12 de abril de 2019

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ERNST LANZER



ERNST LANZER, jurista austríaco, paciente de Freud, nasceu em Viena, em 22 de janeiro de 1878, e morreu na Rússia, em 1918.
O Dr. Ernst Lanzer é muito mais conhecido sob o pseudônimo de “O Homem dos Ratos” que lhe deu Freud e sob o de Dr. Lorenz que lhe deu Strachey.
Sua mãe, Rosa Herlinger, nascida em 1844, e seu pai, Heinrich, nascido em 1825 (Freud e o Homem dos Ratos tinham em comum ser filhos de pais em idade de serem seus avós), vinham da Silésia. Tiveram sete filhos:  Hedwig (Hilde nos escritos de Freud), nascida em 1870; Camilla (Katherine), em 1872; Rosalie (Constanze), em 1874; Robert (Hans), nascido em 1879; Olga (Julie), nascida em 1880; e Gertrude (Gerda), em 1886. As mortes de Camilla em 1881, de seu pai em 1899 e de sua tia em 1901 tiveram numerosas repercussões imediatas e ao longo prazo sobre a vida privada e profissional do Homem dos Ratos.
Em 1897, Ernst Lanzer inscreveu-se na Faculdade de Direito da Universidade de Viena, mas só conseguiu terminar o curso dez anos depois, pouco antes de iniciar o tratamento com Freud. As mesmas ambivalências e procrastinações estavam operando em sua vida afetiva: após um ano e meio de noivado, iniciou uma vida de casal sem filhos com sua prima Gisela Adler, por quem se apaixonara dez anos antes.
Foi durante manobras militares de agosto a setembro de 1907 que o Dr. Lanzer sofreu pela primeira vez de sua estranha obsessão com ratos. Os arquivos militares dessa época relatam que, em consequência da morte de seu pai, ele tinha herdado cinquenta mil coroas, soma extremamente importante e que o poderia dispensar de ficar procurando com um frenesi obsessivo um pincenê perdido durante as manobras, cujo valor não ia além de 3,80 coroas.
Ele começou sua análise com Freud a 1º de outubro de 1907. Tendo resolvido parcialmente os conflitos ligados à sua atividade profissional (ele estivera antes quase incapacitado de trabalhar durante dois meses), encontrou um emprego em 1908; entretanto, mudou quatro vezes de empregador antes de se tornar oficialmente advogado e poder conservar definitivamente uma posição como jurista em 1913. Em agosto de 1914, foi convocado pelo Exército, feito prisioneiro pelos russos em 21 de novembro e morreu quatro dias depois.

NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA (O HOMEM DOS RATOS)
O Dr. Ernst Lanzer, aliás, o Homem dos Ratos (caso publicado em 1909), consultou Freud pela primeira vez no dia 1º de outubro de 1907; começou uma análise que não chegou a durar onze meses e terminou com uma cura completa. Os sintomas apresentados pelo paciente eram múltiplos: obsessões que datavam da infância tinham aumentado de forma dramática nos quatro últimos anos. Desde 1901, o Dr. Lanzer começou a ser dominado por obsessões sexuais e mórbidas: passou a gostar de funerais, de ritos de morte, e adquiriu o hábito de contemplar o pênis no espelho; o que lhe acarretou inúmeras tentações de suicídio por causa das censuras sobre si mesmo, que eram amainadas com orações. Entre as ideias obsessivas mais recentes, Lanzer temia ferir mortalmente sua amiga (sua “dama”, maneira como chamava a mulher que amava), ou mesmo seu pai. Queixava-se também de impulsos compulsivos, como o de cortar a garganta com sua navalha de barba, e descrevia numerosas interdições que se impunha, por vezes, a respeito de coisas muito triviais. Daí decorriam procrastinações em torno de sua vida privada e profissional, inclusive uma dificuldade enorme para concluir seus estudos de Direito, ingressar na vida profissional e casar.
A importância que Freud atribuiu ao caso do Homem dos Ratos vê-se nos seguintes fatos: durante todo o tempo dessa análise, ele apresentou quatro “relatórios completos de sua evolução” à Sociedade Psicanalítica de Viena, fez do caso o tema de sua conferência no I Congresso Internacional de Psicanálise, em Salzburgo, em 1908, e foi, por último, o único caso para o qual conservou seus apontamentos quotidianos. Em resumo, em virtude de o Dr. Lanzer ter consultado, antes, Julius von Wagner-Jauregg, o mais célebre psiquiatra de Viena, Freud queria fazer desse caso um texto essencial para a tese psicanalítica, tal como virá a fazer ulteriormente com o Homem dos Lobos, que também tinha começado por consultar um grande psiquiatra europeu, senhor de uma imensa reputação: Emil Kraepelin.
Em sua segunda hora de divã, o Dr. Lanzer relatou o incidente que deu origem ao seu pseudônimo. Durante as manobras militares do verão precedente, ele tinha perdido o seu pincenê. Pouco depois, no mesmo dia, ouviu um “capitão cruel” descrever uma tortura oriental que consistia em atar um pote de barro quente cheio de ratos sobre o ânus da vítima. Ao ouvir essa história sádica, o Homem dos Ratos imaginou que essa tortura estava sendo aplicada simultaneamente à sua amiga e ao seu pai. A fim de impedir a realização dessa fantasia, ele tinha recorrido à fórmula “seja o que for que você possa estar pensando...” acompanhada de um gesto de negação. Imediatamente depois desse episódio, foi invadido por pensamentos obsessivos a respeito da necessidade urgente de reembolsar um de seus camaradas, um soldado que lhe tinha comprado um novo pincenê e lho remetera imediatamente. A partir daí, no espírito do Homem dos Ratos, elabora-se uma sequência de bons e maus objetos associados aos ratos de maneira simbólica: o próprio Homem dos Ratos, sua mãe, sua amiguinha, as crianças, o ânus, os órgãos genitais, o dinheiro, o jogo, o casamento, a devoração, a penetração, o conteúdo...
Quando Freud pretende tê-lo completa e definitivamente curado, exagera um pouco. Entretanto, ao insistir muito e ao negligenciar todas as reações transferenciais possíveis, sobretudo negativas, ao deixar de lado o papel das mulheres nesse tratamento e ao enfatizar a relação edipiana que o Homem dos Ratos mantinha com seu pai, Freud conseguiu efetivamente obter resultados terapêuticos de excelente qualidade. Além disso, em numerosas ocasiões, ele demonstrou ao seu paciente que poderia compreender seus pensamentos obsessivos desde que descobrisse a sua formulação original. Para resumir, ele foi efetivamente capaz de desembaraçar o seu paciente do pânico que o dominava e de o tornar muito mais eficaz em sua vida privada e profissional.
Embora seja hoje um dos textos princeps do ponto de vista da psicanálise das personalidades obsessivo-compulsivas, este caso comporta elementos de ficção. Quando se dirigiu à Sociedade Psicanalítica de Viena em 20 de novembro de 1907, Freud insistiu repetidamente no fato de que o nome da amiga de Lanzer corria o risco de ser divulgado, apesar de suas tentativas defensivas para o disfarçar sob a forma de anagramas; no entanto, as notas de Freud revelam que ele o conhecia desde 27 de outubro. Freud voltou a expor o caso durante o I Congresso Internacional de Psicanálise em 1908 e, segundo a informação de Jones, provavelmente inverídica, mas aceita por todo o mundo, ele teria falado do caso durante mais de cinco horas. Em contrapartida, o que é certo, quando se examinam meticulosamente as minutas do tratamento e o que Freud expõe em outros textos, é que ele mente regularmente, a ponto de dar a impressão de que o tratamento se alongou por muitíssimo mais tempo do que durou na realidade.
O que caracteriza igualmente o quadro apresentado por Freud é um estranho desequilíbrio entre a primeira e a segunda parte. O erotismo anal e as consequências da história dos ratos dominam a primeira parte, ou seja, metade do texto de Freud; mas na segunda parte, ele faz apenas duas alusões muito breves à analidade e só uma, também muito breve, à história do rato. Freud precisou esperar mais quatro anos para ter a intuição de que existia uma ligação etiológica entre o erotismo anal e a neurose obsessiva. Assim, nessa segunda parte, Freud só foi capaz de explicar um pouco melhor a fenomenologia e a estrutura das ideias obsessivas, o sentido psicológico do pensamento obsessivo, as atitudes típicas de superstição e outras ideias de morte e um ponto de vista difícil de datar sobre as relações entre compulsão e dúvida enquanto oriundas das pulsões.
Em sua correspondência particular, Freud lembra regularmente que esse caso deve ser considerado em sua descontinuidade, o que remete para a descontinuidade que existia nas percepções e obsessões do seu próprio paciente. Assim, a análise de Freud encontra-se constantemente infiltrada, no plano contratransferencial, de ligações defensivas que sugerem uma espécie de patologia da continuidade e, por conseguinte, é interessante assinalar que, quando escreve sobre este caso, ele próprio está muito confuso sobre as questões de causalidade. São poucas as interpretações que propõe acerca das relações entre escolhas de objetos heterossexuais no decorrer da vida edipiana e pré-edipiana do seu paciente, nem sempre é capaz de harmonizar suas descobertas clínicas com suas teorizações, não integra suas explicações em termos de analidade, de ambivalência e de economia e, em definitivo, não estabelece o vínculo entre as sintomatologias adulta e infantil do seu paciente.
Interessante salientar a discussão gerada, nos estudos posteriores sobre o caso, de três intervenções incomuns de Freud: quando pede ao paciente para ver o retrato da “dama”; quando enviou um cartão postal para o paciente; e quando convidou o paciente para uma refeição em sua casa.
Este é um caso onde a importância da linguagem se evidencia de imediato, desde que tudo se organiza em função da descoberta de um significante principal na história do paciente – Ratten (ratos), Spielratten (jogador de baralho), raten (supor, suposição), Heilraten (casamento, acasalamento), Raten (prestação, pagamento) – significante este por onde circula incessantemente a complicada trama associativa que aprisiona e expressa a estrutura conflitiva do paciente.

OBS.: Este artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Patrick Mahony para o Dicionário Internacional da Psicanálise.

3 de março de 2019

EDITORIAL ANO X



A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE completa em março seu décimo ano de existência. O CORPO EDITORAL gostaria de parabenizar a todos pelo esforço e pela participação nesta empreitada psicanalítica.
Desde FREUD, percebemos a importância da LEITURA e da ESCRITA para o desenvolvimento da Psicanálise. Com seus precisos levantamentos bibliográficos nos Artigos Teóricos, bem como na arte de sua escrita, ora romanceada nos Historiais Clínicos, ora metodologicamente perfeita nos Artigos Técnicos, FREUD nos deixou esse legado e essa deliciosa obrigação: LER e ESCREVER.
Em 1925, escreve FREUD, incansável: “É quase humilhante que, após trabalharmos por tanto tempo, ainda estejamos tendo dificuldade para compreender os fatos mais fundamentais. Mas decidimos nada simplificar e nada ocultar. Se não conseguirmos ver as coisas claramente, pelo menos veremos claramente quais são as obscuridades”.
Ficamos, portanto, com esse desafio: perpetuar a LEITURA e a ESCRITA.
Uma LEITURA e uma ESCRITA que permitam um diálogo mais profundo com outras áreas de saber, sempre com o intuito de fazer retornar a Psicanálise às suas origens, ou seja, ser um instrumento de compreensão do Humano, caminhando em direção a uma Ciência Geral da Psique.
Gostaríamos de salientar que a REVISTA não possui qualquer ligação institucional, nem qualquer tipo de registro ou índice de registro acadêmico, dependendo, portanto, do “desejo” e do honesto esforço do CORPO EDITORIAL e dos Autores que queiram participar do convite a um rodopio vertical de ideias, na compreensão do Homem Psicanalítico.
Neste ano de 2019, daremos seguimento ao Encontro de Autores e Leitores da REVISTA, previsto para novembro, com o propósito de favorecer o diálogo com esses dois lugares: LER e ESCREVER.
Teremos também a continuidade do CINE VÓRTICE, agora ampliado em mais encontros, promovendo o diálogo entre Psicanálise e Cinema, no intuito de criar mais um espaço para discussão e, assim, ir em direção a uma clínica mais extensa, que transpasse os limites do consultório padrão. Independentemente da leitura particular desta ou daquela escola psicanalítica, atrelada a determinado autor psicanalítico, deve-se sobrar a Psicanálise. Tentaremos, também, proporcionar o SARAU, com o objetivo de traçarmos um intercâmbio com a LITERATURA e o TEATRO.
Não podemos esquecer-nos da criação, em 2012, de um sistema de buscas (“Pesquisar na Revista”) e de um espaço reservado para comunicação de nossos leitores (“Palavra do Leitor”). Continuamos com a página no Facebook.
Estamos empenhados em continuar propiciando e aprimorando um espaço aberto de interlocução psicanalítica. Portanto, convidamos todos a participarem com Artigos, Ensaios, Crônicas, e demais formas nas quais a Psicanálise se faz instrumento poderoso.
Continuamos em parceria com nossos colegas do SÍTIO – PSICANÁLISE E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO (http://www.sitioat.com), parceria esta que promete material valioso.
Mais uma vez, muito obrigado a todos que diretamente ou indiretamente participam desta empreitada.

CORPO EDITORIAL

16 de fevereiro de 2019

CINE VÓRTICE



A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE tem o prazer de convidar para mais uma edição do CINE VÓRTICE.
No evento, será exibido o filme "ALPHAVILLE, UNE ÉTRANGE AVENTURE DE LEMMY CAUTION" (Jean-Luc Godard, França/Itália, 1965). Após a exibição será aberta uma pequena discussão sobre o filme.

Data: 16/mar/2019, das 14h às 17h.
Local: Rua Apeninos, 681 – Paraíso, São Paulo/SP.

A sessão terá início, impreterivelmente, às 14h15min.

As inscrições devem ser feitas até o dia 15/mar através do E-mail da REVISTA, informando nome completo (revistavortice@terra.com.br). Só poderão participar do evento as pessoas previamente inscritas, pois haverá uma “lista de presença”. As inscrições estão limitadas a um número de 25 pessoas.

SINOPSE & FICHA TÉCNICA
“ALPHAVILLE, UNE ÉTRANGE AVENTURE DE LEMMY CAUTION” é um filme franco-italiano de 1965, dirigido por Jean-Luc Godard.
O agente Lemmy Caution chega a Alphaville, com a missão de encontrar o professor Von Braun, o inventor, para convencê-lo a destruir a inteligência artificial Alpha 60 que comanda a cidade, abolindo os sentimentos. Em sua única incursão pela ficção-científica, Godard realiza um fascinante tech noir (filme noir futurista).
Vencedor do prêmio Urso de Ouro (melhor filme), no Festival de Berlim (1965).
França/Itália, 1965, 99 min.
Direção de JEAN-LUC GODARD, com Eddie Constantine, Anna Karina e Akim Tamiroff.
Roteiro de PAUL ÉLUARD e JEAN-LUC GODARD.