8 de agosto de 2014

VERBETES: AB-REAÇÃO


AB-REAÇÃO, termo introduzido por Sigmund Freud e Josef Breuer em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos.
O termo “ab-reação” aparece pela primeira vez na “Comunicação Preliminar” de Josef Breuer e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do mecanismo psíquico atuante nos fenômenos histéricos.
Nesse texto pioneiro, os autores anunciam desde logo o sentido de seu procedimento: conseguir, tomando como ponto de partida as formas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a princípio e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno histérico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de “resistências”, e que somente o recurso à hipnose permite superar.
Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao acontecimento é evacuado, por menos que essa reação seja suficientemente intensa. Nos casos em que a reação não ocorre ou não é forte o bastante, o afeto permanece ligado à lembrança do acontecimento traumático, e é essa lembrança – e não o evento em si – que é o agente dos distúrbios histéricos. Breuer e Freud são muito precisos a esse respeito: “... é sobretudo de reminiscências que sofre o histérico”. Encontramos a mesma precisão no que concerne à adequação da reação do sujeito: quer ela seja imediata, voluntária ou não, quer seja adiada e provocada no âmbito de uma psicoterapia, sob a forma de rememorações e associações, ela tem que manter uma relação de intensidade ou proporção com o acontecimento incitador para surtir um efeito catártico, isto é, liberador. É o caso da vingança como resposta a uma ofensa, a qual, não sendo proporcional ou ajustada à ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada por esta.
Desde essa época, Breuer e Freud sublinham como é importante que o ato possa ser substituído pela linguagem, “graças à qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”. Eles acrescentam que, em alguns casos de queixa ou confissão, somente as palavras constituem “o reflexo adequado”.
Se o termo “ab-reação” permanece ligado ao trabalho com Breuer e à utilização do método catártico, nem por isso a instauração do método psicanalítico e o emprego, em 1896, do termo “psico-análise” significam o desaparecimento do termo “ab-reação”, e isso por duas razões, como deixam claro os autores do “Vocabulário da Psicanálise”: uma razão factual, de um lado, na medida em que, seja qual for o método, a análise continua sendo, sobretudo para alguns pacientes, um lugar de fortes reações emocionais; e uma teórica, de outro, uma vez que a conceituação da análise recorre à rememoração e à repetição, formas paralelas de “ab-reação”.
Por que Breuer e Freud empregaram essa palavra, que este último não renegaria ao evocar o método catártico em sua autobiografia?
Como neologismo, o termo “ab-reação” compõe-se do prefixo alemão “ab-” e da palavra “reação”, constituída, por sua vez, do prefixo “re-” e da palavra “ação”. A primeira razão dessa duplicação parece ser o cuidado dos autores de repelir o caráter excessivamente genérico da palavra “reação”. Além disso, porém, a palavra remete ao procedimento da fisiologia do século XIX, em cujo seio ela funciona como sinônima de “reflexo”, termo pelo qual se designa o elemento de uma relação que tem a forma de um arco linear – o arco reflexo – que relaciona, termo a termo, um estímulo pontual e uma resposta muscular. Essa referência constituía para Freud, nos anos de 1892-1895, uma espécie de garantia de cientificidade, consoante com sua esperança de inscrever a abordagem dos fenômenos histéricos numa continuidade com a fisiologia dos mecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean Starobinski em 1994, a referência ao modelo do arco reflexo sobreviveria à utilização dessa palavra, já que Freud se refere explicitamente a ela em seu texto sobre o destino das pulsões, onde distingue as excitações externas, que provocam respostas no estilo arco reflexo, das excitações internas, cujos efeitos são da ordem de uma reação.
Mais tarde, Freud utilizaria o termo “reação” num sentido radicalmente diferente: em vez de designar uma descarga liberadora, ele seria empregado para evocar um processo de bloqueio ou contenção, a “formação reativa”.

OBS.: Verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

6 de junho de 2014

SIMPLICISSIMUS ABSURDUM (Marcos InHauser Soriano)


O interesse extremo que ainda hoje desperta a Psicanálise vem em grande parte do fato de ser esta a mais forte candidata à posição de teoria científica da alma, estrategicamente colocada como está entre Filosofia, Psicologia, Medicina e Literatura.
(Fabio Herrmann)

Acordou decidido. Não havia mais o que protelar. Decididamente iria ter com ela. Ela, sua bailarina escolhida. Na verdade não dormiu direito, com a cabeça repousada sobre o travesseiro ficou a devanear minuciosamente os preparativos do grande dia que iria se seguir. A cabeça sobre o travesseiro e um leve sorriso de satisfação a repousar em seu rosto.
Flores... Compraria flores. Rosas vermelhas misturadas com rosas brancas de “bandeira branca, amor”. Toda mulher gosta de flores... Rosas para sua Rosa.
Papel e envelope rosa, de boa qualidade, para escrever a mensagem que se fazia à noite, na cabeça aconchegada pelo travesseiro.
Uma bonita caixa de bombons trufados, sortidos, que ela aprecia. Aqueles que se dissolvem em sua boca, deliciosamente.

Para ele, namorar não era um verbo a ser tratado de forma leviana. Ele que nunca namorara, levava a sério essa coisa de relação. Estava há tempos a se preparar para a realização da cena de relação que havia montado em sua cabeça, a mesma que tranquilamente repousava sobre o travesseiro, por noites sem fim. Um carro, uma casa, um salário digno, um cão labrador, tal qual propaganda de margarina – moldura perfeita para encaixar sua bailarina. Mas ele tinha seus receios. Na faixa dos quase sempre quarenta, só tinha da cena a margarina. Margaridas e não rosas. Às vezes, de repente, achava tudo uma bobagem só. Para que largar a zona de conforto da casa dos pais em rumo à construção de uma relação?!? Não tinha sentido algum!!! Mas o sentido que tomava o desejo da cena da margarina que viraria rosa era mais forte... Forte, fraco, forte... Temia ser fraco. Uma doença forte.

De certa maneira somos um pouco parecidos. Temos, todos, nossa particular cena de margarina, e nossa íntima zona de conforto. Movimentar-se exige esforço e dá trabalho. Suely Rolnik, em Artigo que analisa as implicações psicopatológicas na subjetividade, a partir do que ela denomina de “capitalismo cultural”, trata da ilusão de ideias religiosas deslocadas pelos veículos de massificação, onde o paraíso, que agora é terrestre, pode ser habitado por alguns privilegiados – as celebridades. Esperançosos, ao mesmo tempo desolados, envergonhados e humilhados, passamos a acreditar na possibilidade, ainda que distante, de sermos “Very Important Person” em nossas cenas da propaganda de margarina, investindo toda nossa energia “de desejo, de afeto, de conhecimento, de intelecto, de erotismo, de imaginação, de ação, etc.”, consumindo objetos e serviços que nos constroem.

Já estavam saindo faz um tempo, se conhecendo, despretensiosamente. Ele, fascinado pelos projetos de independência dela, às vezes ficava amedrontado com a percepção de algo mais sério. Foi quando surgiu o problema: ele não tinha carro... Fraco, forte, fraco... Out, in, out...
Ao longo de sua história pessoal, ele tinha desenvolvido uma estratégia particular para momentos nos quais sua zona de conforto era cutucada: inventava, como desculpa, estar doente. A desculpa foi funcionando perfeitamente, mas, ao decorrer do uso, foi-se suspeitosamente misturando-se e confundindo-se com sua realidade. No ápice da confusão, não sabia mais dizer o que era doença e o que era invenção. Desculpa e corpo fundiram-se no inventado.
Com medo da instituição de uma relação, sumiu por uns dias: “Me desculpe, fiquei doente”.

Na Conferência XXXI, das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, de 1933, abordando a personalidade psíquica, Sigmund Freud refere-se à extraordinária capacidade do Eu em se flexibilizar perante si próprio: “O Eu pode tomar-se a si próprio como objeto, pode tratar-se como trata outros objetos, pode observar-se, criticar-se, sabe-se lá o que pode fazer consigo mesmo”. Dentro dessa concepção, Freud aponta para a divisão do Eu, e de uma de suas facetas, caracterizada pela crueldade – um Eu incisivamente julgador, exigente de perfeição frente aos ideais construídos e introjetados pelo processo sociocultural. Como possibilidade de sobrevida frente ao esfacelamento cruel, o Eu recorre ao sintoma, à fuga para a doença – às vezes, literalmente. Não nos esqueçamos de que, inicialmente, em sua origem conceitual, Freud parte da ideia de um “princípio de desprazer” (que depois se tornaria “princípio de prazer”), situando o sintoma como defesa possível - formações de atenuação frente às pressões internas e externas desestabilizantes no aparelho psíquico.

Acordou decidido. Tomou um banho, fez sua habitual higiene bucal, e vestiu seu boné – o resto da roupa seguia como detalhe. Nunca andava sem seu boné, representante da adolescência que insistia em permanecer, transformando-o em Peter Pan, em sua Terra do Nunca particular, a casa dos pais.
Decidido, foi às compras. Primeiro papel de seda rosa, com delicadas flores de tom mais escuro, combinando com o envelope, onde escreveria “Quer ser minha namorada?”. Na bombonière especializada em importados, uma bela caixa de bombons sortidos. Na floricultura, meia dúzia de rosas brancas e meia dúzia de vermelhas, formando um equilibrado buquê. Depois de tudo meticulosamente preparado por horas, the grand finale: o nó no laço que prenderia o envelope à caixa de bombons. Ele queria fazer pessoalmente, artesanalmente, pois era ótimo em fazer nós.
Apesar de pouco usá-las, possuía diversas gravatas, nas quais, de tempos em tempos, de fronte ao espelho, treinava nós – nós de gravata. Às vezes se achava um idiota, mas na maioria dos nós se encontrava como um expert refletido no espelho – Very Important Person.

Criatura interessante o nó de gravata. Atualmente sobrevive com a exigência do traje à rigor, mas, ao adentrar no salão de baile, após a primeira talagada de uma bebida alcoólica qualquer, é violentamente desfeito e morre, silenciosamente desapercebido – um ultraje.

Decididamente, após muito trabalho, tudo estava pronto. O buquê, a caixa de bombons com o pequeno envelope rosa, delicadamente unidos pelo laço, e um brilhante nó, que o enchia de orgulho. “Quer namorar comigo?” fazia do conjunto uma ode à perfeição. Irresistible. E ele ali, ao som de um bolero, a admirar sua obra de arte. Ele ali, a admirar... Admirando cada ângulo sublime qual corpo feminino. Ali... Admirando... Ao som de um bolero... Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Atônito, acordou no dia seguinte, debruçado em meio a pétalas de rosas brancas e vermelhas, papelão misturado com chocolate derretido, papel de seda com chocolate e pedaços de rosa. Irreversible.

A pulsão de morte é um dos conceitos mais contundentes e mais discutidos do corpo teórico da Psicanálise. O próprio Freud, até o fim da vida, continuava a encontrar para Tanatos, um lugar adequado dentro de seus constructos. Criticado por alguns, estudado e explorado por outros, o contraditório conceito de pulsão de morte continua e buscar lugar comum dentro do léxico psicanalítico.
Para além de uma destrutividade ativa, poder-se-ia afirmar que uma das faces de Tanatos é a representação do Tédio. Um tédio mortificante, paralisante, que mantém o sujeito, despercebido, enclausurado apaticamente em particular Terra do Nunca – estrada que leva a lugar nenhum, mantendo alucinatoriamente o status quo da zona de conforto, excludente de Eros. “The Walking Dead”, sucesso internacional da compulsão à repetição – tédio crônico e silenciosamente destrutivo da subjetividade.

Logo após às primeiras entrevistas, ouve-se o recado, quase um sussurro de tom amarelado agradecendo a paciência, na secretária eletrônica do consultório: “Me desculpe, fiquei doente”.

Ela? Dizem que virou garçonete em uma lanchonete 24 horas nos Jardins. Em suas horas de folga, vive a devanear com príncipes e labradores, cantarolando baixinho “Eu quero uma casa no campo...” e “...são dois prá lá, dois prá cá”.
O analista? Bem... Começou a se interessar por boleros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund (1933) “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XXII). 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1994.
HERRMANN, Fabio (1999) A Psique e o Eu. São Paulo: Hepsyché.
ROLNIK, Suely (2006) “Geopolítica da cafetinagem”. ide, 29(43), 123-129, São Paulo.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br

25 de maio de 2014

MUITAS VEZES OUÇO, ALGUMAS VEZES OBSERVO E QUANDO POSSO EU SINTO... (José Antonio Da Rocha Ponce Soler)



O presente Artigo trata de uma reflexão sobre a qualidade da presença do analista durante a sessão de análise. O autor classifica três terrenos onde procura organizar algumas ideias a partir de cada um destes: quando o analista ouve; quando o analista observa; quando o analista sente.
O autor propõe que tal divisão é uma maneira de organizar a compreensão da experiência a posteriori, tentando aproximar-se do miúdo do que se desenrola em sua experiência emocional quando dentro de cada um destes terrenos.

A ‘observação’ psicanalítica não concerne nem ao que ocorreu nem ao que vai ocorrer, mas ao que está ocorrendo.
(Bion, 1967)
A experiência emocional que o analista pode se valer é aquela de que pode ter consciência e ao mesmo tempo, perceber que tem algum distanciamento da mesma para poder pensá-la. Não quer dizer que aquilo que sente é o que sente o analisando – é um sentimento seu próprio que pode estar sendo mobilizado por algo que está acontecendo no consultório ou por alguma atitude ou movimento que estaria sendo feito pelo analisando.
(Castelo Filho, 2013)


Percebendo em mim a necessidade de organizar o que vem se construindo a partir de minha formação psicanalítica, procuro aqui descrever uma maneira de pensar minha clínica. Quando aponto para a minha maneira, não estou de modo algum arrogando algo novo, inédito, ao contrário, aponto para alguma coisa que parece ser um olhar já um tanto influenciado por muitas maneiras de ver a clínica - isso inclui as teorias psicanalíticas, a convivência em minha análise pessoal, supervisão e instituição psicanalítica.
Em minha cabeça surgem sempre questões quando estou tentando fazer psicanálise. Algumas delas são: mas o que é isso que eu estou ouvindo? Do que se trata? O que é isso que eu estou vendo ou observando acontecer ali na minha frente? O que é isso que estou sentindo quando estou com essa pessoa?
Eu não tenho a pretensão de responder nenhuma destas questões, procuro com elas circunscrever o campo de minha atenção, creio que estas sejam comuns aos colegas.
Tenho feito para uso pessoal uma discriminação do meu estado emocional junto ao cliente. Didaticamente divido assim: 1) quando ouço o cliente; 2) quando observo o cliente e me observo; e 3) quando sinto algo em relação ao cliente ou a partir do contato com o mesmo.
É claro para mim que este esquema é artificial e não pode ser usado durante minha prática clínica, sendo apenas uma maneira de descrever o meu estado emocional durante a sessão. Essa reflexão é algo que se passa depois da experiência. 
Dentro destes diferentes terrenos (1-2-3) procuro perceber a qualidade da minha presença durante o encontro com o outro - esta é vista a partir deste modelo de observação, alterando-se. Procuro aproximar do leitor a natureza dessas alterações.
É para mim evidente que os três terrenos são intercambiáveis e não podem ser excludentes; são, na verdade, interdependentes. No entanto, aqui aponto para aquilo que é possível ao analista tocar ou sintonizar com a experiência em trânsito a partir de cada um destes terrenos, ou seja, a natureza da presença do analista dentro de cada um destes territórios.
Começo descrevendo uma situação clínica que me discrimino predominantemente dentro do terreno (1), ou seja, quando ouço:
H chega para a sessão pontualmente, abro a porta quando o vejo não me percebo tocado por aquele encontro e tampouco noto alguma emoção vinda de H. Ele se deita e fala longamente sobre sua mulher; queixa-se da autoridade desta sobre ele, do quanto se percebe ameaçado por suas opiniões. Estou ali ouvindo o que ele me diz, minha mente é levada para um tipo de articulação que denomino agora causal [1], me lembro daquilo que H pode ao longo do tempo me contar sobre sua tumultuada relação com sua mãe, seu estado de alerta diante desta e também da figura do pai. Alguns conceitos me surgem “livremente”: Complexo de Édipo, superego, transferência, etc.
Comento alguma coisa com H sobre o quanto aquilo que me descrevia, uma figura autoritária, poderosa e ameaçadora, parecia de algum modo já bastante presente desde muito em sua mente; a conversa fica produtiva, segundo pude notar naquele momento, ele trás outras associações e eu fico de algum modo satisfeito com aquele trabalho.
Percebo-me distante do analisando, sou um ouvido atento, ligado a uma mente que articula ideias que me parecem naquele momento pertinentes. Não percebo assombro ou grandes emoções presentes entre nós, a não ser uma espécie de concordância mútua: estamos no caminho, estou fazendo análise.
A qualidade da minha presença é calma, estou seguro para falar, “pensar”, pesquisar e tenho a noção de um espaço confortável entre o analisando e eu, me vejo pouco implicado nas questões, o que não implica em descaso ou rejeição pelo material ali presente.
Trata-se, segundo posso alcançar, de uma maneira de estar durante o contato com o outro. Uma maneira participativa e até bastante ativa, mas a minha questão é: o que em mim participa e age quando estou dentro deste terreno, que denomino “1- quando ouço?”. Suponho que o que participa ativamente nessa experiência seja uma dimensão mais lógica, ou até mesmo implicada em saber sobre, ou levar o outro, a saber sobre. O que age em mim nesta situação é uma intenção bastante importante de entender e fazê-lo entender sobre o que se passa consigo. Percebo agora que escrevo o quanto nesta situação estou lidando com memória, desejo e ânsia por saber. Para Bion (1957), “Toda sessão na qual o psicanalista toma parte não deve ter nem história nem futuro. O que se conhece sobre o paciente não tem maior importância: é falso ou irrelevante”.
Como sugeri acima, estes terrenos são intercambiáveis e até mesmo, creio, que interdependentes. Assim vou descrever uma situação clínica onde segundo o meu vértice de observação estive às voltas ou dentro dos terrenos “2-quando vejo e “3-quando sinto”.
W é um homem de aproximadamente quarenta anos, não se casou e me procurou para análise trazendo como queixa uma importante dificuldade de se relacionar, namorar... W está em trabalho analítico há um ano com três sessões semanais.
Fragmento de uma sessão:
Esta é uma sessão de reposição, um domingo antes do almoço.
Aguardo W, percebo ou observo em mim entusiasmo para o encontro, me sinto disponível e me noto, depois, tomando contato com o dia, um domingo, e com que facilidade propus-me a atendê-lo.
W chega alguns minutos atrasado, quando o vejo, noto alguma coisa intempestiva em seu modo, ao mesmo tempo vejo alguma outra coisa distante de intempestividade, talvez calma ou até, quem sabe, uma amorosidade.
Estou nesta experiência implicado, sou convocado espontaneamente a observar e a sentir, me vejo confuso, existe ali turbulência.  Noto um espaço, no entanto mínimo, entre o que sinto e o que posso pensar a partir do que estou observando naquela ou daquela situação e sentindo a partir disto. Não me está disponível aqui teorias psicanalíticas, me vejo vivendo ou sendo, não conjecturando sobre ser. Meu ouvido esta entupido e as palavras funcionam como ruído indesejado, que inclusive parecem querer impedir que se ouça o que está ali evoluindo ou sendo vivido.
W se deita e diz não perceber nada para dizer. Depois de um pequeno espaço de tempo começa a relatar um acontecimento de sábado à noite onde se viu às voltas com sentimentos de desvalia e humilhação.
Procuro de algum modo aproximar o cliente de elementos que poderiam estar ali presentes na sala e sobre os quais ele não estava podendo naquele momento fazer menção ou tomar sequer contato.
Ele fica atento e diz: “sabe, talvez você tenha razão, quando eu cheguei pensei: puxa vida é domingo e ele está aqui para me atender e eu nem trouxe o pagamento...”.
Neste momento o percebo realmente próximo a situações que estava vivendo naquele momento, mesmo que pareciam ser bastante difíceis de serem vividas.
Comunico isto ao cliente. Ele me ouve com alguma atenção, depois começa a falar longamente de situações em que se vê absolutamente dispensado pela namorada, se queixa do quão pouco esta o valoriza e até o humilha, maltrata. Além disso, relata que se sente como se ela nunca estivesse de fato presente nas situações.
Esta fala dura um tempo considerável; estou longe agora, me vejo desmotivado, sinto desânimo, talvez humilhado. Fico assim por um tempo, aceito sentir...
Não o sinto mais presente, o mesmo observo se dando comigo.
Sem que eu me dê conta, um espaço entre aquilo que sinto e o que vou podendo pensar parece que se estabelece. Uso a palavra pensamento aqui, mas esta muitas vezes me parece carregada de uma ideia de algo que foi ponderado ou avaliado, peneirado, conscientizado - este não é o caso do que estou contando que vivi; aponto para algo que a princípio não tem qualquer traço de consciência, uma conjunção constante talvez, elementos que se juntam formando espontaneamente um clarão. Lembro-me aqui do que Castelo Filho (2003) diz: “A transformação dos dados sensoriais em não sensoriais, como assinalei, não é uma operação intelectual e não depende da vontade. Está vinculada à operação da função alfa.
Não resolvo dizer, digo!
Conto que percebi que enquanto ele falava, se formava entre nós dois alguma coisa realmente intransponível, algo que nos colocava de fato muito distantes um do outro e que isto talvez tenha muita relação com sua queixa sobre a falta de presença que ele sentia nas pessoas com quem se relacionava; saliento que ele também ficava ausente, sem presença para lidar com o que estava se desenrolando ainda há pouco entre nós, na situação que percebia sobre o que sentiu de não ter podido me fazer o pagamento e da percepção que teve sobre a minha disposição para com ele, e o que isto poderia desencadear...
O clima muda novamente, me sinto próximo, ali, implicado e o convidando ao contato. Nesta situação não me valho até onde noto de “teorias fortes (Rezze, 2011), estou no escuro e me sinto muito mais atento ao miúdo que se desenrola entre nós. A qualidade da minha presença é intensa, estou vendo, estou sentindo; e mesmo não sabendo em última instância o que vejo e o que sinto, trabalho ou procuro trabalhar com este miúdo quase invisível ali se dando. Suponho que neste terreno estou “considerando a experiência emocional do analista para a captação da realidade psíquica” (Castelo Filho, no prelo, 2013).
As questões aqui apresentadas neste flash de material clínico são ricas em provocar as mais diferentes associações e interpretações em nós analistas, no entanto procuro aqui discriminar, se é que seja possível isto, os níveis diversos da qualidade da minha presença no encontro analítico.
Noto que no segundo exemplo, transito de um campo do que vou observando para o que vou sentindo e estou, aqui, muito menos atento ao que escuto. 
Minhas questões iniciais não foram respondias como eu anunciei em princípio. Ao contrário de respostas, outras foram às questões que pude pensar:
I. Estou mais próximo de que quando transito do terreno “1-quando ouço”, percorro o terreno “2-quando vejo” e chego em “3-quando sinto?”.
II. Estaria transitando de uma realidade mais sensorial para uma realidade psíquica não sensorial?
III. Posso pensar em gradação da qualidade da presença do analista durante a sessão de análise?
Termino citando um pequeno trecho do livro de Clarice Lispector, “A Paixão Segundo GH”:
Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as visões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo.” (Lispector, 2009)


NOTAS
[1] Em “Transformações”, diz Bion (2004): “Categorizo a ideia de causa, neste contexto, como D2, ou seja, uma pré-concepção relativamente primitiva, utilizada para impedir que algo mais venha à tona”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BION, W. R. (2004) Transformações: do aprendizado ao crescimento. Tradução de Paulo Cesar Sandler. São Paulo: Imago Ed.

BION, W. R. (1967) “Notas sobre memória e desejo” in Melanie Klein Hoje: Artigos predominantemente técnicos (Vol.2). São Paulo: Imago Ed., 1990.

CASTELO FILHO, C. (2003) O Processo Criativo: Transformações e Ruptura. São Paulo: Casa do Psicólogo.

CASTELO FILHO, C. (2013) O trabalho na experiência emocional. Os afetos como principal instrumento de trabalho do analista e como parte essencial no desenvolvimento e na capacitação do analisando. Trabalho apresentado na SBPSP, 04/setembro, São Paulo.

REZZE, C. J. (2011) “Teorias Fracas e o Cotidiano de um Psicanalista” in Psicanálise Bion: Clinica – Teoria. São Paulo: Vetor.

LISPECTOR, C. (2009) A Paixão Segundo GH. São Paulo: Rocco.


JOSÉ ANTONIO DA ROCHA PONCE SOLER é Membro filiado do Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP.