30 de junho de 2015

DIETAR-SE NÃO PODE: A IMPOSSIBILIDADE DE UM CORPO LIGHT (Marisa Siqueira Campos)


Este Artigo foi originalmente apresentado como Monografia para a obtenção do certificado de conclusão do Curso de Especialização em Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, sob a orientação de Aline Eugênia Camargo, em 2014.

INTRODUÇÃO
Este texto tem como principal objetivo apresentar a construção de um pensamento clínico-teórico[1], dentro de tantos outros possíveis, sobre a questão do “corpo obeso”. Para tanto, partirei dos pressupostos da Psicossomática psicanalítica, bem como da delineação do que seria o “corpo obeso” (dentre tantos outros corpos possíveis). Primeiramente cabe a questão do sentido do termo “psicossomática psicanalítica”, ou melhor, de certa adjetivação da Psicossomática pela ideia evocada de pressupostos da Psicanálise.
Por que Psicossomática psicanalítica?
No verbete redigido para o “Dicionário Internacional da Psicanálise” (Mijolla, 2005), Alain Fine já aponta para a dificuldade em definir o termo “psicossomática”, encontrando como denominador comum o entrelaçamento das organizações mentais e somáticas, seja no dinamismo regular, seja no patológico.
Desde Hipócrates (460 a.C. – 370 a.C.), que em seu “Corpus Hippocraticum” fundamentava a prática médica na compreensão de um organismo que incluía a personalidade, encontramos, no decorrer da história médica, várias proposições heurísticas da intersecção entre “psique” e “soma” – tentativas de apreensão de uma unidade ontológica do ser.
Grande parte dos pioneiros da Psicossomática surgiu do movimento psicanalítico. Um grupo de jovens médicos reunia-se junto a Freud a fim de aprender psicanálise e, posteriormente, exercê-la e divulgá-la. Nas décadas de 1910 e 1920 podemos encontrar os efeitos da expansão do movimento psicanalítico, bem como migrações de alguns de seus membros. No contexto da elaboração dos efeitos da revolução metapsicológica de Freud, certo número de analistas voltou seu interesse para as relações genéticas e etiológicas entre o psíquico e o biológico. Freud, na década de 1920, ressaltava a importância desse duplo movimento, destacando a capacidade da psicanálise como um método terapêutico que leva à compreensão das relações entre o psíquico e o somático – como fica evidente, por exemplo, em boa parte do “Além do Princípio do Prazer”, de 1920.
Segundo Volich (2010), Ferenczi, interlocutor privilegiado de Freud, em 1919, “analisou a relação entre o pensamento e a motricidade, afirmando que as pessoas do ‘tipo motor’ são incapazes de uma atividade intelectual, em virtude da intensidade da atividade muscular. Essa atividade é utilizada como forma privilegiada de descarga de intensidades de excitação impossíveis de serem descarregadas pela via da imaginação” (p.107-8). Essa dinâmica irá, posteriormente, ocupar um lugar central nas concepções de Pierre Marty, fundador do Instituto de Psicossomática de Paris em 1972.
Georg Groddeck, médico e membro da Associação Psicanalítica de Berlim, na qual entrou em 1920, afirmava que as doenças orgânicas podiam ser compreendidas, bem como tratadas, pela psicanálise. Ele não considerava haver doenças orgânicas ou doenças psíquicas, pois corpo e alma adoecem ao mesmo tempo. Para ele, a expressão “psicossomática” não se refere a um estado, mas a essência do ser humano. Com a obra “O Livro d’Isso”, de 1923, Groddeck passa a ser considerado o pai da Psicossomática moderna. Segundo Groddeck, “o Isso vive o Homem; é a força que o faz agir, pensar, crescer, sentir-se bem ou doente, numa palavra, o que o vive” (in VOLICH, 2010, p.111). O Isso cria a doença, sendo esta carregada de sentido, de finalidade e função expressiva. As forças do Isso, que levam à doença, devem ser mobilizadas no processo terapêutico, sem que o médico se esqueça das resistências do paciente frente ao tratamento – observações estritamente apontadas por Freud, desde o início de suas construções clínico-teóricas. 
Em 1929, outro membro da Associação Psicanalítica de Berlim, contemporâneo de Groddeck, Franz Alexander, que emigrou para os Estados Unidos, considerava que toda doença é psicossomática, visto que todos os processos fisiológicos são influenciados por fatores emocionais. Para ele, a Psicossomática diz respeito ao estudo dos componentes psicológicos nas doenças, e também se refere à terapêutica cujo objetivo é influenciar os componentes psicológicos em relação com os “não-psicológicos”.
Volich (2010) considera a importância da integração das dimensões da Psicossomática e da Psicanálise, bem como das relações dialéticas entre elas, a fim de se compreender o interesse da Psicanálise como operador teórico e clínico para a Psicossomática. Ele afirma que “enquanto ‘operador teórico’, a psicanálise oferece um aparelho conceitual para a compreensão das relações entre o psíquico e o somático e das funções do psiquismo no equilíbrio psicossomático. Enquanto ‘operador clínico’, ela propicia uma referência de escuta, de leitura e de interpretação que amplia as possibilidades da consulta terapêutica, médica, psicológica e de qualquer outro profissional da saúde, enriquecendo também os recursos para a intervenção profilática e mesmo terapêutica em processos educacionais, sociais ou do trabalho” (p.145).
Pierre Marty, citado acima, e seu grupo do Instituto de Psicossomática de Paris, partindo de extensas observações clínicas das concepções psicanalíticas, buscou compreender a função do aparelho psíquico e de suas relações como reguladores do funcionamento psicossomático, particularmente dos destinos das excitações no organismo – as “pulsões”[2] teorizadas por Freud. O bom funcionamento ou as perturbações dessas dinâmicas, levando-se em conta as características do desenvolvimento e do momento de vida da pessoa, podem ter como efeito manifestações “psíquicas”, “comportamentais” ou “somáticas”, sendo elas normais ou patológicas. Marilia Aisenstein, em entrevista concedida à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em 2006, aponta para a reflexão de Pierre Marty como da ordem da abordagem “econômica” entre o aparelho mental e o aparelho somático, seguindo as ideias de Freud apresentadas, principalmente, em “Além do Princípio do Prazer”. O conceito de “pulsão”, seja no dualismo “conservação x sexualidade” ou entre Eros e a pulsão de morte, seja na possibilidade de representação psíquica como formas de pensamento, surge como ideia primordial do desenvolvimento de uma Psicossomática psicanalítica, principalmente por levantar a questão da “representação” da visceralidade do corpo. O problema entre “afeto” (quantidade) e “representação” (qualidade), que remonta textos como “Estudos Sobre a Histeria” (Freud & Breuer, 1893-1895) e “A Interpretação dos Sonhos” (Freud, 1900), é resolvido parcialmente, de certa maneira, com a conceitualização da “pulsão”.
Enquanto Freud procurava compreender, através do fenômeno histérico, “o salto do psíquico no somático”, outros autores afirmavam que esse movimento é determinado por um mesmo e único processo - temos aqui duas perspectivas diferentes sendo consideradas.
Segundo Marilia Aisenstein, encontramos os seguidores do sistema teórico de Marty, pensando em uma concepção monista da pulsão – a libido -, que sofre movimentos de regressão, tidos por Marty como “momentos de falta” – o “pensamento operatório”. Ao mesmo tempo, encontramos o grupo que segue o dualismo pulsional de Freud, considerando a importância da “pulsão de morte” (que para Marty era inútil do ponto de vista conceitual), uma força de desligamento e de apagamento, desfazendo sentidos – o “antipensamento”.
Seguindo as diretrizes descritas por Alain Fine (in MIJOLLA, 2005), duas correntes se destacaram na França, na década de 1960. A abordagem proposta por Jean-Paul Valabrega traz o retorno da ideia de “conversão” da teoria da histeria, apontando para o sintoma psicossomático, manifestamente visceral, como sendo uma barreira do corpo, impeditivo da simbolização. Pierre Marty aborda a questão de modo diferente. Partindo, como já apontado acima, da referência econômica do aparelho psíquico, descreve o sintoma psicossomático como assimbólico, não capaz de produzir, em sua origem, nenhum sentido.
Mesmo levando em consideração as duas correntes distintas, fontes de inúmeras abordagens clínico-teóricas, podemos, em concordância com o verbete redigido por Alain Fine, compreender o sentido que há no termo “Psicossomática psicanalítica”, como parte da Psicanálise, um de seus avanços, indiscutivelmente apoiado no conceito de “pulsão”.
Seja como for, a psicossomática diz respeito à pessoa humana, ao seu ser concreto, vivo, sexuado, agindo com seu próprio corpo e sua própria organização psíquica, até na conflitualidade entre os movimentos individuais de vida e de morte, e incluindo a doença como avatar da lógica do vivente.” (Alain Fine in MIJOLLA, 2005, p.1490)
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Na Medicina, o “corpo obeso” encontra seus principais parâmetros de referência no transtorno clínico conhecido como “obesidade” – nos quais os aspectos físicos, incluindo a estética corporal, são os mais discutidos. Katherine A. Halmi (in TALBOTT; HALES, & YUDOFSKY, 1992), define o quadro de “obesidade” como sendo um acúmulo excessivo de gordura corporal, provocando um excesso de peso. A “obesidade” é um quadro complexo dentro da Medicina, incluindo cálculos (índice de massa corporal – IMC), aspectos clínicos, complicações médicas, estudos epidemiológicos, discussão de etiologias (pela improbabilidade de haver uma única etiologia para “obesidade”) e patogênese, e possibilidades de tratamento. Para a maioria dos quadros de “obesidade” (considerados leves), o tratamento mais eficiente ainda é a dieta, apesar do desenvolvimento da tecnologia estética nas áreas de cirurgia plástica e exercícios físicos.
Apesar de a Medicina estar resgatando, aos poucos, o diálogo envolvendo questões “comportamentais” e “emocionais”, ainda vemos esse diálogo permeado por noções da Psicologia, afastadas da Psicanálise.
É certo que a materialidade existe, que o homem é instaurado no animal humano, substratos físicos, orgânicos e bioquímicos; mas também é certo que isto não é assunto psicanalítico. Fabio Herrmann (1999) aponta para o fato de a Psicanálise estar estrategicamente colocada entre a Filosofia, a Psicologia, a Medicina e a Literatura. Herrmann quer dizer com isso que o objeto da Psicanálise é o “Homem Psicanalítico”[3], o homem da psique, não o homem inteiro. A Psicanálise considera seu objeto como sendo da ordem de complexos representacionais e pulsionais, sempre em crise com o estrato civilizatório no qual se encontra inserido. O “corpo obeso”, para a Psicanálise, é representação e pulsionalidade.
Antes de tentarmos uma compreensão acerca do “corpo obeso”, devemos questionar a necessidade de um “Homem Psicossomático”. Acredito que, partindo do exposto anteriormente, falar em Psicossomática sem a estrutura conceitual da Psicanálise nos levaria a um equívoco. Portanto, o objeto da Psicossomática psicanalítica deve estar nos pressupostos do objeto da Psicanálise.
Para iniciarmos uma reflexão a respeito do “corpo obeso”, precisamos pensar sobre o “corpo em si” e como se constrói a imagem corporal. Maria Helena Fernandes (2006), citando Paul Shilder, afirma que a imagem corporal se forma para o sujeito no interior de seu aparelho psíquico, do tamanho e forma de seu próprio corpo, incluindo os sentimentos daí advindos – ou seja, um corpo representacional, representado e representando-se. A unidade formada pela visão do todo, na figuração interna do corpo, constitui-se em um esquema corporal. Esse esquema integra as informações internas e externas do sujeito, bem como a experiência subjetiva com o próprio corpo. Podemos dizer que a imagem corporal se dá pela percepção e pela avaliação subjetiva que a pessoa faz de seu corpo. Ainda de acordo com Paul Shilder, estão presentes na constituição da imagem corporal as dimensões libidinais, isto é, tanto oscilações quanto perturbações da imagem do corpo se relacionam à economia libidinal. Maria Helena Fernandes também cita Françoise Dolto, que enfatiza o inconsciente na questão da imagem corporal. A imagem inconsciente do corpo forma-se como “referência intuitiva” ao desejo do outro. Com isto, pode-se afirmar que a noção de imagem corporal se forma nas experiências precoces, primitivas e instintivas, tendo como referência a saída do reino biológico e orgânico para o reino humano. Todos nós temos, então, uma imagem corporal que foi se formando desde nossas primeiras experiências de vida, na relação com o outro – o humano como parâmetro. A ideia de uma mãe, na relação com seu bebê, se tornar capacitadora do trânsito de um “corpo de sensações” (a fome, por exemplo) para um “corpo falado”, é uma boa analogia do que aqui se trata.
Aprender a preencher de palavras o vazio da boca, eis aí um primeiro paradigma da introjeção.” (Maria Torok in FERNANDES, 2006, p.262)
O corpo psicanalítico encontra seu lugar, além da anatomia e fisiologia, também em uma anatomia singular, construída no cenário fantasmático de cada sujeito; o corpo psicanalítico é portador de sentidos e significados múltiplos, justamente por causa desse cenário fantasmático, o que faz a passagem de um corpo biológico a um “corpo-linguagem”.
A partir das reflexões que fizemos até aqui, como podemos pensar o papel da alimentação e dos transtornos alimentares na relação do sujeito com o corpo e, mais precisamente, com o “corpo obeso”?  O que a alimentação simboliza?
O primeiro ponto a destacar, em concordância com Luciana Saddi (in BARONE, 2005), seria a distinção entre os termos “alimentação” e “nutrição”. “Nutrição” nos leva ao campo das ciências exatas, baseadas em métodos experimentais, que pouco tem haver com o método psicanalítico de ruptura de sentidos do discurso. “Alimentação”, mais apropriado, nos insere nos campos da “oralidade, ser nutriz e ser nutrido, sobre comer, sobre imagem corporal e sobre uma cultura baseada no controle alimentar” (Luciana Saddi in BARONE, 2005, p.304).
Transpondo os conceitos de “sexualidade” e “repressão” da era vitoriana para o mundo moderno, a clínica psicanalítica encontra no verbo “comer” toda uma gama de possibilidades sintomáticas, como “ansiedades”, “angústias” e “medos irracionais”. É como se as pessoas desassociassem da alimentação – do ato de “comer” – toda uma série de emoções a ela associada. Perde-se o antigo “sagrado” da hora do almoço, por exemplo, onde há socialização e familiarização em torno da mesa, inserindo o almoço na hora do “corre-corre” cotidiano. Fernanda Kalil (in GONZAGA & WEINBERG, 2010), em concordância com o exposto, coloca que o paciente com compulsão alimentar, por exemplo, diz sentir uma necessidade incontrolável de comer grandes quantidades de comida, em alguns momentos do dia, sem escolha, sem preparo, sem ritual, ou qualquer comportamento que leve o sujeito a um investimento simbólico no ato de se alimentar. A comida é buscada pela sua disponibilidade e facilidade de ingestão, com mistura de tipos variados de alimento, sem saborear e sem mastigar adequadamente, engolindo-se o que surge pela frente, em pé, escondido, sozinho, ou realizando outra atividade simultaneamente, sem se dar conta da quantidade e, muitas vezes, sem vinculação com a real situação de fome física, sem sensação de saciedade, só parando com o “goela abaixo”, ou por ser flagrado no descontrole, ou quando acaba o alimento - vivências de invasão, medo da intrusão, desconfiança e persecutoriedade.
Aline Camargo Gurfinkel (in GONZAGA & WEINBERG, 2010) nos diz que a clínica dos transtornos alimentares encontra-se inserida em complexos entrecruzamentos: vínculos e linguagem muito primitivos, o que o remete aos primórdios da vida e da alimentação; o mito totêmico da civilização humana, onde o alimentar-se está relacionado ao amor e ao ódio em relação ao objeto; vazio, introjeção e perda do objeto; fantasias de incorporação; fortes deslocamentos e inibições da libido.
O “corpo obeso” é, com certa frequência, tido como sistema defensivo de descaracterização do próprio corpo – “um corpo que não é” -; o ideal de emagrecimento representaria o resgate de si, o reencontro e a afirmação com o próprio corpo. Para Maria Salete Arenales Loli (2000), o “corpo obeso” é o “corpo protegido”, que nega frustração e, portanto, o próprio desejo.
Devemos, também, situar uma questão referente aos transtornos alimentares, para além do ponto de vista individual, isto é, como eles se articulam com a contemporaneidade, já que o sujeito está inserido numa cultura e numa sociedade que determinam o que é e o que não é “patológico”. Não podemos ignorar o fato de que a maneira como cada um de nós se alimenta está relacionado com o que vivemos emocionalmente e com o mundo. Com isso é preciso compreender de que forma a relação da pessoa com o corpo e com os demais vai influir no comportamento alimentar. Como entrelaçar os níveis socioculturais, intrapsíquicos e psicopatológicos?
No mundo contemporâneo, onde tudo avança tão rápido e tudo aprisiona, numa espécie de desapropriação de si nunca antes vista, não nos cabe mais analisar a clínica psicanalítica através dos moldes da nosografia psicopatológica clássica advinda da Psiquiatria. As “novas patologias” e os “casos difíceis”, descritos e explorados principalmente pelos franceses, o que inclui os problemas alimentares, estão cada vez mais preenchendo a clínica e desafiando nosso pensamento. Se na era vitoriana, época de Freud, a psicopatologia era concebida como a doença individual em oposição a uma vida plena na sociedade; no mundo contemporâneo temos a vida plena na sociedade como forma geradora do desconforto mental dos indivíduos.
 “A ‘Psique do Real’ é produzida e transmitida ao mesmo tempo, numa relação dialética, que entrelaça o individual, o social e o familiar e também os ultrapassa, possuindo determinação própria que, por sua vez, também determina as condições de produção de sintomas e quadros psicopatológicos.” (Fabio Hermann in BARONE, 2005, p. 24)
Fabio Herrmann propõe que o mundo atual se organiza em forma de psique, “está se tornando cada vez mais psíquico, com muito mais sentido que substância - em que a marca vale mais que a roupa (tanto que migrou para o lado de fora), em que a experiência foi substituída pela informação e a realidade se declara virtual (Fabio Herrmann in BARONE, 2005, p. 24).
O mundo contemporâneo, e sua respectiva “psique”, cria um sistema de “ato puro” – forma de ação concentrada e de imediata eficiência, distante de qualquer processo de reflexão (pensamento) que a anteceda. No mundo contemporâneo, o sujeito se desfaz em efeitos e mais efeitos, exigidos pelo meio no qual se (des)organiza.
Faz-se interessante o termo “mentalidade de dieta”, cunhado por Susie Orbach em 1978, e referido por Leda Herrmann e Luciana Saddi (in MONZANI & MONZANI, 2008).
A “mentalidade de dieta” diz respeito à perturbação da relação do sujeito, através dos controles sociais, com as imagens corporais, apetites e paladares. Além disso, também promove a alienação dos sinais vitais que constituem a alimentação: saciedade, fome e prazer de se fazer livre escolha do alimento para cada momento específico de fome.
Esses sinais são perturbados ou apagados e substituídos por informações pseudonutricionais, dietas de moda e por uma moralidade que migrou do sexo para os alimentos.(Fabio Herrmann e Marion Minerbo in CARONE, 1998, p.19)
A “mentalidade de dieta” acaba levando a uma privação de calorias, de prazer e a se ter medo dos alimentos e da gordura.  As pessoas ficam perdidas diante da comida ou mesmo da fome, contando calorias, tentando saber o que é cientificamente permitido, emitindo opiniões sobre a alimentação. Essas opiniões encontram-se em artigos científicos de jornais e revistas femininas e propagam um comer restritivo e regrado, alienado da subjetividade de quem se alimenta. Segundo Leda Herrmann e Luciana Saddi, “estamos desconectados do ato de saciar a fome com o alimento saboroso de nossa escolha e com a quantidade que sentirmos ser suficiente. Nossa sociedade modificou o sentido do ato de comer, seu homem teme comer ou nem mesmo se permite comer e investigar a própria alimentação. Mediados por informações diferentes, nos encontramos perdidos diante do controle produzido por intermediários como: ciência, meios de comunicação, propaganda, moda, indústria, família e escola. Esses intermediários criam uma nova moralidade, produzida pela ‘mentalidade de dieta’ e geram a perda de autonomia do homem em relação a sua alimentação” (in MONZANI & MONZANI, 2008, p.184-5). O que provoca um aumento dos problemas alimentares é a insistência no método de dieta para a transformação dos corpos, para que se diminua o mal-estar em relação à gordura. O controle da alimentação do paciente, no qual são baseados os tratamentos convencionais, visam à contenção do sintoma e à construção de um corpo idealizado, mas não reconhecem que é desses problemas exatamente que o paciente sofre, pois reforçam a perda da autonomia, cerne dos problemas alimentares, já que reproduzem os mesmos meios e objetivos que levam o paciente a adoecer. Também levam o paciente ao uso fóbico, religioso e rígido da alimentação, das rotinas e dos cuidados com o corpo. A “mentalidade de dieta” torna-se causa e consequência da falta de autonomia alimentar. Ela é produzida socialmente e está internalizada, regulando as relações do homem com sua alimentação e seu corpo. Cada vez mais comemos de forma “externalizada”. O sujeito psíquico foi expulso do homem, e este expeliu também sua capacidade de julgar coisas triviais, como a escolha do que tem vontade de comer e que matará a sua fome com prazer. Leda Herrmann e Luciana Saddi (in MONZANI & MONZANI, 2008) afirmam que perdemos nossa capacidade de saborear os alimentos, de saber quando se tem fome e a hora de parar de comer, bem como de escolher os alimentos livre e espontaneamente. A “mentalidade de dieta” perturba os sinais vitais: fome, saciedade e prazer, que são elementos básicos para considerarmos o ato de comer.
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Até aqui pudemos visualizar toda uma cadeia complexa que envolve o “corpo obeso”, o que inclui a intersecção entre orgânico/psíquico do indivíduo e toda a rede representacional impressa no mundo, que retorna e se reinscreve no indivíduo. Percebemos também que o olhar da Psicossomática psicanalítica carrega, pela história e trama conceitual, toda a metodologia da Psicanálise que, para além dos conceitos, inclui dois instrumentos metodológicos, que constituem o próprio método psicanalítico: o “campo transferencial” e a “interpretação”.
Segundo Fabio Herrmann (2004) o material clínico, quando submetido à faca da interpretação, não deveria replicar pressupostos conceituais: “Não há teoria por trás, mas sai teoria pela frente” (p.262).
Devemos agora submeter o “corpo obeso”, representado em um material clínico, ao método da Psicanálise.

O MÉTODO DA PSICANÁLISE NO PSICOSSOMÁTICO: A TÍTULO DE UMA METODOLOGIA
Como não poderia deixar de ser, a metodologia utilizada nesse estudo deve ser o próprio método psicanalítico posto em ação. Quando em movimento, o método é investigativo; investigando, rompe sentidos estagnados, inclusive conceituais, fazendo com que surjam representações outras, possíveis.
Aqui, o objeto, incluído no campo da Psicossomática, é o “corpo obeso”. Devemos deixar que este corpo fale, exponha sua visceralidade, apareça em outras formas possíveis. Encontrar, talvez, para além da investigação de um fenômeno particular, as entranhas psíquicas do mundo que o determina.
Na estratégia adotada, os conceitos não falam por si – é necessário que a interpretação, o ato analítico de ruptura de sentido, faça com que os conceitos respirem, dando-lhes vida em um sistema representacional.
A arquitetura da estratégia aqui manifesta, segundo Marion Minerbo (2000), deve gerar o que a autora definiu como “Matriz de Desconstrução”: o método psicanalítico chamado a dar conta das condições de possibilidade do sintoma, do “corpo obeso”.
Estudaremos um pequeno recorte clínico, tentando para além do olhar horizontal da história pessoal da paciente, realizar um mergulho vertical na estética corporal ditada por regras de um mundo também estético e aprisionador do corpo.
Para onde seremos levados? Não se sabe ao certo. O método se faz assim: desconstruindo, modifica a teoria, repercutindo na visão do analista sobre o objeto.

UM RECORTE CLÍNICO
Alice procurou a psicoterapia por estar obesa. O endocrinologista não sabia mais o que fazer com ela: a sentia desmotivada, sem energia, depressiva, não conseguia reagir ao tratamento médico e emagrecer; e ele, então, achou que a psicoterapia poderia ajudá-la. Ela, por sua vez, concordou, não só porque o médico indicou, mas porque há um tempo atrás se sentiu chacoalhada pelo irmão, quando esse lhe perguntou que emoções ela estava “comendo” com aquele corpo, e por que não fazia terapia. Ela ficou abalada com a forma como ele falou e achou por bem procurar uma forma de tratamento.
Quando ela chegou pela primeira vez em meu consultório, confesso que a última coisa que pensei foi que sua queixa dizia respeito à obesidade - eu não a vi gorda e fiquei surpresa quando ela disse que estava ali por causa disso. Claro que ela estava acima do peso, mas por que não enxerguei isso? Este ficou sendo um de meus questionamentos.
Alice é a irmã mais velha de uma família de três irmãos, sendo que apenas ela “engordou”. Seu irmão mais novo é muito magro e não consegue engordar, e seu irmão do meio é o que tem o corpo mais malhado, bem cuidado, nem gordo nem magro. É o irmão “perfeito”, mais bem sucedido, que sabe ganhar dinheiro e viver bem a vida. Alice vive dizendo que não sabe cobrar pelo seu trabalho, apesar de ser muito requisitada pela sua competência. Em seu discurso já vai se delineando uma dificuldade clara de se autovalorizar, o que se reflete na impossibilidade de colocar o devido valor em forma de dinheiro em seu trabalho. Chega a se identificar com a mãe, uma mulher artisticamente talentosa, mas que não consegue cobrar por seus quadros e outros trabalhos artísticos.
A cada sessão, percebo uma linearidade nas emoções de Alice, seja tristeza, alegria, dor, raiva - tudo parece igual, sem variação de nuances, sentimentos, sem diferenciação de uma emoção para outra. Chego a lhe dizer que não consigo imaginá-la com raiva, nunca a vi assim em nenhum momento, mesmo ao me relatar situações que lhe provocaram esse tipo de sentimento - assim como ela não me passou emoção ao relatar uma antiga paixão. Alice é casada, mas busca encontrar essa paixão antiga nas redes sociais. Diz não querer ver, mas quer. Desde o início, porém, mesmo relatando sobre isso, percebo a sua dificuldade em fantasiar, de falar sobre seus desejos, sonhos, vontades. Mesmo quando instigada a falar sobre isso, não transmite emoções, quase não chora ou ri, nem de si nem de nada, apenas relata suas coisas como narradora de uma história alheia, que não se afeta com a história contada, sua história.

DESCONSTRUINDO ALICE: ESCUTA HORIZONTAL E ESCUTA VERTICAL
Partiremos agora para um exercício de desconstrução, utilizando o método psicanalítico circunscrito, é sempre bom salientar, à escuta do “corpo obeso” – objeto deste texto. Esperamos com isso, que o sentido deste “corpo” surja por si, comunicando ao que veio.
Utilizaremos dois eixos/escuta como instrumento de ruptura: um eixo/escuta horizontal e um eixo/escuta vertical. Ambos os eixos/escuta, do ponto de vista da metodologia psicanalítica, encontram-se completamente submersos no campo transferencial, afetando paciente e analista.
Denominamos “Escuta Horizontal” o discurso histórico de Alice, inserido num espaço e num tempo que mantém a lógica esperada de quem simplesmente nos conta algo. Apesar do discurso conexo, a analista permanece em uma escuta flutuante, propiciadora de um “encontro desencontrado” – como diria Fabio Herrmann: “um ato falho a dois”.
Denominamos “Escuta Vertical” o mergulho no mar de sentidos possíveis da história que nos é contada por Alice – uma história contada contém muitas histórias. Fruto da operação de ruptura de sentido, a “Escuta Vertical” caminha em direção à desconstrução propriamente dita, que faz surgir uma “fala outra não falada”, produzindo efeito interpretativo “da e na” paciente, bem como “na e da” analista.
Propositalmente, o horizontal e o vertical serão descritos conjuntamente, como a produzir certo efeito “estranho”.
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Alice está obesa. A Endocrinologia não sabe o que fazer com ela, posto que ao não responder aos tratamentos médicos, é tida como desmotivada, sem energia, depressiva. Alice não emagrece e, por não emagrecer, sai em busca de psicoterapia.
O corpo de Alice é teimoso, não quer responder. “Ele” não sabe o que fazer com o “corpo dela”. A teimosia fala pelo corpo dela, obeso, que se nega a responder a ele. Qual a pergunta a ser respondida por Alice teimosa?
Alice concorda em ir buscar uma psicoterapia. Ela sempre concorda. Abalada e chacoalhada pelo irmão, concorda estar “comendo emoções com aquele corpo” – o corpo dela.
Como se come emoções? O corpo de Alice sabe, ela não. Para ela sobra uma Alice “com corda” no pescoço, sempre assustada com a possibilidade de acusações do outro – Ele (no médico, no irmão). “Chá” com “coalhada”? Não, de jeito nenhum, o corpo de Alice, teimoso, come emoções... Infelizmente deixa Alice sem saborear nada. Quem sabe a psicoterapia possa fazer com que o corpo entre em acordo com Alice?
Não reconheci o “corpo obeso” de Alice. Meu olhar não observou a “queixa”. Mas e meu ouvir? Olhar e ouvir – na diferença destas percepções, percepções da analista, é no campo transferencial que se fizeram meus questionamentos clínicos – lembro-me de ter hipotetizado um certo silêncio, uma impossibilidade de discurso daquele corpo. Que prevalecesse o “ouvir”. O que ouvi?
Alice é a mulher na família. Comparada aos irmãos “Eles”, o “corpo obeso” de Alice mulher representa imperfeição. O “corpo obeso” começa a traçar silenciosamente um discurso que, inserido na trama familiar, vai reclamando e delineando o campo da desvalorização, da incapacidade de valor, de incompetência em ser. A identificação com uma mãe castrada, castração representada pela desvalorização, começa a ser tomada em consideração pelo meu ouvir. Seria aqui a falta do falo que estaria em jogo, produzindo, através do excesso de gordura, o apêndice valorizado e desejado?
O discurso de Alice é linear, não apresenta tons ou matizes que representam picos emocionais em suas vivências, mesmo e principalmente nas sessões. Alice não vive a vida, talvez a engula a seco. O “corpo obeso” não pode se manifestar, discursar, surgir, só lhe resta “engordar” – que é a função imperativa e absoluta de um “corpo obeso”. Não há espaço para “emoção”.
Alice tem um segredo: uma paixão antiga que vive a espreitá-la nas redes sociais. “Ela” vê “Ele”. Alice não quer ver, mas seu corpo quer. Alice é teimosa no impasse “querer/não querer”, impedindo-se de fantasiar, de viver sua paixão/desejo como possibilidade bem digerida – e na medida certa de sua necessidade. O “corpo obeso” grita por poder sentir sua história, poder contá-la com alegria, tristeza, tesão, ódio, raiva, enfim, contar sua história humana, humanamente.
Alice é teimosa, procura psicoterapia para ser instigada a contar/sentir, quando então resiste. O “corpo obeso” é teimoso para sobreviver, em sua demanda de existir como “corpo erógeno”, à resistência de Alice para com si própria.
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Aqui temos uma desconstrução, um entrecruzamento da horizontalidade e verticalidade da escuta analítica – o campo transferencial. Mantive o pequeno material utilizado, intacto, em seus registros iniciais. O que procurei foi uma hipótese clínica, uma prototeoria sobre Alice. É sempre bom salientar que este exercício se deu sob a tutela de minha escuta, dentre tantas outras possíveis.
A prototeoria que surgiu desta escuta inicial é a de que o “corpo obeso” de Alice, uma silenciosa manifestação de um corpo erógeno impensado e não possível, existente na periferia representacional do mundo psíquico da paciente, teimosamente luta para ter espaço, ser ouvido por ela mesma. Resistente, Alice torna-se vítima dela mesma. Identificada com a mãe/mulher que não se valoriza, Alice deve cumprir seu destino, a um custo bastante alto para o equilíbrio da relação prazer/desprazer. O quotidiano, não pensado e, portanto, não digerido, deve manter-se em apática forma linear, não ocupando possibilidades no ato de fantasiar – ato lúdico para o aparelho psíquico.
A teoria do “pensamento operatório”, mesmo tendo desenvolvimentos na teoria do “antipensamento”[4], advindas ambas da produção de uma Psicanálise que volta sua escuta ao “psicossoma”, portanto psicossomática – apresentada na introdução desse texto -, mostra-se altamente significativa para a compreensão e direcionamento de um pensar e agir clínicos no caso de Alice.

“SEGUNDA-FEIRA EU COMEÇO”: À GUISA DE CONCLUSÃO
Este trabalho não segue o percurso que o leve à conclusões clínicas. Para a autora, a clínica, para além de conclusões, é uma experiência de cura – curar o homem de si mesmo, independente dos modismos de época.
O trabalho clínico que enfrenta as resistências subjacentes à pobreza de constituição de um pensamento possível de abarcar a si próprio, pensamento este representado e delimitado teoricamente pelo conceito de “pensamento operatório”, é um trabalho difícil, de paciência. A escuta clínica deve pacientemente aguardar frestas possíveis no intuito de construir a possibilidade de “pensar pela primeira vez o que nunca pode ser pensado”, o que inclui necessariamente um “pensar a dois”, levando-se em conta os ditames do campo transferencial.
Acredito que o texto justificou a contribuição importante que uma Psicossomática Psicanalítica pode trazer ao pensar esta clínica cada vez mais presente no quotidiano dos homens – uma Psicossomática Psicanalítica considerada aqui não como uma nova escola teórica, mas como uma vertente de pensar analiticamente.
A lógica do “corpo obeso”, ao menos um pedaço dela, mostrou-se através da relação de Alice com seu corpo, suas identificações, seu desejo, seu destino – um corpo/desejo/destino sem palavra possível, que busca na psicoterapia preencher com palavras uma boca/desejo vazia, apaticamente entregue ao destino que a identifica na doença de desvalorizar-se.
Espero ter contribuído, de alguma forma, para incitação da importância de pensar psicanaliticamente o psicossoma – esta foi minha principal intenção: abrir espaço para o “ato falho a dois”, capaz de produzir frestas necessárias na direção de criar uma possibilidade outra.
Para mim, ao longo do trabalho com Alice, fica o desafio da lógica estrutural da “mentalidade da dieta”, absorvida pelo mundo contemporâneo de um corpo perfeito que nunca se encontra com o sujeito que o habita: “Promessa: Segunda-feira eu começo...”.

NOTAS
[1] A expressão “clínico-teórico” costuma-se grafar como “teórico-clínico”. Aqui, seguindo as ideias metodológicas de Fabio Herrmann, utiliza-se “clínico-teórico” no intuito de salientar que uma construção teórica deve partir do campo clínico em que esta se dá.
[2] Seguindo o verbete redigido por Michèle Porte para o Dicionário Internacional da Psicanálise (Mijolla, 2005), a teoria das pulsões é compreendida por Freud como sendo a mitologia da Psicanálise, ideia apontada a Einstein em 1933. Em 1915, Freud assim descreve a “pulsão”: “A ‘pulsão’ se nos apresenta como um conceito-limite entre anímico e somático, como representante psíquico dos estímulos provenientes do interior do corpo e que logram chegar à alma, como uma medida da exigência de trabalho que é imposta à alma em resultado da sua coesão com o corpo.” (in Mijolla, 2005, p.1513)
[3] O “Homem Psicanalítico (…) tem por carne e osso seu sentido e por hábitat e origem o real humano, psíquico.” (Herrmann, 1999, p.16)
Para Fabio Herrmann, o objeto da Psicanálise é o ser do psiquismo humano, vivente no reino dos sentidos e significados, “é o ser do método da Psicanálise, transferencial e descentrado internamente, dividido e múltiplo no íntimo de suas operações, (...) o Homem Psicanalítico é um ser da estranheza.” (Herrmann, 1999, p.17)
Um homem em crise representacional, sempre em busca de si mesmo, mas com uma passada sempre atrasada – eis o objeto da Psicanálise.
[4] O conceito de “antipensamento”, desenvolvido pela Escola Psicossomática de Paris, e estudado por Marilia Aisenstein, vai além da estrutura do “pensamento operatório”, ao incluir, através da pulsão de morte, uma literal destruição da capacidade de pensar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AISENSTEIN, M. (2006, 9 de agosto) “O antipensamento e a psicossomática”. ide. São Paulo, 29(43), 142-146.
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FREUD, S. (1900) “A Interpretação dos Sonhos”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. IV-V). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.
FREUD, S. (1915) “Os Instintos e suas Vicissitudes”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XIV). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.
FREUD, S. (1920) “Além do Princípio do Prazer”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XVIII). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.
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MINERBO, M. (2000) Estratégias de Investigação em Psicanálise: desconstrução e reconstrução do conhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo.
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TALBOTT, J. A.; HALES, R. E. & YUDOFSKY, S. C. (1992) Tratado de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas.
VOLICH, R. M. (2010) Psicossomática: de Hipócrates à psicanálise. 7ª edição. São Paulo: Casa do Psicólogo.

MARISA SIQUEIRA CAMPOS é psicóloga clínica e pedagoga, Especialista em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae.

15 de maio de 2015

ENSAIO SOBRE O FUTURO DE UM PRETÉRITO (Marcos InHauser Soriano)



“Há sempre um momento na infância em que a porta se abre e deixa entrar o futuro.” (GRAHAM GREENE)

Lá vai a menina a correr pelo terreno baldio, loirinha, loirinha, no auge dos seus cinco anos de idade. O terreno, cheio de mato, é um pedaço de interior no meio da metrópole. Existem vários pedaços de interior dentro da cidade grande, esquecidos, transformados em lixões - restos de tudo aquilo que as pessoas descartam e jogam fora. A menina sente-se rainha entre ratos, baratas e outros bichos, entre os poucos amigos que correm com ela.
Brincam com tudo que acham pela frente, brincam com o que os outros descartaram de suas vidas. E correm. Correm livres pelo espaço do terreno perdido no meio da metrópole. Pequenos pezinhos descalços a correr pelo lixo. A menina, com seu vestido esgarçado, corre na frente. Mas corre para onde? Para o futuro que corre...
Talvez será bailarina, talvez será cortesã. A curuminha, de cabelo curtinho, loirinho, loirinho – o cabelo deve ser mantido curto para que não se faça um terreno para os piolhos -, corre para ela que ainda há de se fazer outra.
Talvez será advogada, talvez será indigente, essa gente sem nome que povoa a cidade grande, um imenso terreno baldio. Quem sabe o que será?
Talvez será uma Gisele, de marido bonitão e elegante, com filhotes bonitos. Talvez será uma sei-lá-o-que, sem dentes na boca, jogada no espaço vazio da metrópole – espaço destinado aos sei-lá-o-que.
Talvez encontrar-se-á, lá na frente, com os pais. Será, talvez, a mãe resignada e amorosa, à espera do pai meio-trabalhador, que chegando bêbado em casa, aos socos e pontapés, busca alguém-qualquer-um para descontar a frustração impensada. Repetição. Privação e delinquência.
Talvez será Elizabeth, que nem sabe quem é, rainha de um reino próprio que não se sabe qual vai ser. Talvez será uma indesejada qualquer. Como saber o que será?
Mas a menina não pensa em nada disso. Apenas corre pelo lixão, a brincar com qualquer coisa... Corre, corre, corre... Corre para não pensar no que há de se encontrar mais tarde em casa, corre para não saber o que será.
Uma das irmãs morreu de algo que não se sabe. O que é a morte para a menina? Ela não sabe. A morte é um não saber nunca mais. A morte é o não será. A loirinha não pensa na morte, corre, corre, corre.
Corre também dela mesma de ontem, corre dela que há de se fazer amanhã. Mas como saber o que será? Então corre, corre, corre... Quando não corre, sonha. Um sonhar sobre o que ainda pode haver, sobre o que será.

Futuro do Pretérito, tempo verbal que enuncia um fato que poderia ter ocorrido posteriormente a um determinado fato passado. Diz de um futuro em relação a outro, já ocorrido. Hipótese, incerteza, irrealidade, o condicional do que não foi. Tempo verbal das possibilidades – se tratando de pensamentos, tudo é possível, “seria possível”.
Futuro do Pretérito, tempo da lógica do inconsciente. O Inconsciente, de certa maneira, é Futuro do Pretérito – inconscientes de tantas relações infinitamente possíveis.

O que foi? Ficou tão quietinha...” – interpola o analista, interrompendo o devanear da mulher, que no susto, retorna ao tempo da sessão.
Mulher crescida, conseguiu vencer na vida. Bom emprego, bom salário. Conforto para a família, coisa que para ela é muito importante. Geralmente sente-se feliz. Às vezes é acometida de algo-assim-não-sei-o-que que traz agonia. Indefinida a angústia. Ela não sabe. Um momento de percepção de si, fugaz, onde falta uma parte dela.
Estava tomada por minhas memórias, aquelas que você sabe...” – voz com tom de profundo respeito por um diário inscrito dentro do coração. “Eu gostava de rodopiar com meu vestido, gostava de vê-lo abrir-se como saia de bailarina. Eu sempre gostei de dançar, apesar de nunca ter dançado”.
Drible?!” – tenta a voz que vem da poltrona.
Ah... Acertei bem as passadas no baile da vida!!! Mas algo sempre falta... Não sou a dançarina que gostaria de ter sido...” – tom saudoso, emergindo do devaneio ao qual estava imersa.
Foi?!” – soando ambiguidade da poltrona.
Silêncio respeitoso por aquele instante formado por ontem-agora-amanhã.
Acho que corro demais. Talvez precise dar mais atenção à minha vontade de dançar!!!” – conclui despretensiosamente.

Fico ali, acompanhando uma possível construção outra, transportado, observando a menina que corre, corre, corre. Há muitos interiores escondidos na cidade grande.

Às vezes, a Psicanálise se aproxima tanto da Literatura, que permite certa ludicidade com as palavras – uma cura possível dentre tantas outras que poderiam ter sido.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br

4 de abril de 2015

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ELISABETH VON R.



FRÄULEIN ELISABETH VON R. é o pseudônimo dado por Freud a Ilona Weiss, jovem de origem húngara cujo caso é descrito nos “Estudos sobre a histeria” (1895), e que ele trata do outono de 1892 até julho de 1893.
Terceira filha de uma abastada família húngara, Elisabeth Von R. está com vinte e quatro anos quando Freud a recebe no outono de 1892 por padecer há mais de dois anos de dores nas pernas e dificuldade para andar. Ele confirma o diagnóstico de histeria que lhe tinha sido feito e observa que “quando se lhe beliscava a pele ou os músculos hiperálgicos, ou sobre estes era exercida uma pressão, a fisionomia da paciente espelhava uma singular expressão que era mais de prazer do que de dor. Gritava como se estivesse recebendo cócegas voluptuosas, ruborizava-se intensamente, jogava a cabeça e o busto para trás, fechava os olhos”.
Após um período probatório de quatro semanas em que ele lhe prescreveu um tratamento elétrico, Freud propôs-lhe um tratamento catártico “que resultou em um dos mais árduos que me tinha sido dado até então realizar”. Refratária à hipnose, ela está deitada, de olhos fechados, mas pode mexer-se, abrir os olhos, sentar-se. Freud aplica-lhe a sua “técnica de concentração”, como faz ao mesmo tempo com uma outra paciente sua, Miss Lucy R. No caso de Elisabeth, Freud ainda a coloca em situações projetadas, com o objetivo de despertar novas lembranças, pedindo que ela faça algumas coisas e se coloque em algumas situações fora da sessão.
Ele está persuadido de que Elisabeth esconde um segredo, mas os primeiros fatos que ela lhe relata não têm qualquer efeito, apesar de sua tonalidade dramática. Sua história é, com efeito, marcada pela doença cardíaca e morte de um pai muito amado, para quem “ela substituía um filho e um amigo com quem podia trocar ideias”. Freud compreende então que a doença tinha começado por dores nas pernas quando ela se ocupava de seu pai enfermo, embora só viesse a levá-las em consideração dois anos após sua morte. A doença e morte de sua segunda irmã, em consequência também de uma cardiopatia, agravada por uma gravidez, e seguida de brigas familiares entre cunhados, tinham coincido com os dois anos de evolução de sua enfermidade.
Durante esse período do tratamento, ela repete a Freud que não se sentia melhor, apesar de tudo o que lhe vinha contando sobre sua vida, e ele acrescenta: “quando ela me olhava com um ar entre malicioso e sarcástico, embora reconhecendo que ela tinha razão, eu pensava em seu pai, que tinha qualificado sua filha preferida de ‘insolente’ e ‘maldosa’”.
Registra-se uma certa melhora quando ela própria indica a origem de sua “conversão histérica”: as dores partem do local de sua coxa onde todas as manhãs o pai assentava sua perna inchada para que a filha lhe mudasse os curativos. Daí em diante, “as pernas doloridas começaram a ‘falar’ durante as nossas sessões de análise”, período de ab-reação em que, diz Freud, “eu me deixava conduzir, ora pelas flutuações do seu estado, ora pelo meu próprio julgamento, por exemplo, quando achava que uma parte de sua história não tinha sido suficientemente explorada”. Ele tem então a experiência de um fenômeno que irá em breve modificar a sua concepção de psicoterapia: “No decorrer desse árduo trabalho, aprendi a atribuir grande importância à resistência de que a paciente dava provas quando trazia à memória suas lembranças, e passei a agrupar cuidadosamente as ocasiões em que essa resistência se manifestava da maneira mais evidente”. Foi, aliás, a seu respeito que ele utilizou publicamente pela primeira vez (vamos reencontrá-la seis meses mais tarde no Manuscrito H, de 24 de janeiro de 1895), uma noção teórica primordial: “Também existem conversões totais e, nestas, a representação intolerável foi, de fato, ‘recalcada’ (verdrängt), como só o pode ser uma representação muito pouco intensa”.
Na primavera de 1893, uma dor aguda que reapareceu à ruidosa chegada de seu cunhado, que vinha buscá-la, colocou finalmente Freud na pista do “segredo”: era evidente que ela estava enamorada de seu cunhado, de quem a doença da irmã a tinha aproximado mais, e não pôde refrear o pensamento de que, com a morte dessa irmã, ele era agora um homem livre. Apesar dos desmentidos de sua paciente, Freud insiste e chega mesmo a solicitar o testemunho da mãe dela, que confirma ter nutrido essa suspeita. O tratamento acaba em julho de 1893 com esse apelo à cooperação materna, o que não estará isento de repercussões, pois sua filha revolta-se e recusa-se a ver de novo Freud, que “tinha traído o seu segredo”. Elisabeth foi alertada sobre o tratamento psíquico, já que estava em tratamento médico com um colega de Freud; foi preparada para iniciar a análise com explicações acerca do método enquanto fazia os outros procedimentos médicos. Ela se manteve em análise até que Freud finalizou, julgando estar curada; mesmo que os sintomas não tivessem desaparecido por completo, ele a encorajou a seguir pelo caminho que tinha se aberto em análise e a enfrentar suas preocupações com o futuro incerto, dizendo que a cura total se processaria com o tempo, já que não havia mais nada a investigar sobre os conflitos sentimentais que deram início à enfermidade.
Confiante em seu tratamento, Freud registra com prazer: “Na primavera de 1894, tive conhecimento de que ela iria a um baile para o qual eu podia fazer-me convidar, e não deixei escapar essa ocasião de ir ver a minha antiga paciente sendo levada nos rápidos movimentos de uma dança”. Quando tinha terminado de escrever sua história para os “Estudos sobre a histeria”, Freud informou Willhem Fliess, a quem dera a ler o caso, em 14 de julho de 1894, que ela tinha ficado noiva.
Elisabeth Von R., a crer nas confidências de sua filha, conta a história de outra maneira: “Ela descreve Freud como ‘um jovem médico barbudo, especialista em doenças nervosas a quem me tinham enviado’. Ele tinha tentado convencer-me de que eu estava enamorada do meu cunhado, mas isso não era verdade. No entanto, acrescenta a sua filha, a imagem que Freud forneceu do passado familiar de sua mãe correspondia, grosso modo, à realidade e seu casamento foi feliz”.
Foi a esse respeito que Freud escreveu: “Essa foi a minha primeira análise completa de uma histeria. Ela me permitiu proceder pela primeira vez, com a ajuda de um método que converti mais tarde numa técnica, à eliminação, por camadas, dos materiais psíquicos, uma tarefa que gostávamos de comparar à técnica de escavação dos arqueólogos para desobstruir uma cidade soterrada”. Com efeito, esse tratamento é menos importante historicamente pela descoberta espetacular do “segredo amoroso”, do qual se apoderou o teatro (“Le Fil rouge”, de Henry Decker), do que pelo que demonstrou então a Freud sobre o mecanismo da conversão, de seu vínculo com um pai com o qual ele próprio vai identificar-se, sem disso extrair ainda todas as consequências, e da resistência que precisa superar à força de crença em seu método a fim de, para além da relativa liberdade de associação que ele deixa à sua paciente, eliminar pela palavra, camada por camada, os materiais psíquicos que se opõem ao retorno das recordações recalcadas. No caso de Elisabeth, Freud não se refere nomeadamente à resistência como ligada à transferência, nem cita a última; porém, ele faz menção à dificuldade da paciente de falar tudo o que vinha à mente, quando o analista empreendia o método de pressão na cabeça; nestas ocasiões, ele notava que quando ela dizia não se lembrar de nada, sua aparência denunciava que isso não era verdade e que, talvez, ela julgasse que o que havia pensado não fosse importante ou fosse muito incômodo de dizer; Freud então passou a não aceitar a falta de conteúdos e a estimulá-la a contar tudo, não aceitando, imperativamente, quando a paciente diz que não consegue pensar em nada para dizer. Ademais, todo o cuidado com o momento correto de transmitir as interpretações é visto durante todo o relato do caso Elisabeth.


OBS.: Este Artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Alain de Mijolla para o Dicionário Internacional da Psicanálise.