17 de abril de 2009

NOTAS SOBRE UM FILME (Fabrício Neves)

Simplesmente Feliz” (Happy-Go-Lucky) de Mike Leigh, é provocador e disruptivo, na medida em que nos propõe um olhar sobre a vida e seus acontecimentos no mínimo pouco habitual para os tempos atuais.
Através da personagem central vamos nos deparando com episódios banais do cotidiano que, se não fossem pela forma como a protagonista os conduz, quase não nos provocaria uma reflexão.
A cena com que somos presenteados logo nos momentos iniciais do filme já anuncia o perfil de nossa heroína que, ao deixar sua bicicleta “incrementada” presa (ou encostada?) a uma grade na rua, para flanar por uma feira e acabar entrando em uma livraria, percebe ao voltar, que sua bicicleta foi roubada. O que torna tudo mais curioso é que na cena anterior ela diz ao livreiro carrancudo que não tinha roubado nada...
Sua reação ao constatar o roubo - pelo menos do ponto de vista expressivo, ou seja, a surpresa da constatação -, parece que poderia ser a de muitos de nós, pobres mortais, mas seu comentário, ou melhor dizendo, a forma como vai lidar com este episódio ao dizer algo como: “nem me despedi”, nos mostra uma forma de elaborar e tratar as coisas duras da vida (aqui ser roubada), com uma leveza e humor dignas de nota. Durante o desenrolar do filme veremos esta posição ser sustentada em momentos difíceis da vida de nossa Poppy.
Poderíamos encerrar a discussão tratando a personagem como uma boba, infantilizada, impressão que podemos ter no início do filme, mas que vamos perdendo na medida mesmo em que o filme vai se desenrolando e que descobrimos uma mulher nos seus trinta anos de vida.
A cena na livraria nos mostra uma moça olhando alguns livros na prateleira, com destaque especial para um livro que tem entre seu título a questão da realidade. O que ouvimos dela é um: “tô fora”. Aqui poderíamos interrogar se sua forma de levar a vida, não leva em conta a “realidade”... mas qual realidade? A do autor do livro ali destacado; a do próprio livreiro que parece não saber lidar com alguém que tenta uma aproximação; a de um certo aluno de sua classe que reflete em suas brigas com seus colegas, um certo tipo de lar padrão dos tempos contemporâneos; ou a realidade da intolerância, agressão e fúria de seu professor de direção?
Através destas e de outras cenas que se desenrolam com a nossa professora primária, vamos ficando tocados por esta forma tão peculiar de tratar e encarar a vida. Um movimento de aproximação, de leveza, de curiosidade, não sem espanto e, às vezes, até com medo (lembremos da cena com o estranho homem que encontra na rua...).
Nossa heroína não foge dos acontecimentos, ao contrário, mergulha neles. No entanto se recusa a enfrentá-los com o recurso padrão, por exemplo: a polícia que a doce amiga sugere como solução para o problema do seu professor de direção...
Em uma sociedade que trata tudo como um peso e com uma intolerância impar, fica com este filme o convite, mesmo que por algumas horas (a da duração da sessão de cinema): para que possamos ocupar um outro lugar com uma nova forma de olhar para as coisas da vida.
Isto vale o filme, e de certa forma nos lembra como deveria ser o bom andamento de uma sessão de análise.

SIMPLESMENTE FELIZ
Happy-Go-Lucky. Reino Unido, 2008.
Direção de Mike Leigh

FABRÍCIO NEVES é Psicanalista.
Email: nevesfabricio@uol.com.br