3 de março de 2015

EDITORIAL ANO VI



A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE completa em março seu sexto ano de existência. O CORPO EDITORAL gostaria de parabenizar a todos pelo esforço e pela participação nesta empreitada psicanalítica.
Desde FREUD, percebemos a importância da LEITURA e da ESCRITA para o desenvolvimento da Psicanálise. Com seus precisos levantamentos bibliográficos nos Artigos Teóricos, bem como na arte de sua escrita, ora romanceada nos Historiais Clínicos, ora metodologicamente perfeita nos Artigos Técnicos, FREUD nos deixou esse legado e essa deliciosa obrigação: LER e ESCREVER.
Em 1925, escreve FREUD, incansável: “É quase humilhante que, após trabalharmos por tanto tempo, ainda estejamos tendo dificuldade para compreender os fatos mais fundamentais. Mas decidimos nada simplificar e nada ocultar. Se não conseguirmos ver as coisas claramente, pelo menos veremos claramente quais são as obscuridades”.
Ficamos, portanto, com esse desafio: perpetuar a LEITURA e a ESCRITA.
Uma LEITURA e uma ESCRITA que permitam um diálogo mais profundo com outras áreas de saber, sempre com o intuito de fazer retornar a Psicanálise às suas origens, ou seja, ser um instrumento de compreensão do Humano, caminhando em direção a uma Ciência Geral da Psique.
Gostaríamos se salientar que a REVISTA não possui qualquer ligação institucional, nem qualquer tipo de registro ou índice de registro acadêmico, dependendo, portanto, do “desejo” e do honesto esforço do CORPO EDITORIAL e dos Autores que queiram participar do convite a um rodopio vertical de ideias, na compreensão do Homem Psicanalítico.
Neste ano de 2015, daremos seguimento ao Encontro de Autores e Leitores da REVISTA, previsto para outubro, com o propósito de favorecer o diálogo com esses dois lugares: LER e ESCREVER.
Teremos também a continuidade do CINE VÓRTICE, neste mês de março, promovendo o diálogo entre Psicanálise e Cinema, no intuito de criar mais um espaço para discussão e, assim, ir em direção a uma clínica mais extensa, que transpasse os limites do consultório padrão. Independentemente da leitura particular desta ou daquela escola psicanalítica, atrelada a determinado autor psicanalítico, deve-se sobrar a Psicanálise.
Não podemos esquecer-nos da criação, em 2012, de um sistema de buscas (“Pesquisar na Revista”) e de um espaço reservado para comunicação de nossos leitores (“Palavra do Leitor”). Continuamos com a página no Facebook.
Estamos empenhados em continuar propiciando e aprimorando um espaço aberto de interlocução psicanalítica. Portanto, convidamos todos a participarem com Artigos, Ensaios, Crônicas, e demais formas nas quais a Psicanálise se faz instrumento poderoso.
Mais uma vez, muito obrigado a todos que diretamente ou indiretamente participam desta empreitada.

CORPO EDITORIAL

18 de fevereiro de 2015

CINE VÓRTICE



A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE tem o prazer de convidar para mais uma edição do CINE VÓRTICE.
No evento, será exibido o filme "MAMMA ROMA" (Pier Paolo Pasolini, Itália, 1962). Após a exibição será aberta uma pequena discussão sobre o filme.

Data: 14/mar/2015, das 14h às 18h.
Local: Rua Capote Valente, 432 (auditório) - Pinheiros, São Paulo/SP.

A sessão terá início, impreterivelmente, às 14h15min.

As inscrições devem ser feitas até o dia 13/mar através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br). Só poderão participar do evento as pessoas previamente inscritas, pois haverá uma "lista de presença".

SINOPSE & FICHA TÉCNICA
Uma prostituta sonha em mudar de vida e de melhorar a sua classe social economizando dinheiro, o que a permitiria a dar dignidade ao filho Ettore. Infelizmente, ela encontrará muitas dificuldades para realizar seu sonho – a realidade coloca muitos obstáculos em seu caminho.
“MAMMA ROMA” é um grande objeto de estudo para muitos pesquisadores do Cinema, pelo fato de que seus planos e ângulações são fortemente inspirados em afrescos de Giotto, Caravaggio e outros grandes artistas plásticos.
Nos estudos, os pesquisadores abordam a influência das artes plásticas no cinema e na constituição de sua linguagem.
Um dos pontos altos da filmografia de Pasolini, “MAMMA ROMA” traz uma visão crítica e pessimista da sociedade, dialogando com a tradição do neorrealismo.

Itália, 1962, 106 min.
Direção de PIER PAOLO PASOLINI, com ANNA MAGNANI, ETTORE GAROFOLO e FRANCO CITTI.
Roteiro de PIER PAOLO PASOLINI.



24 de dezembro de 2014

SAÍDAS, CORPOS E CIDADE (Juan Alexander Salazar Silva)



1
O que pode um corpo fora da instituição, desterritorializado na cidade e imantado sob o fluxo da multiplicidade? Esta pergunta que não se cala numa resposta única, demanda primeiramente um breve esclarecimento sobre a noção de corpo que construo neste trabalho.
Os corpos não se definem por seu gênero ou por sua espécie, por seus órgãos e por suas funções, mas por aquilo que podem, pelos afetos dos quais são capazes, tanto na paixão quanto na ação.” (Deleuze, 1998)
O que é o corpo em si, senão a própria psicose: um corpo cansado de seus órgãos que se recusa a ser feito e reduzido enquanto organismo, que se recusa a ser estratificado, conduzido a uma significação, a um sujeito: eis o Corpo sem Órgãos (CsO). Não se trata bem de um conceito, mas de uma prática (ou um conjunto de práticas), algo que se faz consigo mesmo, que se experimenta (Deleuze e Guattari, 2012).
(…) o CsO não é de modo algum o contrário dos órgãos. Seus inimigos não são os órgãos. O inimigo é o organismo. O CsO não se opõe aos órgãos, mas a essa organização dos órgãos que se chama organismo. É verdade que Artaud desenvolve sua luta contra os órgãos, mas, ao mesmo tempo, contra o organismo que ele tem: O corpo é o corpo. Ele é sozinho. E não tem necessidade de órgãos. O corpo nunca é um organismo. Os organismos são inimigos do corpo. O CsO não se opõe aos órgãos, mas, com seus 'órgãos verdadeiros' que devem ser compostos e colocados, ele se opõe ao organismo, à organização orgânica dos órgãos.” (Deleuze e Guattari, 2012, p.24)
Pensando neste corpo enquanto “capacidade psicótica” de afetos e intensidades que só esta pode oferecer e fazer; este texto busca compor uma saída, desfazendo-se assim do organismo institucional e da institucionalização da clínica, nos permitindo adentrar o terreno do Acompanhamento Terapêutico (AT).
Retomando a pergunta formulada ao início deste texto, e me propondo a investigá-la clinicamente, lhes apresento uma experimentação corpórea coletiva produzida num “Grupo de Saída”, configurada fora e dentro de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em São Paulo, e consistindo basicamente em saídas grupais semanais pela cidade afora, com usuários deste serviço.
Para tanto, acompanho o fluxo polifônico e caleidoscópico da cidade, costurando distintos acontecimentos clínicos destas saídas, reconhecendo assim seu funcionamento coletivo enquanto multiplicidade, “(...) que se desenvolve além do indivíduo, junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais, derivando de uma lógica de afetos mais do que uma lógica de conjuntos bem circunscritos” (Guattari, 2012, p.19).

2
Cássia temia que um gordo fosse cortar fora seu braço. Sua postura fragmentada diante do ambiente clamava sempre por um toque do outro, fosse apenas um dar as mãos ou uma presença corporal constante, a fim de lhe oferecer minimamente um braço ou esboço de um corpo que fosse seu mesmo – uma experiência de continuidade física e psíquica: holding (Barreto, 1998). Chorava constantemente, pedindo para que a levassem embora do CAPS, para que pudesse ficar junto de sua irmã – que a levava diariamente ao serviço pelo início da manhã e a buscava no final da tarde. Cássia temia ser abandonada por esta irmã, temia não ir embora nunca mais, ou que alguém a matasse.
Certo dia o pedido de Cássia é escutado e atendido. Acompanho-a junto de outra colega até a casa de sua irmã, onde ela morava no momento. Instaura-se assim outro movimento da relação institucional com Cássia, que é a possibilidade de ir e vir com ela, transitar entre a irmã e o CAPS e, concretamente, explorar este caminho, esta distância. O CAPS já não era mais uma entidade paralisada que atuava na manutenção do fusionamento Cássia-irmã, mas passava a se movimentar, aderindo ao devir-Cássia. Tal trânsito figura bem a necessidade de uma instituição nômade que efetiva o passeio do esquizo, permitindo assim sua relação com o fora (Deleuze e Guattari, 2010).
Nos primeiros Grupos de Saída, Cássia literalmente se desmembrava pelas ruas. Andava torta, era frágil e cansava-se facilmente. Não olhava o semáforo ou o movimento da rua – ela simplesmente ia. Descendo a ladeira, seu corpo simplesmente a levava, sem freio, ladeira abaixo.
Espera Cássia” – alguém a chamava em voz alta.
Não sou eu, é a descida que me leva” – ela respondia.
Uma vez, num gramado em pleno centro da cidade, nos deparamos com um galo e uma galinha. O grupo se aproxima, observa, alguns se lembram de sua vida no campo e conversamos disso. Para espanto de todos, percebemos que o galo não tinha um pé. Cássia, atemorizada, logo pergunta:
É assim que eu vou ficar?
Ao mesmo tempo em que havia esse fora que se agregava ao corpo de Cássia e o formava, havia também o pleno desmembramento desta experiência, desconexão junto ao aparente fluxo da cidade. Na Igreja da Nossa Senhora da Boa Morte, Cássia ajoelha e reza, pedindo a Deus que a cure e a salve; no entanto, reza de costas para o altar. Tal experiência, que poderia facilmente ser reconduzida por nós acompanhantes com o objetivo de apontar o “equívoco” de Cássia frente à posição correta em que se reza numa igreja – frente ao ambiente – é, ao contrário disso, sustentada e ambientalizada.
Cássia é a descida da rua, a igreja e a Nossa Senhora da Boa Morte – e assim é seu corpo. A diferenciação eu e não-eu, exterior e interior, desaparece, já não tendo mais importância (Deleuze e Guattari, 2010).

3
Rafael e Fábio são amigos, conseguiram construir uma relação além da instituição. Em nossas saídas, surgia sempre alguma brincadeira sexual da parte de Rafael, carregada de uma infantilidade ímpar. Ele estava sempre investigando. Nos percursos pela cidade, qualquer movimento de parada (fosse para o semáforo abrir, ou para observar um quadro), Rafael logo se posicionava atrás de Fábio, na expectativa de encochá-lo; mas depositando uma atividade presente no outro, e não nele. Ou seja, não era Rafael que o encochava e sim Fábio que se encostava a ele. Apesar do ensaio homossexual, ele não diferenciava os genitais. Uma vez, observando a escultura de Lucy (uma de nossas ancestrais), Rafael aponta ingenuamente para a região pubiana da figura perguntando o que era aquilo. Outro usuário logo lhe responde várias denominações populares acerca do “órgão sexual feminino” e eu lhe respondo didaticamente dizendo que aquilo era a vagina.
Paula também estava sempre a investigar sua sexualidade. Diferenciava os genitais dos cachorros nas ruas, nas esculturas, e em qualquer imagem da cidade que lhe remetesse a isso. Sua pergunta constante é se é “homem ou mulher, macho ou fêmea”. Certa vez me explica que nota esta diferença especialmente quando observa os cachorros de lado, pois se os olha de frente não é possível diferenciar. A presença e ausência do pênis é questão fundamental para ela. Sempre sorridente e com seus cabelos curtos, teme um possível enforcamento caso seus cabelos venham a crescer. Na Rua 25 de março, observando os bonés à venda, diz que apesar de um boné ser um acessório masculino, ele pode sim ser feminino, uma vez que ela tem um boné rosa. Intriga-se quando vê um casal de meninas de mãos dadas andando pelas ruas.
Darcy – que traz a cisão em seu próprio nome dúbio em relação ao gênero – defende-se da homossexualidade a partir do meu corpo e minha presença, se intrigando acerca da minha sexualidade e tendo a necessidade de reafirmar seu desejo sexual pelas mulheres para mim. Ao mesmo tempo, transmite uma agressividade, ora dirigida às mulheres, ora aos homens. Um toque intrusivo de Laura em seu corpo momentaneamente o desorganiza. Ela prontamente pergunta, ingenuamente:
Nossa, o que foi? Você vai me bater?
Não, eu não bato em mulher” – diz ele, se esforçando em tomar corpo novamente.
Sempre que nos organizamos para sair do CAPS, o grupo aguarda em frente ao elevador. Num destes momentos, Priscila esbarra sem querer em Darcy, que reage violentamente empurrando-a. Intervenho corporalmente entre os dois. Darcy, muito bravo, diz que ela o empurrou de propósito, e que estava “imitando” ele.
Na saída do prédio eles se desculpam, intermediados pela minha voz e pelo meu corpo. Era comum durante as saídas ele me abordar e perguntar o que eu estava falando, sendo que eu não estava falando nada. Ele pensava que eu estava falando dele.

4
Maria disputa meu corpo nas saídas. Inicialmente, pedia que eu andasse de mãos dadas com ela, pedido este ligado a certo “enamoramento”. A necessidade de dar as mãos de Cássia e de Maria era distinta, porém ambas psicóticas, já que tinham um corpo alienado no outro – distanciadas de um si mesmo. Se no início eu dava as mãos para Maria, com o tempo vou me separando, passando a não dar as mãos para ela, o que gera persecutoriedade, fazendo-a reafirmar seu lugar de “desprezada pela mãe” e consequentemente por todos.
Minha mãe falou que era pra eu ter nascido morta. Minha mãe disse que sou uma inútil, uma incrédula. Minha mãe me disse que nunca casei por ser feia.
Estes são alguns dos ecos de uma Maria alienada em sua mãe, todavia ligada a este corpo, colada a esta e, ao mesmo tempo, anulada e aniquilada.
Pegando o ônibus para ir ao Parque do Ibirapuera, se não me sento ao lado de Maria, esta se aterroriza e se põem a chorar, levanta-se e vem ao meu lado, implorando por um lugar – não importando quem esteja ao meu lado. Qualquer mulher que se aproxime de mim, reencena a mulher, mãe e filha abandonada que Maria é. Ela se aflige com a presença de Laura, que também se mantém colada a mim – é como se não houvesse rua e cidade a não ser que passando pelo meu corpo. O grupo se movimenta desta forma: tudo passa pelo corpo daqueles que se propõem a acompanhá-los e vice-versa.
Laura se cola a mim me olhando fixamente, fazendo sempre as mesmas perguntas, clamando por um afago de minha parte, disputando sempre também um lugar ao meu lado. Às vezes, enquanto falo com alguém ou simplesmente quando ando ou estou parado, me percebo sendo observado, e quando olho ao lado vejo Laura me olhando, paralisada, rindo deste momento de revelação. Há um misto de encantamento, deboche e curiosidade acerca do que é o meu corpo.
No AT em grupo, transitei por diferentes afetos em relação a Laura, muitas vezes me irritando e desprezando-a efetivamente, e em outros momentos tendo a necessidade de ampará-la. Ela me elogia constantemente, dizendo que sou muito legal, bonito, e que gosta muito de mim. Maria, enciumada, rapidamente se posiciona ao meu lado e faz questão de me lembrar de que também gosta muito de mim.
Diante disso, sentar-se nos bancos de um parque para descansar se torna atividade extremamente complexa. Quem senta ao lado de quem? A cidade desaparece e o que importa somos nós mesmos.

5
Francisco anda sempre muito a frente do grupo, ligeiramente curvado, falando sozinho e, por vezes, se perdendo na multidão. Fala com o “sentinela”, gosta de quadrinhos e super-heróis. Para em bancas de jornal e, sempre que consegue, adentra para verificar os quadrinhos. Francisco fala baixo, ri, olha-te meio que de lado – nunca tão diretamente.
Nos museus e centros culturais, ele anda sempre rente às obras de arte: não há linha que o separe de pisar onde não se deve. Temo sempre um acidente, um passo equivocado de Francisco. Com o convívio nas saídas, esses elementos vão se distanciando de algum aspecto adoecido de Francisco, revelando-se muito mais como um modo de funcionamento que é reconhecido por todos do grupo.
Ele tem um lugar de amigo para Fábio, que sempre sente pela sua ausência no grupo, notando-o quando ninguém tende a notá-lo. No Parque da Luz, acompanho Francisco por uma caminhada lenta sob o tapete de folhas secas do jardim. Posiciono-me ao seu lado, quase que seguindo seus passos, mas inaugurando também um passo meu ao seu lado. Olhamos-nos com o soar das folhas se quebrando e sorrimos. Francisco chega até a uma grande escultura no jardim, que lembra uma espécie de muro curvo de metal, e observa curioso e desconfiado do outro lado dela. Repito seu movimento, sempre numa tentativa de experimentar tal corpo e reafirmá-lo no espaço. Quando voltamos ao banco dos jardins, Paula nos fala que Francisco é um “menino contente”. Novamente, desaparece qualquer olhar de estranheza em relação ao outro, e entra em cena essa capacidade de agregar a diferença e dar lugar a esta. Respondo a Paula dizendo que ela também é uma menina contente, já que anda sempre sorrindo, assim como Francisco.
Mas andar coletivamente é constante produção. Como agregar os passos lentos de Marlene, que fica sempre para trás, produzindo ela também em nós o temor de um acidente ou atropelamento? Lentificada, anda vagarosamente pelas ruas agitadas de São Paulo. Não me esqueço jamais da vez em que paramos todos diante de uma estátua viva no centro velho da cidade, cujo personagem era Fernando Pessoa, e Marlene espantada com aquele corpo estático – no caso, um duplo seu – lhe toca lentamente com o dedo, onde ele vira-se lentamente também e manda um beijo sonoro para ela. Todos rimos, profundamente tocados com a potência daquele encontro. Ela ainda nos pergunta se aquele corpo “era de verdade”.
Aos poucos Marlene passa a sentir seu corpo, torna-se real. Assaduras formam-se em suas coxas, escondidas pelo jeans apertado e pelo seu aumento de peso. Pede-nos que a acompanhemos para pesquisar o preço das jaquetas – ela quer uma igual à da psicóloga do CAPS. Acompanhamos ela também até a Casas Bahia para ver os preços dos tanquinhos. Um corpo habitado passa a aparecer – alguém que existe e deseja, um corpo inclusive que dói. Certa vez, na confusão de pessoas e feirantes ao lado do Mercadão, alguém chuta uma garrafa plástica pela rua, e para minha surpresa Marlene prossegue com os chutes, sorrindo – arriscando um futebol com o grupo, ainda que lentamente, é extremamente potente.

6
Com estes acontecimentos clínicos esparsos na cidade, produzidos por um movimento de saída institucional, tento reproduzir a afetação do corpo que nos cabia neste grupo, imantados por uma multiplicidade e heterogeneidade de fazeres que envolvia o trio de acompanhantes, os usuários e o cenário caleidoscópico da cidade.
O AT surge como lugar para este corpo acontecer, como aquilo que sustenta a permanência deste corpo estranho na cidade, não marcando unicamente a disparidade entre o fora e o dentro, mas promovendo tal acontecimento indiferenciado no mundo, acompanhando assim desde o atravancamento dos corpos como seu desenfreamento. Tendo este corpo como limite, e partindo do limite entre a psicanálise e a esquizoanálise, produz-se assim uma clínica que segundo Guattari (2012, p.30)
(...) não é mais uma interpretação transferencial de sintomas em função de um conteúdo latente preexistente, mas invenção de novos focos catalíticos suscetíveis de fazer bifurcar a existência. Uma singularidade, uma ruptura de sentido, um corte, uma fragmentação, a separação de um conteúdo semiótico – por exemplo, à moda dadaísta ou surrealista – podem originar focos mutantes de subjetivação.
Trata-se, portanto, de produzir subjetividade, de fazer corpo. Nestas saídas, pensemos como Pankow (1989), uma vez que se releva muito mais a importância de se dar ao acompanhado sensações corporais táteis que o levem aos reconhecimentos do limite de seu corpo, buscando assim o reconhecimento de um desejo inconsciente, e não da satisfação dele.
No AT fazemos o mapa e não o decalque. Abrem-se conexões em todas as dimensões, desmonta-se, reverte-se. O mapa contribui para o desbloqueio do CsO, para sua abertura máxima sobre um plano de consistência. Fazer o mapa é adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo ou uma formação social (Deleuze e Guattari, 1995).
Novamente, não se trata de buscar as origens, interpretar ou significar, mas ir de um mapa a outro e avaliar seus deslocamentos. O inconsciente já não lida com pessoas e objetos, mas com trajetos e devires, já não sendo mais um inconsciente de comemoração arqueológica, porém de mobilização, cujos objetos, mais do que mantidos afundados na terra, podem “levantar voo” (Deleuze, 1997).
Para Deleuze e Guattari (1995) assim é o rizoma, uma antigenealogia, raízes múltiplas, heterogêneas e assignificantes: um princípio clínico que visa cartografar regiões ainda por vir. Corpo, cidade e instituição agenciam-se coletivamente nas saídas grupais descritas neste trabalho, podendo fazer o mapa rizomático de um CsO, bem como do próprio AT, que pode se produzir enquanto método clínico em si.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRETO, Kleber Duarte (1998) Ética e técnica no acompanhamento terapêutico: andanças com Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Unimarco Editora.
DELEUZE, Gilles (1997) “O que as crianças dizem” in Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34. (p. 83-90)
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix (1947) “Como criar para si um Corpo sem Órgãos” in Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol.3. São Paulo: Editora 34, 2012. (p. 11-34)
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix (1995) “Introdução: Rizoma” in Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol.1. São Paulo: Editora 34. (p. 17-50)
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix (2010) O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34.
DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire (1998) “Da superioridade da literatura anglo-americana” in Diálogos. São Paulo: Escuta. (p. 49-92)
GUATTARI, Félix (2012) Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34.
PANKOW, Gisela (1989) O homem e sua psicose. Campinas: Papirus.

JUAN SALAZAR é psicanalista e acompanhante terapêutico.
http://www.sitioat.com