24 de junho de 2019

A CURA (Diego Tiscar)


Querer ser fiel a um louco é deixar louco o próprio dever.
(Shakespeare)

Maldita, mil vezes maldita! É assim que grande parte dos analistas se refere a ideia de cura. Mas afinal o que significa curar alguém? Identificar sinais e sintomas de uma moléstia e transformá-los? Determinar um padrão e induzir o enfermo a ele? Traçar uma linha divisória entre saudável e loucura? Nesse caso: maldita cura, mil vezes maldita.
O inverso também deve ser considerado: por que um paciente me procura, se não para se ver curado do que o aflige? A ideia de aceitação incondicional das heterogeneidades é bela e necessária, mas, por si só, não aplaca o sofrimento.
Curar é preciso? Um sofredor diria que sim! Não se cura um apaixonado da mesma forma que se cura um neurótico obsessivo, mesmo que ambos os quadros se assemelhem. E poucas condições humanas são mais devastadoras que as paixões.
Freud - sempre ele -, sabia a dor de uma patologia e a dor do julgamento sobre a mesma. Acompanhando suas histéricas, as quais sofriam por não fazerem parte da sociedade vitoriana de maneira satisfatória, o mestre vienense recorreu a um de seus mentores intelectuais: Darwin.
O pai da Psicanálise se propôs a devolver seus pacientes para a sociedade - a cura para o exílio - o sofrimento neurótico trazia em si uma segunda dor a do isolamento, numa época onde o único destino era a composição familiar, o doente estava fadado ao fracasso social. Freud acreditou que uma pessoa saudável seria capaz de trabalhar e amar, que a patologia lhe retirava essas habilidades, o isolava do mundo de sua época. O primeiro conceito de cura seria reintroduzir o paciente na sociedade, retirando a marca de exilado.
Para alcançar o sucesso Freud se focou no esclarecimento e na compreensão dos conteúdos inconscientes pela consciência. Hoje sabemos que tornar consciente uma ideia inconsciente não nos leva muito longe - mesmo assim o conceito de adaptação não está de todo errado. Como adaptar sem despersonificar o indivíduo?

O ANALISTA E O PACIENTE
Em meu artigo “O Nome: Da morte ao amor em Romeo e Julieta”1 tratei da função da alcunha na fundação da Identidades e na construção do Destino. O nomear acarreta uma intenção e um dever para aquela pequena coisa ainda não humana.
O destino do nome pode ser construído a favor ou contrário a esse desígnio, como nos ensina Sófocles: ao saber que mataria seu pai e tomaria núpcias com sua mãe, Édipo fez o caminho contrário ao seu lar. Sem se saber adotado termina em sua terra natal, cumprindo a profecia.
O primeiro passo para compreender a ideia de cura seria pensar no processo analítico como um desembaraço, um conhecimento, e não um processo de mudança. Ninguém muda no sentido de deixar de ser uma coisa para virar outra. A mudança se dá na ampliação de possibilidades.
Um tema delicado, porém, necessário, é o conceito de Identidade, tomado por muitos como exclusividade da Psicologia (o notório Fabio Herrmann pensava o contrário). Em seu livro “A Psique e o Eu” Herrmann explica seu conceito de Identidade: um conjunto de representações do Eu, organizado de maneira hierárquica, a constituir uma ideia de identidade2.   
A Identidade é construída por uma hierarquia de Eus possíveis - para cada desígnio possível existo de uma maneira diferente. Além destes, existem os Eus possíveis, que podem vir a existir dependendo do cenário.
A maior quantidade destes Eus está relacionada a flexibilidade, possibilidade do indivíduo ser versões diferentes de si mesmo, decifrando lógicas diferentes: o Eu que vai a um encontro não é o mesmo que acorda cedo para trabalhar, tampouco o que visita os pais.
O conceito de Identidade também surge no livro “A Psicanálise da Crença”, terceira e última parte da trilogia “Andaimes do Real”. Aqui o analista e autor discorre como a identidade e o mundo por ela habitado são uma fantasia3.
Ao nascer a criança é nomeada, assim como sua fisiologia. Onde havia dor passa a existir fome, frio, claridade, barulho, medo, etc... É a construção do humano - uma mistura entre a história individual e familiar, um equilíbrio entre o que o indivíduo enxerga de si e o que os outros enxergam3.
O ser humano é uma perversão, ele é o único animal não natural, que não se prende aos instintos. Você consegue imaginar a seguinte cena:
Savana africana, a leoa espreita uma gazela, o sol é consumido pelo horizonte. O felino dá a partida, seu bote atinge a coxa da pata esquerda da Gazela, que ao cair ferida fala ao seu predador - Por favor, poupe minha vida, meus filhotes ficarão órfãos se eu morrer.
Nesse momento a leoa passa por uma crise de angústia: se ela matar o herbívoro vai contribuir para o problema social da savana; se o poupar, seus filhotes podem se sentir menos amados, pois a mãe deles optou por um estranho.
Tal cenário só é possível no mundo humano, onde órfão, sociedade, piedade, e outros substantivos e adjetivos existem. Por isso vivemos em um mundo ficcional, o não natural.
Esta pequena introdução foi necessária para entender uma parte do processo de cura, que só existe dentro da análise, em sua dinâmica.
Ao receber um novo paciente devo dividir minha alma em duas partes - metade dela é emprestada ao paciente, que a vai usar conforme sua necessidade; a outra metade fica de olho e ouvido, prestando atenção em tudo que os dois estão conversando.
É nesse limiar entre Ciência e Arte, constructo teórico e a capacidade de sentir, que a análise se faz.
Um dia desses estava pensando: “Qual a principal característica de um analista?”. O que é aquilo que alguém precisa obrigatoriamente ter, se quiser dissolver almas? Minha conclusão foi Humanidade.
Afinal, o que é Humanidade? Não se trata de ser bonzinho ou piedoso. Tampouco sair comprando pautas alheias para um mundo melhor, mesmo porque, defender a ideia de um “mundo melhor segundo meus ideais” é igual a defender que existem comportamentos e pensamentos saudáveis e patológicos, que devem ser transformados ou extintos.
Humanidade é a capacidade de ouvir, olhar, e levar em conta tudo que vem de seu paciente. Todo o conhecimento teórico e o aprimoramento intelectual podem ser conquistados, já a Humanidade a qual me refiro é um bem muito mais precioso e necessário.
E aqui temos um passo rumo à compreensão do que é a cura: pessoas são mais importantes que ideais.

O ANALISTA COMO CURADOR
Na Saúde, o curador é aquele que trata, medica, extingue, ou erradica uma moléstia. Se procurarmos definições em outras áreas, o que encontraremos?
No Direito, o curador é um defensor dos interesses de acionistas ausentes, cotistas, menores, incapazes, falidos, e os sem procurações.
No universo das Artes encontramos a figura do curador, que é o responsável por conservar, expor, montar, e supervisionar as obras de arte em uma exposição ou no acervo do museu (que costuma ser muito mais amplo do que é exibido ao público).
No século XXI nasceu a curadoria digital, uma seleção de dados e formatos de documentos, organizados para futuras consultas.
Curador também é sinônimo de benzedor, curandeiro, medicastro, e tutor, podendo ser entendido como feiticeiro.
Seria o processo de curar uma mistura entre mediar e cuidar?
Em seu livro O Método da Psicanálise4, Herrmann propõe que curar uma pessoa é igual a curar um queijo. Para diferentes queijos existem diferentes tempos de cura: temos queijos frescos, queijos apodrecidos, queijos fortes, queijos molengas. Não é tão diferente da ideia de Freud de adaptar o indivíduo. A proposta de Herrmann é adaptar a quê? Resposta: a ele mesmo.
O analista muito estudioso que se prende a um ideal de autor, copia seus trejeitos, e tenta reviver sua história, aplaudindo tudo que este fez - o mimetizado jamais vai entender esse conceito.
O lacaniano que se torna uma geladeira e sai xingando todo mundo, ou o winnicottiano que quer pegar o mundo no colo e dar de mamar, não conseguiram entender a simples proposta de ouvir quem está na sua frente, muito menos ouvir seus mentores intelectuais que dê certo se remexem no túmulo.
Imagino Winnicott gritando: “Você entendeu tudo errado!”; Lacan: “Você é muito burro para citar o meu nome!”; e Freud: “Eu avisei!”.
Lacan nos deixou algumas lições preciosas que são esquecidas por seus discípulos: esqueça tudo o que você aprendeu - ouça e preste atenção naquele ser sofredor na sua frente, e não no que foi escrito pelo grande francês. Quantas vezes lemos em seus seminários: “Estou lhes dando isso (a teoria), façam o que quiserem, é de vocês!”.
A cura passa por permitir que aquela pessoa possa ser ela mesma em um mundo que não permite a individualidade, ao tempo que a exige. É achar o ponto certo que permita flexibilização dos Eus existentes e possíveis.
Voltemos a Identidade: esse conjunto de representações organizado obedece a uma hierarquia, que na ficção ideal de uma pessoa saudável obedece a um contexto - dependendo da situação os Eus possíveis se organizam de uma ou outra forma.
Édipo teria ido para sua cidade natal se soubesse que era adotado? Poderia bem questionar o oráculo: “Meus pais adotivos ou naturais?” - ter pedido para seus pais consultarem o oráculo e comparar destinos. Em última instância não faria o caminho contrário a sua casa, mas ido para a direita ou esquerda. Quem sabe outras tantas possibilidades.
Esse conhecimento só pode vir com a maturação de quem suporta a carga de ser quem é. Nesse ponto cabe ao analista suportar junto ao paciente, e suportar esperar pelo tempo certo, a ser dado pelo paciente que se vai, quando sente a necessidade.
Lacan nos diz que o único motivo para alguém fazer análise é desejar fazer análise5. Temos aí uma noção de cura: estou aqui porque quero, significa que amanhã posso não querer mais.
Essa formulação bastante simples traz uma distinção necessária: querer é diferente de precisar. No querer não existe a urgência da dor que consome a alma, nem o desespero de quem se vê perdido, mas sim uma responsabilidade sobre si mesmo.
Se eu quero ou não quero, significa que eu banco. Não existe um ideal, uma orientação, um sentido na vida. Existe uma pessoa disposta ou não.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. TISCAR, D. (2015) “O Nome: Da morte ao amor em Romeo e Julieta” in Revista Vórtice de Psicanálise, 2015.
2. HERRMANN, F. (1999) A Psique e o Eu. Hepsyché.
3. HERRMANN, F. (2007) Andaimes do Real: Psicanálise da Crença. Casa do Psicólogo.
4. HERRMANN, F. (2001) Andaimes do Real: O Método da Psicanálise: Casa do Psicólogo.
5. LACAN, J. (1985) O Seminário, Livro 2: O Eu na Teoria de Freud e na Teoria da Psicanálise: Zahar.

DIEGO TISCAR é psicanalista.

18 de junho de 2019

CINE VÓRTICE


A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE tem o prazer de convidar para mais uma edição do CINE VÓRTICE.
No evento, será exibido o filme "POSSESSION" (Andrzej Zulawski, França/Alemanha, 1981). Após a exibição será aberta uma pequena discussão sobre o filme.

Data: 13/jul/2019, das 14h às 18h.
Local: Rua Apeninos, 681 – Paraíso, São Paulo/SP.

A sessão terá início, impreterivelmente, às 14h15min.

As inscrições devem ser feitas até o dia 12/jul através do E-mail da REVISTA, informando nome completo (revistavortice@terra.com.br). Só poderão participar do evento as pessoas previamente inscritas, pois haverá uma “lista de presença”. As inscrições estão limitadas a um número de 25 pessoas.


SINOPSE & FICHA TÉCNICA
“POSSESSION” é um filme franco-alemão de 1981, dirigido por Andrzej Zulawski.
Após retornar de uma longa viagem, tudo que Marc quer é encontrar sua esposa Anna e seu filho novamente. No entanto, assim que chega a Berlim, Marc percebe que Anna mudou radicalmente de comportamento e, assim que pode, ela pede o divórcio. O homem inicialmente suspeita que Anna foi infiel a ele; contudo, os eventos dão uma guinada sinistra e Marc percebe que está em uma situação macabra.
Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-274/

França/Alemanha, 1981, 125 minutos.
Direção de ANDRZEJ ZULAWSKI, com Isabelle Adjani, Sam Neil e Margit Carstensen.
Roteiro de ANDRZEJ ZULAWSKI.




12 de abril de 2019

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ERNST LANZER



ERNST LANZER, jurista austríaco, paciente de Freud, nasceu em Viena, em 22 de janeiro de 1878, e morreu na Rússia, em 1918.
O Dr. Ernst Lanzer é muito mais conhecido sob o pseudônimo de “O Homem dos Ratos” que lhe deu Freud e sob o de Dr. Lorenz que lhe deu Strachey.
Sua mãe, Rosa Herlinger, nascida em 1844, e seu pai, Heinrich, nascido em 1825 (Freud e o Homem dos Ratos tinham em comum ser filhos de pais em idade de serem seus avós), vinham da Silésia. Tiveram sete filhos:  Hedwig (Hilde nos escritos de Freud), nascida em 1870; Camilla (Katherine), em 1872; Rosalie (Constanze), em 1874; Robert (Hans), nascido em 1879; Olga (Julie), nascida em 1880; e Gertrude (Gerda), em 1886. As mortes de Camilla em 1881, de seu pai em 1899 e de sua tia em 1901 tiveram numerosas repercussões imediatas e ao longo prazo sobre a vida privada e profissional do Homem dos Ratos.
Em 1897, Ernst Lanzer inscreveu-se na Faculdade de Direito da Universidade de Viena, mas só conseguiu terminar o curso dez anos depois, pouco antes de iniciar o tratamento com Freud. As mesmas ambivalências e procrastinações estavam operando em sua vida afetiva: após um ano e meio de noivado, iniciou uma vida de casal sem filhos com sua prima Gisela Adler, por quem se apaixonara dez anos antes.
Foi durante manobras militares de agosto a setembro de 1907 que o Dr. Lanzer sofreu pela primeira vez de sua estranha obsessão com ratos. Os arquivos militares dessa época relatam que, em consequência da morte de seu pai, ele tinha herdado cinquenta mil coroas, soma extremamente importante e que o poderia dispensar de ficar procurando com um frenesi obsessivo um pincenê perdido durante as manobras, cujo valor não ia além de 3,80 coroas.
Ele começou sua análise com Freud a 1º de outubro de 1907. Tendo resolvido parcialmente os conflitos ligados à sua atividade profissional (ele estivera antes quase incapacitado de trabalhar durante dois meses), encontrou um emprego em 1908; entretanto, mudou quatro vezes de empregador antes de se tornar oficialmente advogado e poder conservar definitivamente uma posição como jurista em 1913. Em agosto de 1914, foi convocado pelo Exército, feito prisioneiro pelos russos em 21 de novembro e morreu quatro dias depois.

NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA (O HOMEM DOS RATOS)
O Dr. Ernst Lanzer, aliás, o Homem dos Ratos (caso publicado em 1909), consultou Freud pela primeira vez no dia 1º de outubro de 1907; começou uma análise que não chegou a durar onze meses e terminou com uma cura completa. Os sintomas apresentados pelo paciente eram múltiplos: obsessões que datavam da infância tinham aumentado de forma dramática nos quatro últimos anos. Desde 1901, o Dr. Lanzer começou a ser dominado por obsessões sexuais e mórbidas: passou a gostar de funerais, de ritos de morte, e adquiriu o hábito de contemplar o pênis no espelho; o que lhe acarretou inúmeras tentações de suicídio por causa das censuras sobre si mesmo, que eram amainadas com orações. Entre as ideias obsessivas mais recentes, Lanzer temia ferir mortalmente sua amiga (sua “dama”, maneira como chamava a mulher que amava), ou mesmo seu pai. Queixava-se também de impulsos compulsivos, como o de cortar a garganta com sua navalha de barba, e descrevia numerosas interdições que se impunha, por vezes, a respeito de coisas muito triviais. Daí decorriam procrastinações em torno de sua vida privada e profissional, inclusive uma dificuldade enorme para concluir seus estudos de Direito, ingressar na vida profissional e casar.
A importância que Freud atribuiu ao caso do Homem dos Ratos vê-se nos seguintes fatos: durante todo o tempo dessa análise, ele apresentou quatro “relatórios completos de sua evolução” à Sociedade Psicanalítica de Viena, fez do caso o tema de sua conferência no I Congresso Internacional de Psicanálise, em Salzburgo, em 1908, e foi, por último, o único caso para o qual conservou seus apontamentos quotidianos. Em resumo, em virtude de o Dr. Lanzer ter consultado, antes, Julius von Wagner-Jauregg, o mais célebre psiquiatra de Viena, Freud queria fazer desse caso um texto essencial para a tese psicanalítica, tal como virá a fazer ulteriormente com o Homem dos Lobos, que também tinha começado por consultar um grande psiquiatra europeu, senhor de uma imensa reputação: Emil Kraepelin.
Em sua segunda hora de divã, o Dr. Lanzer relatou o incidente que deu origem ao seu pseudônimo. Durante as manobras militares do verão precedente, ele tinha perdido o seu pincenê. Pouco depois, no mesmo dia, ouviu um “capitão cruel” descrever uma tortura oriental que consistia em atar um pote de barro quente cheio de ratos sobre o ânus da vítima. Ao ouvir essa história sádica, o Homem dos Ratos imaginou que essa tortura estava sendo aplicada simultaneamente à sua amiga e ao seu pai. A fim de impedir a realização dessa fantasia, ele tinha recorrido à fórmula “seja o que for que você possa estar pensando...” acompanhada de um gesto de negação. Imediatamente depois desse episódio, foi invadido por pensamentos obsessivos a respeito da necessidade urgente de reembolsar um de seus camaradas, um soldado que lhe tinha comprado um novo pincenê e lho remetera imediatamente. A partir daí, no espírito do Homem dos Ratos, elabora-se uma sequência de bons e maus objetos associados aos ratos de maneira simbólica: o próprio Homem dos Ratos, sua mãe, sua amiguinha, as crianças, o ânus, os órgãos genitais, o dinheiro, o jogo, o casamento, a devoração, a penetração, o conteúdo...
Quando Freud pretende tê-lo completa e definitivamente curado, exagera um pouco. Entretanto, ao insistir muito e ao negligenciar todas as reações transferenciais possíveis, sobretudo negativas, ao deixar de lado o papel das mulheres nesse tratamento e ao enfatizar a relação edipiana que o Homem dos Ratos mantinha com seu pai, Freud conseguiu efetivamente obter resultados terapêuticos de excelente qualidade. Além disso, em numerosas ocasiões, ele demonstrou ao seu paciente que poderia compreender seus pensamentos obsessivos desde que descobrisse a sua formulação original. Para resumir, ele foi efetivamente capaz de desembaraçar o seu paciente do pânico que o dominava e de o tornar muito mais eficaz em sua vida privada e profissional.
Embora seja hoje um dos textos princeps do ponto de vista da psicanálise das personalidades obsessivo-compulsivas, este caso comporta elementos de ficção. Quando se dirigiu à Sociedade Psicanalítica de Viena em 20 de novembro de 1907, Freud insistiu repetidamente no fato de que o nome da amiga de Lanzer corria o risco de ser divulgado, apesar de suas tentativas defensivas para o disfarçar sob a forma de anagramas; no entanto, as notas de Freud revelam que ele o conhecia desde 27 de outubro. Freud voltou a expor o caso durante o I Congresso Internacional de Psicanálise em 1908 e, segundo a informação de Jones, provavelmente inverídica, mas aceita por todo o mundo, ele teria falado do caso durante mais de cinco horas. Em contrapartida, o que é certo, quando se examinam meticulosamente as minutas do tratamento e o que Freud expõe em outros textos, é que ele mente regularmente, a ponto de dar a impressão de que o tratamento se alongou por muitíssimo mais tempo do que durou na realidade.
O que caracteriza igualmente o quadro apresentado por Freud é um estranho desequilíbrio entre a primeira e a segunda parte. O erotismo anal e as consequências da história dos ratos dominam a primeira parte, ou seja, metade do texto de Freud; mas na segunda parte, ele faz apenas duas alusões muito breves à analidade e só uma, também muito breve, à história do rato. Freud precisou esperar mais quatro anos para ter a intuição de que existia uma ligação etiológica entre o erotismo anal e a neurose obsessiva. Assim, nessa segunda parte, Freud só foi capaz de explicar um pouco melhor a fenomenologia e a estrutura das ideias obsessivas, o sentido psicológico do pensamento obsessivo, as atitudes típicas de superstição e outras ideias de morte e um ponto de vista difícil de datar sobre as relações entre compulsão e dúvida enquanto oriundas das pulsões.
Em sua correspondência particular, Freud lembra regularmente que esse caso deve ser considerado em sua descontinuidade, o que remete para a descontinuidade que existia nas percepções e obsessões do seu próprio paciente. Assim, a análise de Freud encontra-se constantemente infiltrada, no plano contratransferencial, de ligações defensivas que sugerem uma espécie de patologia da continuidade e, por conseguinte, é interessante assinalar que, quando escreve sobre este caso, ele próprio está muito confuso sobre as questões de causalidade. São poucas as interpretações que propõe acerca das relações entre escolhas de objetos heterossexuais no decorrer da vida edipiana e pré-edipiana do seu paciente, nem sempre é capaz de harmonizar suas descobertas clínicas com suas teorizações, não integra suas explicações em termos de analidade, de ambivalência e de economia e, em definitivo, não estabelece o vínculo entre as sintomatologias adulta e infantil do seu paciente.
Interessante salientar a discussão gerada, nos estudos posteriores sobre o caso, de três intervenções incomuns de Freud: quando pede ao paciente para ver o retrato da “dama”; quando enviou um cartão postal para o paciente; e quando convidou o paciente para uma refeição em sua casa.
Este é um caso onde a importância da linguagem se evidencia de imediato, desde que tudo se organiza em função da descoberta de um significante principal na história do paciente – Ratten (ratos), Spielratten (jogador de baralho), raten (supor, suposição), Heilraten (casamento, acasalamento), Raten (prestação, pagamento) – significante este por onde circula incessantemente a complicada trama associativa que aprisiona e expressa a estrutura conflitiva do paciente.

OBS.: Este artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Patrick Mahony para o Dicionário Internacional da Psicanálise.