18 de setembro de 2016

VI ENCONTRO "LER & ESCREVER" - TORTURA, TRAUMA E DELÍRIO: O CORTE NA CARNE DA ALMA



Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 15/out/2016, sábado, das 15h às 18h, o VI Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “TORTURA, TRAUMA E DELÍRIO: O CORTE NA CARNE DA ALMA”.

Através de recortes das histórias de Daniel Paul Schreber (1842-1911) e de Tito Alencar Lima (1945-1974), ambos acometidos de forte quadro delirante, pretendemos discutir o lugar da Tortura como trauma secundário no processo de desencadeamento no Delírio, que faria ressurgir das sombras os fantasmas de um trauma considerado primário, pulsional.

Schreber, que deixou registrado o quadro delirante em suas “Memórias de um Doente dos Nervos” (1903), foi objeto de um artigo de Freud em 1911.
Eric L. Santner, em “A Alemanha de Schreber: uma história secreta de modernidade” (1996), aponta para um pai sádico (Daniel Gottlob Moritz Schreber) que literalmente “torturava” o filho com suas experiências ortopédico-moralizadoras, produzindo uma intensificação do corpo, qual seja, uma sexualização. Teríamos aqui o quadro delirante como solução de um conflito primitivo e reatualizado.
Frei Tito, torturado político, que através de sua agenda-diário nos revelou todo o horror de sua experiência, bem como a emergência do quadro delirante, foi recebido e acompanhado por Jean-Claude Rolland no Convento Sainte-Marie de La Tourette, em Éveux, e no Serviço das Emergências Médicas e Psiquiátricas do Hospital Eduardo Herriot, em Lyon, ambos na França.
Jean-Claude Rolland (“O amor do ódio”, 1986), lança a hipótese de que a tortura, uma estimulação corpórea desorganizada, solicita o erótico, uma autoexcitação interna que escapa da possibilidade de organização pelo Eu, desencadeadora de confusão e culpabilidade. Teríamos, novamente, o quadro delirante como solução do conflito de uma erotização sem sentido possível.
Poucos dias antes de suicidar-se, Frei Tito escreveu em sua agenda: “São noites de silêncio. Vozes que clamam num espaço infinito. Um silêncio do homem e um silêncio de Deus”.

O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Tuiuti, 2530 (sala de reunião) - Tatuapé.
As inscrições são restritas a um número de 20 (vinte) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 14/out. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,


CORPO EDITORIAL

16 de agosto de 2016

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: IDA BAUER



IDA BAUER (1882-1945), posteriormente tendo Adler como sobrenome de casada, ficou conhecida através do pseudônimo “Dora”, famoso caso clínico de Freud.
Primeiro grande tratamento psicanalítico realizado por Sigmund Freud, anterior aos do Homem dos Ratos (Ernst Lanzer) e do Homem dos Lobos (Serguei Constantinovitch Pankejeff), a história de Dora, redigida em dezembro de 1900 e janeiro de 1901 e publicada quatro anos depois, desenrolou-se entre a redação de A interpretação dos sonhos e a dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Originalmente, Freud queria dar a esse “Fragmento da análise de um caso de histeria” o título de “Sonho e histeria”. Através desse caso, ele procurou provar a validade de suas teses sobre a neurose histérica – etiologia sexual, conflito psíquico, hereditariedade sifilítica – e expor a natureza do tratamento psicanalítico, muito diferente da catarse e da hipnose, e já então fundamentado na interpretação do sonho e na associação livre.
Ao longo dos anos, o texto adquiriu um estatuto particular: trata-se, com efeito, do documento clínico que mais se comentou, desde sua publicação. Dezenas de artigos, vários livros, um romance e uma peça teatral foram criados a propósito de Dora, e o caso dessa jovem tornou-se o objeto privilegiado dos estudos feministas. Aliás, muitas vezes foi aproximado do caso de Bertha Pappenheim. A maioria dos comentadores observou que esse tratamento não foi tão “bem-sucedido” quanto os outros dois. De fato, Freud teve muitas dificuldades com sua paciente, e não as mascarou. Como observou Patrick Mahoney a propósito de Ernst Lanzer: “Quando comparamos as contratransferências de Freud com seus principais pacientes, temos a sensação de que ele simpatizava mais com o Homem dos Ratos do que com Dora ou com o Homem dos Lobos. Se Freud foi um procurador com Dora, foi um educador amistoso com Lanzer”.
Para a publicação desse primeiro tratamento exclusivamente psicanalítico, conduzido com uma mocinha virgem de 18 anos de idade, Freud tomou precauções inauditas. Na época, de fato, a cruzada que se travava contra o freudismo consistia em fazer com que a psicanálise passasse por uma doutrina pansexualista, que tinha por objetivo fazer os pacientes (sobretudo as mulheres) confessarem, por meio da sugestão, “sujeiras” sexuais inventadas pelos próprios psicanalistas. Na Grã-Bretanha e no Canadá, por exemplo, Ernest Jones suportaria o peso de acusações dessa ordem.
Logo em sua introdução, portanto, Freud resolveu responder de antemão a esse tipo de objeção, mostrando que sua teoria não era uma trama diabólica, destinada a perverter mocinhas e mulheres: “Pode-se falar de toda sorte de questões sexuais com moças e mulheres, sem lhes causar nenhum prejuízo e sem acarretar suspeitas sobre si mesmo, desde que, em primeiro lugar, se adote uma certa maneira de fazê-lo e, em segundo, se desperte nelas a convicção de que isso é inevitável. A melhor maneira de falar dessas coisas é sendo seco e direto; e ela é, ao mesmo tempo, a que mais se afasta da lascívia com que esses assuntos são tratados na ‘sociedade’, lascívia esta com que as moças e mulheres estão plenamente habituadas. Dou aos órgãos e aos fenômenos seus nomes técnicos e comunico esses nomes, na eventualidade de eles serem desconhecidos”. E acrescentou em francês: ”J’appele um chat um chat”.
A história de Ida Bauer é a de um drama burguês, tal como encontrado nas comédias ligeiras do fim do século XIX: um marido fraco e hipócrita engana sua mulher, uma dona de casa ignorante, com a esposa de um de seus amigos, conhecida numa temporada de férias em Merano. A princípio enciumado, depois indiferente, o marido enganado tenta, de início, seduzir a governanta de seus filhos. Depois, apaixona-se pela filha de seu rival e a corteja durante uma temporada em sua casa de campo, situada às margens do lago de Garda. Horrorizada, esta o rejeita, pespega-lhe uma bofetada e conta a cena a sua mãe, para que ela fale do assunto com seu pai. Este interroga o marido da amante, que nega categoricamente os fatos pelos quais é recriminado. Preocupado em proteger seu romance extraconjugal, o pai culpado faz com que a filha passe por mentirosa e a encaminha para tratamento com um médico que, alguns anos antes, prescrevera-lhe um excelente tratamento contra a sífilis.
A entrada de Freud em cena transforma essa história de família numa verdadeira tragédia do sexo, do amor e da doença. Sob esse aspecto, sua narrativa do caso Dora assemelha-se a um romance moderno: hesitamos entre Arthur Schnitzler, Marcel Proust (1871-1922) e Henrik Ibsen (1828-1906). Com efeito, o drama inteiro gira em torno da introspecção através da qual a heroína (Ida) mergulha, progressivamente, nas profundezas de uma subjetividade que se oculta de sua consciência. E a força da narrativa prende-se ao fato de que Freud faz surgir uma impressionante patologia por trás das aparências de uma grande normalidade. Com isso ele pode restituir a Dora uma verdade que sua família lhe roubara, ao chamá-la de simuladora.
Nascida em Viena, numa família da burguesia judaica abastada, Ida era a filha caçula de Phillip Bauer (1853-1913) e Katharina Gerber-Bauer (1862-1912). Acometido por uma afecção sifilítica antes do casamento, Phillip só enxergava de um olho desde que ela nascera. Freud o descreveu como um homem ativo e muito talentoso: “A personalidade dominante era o pai”, escreveu, “tanto por sua inteligência e suas qualidades de caráter quanto pelas circunstâncias de sua vida, que condicionaram a trama da história patológica e infantil de minha cliente”. Grande industrial, ele desfrutava de uma bela situação financeira e era admirado pela filha. Em 1888, contraiu tuberculose, o que o obrigou a se instalar com toda a família longe da cidade. Assim, optou por residir em Merano, no Tirol, onde travou conhecimento com Hans Zellenka (Sr. K), um negociante menos abastado que ele, casado com uma bela italiana, Giuseppina ou Peppina (Sra. K), que sofria de distúrbios histéricos e era uma assídua frequentadora de sanatórios. Peppina tornou-se amante de Phillip e cuidou dele em 1892, quando ele sofreu um deslocamento da retina.
Nessa época, havendo retornado a Viena, Phillip instalou-se na mesma rua que Freud e foi consultá-lo (como médico) por conta de um acesso de paralisia e confusão mental de origem sifilítica. Satisfeito com o tratamento, encaminhou-lhe sua irmã, Malvine Friedmann (1855-1899). Afetada por uma neurose grave e imersa na infelicidade de uma vida conjugal atormentada, ela morreu pouco depois, vítima de uma caquexia de evolução rápida.
Katharina, a mãe de Ida, provinha, como o marido, de uma família judia originária da Boêmia. Pouco instruída e bastante simplória, sofria de dores abdominais permanentes, que seriam herdadas pela filha. Nunca se interessara pelos filhos e, desde a doença do marido e da desunião que se seguira a ela, exibia todos os sinais de uma “psicose doméstica”: “Sem mostrar nenhuma compreensão pelas aspirações dos filhos, ela se ocupava o dia inteiro”, escreveu Freud, “em limpar e arrumar a casa, os móveis e os utensílios domésticos, a tal ponto que usá-los e usufruir deles tinha-se tornado quase impossível. Fazia anos que as relações entre mãe e filha eram pouco afetuosas. A filha não dava a menor atenção à mãe, fazia-lhe duras críticas e escapara por completo de sua influência”. E era uma governanta quem cuidava de Ida. Mulher moderna e “liberada”, esta lia livros sobre a vida sexual e dava informações sobre eles à sua aluna, em segredo. Abriu-lhe os olhos para o romance do pai com Peppina. Entretanto, depois de Tê-la amado e de lhe ter dado ouvidos, Dora se desentendera com ela.
Quanto ao irmão, Otto Bauer (1881-1938), ele pensava sobretudo em fugir das brigas familiares. Quando tinha que tomar algum partido, alinhava-se do lado da mãe: “Assim, a costumeira atração sexual havia aproximado pai e filha, de um lado, e mãe e filho, do outro”. Aos nove anos de idade, ele se tornara um menino prodígio, a ponto de escrever um drama em cinco atos sobre o fim de Napoleão. Depois, rebelara-se contra as opiniões políticas do pai, cujo adultério aprovava, por outro lado. Tal como o pai, Otto levou uma vida dupla, marcada pelo segredo e pela ambivalência. Casou-se com uma mulher dez anos mais velha, já mãe de três filhos, mantendo ao mesmo tempo um romance prolongado com Hilda Schiller-Marmorek, dez anos mais moça que ele, e que seria sua amante até sua morte. Secretário do Partido Social-Democrata de 1907 a 1914 e, depois, assessor de Viktor Adler no ministério de Assuntos Exteriores em 1918, viria a ser uma das grandes figuras da intelectualidade austríaca no entre-guerras. No entanto, apesar de seu talento excepcional, nunca se refez do desmoronamento do Império Austro-Húngaro e despendeu mais energia atacando Lenin do que combatendo Hitler: “Essa ingenuidade”, escreveu William Johnston, “ainda era uma herança do Império de antes da guerra, no qual a tradição protegia os dissidentes. Bauer insistiu, até 1934, em fazer cruzadas típicas do pré-guerra contra a Igreja e a aristocracia, num momento em que, justamente, deveria ter-se associado a seus inimigos de outrora para repelir o fascismo. Poucas cegueiras tiveram consequências tão pesadas”.
Portanto, foi em outubro de 1901 que Ida Bauer visitou Freud para dar início a esse tratamento, que duraria exatamente onze semanas. Afetada por diversos distúrbios nervosos – enxaquecas, tosse convulsiva, afonia, depressão, tendências suicidas -, ela acabara de sofrer uma terrível afronta.
Consciente, desde longa data, do “erro” paterno e da mentira em que se apoiava a vida familiar, ela havia rejeitado as propostas amorosas que Hans Zellenka (Sr. K) lhe fizera à margem do lago de Garda e o esbofeteara. E então tinha eclodido o drama: ela fora acusada por Hans e por seu pai de ter inventado a cena de sedução. Pior ainda, fora reprovada por Peppina Zellenka (Sra. K), que suspeitava que ela lesse livros pornográficos, em particular A fisiologia do amor, de Paolo Mantegazza (1831-1901), publicado em 1872 e traduzido para o alemão cinco anos depois. O autor era um sexólogo darwinista, profusamente citado por Richard von Krafft-Ebing e especializado na descrição “etnológica” das grandes práticas sexuais humanas: lesbianismo, onanismo, masturbação, inversão, felação, etc. Ao encaminhar sua filha a Freud, Phillip Bauer esperava que este lhe desse razão e que tratasse de pôr fim às fantasias sexuais da moça.
Longe de subscrever à vontade paterna, Freud enveredou por um caminho totalmente diverso. Em onze semanas e através de dois sonhos – um referente a um incêndio na residência da família e outro à morte do pai -, ele reconstituiu a verdade inconsciente desse drama. O primeiro sonho revelou que Dora era dada à masturbação e que, na realidade, estava enamorada de Hans Zellenka. Por isso havia pedido ao pai que a protegesse da tentação desse amor. Quanto ao segundo, ele permitiu ir ainda mais longe na investigação da “geografia sexual” de Dora e, em especial, trazer à luz seu perfeito conhecimento da vida sexual dos adultos.
Freud se deu conta de que a paciente não suportou a revelação de seu desejo pelo homem a quem havia esbofeteado. Por isso, deixou-a partir quando ela resolveu interromper o tratamento. Como agir de outro modo? O pai, de início favorável à análise, logo percebeu que Freud não havia aceitado a tese da fabulação. Por conseguinte, desinteressou-se do tratamento da filha. Por seu lado, esta não encontrara em Freud a sedução que esperava dele: ele não fora compassivo e não soubera empregar com ela uma relação transferencial positiva. Nessa época, com efeito, ele ainda não sabia manejar a transferência na análise. Do mesmo modo, como sublinharia em uma nota de 1923, foi incapaz de compreender a natureza da ligação homossexual que unia Ida (Dora) a Peppina. No entanto, fora a própria Sra. K que fizera a moça ler o livro proibido, para depois acusá-la. E fora também ela quem lhe havia falado de coisas sexuais.
Esse tema da homossexualidade inerente à histeria feminina seria longamente comentado por Jacques Lacan em 1951, enquanto outros autores fariam questão de demonstrar ora que Freud nada entendia de sexualidade feminina, ora que Dora era inanalisável.
Ida Bauer nunca se curou de seu horror aos homens. Mas seus sintomas se aplacaram. Após sua curta análise, ela pôde vingar-se da humilhação sofrida, fazendo a Sra. K confessar o romance com seu pai e levando o Sr. K a confessar a cena do lago. Transmitiu então a verdade ao pai e, depois disso, suspendeu qualquer relacionamento com o casal. Em 1903, casou-se com Ernst Adler, um compositor que trabalhava na fábrica de seu pai. Dois anos mais tarde, deu à luz um filho, que posteriormente faria carreira musical nos Estados Unidos.
Em 1923, sujeita a novos distúrbios – vertigens, zumbidos no ouvido, insônia, enxaquecas -, por acaso chamou à sua cabeceira Felix Deutsch. Contou-lhe toda a sua história, falou do egoísmo dos homens, de suas frustrações e de sua frigidez. Ouvindo suas queixas, Deutsch reconheceu o famoso caso Dora: “Desse momento em diante, ela esqueceu a doença e manifestou um imenso orgulho por ter sido objeto de um texto tão célebre na literatura psiquiátrica”. Então, discutiu as interpretações de seus dois sonhos feitas por Freud. Quando Deutsch tornou a vê-la, os ataques tinham passado.
Em 1955, havendo emigrado para os Estados Unidos, Deutsch teve notícia da morte de Dora, ocorrida dez anos antes. Através de Ernest Jones, ficou sabendo que ela havia morrido em Nova York, e, através de um colega, soube como se haviam desenrolado seus últimos anos de vida. Dora tinha voltado contra o próprio corpo a obsessão de sua mãe: “Sua constipação, vivida como uma impossibilidade de ‘limpar os intestinos’, causou-lhe problemas até o fim da vida. Entretanto, habituada a esses distúrbios, ela os tratou como um sintoma conhecido, até o momento em que eles se revelaram mais graves do que uma simples conversão. Sua morte – de um câncer de cólon, diagnosticado tarde demais para que uma operação pudesse ter êxito – veio como uma bênção para seus parentes. Ela fora, nas palavras de meu informante, uma das ‘histéricas mais repulsivas’ que ele já havia conhecido”.

OBS.: Este Artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

14 de julho de 2016

A BICICLETA, A INSUSTENTÁVEL AUSÊNCIA (Marcos InHauser Soriano)



O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer
(JACQUES LACAN)

Este artigo se dá sob o olhar particular do autor sobre Hélène, personagem de “Le Sang Des Autres”, escrito por Simone de Beauvoir em 1945.
Inquieta, trabalhando em uma loja de doces, a jovem Hélène é uma sonhadora, perdida em devaneios apaixonantes de viver um grande amor, de viver grandes aventuras que preencham certo espaço de sentido. Algo falta para uma Hélène completada, autobastante.
O namoro com Paul é morno demais. Ele não responde, metido que está em sua relação com ideias sindicalistas, à solicitação de Hélène, que deseja ser objeto único e absoluto a ocupar a mente do rapaz.
Às vezes surge outra Hélène. Uma outra, que questiona a nadificação do Mundo sem sua presença: o que seria do sentido do Mundo com sua morte, senão sentido algum? A morte extrai qualquer possibilidade de sentido. Mas essa outra Hélène é fugaz. Some à frente de um bom prato. Some a uma Hélène insaciável, devoradora de vida, bifes e batatas.

O que é isso que sentimos que falta?
Em alguns momentos, raros e fugazes é verdade, sentimos uma estranha ausência, um buraco, um nada, como se faltasse uma ponte de ligação que desse sentido à percepção, à realidade que vivemos, a nós mesmos como seres integrados em uma unidade identitária. Em alguns momentos sentimos isso, de uma angústia em busca de representação.
Não me parece aqui que falamos da “falta do falo”. Aqui nos aproximamos mais da teoria pulsional, considerando seu núcleo teórico1. As “angústias impensáveis”2 de Winnicott, bem como o “objeto a”3 de Lacan, seriam boas aproximações, mas ainda falta algo... Uma insustentável ausência.
Acredito que aqui, na tentativa de apreender isso de estranho, que nos localiza como em um universo paralelo da ficção científica - que, aliás, explora com perfeição esse sentimento de falta de ligação de sentido entre o Eu e a Realidade -, estamos no lugar teórico da passagem do biológico ao humano, fundante portanto. No início há a criatura biológica que, aos poucos, através das inúmeras formas de linguagem/transmissão da cultura em que surge, vai se transformando em esboço humano. Rompendo com o cerco biológico4, reconhece-se Eu, humano, detentor de uma linguagem complexa e abstrata a tender para o infinito de possibilidades representacionais. Momento instaurador que, no decorrer da sustentação e unificação da identidade à realidade – uma específica, duradoura e insistente elaboração secundária -, se perde para sempre como possibilidade simbólica, deixando um eco, isso de estranho, um rastro onde não há pistas a rastrear-se. Assim passa a ser no mundo.
Na interpretação deste autor, nesse ponto se dá a origem dos questionamentos de Hélène, representados pela falta de sentido inserida na ideia de Morte. Posto que tentamos buscar representações possíveis, estamos sempre a representar – este ato mental de eterno descompasso5.

A COMÉDIA
Ela olha, dissimula, torna a olhar. Hélène, pela fresta da cortina, fica a admirar a bicicleta azul-claro reluzente, esbelta, elegante, encostada na pedra escura da parede, na rua. Sente-se boba, mas a atração é irresistível. A pintaria de verde-escuro.
A bicicleta era da porteira do prédio em que ficava a confeitaria. Não havia sentido a porteira na bicicleta. Sentido havia em Hélène e a bicicleta, um ser unificado, rasgando o espaço livremente, preenchendo todos os vazios de Paris. Ela/bicicleta poderia ir aonde quisesse.
Debruçava-se à janela vinte vezes por dia flertando a bicicleta. A bicicleta deveria ser dela.
Não há de se procurar inveja em Hélène. Ela não invejava a porteira, dona da bicicleta. Apenas não encontrava encaixe, nenhum sentido. Hélène sentia sentido nas vísceras, ao imaginar-se fundida com a bicicleta. Mas não tinha como se apossar do objeto de guidão niquelado, brilhante, que a chamava para a liberdade das ruas de Paris, tão lisa, tão limpa, tão alegre.

A comédia se dá no desencontro da palavra com o sentido. É o tempo do condicional, das possibilidades paradoxais de ser sujeito, condensando uma história inteira em curto momento de perplexidade. Uma comédia de erros, o reconhecimento do absurdo em nós. Pensa-se mal, replica-se pior, em uma conversa em que o certo e o errado perdem o sentido de julgamento.
Hélène percebe a tolice em que se encontra mergulhada, mas a sensação do objeto fusionado ela/bicicleta é forte, ganha espaço ao dar/buscar sentido no buraco visceral de uma ausência indizível. Momento fugaz. Hélène retorna a seu cotidiano, à sua rotina. Atende um menino que quer guloseimas coloridas. Ela/bicicleta permanece como um eco que não mais encontra sua origem.

O DRAMA
Hélène conhece Jean através de Paul. Paul é um namorado muito morno, critica a absurda fixação na bicicleta. Nesse momento, como montado em um cavalo branco, Jean realiza a proeza para a mocinha – rouba o objeto tão desejado e o entrega para Hélène.
Que ser humano mais incrível. Jean vai se introduzindo no mundo de Hélène: misterioso, indiferente, provocador.
Em um jogo de sutis agressões, Jean, sem perceber, vai se aproximando de Hélène, capturado pela coisa viva que ela representa. Negando profundamente, Jean cede a uma relação nunca antes imaginada.
Hélène quer, como sempre quis, ser a única coisa importante no mundo de Jean. Subjulgado por si mesmo, envolto em culpas sombrias, acusando-se de ter a mancha do “sangue dos outros” em suas mãos, Jean resolve mentir: ele deve amar Hélène. Em sua mentira, não percebe a verdade de que ele a ama.
Hélène vive, então, uma vida de sonhos e guloseimas coloridas, passeando no parque de mãos dadas com aquele homem misterioso, indiferente, provocador.
Do viver encantado surge a dúvida e a certeza do engodo. Para Hélène, Jean não a ama suficientemente. Sob pressão, a relação se destrói para Jean. Para Hélène não. Para Hélène vira obsessão. Deita-se com outros, rebela-se, aborta-se e adoece para ferir o homem que tomou o lugar da bicicleta.
A bicicleta fora largada no meio da rua, logo nas primeiras pedaladas. Agora é Jean que supre a ausência e traz sentido de um romântico passeio pelo parque.
Sem Jean não há sentido, como não há sentido em ele não amá-la. O Jean dela, criado por ela, na fresta da mesma estranha ausência que, em momentos fugazes, a persegue.

O Drama é o tempo do cotidiano vivido dos homens, dos sentimentos delicados e vivências dolorosas. No drama da vida, a dúvida tangencia o sofrimento.
Faz-se, aqui, o resumo da novela de Hélène. Larga-se a bicicleta, agarra-se a Jean. Hélène, num repente, se vê mergulhada em uma cena de verdade, cena desejada, cena duvidosa, dolorosa. Uma cena de verdade não é um conto de fadas, nem termina com “happy end”. Uma cena de verdade é construída, compasso a compasso, à revelia dos personagens que a compõe. Ao desejo, deve-se dar tempo ao tempo – o insustentável da paciência. Não somos bons em ter paciência.

A TRAGÉDIA
Hélène e a bicicleta, um pouco enferrujada, deslizam pelo Bulevar Saint-Michel. Ela está de namorico com Herr Bergmann. Ela vai para Berlim. Os alemães invadiram Paris, o fascismo avança. Ela está à parte de tudo isso. Sonha com Berlim.
“Robert Jardiller, engenheiro de Lorient, condenado à morte por ato de sabotagem, foi fuzilado esta manhã” – o pequeno cartaz amarelo choca um pouco, mas ela vai animada encontrar o namorado alemão no restaurante. Ela está com fome. Nada disso tem importância... Nada. As pessoas viviam e sofriam, mais nada.
Hélène despertou na Praça de Contrescarpe – uma cena, um despertar outra. A visão de uma mãe judia sendo separada da filha pequenina caiu como chumbo na francesa. Enfim, o eco fantasmático voltou a ecoar: qual o sentido? Reconhecera-se, então, como uma menina mimada, a não fazer absolutamente nada. Voltaram as ideias do sindicato e do movimento da Resistência. Voltou a figura de Jean.
A existência enchera-se de sentido. Prestes a morrer, após uma missão fracassada da Resistência, com o pulmão perfurado à bala, Hélène encontra-se serena. Viveu sua aventura. Ficara, para sempre, marcada no pensamento de Jean.
A bicicleta desliza, livre, pelas ruas de Paris... Tranquila. Os olhos se fecham para sempre, a respiração cessa... Tranquila.
Hélène ficará para sempre em Jean: “Você me trouxe a coragem de suportar meus crimes e o remorso que sempre me há de torturar. Não há outro caminho”.

A Tragédia é o tempo em que a vida encontra o destino. Na Tragédia não há solução humana. A Tragédia é o roubo, o trauma, a que, costumeiramente, chama-se história. Uma história que se vai descobrindo no fundo do sentido buscado nos acontecimentos particulares – tragédia inescapável.
Hélène, ao buscar sentido em mundo sem sua presença, o encontra na morte. O passeio de bicicleta vai, sem a autonomia do sujeito, tecendo os fios do desejo de Hélène, qual seja, ser para sempre em Jean. É no mundo vivido de Jean que Hélène terá, enfim, sentido. Aqui, de forma sublime, Simone de Beauvoir nos mostra que Jean não importa... O que importa é a sobrevivência de Hélène e sua bicicleta, a apontar a liberdade do ser, perdida para sempre na brecha da passagem enigmática do biológico para o pulsional humano – o trauma, a matriz de estampagem do desenho do desejo, o diagnóstico do Homem.

Estranho momento esse. Remoto, distante, perdido no tempo. O momento no qual, de repente, nos sentimos alguém, um sujeito, passamos a ser gente. Na maioria das vezes, em quase sua totalidade na verdade, não pensamos nisso. Nossa rotina cotidiana torna essa reflexão desprovida de sentido racional. Raramente vem à mente a busca por esse sentido, o de que, em certo momento, nos tornamos gente.
Mas está em nós. Uma lacuna, essa que nos faz romper o cerco biológico e adentrar no mundo humano, na maioria das vezes sem escolher o lugar que ocuparemos – somos ocupados pelo destino, pelo Real.
Fica certa angústia, certo eco, qual fantasma a assombrar a periferia de nossas representações. De sobressalto somos tocados por essa ausência de sentido, seja cômica, dramática, ou tragicamente6.
Uma insustentável ausência: aquilo que fui sem nunca ter sido.

NOTAS
1. O conceito de pulsão (Trieb) é, dentro do corpo teórico da Psicanálise, de complexidade ímpar, aparecendo pela primeira vez em 1905, e sendo trabalhado até os dias atuais. Freud escreve em 1933 que a Teoria das pulsões deve ser considerada a Mitologia da Psicanálise. Para nossos fins, o que denomino de núcleo teórico é a base lógica de toda a estrutura do conceito, qual seja, a pulsão é uma carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico do humano, portanto, um impulso proveniente do biológico e do psíquico. A pulsão, delimitada em sua área conceitual - importante salientar a ideia de “área conceitual”-, coloca em movimento todo o aparelho mental.
2. As “angústias impensáveis”, ideia desenvolvida por Winnicott, nos remetem ao perigo extremo de o indivíduo “cair” fora da existência, de que a existência enquanto tal não se dê, ou se perca. Partindo da experiência da observação de mães segurando seus bebês, Winnicott situa um tipo original de angústia, localizada em um momento pré-verbal, pré-psíquico e pré-representacional, anterior ao início de qualquer capacidade relacionada a mecanismos mentais, e muito anterior ao reconhecimento de impulsos instintuais, momento anterior ao fazer parte de si-mesmo auto-significante. A queda do bebê dos braços da mãe, ainda um esboço do humano, em um cair e cair e cair, sem espacialidade, sem temporalidade.
3. O “objeto a”, termo introduzido por Lacan em 1960, designa o objeto desejado pelo sujeito, mas que se furta a ele, a ponto de ser “não representável”, ou de se tornar um “resto” não simbolizável, uma “falha-a-ser”. Em um aforismo deslumbrante, e importante para o presente artigo, Lacan, em 1965, resume: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”.
4. Fabio Herrmann denomina o simulacro biológico de “cerco das coisas”. Através do equívoco no diálogo afetivo/linguístico/corporal entre mãe e bebê, a pequena criatura biológica vai inserindo-se no campo humano, processo denominado por Herrmann como “familiarização”.
5. A representação, para Fabio Herrmann, é como o “abecedário” do aparelho mental, sempre em descompasso em um tentar representar a união do sujeito a seu mundo. O “Eu”, citado algumas vezes no presente artigo, é tido como função defensiva da representação, forçado núcleo identitário a promover uma falsa síntese de tantos possíveis de ser-em-si – forma exemplar do que denomino de “descompasso”.
6. Fabio Herrmann encontra analogia entre a Comédia, o Drama e a Tragédia, com os três tempos de uma análise: o tempo curto, o tempo médio, e o tempo longo, respectivamente. Os três tempos estão aqui representados na apresentação de Hélène em três formas possíveis, portanto, sobrepostas.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br