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Mostrando postagens de 2009

DURANTE AS FÉRIAS: DUAS NOTAS SOBRE O COTIDIANO (Thomas Ferrari Ballis)

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O Equívoco, a Verdade e o Lixo

Estive de férias durante os últimos dez dias. Fui para bem longe de São Paulo, precisamente em Belém, capital do Estado do Pará. Pensei que assim poderia manter minha mente longe de São Paulo, do trabalho e da Psicanálise. Não sei dizer se tive sucesso. Apesar da riqueza de minha expedição “antropológico-gastronômica”, por vezes tropeçava em pensamentos sobre fatos que ocorreram e continuam ocorrendo em São Paulo, e no Brasil em geral.
Sempre desconfio de ensaios onde psicanalistas discorrem sobre fatos mundanos, que estão fora da “morada do analista”, como dizia Fabio Herrmann. A desconfiança é um bom indicativo de hipótese diagnóstica, mas deixarei a minha para outra ocasião, ou para outra morada. Confesso também que já vi ensaios belíssimos de psicanalistas sobre fatos cotidianos. Tentarei fazer o meu aqui. No máximo dirão “Meu caro, as coisas não são bem assim, estude mais alguns anos”. Mas vamos lá, chega de resistir.

No primeiro semestre deste ano a S…

KOGAL: CHAPEUZINHO VERMELHO CONTEMPORÂNEO (Diego Tiscar)

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"Envergonhar-se da nossa imoralidade é um degrau na escada, em cujo extremo, se tem também vergonha da nossa moralidade"
(Nietzsche)

Este Ensaio tem por objetivo discutir a possibilidade de compreensão do Fetichismo nos tempos atuais, utilizando-se da imagem de uma personagem feminina contemporânea – a Kogal.

A idéia do fetiche é comum a todos os campos do saber. Freud a abordou com especial atenção. Tendo destaque especial nas sessões da Sociedade Psicológica Das Quartas-Feiras, Freud apontou o tema em diversos ensaios. Mas foi apenas com a introdução do termo Renegação (Verleugnung), em 1923, que Freud deu contornos definitivos a sua Teoria sobre o Fetiche[1].
A conotação do termo Verleugnung, em alemão, remete a uma ambiguidade entre verdade e mentira - tal sentido perde seu significado ao ser traduzido para o português[2]. A Renegação é um mecanismo de clivagem do Eu voltado para a Perversão, através do qual o indivíduo faz com que coexistam duas realidades contraditórias: a…

PSICOPATOLOGIA DA VIDA CONTEMPORÂNEA: VINHETA ACERCA DO “VI” MANDAMENTO (Marcos InHauser Soriano)

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ATO I: A Comédia
Segunda-feira, 06h30min. Toca o despertador para mais uma semana que se inicia. Em frente ao espelho do banheiro, a barba mal-feita é roçada com as mãos... O cabelo desencontrado ainda pelas marcas do travesseiro. Enquanto procuro encontrar-me na imagem refletida, lembro dos melhores lances do jogo de futebol de ontem... Campeonato Inglês... O Manchester United emplacou três pinturas na rede do adversário. Assisti ao jogo vestido com a camisa do Manchester... Parecia estar no Old Trafford, o “Teatro Dos Sonhos”. Barba feita, banho tomado, café com cigarro engolido as pressas (como sempre), o Consultório chega ao Analista. Aproximadamente vinte degraus que levam à cafeteira na Cozinha... A Sala de Espera aconchegando-se entre os dois – pois que esta história já faz tempo, passado em que o Consultório tinha degraus e cafeteira. Um pouco mais de café? Outro cigarro!!! Café com cigarro, dizem, faz mal à Saúde. Segunda-feira, 08h15min. Acorda-me a campainha. Vou conhecer o Sr…

ENTRE AS TRIPAS E O CORAÇÃO: O SUJEITO DA LUTA ANTI-MANICOMIAL (Juan Salazar)

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Trabalho apresentado no Evento Comemorativo do Dia da Luta Anti-manicomial - “Direitos Humanos e Loucura” -, realizado na Universidade Braz Cubas (UBC) de Mogi das Cruzes, em maio de 2009.
I

Toda luta envolve sempre uma noção de combate e enfrentamento, passa pela idéia de sobrevivência de um ser e, em alguns casos, a luta envolverá armas, guerra e uma batalha altamente corporal que culminará no derramamento de sangue.
A luta é também luta da fala, luta do distanciamento entre idéia e coisa, luta por uma tentativa vã de dar conta do humano, daquilo sem nome em nós. Diria Drummond[1] que

Lutar com palavras
é a luta mais vã.

Pois então, é primeiramente sobre o Campo da Palavra que eu gostaria de me deter, para daí então, angariar um Sujeito. Falarei de Luta Anti-manicomial, de Sujeito, Poesia e Palavra. Falarei da luta corporal das Instituições. Falarei do Luto.

Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não tem carne e sangue
entretanto luto.

Drummond visitado novamente, que aqui nos mostra a luta enqu…

VINI: UM OLHAR A MAIS (Silvia Cafaro Furlani)

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Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente...
(Fernando Pessoa)

Eu andava meio perdida naquele hospital. Tantas coisas a aprender, sufocada por notas, competições, contradições e muita gente doente, carente, sufocada também.
Eu e meus pacientes tínhamos algo em comum nesse momento: o sufocamento, como um parto prestes a acontecer, com toda sua dor, angústia e beleza.
Eu trabalhava com as gestantes de alto-risco que tinham para mim um significado e uma carga a mais: eram cardiopatas, traziam em si a vida e a morte presentes em todos os instantes de presença naquele hospital. Eram mães especiais e com suas próprias contradições. Até que um dia desse longo e intenso ano encontrei com Anita que, à parte seu problema cardíaco, tinha uma doença rara, degenerativa, caracterizada por uma desordem genética, causadora de tumores benignos em órgãos internos e ou…

NOTAS SOBRE UM FILME (Fabrício Neves)

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Simplesmente Feliz” (Happy-Go-Lucky) de Mike Leigh, é provocador e disruptivo, na medida em que nos propõe um olhar sobre a vida e seus acontecimentos no mínimo pouco habitual para os tempos atuais. Através da personagem central vamos nos deparando com episódios banais do cotidiano que, se não fossem pela forma como a protagonista os conduz, quase não nos provocaria uma reflexão.
A cena com que somos presenteados logo nos momentos iniciais do filme já anuncia o perfil de nossa heroína que, ao deixar sua bicicleta “incrementada” presa (ou encostada?) a uma grade na rua, para flanar por uma feira e acabar entrando em uma livraria, percebe ao voltar, que sua bicicleta foi roubada. O que torna tudo mais curioso é que na cena anterior ela diz ao livreiro carrancudo que não tinha roubado nada...
Sua reação ao constatar o roubo - pelo menos do ponto de vista expressivo, ou seja, a surpresa da constatação -, parece que poderia ser a de muitos de nós, pobres mortais, mas seu comentário, ou melho…

PULSÃO (Mariana Giorgion)

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“A teoria das pulsões é, por assim dizer, a nossa mitologia. As pulsões são seres míticos, grandiosos na sua indeterminação” (Freud, 1932)

Prá começar, eu nem deveria estar aqui... Não agora... Não hoje. Mas não deu para segurar. Tanta angústia, dor. Não... A dor é porque faço... Dói a cabeça pensar, escrever. Mas não, estava doendo antes... A idéia, a vontade... Então eu cedo, sem saber por que, na esperança de que passe.

Consegui entrar. Enganei todo mundo. Eles acham que eu sei. Mas ele, o professor, esse fica em dúvida o tempo todo. Fica testando. Acho que ele desconfia. Mas eu engano bem e chego. Na aula, psicanálise... lingüística. Será um monte de significados diferentes para os mesmos significantes? Ou os mesmos significados, agora nomeados de outra forma? Vou tropeçando, mas entendendo essa nova forma de falar, essa Psicanálise com outro sotaque. Lembro de Fabio Herrmann: “a verdade não está aqui nem lá, campos distintos pedem distintas teorias[1]”... Me acalmo.
Mas dura pouco. …

O PODER DA ANÁLISE (Sara Costa Andreozzi)

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A Psicanálise é um fantástico Método para se entrar em contato com a diversidade da Psique Humana, com todos os seus disfarces, desvios e acessos ao mundo dos possíveis.
A Psicanálise fornece ao analista um imprescindível arsenal de perguntas que exigem muita reflexão e investigação clínica. Não há script, cada sessão é única e cada detalhe faz toda a diferença.
A Teoria dos Campos fornece asas para que o analista voe alto junto com seu paciente, sem que estes saiam do chão. É um caminhar construído a cada toque interpretativo, cada gesto, caras e bocas ... interpretações, vórtices, rupturas de campo ...
Algo surpreendente acontece em Análise, isto é real para o par analítico. O foco vai além da melhora da qualidade de vida, pois se trata da própria vida.
Nada raro ouvir que no começo do Processo Analítico, a vida do paciente era cinza, triste, e que com tantos momentos compartilhados naquela sala, o cenário já não é mais o mesmo. Mudaram-se os textos, os atores, o figurino... e o pacient…

UM MUNDO A CADA PORTÃO (Thomas Ferrari Ballis)

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A casa do Seu João, meu vizinho da direita, possui um portão de ferro, baixinho, daqueles que vem no máximo à altura do peito, com aberturas entre as finas barras de ferro que tornam livre o acesso de gatos errantes da vizinhança, especialmente o gato do Seu João. Após o almoço, o próprio Seu João vem ocupar um lugar estratégico junto ao seu portão. Pousa calmamente seus cotovelos e com o cigarro devidamente encaixado no canto da boca, curte seus tragos e atravessa tardes a apreciar as moças bonitas que passam pela rua.

Dona Ana, a italiana, uma velhinha gorducha e atarracada, é minha vizinha do lado esquerdo. O portão de sua casa é daqueles eletrônicos, inteiramente de alumínio, e pintado de um negro fosco. As poucas aberturas na parte superior do portão dão a Dona Ana o direito a poucas horas do sol da manhã. Os raios solares são recebidos com furor pelas duas samambaias do quintal, que parecem saber o tempo exato de início e fim do banho de luz. As 11h30min da manhã as samambaias já…

QUEM SOU EU NESTE DIVÃ? (Lourdes T. Tozetti)

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No meu solipsismo, insisto e não desisto:
Quem é este Eu (in)deter(minado) que urge, mas não surge.
Quer se fazer presente, até então supostamente ausente.
É todo onipotente e onipresente.
Escondido na sombra de meu Ser.
E lá, à minha frente, está o divã e este Eu:
Instável e nada amável,
Indomado, assustado, abalado, malfadado e aprisionado,
Que quer, não só aparecer com naturalidade,
como também parecer com algo coerente, pois se sabe incoerente,
com algo perfumado, pois se sente mal cheiroso,
incongruente, incapaz, inóspito e, assim, inconformado.
É um Eu embaraçoso, vergonhoso e aparentemente pecaminoso.

Que lógica é esta que o faz existir e resistir ao mesmo tempo?
Ele aparece e desaparece. É intenso, talvez hipertenso...
Ele vive brincando com minhas emoções e divagações.
Quer fazer graça e esqueceu a piada.
Quer fazer desgraça e esqueceu a tragédia.
É não-dito e quer se fazer inédito.
Fica nas entrelinhas, esperando, graciosamente, ser capturado
E afagado. Ser aceito e aplaudido.
Foi rechaçado e fi…

EDITORIAL 2009

Enfim... Nasce a REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE. Após o germinar de uma pequena idéia desenvolvida nos Saraus e nas Reuniões Clínicas aos Sábados (pelo Instituto Vórtice de Psicanálise), é com muita satisfação que redigimos este Editorial. A REVISTA tem como objetivo principal promover um Espaço de Interlocução para todos os interessados no infinito desenvolvimento da Psicanálise (com "P" maiúsculo), no intuito de situá-la em seu lugar de direito - o de Ciência Geral da Psique. Que possamos juntos explorar, investigar e escrever Psicanálise, mesmo - e talvez, principalmente - para além do restrito espaço no qual Ela se deixou capturar, levando nosso divã simbólico para onde ele não parece estar e nem ter lugar. Que possamos, desejosos que estamos, utilizá-la como instrumento de estudo de toda e qualquer Produção do Humano. Para que, realizando a Arte da Interpretação, rompermos os Campos de Sentido, fazendo com que surja, não Certezas, mas Dúvidas e Questionamentos produtivos. S…