14 de julho de 2016

A BICICLETA, A INSUSTENTÁVEL AUSÊNCIA (Marcos InHauser Soriano)



O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer
(JACQUES LACAN)

Este artigo se dá sob o olhar particular do autor sobre Hélène, personagem de “Le Sang Des Autres”, escrito por Simone de Beauvoir em 1945.
Inquieta, trabalhando em uma loja de doces, a jovem Hélène é uma sonhadora, perdida em devaneios apaixonantes de viver um grande amor, de viver grandes aventuras que preencham certo espaço de sentido. Algo falta para uma Hélène completada, autobastante.
O namoro com Paul é morno demais. Ele não responde, metido que está em sua relação com ideias sindicalistas, à solicitação de Hélène, que deseja ser objeto único e absoluto a ocupar a mente do rapaz.
Às vezes surge outra Hélène. Uma outra, que questiona a nadificação do Mundo sem sua presença: o que seria do sentido do Mundo com sua morte, senão sentido algum? A morte extrai qualquer possibilidade de sentido. Mas essa outra Hélène é fugaz. Some à frente de um bom prato. Some a uma Hélène insaciável, devoradora de vida, bifes e batatas.

O que é isso que sentimos que falta?
Em alguns momentos, raros e fugazes é verdade, sentimos uma estranha ausência, um buraco, um nada, como se faltasse uma ponte de ligação que desse sentido à percepção, à realidade que vivemos, a nós mesmos como seres integrados em uma unidade identitária. Em alguns momentos sentimos isso, de uma angústia em busca de representação.
Não me parece aqui que falamos da “falta do falo”. Aqui nos aproximamos mais da teoria pulsional, considerando seu núcleo teórico1. As “angústias impensáveis”2 de Winnicott, bem como o “objeto a”3 de Lacan, seriam boas aproximações, mas ainda falta algo... Uma insustentável ausência.
Acredito que aqui, na tentativa de apreender isso de estranho, que nos localiza como em um universo paralelo da ficção científica - que, aliás, explora com perfeição esse sentimento de falta de ligação de sentido entre o Eu e a Realidade -, estamos no lugar teórico da passagem do biológico ao humano, fundante portanto. No início há a criatura biológica que, aos poucos, através das inúmeras formas de linguagem/transmissão da cultura em que surge, vai se transformando em esboço humano. Rompendo com o cerco biológico4, reconhece-se Eu, humano, detentor de uma linguagem complexa e abstrata a tender para o infinito de possibilidades representacionais. Momento instaurador que, no decorrer da sustentação e unificação da identidade à realidade – uma específica, duradoura e insistente elaboração secundária -, se perde para sempre como possibilidade simbólica, deixando um eco, isso de estranho, um rastro onde não há pistas a rastrear-se. Assim passa a ser no mundo.
Na interpretação deste autor, nesse ponto se dá a origem dos questionamentos de Hélène, representados pela falta de sentido inserida na ideia de Morte. Posto que tentamos buscar representações possíveis, estamos sempre a representar – este ato mental de eterno descompasso5.

A COMÉDIA
Ela olha, dissimula, torna a olhar. Hélène, pela fresta da cortina, fica a admirar a bicicleta azul-claro reluzente, esbelta, elegante, encostada na pedra escura da parede, na rua. Sente-se boba, mas a atração é irresistível. A pintaria de verde-escuro.
A bicicleta era da porteira do prédio em que ficava a confeitaria. Não havia sentido a porteira na bicicleta. Sentido havia em Hélène e a bicicleta, um ser unificado, rasgando o espaço livremente, preenchendo todos os vazios de Paris. Ela/bicicleta poderia ir aonde quisesse.
Debruçava-se à janela vinte vezes por dia flertando a bicicleta. A bicicleta deveria ser dela.
Não há de se procurar inveja em Hélène. Ela não invejava a porteira, dona da bicicleta. Apenas não encontrava encaixe, nenhum sentido. Hélène sentia sentido nas vísceras, ao imaginar-se fundida com a bicicleta. Mas não tinha como se apossar do objeto de guidão niquelado, brilhante, que a chamava para a liberdade das ruas de Paris, tão lisa, tão limpa, tão alegre.

A comédia se dá no desencontro da palavra com o sentido. É o tempo do condicional, das possibilidades paradoxais de ser sujeito, condensando uma história inteira em curto momento de perplexidade. Uma comédia de erros, o reconhecimento do absurdo em nós. Pensa-se mal, replica-se pior, em uma conversa em que o certo e o errado perdem o sentido de julgamento.
Hélène percebe a tolice em que se encontra mergulhada, mas a sensação do objeto fusionado ela/bicicleta é forte, ganha espaço ao dar/buscar sentido no buraco visceral de uma ausência indizível. Momento fugaz. Hélène retorna a seu cotidiano, à sua rotina. Atende um menino que quer guloseimas coloridas. Ela/bicicleta permanece como um eco que não mais encontra sua origem.

O DRAMA
Hélène conhece Jean através de Paul. Paul é um namorado muito morno, critica a absurda fixação na bicicleta. Nesse momento, como montado em um cavalo branco, Jean realiza a proeza para a mocinha – rouba o objeto tão desejado e o entrega para Hélène.
Que ser humano mais incrível. Jean vai se introduzindo no mundo de Hélène: misterioso, indiferente, provocador.
Em um jogo de sutis agressões, Jean, sem perceber, vai se aproximando de Hélène, capturado pela coisa viva que ela representa. Negando profundamente, Jean cede a uma relação nunca antes imaginada.
Hélène quer, como sempre quis, ser a única coisa importante no mundo de Jean. Subjulgado por si mesmo, envolto em culpas sombrias, acusando-se de ter a mancha do “sangue dos outros” em suas mãos, Jean resolve mentir: ele deve amar Hélène. Em sua mentira, não percebe a verdade de que ele a ama.
Hélène vive, então, uma vida de sonhos e guloseimas coloridas, passeando no parque de mãos dadas com aquele homem misterioso, indiferente, provocador.
Do viver encantado surge a dúvida e a certeza do engodo. Para Hélène, Jean não a ama suficientemente. Sob pressão, a relação se destrói para Jean. Para Hélène não. Para Hélène vira obsessão. Deita-se com outros, rebela-se, aborta-se e adoece para ferir o homem que tomou o lugar da bicicleta.
A bicicleta fora largada no meio da rua, logo nas primeiras pedaladas. Agora é Jean que supre a ausência e traz sentido de um romântico passeio pelo parque.
Sem Jean não há sentido, como não há sentido em ele não amá-la. O Jean dela, criado por ela, na fresta da mesma estranha ausência que, em momentos fugazes, a persegue.

O Drama é o tempo do cotidiano vivido dos homens, dos sentimentos delicados e vivências dolorosas. No drama da vida, a dúvida tangencia o sofrimento.
Faz-se, aqui, o resumo da novela de Hélène. Larga-se a bicicleta, agarra-se a Jean. Hélène, num repente, se vê mergulhada em uma cena de verdade, cena desejada, cena duvidosa, dolorosa. Uma cena de verdade não é um conto de fadas, nem termina com “happy end”. Uma cena de verdade é construída, compasso a compasso, à revelia dos personagens que a compõe. Ao desejo, deve-se dar tempo ao tempo – o insustentável da paciência. Não somos bons em ter paciência.

A TRAGÉDIA
Hélène e a bicicleta, um pouco enferrujada, deslizam pelo Bulevar Saint-Michel. Ela está de namorico com Herr Bergmann. Ela vai para Berlim. Os alemães invadiram Paris, o fascismo avança. Ela está à parte de tudo isso. Sonha com Berlim.
“Robert Jardiller, engenheiro de Lorient, condenado à morte por ato de sabotagem, foi fuzilado esta manhã” – o pequeno cartaz amarelo choca um pouco, mas ela vai animada encontrar o namorado alemão no restaurante. Ela está com fome. Nada disso tem importância... Nada. As pessoas viviam e sofriam, mais nada.
Hélène despertou na Praça de Contrescarpe – uma cena, um despertar outra. A visão de uma mãe judia sendo separada da filha pequenina caiu como chumbo na francesa. Enfim, o eco fantasmático voltou a ecoar: qual o sentido? Reconhecera-se, então, como uma menina mimada, a não fazer absolutamente nada. Voltaram as ideias do sindicato e do movimento da Resistência. Voltou a figura de Jean.
A existência enchera-se de sentido. Prestes a morrer, após uma missão fracassada da Resistência, com o pulmão perfurado à bala, Hélène encontra-se serena. Viveu sua aventura. Ficara, para sempre, marcada no pensamento de Jean.
A bicicleta desliza, livre, pelas ruas de Paris... Tranquila. Os olhos se fecham para sempre, a respiração cessa... Tranquila.
Hélène ficará para sempre em Jean: “Você me trouxe a coragem de suportar meus crimes e o remorso que sempre me há de torturar. Não há outro caminho”.

A Tragédia é o tempo em que a vida encontra o destino. Na Tragédia não há solução humana. A Tragédia é o roubo, o trauma, a que, costumeiramente, chama-se história. Uma história que se vai descobrindo no fundo do sentido buscado nos acontecimentos particulares – tragédia inescapável.
Hélène, ao buscar sentido em mundo sem sua presença, o encontra na morte. O passeio de bicicleta vai, sem a autonomia do sujeito, tecendo os fios do desejo de Hélène, qual seja, ser para sempre em Jean. É no mundo vivido de Jean que Hélène terá, enfim, sentido. Aqui, de forma sublime, Simone de Beauvoir nos mostra que Jean não importa... O que importa é a sobrevivência de Hélène e sua bicicleta, a apontar a liberdade do ser, perdida para sempre na brecha da passagem enigmática do biológico para o pulsional humano – o trauma, a matriz de estampagem do desenho do desejo, o diagnóstico do Homem.

Estranho momento esse. Remoto, distante, perdido no tempo. O momento no qual, de repente, nos sentimos alguém, um sujeito, passamos a ser gente. Na maioria das vezes, em quase sua totalidade na verdade, não pensamos nisso. Nossa rotina cotidiana torna essa reflexão desprovida de sentido racional. Raramente vem à mente a busca por esse sentido, o de que, em certo momento, nos tornamos gente.
Mas está em nós. Uma lacuna, essa que nos faz romper o cerco biológico e adentrar no mundo humano, na maioria das vezes sem escolher o lugar que ocuparemos – somos ocupados pelo destino, pelo Real.
Fica certa angústia, certo eco, qual fantasma a assombrar a periferia de nossas representações. De sobressalto somos tocados por essa ausência de sentido, seja cômica, dramática, ou tragicamente6.
Uma insustentável ausência: aquilo que fui sem nunca ter sido.

NOTAS
1. O conceito de pulsão (Trieb) é, dentro do corpo teórico da Psicanálise, de complexidade ímpar, aparecendo pela primeira vez em 1905, e sendo trabalhado até os dias atuais. Freud escreve em 1933 que a Teoria das pulsões deve ser considerada a Mitologia da Psicanálise. Para nossos fins, o que denomino de núcleo teórico é a base lógica de toda a estrutura do conceito, qual seja, a pulsão é uma carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico do humano, portanto, um impulso proveniente do biológico e do psíquico. A pulsão, delimitada em sua área conceitual - importante salientar a ideia de “área conceitual”-, coloca em movimento todo o aparelho mental.
2. As “angústias impensáveis”, ideia desenvolvida por Winnicott, nos remetem ao perigo extremo de o indivíduo “cair” fora da existência, de que a existência enquanto tal não se dê, ou se perca. Partindo da experiência da observação de mães segurando seus bebês, Winnicott situa um tipo original de angústia, localizada em um momento pré-verbal, pré-psíquico e pré-representacional, anterior ao início de qualquer capacidade relacionada a mecanismos mentais, e muito anterior ao reconhecimento de impulsos instintuais, momento anterior ao fazer parte de si-mesmo auto-significante. A queda do bebê dos braços da mãe, ainda um esboço do humano, em um cair e cair e cair, sem espacialidade, sem temporalidade.
3. O “objeto a”, termo introduzido por Lacan em 1960, designa o objeto desejado pelo sujeito, mas que se furta a ele, a ponto de ser “não representável”, ou de se tornar um “resto” não simbolizável, uma “falha-a-ser”. Em um aforismo deslumbrante, e importante para o presente artigo, Lacan, em 1965, resume: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”.
4. Fabio Herrmann denomina o simulacro biológico de “cerco das coisas”. Através do equívoco no diálogo afetivo/linguístico/corporal entre mãe e bebê, a pequena criatura biológica vai inserindo-se no campo humano, processo denominado por Herrmann como “familiarização”.
5. A representação, para Fabio Herrmann, é como o “abecedário” do aparelho mental, sempre em descompasso em um tentar representar a união do sujeito a seu mundo. O “Eu”, citado algumas vezes no presente artigo, é tido como função defensiva da representação, forçado núcleo identitário a promover uma falsa síntese de tantos possíveis de ser-em-si – forma exemplar do que denomino de “descompasso”.
6. Fabio Herrmann encontra analogia entre a Comédia, o Drama e a Tragédia, com os três tempos de uma análise: o tempo curto, o tempo médio, e o tempo longo, respectivamente. Os três tempos estão aqui representados na apresentação de Hélène em três formas possíveis, portanto, sobrepostas.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br

18 de junho de 2016

PSICANÁLISE E PLANOS DE SAÚDE: A QUE PREÇO? - A EXPANSÃO DA PSICANÁLISE A USUÁRIOS DOS PLANOS DE SAÚDE (Aline Augusta Silveira Dias & Maria Alzira Marçola)


Sob Orientação de Maria Alzira Marçola

Na atualidade, há uma demanda considerável de pacientes que buscam acompanhamento psicológico por intermédio dos convênios de saúde. A partir disto, visa-se com este artigo, articular os desafios da psicanálise em intervenções clínicas de pacientes conveniados aos planos de saúde e seus desdobramentos na prática clínica. Neste estudo objetiva-se compreender os impasses da criação de vínculo entre analista e paciente, e como o intermédio do convênio pode influenciar na transferência. Espera-se com este trabalho contribuir para que os analistas possam repensar sua prática clínica nos planos de saúde, e colaborar para que essa demanda crescente possa ser atendida pela psicanálise. Acredita-se que, mantendo o método psicanalítico, é possível haver análise, independente do setting, sendo a técnica manejada de acordo com o analista.


PSICANÁLISE E OS PLANOS DE SAÚDE
Na atualidade, há uma demanda considerável de pacientes que buscam acompanhamento psicológico por intermédio dos convênios de saúde. Para tanto, visa-se com este artigo articular os desafios da psicanálise em intervenções clínicas de pacientes conveniados aos planos de saúde e seus desdobramentos na prática clínica.
O atendimento por intermédio dos planos de saúde reflete um novo tempo, que deve ser entendido e englobado no saber-fazer da prática psicanalítica aos profissionais que se propõe a este trabalho. Tornou-se possível a entrada de psicólogos nos planos de saúde, de origem médica, passando a oferecer atendimento psicológico a pessoas que mal compreendiam a importância deste acompanhamento (Pires, 2014).
Em 2006 foi aprovada a resolução 211, da Agência Nacional de Saúde, tornando obrigatória a cobertura de atendimento psicológico por parte dos convênios de saúde. Com esta obrigatoriedade, aumenta-se a demanda clínica, fazendo-se necessário pensar a prática clínica psicológica, para além das regras do convênio. Desta forma, segundo Pires (2014), precisamos refletir, ampliar e validar saberes da prática clínica, aprofundando os conceitos fundamentais da Psicanálise.
Junto a esta possibilidade de ampliação do atendimento psicológico, há muitos aspectos para se pensar na prática clínica do analista. Uma delas, é que o convênio torna-se um elemento que entra no consultório impondo condições pré-estabelecidas a uma técnica que tem como única regra a associação livre, na qual o paciente deve dizer tudo o que lhe vier à cabeça (Raphael, 2004). Dentre esses elementos impostos estão a quantidade de sessões anuais liberadas pelo convênio, a exigência de diagnósticos clínicos de acordo com o CID 10 – Classificação Internacional de Doenças -, sua relação com o tempo de tratamento, e a falta de participação do paciente quanto ao pagamento das sessões.
As condições determinadas pelas instituições gerariam impasses na técnica psicanalítica?  Se de um lado o convênio demanda o cumprimento de normas, por outro lado a Psicanálise tem seus próprios princípios. Seria isto fazer psicanálise? (Raphael, 2004).
Poderia a psicanálise se adaptar às novas condições da contemporaneidade? Freud, em 1919, expressava a importância de estender a psicanálise para um número maior de pessoas:

Defrontar-nos-emos, então, com a tarefa de adaptar a nossa técnica às novas condições. Qualquer que seja a forma que essa psicoterapia para o povo possa assumir, quaisquer que sejam os elementos dos quais se componha, os seus ingredientes mais efetivos e mais importantes, continuaram a ser certamente, aqueles tomados à psicanálise estrita e não tendenciosa” (Freud, 1919, p. 211).

Para se pensar a técnica psicanalítica consideramos os princípios do bem-fazer de uma análise. E devemos trabalhar de maneira que a técnica adeque-se ao método da Psicanálise, e este deve sempre ser mantido. Dentre as questões pertinentes à técnica tem-se a associação livre de ideias e a atenção flutuante, que devem levar em conta o processo transferencial (Herrmann, 1989).
Segundo Herrmann (1999), o método em Psicanálise é a interpretação. Para interpretar há diretrizes, momentos propícios, formas de atenção do analista, ritmos e estilos para elaborar a interpretação, considerando a individualidade de cada paciente, em cada momento da análise.
    
É evidente que método (caminho) e técnica (encaminhar) não são a mesma coisa. Pode-se compreender, por exemplo, que um apego muito grande à moldura desvie o analista de seu trabalho com as emoções e/ou conflitos psíquicos, tornando a clínica esvaziada. Resumindo: ‘Processo: encarnação do método em fato clínico. Técnica: arte de bem conduzi-lo em conformidade ao método’” (Herrmann, 1989, p. 17).

Para tanto, entende-se que o método deve ser mantido, porém há uma flexibilização da técnica. Desta forma, tem-se o seguinte questionamento: pode a técnica psicanalítica ser manejada em pacientes atendidos por mediação dos convênios de saúde? As exigências dos planos de saúde permite manter-se o método psicanalítico nos atendimentos clínicos?
A prática profissional na clínica psicanalítica leva a pensar em vários questionamentos que serão tratados ao longo do trabalho. Destaca-se neste estudo a transferência no processo psicanalítico, a exigência de diagnósticos clínicos nas entrevistas iniciais de acordo com o CID 10 – Código Internacional de Doenças -, e sua relação com o tempo de análise, e o pagamento.
Este trabalho visa contribuir para que os analistas possam repensar sua prática clínica nos planos de saúde e colaborar para que essa demanda crescente de pessoas que buscam psicoterapia possa ser atendida pela Psicanálise.
Neste estudo objetiva-se compreender os impasses da criação de vínculo entre analista e paciente, e como o intermédio do convênio pode influenciar na transferência.
Tem-se, hipoteticamente, que se o método psicanalítico é mantido, é possível haver análise. A técnica pode ser manejada de acordo com o analista. Portanto, se a demanda institucional não interfere na técnica, é sim possível a parceria entre a Psicanálise e os convênios de saúde. Segundo Marçola (2006), a Psicanálise cabe em qualquer lugar ou tempo.
Este estudo tem como principais fontes de pesquisa Freud, Lacan e Herrmann, e autores que tenham o embasamento teórico destes.
Para a concretização do presente artigo, partiu-se de um levantamento bibliográfico sobre a clínica psicanalítica em extensão, associado com a vivência no consultório particular, buscando identificar os impasses vivenciados na clínica e o possível manejo destes no trabalho analítico.
Definido o objetivo do trabalho, passo a apresentação do conteúdo.

A CLÍNICA PSICANALÍTICA E A CONTEMPORANEIDADE
A vida contemporânea requisita outro olhar em relação às novas formas de organização social, e cada época pode ser pensada através das características de seu laço social. Na era industrial, tinha-se um ideal a se alcançar em uma organização, pois eram laços que se constituíam de forma vertical. Com a modernização, a globalização, os laços sociais se tornaram horizontais, e as pessoas não sabem mais chegar ou mesmo aonde ir (Garcez, 2009).
Com essa atual paisagem social, a Psicanálise vem respondendo de outro lugar, aplicada em diversos campos de atuação, trazendo essa nova modalidade de atendimento desafiadora para a Psicanálise, que é o atendimento via plano de saúde (Garcez, 2009).
Segundo Marçola (2006), pensar a psicanálise vinculada ao atendimento institucional, não se trata de adaptá-la ao contemporâneo, mas sim de ampliar seu campo de atuação, mantendo a regra fundamental.
Relativo a isto, Pires (2014) nos traz que “novos tempos exigem a construção de novos paradigmas capazes de tornar possível a construção e manutenção do vínculo terapêutico” (p. 37), o que nos remete ao estudo da transferência no processo terapêutico.

A TRANSFERÊNCIA NA PSICANÁLISE
Em se tratando dos atendimentos por intermédio dos planos de saúde, a transferência, condição de entrada do sujeito em análise, se dá, em grande parte, inicialmente ao convênio e não ao institucional do analista.
A transferência é o movimento do sujeito que apresenta ao analista algo da sua realidade através da fala. A interpretação é um recurso do analista(Figueiredo, 1997, p.125). Portanto, se pode haver um impasse na transferência, há um embaraço no manejo da clínica psicanalítica que precisa ser pensado. À vista disso, o atendimento por via do plano de saúde impossibilitaria o processo transferencial do paciente para com o analista? Esta foi a questão central que motivou o desenvolvimento deste trabalho. Assim, discorreremos mais sobre a transferência e por consequência também sobre o sujeito suposto saber direcionado ao analista, termo cunhado por Lacan.
Quando o paciente busca por uma análise dizendo querer desvincular-se de um sintoma, ele se coloca diante de um enigma que supõe um saber no analista (Raphael, 2004).
Figueiredo define o conceito de suposto saber:

O conceito de suposto saber é central para definir o estatuto da transferência. O analista, ao ser autorizado a escutar um sujeito, está suposto, não como aquele que sabe, mas como aquele que deve receber a fala do sujeito como produção de saber, para dar-lhe um destino pela via da interpretação. O sujeito, por sua vez, só fala porque supõe que isso irá levá-lo a algum lugar ainda não sabido. Seria uma espécie de prova de fé no inconsciente como promessa de significação.(Figueiredo, 1997, p.27)

Ao mesmo tempo em que o paciente supõe o saber do analista, ele também deve duvidar. Este suposto saber, no qual se acredita que o analista sabe, mas ao mesmo tempo o paciente duvida, permite o bom andamento do trabalho analítico. Contudo, é comum que a transferência nesta modalidade de atendimento, mesmo que direcionada ao analista, esteja relacionada ao que Lacan nomeia como discurso do mestre. Neste discurso, o paciente coloca o analista na posição de mestre, ou seja, daquele que detém o saber sobre o outro. Assim sendo, como manejar esta relação transferencial?
Segundo Forbes, o conceito lacaniano de discurso do mestre aponta para aquele que sabe sobre o outro, sendo “aquele que tem todo o saber” (Forbes, 1993, pag.17).

O discurso do mestre é o ponto de partida e após o encaminhamento para análise, esse discurso poderá versar para o discurso analítico e então o sujeito advir.” (Garcez, 2009, p.93)

Para tanto, há necessidade de um trabalho inicial diferente de quando um paciente nos procura a partir da indicação que buscou o atendimento terapêutico, que já tem formulada a sua questão a ser dirigida a aquele que supõe saber a resposta. No caso dos pacientes encaminhados pelos Planos de Saúde, a entrevista inicial é considerada por eles uma consulta única de solução de um problema levantado pelo médico. A transformação dessa demanda médica em demanda pessoal é apenas o primeiro passo de um longo trabalho de construção do lugar onde analista e analisando poderão, enfim se encontrar.” (Pires, 2014, p.130)

Portanto, o analista deve intervir para que essa transferência destinada inicialmente ao convênio, possa então transformar-se em outro vínculo, um vínculo transferencial ao analista.
O convênio constitui-se como um terceiro elemento na análise. Inicialmente o convênio sustenta a análise ao indivíduo e depois há possibilidade de convocar o sujeito ao trabalho, passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita (Garcez, 2009).

Este terceiro, o convênio médico, intervirá e determinará os caminhos da dupla, mas não poderá restringir suas possibilidades de escolha dentro do que acontece dentro da sessão, inclusive no reconhecimento do quanto esta dependência necessária do convênio médico pode estar a serviço do sintoma.” (Pires, 2014, p.62)

No parágrafo seguinte, as colocações de Raphael permitem refletir o que acontece quando o terceiro elemento perde a importância no trabalho de análise e então a transferência está destinada ao analista. 

Nesse processo, o analista ocupa o lugar do Outro, através do endereçamento da demanda do analisando quando se constitui a transferência. Por intermédio do seu discurso o analisando vai construindo sua história pela cadeia de significantes, buscando um sentido para seu enigma. De quando em quando um outro sentido se confere, fazendo surgir uma significação. É esse processo de novas significações que permitirá ao sujeito se inserir na sua história.” (Raphael, 2004, p.2)

Na citação anterior, o autor traz o termo lacaniano Outro, utilizando a primeira letra em maiúsculo. Quinet nos explica do que se trata o grande Outro:

O grande Outro, cujo discurso é o inconsciente, que se manifesta nos sonhos, lapsos, sintomas e chistes e que, por ser da ordem do simbólico, é tecido de linguagem e pode ser ‘encarnado’ no Outro do amor – inclusive o amor de transferência –, ao qual se dirigem as demandas e ao qual está articulado o desejo.” (Quinet, 2012, p.7)

Nessa modalidade clínica nos deparamos com outro tipo de demanda: a ausência dela. Muitos pacientes precisavam desse estímulo para chegar à clínica, ou estão curiosos; mas em outros momentos querem somente usufruir das sessões que o plano de saúde oferece, como uma forma de gozo. (Garcez, 2009).

Quando um paciente, principalmente indicado pelo Plano de Saúde, procura ajuda para suas questões psíquicas, ainda não sabe direito o que veio buscar. O trabalho de construir e ajudá-lo a formular uma pergunta direcionada ao analista é o primeiro a ser realizado por esta dupla. Levantar a demanda de análise não é tarefa fácil, mesmo quando não existem intermediários a este pedido.” (PIRES, 2014, p.91)

Ao analista cabe prestar-se ao lugar de objeto que lhe cabe no momento, ouvindo ao que cada paciente veio, apostando no que pode advir desse encontro. As portas se abrem para muitos que estavam sendo em casa supervisionados e apenas medicados pela clínica psiquiátrica, e uma gama de material clínico se oferece ao analista que aposta nessa clínica e se coloca a disposição de um saber-fazer com isso (Garcez, 2009).

E mesmo com os atravessamentos, deve-se analisar que os pacientes mantêm uma regularidade nas sessões. E o que os faz voltar? Esta é a frequência que nos interessa. Cabe ao analista se valer dela ao máximo para fazer valer a sua diferença de quem volta.” (Figueiredo, 1997, p.119)

A questão de ‘por que voltam?’, se soma à de ‘como voltam?’. Aí podemos ter indícios de como vai o trabalho de elaboração, e de até onde o sujeito pôde caminhar. Curiosamente, uma norma burocrática pode funcionar com um recurso importante no manejo da transferência.” (Figueiredo, 1997, p.120)
                                                  
A EXIGÊNCIA DE DIAGNÓSTICOS CLÍNICOS ATRAVÉS DO CID-10 E SUA RELAÇÃO COM O TEMPO DE TRATAMENTO
Por determinação da ANS, Agência Nacional de Saúde, os pacientes dos planos de saúde serão encaminhados para o acompanhamento psicológico somente mediante o encaminhamento do médico da instituição conveniada, e a compreensão do sintoma através da psicanálise se difere estrategicamente do modelo médico (Pires, 2014).  Sendo assim, o início do tratamento já é atravessado pelo olhar médico. Portanto, precisamos nos atentar para estarmos a serviço do paciente e não do médico.

Se nos alinharmos com esse pedido, nos colocaremos a serviço do médico, ou seja, como um complemento de sua atuação. Esta posição implicará diretamente na relação terapêutica, na qual o paciente não se apropriará de suas dores psíquicas e o analista não se apropriará de seu lugar através da aplicação de seus conhecimentos acerca do psiquismo.” (Pires, 2014, p.31)  

A instituição do convênio exige ao psicólogo que apresente o diagnóstico através do CID – Código Internacional de Doenças -, o qual se baseia em uma linguagem médica, enquanto que o analista realiza o diagnóstico transferencial/estrutural, se baseando nas estruturas psíquicas, assim como: a neurose, a psicose e a perversão.
Compreender o diagnóstico estrutural é essencial na condução do tratamento analítico. É a partir do diagnóstico, que se dá a condução do tratamento. Contudo, os convênios de saúde poderiam abrir espaço para que os analistas sirvam-se dos moldes estruturais psicanalíticos.

Os primeiros encontros sinalizam como o sujeito se relaciona com o outro, oferecendo material para a compreensão de como está estruturado, bem como do que desestabilizou ou vem desestabilizando o ponto de estar ali, encaminhando sua queixa a alguém desconhecido. Podemos dizer que temos três tarefas a realizar: ouvir e acolher o sujeito em seu sofrimento; detectar, em suas histórias, suas defesas; e detectar como se organizou até então e descobrir o que o desestabilizou.” (Pires, 2014, p.76)

Quando os planos de saúde delimitaram a cobertura mínima de doze sessões anuais, essa quantidade foi pensada como uma possibilidade de cura de uma doença que se encontra instalada no corpo para um cérebro que não está respondendo de uma maneira adequada. Portanto, esta quantidade de sessões não foi pensada a partir do tempo de tratamento da psicanálise (Pires, 2014).
A partir do diagnóstico clínico, é que podemos pensar no tempo de tratamento oferecido pelo plano de saúde. “A gravidade é determinada a partir dos modelos médicos, bem como o tratamento” (Pires, 2014, p.20). “No entanto, na clínica que atende a pacientes de convênios médicos, o diagnóstico é fundamentalmente instrumento administrativo e burocrático, que serve para a continuidade ou interrupção do tratamento” (Pires, 2014, p.75).
E em quanto tempo deve ser um processo de análise? Lacan se refere ao tempo do analisando de uma maneira subjetiva e no processo de associação livre, entre o dizer e o dito, o tempo é o tempo do inconsciente e não um tempo cronológico. De maneira que cada um tem seu próprio tempo de análise que é intrínseco ao seu processo analítico. Ao analista, cabe conduzir o tratamento a partir da fala do analisando, sem se limitar a um tempo que se mede cronologicamente (Raphael, 2004).
Relativo a isto encontramos que:

Ao considerar o inconsciente enquanto instância de registros temporais de outra ordem que não a cronológica, e que a conscientização do próprio desejo está vinculada a um tempo lógico, surge então a hipótese de que nem sempre precisamos de um longo tempo linear para realizar uma análise.” (Marçola, Romera & Paravidini, 2010, p.136)

As doze sessões liberadas inicialmente pelo convênio, podem ser uma possibilidade para que o sujeito se implique em seu tratamento, podendo vir a bancar a sua análise de outro lugar, buscando continuar com as consultas, mesmo que de forma particular.

Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de doze sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo-se a três meses de trabalho ou pode ser alternado com sessões particulares, ficando a critério e opção para o paciente, de modo com que ele tenha que administrar sua análise e as sessões a que tem direito.” (Garcez, 2009, p.92)

Abre-se, então, uma porta para a aplicação e extensão da psicanálise, e caberá ao analista e ao sujeito em análise a engancharem-se no processo (Garcez, 2009, p.92)
           
O PAGAMENTO
As sessões são pagas ao analista pela instituição do convênio de saúde, e na maioria das vezes o paciente não tem uma participação direta neste processo. 
O pagamento faz às vezes do objeto perdido, considerando que o analisando precisa pagar, para que então consiga sair do gozo do sintoma. O dinheiro serve para amoedar o capital da libido, uma questão que não pode faltar. O sujeito quando produz um sintoma, lucra com ele, e na análise, através da transferência de capital, há um corte na economia de gozo do sintoma (Raphael, 2004). Entende-se então que o dinheiro tem um significado particular no tratamento do analisando.

O dinheiro, assim como o sexo, passa da condição de necessidade, para a qualidade de demanda e desejo, a partir do momento em que o sujeito tem acesso a linguagem, ou seja, que passa a fazer parte do mundo simbólico, dando-lhes recursos próprios do mundo subjetivo. Assim, dinheiro e sexo nunca são apenas dinheiro e sexo, mas símbolos poderosos e singulares de cada sujeito.” (Pires, 2014, p.87)

Aí, podemos nos interrogar: Se é o outro (a instituição) que paga e não o próprio sujeito, o gozo no sintoma se mantém?” (Raphael, 2014, p.4). Por mais que as alterações se façam necessárias, o que possibilitará a parceria da psicanálise com os planos de saúde é a presença do analista (Raphael, 2004).

O pagamento deve ser caro ao sujeito, é preciso cobrar não-pouco para que esse preço lhe seja mais valioso que o seu sintoma. O sujeito deve pagar bem para que possa abrir mão do seu sintoma em nome da análise. Esse não pouco só pode ser escutado pelo analista na singularidade do discurso de cada analisando.” (Garcez, 2009, p.94)

Um manejo da passagem das sessões pagas pelo plano de saúde – que é caro ao sujeito – ao pagamento com dinheiro, moeda libidinal por excelência, é parte integrante do manejo da transferência, e possibilita que as questões que estejam enlaçadas a este significante sejam relançadas no processo da análise. E quando o sujeito consegue sustentar a análise, tem um tempo próprio e se liberta do tempo contabilizado pelas operadoras (Garcez, 2009).
Quanto ao dinheiro, pode-se pensar em sugerir às operadoras para que não tenham um preço pré-fixado. E por consequência, a transferência estaria mais direcionada a figura do analista (Raphael, 2004).
E além do dinheiro propriamente dito, há outras formas de se pagar pela análise, que também podem ser caras ao sujeito. Assim como cita Figueiredo:

Por outro lado, foram mencionadas formas indiretas de pagamento como um custo real para os pacientes que se engajam nos tratamentos: o tempo e o dinheiro que gastam até o serviço pelo menos uma vez por semana; diaristas que perdem no mínimo um turno de trabalho e remuneração, donas de casa que deixam seus lares e seus filhos entregues a sorte em boa parte do dia; jovens que perdem às vezes um dia inteiro de aula, gazetas a parte, e tem que se haver com as provas e demandas dos professores; trabalhadores em geral que sofrem pressões para não ausentarem regularmente dos empregos; desempregados que conseguem emprego e têm que arcar com uma escolha difícil de abandonar seus tratamentos ou negociar com os patrões, pais que têm de levar os filhos vencendo todos os tipos de obstáculos, e por aí vai. Haja investimento e inventividade! Estes são alguns exemplos que devem ser avaliados como pagamento ou avaliação na resistência. (Figueiredo, 1997, p.106)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um primeiro momento teve-se como objetivo compreender as possíveis “saídas” para os atravessamentos da clínica, o que tinha se tornado uma questão muito eminente e necessária no desenvolver da prática clínica mediada pelos convênios de saúde.
Com o tempo de experiência com a clínica por intermédio dos planos de saúde, foi possível perceber que os impasses na clínica vinham muito mais pela forma em que o analista se coloca na clínica e como se maneja a transferência. De forma que se o analista engaja-se no tratamento, os atravessamentos pouco interferem em sua prática.

Não se trata de defender a posição ingênua de ‘psicanálise para todos’, mas de apostar numa maior aplicação do dispositivo psicanalítico que permita seu exercício além dos consultórios privados com clientes estreitamente afeitos à cultura ‘psi’.(Figueiredo, 1997, p.15)

Nessa modalidade de atendimento, via plano de saúde, a psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico (Garcez, 2009, p.94). E podemos então, ampliar a Psicanálise para o atendimento da demanda contemporânea.
É possível trabalhar dentro dessa modalidade, desde que priorizemos o sujeito e as questões fundamentais para o seu tratamento, operando no dispositivo clínico e produzindo efeitos. O que não nos impede, enquanto analistas, de propor modificações aos convênios para que o credenciamento possa estar destinado à Psicanálise (Raphael, 2004).   
Através da prática clínica, é possível perceber que os atendimentos por via dos planos de saúde, não impossibilita que se produzam os efeitos esperados em uma análise. Estes efeitos são bem mencionados, por Marçola, Romera e Paravidini:

Espera-se que a vivência psicanalítica torne a pessoa menos alienada em relação às manifestações do inconsciente, propiciando que ela seja mais tolerante, consigo mesma e com o outro. A análise aproxima o homem do centro de sua constituição, tornando-o mais capaz de se responsabilizar por sua condição desejante, levando o sujeito a reconciliar-se com o absurdo de sua constituição, pois o mal-estar do homem é um mal-estar constituinte, e dele não nos curamos. A cura numa análise desengana o sujeito até onde ele suporta ser desenganado. O sujeito é desenganado para viver. A possibilidade de isso vir a acontecer fica condicionada ao manejo que o analista faz do método psicanalítico em seu ofício cotidiano, ficando na dependência de se tomar o discurso do paciente pelo seu valor de ruptura das configurações de auto-representações.” (Marçola, Romera & Paravidini, 2010, p.144)

Os tempos atuais demandam por novas formas de atendimento, assim, precisa-se encontrar para esta nova realidade social manejos para cada prática que surgir (Garcez, 2009).

O tornar público a que me refiro, no que diz respeito à psicanálise, é fazer circular, entre os pares de profissionais afins, o cotidiano da clínica com seus impasses e sucessos. É também produzir trabalhos, estudos de casos e pesquisas para redimensionar o alcance da teoria em relação à experiência clínica, que traz desafios de todos os tipos.” (Figueiredo, 1997, p.11)

Desta forma, entendemos que atender pelo convênio de saúde não impede o saber fazer psicanalítico na clínica. Se o método psicanalítico é mantido, é possível haver análise. A técnica pode ser manejada de acordo com o analista. Portanto, se a demanda institucional não interfere na técnica, é sim possível a parceria entre a psicanálise e os convênios de saúde.
    
O fato de haver análise não depende nem de sua duração, nem do lugar, nem do ritual, mas sim do tipo de operação que se efetua sobre o gozo, graças aos poderes da fala: para nós, o enquadre é feito para servir à análise, e não que a análise seja feita para servir ao enquadre.” (Guéguen, 2007, p.19, apud Garcez, 2009, p.93)
    
Espera-se que este artigo venha constituir-se uma possibilidade de novas discussões e novos olhares para com esta prática. Pode-se entender que a psicanálise, aberta aos planos de saúde, é a psicanálise ampliada ao sujeito contemporâneo que traz demandas pertinentes à sua época. É a clínica psicanalítica em sua extensão, que abre espaço para novas pesquisas sobre o saber-fazer psicanalítico neste contexto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, S. (1919) “Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica” in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v.XII.

FIGUEIREDO, A. C. F. (1997) Vastas confusões a atendimentos imperfeitos e a clínica psicanalítica no ambulatório público. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

FORBES, J. (1993) Os eixos da subversão analítica: os quatro discursos. Instituto de Psicanálise Lacaniana. Disponível em: http://www.ipla.com.br. Acesso em: 20/08/2015.

GARCEZ, M. M. (2009) “Novas urgências sociais: a psicanálise e o plano de saúde” in Psicologia em foco. Aracaju, Faculdade Pio Décimo. v.3, n.2 jul/dez, 2009. Disponível em: http://periodicos.piodecimo.edu.br. Acesso em: 10/03/2015.

HERRMANN, F. (1999) O que é psicanálise – para iniciantes ou não. São Paulo: Psique.

HERRMANN, F. (1998) “Interpretação: a invariância do método nas várias teorias e práticas clínicas” in S. A. Figueira (Org.) Interpretação: sobre o método da psicanálise. São Paulo: Imago.

LANZONI, M. da P. Z. (2008) “Avanços na técnica psicanalítica” in Jornal de Psicanálise. São Paulo, v.41, n.75 dez, 2008. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo. Acesso em:  16/07/2015.

MARÇOLA, M. A. (2006) Um estudo sobre o tempo no processo analítico – reflexões sobre uma postura metodológica psicanalítica. 181 f. Tese (Mestrado em Psicologia). Instituto de Psicologia, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia.

MARÇOLA, M. A.; ROMERA, M. L. C. & PARAVIDINI, J. L. L. (2010) “O tempo da clínica: dimensão investigativa e terapêutica” in Revista Brasileira de Psicanálise. v.44, n.2, p. 135-146. 2010. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org. Acesso em: 10/08/2015.

PIRES, S. (2014) Psicanálise e Planos de Saúde. São Paulo: Biblioteca 24 horas.

QUINET, A. (2012) Os outros em Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.

RAPHAEL, J. K. (2004) “Psicanálise e convênio: uma parceria possível?” in Cógito, Salvador. v.6, 2004. Disponível em: http://pepsi.bvsalud.org. Acesso em: 22/02/2015.

SANTOS, L. G. dos & FERRARI, I. F. (2014) “A psicanálise aplicada à terapêutica: uma perspectiva histórica” in Revista aSEPHallus de Orientação Lacaniana. v.9 n. 17. Nov/2013 a abril/2014. Disponível em: http://www.isepol.com/asephallus. Acesso em: 02/07/2015.

VALE, S. C. & CASTRO, J. E. (2013) “O tempo e o ato analítico” in Tempo Psicanalítico. Rio de Janeiro. v.45.1, p. 439-451. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org. Acesso em: 09/08/2015.


ALINE AUGUSTA SILVEIRA DIAS é psicóloga.
Email: alinediaspsico@yahoo.com.br

MARIA ALZIRA MARÇOLA é psicóloga e docente.
Email: m_alzimarcola@yahoo.com.br

8 de abril de 2016

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: OTTO RANK


OTTO RANK (1884-1939), psicanalista austríaco, teórico da renovação da técnica psicanalítica, questionando radicalmente o tratamento clássico em favor de uma terapia dita “ativa”, brilhante especialista em filosofia, literatura e psicanálise aplicada, clínico notável, Rank foi o único autodidata dos discípulos freudianos da primeira geração. Espírito independente, hostil a todos os dogmatismos, foi, como Sandor Ferenczi, o artífice da primeira grande dissidência interna na International Psychoanalytical Association (IPA). Ao contrário de Alfred Adler, Carl Gustav Jung ou Wilhelm Stekel, permaneceu freudiano. Sua posição crítica se afirmou a partir de 1923, em uma época em que o movimento psicanalítico, preocupado com conformismo, normalização e pragmatismo, começava a adotar ideais adaptativos contrários ao freudismo original.
Nascido em Leopoldstadt, nos arredores de Viena, Rank era o terceiro e último filho de Simon Rosenfeld, um joalheiro judeu originário de Burgenland, e de Karoline Fleischner, cuja família era da Morávia. Apesar de um bom currículo escolar, foi obrigado, aos 14 anos, a entrar em uma escola técnica, a fim de preparar-se para trabalhar como mecânico. “Foi assim, escreveu ele em seu Diário de adolescente inédito, que eu cresci, entregue a mim mesmo, sem educação, sem amigos, sem livros”.
Atingido muito cedo por um reumatismo articular agudo, o jovem Otto sofria tanto com essa doença dolorosa quanto com sua feiura física e com suas relações violentas com o pai, alcoólatra inveterado e sujeito a graves crises de cólera. Além disso, tendo sido vítima, na infância, de tentativa de abuso sexual por parte de um adulto de seu meio, apresentou sinais de neurose por volta dos vinte anos: “Ele sofria de uma fobia, escreveu James Lieberman, seu biógrafo, que o impedia de tocar qualquer coisa sem luvas. Esse medo patológico dos micróbios e das relações sexuais se deve provavelmente à sua primeira e traumática experiência do sexo”.
Tornando-se aprendiz de torneiro, Otto Rosenfeld continuou sozinho sua formação intelectual, apaixonando-se por literatura e filosofia. Entre seus autores prediletos estavam Friedrich Nietzsche (1844-1900), Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Henrik Ibsen (1828-1906). Em 1903, adotou o pseudônimo de Rank, um personagem de “Casa de bonecas”. Tomando essa nova identidade, queria afirmar sua independência em relação ao pai, que detestava. Posteriormente, converteu-se ao catolicismo a fim de legalizar o seu novo sobrenome. Entretanto, completamente ateu e desprovido de qualquer sentimento de ódio de si judeu, logo renunciou à renegação de suas origens, e nas vésperas de seu primeiro casamento decidiu reconverter-se ao judaísmo a fim de assumir sua judeidade.
Foi ao ler a obra de Otto Weininger, “Sexo e caráter”, que ele começou a se interessar pelas questões abordadas pela psicanálise. Em 1905, depois da descoberta da “Interpretação dos sonhos”, ficou conhecendo Alfred Adler, que lhe possibilitou encontrar-se com Sigmund Freud e integrar-se à Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras. Tornou-se seu secretário em 1906, depois de apresentar uma exposição inaugural sobre o tema do incesto, na qual já aparecia a problemática do romance familiar, presente em seu grande livro publicado em 1909: “O mito do nascimento do herói”. O interesse apaixonado que dedicou à psicanálise e o encontro com Freud, que logo o considerou como seu “filho adotivo”, decidiram o destino do jovem Rank. Começou a escrever, tornou-se um intelectual, entrou para a universidade e obteve em 1912 um doutorado de filosofia. Com a idade de 28 anos, já tinha publicado quatro livros sobre literatura, mitos e incesto. Além disso, foi, de certa forma, o primeiro arquivista da história do freudismo: foi ele quem se encarregou de transcrever, ao longo das semanas, as atas das reuniões da Sociedade das Quartas-Feiras. Esse trabalho considerável foi publicado em quatro volumes por Hermann Nunberg entre 1962 e 1975.
Mobilizado contra a vontade em 1915, serviu como redator em um jornal da Cracóvia, cidade situada na parte leste do Império Austro-Húngaro. Ali, ficou conhecendo Beata Mincer, jovem polonesa, estudante de psicologia, apelidada Tola. Em outubro de 1918, casou-se com ela, que se tornaria psicanalista com o nome de Tola Rank (1896-1967) e lhe daria uma filha.
Ao fim da Primeira Guerra Mundial, Rank se tornara outro homem. O ex-operário autodidata morava então no centro de Viena e praticava a psicanálise graças a Freud, a quem venerava como um pai e que lhe enviava pacientes. Aliás, fazia parte do pequeno círculo de eleitos no seio do Comitê Secreto e dirigia a Verlag, a editora do movimento psicanalítico, criada com a ajuda do dinheiro de Anton von Freund.
A derrota dos impérios centrais e a vitória da Europa ocidental sobre a Europa central tiveram como efeito reduzir a zero a posição preponderante, ocupada até então por Viena e Budapeste na direção da IPA. Apoiado pelos berlinenses (Karl Abraham e Max Eitingon), Ernest Jones dedicou-se a impor os princípios de uma ortodoxia psicanalítica.
Foi nesse contexto que surgiram graves conflitos entre Rank, de um lado, e Jones e Abraham do outro. Melancólico há muitos anos, Rank atravessava frequentemente crises de depressão seguidas de estados de exaltação. Assim, foi considerado pelos notáveis do movimento um “doente mental”, sofrendo de psicose maníaco-depressiva. Muito ciumento da afeição que Freud lhe dedicava, e preocupado em normatizar as modalidades da análise didática, Jones se tornou o principal adversário de Rank no Comitê Secreto. Ora, nessa época, este começou a se afastar da doutrina freudiana clássica, publicando, no início do ano de 1924, um livro iconoclástico, que o tornaria célebre: “O trauma do nascimento”. Defendia a ideia de que, no nascimento, todo ser humano sofria um trauma maior, que procurava superar depois, aspirando inconscientemente a voltar ao útero materno. Em outras palavras, fazia da primeira separação biológica da mãe o protótipo da angústia psíquica. Essa tese, próxima da que Melanie Klein começava a elaborar, seria adotada, com algumas variações, por todos os representantes da escola inglesa: não só pelos kleinianos, que lhe dariam um conteúdo diferente, situando a angústia de separação na relação ambivalente da criança com o seio da mãe, mas também pelos Independentes, de Donald Woods Winnicott a John Bowlby, que não cessariam de estudar o aspecto biológico e existencial do fenômeno de separação. Longe de se ater a uma concepção clássica do complexo de Édipo, Rank já se interessava portanto pela relação precoce (e pré-edipiana) da criança com a mãe e pela especificidade da sexualidade feminina. Do interesse dedicado ao pai, ao patriarcado e ao Édipo clássico, ele passava para uma definição do materno e do feminino, e logo para uma crítica radical do sistema de pensamento do primeiro freudismo, demasiadamente fundado, em sua opinião, no lugar do pai e no falocentrismo.
No mesmo ano, em “Perspectivas da psicanálise”, Otto Rank atacou, com Ferenczi, a rigidez das regras psicanalíticas, e dois anos depois, em 1926, propôs uma teoria dita da “terapia ativa”, preconizando tratamentos curtos e limitados previamente no tempo, assim como um recentramento no presente: ao invés de sempre reconduzir o paciente à sua história passada e ao seu inconsciente, interpretando os sonhos e o complexo de Édipo, Rank julgava preferível solicitar a vontade consciente deste e aplicá-la à situação presente, a fim de estimular o seu desejo de se curar – única maneira de fazê-lo sair da passividade masoquista na qual ele se refugiava. Freud se opôs às teses de Rank em “Inibições, sintomas e angústia”, e depois revisou sua posição em 1933, nas “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise”, enfatizando que Rank tivera o mérito de ressaltar a importância da separação primeira da mãe.
Bastou isso para provocar a cólera de Jones que entretanto, na mesma época, não hesitava em apoiar as teses kleinianas. Como Rank não era nem médico nem analisado, Jones e Abraham se apressaram a explicar que suas teorias eram consequência de um conflito não resolvido com o pai. Freud interveio, obrigando o seu discípulo a submeter-se a algumas sessões.
Depois de fingir obedecer e após um início de carreira fulgurante nos Estados Unidos, onde formou psicanalistas e discípulos que se diziam freudianos, Rank foi levado a romper com seu venerado mestre. Em abril de 1926, fez-lhe uma última visita, levando-lhe as obras completas de Nietzsche: 23 volumes encadernados em couro branco. Abatido pela dor, mas sempre feroz em sua maneira de romper com os melhores amigos, Freud escreveu estas palavras em uma carta a Ferenczi: “Nós lhe demos muita coisa, e ele também fez muito por nós. Assim, estamos quites. Quando de sua última visita, não tive ocasião de lhe expressar a afeição particular que sinto por ele. Fui honesto e duro. Assim, podemos tirá-lo da nossa vida. Abraham tinha razão”.
Vítima de uma intensa campanha de calúnias orquestradas por Jones, Harry Stack Sullivan e principalmente por Abraham Arden Brill, que o tratou publicamente de desequilibrado, Rank foi excluído da American Psychoanalytic Association (APsaA), e consequentemente da IPA, em 10 de maio de 1930, em condições dramáticas. O ataque ocorreu em Washington, no meio de uma brilhante assembleia de psicanalistas mudos e indiferentes, dentre os quais Helene Deutsch, Sandor Rado e René Spitz. Nesse dia, só Franz Alexander se recusou a participar da execução do grande discípulo vienense. Depois, todos os alunos americanos formados por Rank foram intimados a fazer uma nova análise.
Independente, Rank continuou seu trabalho de analista, sem nunca tornar-se antifreudiano. Instalando-se em Paris com sua mulher e sua filha, ficou conhecendo Anaïs Nin (1903-1973), de quem foi o segundo analista. Graças ao trabalho de Deirdre Bair, biógrafa de Anaïs Nin, a história dessa relação foi conhecida em 1995.
Quando Anaïs Nin procurou Rank, estava saindo de um tratamento desastroso com René Allendy, que terminara com um ato de incesto: ela se tornou amante de seu pai, Joaquin Nin.
Em um primeiro tempo, Rank lhe possibilitou, por meio de suas interpretações, conhecer a culpa inconsciente que ela sentia por causa desse incesto, e afastar-se de seu “Diário”, que lhe servia de ópio. Mas logo ficou perdidamente apaixonado por ela e tornou-se seu amante. Ele a cobria de presentes e lhe ofereceu, como sinal de fidelidade, o famoso anel que Freud lhe dera quando da criação do Comitê. Depois da partida de Rank para Nova York, onde atravessou uma terrível crise de depressão, ele lhe pediu que viesse encontrá-lo. Ela concordou e procurou fazer carreira como analista, com o desejo perverso de destruir Rank e a psicanálise. Instalada no mesmo apartamento que ele, recebeu pacientes e deitou-se com alguns deles em seu divã, enquanto Rank tratava de seus próprios analisandos no cômodo ao lado. A aventura terminou em rompimento, quando Rank, separado de Tola, percebeu que Anaïs não deixaria o marido. Ela voltou a Paris e renunciou à psicanálise.
Algumas semanas depois da morte de Freud, Rank morreu de septicemia consecutiva a uma agranulocitose causada pelos efeitos secundários das sulfamidas, com as quais se tratava. Casado pela segunda vez, feliz e definitivamente instalado nos Estados Unidos, desejava viver na Califórnia, mas morreu antes de obter a cidadania americana.
No terceiro volume de sua biografia de Freud, Jones continuou a persegui-lo com seus insultos, tratando-o de psicótico, maníaco e ciclotímico, abrindo caminho para a propagação de uma lenda segundo a qual ele teria morrido em estado de loucura em um asilo americano. Apesar das refutações de sua discípula Jessie Taft, publicadas em 1958, foi só com os trabalhos da historiografia moderna, e principalmente os de Henri F. Ellenberger e seus sucessores, que se atribuiu a Rank o lugar eminente que lhe cabe na história da psicanálise.
Otto Rank via cada pessoa como um artista, cuja tarefa final seria a criação de uma personalidade individual. Para Rank, o neurótico é um artiste manque, uma pessoa cujo forte impulso criativo é frustrado pelo uso negativo da vontade. A Vontade, o motor primário na dialética rankiana (união-separação / semelhança-diferença), é uma força criativa irredutível. A culpa seria o preço a ser pago por qualquer ato de vontade. A cura, para Rank, encontrava-se no ato de liberação da vontade como singularidade e maturidade – uma pessoa autopreenchida, que não mais precisa criar para justificar sua existência.


OBS.: Este artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco & Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.