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Mostrando postagens de Abril, 2009

NOTAS SOBRE UM FILME (Fabrício Neves)

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Simplesmente Feliz” (Happy-Go-Lucky) de Mike Leigh, é provocador e disruptivo, na medida em que nos propõe um olhar sobre a vida e seus acontecimentos no mínimo pouco habitual para os tempos atuais. Através da personagem central vamos nos deparando com episódios banais do cotidiano que, se não fossem pela forma como a protagonista os conduz, quase não nos provocaria uma reflexão.
A cena com que somos presenteados logo nos momentos iniciais do filme já anuncia o perfil de nossa heroína que, ao deixar sua bicicleta “incrementada” presa (ou encostada?) a uma grade na rua, para flanar por uma feira e acabar entrando em uma livraria, percebe ao voltar, que sua bicicleta foi roubada. O que torna tudo mais curioso é que na cena anterior ela diz ao livreiro carrancudo que não tinha roubado nada...
Sua reação ao constatar o roubo - pelo menos do ponto de vista expressivo, ou seja, a surpresa da constatação -, parece que poderia ser a de muitos de nós, pobres mortais, mas seu comentário, ou melho…

PULSÃO (Mariana Giorgion)

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“A teoria das pulsões é, por assim dizer, a nossa mitologia. As pulsões são seres míticos, grandiosos na sua indeterminação” (Freud, 1932)

Prá começar, eu nem deveria estar aqui... Não agora... Não hoje. Mas não deu para segurar. Tanta angústia, dor. Não... A dor é porque faço... Dói a cabeça pensar, escrever. Mas não, estava doendo antes... A idéia, a vontade... Então eu cedo, sem saber por que, na esperança de que passe.

Consegui entrar. Enganei todo mundo. Eles acham que eu sei. Mas ele, o professor, esse fica em dúvida o tempo todo. Fica testando. Acho que ele desconfia. Mas eu engano bem e chego. Na aula, psicanálise... lingüística. Será um monte de significados diferentes para os mesmos significantes? Ou os mesmos significados, agora nomeados de outra forma? Vou tropeçando, mas entendendo essa nova forma de falar, essa Psicanálise com outro sotaque. Lembro de Fabio Herrmann: “a verdade não está aqui nem lá, campos distintos pedem distintas teorias[1]”... Me acalmo.
Mas dura pouco. …

O PODER DA ANÁLISE (Sara Costa Andreozzi)

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A Psicanálise é um fantástico Método para se entrar em contato com a diversidade da Psique Humana, com todos os seus disfarces, desvios e acessos ao mundo dos possíveis.
A Psicanálise fornece ao analista um imprescindível arsenal de perguntas que exigem muita reflexão e investigação clínica. Não há script, cada sessão é única e cada detalhe faz toda a diferença.
A Teoria dos Campos fornece asas para que o analista voe alto junto com seu paciente, sem que estes saiam do chão. É um caminhar construído a cada toque interpretativo, cada gesto, caras e bocas ... interpretações, vórtices, rupturas de campo ...
Algo surpreendente acontece em Análise, isto é real para o par analítico. O foco vai além da melhora da qualidade de vida, pois se trata da própria vida.
Nada raro ouvir que no começo do Processo Analítico, a vida do paciente era cinza, triste, e que com tantos momentos compartilhados naquela sala, o cenário já não é mais o mesmo. Mudaram-se os textos, os atores, o figurino... e o pacient…

UM MUNDO A CADA PORTÃO (Thomas Ferrari Ballis)

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A casa do Seu João, meu vizinho da direita, possui um portão de ferro, baixinho, daqueles que vem no máximo à altura do peito, com aberturas entre as finas barras de ferro que tornam livre o acesso de gatos errantes da vizinhança, especialmente o gato do Seu João. Após o almoço, o próprio Seu João vem ocupar um lugar estratégico junto ao seu portão. Pousa calmamente seus cotovelos e com o cigarro devidamente encaixado no canto da boca, curte seus tragos e atravessa tardes a apreciar as moças bonitas que passam pela rua.

Dona Ana, a italiana, uma velhinha gorducha e atarracada, é minha vizinha do lado esquerdo. O portão de sua casa é daqueles eletrônicos, inteiramente de alumínio, e pintado de um negro fosco. As poucas aberturas na parte superior do portão dão a Dona Ana o direito a poucas horas do sol da manhã. Os raios solares são recebidos com furor pelas duas samambaias do quintal, que parecem saber o tempo exato de início e fim do banho de luz. As 11h30min da manhã as samambaias já…

QUEM SOU EU NESTE DIVÃ? (Lourdes T. Tozetti)

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No meu solipsismo, insisto e não desisto:
Quem é este Eu (in)deter(minado) que urge, mas não surge.
Quer se fazer presente, até então supostamente ausente.
É todo onipotente e onipresente.
Escondido na sombra de meu Ser.
E lá, à minha frente, está o divã e este Eu:
Instável e nada amável,
Indomado, assustado, abalado, malfadado e aprisionado,
Que quer, não só aparecer com naturalidade,
como também parecer com algo coerente, pois se sabe incoerente,
com algo perfumado, pois se sente mal cheiroso,
incongruente, incapaz, inóspito e, assim, inconformado.
É um Eu embaraçoso, vergonhoso e aparentemente pecaminoso.

Que lógica é esta que o faz existir e resistir ao mesmo tempo?
Ele aparece e desaparece. É intenso, talvez hipertenso...
Ele vive brincando com minhas emoções e divagações.
Quer fazer graça e esqueceu a piada.
Quer fazer desgraça e esqueceu a tragédia.
É não-dito e quer se fazer inédito.
Fica nas entrelinhas, esperando, graciosamente, ser capturado
E afagado. Ser aceito e aplaudido.
Foi rechaçado e fi…