18 de setembro de 2014

IV ENCONTRO "LER & ESCREVER"


Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 11/out/2014, das 15h às 18h, o IV Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “DEUTUNG: O ESFORÇO RUMO À FICÇÃO”.

A análise não é muitas vezes um ensinamento, e talvez não o seja jamais. É, de preferência, uma experiência que modificará o sujeito que passa por ela. Quanto ao papel do pensamento teórico – ou do saber metapsicológico -, não é fácil precisá-lo. Disto não é questão na análise, mas, o que não impede que o analisando empreste ao analista um saber deste gênero e que ele espere (em vão, bem entendido) da boca do analista a palavra de sua verdade (aquela do paciente, é claro). Ora, esta palavra não tem provavelmente existência alguma.” (Octave Mannoni)
O analista recebe o paciente em espaços que vão se delineando progressivamente.” (Suzete Capobianco)

Através de recortes do Artigo de Octave Mannoni – “O Divã de Procusto” -, e do Artigo de Suzete Capobianco – “Apagar-se” -, que serão apresentados, deixamos a questão a ser discutida: Por falar no esforço do analista - não há nesses espaços que vão se delineando uma necessidade de nos apagarmos de nossas teorias e de nossos analistas/supervisores para adentrar-nos no território ficcional - palco de nossos pacientes?
   
O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Cardeal Arcoverde, 833 (cj. 1).
As inscrições são restritas a um número de 30 (trinta) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 10/out. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,


CORPO EDITORIAL

8 de agosto de 2014

VERBETES: AB-REAÇÃO


AB-REAÇÃO, termo introduzido por Sigmund Freud e Josef Breuer em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos.
O termo “ab-reação” aparece pela primeira vez na “Comunicação Preliminar” de Josef Breuer e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do mecanismo psíquico atuante nos fenômenos histéricos.
Nesse texto pioneiro, os autores anunciam desde logo o sentido de seu procedimento: conseguir, tomando como ponto de partida as formas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a princípio e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno histérico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de “resistências”, e que somente o recurso à hipnose permite superar.
Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao acontecimento é evacuado, por menos que essa reação seja suficientemente intensa. Nos casos em que a reação não ocorre ou não é forte o bastante, o afeto permanece ligado à lembrança do acontecimento traumático, e é essa lembrança – e não o evento em si – que é o agente dos distúrbios histéricos. Breuer e Freud são muito precisos a esse respeito: “... é sobretudo de reminiscências que sofre o histérico”. Encontramos a mesma precisão no que concerne à adequação da reação do sujeito: quer ela seja imediata, voluntária ou não, quer seja adiada e provocada no âmbito de uma psicoterapia, sob a forma de rememorações e associações, ela tem que manter uma relação de intensidade ou proporção com o acontecimento incitador para surtir um efeito catártico, isto é, liberador. É o caso da vingança como resposta a uma ofensa, a qual, não sendo proporcional ou ajustada à ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada por esta.
Desde essa época, Breuer e Freud sublinham como é importante que o ato possa ser substituído pela linguagem, “graças à qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”. Eles acrescentam que, em alguns casos de queixa ou confissão, somente as palavras constituem “o reflexo adequado”.
Se o termo “ab-reação” permanece ligado ao trabalho com Breuer e à utilização do método catártico, nem por isso a instauração do método psicanalítico e o emprego, em 1896, do termo “psico-análise” significam o desaparecimento do termo “ab-reação”, e isso por duas razões, como deixam claro os autores do “Vocabulário da Psicanálise”: uma razão factual, de um lado, na medida em que, seja qual for o método, a análise continua sendo, sobretudo para alguns pacientes, um lugar de fortes reações emocionais; e uma teórica, de outro, uma vez que a conceituação da análise recorre à rememoração e à repetição, formas paralelas de “ab-reação”.
Por que Breuer e Freud empregaram essa palavra, que este último não renegaria ao evocar o método catártico em sua autobiografia?
Como neologismo, o termo “ab-reação” compõe-se do prefixo alemão “ab-” e da palavra “reação”, constituída, por sua vez, do prefixo “re-” e da palavra “ação”. A primeira razão dessa duplicação parece ser o cuidado dos autores de repelir o caráter excessivamente genérico da palavra “reação”. Além disso, porém, a palavra remete ao procedimento da fisiologia do século XIX, em cujo seio ela funciona como sinônima de “reflexo”, termo pelo qual se designa o elemento de uma relação que tem a forma de um arco linear – o arco reflexo – que relaciona, termo a termo, um estímulo pontual e uma resposta muscular. Essa referência constituía para Freud, nos anos de 1892-1895, uma espécie de garantia de cientificidade, consoante com sua esperança de inscrever a abordagem dos fenômenos histéricos numa continuidade com a fisiologia dos mecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean Starobinski em 1994, a referência ao modelo do arco reflexo sobreviveria à utilização dessa palavra, já que Freud se refere explicitamente a ela em seu texto sobre o destino das pulsões, onde distingue as excitações externas, que provocam respostas no estilo arco reflexo, das excitações internas, cujos efeitos são da ordem de uma reação.
Mais tarde, Freud utilizaria o termo “reação” num sentido radicalmente diferente: em vez de designar uma descarga liberadora, ele seria empregado para evocar um processo de bloqueio ou contenção, a “formação reativa”.

OBS.: Verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

6 de junho de 2014

SIMPLICISSIMUS ABSURDUM (Marcos InHauser Soriano)


O interesse extremo que ainda hoje desperta a Psicanálise vem em grande parte do fato de ser esta a mais forte candidata à posição de teoria científica da alma, estrategicamente colocada como está entre Filosofia, Psicologia, Medicina e Literatura.
(Fabio Herrmann)

Acordou decidido. Não havia mais o que protelar. Decididamente iria ter com ela. Ela, sua bailarina escolhida. Na verdade não dormiu direito, com a cabeça repousada sobre o travesseiro ficou a devanear minuciosamente os preparativos do grande dia que iria se seguir. A cabeça sobre o travesseiro e um leve sorriso de satisfação a repousar em seu rosto.
Flores... Compraria flores. Rosas vermelhas misturadas com rosas brancas de “bandeira branca, amor”. Toda mulher gosta de flores... Rosas para sua Rosa.
Papel e envelope rosa, de boa qualidade, para escrever a mensagem que se fazia à noite, na cabeça aconchegada pelo travesseiro.
Uma bonita caixa de bombons trufados, sortidos, que ela aprecia. Aqueles que se dissolvem em sua boca, deliciosamente.

Para ele, namorar não era um verbo a ser tratado de forma leviana. Ele que nunca namorara, levava a sério essa coisa de relação. Estava há tempos a se preparar para a realização da cena de relação que havia montado em sua cabeça, a mesma que tranquilamente repousava sobre o travesseiro, por noites sem fim. Um carro, uma casa, um salário digno, um cão labrador, tal qual propaganda de margarina – moldura perfeita para encaixar sua bailarina. Mas ele tinha seus receios. Na faixa dos quase sempre quarenta, só tinha da cena a margarina. Margaridas e não rosas. Às vezes, de repente, achava tudo uma bobagem só. Para que largar a zona de conforto da casa dos pais em rumo à construção de uma relação?!? Não tinha sentido algum!!! Mas o sentido que tomava o desejo da cena da margarina que viraria rosa era mais forte... Forte, fraco, forte... Temia ser fraco. Uma doença forte.

De certa maneira somos um pouco parecidos. Temos, todos, nossa particular cena de margarina, e nossa íntima zona de conforto. Movimentar-se exige esforço e dá trabalho. Suely Rolnik, em Artigo que analisa as implicações psicopatológicas na subjetividade, a partir do que ela denomina de “capitalismo cultural”, trata da ilusão de ideias religiosas deslocadas pelos veículos de massificação, onde o paraíso, que agora é terrestre, pode ser habitado por alguns privilegiados – as celebridades. Esperançosos, ao mesmo tempo desolados, envergonhados e humilhados, passamos a acreditar na possibilidade, ainda que distante, de sermos “Very Important Person” em nossas cenas da propaganda de margarina, investindo toda nossa energia “de desejo, de afeto, de conhecimento, de intelecto, de erotismo, de imaginação, de ação, etc.”, consumindo objetos e serviços que nos constroem.

Já estavam saindo faz um tempo, se conhecendo, despretensiosamente. Ele, fascinado pelos projetos de independência dela, às vezes ficava amedrontado com a percepção de algo mais sério. Foi quando surgiu o problema: ele não tinha carro... Fraco, forte, fraco... Out, in, out...
Ao longo de sua história pessoal, ele tinha desenvolvido uma estratégia particular para momentos nos quais sua zona de conforto era cutucada: inventava, como desculpa, estar doente. A desculpa foi funcionando perfeitamente, mas, ao decorrer do uso, foi-se suspeitosamente misturando-se e confundindo-se com sua realidade. No ápice da confusão, não sabia mais dizer o que era doença e o que era invenção. Desculpa e corpo fundiram-se no inventado.
Com medo da instituição de uma relação, sumiu por uns dias: “Me desculpe, fiquei doente”.

Na Conferência XXXI, das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, de 1933, abordando a personalidade psíquica, Sigmund Freud refere-se à extraordinária capacidade do Eu em se flexibilizar perante si próprio: “O Eu pode tomar-se a si próprio como objeto, pode tratar-se como trata outros objetos, pode observar-se, criticar-se, sabe-se lá o que pode fazer consigo mesmo”. Dentro dessa concepção, Freud aponta para a divisão do Eu, e de uma de suas facetas, caracterizada pela crueldade – um Eu incisivamente julgador, exigente de perfeição frente aos ideais construídos e introjetados pelo processo sociocultural. Como possibilidade de sobrevida frente ao esfacelamento cruel, o Eu recorre ao sintoma, à fuga para a doença – às vezes, literalmente. Não nos esqueçamos de que, inicialmente, em sua origem conceitual, Freud parte da ideia de um “princípio de desprazer” (que depois se tornaria “princípio de prazer”), situando o sintoma como defesa possível - formações de atenuação frente às pressões internas e externas desestabilizantes no aparelho psíquico.

Acordou decidido. Tomou um banho, fez sua habitual higiene bucal, e vestiu seu boné – o resto da roupa seguia como detalhe. Nunca andava sem seu boné, representante da adolescência que insistia em permanecer, transformando-o em Peter Pan, em sua Terra do Nunca particular, a casa dos pais.
Decidido, foi às compras. Primeiro papel de seda rosa, com delicadas flores de tom mais escuro, combinando com o envelope, onde escreveria “Quer ser minha namorada?”. Na bombonière especializada em importados, uma bela caixa de bombons sortidos. Na floricultura, meia dúzia de rosas brancas e meia dúzia de vermelhas, formando um equilibrado buquê. Depois de tudo meticulosamente preparado por horas, the grand finale: o nó no laço que prenderia o envelope à caixa de bombons. Ele queria fazer pessoalmente, artesanalmente, pois era ótimo em fazer nós.
Apesar de pouco usá-las, possuía diversas gravatas, nas quais, de tempos em tempos, de fronte ao espelho, treinava nós – nós de gravata. Às vezes se achava um idiota, mas na maioria dos nós se encontrava como um expert refletido no espelho – Very Important Person.

Criatura interessante o nó de gravata. Atualmente sobrevive com a exigência do traje à rigor, mas, ao adentrar no salão de baile, após a primeira talagada de uma bebida alcoólica qualquer, é violentamente desfeito e morre, silenciosamente desapercebido – um ultraje.

Decididamente, após muito trabalho, tudo estava pronto. O buquê, a caixa de bombons com o pequeno envelope rosa, delicadamente unidos pelo laço, e um brilhante nó, que o enchia de orgulho. “Quer namorar comigo?” fazia do conjunto uma ode à perfeição. Irresistible. E ele ali, ao som de um bolero, a admirar sua obra de arte. Ele ali, a admirar... Admirando cada ângulo sublime qual corpo feminino. Ali... Admirando... Ao som de um bolero... Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Atônito, acordou no dia seguinte, debruçado em meio a pétalas de rosas brancas e vermelhas, papelão misturado com chocolate derretido, papel de seda com chocolate e pedaços de rosa. Irreversible.

A pulsão de morte é um dos conceitos mais contundentes e mais discutidos do corpo teórico da Psicanálise. O próprio Freud, até o fim da vida, continuava a encontrar para Tanatos, um lugar adequado dentro de seus constructos. Criticado por alguns, estudado e explorado por outros, o contraditório conceito de pulsão de morte continua e buscar lugar comum dentro do léxico psicanalítico.
Para além de uma destrutividade ativa, poder-se-ia afirmar que uma das faces de Tanatos é a representação do Tédio. Um tédio mortificante, paralisante, que mantém o sujeito, despercebido, enclausurado apaticamente em particular Terra do Nunca – estrada que leva a lugar nenhum, mantendo alucinatoriamente o status quo da zona de conforto, excludente de Eros. “The Walking Dead”, sucesso internacional da compulsão à repetição – tédio crônico e silenciosamente destrutivo da subjetividade.

Logo após às primeiras entrevistas, ouve-se o recado, quase um sussurro de tom amarelado agradecendo a paciência, na secretária eletrônica do consultório: “Me desculpe, fiquei doente”.

Ela? Dizem que virou garçonete em uma lanchonete 24 horas nos Jardins. Em suas horas de folga, vive a devanear com príncipes e labradores, cantarolando baixinho “Eu quero uma casa no campo...” e “...são dois prá lá, dois prá cá”.
O analista? Bem... Começou a se interessar por boleros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund (1933) “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XXII). 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1994.
HERRMANN, Fabio (1999) A Psique e o Eu. São Paulo: Hepsyché.
ROLNIK, Suely (2006) “Geopolítica da cafetinagem”. ide, 29(43), 123-129, São Paulo.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br