12 de abril de 2009

O PODER DA ANÁLISE (Sara Costa Andreozzi)

A Psicanálise é um fantástico Método para se entrar em contato com a diversidade da Psique Humana, com todos os seus disfarces, desvios e acessos ao mundo dos possíveis.
A Psicanálise fornece ao analista um imprescindível arsenal de perguntas que exigem muita reflexão e investigação clínica. Não há script, cada sessão é única e cada detalhe faz toda a diferença.
A Teoria dos Campos fornece asas para que o analista voe alto junto com seu paciente, sem que estes saiam do chão. É um caminhar construído a cada toque interpretativo, cada gesto, caras e bocas ... interpretações, vórtices, rupturas de campo ...
Algo surpreendente acontece em Análise, isto é real para o par analítico. O foco vai além da melhora da qualidade de vida, pois se trata da própria vida.
Nada raro ouvir que no começo do Processo Analítico, a vida do paciente era cinza, triste, e que com tantos momentos compartilhados naquela sala, o cenário já não é mais o mesmo. Mudaram-se os textos, os atores, o figurino... e o paciente, como autor da trama, consegue enxergar cores outras e se permitir desfrutar do colorido da sua própria existência. Novidade e tanto, comemorada por ambos.
Quando digo surpreendente, me refiro à Transferência, que é poderosa, não como algo que reduz todo o Método e a Técnica a um artifício fácil ou idealizado. Pelo contrário, é um turbilhão de emoções envolvidas, atrelado à reciprocidade e confiança, sendo preciso muito tato, pois tanta força tem semelhante capacidade de Curar, ou seja, cuidar do Desejo. Assim, percorremos os becos, os quartos escuros da Psique, guardiões de segredos muitas vezes inconfessáveis para o próprio autor da história.
Analogamente podemos comparar o Processo Analítico a uma rosa. Existem pessoas que só conseguirão enxergar os espinhos, outras se queixarão por um longo tempo de sempre se ferirem, outras não conseguirão esquecer a picada e a dor causada.
O caminhar da Análise se faz através do acolhimento de incontáveis dores, mas também de coragem para suportar os espinhos, com o intuito de não causarem tantos danos e não impedirem o paciente de enxergar outras possibilidades de Eus, na melhor das hipóteses... E o analista torce fervorosamente para isso. Também há aqueles que conseguirão agregar os espinhos a um grande aprendizado de vida, nomeando como amadurecimento ou evolução, encantando-se com a beleza da flor, embriagando-se com seu sutil perfume e enamorando-se com a textura lisa e frágil das pétalas. Pode-se ir além, utilizando a rosa para enfeitar os cabelos, fazendo as pazes com a sua feminilidade negligenciada... enfeitar seu ambiente ou expressar sentimentos. Ah, como é bom...
Isso é arte, é poesia psicanalítica (como chamo carinhosamente a Teoria dos Campos), é o ser e o estar ali, presente de corpo e alma, momento certo de socorro de quem procura a Análise como um grito de desespero que se ouve longe... Uma tábua de salvação na qual se agarra com toda a força e que apontará direções a seguir. Mas os rumos da Análise, somente a maré de cada encontro poderá ser capaz de traçar. Não nos é possível saber antes, nem para o analista e muito menos para o paciente. Só depois.
Torcemos então para que o Destino esteja na maior parte do tempo ao nosso favor, com a consciência de que às vezes perdemos, mas com a certeza de que outras vezes ganhamos.
A demanda de toda Análise, claro, é sempre de amor e o paciente sabe que naquele momento há alguém disposto a mergulhar consigo, “dois loucos” ignorando os riscos e os perigos... Segurar sua mão no escuro para alcançar o baú dos desejos e segredos com tantas histórias e fantasmas assustadores, e sentir que é provavelmente uma das poucas verdades que realmente se pode acreditar, pois estão ali unidos para se aventurar no labirinto das lembranças, no quebra-cabeças dos sentimentos e pensamentos mais estranhos e confusos. Desafio e tanto que poucos aceitariam. E, se por algum momento surgir o temor do desamparo, ter o alívio acalentador da plena confiança de ser beneficiário de carinho e constante atenção por parte do analista, para que os vários Eus possam sempre se expressar... se surpreender com a firmeza de cada passo conquistado na difícil trajetória e, assim como um animal, descobrir abismado que possui garras, elas existem e não há nada de errado com isso... Podem ser usadas e podem lhe ser muito úteis, não somente para a defesa ou ataque, mas para seu prazer.


Sara Costa Andreozzi é Psicóloga Clínica. Estudiosa da Teoria dos Campos pelo Instituto Vórtice de Psicanálise.
São Paulo, SP
Tel - (011) 9733-2047
Email -
sarapsi@yahoo.com.br
Blog -
www.sarapsi.zip.net