20 de fevereiro de 2018

A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO LACANIANO (Pedro Carlos Tavares da Silva Neto)



INTRODUÇÃO
A hipótese a ser desenvolvida é que há homologia entre Identificação e Escolha de objeto (conceitos freudianos) e Alienação e Separação (conceitos lacanianos), em regra associados ao processo de constituição subjetiva. Homologia relativa, parcial, na medida em que Lacan constrói um caminho teórico e clínico próprio e, em muitas vezes, bastante distinto do freudiano.
O autor sustenta, neste ponto do trabalho, uma leitura dos processos referidos – Alienação e Separação – utilizando somente textos do próprio Lacan - dispensando todos e quaisquer comentadores de sua obra, na medida em que entre estes existe, no entendimento deste autor, manifesto afastamento da letra do texto lacaniano na interpretação do processo de Separação
As razões pelas quais esse afastamento acontece são justificadas pelos efeitos de linguagem – metáfora e metonímia - não contemplados, muito embora advindos do próprio processo de transmissão da Psicanálise, especialmente a condensação de significados e o deslizamento de sentido. Estes efeitos, e algumas consequências teóricas e clínicas disto, são explorados ao longo desta sustentação.
O interpretante desta hipótese proposta é a primeira classe, datada de 16 de novembro de 1966, do Seminário 14 de Lacan, intitulado “Lógica do Fantasma” (versão de Ricardo Rodrigues Ponte, Centro de Estudos Freudianos do Recife). Em texto anterior foi introduzido o conceito de Interpretante – produzido por Charles Sanders Peirce. Aqui, o Interpretante é o próprio texto de Lacan, sendo usado para esclarecer conceitos de Lacan – Alienação e Separação.
Lacan desloca o peso de certos temas freudianos e dá ênfase a entes ausentes na obra de Freud. O ente denominado sujeito é o maior exemplo disso.  E o processo de sua constituição e manejo é obra própria de Lacan.

DO ÉDIPO AO INCONSCIENTE ESTRUTURADO COMO UMA LINGUAGEM
Definição do Complexo de Édipo de Roland Chemama (Amorrortu Editores), no “Diccionario Del Psicoanalisis”, página 119:
1) Conjunto de los investimientos amorosos y hostiles que el niño hace sobre los padres durante la fase fálica. 2) Proceso que debe conducir a la desaparición de estos investimientos y a su remplazo por identificaciones.
Identificação e Escolha de objeto não estão necessariamente atrelados em uma relação causal simples – a criança se identificaria com um genitor de determinado sexo e, em consequência disso, elegeria o outro genitor (do sexo oposto) como seu objeto. Isto é possível, e Freud prefere abordar esta hipótese por seu valor heurístico e de exposição, mas faz sempre a ressalva de que este é o mais simples dos processos.
Se o Isso é o reservatório da libido, e, portanto, sede dos investimentos pulsionais, há investimento ao mesmo tempo amoroso, sensual e hostil por parte da criança no pai e na mãe. Como Freud supõe a bissexualidade constitutiva do ser humano, a criança investe inconscientemente estes objetos de partes iguais ou desiguais de correntes ternas, sensuais e agressivas. Em paralelo a isso, se identifica também parcialmente com estes. Uma criança pode se identificar com o pai, assumir suas insígnias, e ter como escolha de objeto alguém de mesmo sexo deste pai, por exemplo.
A definição de Chemama deixa claro que o paralelismo se dá entre um conjunto de investimentos cujas configurações são múltiplas, e um processo – linguajeiro e cultural – que extingue, ainda que parcialmente, ou modifica estes investimentos, conferindo, em troca de seu desaparecimento ou atenuação, insígnias identificatórias. Insígnias identificatórias que constituem ideais e que ordenariam a pulsão em direção a objetos outros que não os originários, incestuosos.
O Eu do Sujeito se constituiria desse amálgama, desse condensado de investimentos objetais e identificações? Mas o Eu também pode ser investido libidinalmente, assim como qualquer outro objeto. Seu pretenso poder de síntese nada mais é do que ilusão imaginária decorrente desse investimento. Lacan vai explorar e tirar consequências destas questões relativas a segunda tópica freudiana quando formula o Estádio do Espelho. Se o Isso produz o investimento, e o Eu pode ser o destino e o resultado desse investimento, resta ao Supereu a função de substituir esses investimentos por identificações. Logo – e no espaço-tempo desta hipótese de trabalho -, toda identificação é, por estrutura, superegóica.   
O Supereu é o veículo de transmissão dos ideais, significantes do Outro que capturam e modificam os investimentos pulsionais - tornando proscritos determinados objetos e prescritos outros. O Supereu me diz não só o que não devo desejar, mas também o que devo desejar. Portanto, o Desejo do homem é o Desejo do Outro. E aqui Lacan passa a se descolar da leitura direta de Freud. 
O Ideal do Outro, veiculado por sua demanda (já não o Supereu – que vai ser localizado como o mandante do gozo), constitui minha identidade - fornece os significantes mestres - e determina também a supressão de alguns objetos e a constituição de outros. O resultado desse processo é a produção de um ente – cujo ser possui como substrato a fala (falasser) – determinado por um conjunto de objetos prescritos e assombrado por um conjunto de objetos proscritos. O resultado desse processo – do encontro da Pulsão com a Cultura – é a constituição do sujeito enquanto sujeitado a sua fantasia fundamental, sujeitado a dialética do ser e do ter, como afirma Lacan. Governado por uma montagem pulsional que o leva a produzir sentido (ser) e desejar objetos (ter). 
Um processo que pode ser decomposto em uma operação energética (objetos investidos) e uma hermenêutica (identificações a significantes produzidos no campo do Outro). Destaco novamente a homologia entre esta interpretação da metapsicologia freudiana – efetuada por Paul Ricoeur - e a fórmula lacaniana do fantasma – “S” barrado em conjunção e/ou disjunção com o objeto a.
Essa homologia percorre o pensamento de Lacan. Um sujeito que advém por uma operação de exegese – articulação entre “S1” e “S2”, hermenêutica cujo combustível é a energética da pulsão que veste, investindo, objetos advindos do campo do Outro - ainda que faltante (a) o objeto que a satisfaria.   
Aqui a hipótese é de um sujeito estar, pelo Édipo, dividido entre objetos que investe (a) e ideais que assimila (“S” barrado). Dividido por um lado pela Alienação aos significantes do Ideal do Outro (no polo do “S” barrado) – fading - e, por outro (no polo do objeto a), pela Separação Ich Spaltung – que o particiona em objetos parciais.
Importante frisar que, nessa hipótese, a Separação não é necessariamente posterior a Alienação (são tempos lógicos), e nem constitui uma posição que seria positivada ou estimulada numa eventual direção da cura, por implicar em um mero redobramento da ilusão de se haver separado do campo do Outro, quando, na verdade, continua determinado pelos objetos advindos deste campo, determinado pelas fantasias de ser e de ter causadas pela ichspatulng do objeto fálico.  Ler a Separação como percurso a ser atingido em uma análise parece equivaler, nesta hipótese, a conferir a estes processos uma analogia com as posições kleinianas esquizo-paranoide (Alienação) e depressiva (Separação). 
Destas e de outras razões, decorreu a proposição de que Alienação e Separação são processos de constituição da estrutura subjetiva da fantasia fundamental, constituem tempos lógicos e são topologicamente vinculados.  Da mesma forma, de que uma posição não supera a outra em termos dialéticos, não podem ser tidas como autônomas no tempo (da Alienação) ou no espaço (da Separação), muito menos positivadas ou negativadas num percurso de análise.
Se Lacan indica a direção da cura como a de manter a tensão e a distância entre o Ideal e o objeto, o que implica em permitir um franqueamento da fantasia pela manutenção da divisão do sujeito, fantasia que liga Ideal e objeto, o analista somente pode supor ser a Separação o sentido de uma análise se ele negativa a Alienação e positiva a Separação.   
Ao revés, a leitura da Separação aqui proposta a define como a partição do sujeito, por uma interseção do tipo “nem um nem outro”, entre objetos pulsionais parciais, cujo impasse de partes entre partes em um espaço topológico somente se resolve com a construção da fantasia. Fantasia que, primeiro construída, e depois uma vez atravessada, revela a montagem pulsional do sujeito.
Lacan, em “Posição do Inconsciente”, página 849, Escritos, 1966:
O efeito de linguagem é a causa introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele não é causa dele mesmo, mas traz em si o germe da causa que o cinde. Pois sua causa é o significante sem o qual não haveria nenhum sujeito no real. Mas esse sujeito é o que o significante representa, e este não pode representar nada senão para um outro significante: ao que se reduz, por conseguinte, o sujeito que escuta.

METÁFORA E METONÍMIA COMO CORTES NO REAL
São dois os efeitos de linguagem privilegiados por Lacan, inspirados pelo trabalho de Roman Jakobson sobre as afasias: Metáfora e Metonímia. Dois modos pelos quais o significante representa o sujeito para outro significante. No eixo vertical do Paradigma, um significante substitui outro. No eixo horizontal do Sintagma, um significante se combina, em sucessão, com outro. No eixo do Paradigma, relações que privilegiam o aspecto temporal – antecipação e retroação. No eixo do Sintagma, relações que privilegiam o aspecto espacial – partes relacionadas a partes ou ao todo (Lacan não aceita esse todo, trabalha apenas com partes em relação a partes). Efeitos que causam o sujeito. Vale dizer, que o constituem.
Alienação e Separação não substituem Metáfora e Metonímia. Ou melhor, substituem enquanto metáfora da metáfora (Alienação) e metonímia da metonímia (Separação). Sempre é possível substituir um significante por outro, e sempre haverá deslizamento de sentido ao longo da combinação de significantes em sucessão na cadeia significante. Para se proteger desse risco, de contaminar o enunciado da teoria com a dinâmica da enunciação, em “Posição do Inconsciente”, 1966, página 848, Escritos, Lacan afirma:
O estilo justo do relato da experiência não é a totalidade da teoria. Mas é o que garante de que os enunciados segundo os quais ela opera preservem em si o distanciamento da enunciação em que se atualizam os efeitos de metáfora e da metonímia, ou seja, de acordo com nossas teses, os próprios mecanismos descritos por Freud como sendo os do inconsciente.
Na primeira classe do Seminário 14, Lacan tenta desfazer esse equívoco de supor que os mecanismos inconscientes que causam o sujeito – Metáfora e Metonímia - foram substituídos por Alienação e Separação. Que os enunciados segundo os quais ela opera - a teoria - sofressem da atualização dos próprios mecanismos, inconscientes, que ela supõe designar (Alienação e Separação podem ser pensados como designadores rígidos dos processos metafóricos e metonímicos). Porém, vã tentativa de Lacan de domesticar os efeitos da linguagem.
De todo modo, Lacan inverte o tradicional e automático modo causalista de pensar. Intrinca efeito e causa ao revés de meramente opor o efeito à causa.  Porque a causa é o significante. E o efeito é o sujeito. E são dois os processos pelo quais o significante causa o sujeito: Metáfora e Metonímia. Isso subverte a lógica psicológica que pensa o sujeito como indivíduo. Lógica psicológica que reaparece, apesar dos esforços de Lacan em subvertê-la, quando os clínicos de sua época se atrapalham com as operações metafóricas e metonímicas e as descartam, conforme explica Eric Laurent em Para Ler o Seminário 11 de Lacan (páginas 32 e 33):
Como se pode deduzir uma topologia a partir do axioma de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem? (...) Ainda mais misterioso é como uma topologia pode ser responsável pela constituição de um sujeito. (...) Houve entre os ouvintes de Lacan uma separação entre os analistas praticantes e os acadêmicos. Estes últimos se deliciavam com o uso de metáfora e metonímia, que sabiam como manejar. Os analistas ficaram encantados (...) mas não viam claramente como fazer alguma coisa com aquilo.    
Um sujeito, diz Laurent. O sujeito lacaniano é um? O sujeito lacaniano não é o indivíduo (ainda que este fantasie ser uno), por que com ele não se fala. 
Com o sujeito, portanto, não se fala. Isso fala dele, e é aí que ele se apreende, e tão mais forçosamente quanto, antes de – pelo simples fato de isso se dirigir a ele - desaparecer como sujeito sob o significante em que se transforma, ele não é absolutamente nada. Mas esse nada se sustenta por seu advento, produzido agora pelo apelo, feito no Outro, ao segundo significante.”(Lacan, Escritos, p. 849)
Isso fala em mim (esse significante “S1”, advindo do campo do Outro), em mim, em isso que penso indiviso. Mas o que quer dizer isso? Qual o sentido disso? Apelo a um segundo significante (“S2”, advindo do campo do Outro). Este segundo significante faz emergir sentido, esclarece o primeiro, o interpreta. E o substitui. Isso (“S1”) que dizer aquilo (“S2”). Sou aquilo. Metáfora. Condensação. Sou esse condensado, este amalgamado. Petrificado estou sendo aquilo que metaforiza isso que fala em mim.  E aqui começa o processo de alienação.
 
ALIENAÇÃO COMO “FADING” DO SUJEITO PELO SIGNIFICANTE
Efeito de linguagem, por nascer dessa fenda original, o sujeito traduz uma sincronia significante nessa pulsação temporal primordial que é o fading constitutivo de sua identificação. Esse é o primeiro movimento.” (Lacan, 1986, p. 849)
Fading constitutivo de minha identificação, condensado de significantes que produzem ser. Capacidade ontológica da linguagem, aspecto hermenêutico do sujeito.  Lacan, em “Posição do Inconsciente”, faz algumas considerações sobre o inconsciente que são preliminares necessárias para esclarecer Alienação e Separação:
Hiância, pulsação, uma alternância de sucção, para seguirmos certas indicações de Freud: é disso que precisamos dar conta, e foi isso que tratamos de fazer fundamentando-o numa topologia. A estrutura daquilo que se fecha inscreve-se, com efeito, numa geometria em que o espaço se reduz a uma combinatória: ela é propriamente falando, o que ali se chama de uma borda.” (Lacan, 1966, p. 852)
O inconsciente tem estrutura de borda, numa geometria em que o espaço se reduz a uma combinatória. Não adianta falar em abertura e fechamento, ou em hiância, se não se trabalha com o conceito de borda, de fronteira. Sem este conceito se supõe um inconsciente no interior do vivente, um inconsciente psicologizado. E não um inconsciente de fronteira, ocupando um espaço lógico – topológico - entre interior e exterior, ou melhor, que despreza a distinção entre estes dois lócus. E é disso que Lacan trata de tirar consequências, do corte irredutível que se opera para constituir a borda. 
Ao estudá-la formalmente nas consequências da irredutibilidade de seu corte, nela poderemos reordenar algumas funções, entre a estética e a lógica, das mais interessantes. Nisso percebemos que é o fechamento do inconsciente que fornece a chave de seu espaço e, nomeadamente, a compreensão da impropriedade que há em fazer dele um interior.” (Lacan, 1966, p. 852)
E se a categoria epistemológica do espaço é alterada – de uma, do senso comum, intuitivo, para uma topológica, de combinatória -, o tempo, como categoria epistêmica, também se altera.  Isso porque a epistemologia freudiana – que captura Laurent - é anterior a epistemologia de Lacan – esta já contava com os avanços da física da relatividade do século XX:  
Ele também demonstra o núcleo de um tempo reversivo, muito necessário de introduzir em toda eficácia do discurso, e já bastante sensível na retroação - na qual insistimos há muito tempo - do efeito de sentido na frase, o qual exige, para se fechar, sua última palavra, o nachtriiglich (lembremos que fomos o primeiro a extraí-lo do texto de Freud), nachtriiglich, ou a posteriori, segundo o qual o trauma se implica no sintoma, mostra uma estrutura temporal de ordem mais elevada.” (Lacan, 1966, p. 852)
Aqui o tempo é a posteriori, fundado em uma das propriedades ou leis do significante – em seus movimentos de antecipação e retroação.  Tempo e espaço são relativos, vinculados – alterar um altera o outro - e podem ser articulados em combinatória, desde que se estabeleça um marco inercial comum de referência. Por exemplo, uma borda, enquanto ponto fixo, pode ser o marco de referência. 
Mas, acima de tudo, a experiência desse fechamento mostra que não seria um ato gratuito para os psicanalistas reabrir o debate sobre a causa, fantasma impossível de exorcizar do pensamento, crítico ou não. Pois a causa não é, como também se diz do ser, engodo das formas do discurso. Já o teríamos desfeito. Ela perpetua a razão que subordina o sujeito ao efeito do significante.(...) É somente como instância do inconsciente, do inconsciente freudiano, que se apreende a causa no nível do qual um Hume tenciona desalojá-la, e que é justamente aquele em que ela ganha consistência: a retroação do significante em sua eficácia, que é absolutamente necessário distinguir da causa final.(...)É inclusive ao demonstrar que essa é a única e verdadeira causa primeira que veríamos congregar-se a aparente discordância das quatro causas de Aristóteles - e os analistas poderiam, de seu terreno, contribuir para essa retomada.” (Lacan, 1966, p. 853)
A eterna discussão filosófica e científica sobre a causalidade é renovada com a proposição de Lacan que a causa perpetua a razão que subordina o sujeito ao efeito do significante (o significante é causa formal, material, eficiente e final do sujeito - estará ele propondo uma nova modalidade de causalidade, a causalidade significante?). Um efeito, a substituição de um significante por outro, alienação metafórica. Outro efeito, a combinação de partes significantes na cadeia, engendramento de objetos pelos cortes, separação metonímica. 
Teriam como recompensa disso poderem servir-se do termo freudiano ‘sobredeterminação’ de um outro modo que não para um uso de pirueta. O que vem a seguir introduzirá o traço que domina a relação de funcionamento entre essas formas: sua articulação circular, mas não recíproca.” (Lacan, 1966, p. 853)
O significante posterior não desconstitui o anterior, mas, circularmente, entre antecipação e retroação, o borra, o torna opaco, o barra.
Havendo fechamento e entrada, não está dito que eles separam: eles dão a dois campos seu modo de conjunção. Estes são, respectivamente, o sujeito e o Outro, só devendo esses campos ser substantivados aqui a partir de nossas teses sobre o inconsciente. O sujeito, o sujeito cartesiano, é o pressuposto do inconsciente, como demonstramos no devido lugar. O Outro é a dimensão exigida pelo fato de a fala se afirmar como verdade. O inconsciente é, entre eles, seu corte em ato.” (Lacan, 1966, p. 853)
É esse corte em ato, essa conjunção de parte com parte, que faz interseção do campo do sujeito e do campo do Outro, que constitui o objeto a. O sujeito dividido, constituído pelo fading da Alienação (Identificação) e a Ich Spaltung da Separação (constituição do objeto na intersecção dos campos do sujeito e do Outro), é um ente de estrutura – estrutura não se dissolve.
O sujeito lacaniano, diferentemente do cartesiano, é dividido entre pensar e ser, entre saber e verdade. É um ente que pensa, pensa em algo; é um ente que é, é algo. Mas quando pensa não é, e quando é, não pensa. O campo do sujeito e o campo do Outro – na intersecção, o objeto a. Não se pode conceber o sujeito sem a necessária vinculação - lógica - com o objeto a. O objeto a faz intersecção entre o campo do sujeito e o campo do Outro. Fato de estrutura que não se modifica. Mas objeto aqui não significa coisa, significa um vazio que é recoberto por objetos, produtos do psiquismo humano.  
A primeira, a alienação, é própria do sujeito. Num campo de objetos, não é concebível nenhuma relação que gere a alienação, a não ser a do significante. Tomemos por origem o dado de que nenhum sujeito tem razão de aparecer no real, salvo por nele existirem seres falantes. Concebe-se uma física que de conta de tudo no mundo, inclusive de sua parte animada. Um sujeito só se impõe nela por haver no mundo significantes que não querem dizer nada e que tem de ser decifrados. (...) Conferir essa prioridade ao significante em relação ao sujeito é, para nós, levar em conta a experiência que Freud nos descortinou, a de que o significante joga e ganha, por assim dizer, antes que o sujeito constate isso, a ponto de, no jogo do Witz, do chiste, por exemplo, ele surpreender o sujeito. Com seu flash, o que ele ilumina é a divisão entre o sujeito e ele mesmo. (...) Mas o fato de se revelar não deve mascarar para nós que essa divisão não provém de outra coisa senão do mesmo jogo, o jogo dos significantes... dos significantes, e não dos signos. Os signos são plurivalentes: sem dúvida representam alguma coisa para alguém; mas, desse alguém, o status é incerto, como o é o da pretensa linguagem de certos animais, linguagem de signos que não admite a metáfora nem gera a metonímia.” (Lacan, 1966, p. 854-55)
A linguagem dos signos não admite a metáfora nem a metonímia. A Separação não é signo de um sujeito desalienado. É produto de processo metonímico de partição de partes em relação a partes.  Um significante representa um sujeito para outro significante. Uma parte representa o sujeito para outra parte. Uma boca representa o sujeito para outra boca. Uma mulher só goza quando localiza em seu olhar um pedaço do peitoral do homem que está com ela. Esse corte, esse destaque, pelo olhar dela, de uma parte do corpo do outro, processo metonímico.
O registro do significante institui-se pelo fato de um significante representar um sujeito para outro significante. (...) Essa é a estrutura, sonho, lapso e chiste, de todas as formações do inconsciente. E é também a que explica a divisão originária do sujeito. Produzindo-se o significante no lugar do Outro ainda não discernido, ele faz surgir ali o sujeito do ser que ainda não possui a fala, mas ao preço de cristalizá-lo. O que ali havia de pronto para falar - nos dois sentidos, dos que o imperfeito do francês ‘da’ ao ‘il y avait’ (havia), o de colocá-lo no instante anterior: lá estava e não está mais; porem ele também no instante posterior: por pouco mais lá estava por ter podido lá estar -, o que lá havia desaparece, por não ser mais que um significante. (...) Portanto, não é o fato de essa operação se iniciar no Outro que a faz qualificar de alienação. Que o Outro seja para o sujeito o lugar de sua causa significante só faz explicar, aqui, a razão por que nenhum sujeito pode ser causa de si mesmo. O que se impõe não somente por ele não ser Deus, mas porque o próprio Deus não poderia sê-lo, se tivéssemos que pensar nele como sujeito – Santo Agostinho percebeu isso muito bem, recusando o atributo de causa de si mesmo ao Deus pessoal.” (Lacan, 1966, p. 854)
Nenhum sujeito pode ser causa de si mesmo. Portanto, não é o fato de essa operação se iniciar no Outro que a faz qualificar de Alienação. A Alienação em Lacan é distinta da de Marx. Esta sim faz com que os seus ideólogos suponham ser necessário ultrapassá-la, pela separação dos objetos de consumo ou extinção dos ideais (capitalistas) para atingir o paraíso do proletariado. Um sujeito desalienado pela separação – no sentido de desvinculação – dos objetos do discurso do capitalista. A Alienação em Lacan reside na divisão do sujeito causada pelos efeitos das leis do significante. 
A alienação reside na divisão do sujeito que acabamos de designar em sua causa. Avancemos na estrutura lógica. Essa estrutura é a de um vel, novo por produzir aqui sua originalidade. Para isso, é preciso derivá-lo do que se chama, na lógica dita matemática, uma reunião (já reconhecida como definindo um certo vel). Essa reunião é tal que o vel que dizemos de alienação só impõe uma escolha entre seus termos ao eliminar um deles, sempre o mesmo, seja qual for essa escolha. O que está em jogo limita-se, pois, aparentemente, a conservação ou não do outro termo, quando a reunião é binária.” (Lacan, 1966, p. 855)
O termo que é eliminado, seja qual for a escolha, é o objeto a. No Seminário 14, Lacan vai confirmar esta afirmação, nos seguintes termos (Lacan, p. 21): 
É por isso que jamais - nessa relação de um vel originalmente estruturado que é aquele onde tentei articular para vocês, há três anos, a alienação - o sujeito poderia se instituir senão como uma relação de falta com esse a que é do Outro, exceto, ao querer se situar nesse Outro, a só tê-lo igualmente amputado desse objeto a.
Voltando a “Posição do Inconsciente”, página 843 e seguintes dos Escritos:
Essa disjunção encarna-se de maneira muito ilustrável, senão dramática, tão logo o significante se encarna, num nível mais personalizado, no pedido ou na oferta: no ‘a bolsa ou a vida’ ou no ‘a liberdade ou a morte’. (...) Trata-se apenas de saber que vocês querem ou não (sic aut non) conservar a vida ou recusar a morte, pois, no que concerne ao outro termo da alternativa, a bolsa ou a liberdade, sua escolha será de qualquer maneira decepcionante. (...) É preciso estar atento ao fato de que o que resta, de qualquer modo, fica desfalcado: será a vida sem a bolsa - e será também, por haver recusado a morte, uma vida algo incomodada pelo preço da liberdade. É esse o estigma, posto que o véu, funcionando aqui dialeticamente, de fato atua sobre o vel da reunião lógica, que, como se sabe, equivale a um et (sic et non), o que se ilustra pelo fato de que, num prazo mais longo, será preciso abandonar a vida depois da bolsa, e, por fim, restará apenas a liberdade de morrer. Do mesmo modo, nosso sujeito é colocado no vel de um sentido a ser recebido ou da petrificação. Mas, se ele preserva o sentido, é esse campo (do sentido) que será mordido pelo não-sentido que se produz por sua mudança em significante. E é justamente do campo do Outro que provêm esse não-sentido. Apesar de produzido como eclipse do sujeito. (...) Que S. Leclaire seja questionado para poder considerar inconsciente a sequência do licorne, a pretexto de que ele é, por sua vez consciente dela, significa que não se vê que o inconsciente só tem sentido no campo do Outro - e menos ainda o que decorre disso: que não é o efeito de sentido que opera na interpretação, mas a articulação, no sintoma, dos significantes (sem nenhum sentido) aprisionados nele.
Em resumo, características do primeiro movimento denominado Alienação: prevalência da sincronia. Fading. Processo de metáfora. Na dialética do objeto fálico, ser. Lógica da reunião e do desfalque – ou isso ou aquilo. Privilégio dos aspectos temporais. 

SEPARAÇÃO COMO “ICHSPALTUNG” PELO OBJETO FÁLICO – A PULSÃO
Mas a esse ente evanescente falta algo, algo que também é determinado pelo Campo do Outro e que já está lá quando de seu advento.  
Mas, no segundo, havendo o desejo feito seu leito no corte significante em que se efetua a metonímia, a diacronia (chamada ‘historia’) que se inscreveu no fading retorna a espécie de fixidez que Freud atribui ao voto inconsciente (última frase da traumdeutung). Esse suborno secundário não apenas conclui o efeito da primeira, projetando a topologia do sujeito no instante da fantasia, mas o sela, recusando ao sujeito do desejo que ele se saiba efeito de fala, ou seja, que saiba o que ele é por não ser outra coisa senão o desejo do Outro.” (Lacan, 1966, p. 852)
Lacan fala em suborno, suborno secundário. Algo (ser) em troca de algo (ter).  O objeto fálico que produz o sujeito dividido entre o ser e o ter recusa ao sujeito que se saiba efeito do desejo do Outro. Ichspaltung cujas fantasias de ser e de ter tenta suturar. De um campo - do Outro – há recortes em partes, secção de pedaços. De um campo – do Outro – há constituição de figuras, destaque de imagens, objetos: 
Aqui o que ocorre é partição, engendramento de parte, parte que realiza o sujeito mediante a falta que ele supõe produzir no campo do Outro. Engendramento dele como o objeto – fálico - que supõe faltar no campo do Outro. Processo metonímico cuja significação é ‘podes me perder?’.”
Uma parte dividida – alienada – pelo significante, outra parte dividida – separada - pelos objetos das pulsões. Mas por isso mesmo – engendrado como objeto fálico - dividido entre ser e ter. 
Passemos a segunda operação, onde se fecha a causação do sujeito, para nela constatar a estrutura da borda em sua função de limite, bem como na torção que motiva a invasão do inconsciente. A essa operação chamaremos: separação. Nela reconheceremos o que Freud denomina de ichspaltung ou fenda do sujeito, e compreenderemos porque, no texto em que Freud ali introduz, ele a fundamenta numa fenda não do sujeito, mas do objeto (fálico, nomeadamente).” (Lacan, 1966, p. 856)
A forma lógica que essa segunda operação vem modificar dialeticamente chama-se, na lógica simbólica, interseção, ou o produto que se formula por um pertencimento (-a e a):
Essa função modifica-se, aqui, por uma parte retirada da falta pela falta, através da qual o sujeito reencontra no desejo do Outro sua equivalência ao que ele é como sujeito do inconsciente. (...) Por essa via, o sujeito se realiza na perda em que surgiu como inconsciente, mediante a falta que produz no Outro, de acordo com o traçado que Freud descobriu como sendo a pulsão mais radical, e que ele denominou de pulsão de morte. Aqui, um nem -a é convocado a suprir outro nem a. O ato de Empédocles, respondendo a isso, evidencia que se trata aí de um querer. O vel retorna como velle. Esse é o fim da operação. Agora, o processo. Separare, se parare: para se enfeitar com o significante sob o qual sucumbe, o sujeito ataca a cadeia, que reduzimos a conta exata de um binarismo, em seu ponto de intervalo. O intervalo que se repete, estrutura mais radical da cadeia significante, é o lugar assombrado pela metonímia, veículo, ao menos como o ensinamos, do desejo. (...) Seja como for, é sob a incidência em que o sujeito experimenta, nesse intervalo, uma Outra coisa a motivá-lo que não os efeitos de sentido com que um discurso o solicita, que ele depara efetivamente com o desejo do Outro, antes mesmo que possa sequer chamá-lo de desejo, e muito menos imaginar seu objeto. O que ele coloca aí é sua própria falta, sob a forma da falta que produziria no Outro por seu próprio desaparecimento.” (Lacan, 1966, p. 857-58)  
Desaparecimento que, se assim podemos dizer, ele tem nas mãos, da parte de si mesmo que lhe cabe por sua alienação primária: 
Mas o que ele assim preenche não é a falha que ele encontra no Outro, e sim, antes, a da perda constitutiva de uma de suas partes, e pela qual ele se acha constituído em duas partes. (...) Nisso reside a torção através da qual a separação representa o retorno da alienação. E por ele operar com sua própria perda, a qual o reconduz a seu começo. Sem dúvida, o ‘ele pode me perder’ é seu recurso contra a opacidade do que ele encontra no lugar do Outro como desejo, mas restitui o sujeito a opacidade do ser que lhe coube por seu advento de sujeito, tal como ele se produziu inicialmente pela intimação do outro.” (Lacan, 1966, p. 858)
Se ele, se partindo como objeto, se propondo como objeto ao desejo do Outro, pode receber desse Outro qualquer resposta, a opacidade desta resposta, qualquer que seja – e ainda que não haja - o reconduz a ser, à opacidade do ser que lhe coube por seu advento de sujeito pela alienação.
Separare, separar, conclui-se aqui em se parere, gerar a si mesmo. Prescindamos dos préstimos certeiros que encontramos nos etimologistas do Latim, nesse deslizamento do sentido de um verbo para a outro. Que se saiba apenas que esse deslizamento se funda no pareamento comum dos dois na função da pars. A parte não é o todo, costuma-se dizer, só que geralmente sem pensar. Pois seria preciso acentuar que, com o todo, ela nada tem a ver. E preciso tomar partido nisso; ela joga sua partida ‘sozinha’. Aqui, é por sua partição que o sujeito procede a sua parturição. E isso não implica a metáfora grotesca de que ele se dê a luz de novo. (Lacan, 1966, p. 857)
Há fenda, o sujeito se parte entre desejo e pulsão, entre ser e ter, se propondo como objeto, e como objeto que pode faltar. Essa objetalização de si diante do enigma do desejo do Outro constitui processo metonímico motivado pela pulsão. Para Lacan, pela pulsão de morte em última instância. O “podes me perder?” seria a expressão simbólica e imaginária desse sujeito partido objeto diante da possibilidade, proposta ao Outro, de sua extinção.
Por isso é que o sujeito pode se proporcionar o que lhe diz respeito aqui, um estado que qualificaremos de civil. Nada na vida de ninguém desencadeia mais empenho para ser alcançado. Para ser pars, ele realmente sacrificaria grande parte de seus interesses, e não para ser integral na totalidade, que, de resto, não é de modo algum constituída pelos interesses dos outros, e menos ainda pelo interesse geral, que se distingue disso de um modo totalmente diferente. Essa é uma operação cujo desenho fundamental vai ser reencontrado na técnica. Pois é na escansão do discurso do paciente, na medida que nele intervém o analista, que veremos ajustar-se a pulsação da borda pela qual deve surgir o ser que reside para aquém dela. A espera do advento desse ser em sua relação com o que designamos como o desejo do analista, no que ele tem de despercebido, pelo menos até hoje, por sua própria posição, essa a última e verdadeira mola do que constitui a transferência. (...) Eis por que a transferência é uma relação essencialmente ligada ao tempo e a seu manejo. Mas o ser que, em nos operando a partir do campo da fala e da linguagem, responde do para-aquém da entrada da caverna, quem é ele? (Lacan, 1966, p. 857)
Esse ser é o ser da pulsão. Esse é o motivo outro que não o de sentido com que um discurso o solicita. Essa partição do ser em partes, para ser parte, de parte de algo, ao qual ele sacrificaria todos os seus interesses.  Esse é o ser da libido, órgão irreal que Lacan constitui a seguir. Que move parte dividida pelo modo de reprodução sexuada a buscar outra parte - vista como seu complemento – na parte de outro sexo. Modos metonímicos de partição pulsional. Ser sexuado que busca seu complemento anatômico mítico. 
Nossa lamela representa aqui a parte do ser vivo que se perde no que ele se produz pelas vias do sexo.” (Lacan, 1966, p. 861)
A Separação como partição tem relação direta com os objetos das pulsões parciais:
Do que dela se representa no sujeito, o que impressiona é a forma de corte anatômico (reavivando o sentido etimológico da palavra anatomia) em que se decide a função de alguns objetos, dos quais convém dizer não que eles são parciais, mas que tem uma situação realmente à parte. O seio, para dele tirar o exemplo dos problemas suscitados por esses objetos, não é somente a fonte de uma nostalgia ‘regressiva’, por ter sido a de um alimento valorizado. Ele está ligado ao corpo materno, dizem-nos, a seu calor ou aos cuidados amorosos. Mas isso não equivale a dar uma razão suficiente de seu valor erótico (...). Na verdade, não se trata do seio no sentido da matriz, pela qual se misturem à vontade essas ressonâncias em que o significante joga fartamente com a metáfora. Trata-se do seio especificado na função do desmame, que prefigura a castração? O desmame está por demais situado, desde a investigação kleiniana, na fantasia da partição do corpo da mãe, para que não suspeitemos de que é entre o seio e a mãe que passa o plano de separação que faz do seio o objeto perdido que está em causa no desejo. (Lacan, 1966, p. 856)
É entre o seio e a mãe que passa o plano da Separação, constituído por um território limite, uma fronteira, uma interseção. Partição da criança entre o seio e a mãe. Fantasia. Nem um nem outro. Pulsão.
Operar sobre a Separação implica revelar essa estrutura de partições pulsionais e, no caso a caso da clínica, detectar os objetos parciais que jogam a partida sozinhos. Detectar seu território, sua borda. É entre a boca e o cigarro que fuma, entre o olhar e a tela do computador - que captura o sujeito nas imagens de games ou pornográficas - que um adolescente passa a maior parte de sua vida.  Partido entre boca e olhar. É querendo nem um nem outro, daí estar em análise. 
Importante apreender como o organismo vem a ser apanhado na dialética do sujeito. E na dialética do sujeito a Separação é aquilo do organismo – parte – que o sujeito vem estabelecer como incorporal, tendo em vista que, por ser sexuado, é partido, separado:
É por meio dele que ele pode realmente fazer de sua morte objeto de desejo do Outro. Mediante o que virão para esse lugar o objeto que ele perde por natureza, o excremento, ou então os suportes que ele encontra para o desejo do Outro: seu olhar, sua voz. É em revolver esses objetos para neles resgatar, para restaurar em si sua perda original, que se empenha a atividade que nele denominamos de pulsão (Trieb). Não há outra via em que se manifeste no sujeito a incidência da sexualidade. A pulsão, como representante da sexualidade no inconsciente, nunca e senão pulsão parcial. ” (Lacan, 1966, p. 863)
E a pulsão é a atividade de revolver esses objetos – partes – para neles resgatar ou restaurar em si sua perda original. Ao lugar desse órgão incorporal vem os suportes - os objetos parciais – que ele encontra para o desejo do Outro – seu olhar e sua voz – ou o que é perdido por natureza – o excremento. Partes.
É nisso que está a carência essencial, isto é, a daquilo que pudesse representar no sujeito o modo, em seu ser, do que nele é macho ou fêmea. A que nossa experiência demonstra de vacilação no sujeito, no tocante a seu ser de masculino ou feminino, deve ser menos relacionado com sua bissexualidade biológica do que com o fato de não haver nada em sua dialética que represente a bipolaridade do sexo, a não ser a atividade e a passividade, isto é, uma polaridade pulsão-ação-de-fora, totalmente imprópria para representá-la em seu fundamento. É a isso que queremos chegar neste discurso: a que a sexualidade se distribui de um lado a outro de nossa borda como limiar do inconsciente. (Lacan, 1966, p. 863)
A polaridade “pulsão x ação de fora” é totalmente imprópria para representar o ser sexuado do vivente. Não há nada que represente a bipolaridade do sexo (a não ser o desejo de Freud e Fliess, e o par “atividade x passividade”). Portanto, Lacan distribui a sexualidade de um lado a outro da borda, como limiar do inconsciente. Uma borda topológica que possui duas faces. Borda que parte o sujeito de dois lados.  Da seguinte maneira:
Do lado do vivente, como ser que deve ser captado na fala, como alguém que nunca pôde enfim advir nela por inteiro, nesse para-aquém do limiar que, no entanto, não é dentro nem fora, não há acesso ao Outro do sexo oposto senão através das chamadas pulsões parciais, onde o sujeito busca um objeto que lhe reponha a perda de vida que lhe é própria, por ele ser sexuado. Do lado do Outro, do lugar onde a fala se confirma por encontrar a troca dos significantes, os ideais que eles sustentam, as estruturas elementares de parentesco, a metáfora do pai como princípio da separação, a divisão sempre reaberta no sujeito em sua alienação primária, apenas desse lado, e por estas vias que acabamos de citar, devem instaurar-se a ordem e a norma que dizem ao sujeito o que ele deve fazer como homem ou mulher.” (Lacan, 1966, p. 864)
A metáfora do Pai como princípio da Separação não significa que seja o Nome-do–Pai o elemento que produz a desalienação da criança do campo do Outro materno. Sua presença é condição de possibilidade da constituição do objeto fálico que particiona o sujeito.  Características do segundo movimento denominado Separação: Diacronia, ichspaltung. Partição. Metonímia. Na dialética do objeto fálico, ter.  Privilégio das relações espaciais.
Alienação leva a fading, Separação leva a ichspaltung. Identificação implica em fading e Escolha de objeto leva a ichspaltung. Não se desconstitui a divisão do sujeito, o lugar do ideal nunca fica vago, nem o lugar do objeto fica sem ser preenchido, ainda que um represente a hermenêutica e o outro a energética.

CONCLUSÃO
Não há ser aí (DASEIN) senão no objeto a. Um sujeito emerge no estado de sujeito barrado como algo que vem de um lugar onde ele é suposto inscrito num outro lugar onde ele vai inscrever-se de novo. Exatamente da mesma maneira que foi estruturada a função da Metáfora. Um vazio (objeto a) constituído ser, uma ontologia (referido ao ser) do vazio. Ou um vazio constituído ente, uma ôntica (referido ao ente) do vazio.  Modos de marcar que o horror ao vazio, à lacuna, é que produz a necessidade psíquica de metaforizar sentido e metonimizar objetos.
     
Da mesma forma, e na medida que, a respeito desse significante primeiro, vamos ver qual é, o sujeito barrado que ele aboliu vem surgir num lugar onde vamos poder dar hoje uma fórmula que ainda não foi dada: O SUJEITO BARRADO, COMO TAL, É ISSO QUE REPRESENTA PARA UM SIGNIFICANTE - ESSE SIGNIFICANTE DE ONDE ELE SURGIU - UM SENTIDO.

O sujeito barrado como tal é um sentido. Uma máquina de produção de sentido constituída por um sentido originário, uma Metáfora primeira – uma substituição de significantes originária - que passa a vida produzindo novas metáforas – substituindo significantes - através dos discursos que articula. E produzindo objetos, entes, pela sucessão metonímica.

Entendo por ‘sentido’ exatamente o que lhes fiz entender no início de um dos anos sob a fórmula: Colorness green ideas sleep furiosly, o que pode se traduzir em francês por isso que retrata admiravelmente a ordem ordinária de suas cogitações - ideias verdemente fuliginosas adormecem com furor. Isso, precisamente sem saber que todas elas se endereçam ao significante da falta do sujeito que se torna um certo significante primeiro, desde que o sujeito articule seu discurso. A saber – o que mesmo assim todos os psicanalistas se aperceberam bem ainda que eles não pudessem dizer nada que valha, a saber: o objeto a que nesse nível, preenche precisamente a função que Frege distingue do Sinn sob o nome de Bedeutung. E a primeira Bedeutung, o objeto a, o primeiro referente, a primeira realidade, a Bedeutung que permanece porque ela é, afinal, tudo o que resta do pensamento no fim de todos os discursos.” (Lacan, Seminário 14, s/p)

Na medida em que apreender um sentido (um modo de apresentação dos objetos – que podem inclusive possuir sentido surreal ou sem sentido, como no exemplo dado por Lacan e retirado de Chomsky), não assegura seu referente (a coisa designada), o objeto a preenche a função lógica de causar toda a significação (denotar e conotar), designar a referência (o tema, o assunto), sendo o primeiro referente, a primeira realidade. Vale dizer, a coisa referida é pulsional. A coisa designada é o vazio que a pulsão recobre.

E ela recobre produzindo seres – metaforizando – e entes – metonimizando.  O pensamento se produz pela negação do vazio, hiato que é contornado pela pulsão e cujos objetos parciais são seus representantes. Representação de uma falta. O objeto a ocupa esse lugar, sem, no entanto, tamponar o vazio. O pensamento se constitui por horror ao vazio; ninguém escapa aos efeitos metafóricos e metonímicos da linguagem. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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PEDRO CARLOS TAVARES DA SILVA NETO é advogado e psicanalista, membro de Apertura, Sociedad Psicoanalitica de Buenos Aires e La Plata.

24 de dezembro de 2017

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: HERBERT GRAF



HERBERT GRAF (1903-1973) é o nome por trás do pseudônimo do caso clínico do “Pequeno Hans”.
Até 1972, data da publicação das “Memórias de um homem invisível”, transcrição das quatro entrevistas concedidas por Herbert Graf ao jornalista Francis Rizzo, não se conhecia a identidade do “menino de cinco anos” que se celebrizou sob o nome de “Pequeno Hans”, graças ao relato feito por Sigmund Freud sobre sua análise, realizada sob a condução de Max Graf, pai do paciente.
Considerado um dos grandes casos clínicos da história da Psicanálise, o tratamento do Pequeno Hans ocupou rapidamente um lugar especial nos anais do freudismo, a começar pelo fato de que o paciente (pela primeira vez) era uma criança e, além disso, porque Freud, em vez de ficar na posição de analista, interviera como supervisor.
A análise propriamente dita do Pequeno Hans desenrolou-se durante o primeiro semestre do ano de 1908. Foi contemporânea da de Ernst Lanzer, o Homem dos Ratos. Freud, com a autorização do pai do menino, publicou o relato em 1909, mas já se referira ao Pequeno Hans em dois artigos sobre a sexualidade infantil, publicados em 1907 e 1908. Na verdade, desde 1906, quando o menino ainda não tinha três anos, seu pai, conquistado pela Psicanálise ao escutar sua mulher lhe falar de seu tratamento com Freud, tomava notas sobe tudo o que dizia respeito à sexualidade do filho, a fim de transmiti-las ao mestre, para quem se tornara uma pessoa da família. Max Graf não era o único a se entregar a esse tipo de observação: Freud, como lembrou no início de seu relato, incitara seus colegas das reuniões da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras a se dedicarem a esse tipo de exercício, de modo a lhe levarem provas da solidez de fundamento de suas teses sobre a sexualidade infantil, expostas algum tempo antes nos Três ensaios sobe a teoria da sexualidade.
Desde as primeiras anotações do pai, o Pequeno Hans parecia muito preocupado com a parte do corpo a que chamava seu “faz-pipi”. Sucessivamente, perguntou à mãe se ela também tinha um, atribuiu um à vaca leiteira, à locomotiva que soltava água, ao cachorro e ao cavalo, mas não o atribuiu à mesa nem à cadeira. Esse interesse, como assinalou Freud com humor, não se limitava à teoria: levou Hans a ser surpreendido pela mãe quando se entregava a bulir no pênis. A ameaça brandida por esta, de mandar que lhe cortassem o “faz-pipi” se ele continuasse a se dedicar àquele tipo de atividade, não chegou a induzir nenhum sentimento de culpa, mas, como assinalou ainda Freud, fez com que ele adquirisse o complexo de castração. Prosseguindo em suas explorações, o menino procurou averiguar se seu pai também tinha um “faz-pipi” e ficou surpreso ao saber que a mãe, adulta, não tinha um “faz-pipi” do tamanho do de um cavalo.
Durante esse período, “o grande acontecimento da vida de Hans foi o nascimento de sua irmãzinha Anna, quando ele tinha exatamente três anos e meio”. As observações do pai evidenciaram uma distância entre os ditos do menino, que pareciam dar crédito à história da cegonha que traz os bebês, e sua atenção à maleta do médico e às bacias de água suja de sangue no quarto da parturiente, atenção essa que parecia indicar, como assinalou Freud, a presença das primeiras suspeitas quanto à verdade da fábula. Hans precisaria de uns seis meses para superar seu ciúme e se convencer de sua superioridade em relação à irmã caçula. Assistindo ao banho desta, constatou que ela possuía um “faz-pipi ainda pequeno” e, benevolente, previu que ele se tornaria maior quando Anna crescesse. Comentando as observações seguintes, Freud destacou as manifestações de auto-erotismo, logo seguidas por uma “escolha de objeto exatamente como no adulto”. Assim, Hans deu mostras de inconstância e de uma predisposição à poligamia, mas também apresentou traços de homossexualidade, tudo isso levando Freud, visivelmente satisfeito por assim acompanhar, passo a passo, a confirmação de sua teoria, a dizer: “Nosso Pequeno Hans realmente parece ser um modelo de todas as perversidades”.
Hans atravessou em seguida um período marcado pela busca de emoções eróticas – apaixonou-se por uma menina e insistiu com os pais em que ela fosse à sua casa para que lhe fosse possível dormir com ela -, num prolongamento das emoções que sentira em suas incursões à cama dos pais. Um sonho, quando ele contava quatro anos e meio, traduziu seu desejo, desde então recalcado, de se entregar novamente ao exibicionismo a que se dedicara no ano anterior, diante das meninas. Esse período encerrou-se com o reconhecimento, por parte do menino, ao assistir outra vez ao banho da irmã, da diferença entre os órgãos genitais masculinos e femininos.
Alguns dias depois desse sonho e dessa constatação, a “doença” do Pequeno Hans se declarou. Os diálogos entre pai e filho, fielmente transcritos pelo pai e transmitidos a Freud, permitiram a este orientar o tratamento e, em seguida, reconstituir a evolução dos distúrbios e seu desaparecimento, numa sanção da “cura” anunciada desde a primeira linha da narrativa.
Esse período iniciou-se com uma carta do pai, preocupado com a agitação nervosa de que o menino se mostrava subitamente vítima e disposto a atribuir esse estado ao excesso de ternura manifestada pela mãe. Freud, que defenderia sistematicamente sua ex-paciente, a “bela mãe” de Hans, “boníssima e muito dedicada”, refutou esse ponto de vista. Na análise, sublinhou, não se trata de “compreender imediatamente um caso patológico”; a compreensão só é possível “na sequência”, após nos darmos tempo de observar e acumular as impressões.
Pouco antes da eclosão do estado ansioso, Hans tivera um sonho, um “sonho de punição”, diz Freud, no qual a mãe querida, com quem ele podia “fazer denguinho”, tinha ido embora. Esse sonho era um eco dos privilégios obtidos quando a mãe o levava para sua cama, no ano anterior, todas as vezes que ele manifestava ansiedade e também todas as vezes que seu pai estava ausente. Alguns dias depois, passeando com a babá, Hans começou a chorar e pediu para voltar para casa, para “fazer denguinho com a mamãe”. No dia seguinte, a mãe resolveu leva-lo pessoalmente para passear. A princípio ele recusou, chorou e, depois, deixou-se levar, porém manifestando um medo intenso, do qual só falou na volta: “Eu estava com medo que o cavalo me mordesse”. À noite, nova crise de angústia ante a ideia do passeio do dia seguinte e medo de que o cavalo entrasse em seu quarto. A mãe perguntou-lhe, então, se por acaso ele estivera pondo a mão no “faz-pipi”. Ao obter sua resposta afirmativa, ela lhe ordenou que parasse com aquilo, o que mais tarde ele confessou só conseguir fazer precariamente.
“Aí está, portanto”, comenta Freud, “o começo da angústia e da fobia”, que devem ser distinguidas. A crescente ternura pela mãe traduz uma aspiração libidinal recalcada, à qual corresponde o surgimento da angústia. Essa transformação da libido em angústia e irreversível e a angústia tem que encontrar um objeto substituto, que constituirá o material fóbico. Nesse momento, ainda é cedo demais para compreender a origem do material da fobia de Hans, os cavalos e o risco da mordida deles. Nesse estádio, Freud aconselha o pai de Hans a dizer ao menino que a história dos cavalos é uma “besteira” – esse foi o termo que o pai e o filho passaram a empregar para designar a fobia – e que o medo provém de seu interesse exagerado pelo “faz-pipi” dos cavalos. Freud sugere, além disso, que se promova a iniciação sexual do menino, em especial para que ele possa admitir que “sua mãe e todas as outras criaturas femininas, como ele pode perceber pela pequena Anna, não possuem um ‘faz-pipi’”.
Passado algum tempo, a fobia retorna e se estende a todos os animais grandes, girafas, elefantes e pelicanos. Após um comentário de Hans sobre o enraizamento de seu “faz-pipi”, que o menino espera ver crescer junto com ele, Freud explica que os animais grandes lhe dão medo porque o remetem à dimensão atual e insatisfatória de seu órgão peniano. Quanto ao enraizamento, ele é uma resposta, diz ainda Freud, à ameaça de castração, expressa muito antes pela mãe e cujo efeito se manifesta, assim, a posteriori, no momento em que a inquietação do menino aumentou, depois de feito o anúncio oficial sobre a ausência do “faz-pipi” nas mulheres.
Certa manhã, Hans dá conta de sua incursão noturna à cama dos pais explicando que havia em seu quarto uma grande girafa e uma girafa amassada. “A grande”, diz ele, “gritou que eu tinha tirado dela a amassada. Depois ela parou de gritar, e aí eu me sentei em cima da girafa amassada”. O pai relaciona essa fantasia com uma situação que se repete: enquanto ele se opõe à vinda do filho para o leito conjugal, a mãe responde que não há nada de grave nisso, desde que não se perpetue. A girafa grande, portanto, seria o grande pênis paterno, enquanto a girafa amassada representaria os órgãos genitais femininos. Freud acrescenta que o “sentar-se” sobre a girafa amassada representa uma “tomada de posse”, baseada numa fantasia de desafio ao pai e na satisfação de menosprezar sua proibição, tudo isso revestindo-se do medo de que a mãe ache o “faz-pipi” do menino muito pequeno, em comparação ao do pai. Sobrevém então uma série de fantasias de invasão e de desrespeito às proibições, nas quais o pai é associado ao filho – marca da suspeita de Hans de que o pai faz coisas com a mãe das quais quer privá-lo.
Em 30 de março de 1908, Hans vai com o pai ao consultório de Freud. A conversa é curta. Freud pergunta ao menino, que falou num negrume ao redor da boca dos cavalos, se estes usam óculos. Em seguida a sua resposta negativa, formula-lhe a mesma pergunta a respeito de seu pai. A resposta, evidentemente, é também negativa. Freud então explica a Hans que ele tem medo do pai “justamente por ele gostar tanto de sua mãe”.
Uma melhora se faz sentir depois dessa entrevista. A explicação dada à criança, diz Freud, provocou o enfraquecimento de suas resistências, o que deverá permitir-lhe dar nome a seus temores. Efetivamente, numa conversa com o pai, enquanto manifesta seu medo de ver levarem um tombo os cavalos atrelados a uma carruagem, Hans explica que um dia, no qual, apesar da “besteira”, saiu para passear com a mãe, ele realmente viu dois cavalos que puxavam uma carruagem caírem na rua, e achou que um deles estava morto. A mãe confirma a veracidade do relato.
Essa informação constitui uma guinada na evolução da análise. A fobia se declara quando a angústia, que originalmente nada tinha a ver com os cavalos, transpõe-se para esses animais, assim elevados, comenta Freud, “à dignidade do objeto de angústia”, por razões ligadas à história do menino: quando menor, Hans tivera paixão por cavalos, vira um de seus coleguinhas cair de um cavalo e se lembrava da história de um cavalo branco que era capaz de morder os dedos. A eclosão da fobia datava do incidente real do cavalo caído: Hans experimentara, naquele momento, o desejo (e, ao mesmo tempo, o medo) de que seu pai caísse assim e morresse, o que lhe abriria caminho para a posse da mãe, mas também o exporia aos riscos de uma comparação que lhe seria pouco favorável. Desse dia em diante, Hans ganhou mais liberdade com o pai, chegando a querer mordê-lo, prova de que o identificara com o tão temido cavalo. Mas isso não impediu que o medo dos cavalos persistisse.
A análise tomou então um rumo diferente. A mãe, momentaneamente esquecida, voltou ao primeiro plano, por intermédio de fantasias excrementícias e reações fóbicas à visão de calças amarelas e pretas. Seguiram-se então a fantasia do bombeiro, que furava o estômago de Hans com uma broca, e o medo de tomar banho numa banheira grande. A fantasia do bombeiro, fantasia de procriação, encontraria sua significação mais tarde, ao ficar claro que o menino nunca havia acreditado na história da cegonha, e ficara zangado com o pai por lhe contar essas mentiras.
Freud levou a análise mais longe, insistindo na justaposição do medo da banheira com as fantasias excrementícias – o interesse e, em seguida, o nojo de Hans pelas fezes, que ele chamava de “lumfs” -, por sua vez ligadas ao prazer que o menino obtinha ao acompanhar sua mãe ao banheiro. Parece que, para Hans – e Freud se felicitou por encontrar nisso, mais uma vez, a confirmação do que escrevera anos antes -, os veículos, assim como os ventres das mães, eram carregados de filhos-excrementos: a queda dos cavalos, tal como a dos “lumfs”, era a representação de um nascimento, e Freud sublinha, nessa oportunidade, o caráter significante da expressão “deitar cria”. O cavalo que cai, portanto, não é apenas o pai que morre, mas também a mãe que dá à luz. Hans passa a poder verbalizar seu desejo de ver o pai ir embora e a reconhecer seu desejo de possuir a mãe. Todavia, encontra uma solução para essa situação, ainda geradora de angústia: seu pai será avô dos filhos que ele, Hans, tiver com a mãe. Para aplacar a cólera sempre possível desse pai assim desalojado, o menino o imagina casado com a mãe dele, a avó paterna de Hans. Uma última fantasia, na qual um bombeiro lhe troca seu “faz-pipi” por outro maior, marca sua saída do Édipo e sua vitória sobre o medo da castração.
Diversamente dos outros casos princeps expostos por Freud, o do pequeno Hans não foi objeto de nenhuma revisão historiográfica exaustiva. Entretanto, deu margem a numerosas leituras críticas.
Num primeiro momento, enquanto era impensável abordar tão de perto a lendária “inocência infantil”, os psicanalistas fizeram desse caso o paradigma de todos os processos de psicanálise de crianças. Foi preciso esperar que os primeiros passos fossem dados nesse campo por Hermine von Hug-Hellmuth, e sobretudo aguardar a revolução efetuada por Melanie Klein, para que essa concepção fosse ultrapassada no movimento psicanalítico.
Por outro lado, algumas leituras tomaram como ângulo de ataque a interpretação freudiana do caso e desenvolveram uma nova reflexão sobre o estudo da fobia. Por último, outros trabalhos optaram por reinscrever a análise e o personagem do Pequeno Hans no fio de sua história e de sua identidade – as de Herbert Graf, filho de Max Graf e Olga König-Graf, amigos de Sigmund Freud.
Jacques Lacan dedicou a segunda parte de seu seminário do ano de 1956-1957, intitulado A relação de objeto, ao caso do pequeno Hans. Seu objetivo era elaborar uma clínica lacaniana da análise de crianças, da qual Jenny Aubry e Françoise Dolto eram as grandes mestras, que fosse capaz de rivalizar com a escola inglesa, enriquecida pelas contribuições contraditórias de Melanie Klein, Anna Freud e Donald Woods Winnicott. Para Lacan, a fobia de Hans sobreviera com a descoberta de seu pênis real e com seu consequente pavor de ser devorado pela mãe, investida de uma onipotência imaginária. A fobia, portanto, só podia ser ultrapassada, senão curada, pela intervenção do Pai real (Max Graf), apoiada pelo Pai simbólico (Freud), que teve como efeito separar o menino da mãe e garantir seu avanço do imaginário para o simbólico. Lacan interpretou os mitos dos animais que funcionaram na análise em termos levi-straussianos. Longe de buscar em cada um deles uma significação particular, ele os relacionou uns com os outros, a fim de captar a reiteração do semelhante num sistema. O cavalo, portanto, ora remete ao pai, ora à mãe, e funciona como elemento significante, isolado do significado. A torção que com isso Lacan imprime à teoria freudiana do Édipo está ligada a sua concepção do declínio da função paterna na sociedade ocidental, que ele expusera em 1938 em seu artigo sobre a família. Diante desse declínio, do qual ele faz a causa essencial do aparecimento da Psicanálise em Viena, Lacan pretende revalorizar uma noção de paternidade baseada na intervenção da fala e denunciar o perigo da onipotência materna, que ele estigmatiza ao falar de uma “mãe insaciável e insatisfeita”, pronta para devorar seu filho.
Em 1987, o psicanalista francês Jean Bergeret relacionou as dificuldades de Hans com as que o próprio Freud teria conhecido na infância. Observando que os dois únicos textos que Freud não publicou em vida (o que ele dedicara aos personagens psicopáticos no palco, cujo manuscrito entregou a Max Graf no começo da análise de Hans, e o que foi encontrado e publicado por Ilse Grubrich-Simitis sob o título de Neuroses de transferência: uma síntese) têm em comum o tema da violência irrepresentável, indizível, produzida por uma incitação sexual precoce demasiadamente intensa, Bergeret defendeu a hipótese de que a análise do Pequeno Hans teria sido construída com base na denegação de um trauma conhecido.
Por ocasião da publicação, à guisa de suplementos à revista L’Unebévue, das traduções que fizera desse texto de Freud, sobre os personagens psicopáticos no palco, do de Max Graf dedicado a Freud e das Memórias de Herbert Graf, o psicanalista francês François Dachet publicou, em 1993, nessa mesma revista, um estudo que almejava elucidar a complexidade da relação entre Freud e Max Graf. Em particular, Dachet observou que, se nessa relação Max Graf foi evocado por Freud como o pai do Pequeno Hans, como o discípulo e amigo que reconhecia nele um talento artístico do qual os “remendões da alma” eram desprovidos, e como o destinatário competente de um manuscrito que versava sobre problemas cenográficos, ele nunca o foi como marido da mãe do Pequeno Hans, que era ex-paciente de Freud. Nesse aspecto, salientou François Dachet, a leitura lacaniana do caso mereceria “ser reconsiderada”.
Em 1996, Peter L. Rudnytsky, um professor universitário norte-americano, propôs considerar o caso do Pequeno Hans mais como um exemplo de “terapia de família” do que como a análise de uma criança. Sua abordagem do caso referiu-se às teses feministas desenvolvidas, em especial, por Luce Irigaray. Ela o conduziu a discernir nessa análise os elementos fundamentais da concepção freudiana da diferença sexual e da sexualidade feminina, que apareceria sob sua forma definitiva em 1933, nas Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. A conclusão de Rudnytsky não teve apelação. Ele estigmatizou “os preconceitos burgueses” que, a seu ver, subjazem às posturas teóricas de Freud sobre as questões da homossexualidade e da sexualidade feminina.
Voltando ao caso em seu seminário do ano de 1968-1969, intitulado De um Outro ao outro, Lacan evocou a cura proclamada por Freud e exclamou: “O Pequeno Hans não tem mais medo de cavalos, e daí?”.
E daí? Em 1922, Freud acrescentou um “epílogo” a seu texto de 1909; nele relatou brevemente a visita, naquele mesmo ano, de um rapaz que se apresentara a ele como sendo o Pequeno Hans. Para Freud, essa visita constituiu, antes de mais nada, um contundente desmentido das sinistras previsões enunciadas na época da análise. Para sua grande alegria, ele se felicitou, numa frase ambígua, pelo fato de o rapaz ter conseguido superar as dificuldades inerentes ao divórcio e às segundas núpcias de seus pais, e finalmente observou, com uma voracidade teórica não dissimulada, que Hans/Herbert esquecera tudo de sua análise, inclusive a própria existência dela.
Quando eu era pequeno, desenvolvi um medo neurótico por cavalos. Freud fez um exame preliminar e dirigiu o tratamento, com meu pai como intermediário. Não lembrei-me de nada até anos mais tarde quando encontrei-me com um artigo no escritório de meu pai e reconheci alguns nomes e lugares. Em um estado altamente emotivo, visitei o grande doutor no seu consultório na Bergasse 19 e apresentei-me como ‘o pequeno Hans’. Ele levantou-se e abraçou-me afetuosamente, dizendo que não podia desejar maior comprovação das suas teorias ao ver o alegre e saudável jovem de 19 anos em que eu havia-me tornado.
No entanto, a leitura do texto de Max Graf, “Reminiscências do Prof. Sigmund Freud”, publicado em 1942, bem como a das Memórias (sob a forma de entrevistas) de Herbert Graf, traz um certo número de informações capazes de relativizar a satisfação de Freud e constituir os primeiros elementos para uma revisão do caso.
Em seu artigo, Max Graf evoca, de maneira simultaneamente afetuosa e crítica, o clima das noites de quarta-feira para as quais era convidado por Freud, a personalidade deste, e os ódios, paixões e conflitos que a intransigência dele era capaz de suscitar. Embora, na época, a análise do Pequeno Hans fosse um assunto frequentemente evocado nessas reuniões das noites de quarta-feira, Max Graf não faz a menor alusão a ela. É mais prolixo no que concerne ao que o psicanalista holandês Harry Stroeken propôs chamar de “a relação entre a família Graf e Freud”. Assim ficamos sabendo, entre outras coisas, que Freud, que se associava com facilidade aos festejos familiares dos Graf, levou para o Pequeno Hans, de presente por seu terceiro aniversário, um... cavalo de balanço!
Em suas Memórias, Herbert Graf manifesta, no ocaso da vida, um fervor e uma admiração pelo pai que impressionam ainda mais pelo fato de ele não dizer uma só palavra sobre a mãe ao longo dessas quatro entrevistas. Essa clivagem parece ilustrar bem o que foi a vida do Pequeno Hans quando transformado em adulto, caracterizada pelo contraste entre seu sucesso profissional e seus fracassos afetivos.
Com efeito, Herbert Graf conheceu, na juventude, por intermédio do pai, tudo o que Viena tinha a oferecer em matéria de personalidades do mundo artístico da época. Gustav Mahler foi seu padrinho, enquanto Arnold Schönberg (1874-1951), Richard Strauss (1864-1949) e Oskar Kokoschka (1886-1980) estiveram entre os frequentadores da casa dos Graf. Quando, ante as risadas dos outros estudantes, que registram isso no livro das “burrices do ano” – mais uma “besteira”? -, Herbert Graf anunciou seu desejo de se tornar diretor cênico de ópera, profissão da qual seria o inventor, seu pai lhe deu apoio financeiro. Na trilha direta dos primeiros passos desse pai, ele defendeu uma tese sobre a cenografia wagneriana que lhe valeu o reconhecimento oficial da família do autor dos Mestres cantores. Depois de se arriscar sem sucesso na arte lírica, assumiu a direção cênica da Ópera de Münster. Em seguida, emigrou para os Estados Unidos e se tornou diretor titular da Metropolitan Opera de Nova York, onde colaborou estreitamente com Arturo Toscanini e Bruno Walter, entre outros. Sua fama o levou a Salzburgo e à Itália, seu país favorito, onde realizou mais de sessenta produções, em Verona, Milão, Veneza e Florença (onde trabalharia com Maria Callas). Posteriormente, assumiu a direção da Ópera de Zurique, da qual se demitiu em razão da falta de recursos, e a seguir a do Grand Théâtre de Genebra, até sua morte, em 1973.
Ao lado dessa brilhante carreira, pontilhada por alguns textos audaciosos e sempre atuais sobre a questão da ópera popular, a vida particular de Herbert Graf parece ter sido balizada por sofrimentos. Ao contrário da apreciação de Freud, ele parece nunca se haver refeito por completo do choque causado pelo divórcio e pelas segundas núpcias de seus pais. Atormentado por conflitos conjugais, retomou uma análise com Hugo Solms, que o incitou, em 1970, quando se realizou em Genebra um congresso de Psicanálise, a ir se apresentar a Anna Freud, visita esta que não teve nenhuma consequência.
Herbert tivera um primeiro casamento em 1927, aos 24 anos, com Liselotte Austerlitz. Dessa união nasceu Werner Graf, do qual não se tem informações. Casou-se pela segunda vez em 1966, aos 63 anos, com Margrit Thuering, com quem teve uma filha, Ann-Kathrin, que, como o pai e o avô, ligou-se ao campo da arte, mais vinculada à direção de televisão e teatro.
Atingido por um câncer renal que se revelou incurável, Herbert morreu em 5 de abril de 1973 em decorrência de uma queda, provavelmente acarretada por vertigens provocadas por seu estado.

OBS.: Este artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.