19 de outubro de 2009

DURANTE AS FÉRIAS: DUAS NOTAS SOBRE O COTIDIANO (Thomas Ferrari Ballis)

O Equívoco, a Verdade e o Lixo

Estive de férias durante os últimos dez dias. Fui para bem longe de São Paulo, precisamente em Belém, capital do Estado do Pará. Pensei que assim poderia manter minha mente longe de São Paulo, do trabalho e da Psicanálise. Não sei dizer se tive sucesso. Apesar da riqueza de minha expedição “antropológico-gastronômica”, por vezes tropeçava em pensamentos sobre fatos que ocorreram e continuam ocorrendo em São Paulo, e no Brasil em geral.
Sempre desconfio de ensaios onde psicanalistas discorrem sobre fatos mundanos, que estão fora da “morada do analista”, como dizia Fabio Herrmann. A desconfiança é um bom indicativo de hipótese diagnóstica, mas deixarei a minha para outra ocasião, ou para outra morada. Confesso também que já vi ensaios belíssimos de psicanalistas sobre fatos cotidianos. Tentarei fazer o meu aqui. No máximo dirão “Meu caro, as coisas não são bem assim, estude mais alguns anos”. Mas vamos lá, chega de resistir.

No primeiro semestre deste ano a Secretaria de Educação de São Paulo distribuiu aos alunos da terceira série do Ensino Fundamental (faixa etária de nove anos) o livro “Dez na área, um na banheira e nenhum no gol”. Após demonstrações de indignação por parte de professores da rede, o Governo admitiu o “equívoco” ao distribuir os livros, que em suas histórias continham palavras chulas de conotação sexual e palavrões. Lembrei que dois meses antes a mesma Secretaria havia distribuído um livro didático de Geografia com mais de 20 “erros” de impressão.

Em julho deste ano 680 toneladas de lixo foram encontradas em containers no Porto de Santos, outras 890 toneladas de lixo também foram encontradas em dois Portos do Estado do Rio Grande do Sul. Os containers haviam sido exportados ilegalmente da Inglaterra. O lixo dos ingleses não era mais bonito que o nosso. Nos containers havia lixo doméstico, hospitalar e até lixo de uma Instituição Ambiental inglesa. As duas Empresas Britânicas responsáveis pela exportação dos containers para o Brasil pertencem a um cidadão brasileiro que vive na Inglaterra. Ele se defendeu dizendo que suas empresas apenas realizam a prensagem de plásticos enviados por Empresas Britânicas, e que, portanto, a responsabilidade pelo envio do lixo seria das fornecedoras. Até o momento três pessoas foram presas na Inglaterra. No Brasil as empresas foram multadas e ninguém foi preso.

Quem lê o livro “Gomorra”, do italiano Roberto Saviano, nunca mais olha prá um canteiro de obras com os mesmos olhos - o mesmo acontece quando se olha para o lixo. Em seu livro, ele expõe as vísceras da Camorra, a Máfia Napolitana, que movimenta milhões de dólares por ano com o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro em obras públicas, especulações imobiliárias e o “tratamento” do Lixo de grandes Organizações Européias. No momento o autor de “Gomorra” vive sob proteção policial e identidade secreta. Por ter a rara ousadia de expor tantas verdades em seu livro, a Camorra agora quer a sua cabeça.

Saí de São Paulo em meio às últimas notícias sobre a “Crise do Senado”, onde uma série de “Atos Secretos” foi identificada pela Comissão de Sindicância do Senado - muitos deles envolviam o próprio Presidente do Senado, José Sarney. Curiosamente, segundo Relatório da Comissão, a ausência de publicação dos Atos foi atribuída “a simples falha humana, erros operacionais, etc”. Mesmo após a publicação de mais de 600 “Atos Secretos”, editados pelo Senado, ninguém foi preso, nem mesmo José Sarney abandonou a Presidência do Senado.
Achei curiosa a expressão “Atos Secretos”. Imaginei uma engrenagem funcionando no subterrâneo da cidade projetada por Lucio Costa. Por falar em subterrâneo, aprendi a associar a imagem do político à figura de um rato. Aprendi da mesma forma, que o Plano Piloto projetado por Lucio Costa, foi comparado popularmente a um avião - apesar de ele rejeitar esta comparação, preferindo compará-lo a uma borboleta. Aprendi a ver os políticos como se olha para uma prancha de Rorschach, e vejo um rato, como aqueles que o grafiteiro inglês “Banksy” espalha pelas ruas de Londres. Banksy é um tipo de Roberto Saviano da Inglaterra. O que ele deixa nos muros não é só um Grafite, mas uma imagem que trás o lixo de volta. Talvez seja por isso que, a exemplo do escritor italiano, ele mantém sua identidade secreta.

Vocês devem estar se perguntando qual a relação existente entre o equívoco na distribuição de material didático, os livros repletos de erros, o lixo importado e os Atos Secretos – o que tudo isso tem em comum? Tento chamar a atenção aqui para uma certa banalização do erro, do equívoco e da isenção de responsabilidade. Tão típicos do humano.
Podem-se abrir as portas do Consultório para, ousadamente, transformar o Mundo em um setting psicanalítico, os erros, os equívocos e os Atos Secretos tomam forma. Os erros nos livros não serão mais meros equívocos, mas a forma como se conduz a Educação neste País - uma forma que milita e insiste em ser reconhecida. Uma verdade absurda que se revela em meio às “novas” propostas pedagógicas em materiais didáticos, livros novos, escolas com piscinas e latas de leite, que caricaturam uma bela imagem pra venda de votos.
Se o lixo produzido é o reflexo de uma Sociedade, eu me pergunto: Por que ele é enviado para debaixo dos tapetes de outro Continente? Tento analisar por que certas Organizações (mafiosas ou não) travestidas de Egos Sociais avaliam economicamente a melhor forma e o melhor destino do lixo que pulsa da Sociedade. Da mesma forma que, em minha morada, me pergunto quando uma paciente, com um histórico de longas depressões severas, sofre um Acidente Vascular Cerebral, e durante seu tratamento analítico, comete o seguinte Ato Falho: “Quando eu estava boa! Quer dizer... ruim, ninguém me ajudou!!!” (referindo-se a época que teve o AVC). É exatamente o mesmo erro, o mesmo Ato Falho, que evidencia uma verdade ao mesmo tempo bizarra e assustadora, tão desconcertante, que cotidianamente é jogada no lixo. O problema é que quando se joga uma verdade no lixo, ela retorna. A verdade/lixo retorna com a enchente, ou no caso dos containers, ela voltou para Londres.

Voltando para São Paulo, pude ver do avião a Cidade de Brasília. O que realmente me impressionou não foi o formato da Cidade, mas com a ajuda de um belo dia ensolarado e escassez de nuvens, tive a possibilidade de avistar lá de cima o Congresso Nacional e outras importantes Instituições de meu País. Percebi que elas se agrupavam exatamente onde se aconchegaria um piloto de avião, que ao decolar da pista se responsabiliza por tantas vidas. Senti um leve frio na barriga, comecei a pensar se era possível pilotar um avião com vendas nos olhos, sem se ater a algum possível erro, equívoco, ato impensado ou secreto. O frio na barriga aumentou, um suor frio e cortante passeava em minha face. Comecei a pensar que na verdade eu estava nos dois aviões ao mesmo tempo. Repentinamente fechei a janela do avião e abri minha revista, no intuito de parar de pensar. Minha viagem estava chegando ao fim.


O Bocejo

É de manhã. Estou sentado à mesa de um restaurante a beira de alguma estrada do Pará. Sentados comigo há mais cinco pessoas. Tomamos um belo café da manhã. Na mesa ao lado há seis pessoas - uma delas prende a minha atenção. Outra pessoa da mesma mesa comemora o raiar do sol com um belo bocejo. Observo. A pessoa ao lado da dona do primeiro bocejo não se contem, abre um bocejo mais tímido, mas o termina com um semblante de alívio. De repente mais um bocejo, agora da mesa em que me encontro, seguido de um “ai que sono”, justificando-o. E os bocejos vão seguindo, de boca em boca. Um bocejo, e um convite a bocejar. Fiquei pensando como o Humano se imita, mesmo sem perceber. Bocejamos achando que o nosso bocejo é único, original e libertador. Ninguém percebe o coral de bocejos.

A verdade é que é muito difícil ser original - fazemos sempre o mesmo caminho para o trabalho todos os dias, e quando chegamos ao trabalho comentamos com o primeiro que encontramos pelo caminho, “Nossa, que transito!", e recebemos o consolo que queremos, “Nossa hoje estava demais, né?”. E consolados, começamos a trabalhar. Quando chega aquele esperado feriado, o que fazemos? Vamos para praia ou para o campo. Não importa, o importante é pegarmos o trânsito.
Não somos originais nem pra adoecer - nossa criatividade nunca é suficiente, por mais que tentemos. Aliás, o excesso de criatividade na Doença se enquadra rapidinho na categoria “Loucura”, porque neste caso a criatividade causa estranheza, e não há nada pior do que o Estranho, nenhuma Sociedade suporta. E mesmo na categoria “Loucura”, por mais interessante que seja nossa Neurose, Psicose ou Perversão, não conseguimos ir além. Neste momento, Humano que é Humano adoece de Gripe Suína, o nome popular da Influenza A (H1N1). A Dengue já ficou démodé - se você chegar num Pronto Socorro com Dengue, você vai se envergonhar - como pode estar tão desatualizado? Mas não tem problema, o médico te atualizará e seu Diagnóstico será de Influenza A (H1N1). Pronto, humanamente atualizado. Chistes aparte, essas insígnias humanas que nos enquadram em determinado campo e nos confortam, provocam ao mesmo tempo a soma que potencializa a intolerância perante a diferença. Uma marca de identidade que separa quem está deste ou do outro lado da linha.

Durante as minhas férias eu vi o quanto as pessoas estavam atualizadas. Algumas transitavam pelo Aeroporto devidamente paramentadas com suas máscaras. Eu arranjei um ótimo método para pegar um assento na sala de embarque: eu chegava de mansinho, pertinho de alguém sentado e dava uma modesta “tossidinha”. Aí eu contava no máximo até quatro segundos e a pessoa delicadamente pegava sua mala de mão e saía sorrateiramente - era humanamente natural. Já dentro do Avião eu pensei em dar uma “tossidinha” para o passageiro do assento ao lado, mas não seria muito vantajoso - você já deitou em dois assentos de um Avião Classe Econômica?

Na ilha de Marajó eu me senti realmente longe de casa. Depois de três horas de Barco vindo de Belém, mais trinta minutos de Van que atravessou a comunidade de Salvaterra, peguei outro Barco para atravessar um braço de mar. O barqueiro, habilidosamente, sentava no teto do Barco e conduzia o manche com o dedão do pé. E sentado ali tinha ampla visão de seu trajeto, sem mascaras ou vendas nos olhos. Tal habilidade poderia soar um pouco perigosa, no entanto, senti-me mais seguro naquele Barco do que no Avião de Brasília, aquele que nós nos encontramos.
Finalmente cheguei à comunidade de Soure, mas a praia ainda não estava perto, então eu peguei uma Moto Taxi. Depois de vinte e cinco minutos de Moto atravessando a ilha, cheguei a Praia do Pesqueiro de Soure.
Não havia nenhum sinal da Gripe Suína. Comecei a achar estranho (aquele Estranho lá de cima). É claro que a praia era linda, mas involuntariamente, comecei a procurar alguma identificação. Só fiquei mais aliviado quando fui pegar uma cerveja no quiosque da praia (uma Cerpa! Conhece?). Lá havia uma pequena televisão, e adivinha qual canal a moça do quiosque assistia? A Globo! Putz! Como nós somos Humanos.

Se você está preocupado por não ter contraído a Gripe Suína, não se martirize. Basta dar uma bocejada, de preferência perto de outras pessoas. Ser original e diferente é muito difícil, pra você e para os outros, uma proeza de poucos. Como aquele garoto da mesa ao lado, que prendeu minha atenção no café da manhã a beira da estrada. Justamente ele, um Autista que aparentava uns 10 anos de idade, ele não bocejou.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
http://www.banksy.co.uk/
http://www.robertosaviano.it/


THOMAS FERRARI BALLIS é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise.
Rua Tuiuti, 2530 (cj 91) – Tatuapé – CEP 03307-000 - São Paulo, SP
Tel. (011) 2092.4131

30 de setembro de 2009

KOGAL: CHAPEUZINHO VERMELHO CONTEMPORÂNEO (Diego Tiscar)

"Envergonhar-se da nossa imoralidade é um degrau na escada, em cujo extremo, se tem também vergonha da nossa moralidade"
(Nietzsche)

Este Ensaio tem por objetivo discutir a possibilidade de compreensão do Fetichismo nos tempos atuais, utilizando-se da imagem de uma personagem feminina contemporânea – a Kogal.

A idéia do fetiche é comum a todos os campos do saber. Freud a abordou com especial atenção. Tendo destaque especial nas sessões da Sociedade Psicológica Das Quartas-Feiras, Freud apontou o tema em diversos ensaios. Mas foi apenas com a introdução do termo Renegação (Verleugnung), em 1923, que Freud deu contornos definitivos a sua Teoria sobre o Fetiche[1].
A conotação do termo Verleugnung, em alemão, remete a uma ambiguidade entre verdade e mentira - tal sentido perde seu significado ao ser traduzido para o português[2]. A Renegação é um mecanismo de clivagem do Eu voltado para a Perversão, através do qual o indivíduo faz com que coexistam duas realidades contraditórias: a recusa e o reconhecimento da ausência do pênis na mulher[1]. O Fetiche substitui o órgão "faltante" (o pênis primitivo que as crianças acreditam que suas mães possuem) - o fetichista encontra prazer no fato da mulher ser ao mesmo tempo castrada e não castrada e de o homem também poder ser castrado. O Objeto de Fetiche funciona como mecanismo de defesa que visa destruir a prova da castração e, por consequência, a angústia de castração, pois o interesse pelo Objeto de Fetiche passa a superar o interesse pelos órgãos genitais. O Objeto de Fetiche é de fácil acesso e seu significado é conhecido apenas pelo fetichista, permitindo-o manter uma adoração secreta sem correr o risco, em fantasias superegóicas, de que outras pessoas retirem seu tão desejado objeto.

Não é de hoje que imagens relacionadas a uniformes escolares femininos usados por colegiais são objetos de Fetiche.
Apesar de vivermos no Brasil, a primeira imagem mental (representação) de tal Fetiche envolve mini-saias, camisas com gravata ou do tipo "marinheiro", blazers e meiões; portanto, muito diferente da cultura de nosso País.
Tais modelitos originaram-se no Japão do sec. XIX, baseando-se na Marinha Real Britânica, quando o Governo tornou obrigatório o uso de uniformes ocidentais no país, visando à modernização do Japão. O modelo sofreu alterações em 1921 e em 1980, sendo introduzidos mini-saias e blazers. Nesta época, houve um declínio das taxas de natalidade, o que diminuiu o número de jovens, aumentando a concorrência entre os colégios, que viram na moda uma maneira de atrair as estudantes. Escolas particulares contrataram designers renomados para criarem seus uniformes[3]. Com o tempo, a idéia do uniforme difundiu-se pelo mundo e, apesar de sofrer algumas modificações, jamais perdeu seu apelo fetichista.

No Japão, as garotas que costumam usar tais uniformes são denominadas Kogal (“Gal” gíria para “garotas” e “Ko” diminutivo de criança). Estas “estudantes” têm por objetivo representar uma aparência jovem, meiga e sensual. Valendo-se de acessórios de grife e extremo cuidado com a aparência, a Kogal pode ser “sustentada” por homens mais velhos - prática conhecida como “encontros pagos” ou “caça aos velhos”[3]. Estes homens pagariam pela oportunidade de passar algumas horas com a Kogal, ansiando peças de seu uniforme ou relações sexuais.

Na cultura ocidental existe uma figura que representa a mesma relação edípica, que é passada de geração em geração por muitas vias, porém com um final diferente. Estamos falando do Conto de Fadas “Chapeuzinho Vermelho” dos Irmãos Grimm. Tal conto tem como protagonista uma garota de nome Chapeuzinho Vermelho, e aborda questões cruciais que as meninas enfrentam ao defrontarem-se com a fascinação infantil pelo sexo e as dificuldades em lidar com o mesmo. Sendo assim, Chapeuzinho Vermelho vive o dilema entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade - representado pelo Lobo que a convida a apreciar os prazeres da natureza, contrariando os conselhos de sua mãe em não sair da estrada. Fica claro, pelo próprio nome da protagonista, que Chapeuzinho Vermelho (uma pré-púbere trajando um acessório que induz emoções sexuais) lida com sensações ambivalentes. A figura paterna está presente em duas personagens: o Lobo - entidade perigosa, sedutora, violenta, egoísta e potencialmente destrutiva -; e o Caçador - responsável, forte, altruísta e protetor. O Lobo também representa tendências animalescas - um impulso a contrariar normas sociais[4]. Ao ensinar o caminho da casa de sua avó, Chapeuzinho estaria marcando um “encontro” com o Lobo.

Tal relação seria re-atualizada pelas colegiais (porém mais velhas que a Chapeuzinho Vermelho): troca-se o capuz vermelho por um uniforme colegial e o Lobo-Animal-Simbólico pelo Humano-Simbólico, permanecendo portanto, os rastros emocionais de uma sexualidade prematura, despertando tudo o que é primitivo dentro de nós.
Nos encontros com homens mais velhos, os anseios edípicos primários emergiriam: o desejo de seduzir o Pai e de ser seduzida pelo mesmo toma forma. Para os homens, a conquista do Objeto de Fetiche não só é possível, como acessível, desde que se pague o preço. Com isto, o desejo pode ser realizado de maneira concreta em uma relação que também é proibida, desta vez por leis contra a pedofilia e a prostituição.

Como a função do Fetiche é negar a Castração, retirando-se o sentimento de culpa, o Fetiche confronta a própria Sociedade - baseada na Castração -, através de manifestações populares de raiva e indignação como mecanismos projetivos vigentes naqueles que não compartilham o desejo pelo Objeto de Fetiche (ou não o assumem).
Afinal, as diversas releituras da história de Chapeuzinho não permaneceriam vivas em nosso imaginário até os dias de hoje se, tanto a Garota como o Lobo, não exercessem efeitos de Fascínio, mistura perfeita entre Ridículo e Repugnância, sobre o Sedutor Inconsciente que existe em todos nós.

Fabio Herrmann ressaltou a lacuna existente entre Sujeito e Objeto de Desejo nas relações perversas: “não me posso fundir com minha imagem, mas posso sempre tentar reconstruir o outro à imagem e semelhança do que me falta”[5]. Esta afirmação pode ser tida como a base da relação fetichista. Vejamos que na relação Homem x Kogal / Lobo x Chapeuzinho, existem dois papéis a serem desempenhados. O fetichista encontra um local onde possa gozar sem ser questionado, enquanto a Kogal representa a personagem passiva que oferece conforto, mas contendo a representação de um ser humano com anseios e desejos. Nesta relação, sensibilidade e desejos possessivos interagem em perfeita contradição.

A relação com o Objeto de Fetiche (e com qualquer outro objeto) depende do Apelo que Fascina - a alma do Desejo. O Apelo que Fascina possui dois pólos: o Asco e o Ridículo. Talvez poucos objetos tenham estas duas características tão evidentes como a Kogal.
O Asco é aquilo que emerge de locais sombrios e inóspitos do nosso Ser e, por isso, torna-se repugnante ao ganhar a luz do dia. Em contrapartida há o Ridículo, provindo do Outro, sentido como alheio. A sensação desperta é Cômica. Quando interagem em harmonia o asqueroso e o ridículo convertem-se no Fascínio[5]. A Kogalveste” a Lolita, mas seus gestos infantis/sexualizados devem harmonizar sua personagem; se ela passar da medida, torna-se uma adolescente agindo como criança - torna-se ridícula; por outro lado, se a Kogal revelar-se mais como adolescente-real-de-carne-e-osso, o asco por desejar uma garota que não deveria ser desejada invade-nos como auto-reprovação e constrangimento. Já a medida exata é difícil de ser alcançada e a harmonia é tênue, mas uma vez que o Fascínio surge em sua plenitude, revela-se este belo e irresistível Objeto de Fetiche.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] ROUDINESCO, E. & PLON, M. (1998) Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[2] HANNS, L. (1996) Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.
[3] MACIAS, P.; EVERS, I. & NONAKA, K. (2007) Tokyo Girls. São Paulo: JBC.
[4] BETTELHEIM, B. (1979) A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Paz e Terra.
[5] HERRMANN, F. (1991) Andaimes do Real I: O Método da Psicanálise. 2ª edição. São Paulo: Brasiliense.

DIEGO TISCAR é Psicólogo Clínico.
Tel.: (011)9239.8243 Email:
dtiscar@gmail.com

16 de junho de 2009

PSICOPATOLOGIA DA VIDA CONTEMPORÂNEA: VINHETA ACERCA DO “VI” MANDAMENTO (Marcos InHauser Soriano)

ATO I: A Comédia

Segunda-feira, 06h30min. Toca o despertador para mais uma semana que se inicia. Em frente ao espelho do banheiro, a barba mal-feita é roçada com as mãos... O cabelo desencontrado ainda pelas marcas do travesseiro. Enquanto procuro encontrar-me na imagem refletida, lembro dos melhores lances do jogo de futebol de ontem... Campeonato Inglês... O Manchester United emplacou três pinturas na rede do adversário. Assisti ao jogo vestido com a camisa do Manchester... Parecia estar no Old Trafford, o “Teatro Dos Sonhos”.
Barba feita, banho tomado, café com cigarro engolido as pressas (como sempre), o Consultório chega ao Analista. Aproximadamente vinte degraus que levam à cafeteira na Cozinha... A Sala de Espera aconchegando-se entre os dois – pois que esta história já faz tempo, passado em que o Consultório tinha degraus e cafeteira. Um pouco mais de café? Outro cigarro!!! Café com cigarro, dizem, faz mal à Saúde.
Segunda-feira, 08h15min. Acorda-me a campainha. Vou conhecer o Sr. Antônio. Lembro-me de estar com vontade de conhecê-lo para além da linha telefônica – “Sabe Doutor, Eu sofro dos Nervos...”.
Vinte degraus não combinam com cigarro, principalmente quando se transformam em quarenta – Ali Babá & Os Quarenta Degraus.
Sem “abra-te Vila Sésamo”, estamos tête-à-tête, Eu e o Sr. Antônio – que já foi motorista de ônibus, hoje é pedreiro/encanador/”faz-qualquer-coisa”... Eu (ainda não) sou Analista.
Antônio, pois “o Senhor está no Céu”, já vem com um Relatório. Relatório da Perícia constatando um Sujeito improdutivo, que não mais é capaz de trabalhar – “Eu não posso mais trabalhar... Sou Doente dos Nervos!”.
Sabe... Já faz tempo... Um dia no trânsito, Eu perdi a cabeça! Saí do ônibus e dei sete facadas num cabra que tava perturbando... Foram sete... E o povo aplaudindo!
Encolhido na confortável poltrona, o Analista ouvia as sete facadas. Sete facadas de um Sete Sagrado na Doença dos Nervos: “Sabe Doutor, Eu falo com os Mortos!”.
Sete facadas que saíram no jornal, viraram notícia. E os Mortos? O que falam? “Ah... Esses não me incomodam não! Meu problema é a Doença dos Nervos mesmo!
Os Mortos não fazem mal a ninguém... Diferente daquele cabra... Ele tava atrapalhando ainda mais o trânsito... Tava fazendo algazarra... Me tirou do juízo!
O Analista não diz nada; ouve uma, duas, cinco, sete; ouve o povo aplaudindo e os Mortos que falam em um trânsito atrapalhado. O Analista ouve a Doença dos Nervos: Sujeito Improdutivo Em Produção de vinhetas de um Mundo que o (nos) rodeia.


ATO II: A Tragédia
Não Matarás”, o VI Mandamento do Decálogo. O Decálogo constitui o conjunto de Leis entregues a Moises por Deus, portanto, significativa base da Instituição Humana Ocidental. “Não Matarás”, o VI Mandamento, encontra-se na base de constituição de praticamente qualquer agrupamento humano; idéia tão bem explorada, no melhor estilo de ficção freudiana, em “Totem e Tabu[1]. “Não Matarás” pode ser considerado um Tabu, em seu sentido de Lei contra o Profano (e que também o delimita e define): “interdição sagrada e divinizada, tanto mais respeitada quanto mais distante no tempo estiver sua origem e quanto mais invisível forem os poderes que o decretaram” (Chauí, M. - p.14)[2]. Ainda sobre a antropologia do Tabu, Marilena Chauí nos aponta uma interessante, intrínseca e especial característica:

A peculiaridade do pavor gerado pelo tabu está em que a morte do infrator, na maioria dos casos, não precisa sequer da intervenção física ou direta do grupo, pois o transgressor morre de culpa, medo, isolamento, loucura.”(p.14)[3] (os grifos são meus)

Fabio Herrmann denomina “Real” a Estrutura Psíquica que, para além da Instituição Humana, a sustenta, alimenta e nos cria conforme a imagem que vamos construindo do Mundo em que vivemos – “processo incessante de produção de sentido psíquico no mundo”(p.28)[4].
Em belíssimo Ensaio, “O Ato” (p.162-177)[5], Fabio Herrmann descreve uma das possibilidades da complexidade patológica em que se insere o Cotidiano Contemporâneo. Definindo o “Regime do Atentado” como Estrutura Patológica, escreve: “(...) provisoriamente, diremos apenas que não se trata da violência nem da agressividade, mas que a impotência é que está em questão” (p.164)[6] – impotência que se disfarça de onipotência. No “atentado”, busca-se ser celebridade esvaziada no Ato de Celebração da própria Impotência.

Na Humanização extrema do Mundo Moderno, Globalizado, Tecnológico e Técno-burocrata, nesse estado de Humanização Absoluta do Mundo, o modelo de Ser é o próprio Ato Humano que, ao contrapor-se ao Tabu, gera uma reação oposta de “Negação”, em uma espécie de “Tamponamento de Massa”(p.165)[7].

Aqui não há celebridade a ser idolatrada, mas sim cabeça em busca de carapuça - representação absoluta da “Loucura”, do “Asco” e do “Ridículo”, da qual nos defendemos incansavelmente através de normatizações de uma (Im)Possível Rotina Cotidiana – esta que constrói, opacifica e insere linearidade em uma Realidade à qual denominamos Cotidiano.

*

Coliseu Redivivo em Antônio. O Senhor está no Céu. Crucificação Reeditada em Antônio.

Impotência frente a um Mundo que não lhe cabe... Cabra da algazarra... Trânsito em um Mundo que já não lhe sustenta psiquicamente... Ato... Heroísmo... Disfarce de Onipotência... Aplausos do Povo... Perseguição pelas “Fúrias” do Tabu... Diálogo com os Mortos... Morte por loucura... Doença dos nervos... Condenação por impureza, por improdutividade.


ATO III: O Drama
Foram 40 minutos... Antônio se foi sem nunca mais retornar, deixando “Antônito” o Analista.
O Analista nada disse, apenas ouviu, desencaixado confortavelmente na poltrona.
Do desencontro, Sete Facas restaram, pois Antônio foi embora sem nunca mais dar sinal de vida... Ficaram-se os Mortos Falantes.
Sete Facas nas mãos ou enterradas no peito?” – pergunta o Analista. “Tanto faz como tanto fez” – respondem os Mortos – “Pois de quem são as mãos e de quem é o peito?
Santificada seja a Rotina do dia-a-dia que nos afasta, nos esconde e nos defende deste território, híbrido de infinitas possibilidades, denominado “Real”... Tão insuportavelmente Humano.
Mais um cafezinho?


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] FREUD, S. (1913/1995) Totem e Tabu. In FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2ª edição.
[2] CHAUÍ, M. (s/d) Repressão Sexual – Essa Nossa (Des)Conhecida. São Paulo: Círculo do Livro.
[3] CHAUÍ, M. – op. cit.
[4] HERRMANN, F. (1997) Psicanálise do Quotidiano. Porto Alegre: Artes Médicas.
[5] HERRMANN, F. – op. cit.
[6] HERRMANN, F. – op. cit.
[7] HERRMANN, F. – op. cit.


MARCOS INHAUSER SORIANO é Psicanalista.
Rua Tuiuti, 2530 (cj. 116) – Tatuapé
CEP 03307-000 São Paulo, SP
Tel.: 2295.4167
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com

1 de junho de 2009

ENTRE AS TRIPAS E O CORAÇÃO: O SUJEITO DA LUTA ANTI-MANICOMIAL (Juan Salazar)

Trabalho apresentado no Evento Comemorativo do Dia da Luta Anti-manicomial - “Direitos Humanos e Loucura” -, realizado na Universidade Braz Cubas (UBC) de Mogi das Cruzes, em maio de 2009.

I

Toda luta envolve sempre uma noção de combate e enfrentamento, passa pela idéia de sobrevivência de um ser e, em alguns casos, a luta envolverá armas, guerra e uma batalha altamente corporal que culminará no derramamento de sangue.

A luta é também luta da fala, luta do distanciamento entre idéia e coisa, luta por uma tentativa vã de dar conta do humano, daquilo sem nome em nós. Diria Drummond[1] que

Lutar com palavras
é a luta mais vã.

Pois então, é primeiramente sobre o Campo da Palavra que eu gostaria de me deter, para daí então, angariar um Sujeito. Falarei de Luta Anti-manicomial, de Sujeito, Poesia e Palavra. Falarei da luta corporal das Instituições. Falarei do Luto.

Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não tem carne e sangue
entretanto luto.

Drummond visitado novamente, que aqui nos mostra a luta enquanto enlutamento: Luto.

II

O nome da luta sobre qual escrevo diz-se “anti-manicomial”. O vocábulo anti-manicomial é sentido que se forma a partir de uma negação, do negar o manicomial, do não ao manicômio. O prefixo “anti” é aqui compreendido enquanto Não, negador e repelente ao manicomial.
Retomo aqui uma idéia da negação freudiana, onde se verifica que negar algo é justamente a afirmação daquilo que se pretende recalcar, e que isto não significa uma aceitação daquilo que se recalcou
[2]. Ou seja, esta oposição “manicomial x anti-manicomial”, pares opostos, acaba por se tornar uma lógica formadora de uma prática em Saúde Mental. A luta anti-manicomial é Luta, Ideologia e Prática, que se cria a partir daquilo que se pretende negar e abolir: o Manicômio.


III

Partamos agora para outra palavra: a Poesia.

Ao pensar a poesia para me auxiliar nesta investigação sobre uma luta, utilizo-a não para descrever uma determinada prática profissional em saúde, que se aproveite do objeto poesia como instrumento clínico de intervenção, mas, ao invés disso, decido falar da poesia enquanto fundadora de uma Ética, para então uma prática.

Meneses
[3] concebe que uma das principais funções da Poesia será a de nomear.

Dirá:

É assim que, colocando em palavras, nomeando emoções e situações existenciais até então inarticuladas, a literatura promove uma passagem de nosso caos de sentimentos e percepções a um cosmos, mundo organizado. Ela permite que os sentimentos passem do estado de mera emoção para o da forma construída, e é essa forma que lhe assegura sua generalidade e permanência (MENESES, 2005, p. 122).

Existe um Poema de Adélia Prado
[4] em que podemos observar isto:

ARTE
Das tripas, coração.


Neste Poema, Meneses
[5] nos mostra que a poetisa se apropria de um lugar-comum, o lugar do cotidiano, e transforma uma expressão popular (fazer das tripas coração) em poesia, inserindo um título, uma vírgula e um ponto. Transformam-se as tripas, tida como o lugar do caótico, da confusão; num coração, um órgão organizado, mas também orgânico, e que aqui se apresenta como uma metáfora, já que o coração é tido como figura do amor, da emoção e do sentimento. Podemos observar que o sentido cotidiano e popular de “coração” não está excluso da poesia, mas ganha um sentido maior e se transforma (ao prescindir das tripas), apresentando-se como um organizador dotado de um novo sentido emocional que é justamente a função poética. Observa-se também que neste processo de transformação temos literalmente uma pontuação, já que não houve inserção de palavras. Portanto, o entendimento de “arte” não é tratado como tradução da emoção pela razão (pela palavra dotada de razão): a arte é emoção organizada.

A Poesia se insere neste ensaio para tratar justamente de tripas e coração, órgãos componentes de um corpo, de um alguém, órgãos que nos indicam certa topografia e funcionamento corporal. Tal “funcionamento corporal” me servirá de base pala tratar da Rede de Atenção Pública em Saúde Mental e da inserção de práticas de negação ao manicômio neste contexto.

O que pretendo fazer aqui, se trata na verdade, de uma reivindicação poética em prol de novas formas de tratamento e práticas profissionais em saúde mental; reivindicação esta que se contrapõe ao atual empobrecimento poético destas práticas (empobrecimento criativo), de uma “Rede” que muitas vezes se torna não somente a negação ao manicômio, mas a negação da escuta de um Sujeito que demanda cuidados.


IV

Conforme o avanço do movimento da luta anti-manicomial, do lema “por uma sociedade sem manicômios”, mudanças significativas se efetivaram principalmente no que se refere à criação de modelos substitutivos de tratamento como o CAPS, que visa a não internação do paciente e a promoção da reinserção social do mesmo. Este movimento também propiciou uma mobilização social para a questão da Saúde Mental, promovendo diversas manifestações artísticas, culturais e científicas
[6].

Com o desenvolvimento destes modelos substitutivos, as políticas públicas vêm buscando criar uma articulação do tratamento do paciente junto a uma rede de serviços que busquem dar conta disso. A essa rede de serviços em Saúde Mental incluo a rede de equipamentos sociais, vinculadas a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, que também se mostra muito próxima desta demanda de pacientes e expressa algumas “situações” da qual pretendo compartilhar neste ensaio.

Retomo agora a metáfora (já não tão metáfora) dos órgãos “tripas e coração” e da idéia topográfica em prol de um funcionamento corporal, para falar desta rede que dispõe de diversos lugares e se esforça por uma organização, por um bombeamento de sangue adequado para todas as partes de seu corpo e que muitas vezes acaba se esquecendo do corpo e dimensão do Sujeito. A rede-corpo ou tentativa-de-dar-corpo.

Tendo estes elementos em mente passo agora a um breve relato de minha experiência profissional num Centro de Acolhida em São Paulo, popularmente conhecido como “albergue”, um lugar que acolhe a população em situação de rua. Atualmente o albergue vem se configurando como uma Instituição que acolhe também os pacientes psiquiátricos que receberam alta de sua internação e, por não apresentarem vínculos sociais e familiares, lhe são encaminhados. Desejo expor três breves vinhetas clínicas que expressam a condição de um Sujeito entre-lugares, entre o albergue e a rua, o CAPS e a internação, enfim entre as tripas e o coração: a condição própria de um sujeito dilacerado.

*

Reinaldo

Quando conheci Reinaldo, creio que ele estava alcoolizado. Com o tempo, assim o fui conhecendo, numa repetição de lágrimas e embriaguez. A repetição demarcava também suas falas: ele sempre me dizia o mesmo e quase sempre chorava.

Freqüentemente passava por breves internações num Hospital Geral por quedas que sofria nas ruas, e às vezes pelo sangue que vomitava. Nestas idas e voltas ao hospital, ele sempre temia que no seu regresso ao albergue fosse perder sua vaga. O regimento interno do albergue não permite que a pessoa entre alcoolizada, motivo este que pode culminar no seu desligamento. Obviamente, o temor de ser desligado manifestava também sua condição de ligamento e de ser um sujeito “pegajoso” junto à Instituição e à equipe, o que muitas vezes causava um sentimento de repulsa.

Atendi Reinaldo por alguns meses, atendimentos tumultuados, regados a faltas, álcool e sempre com sua incerteza de que talvez eu não estivesse mais ali para atendê-lo. Problemas com horários começaram a surgir, e num desencontro meu para com ele (nestes horários que nunca eram seguidos por Reinaldo) ele desistiu da psicoterapia dizendo que “nós dois tínhamos problemas com horário e que não nos encontrávamos”. Apesar da desistência, outros encontros ocorreram pelos corredores, pela rua, pelo pátio e, em algumas ocasiões, em minha sala.

Permaneceu internado por um mês num hospital psiquiátrico, rigorosamente, sem acesso ao álcool e a rua. Quando regressou ao albergue o vi e falei com ele, sem álcool. Apertava minha mão e agradecia. Algumas horas depois, neste mesmo dia, já com álcool, ele se encontrava debruçado num banco, apertava a minha mão, chorava e dizia que não havia bebido.


Clara

Desde o primeiro atendimento de Clara, o seu discurso confuso somente me confundia - confusão que se intensificava a cada palavra pronunciada. Sempre que falava, me perguntava se eu havia entendido o que ela disse - pergunta que demorei em responder -, até que com o tempo eu pude reconhecer a honestidade como um importante elemento clínico e lhe disse que não entendia. Algumas imagens começavam a delinear-se: um ser mulher-forte, uma carreira artística, uma dançarina, um estar pelada mesmo com roupa e um rascunhar incessante de relatórios que me foram entregues em alguns momentos. O delírio de Clara, que inicialmente me parecia sem lógica, passava a ganhar uma, na medida em que podia ser honesto com ela. Eu também notava que o albergue, em certa medida, vinha sendo um lugar que acolhia esta confusão à sua maneira. Clara virava personagem no âmbito institucional, porém personagem que se integrava ao convívio das pessoas que ali viviam: à sua maneira, com humor, as pessoas ali convivem com a loucura, pelo menos até então assim vinha sendo com Clara.

Fiquei surpreso quando a agente comunitária de saúde me contou que Clara havia sido internada. Ao questioná-la sobre o motivo da internação esta me respondeu que ela estava delirando demais e que a psiquiatra considerava necessário.

Passada duas semanas, o assistente social recebe uma ligação de Clara do hospital psiquiátrico: ela lhe disse que não era louca e que queria sair dali.


João

Quando Seu João, um senhor, chegou ao albergue, ele praticamente não falava. Permanecia sentado nos bancos, mexendo as pernas e sempre indo ao banheiro. Aos poucos começou a participar dos grupos e oficinas.

Com as aproximações contínuas ele começou a falar, tomava banho e havia se livrado das “muquiranas”. Tinha uma participação ativa no albergue, ajudando na pintura da casa, no carregamento sagrado da comida e raramente faltava na oficina e grupo que eu realizava. Sua vida era o albergue. Com o tempo fui conhecendo melhor a sua história, que me era contada “em particular”, nunca em grupo. Internações, tutelas, um sociólogo e um carinho infantilizado foram aparecendo.

Quando me desliguei do albergue, segui realizando quinzenalmente, uma Oficina de Poesia de caráter voluntário. Num dos meus retornos, sou recebido com a “Queixa-João”. Todos, entre funcionários e usuários, vão me apontando que Seu João está enlouquecendo, está agressivo e se recusa a ser encaminhado ou ao menos ir até um CAPS. Interpreto que a queixa da Instituição é uma solicitação para que eu facilite este encaminhamento, pois “ele precisa ser medicado”; e afinal de contas só quem está de fora (meu desligamento) pode colocar alguém para fora (Seu João e o CAPS).

Encontro-me com Seu João, que me cumprimenta de maneira estranha. Desta vez ele não veio me receber. Quando vou iniciar a Oficina, o surpreendo pintando a parede do espaço de convivência e ameaçando dar uma paulada num outro usuário do serviço. Convido-o a participar da Oficina e ele apenas me responde “você não sabe de nada, você está chegando agora”. No meio da oficina ele aparece, interrompe, fala diversas coisas e me pede ajuda.

No meu último retorno ao albergue, sou informado por uma equipe fragilizada que Seu João não está mais lá. Está na rua, sujo, não se alimenta e de vez em quando aparece no albergue presenteando alguns funcionários com objetos encontrados no lixo.

*

Notem que nestas vinhetas temos situações em comum: o transitar entre-lugares. A rua, o albergue, o CAPS e a internação surgem como elementos que, de maneira inarticulada, buscam dar conta de um Sujeito. São órgãos que não se vêem e nem se conversam. A pretensa Rede se apresenta como rede de captura do Sujeito diante de um ordenamento institucional e soltura a partir do momento em que os ordenamentos do sujeito não atendam ao sintoma institucional, à contra-demanda da Instituição.

O alcoolismo de Reinaldo, os delírios de Clara e o enlouquecimento de Seu João não puderam ser compreendidos pela lógica institucional do albergue que se propõe a escutar um Sujeito em situação de rua, desconsiderando o emocional. Nega-se uma Escuta e forja-se uma solução e um tratamento. O encaminhamento vira eliminação. Cabe ao CAPS, à internação psiquiátrica e aos medicamentos, dar conta do sofrimento do Outro.

Trata-se do poder, daquilo que alguém pode ou não escutar e cuidar no Outro. Basaglia
[7] diz que o que caracteriza as Instituições é a divisão entre os que têm o poder e os que não o têm, fundamentando-se numa relação opressora e violenta entre poder e não-poder que culmina na exclusão do segundo pelo primeiro. Tal violência será sempre justificada primeiramente por uma finalidade corretiva, para depois chegarmos à culpa da doença - afinal de contas, lugar de louco é na rua ou no manicômio.

Na internação de Clara não houve uma participação da equipe técnica do albergue: esta foi uma determinação do Centro de Saúde aonde ela se tratava. Reinaldo foi encaminhado para a internação pelo Serviço Social, creio que até num encaminhamento que fazia sentido, mas pelo que vimos, a internação apenas o internou, não o tratou. Seu João não foi internado nem foi para o CAPS, foi para a rua.

Estes são sujeitos entre-lugares, articulados por uma Rede que sustenta a Doença, não promovendo libertação. A luta anti-manicomial se apresenta aqui como uma luta de lugares, pois aonde devem permanecer e ser cuidadas estas pessoas? E isto levando em conta que há uma demanda, há um pedido de ajuda e o desejo de um cuidado por parte destes sujeitos.

A negação do manicômio legitima as práticas manicomiais num sistema de tratamento e cuidado que se crê liberto e promotor da reinserção social, mas o que se vê são apenas Instituições que buscam dar conta de um corpo que não é mais o do Sujeito e sim desta Rede que captura e dilacera o Sujeito e seu corpo. Entre as tripas e o coração: não há poesia aqui.


V

Nesta batalha, com ou sem armas, entre o manicomial e o anti-manicomial, aquele que permanece no front é o Sujeito, se esforçando por sobreviver (ou não) e defender certa integridade física e moral que lhe resta. O Sujeito deste front de batalha é um Sujeito que adoecido, sofre. Trata-se de uma luta onde nenhuma das partes morre, pois manicômios e não-manicômios ainda vivem. O processo de mortificação costuma ser efetivado sob o Sujeito.

Aqui podemos retomar a idéia de luta enquanto Luto. A luta anti-manicomial mantém-se num Luto Patológico, uma vez que, ao negar a morte do esquema manicomial, ela acaba por presentificá-lo, na maneira como os sujeitos vão se organizando nesta nova Rede insuficiente que não oferece lugar.

O desejo de morte ao manicômio se constrói como defesa que perdura pela própria sobrevivência dos manicômios ainda hoje. Vida aos manicômios. “Outras práticas” merecem ser investigadas e criadas a partir da experiência construída na aproximação com o Sujeito e não pela negação de esquemas ideológicos.


VI

Diante deste pensar sobre outras práticas, retomo aqui a idéia da Poesia enquanto fundadora de uma Ética que só poderá ser fundada para além da legitimação emocional do discurso sob a palavra. No caso, as palavras às quais me refiro aqui são “anti” e “manicomial”.

Alfredo Bosi
[8] utiliza-se do termo poesia-resistência para falar de uma Poesia que resiste à falsa ordem - que é a rigor, barbárie e caos -, que desfaz o sentido do presente em nome de uma libertação futura e que promove um Ser da (e na) Poesia que contradiz o ser dos discursos correntes.

Sendo assim, fundar uma “outra prática” refere-se a uma legitimação emocional que se dá para além dos sentidos limitadores que a palavra cotidiana exerce sobre o Sujeito, trata-se de fundar uma legitimação poética que parta da experiência. Diante disso, considero que muitas vezes a luta anti-manicomial acaba por se transformar num discurso corrente que se acorrenta ao passado e acorrenta sua Escuta do Sujeito.

Quando uma intervenção no campo da Saúde Mental se torna um “cuidado”, reconsidera-se a Escuta do Sujeito - esta, não como elemento integrador a uma Rede ou ao Social vigente, mas sim como elemento libertador disto. Escutar é desfazer o sentido que aprisiona o Sujeito em seu sofrimento, em prol de uma cria-atividade, de ser criador e ativo frente a um viver.

Uma “outra prática” deve ser fundada, podendo apenas ser “outra” a partir daquilo que se vive com o Outro. Não se trata do manicomial, se trata do Sujeito. A Poesia pode sim fundar uma Ética que se afaste dos embates de Poder e de Política, já que toda pessoa pode vir a ler um poema e ser surpreendida. Mas, mais do que uma leitura preventiva para uma prática, refiro-me à experiência emocional da Ética Poética. A arte no cuidado do outro não falará de tripas e corações, ela curiosamente irá escutar e escrever uma “outra poesia”, nova e viva.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] DRUMMOND DE ANDRADE, C. (1998). Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record.
[2] FREUD, S. (1925) A negativa. In FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v.XIX. Rio de Janeiro: Imago, edição de 1976, p. 295-300.
[3] BEZERRA DE MENESES, A. (2005) A literatura e a organização da experiência. In BARONE, L. M. C. (coord.). A Psicanálise e a Clínica Extensa: III Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos. São Paulo: Casa do Psicólogo, p. 121-123.
[4] PRADO, A. (1999) Oráculos de Maio. São Paulo: Siciliano.
[5] BEZERRA DE MENESES, A., op. cit.
[6] AMARANTE, P. (1995) Novos Sujeitos, Novos Direitos: O Debate em torno da Reforma Psiquiátrica. Cad. Saúde Pública, 11 (3): p. 491-494, Jul/Set, 1995.
[7] BASAGLIA, F. (1991) As Instituições da Violência. In BASAGLIA, F. A Instituição Negada. Rio de Janeiro: Edições Graal, p. 99 – 133.
[8] BOSI, A. (2000) O Ser e o Tempo da Poesia. São Paulo: Companhia das Letras.

JUAN SALAZAR é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise.
Email:
juansalazarj@gmail.com

26 de maio de 2009

VINI: UM OLHAR A MAIS (Silvia Cafaro Furlani)

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente...
(Fernando Pessoa)

Eu andava meio perdida naquele hospital. Tantas coisas a aprender, sufocada por notas, competições, contradições e muita gente doente, carente, sufocada também.
Eu e meus pacientes tínhamos algo em comum nesse momento: o sufocamento, como um parto prestes a acontecer, com toda sua dor, angústia e beleza.
Eu trabalhava com as gestantes de alto-risco que tinham para mim um significado e uma carga a mais: eram cardiopatas, traziam em si a vida e a morte presentes em todos os instantes de presença naquele hospital. Eram mães especiais e com suas próprias contradições.
Até que um dia desse longo e intenso ano encontrei com Anita que, à parte seu problema cardíaco, tinha uma doença rara, degenerativa, caracterizada por uma desordem genética, causadora de tumores benignos em órgãos internos e outros tantos tormentos que Anita tão bem conhecia.
Vini, seu primogênito, estava para nascer.
Não mais que de repente, ao atender Anita virei sensação em minha ala. Fui procurada pelo médico geneticista, por supervisoras, enfermeiras, todos queriam saber a respeito da “paciente da doença rara”.
Fiquei atenta ao olhar de Anita, pois este sim era o que importava para mim. Tão jovem e com tanta coisa a carregar nessa vida de quem “mora longe”, é pobre, doente e vai ser mãe de outro “serzinho” que vai morar longe e ser doente.
O dia chegou e Vini veio ao mundo. Lindo, com bom peso e um tumor enorme grudadinho em seu coração. Vini tinha herdado a doença da mãe.
Anita teve alta e deixou seu menino para trás, aos cuidados dos médicos e enfermeiros. Antes de nos despedirmos ela pediu: “Você vem olhar o Vini todos os dias por mim?"
Promessa é promessa, e todos os dias eu me encaminhava ao berçário para “olhar” o Vini; mesmo que a médica pedisse: “Fale com Anita, ela tem de se preparar para o pior, ela tem muita esperança, conversa com Vini como se ele fosse para casa e o estado dele é muito grave!".
Anita era surda para tais “conversas”. Era apenas uma mãe que queria levar seu bebê para casa e poder enfim “olhar” para ele o quanto quisesse.
Aquele bebê tão lindo a princípio, foi enfeiando, enfeiando, judiado com tantos procedimentos necessários à sua sobrevivência, mas sempre com o olhar de esperança de sua mãe, que vinha visitá-lo sempre que podia, e o meu que cumpri à risca minha promessa.
Vieram muitas intervenções, olhares, feriados e fins-de-semana.
Naquela segunda-feira dirigi-me como de costume ao berçário. Ao chegar perto da incubadora onde Vini ficava notei que estava vazia. Fui invadida por uma tremenda angústia, corri até o posto de enfermagem e pedi notícias de Vini, a enfermeira me informou de maneira um tanto formal: “Ele teve alta ontem!".
Como compreender o ocorrido com Vini? A surpresa tomou conta de todos que acompanharam o caso. Foi a dedicação dos médicos? Das enfermeiras? Ou foi o olhar de sua mãe que se negava a entregá-lo para a morte antes da vida? Será que meu olhar contribuiu?
Tenho pensado muito no saber popular, seus ditos, frases fortes, que em momentos angustiantes nos ajuda a olhar o mundo de um modo mais tranqüilo e benevolente, um desses ditos nos ensina: “Às vezes um olhar vale mais do que mil palavras”. E Vini foi com sua mãe para casa.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Pessoa, F. (1981). Análise. In Pessoa, F. Obra Poética. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar S. A., (8ª edição) p. 40.

SILVIA CAFARO FURLANI é Psicóloga.
Praça Tristão da Cunha, 106 – Vila Oratório – São Paulo – SP – CEP 03189-030
Tel.: 2965.7261
Email: silvia.furlani@ig.com.br

17 de abril de 2009

NOTAS SOBRE UM FILME (Fabrício Neves)

Simplesmente Feliz” (Happy-Go-Lucky) de Mike Leigh, é provocador e disruptivo, na medida em que nos propõe um olhar sobre a vida e seus acontecimentos no mínimo pouco habitual para os tempos atuais.
Através da personagem central vamos nos deparando com episódios banais do cotidiano que, se não fossem pela forma como a protagonista os conduz, quase não nos provocaria uma reflexão.
A cena com que somos presenteados logo nos momentos iniciais do filme já anuncia o perfil de nossa heroína que, ao deixar sua bicicleta “incrementada” presa (ou encostada?) a uma grade na rua, para flanar por uma feira e acabar entrando em uma livraria, percebe ao voltar, que sua bicicleta foi roubada. O que torna tudo mais curioso é que na cena anterior ela diz ao livreiro carrancudo que não tinha roubado nada...
Sua reação ao constatar o roubo - pelo menos do ponto de vista expressivo, ou seja, a surpresa da constatação -, parece que poderia ser a de muitos de nós, pobres mortais, mas seu comentário, ou melhor dizendo, a forma como vai lidar com este episódio ao dizer algo como: “nem me despedi”, nos mostra uma forma de elaborar e tratar as coisas duras da vida (aqui ser roubada), com uma leveza e humor dignas de nota. Durante o desenrolar do filme veremos esta posição ser sustentada em momentos difíceis da vida de nossa Poppy.
Poderíamos encerrar a discussão tratando a personagem como uma boba, infantilizada, impressão que podemos ter no início do filme, mas que vamos perdendo na medida mesmo em que o filme vai se desenrolando e que descobrimos uma mulher nos seus trinta anos de vida.
A cena na livraria nos mostra uma moça olhando alguns livros na prateleira, com destaque especial para um livro que tem entre seu título a questão da realidade. O que ouvimos dela é um: “tô fora”. Aqui poderíamos interrogar se sua forma de levar a vida, não leva em conta a “realidade”... mas qual realidade? A do autor do livro ali destacado; a do próprio livreiro que parece não saber lidar com alguém que tenta uma aproximação; a de um certo aluno de sua classe que reflete em suas brigas com seus colegas, um certo tipo de lar padrão dos tempos contemporâneos; ou a realidade da intolerância, agressão e fúria de seu professor de direção?
Através destas e de outras cenas que se desenrolam com a nossa professora primária, vamos ficando tocados por esta forma tão peculiar de tratar e encarar a vida. Um movimento de aproximação, de leveza, de curiosidade, não sem espanto e, às vezes, até com medo (lembremos da cena com o estranho homem que encontra na rua...).
Nossa heroína não foge dos acontecimentos, ao contrário, mergulha neles. No entanto se recusa a enfrentá-los com o recurso padrão, por exemplo: a polícia que a doce amiga sugere como solução para o problema do seu professor de direção...
Em uma sociedade que trata tudo como um peso e com uma intolerância impar, fica com este filme o convite, mesmo que por algumas horas (a da duração da sessão de cinema): para que possamos ocupar um outro lugar com uma nova forma de olhar para as coisas da vida.
Isto vale o filme, e de certa forma nos lembra como deveria ser o bom andamento de uma sessão de análise.

SIMPLESMENTE FELIZ
Happy-Go-Lucky. Reino Unido, 2008.
Direção de Mike Leigh

FABRÍCIO NEVES é Psicanalista.
Email: nevesfabricio@uol.com.br

14 de abril de 2009

PULSÃO (Mariana Giorgion)

“A teoria das pulsões é, por assim dizer, a nossa mitologia. As pulsões são seres míticos, grandiosos na sua indeterminação” (Freud, 1932)

Prá começar, eu nem deveria estar aqui... Não agora... Não hoje. Mas não deu para segurar. Tanta angústia, dor. Não... A dor é porque faço... Dói a cabeça pensar, escrever. Mas não, estava doendo antes... A idéia, a vontade... Então eu cedo, sem saber por que, na esperança de que passe.

Consegui entrar. Enganei todo mundo. Eles acham que eu sei. Mas ele, o professor, esse fica em dúvida o tempo todo. Fica testando. Acho que ele desconfia. Mas eu engano bem e chego. Na aula, psicanálise... lingüística. Será um monte de significados diferentes para os mesmos significantes? Ou os mesmos significados, agora nomeados de outra forma? Vou tropeçando, mas entendendo essa nova forma de falar, essa Psicanálise com outro sotaque. Lembro de Fabio Herrmann: “a verdade não está aqui nem lá, campos distintos pedem distintas teorias
[1]”... Me acalmo.
Mas dura pouco. Ele me vê na sala. “A próxima aula é sua. Quero que você fale sobre pulsão”. E eu, que não sei do que sei, não acredito que sei e sei da minha necessidade de acertar, me comporto como rege a (com)pulsão (à repetição): entro em pânico.

Peço socorro ao Fabrício (lembra?). Ele, que sabe tanto de Freud e de mim, vai ajudar. E ajuda. Diz que existem mais de 45 nomes diferentes para o tal Conceito, que Freud mudou três vezes a dita Teoria, que já realizaram Simpósios com Mega Psicanalistas de todas as Escolas para discutir a tal “Pulsão de Morte”, que ainda gera controvérsia entre os teóricos da Teoria...

E começo a descobrir...

Fabrício me conta que o primeiro contato de Freud com o Conceito Trieb é através da leitura de um Ensaio de Schiller, datado de 1780, que contém o seguinte parágrafo: "As pulsões animais despertam e desenvolvem as pulsões intelectuais“. No Vocabulário da Psicanálise
[2] leio que é possível também encontrar referências de Freud (1899) ao poema de Schiller, "Os sábios do mundo", onde consta "a influência dos dois mais poderosos motivos (Triebferden), a fome e o amor". A palavra Trieb mesmo, só surge na teoria freudiana em 1905. Porém desde seus Textos mais primórdios (“Sobre as Afasias” de 1895, ou “Projeto para uma Psicologia Científica” de 1896), vemos referências a idéia de Pulsão, como uma distinção entre dois tipos de excitações no sistema nervoso: externas, às quais o indivíduo pode fugir ou proteger-se; ou internas, portadoras constantes de um afluxo de excitação da qual não se pode escapar, fator propulsor do funcionamento do aparelho psíquico.

É na descrição da Sexualidade Humana que Freud esboça pela primeira vez sua noção de Pulsão
[3], passando a ver a sexualidade como uma abertura do sistema nervoso para algo diferente dos fatores orgânicos, como, por exemplo, as influências relacionais.

Segundo Freud, a Pulsão é inata e programada a disparar em determinados momentos (fases do desenvolvimento psicossexual) e a parte psíquica da Pulsão é a Fantasia (conceito introduzido em 1908), já que a pulsão é limítrofe entre o orgânico e o psíquico.

As coisas estão fluindo, mas eu ainda me (pré)ocupo e (pós)ocupo com o Tema. O cara (editor) da edição Standard das Obras de Freud, que traduziu do alemão para o inglês, jura que o melhor significado para o termo Trieb é “instinto”. Mas hoje em dia todo mundo diz que é Pulsão. O Luís Hans (colega de sala do meu professor) está até refazendo a tradução das obras de Freud, agora direto do alemão para o português, e mudou inteirinho o Capítulo, que antes era “O instinto e suas Vicissitudes” e agora é “A pulsão e os Destinos da Pulsão” (Freud, 1915). Não vai ter jeito. Alguém vai falar disso e eu, no lugar de quem sabe, e no lugar que estou, vou ter que saber. Melhor preparar a resposta:
- A Pulsão freudiana se diferencia dos conceitos de Instinto da biologia por quatro características, sendo:
a) Pressão: própria essência da Pulsão. A quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa;
b) Finalidade: é sempre a satisfação, porém existem as finalidades próximas ou intermediárias que proporcionam a satisfação parcial;
c) Objeto: através do qual a Pulsão atinge a sua finalidade. É o que há de mais variável na Pulsão;
d) Fonte: processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo, e cujo estímulo é representado na vida mental por uma Pulsão.

Acho que por hora resolve. Mas é de Freud que se trata, e em 10 anos ele resolve reinventar a roda que ele mesmo inventou, ou a Pulsão. Em 1915
[4] inaugura a idéia do caráter dualista da Pulsão, baseado na hipótese de que o que causa as afecções nervosas (neurose histérica e obsessiva) é o conflito existente entre as Pulsões do Ego (ou de autopreservação) e as Pulsões Sexuais. As Pulsões Sexuais seriam caracterizadas por serem numerosas, terem uma grande variedade de fontes orgânicas, serem inicialmente independentes uma das outras, mas posteriormente atingirem uma síntese - inicialmente buscarem o prazer do órgão, mas quando atingem a síntese destinam-se a reprodução e podem ser identificadas como Pulsões Sexuais. Originam-se nas Pulsões de Autopreservação e seguem as Pulsões do Ego na escolha objetal e mudam prontamente de objeto, podendo se distanciar drasticamente de seus destinos originais (sublimação).
Freud também diz que as Pulsões Sexuais são parciais, funcionando primeiro independentemente e depois tendendo a uma síntese, que deve ser alcançada na puberdade e diferenciam-se pela fonte (Pulsão oral, anal, genital) e pela meta (Pulsão de olhar, Pulsão de dominação).

Outra reviravolta marca a história da Psicanálise e em 1920
[5] Freud revê a Teoria Pulsional, mantendo o seu caráter dualista, porém reescrevendo a rota e o destino das pulsões humanas. O conflito pulsional não se localiza mais entre as Pulsões de Autoconservação/Ego e Sexuais, mas entre Pulsões de Vida e Pulsões de Morte. A Inversão está no próprio princípio da organização pulsional. A Pulsão de Morte é desagregada e desagregadora, tendendo ao princípio de inércia. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Ela contém em sua composição as pulsões agressivas/destrutivas com destinos externos e internos; enquanto a Pulsão de Vida passa a abranger as pulsões de autoconservação, tendendo agora à unidade e manutenção da unidade psíquica e física.

Freud morre exilado por Hitler, em 1939, aos 82 anos. Seu Conceito de Pulsão, assim como toda sua Obra, gera movimentos intensos, verdadeiros vórtices. Para algumas brilhantes açougueiras - parafraseando Lacan -, a Pulsão de Morte é a própria regência do psiquismo. Para outros franceses, pouco afeitos ao afeto, esse circuito pulsional todo só pode ser acionado na presença de um Outro, porque o Inconsciente se estrutura como uma Linguagem. Outros ingleses preferem não acreditar na destrutividade humana, aferindo a tendência criativa que só precisa ser facilitada.

Já eu, estou aqui, tomada por minhas pulsões, que guiam, dirigem, me levam, me curvam e transbordam ao longo e ao largo desse texto. Se não cumpro o papel de esclarecer conceitualmente a Teoria Pulsional de Freud, me coloco, de corpo e alma, como testemunho dessa energia, que flui e causa, agora alocada, dirigida e sublimada, em mais uma tosca tentativa de aplacar a Angústia.


NOTAS
[1] Herrmann, F. O Divã a Passeio. Editora Brasiliense, 1992.
[2] Laplanche e Pontalis. Vocabulário da Psicanálise. Martins Fontes, 1991.
[3] Freud, S. (1905) Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Edição eletrônica. 2002.
[4] Freud, S. (1915) O Instinto e suas vicissitudes. Edição eletrônica. 2002.
[5] Freud, S. (1920) Além do princípio do prazer. Edição Eletrônica. 2002.

MARIANA GIORGION é Psicanalista. Membro do Instituo Vórtice de Psicanálise.
Av. João Carlos da Silva Borges, 101 (sl.02) - Santo Amaro
CEP 04726-000 – São Paulo, SP
Tel. - (011) 4111.6841
Email – marianacpg@terra.com.br

12 de abril de 2009

O PODER DA ANÁLISE (Sara Costa Andreozzi)

A Psicanálise é um fantástico Método para se entrar em contato com a diversidade da Psique Humana, com todos os seus disfarces, desvios e acessos ao mundo dos possíveis.
A Psicanálise fornece ao analista um imprescindível arsenal de perguntas que exigem muita reflexão e investigação clínica. Não há script, cada sessão é única e cada detalhe faz toda a diferença.
A Teoria dos Campos fornece asas para que o analista voe alto junto com seu paciente, sem que estes saiam do chão. É um caminhar construído a cada toque interpretativo, cada gesto, caras e bocas ... interpretações, vórtices, rupturas de campo ...
Algo surpreendente acontece em Análise, isto é real para o par analítico. O foco vai além da melhora da qualidade de vida, pois se trata da própria vida.
Nada raro ouvir que no começo do Processo Analítico, a vida do paciente era cinza, triste, e que com tantos momentos compartilhados naquela sala, o cenário já não é mais o mesmo. Mudaram-se os textos, os atores, o figurino... e o paciente, como autor da trama, consegue enxergar cores outras e se permitir desfrutar do colorido da sua própria existência. Novidade e tanto, comemorada por ambos.
Quando digo surpreendente, me refiro à Transferência, que é poderosa, não como algo que reduz todo o Método e a Técnica a um artifício fácil ou idealizado. Pelo contrário, é um turbilhão de emoções envolvidas, atrelado à reciprocidade e confiança, sendo preciso muito tato, pois tanta força tem semelhante capacidade de Curar, ou seja, cuidar do Desejo. Assim, percorremos os becos, os quartos escuros da Psique, guardiões de segredos muitas vezes inconfessáveis para o próprio autor da história.
Analogamente podemos comparar o Processo Analítico a uma rosa. Existem pessoas que só conseguirão enxergar os espinhos, outras se queixarão por um longo tempo de sempre se ferirem, outras não conseguirão esquecer a picada e a dor causada.
O caminhar da Análise se faz através do acolhimento de incontáveis dores, mas também de coragem para suportar os espinhos, com o intuito de não causarem tantos danos e não impedirem o paciente de enxergar outras possibilidades de Eus, na melhor das hipóteses... E o analista torce fervorosamente para isso. Também há aqueles que conseguirão agregar os espinhos a um grande aprendizado de vida, nomeando como amadurecimento ou evolução, encantando-se com a beleza da flor, embriagando-se com seu sutil perfume e enamorando-se com a textura lisa e frágil das pétalas. Pode-se ir além, utilizando a rosa para enfeitar os cabelos, fazendo as pazes com a sua feminilidade negligenciada... enfeitar seu ambiente ou expressar sentimentos. Ah, como é bom...
Isso é arte, é poesia psicanalítica (como chamo carinhosamente a Teoria dos Campos), é o ser e o estar ali, presente de corpo e alma, momento certo de socorro de quem procura a Análise como um grito de desespero que se ouve longe... Uma tábua de salvação na qual se agarra com toda a força e que apontará direções a seguir. Mas os rumos da Análise, somente a maré de cada encontro poderá ser capaz de traçar. Não nos é possível saber antes, nem para o analista e muito menos para o paciente. Só depois.
Torcemos então para que o Destino esteja na maior parte do tempo ao nosso favor, com a consciência de que às vezes perdemos, mas com a certeza de que outras vezes ganhamos.
A demanda de toda Análise, claro, é sempre de amor e o paciente sabe que naquele momento há alguém disposto a mergulhar consigo, “dois loucos” ignorando os riscos e os perigos... Segurar sua mão no escuro para alcançar o baú dos desejos e segredos com tantas histórias e fantasmas assustadores, e sentir que é provavelmente uma das poucas verdades que realmente se pode acreditar, pois estão ali unidos para se aventurar no labirinto das lembranças, no quebra-cabeças dos sentimentos e pensamentos mais estranhos e confusos. Desafio e tanto que poucos aceitariam. E, se por algum momento surgir o temor do desamparo, ter o alívio acalentador da plena confiança de ser beneficiário de carinho e constante atenção por parte do analista, para que os vários Eus possam sempre se expressar... se surpreender com a firmeza de cada passo conquistado na difícil trajetória e, assim como um animal, descobrir abismado que possui garras, elas existem e não há nada de errado com isso... Podem ser usadas e podem lhe ser muito úteis, não somente para a defesa ou ataque, mas para seu prazer.


Sara Costa Andreozzi é Psicóloga Clínica. Estudiosa da Teoria dos Campos pelo Instituto Vórtice de Psicanálise.
São Paulo, SP
Tel - (011) 9733-2047
Email -
sarapsi@yahoo.com.br
Blog -
www.sarapsi.zip.net

8 de abril de 2009

UM MUNDO A CADA PORTÃO (Thomas Ferrari Ballis)


A casa do Seu João, meu vizinho da direita, possui um portão de ferro, baixinho, daqueles que vem no máximo à altura do peito, com aberturas entre as finas barras de ferro que tornam livre o acesso de gatos errantes da vizinhança, especialmente o gato do Seu João. Após o almoço, o próprio Seu João vem ocupar um lugar estratégico junto ao seu portão. Pousa calmamente seus cotovelos e com o cigarro devidamente encaixado no canto da boca, curte seus tragos e atravessa tardes a apreciar as moças bonitas que passam pela rua.

Dona Ana, a italiana, uma velhinha gorducha e atarracada, é minha vizinha do lado esquerdo. O portão de sua casa é daqueles eletrônicos, inteiramente de alumínio, e pintado de um negro fosco. As poucas aberturas na parte superior do portão dão a Dona Ana o direito a poucas horas do sol da manhã. Os raios solares são recebidos com furor pelas duas samambaias do quintal, que parecem saber o tempo exato de início e fim do banho de luz. As 11h30min da manhã as samambaias já esperam ansiosamente pelo sol do dia seguinte, claro, se ele resolver aparecer. A Dona Ana mesmo é muito difícil de ver, assim como o sol das samambaias, ela aparece sorrateiramente no portão, e some rapidinho.

Propus-me a investigar os motivos de tamanha disparidade entre os portões de casas vizinhas e no final de semana aproveitei que Seu João estava no seu ritual vespertino de apreciação de moças e perguntei – “Seu João, por que seu portão é diferente do portão da Dona Ana?” Seu João hesitou a princípio, mas logo percebeu que se tratava de uma pesquisa séria de minha parte - “Olha! Eu não sei porque o portão dela é diferente, mas eu gosto do meu assim, é baixinho, dá pra se apoiar e olhar a rua. O sol bate logo cedinho lá na janela da sala e você sabe né... é bom pra apreciar as mocinhas”.

E no mesmo dia, intrigado com tamanha fundamentação e embasamento da resposta de Seu João, consegui abordar Dona Ana, que saía de sua casa a passeio com Trovão, seu minúsculo e barulhento cachorro. Aproximei-me sem delongas e perguntei - “Dona Ana por que seu portão é tão diferente do portão do Seu João?” - “Mas que pergunta é essa rapaz?" questionou meio confusa, enquanto Trovão mostrava-me ferozmente seus dentes em pose de cão de guarda. Depois Sorriu, tateou um pouco e respondeu - “Você acha que pode?!? Neste lugar que a gente vive? Cheio de bandido entrando na casa dos outros, de noite é um vai e vem de gente usando droga aqui, imagine com um portão baixinho daquele, como fica fácil de entrar...hoje em dia não se pode bobear não, você não assiste televisão?

Após refletir seriamente sobre o material dos participantes da minha intrigante pesquisa de uma pergunta só, descobri algo realmente valioso. Ambos vizinhos tinham razão, ambos contaram a verdade e utilizaram sem economia todo seu sólido conhecimento do bairro onde moramos. Apesar disso, descobri que os dois viviam em mundos completamente diferentes, por mais próximas que fossem suas casas. Na rua de um passavam moças bonitas, na da outra, drogados e bandidos. Em um dos quintais o sol era esperado, e por isso chegava cedo, depois passava no outro quintal pra visitar as samambaias, mas só uma visitinha.

Descobri que a quantidade de sol e segurança depende do mundo em que se vive, e naquele final de semana me organizei um pouco. Senti a necessidade de mudanças para o ano novo, que já despontava no horizonte. Já pensava em trocar o meu portão e viver em outro mundo.


Thomas Ferrari Ballis é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise
Rua Tuiuti, 2530 (cj 91) – Tatuapé – CEP 03307-000 - São Paulo, SP
Tel. (011) 7321.1425
Email -
thomferrari@yahoo.com.br

7 de abril de 2009

QUEM SOU EU NESTE DIVÃ? (Lourdes T. Tozetti)


No meu solipsismo, insisto e não desisto:
Quem é este Eu (in)deter(minado) que urge, mas não surge.
Quer se fazer presente, até então supostamente ausente.
É todo onipotente e onipresente.
Escondido na sombra de meu Ser.
E lá, à minha frente, está o divã e este Eu:
Instável e nada amável,
Indomado, assustado, abalado, malfadado e aprisionado,
Que quer, não só aparecer com naturalidade,
como também parecer com algo coerente, pois se sabe incoerente,
com algo perfumado, pois se sente mal cheiroso,
incongruente, incapaz, inóspito e, assim, inconformado.
É um Eu embaraçoso, vergonhoso e aparentemente pecaminoso.

Que lógica é esta que o faz existir e resistir ao mesmo tempo?
Ele aparece e desaparece. É intenso, talvez hipertenso...
Ele vive brincando com minhas emoções e divagações.
Quer fazer graça e esqueceu a piada.
Quer fazer desgraça e esqueceu a tragédia.
É não-dito e quer se fazer inédito.
Fica nas entrelinhas, esperando, graciosamente, ser capturado
E afagado. Ser aceito e aplaudido.
Foi rechaçado e ficou entalado.

Ele consegue que, aos poucos, eu o vá reconhecendo.
Talvez meio encabulado, mal arquivado, mas não
Malfadado e mitigado como vinha até então.
Sou só mais este Eu que rompe neste rico divã,
Que não economiza para que seja mais conhecido.
E não sofra mais das intempéries de minha má
Interpretação a que outrora havia sido destinado.
E neste agora, posso contatá-lo, conectá-lo e dizer
Acolhedoramente: Sou só mais um Eu entre tantos
Eus possíveis.


Lourdes T. Tozetti é Psicóloga com ênfase em Psicanálise
São Paulo, SP
Email - lounew@gmail.com

27 de março de 2009

EDITORIAL 2009

Enfim... Nasce a REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
Após o germinar de uma pequena idéia desenvolvida nos Saraus e nas Reuniões Clínicas aos Sábados (pelo Instituto Vórtice de Psicanálise), é com muita satisfação que redigimos este Editorial.
A REVISTA tem como objetivo principal promover um Espaço de Interlocução para todos os interessados no infinito desenvolvimento da Psicanálise (com "P" maiúsculo), no intuito de situá-la em seu lugar de direito - o de Ciência Geral da Psique.
Que possamos juntos explorar, investigar e escrever Psicanálise, mesmo - e talvez, principalmente - para além do restrito espaço no qual Ela se deixou capturar, levando nosso divã simbólico para onde ele não parece estar e nem ter lugar. Que possamos, desejosos que estamos, utilizá-la como instrumento de estudo de toda e qualquer Produção do Humano. Para que, realizando a Arte da Interpretação, rompermos os Campos de Sentido, fazendo com que surja, não Certezas, mas Dúvidas e Questionamentos produtivos.
Sejam todos muito bem vindos!!!
CORPO EDITORIAL