave na sociedade ou na cultura como transmissores de significado” (p.23). A importância que damos ao avanço na tecnologia, a inovação e a originalidade, revela que a vida, em grande medida, é entediante. O apelo do “novo” e do “interessante” é capaz de nos tirar do tédio, mas a velocidade que nos cativa a ambos é a mesma que, um momento depois, desperta nossa indiferença - é a fugacidade de um valor puramente estético. Algo parecido acontece com a vinculação da violência pelos meios de comunicação. Chega a ser estranho constatarmos que a queda do World Trade Center, em Nova York, para muitos, foi simplesmente o maior espetáculo performático de Arte Contemporânea do século XXI.
Em seu ensaio “O Narrador”, Walter Benjamin (1985) afirma que “a experiência decaiu em valor”. Ele justifica seu raciocínio com o advento da era da informação no sistema capitalista: “a informação reivindica uma verificabilidade imediata. O principal requisito é que ela pareça compreensível em si mesma” (p.203). O interessante raciocínio de Benjamin se deve ao fato de que a informação, ao contrário da experiência, já vem processada e carregada de explicação, deslocando seus endereçados de uma posição ativa e distanciada, necessária, para mediação simbólica na construção de significados coletivos e pessoais.
Talvez este subtítulo exija, deste que vos escreve, uma ideia acerca da manufatura de um significado. Eu a encontro na fábula “O lavrador e seus filhos” de Esopo: “Um lavrador a beira da morte desejava que seus filhos adquirissem experiência na lavoura. Chamou-os, então, para junto de si e disse: Meus filhos, numa de minhas vinhas há um tesouro. Logo depois que o pai faleceu, eles pegaram os forcados e as charruas e revolveram toda a plantação. Tesouro, na verdade, não encontraram, mas a vinha lhes deu em recompensa múltiplas cargas de frutos” (p.293). Creio ser dispensável a moral da história contida na fábula, pois é a escassez de detalhes psicológicos da narrativa que nos convida, com nossos forcados e charruas, a trabalhar o terreno do significado.
Podemos pensar que algumas formas de evitação do tédio foram forjadas e/ou apropriadas pelo mundo capitalista. A estrutura insatisfeita do ser humano, a desarmonia entre seu desejo e as satisfações possíveis, se amalgamam ao sistema de produção e consumo. Há alguns anos atrás se ouviu no pronunciamento de um presidente, a prescrição categórica de que o povo devia consumir. Tal prescrição pode refletir o aumento no poder de compra, mas a meu ver, também revela a priorização do consumismo em detrimento da cidadania. O consumismo já é um sintoma quando é sinônimo de lazer e ócio, este contexto já reflete o tédio e a falta de significado. Em suas formas mais extremas ele se torna compulsão. O tédio se expressa num determinado mal-estar após as compras, que denuncia a impossibilidade de nos sentirmos completos. Ele está bem expresso em uma canção da banda Dead Fish: “a felicidade agora é ter, a liberdade vem embalada em plástico, é colorida e tem gosto de isopor”.
O consumismo compulsivo revela a lógica arcaica de relação com o mundo, um tipo de oralidade que incorpora o objeto, mas impede a sua introjeção, processo que permitiria a metaforização da experiência. No livro “A Casca e o Núcleo” (1995), Nikolas Abraham e Maria Torok caracterizam o que chamam de magia incorporante: “Todas as palavras que não puderam ser ditas, todas as cenas que não puderam ser rememoradas, todas as lágrimas que não puderam ser vertidas, serão engolidas (...) e postos em conserva” (p.249). Segundo os autores, o primeiro paradigma da introjeção seria preencher o vazio da boca com palavras: “Introjetar um desejo, uma dor, uma situação, é fazê-los passar pela linguagem numa comunhão de bocas vazias. É assim que a absorção alimentar, no sentido próprio, se torna a introjeção no figurado. Operar essa passagem é conseguir que a presença do objeto dê lugar a uma auto-apreensão de sua ausência. A linguagem que supre essa ausência, figurando a presença, só pode ser compreendida no seio de uma comunidade de bocas vazias” (p. 246).
Valendo-me do parágrafo anterior, me atenho ao fato de ter utilizado como referência o texto “Luto ou melancolia” do livro “A Casca e o Núcleo”. Com base nesta referência, poderíamos constatar que o tédio, em alguma medida, se associa a morte?

MORRER DE TÉDIO
Podemos pensar que o tédio é uma espécie de contaminação do ócio, um desprazer que se impõem no vazio da distensão motriz, uma espécie de poeira ou névoa que tentamos sacudir com a motilidade. Pode-se ouvir a máxima “Estou morrendo de tédio” tanto de quem está em plena atividade do trabalho como daqueles que, nas profundezas de uma poltrona da sala, contam os azulejos da parede - algo como o personagem de Bill Murray no filme “Flores partidas” (2005), de Jim Jarmusch.
A expressão “morrer de tédio” refere um vazio mortífero e inalcançável pela linguagem, afronta que só encontra adversários a altura na coragem impertinente dos poetas, que não recuam diante do indizível. No “Livro do desassossego”, encontramos belas amostras deste embate: “Tudo isso está vazio, até na ideia do que é. Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons e sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. É tudo um caos de coisas nenhumas. (...) Se penso isto e olho, pra ver se a realidade me mata a sede, vejo casas inexpressivas, caras inexpressivas, gestos inexpressivos. Pedras, corpos ideias – está tudo morto. Todos os movimentos são paragens, a mesma paragens todos eles. Nada me diz nada. Nada me é conhecido, não porque o estranhe mas porque não sei o que é. Perdeu-se o mundo. E no fundo da minha alma – como única realidade deste momento – há uma mágoa intensa e invisível, uma tristeza como o som de quem chora num quarto escuro” (p.191). Para Fernando Pessoa, o tédio é tão radical que não pode ser superado sequer pelo suicídio, mas apenas por uma coisa completamente impossível: simplesmente não ter existido.
O tédio proporciona uma espécie de antecipação pálida da morte. Svendsen (2006) refere um tempo aprisionante no tédio: “o tédio está relacionado à morte, mas essa é uma relação paradoxal, porque o tédio profundo assemelha-se a uma espécie de morte, ao passo que a morte assume a forma do único estado possível – uma ruptura com o tédio. O tédio tem a ver com a finitude e com o nada. É a morte em vida, uma não vida. Na inumanidade do tédio ganhamos uma perspectiva de nossa própria humanidade” (p.42). No filme “Feitiço do Tempo” (1993), de Harold Hamis, encontramos uma curiosa metáfora para as palavras de Svendsen. Interpretado por Bill Murray, o personagem Phil Connors se encontra inexplicavelmente preso no tempo, acordando sempre na mesma hora da mesma manhã, sendo obrigado a vivenciar sempre os mesmos eventos daquele dia. Em uma cena do filme, Phil pergunta a outros dois personagens:
- O que vocês fariam se estivessem presos em um lugar, os dias fossem exatamente os mesmos e nada mudasse?
- A minha vida é assim!” - um deles responde.
Não suportando mais sua condição, Phil Connors tenta se suicidar de diversas formas, sem obter sucesso. Como no filme “Flores Partidas”, ou no personagem de Marcel Proust, o aprisionamento dos personagens só se desfaz quando estes reencontram alguma forma de ligação com o mundo, através de algum objeto libidinalmente investido.

EM DEFESA DE CERTA PULSÃO DE MORTE
É possível pensar o tédio através da metapsicologia freudiana?
“Por que o tédio é visto predominantemente na sua negatividade?”
Talvez este pequeno passeio pelo fenômeno do tédio tenha contribuído para pensarmos em meio às lacunas, ao vazio e as margens da teoria freudiana. O consultório de Freud era sua metáfora da hora de dormir, a materialização da técnica da Psicanálise exposta no capítulo VII do livro “Interpretação dos Sonhos” (1900). A ancoragem teórica estava na afirmação de que o sonho era a via régia para o inconsciente, e o que determinava a produção onírica era a realização de um desejo inconsciente. Todavia, o caráter enigmático dos sonhos de angustia e o umbigo do sonho, “ponto onde o sonho é insondável, onde se interrompe o sentido ou toda a possibilidade de sentido” (Freud, 1900), já eram impasses declarados à teoria dos sonhos. Mesmo reconhecendo-as, Freud “esforçou-se teoricamente ao longo da obra em adequá-los à sua genial proposição fundamental sem, contudo, satisfazer-se com as próprias explicações” (Coutinho, 2009).      
A palavra Deutung (interpretação) foi utilizada pela primeira vez no livro “Interpretação dos Sonhos”, e seguiu sendo usada por Freud até o caso do “Homem dos ratos”, onde ainda é possível ver a interpretação de “rato” por “sífilis”. Freud abandona este gênero de simbólica posteriormente, por se mostrar ineficaz em algumas análises nas quais a diversidade das figuras clínicas se distanciava cada vez mais da histeria de conversão, trazendo consigo a necessidade de rever e ampliar a técnica psicanalítica. Nas palavras de Mannoni: “Isto quer dizer que nós abandonamos, nas sessões, a Deutung, nascida da análise dos sonhos, e, no fundo, que nós não fazemos quase interpretações – a não ser quando se trate de analisar um sonho – mas nós fazemos somente intervenções” (1991, p.15).
O “umbigo do sonho”, ponto enigmático da “Interpretação dos sonhos”, foi crescendo de tal modo que, através das neuroses de guerra e seus consequentes sonhos traumáticos, culminou na revisão da primeira teoria pulsional, abrindo a possibilidade para Freud pensar o trauma real. Isto significava que o desejo, o recalque, a representação e o princípio do prazer, não eram mais suficientes para dar sustentação teórica para os fenômenos humanos. A compulsão a repetição fez Freud reformular a teoria pulsional, introduzindo o conceito de pulsão de morte.
No livro “A Pulsão Anarquista” (1993), Nathalie Zaltzman diz que reconhecer o funcionamento da pulsão de morte é questionar o modelo teórico e suas eventuais lacunas: “A pulsão de Eros é unificante, uma atividade de ligação; a ação de Thanatos é desorganizadora, desagregadora. Não convém ocultá-la em uma apresentação e desenvolvimentos ordenados. Trata- se de relançar a questão freudiana do funcionamento silencioso das pulsões de morte no inconsciente. O que a investigação analítica conseguiu com as pulsões sexuais, nem sempre fez com as pulsões de morte. Enquanto as pulsões sexuais tem um destino, uma história, uma evolução cujas narrativas, romances, mitos, e até teorias conhecemos, a via analítica fiel a Freud deixou incultas as formas específicas de trabalho psíquico das pulsões de morte denegando a estas seu próprio modo de figurabilidade e a lógica particular de seu funcionamento. A partir deste postulado do caráter não representável das pulsões de morte separadas das pulsões sexuais, surgiu a necessidade de um conceito sobressalente: o das pulsões destruidoras às quais se atribui os efeitos tangíveis, exteriorizáveis da pulsão de morte” (p.21).
 A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco”, diz Fernando Pessoa. O tédio se caracteriza por um estado de vazio e perda de significado; é um fenômeno da psicopatologia da vida cotidiana que cava um vazio em meio aos excessos da vida na metrópole. Esses excessos, de “informação”, sensações, opiniões, demandas e ideais, podem ser interpretados por alguns, como imperativos categóricos; “seja feliz, seja autentico, seja você mesmo, tenha sucesso, seja belo, tenha autonomia” (Moretto, 2015). Podemos pensar o tédio através da pulsão de morte, cuja função é o desligamento, agindo diante de um excesso incorporado de forma intrusiva. Zaltzman diz que a pulsão de morte tem uma missão corporal diferente, uma função de individuação, sendo os limites do corpo como recurso (p.48-50). Por meio do tédio, a pulsão de morte encontra, no silêncio, uma de suas configurações favoráveis de silenciosa satisfação e, neste contexto, determina limites separatórios, impõem limites à presença, e instaura a possibilidade de ausência, promovendo o temporário apaziguamento interior.
Nas análises, os períodos em que o tédio predomina, há um falatório oco e cinza, silêncios embotados, e uma espécie de blindagem impermeável ao psicanalista. Talvez este trabalho seja uma forma de entendermos tal blindagem, que coloca o homem entediado em stand by na sua relação com o mundo. Uma forma mais radical seria dizer que o fenômeno do tédio é uma espécie de anorexia esporádica que temos do mundo, uma perda de apetite necessária para não sermos completamente engolidos pela civilização, pois não há nada que mude o mundo de forma mais rápida que o humor dos olhos que o contempla.
Considero extremamente importante a reformulação da primeira teoria pulsional realizada por Freud, que culminou com os conceitos de pulsões de vida (Eros) e pulsão de morte (Thanatos), pois, além de ampliar a técnica psicanalítica, proporciona um reposicionamento do psicanalista na transferência. É claro que, para isso, é preciso aceitar a reformulação teórica e conceber que é possível trabalhar na sala de análise com o conceito de Thanatos. Se esta reflexão sobre o fenômeno do tédio tem alguma relevância, podemos pensar que certas evoluções da pulsão de morte são muito úteis à vida, e que denegar o seu trabalho nas análises, pode inclusive força-la a recorrer as suas formas tangíveis e exteriorizáveis: “A denegação de sua atividade específica impede que elas sejam reconhecidas em suas formas psíquicas, particularmente pelas resistências do analista que quer torná-las econômicas, e de uma domesticação libidinal demasiadamente bem realizada, enfim de todos estes fatores que só podem acuar as pulsões de morte a se satisfazerem através de formas de representações não psíquicas, onde a morte denegada de seu estatuto inconsciente atua como materialidade bruta” (Zaltzman, 1993, p.57).        
Creio não poder afirmar que o tédio se apresenta sempre de forma pura e isolada de outros fenômenos psíquicos, ou que com ele não podemos identificar também manifestações de resistência dos pacientes. O que considero curioso é que, mesmo quando o tédio só esconde as vísceras, ainda pode ser confundido com resistência. É quando o psicanalista, como o mundo, demonstra sua própria intolerância diante da positividade do fenômeno, e ao tentar sacudir a poeira do tédio, ele próprio incita a transferência negativa. São momentos das análises em que o paciente veladamente lhe diz: “você não terá meios de agir sobre mim, porque eu não quero nada”.  É preciso defender certa pulsão de morte e deixar o demônio entrar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABRAHAM, N. & TOROK, M. (1972) “Luto ou Melancolia”. In A Casca e o núcleo. São Paulo: Ed. Escuta, 1995, p.243-257.
BALLIS, T. F. (2014) Do efeito ao feito: Memória Madalena. Acesso em 23/out/2014 in Revista Vórtice de Psicanálise (http://www.revistavortice.com.br/2014/05/do-efeito-ao-feito-memoria-madalena.html)
BENJAMIN, W. (1985) “A imagem de Proust”. In Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Ed. Brasiliense, p.36-49 v.1.
BENJAMIN, W. (1985) “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Ed. Brasiliense, p.197-221 v.1.
BOLLAS, C. (2000) A Arquitetura e o Inconsciente. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, III, 1, 2000. p.21-46.
COUTINHO, A. H. S. de A. (2009) Sonhos, angústia e alienação. Reverso (online), vol.31, n.58 (citado 2015-10-12), pp.53-62. Disponível em: . ISSN 0102-7395.
ESOPO (2013) Fabulas completas. Tradução Maria Celeste C. Dezotti. São Paulo: Cosac Naify.
FREUD, S. (1900) “A interpretação dos sonhos”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969. v.4.
FREUD, S. (1920) “Além do princípio do prazer”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969. v.18.
FREUD, S. (1924) “O problema econômico do masoquismo”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969. v.19. 
FREUD, S. (1930) “O mal estar na civilização”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969. v.11.
KON, N. M. (1998) “Proust e Freud: Memória involuntária e o estranhamente familiar”. In Percurso - Revista de Psicanálise, São Paulo. Revista do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, ano XI. n 20, 1998.
MACEDO, H. O. De (2011) Leitura de Além do Princípio de Prazer: a insistência de Eros. In Cartas a uma jovem psicanalista. Tradução Claudia Berliner. São Paulo: Ed. Perspectiva.
MANNONI, O. (1991) “O divã de Procusto”. In MCDOUGALL, J. (coord.) O divã de Procusto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. p.11-21.
MORETTO, M. L. O sofrimento na nossa cultura do sucesso | HD | Café Filosófico. Acesso em 12/out/2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nTVuwSGx40c
NIETZSCHE, F. (2014) Assim falou Zaratrusta. Tradução Anna Duarte. São Paulo: Editora Martin Claret. 
PESSOA, F. (1995) Livro do desassossego. Por Bernardo Soares. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2ª edição.
PROUST, M. (2010) No caminho de Swann. Tradução Fernando Py. São Paulo: Ed. Abril, (Clássicos Abril Coleções - v.34).
SVENDSEN, L. (2006) Filosofia do Tédio. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
ZALTZMAN, N. (1993) A pulsão anarquista. Tradução Anna Christina Ribeiro Aguilar. São Paulo: Editora Escuta – (Coleção Ensaios).

THOMAS FERRARI BALLIS é psicanalista.
Email: thomferrari@yahoo.com.br

12 de dezembro de 2015

VERBETES: BENEFÍCIO SECUNDÁRIO



A noção de um benefício secundário da doença foi introduzida por Freud em sua análise de Dora (“Fragmento da análise de um caso de histeria”), em comentário ao objetivo atribuído à sua paciente de afastar o pai da Sra. K. despertando a compaixão dele com seus desmaios. Freud começa por distinguir os “motivos (Motiv) da doença” dos modos que esta pode assumir, isto é, do material de que são formados os sintomas. De 1905 a 1923, uma nota acrescentada ao texto dessa análise nos faz, contudo, assistir a uma evolução de seu pensamento. “Os motivos da doença”, escrevia ele em 1905, “não participam da formação dos sintomas, tampouco estão presentes desde o início da doença; acrescentam-se a ela apenas secundariamente, mas é só com sua manifestação que a doença fica plenamente constituída. É preciso contar com a presença dos motivos da doença em todos os casos que impliquem sofrimento verdadeiro e que se prolongam por muito tempo. Se no início o sintoma não consegue encontrar nenhuma utilização na economia psíquica, é muito frequente que acabe por adquirir uma, secundariamente. Uma corrente psíquica qualquer pode considerar cômodo servir-se do sintoma e desse modo ele adquire uma função secundária (grifo de Freud) e se vê como que enraizado no psiquismo. Aquele que quer curar o doente defronta, para seu grande espanto, com uma forte resistência, que o faz ver que o doente não tem uma intenção tão firme e séria como parece de renunciar à sua doença”. Além disso, “os motivos da doença começam a se manifestar desde a infância”.
Ora, escrevia Freud em sua nota de 1923, corrigindo isso: “não se pode mais sustentar que os motivos da doença não estão presentes desde seu início”, como o sugerem aliás as últimas linhas citadas, e prosseguia: “Considerei melhor o estado das coisas, introduzindo uma distância entre o proveito primário e o benefício secundário da doença. O motivo da doença não é outra coisa que a intenção de obter certo benefício. O que é dito nas páginas que se seguem é correto no tocante ao benefício secundário da doença. Mas a existência de um proveito primário da doença deve ser reconhecida em toda neurose. O fato de adoecer permite antes de mais nada poupar um esforço; é portanto, do ponto de vista econômico, a solução mais cômoda no caso de um conflito psíquico (fuga para a doença), ainda que, na maioria dos casos, a inadequação dessa saída se revele posteriormente de maneira inequívoca. Essa parte primária da doença pode ser chamada de proveito interno psicológico: é, por assim dizer, constante. Por outro lado, são fatores externos, como por exemplo a situação aqui citada de uma mulher oprimida pelo marido, que podem fornecer motivos à doença e representar com isso a parte externa do proveito primário da mesma”.
Para que melhor se compreenda essa evolução, outros marcos intermediários podem ser mencionados.
Em 1915, nas Conferências introdutórias sobre psicanálise, sob o subtítulo “O nervosismo comum”, Freud evocou, sob a influência de Adler e de seu Caractère nerveux, a participação do eu na emergência da neurose e, a propósito disso, retomou a noção do benefício da doença (Krankheitsgewin) a título de uma “função secundária”. Nessa época já fora de fato iniciado o trabalho de análise do eu consecutivo ao aporte de “Sobre o narcisismo: uma introdução”. Esse movimento de pensamento estava destinado a culminar, em 1937, com o artigo “Análise terminável e interminável”, numa visão geral sobre os “processos secundários” considerados do ponto de vista metapsicológico na relação entre o eu e a pulsão.

OBS.: Verbete redigido por Pierre Kaufmann para o Dicionário Enciclopédico de Psicanálise.