14 de abril de 2009

PULSÃO (Mariana Giorgion)

“A teoria das pulsões é, por assim dizer, a nossa mitologia. As pulsões são seres míticos, grandiosos na sua indeterminação” (Freud, 1932)

Prá começar, eu nem deveria estar aqui... Não agora... Não hoje. Mas não deu para segurar. Tanta angústia, dor. Não... A dor é porque faço... Dói a cabeça pensar, escrever. Mas não, estava doendo antes... A idéia, a vontade... Então eu cedo, sem saber por que, na esperança de que passe.

Consegui entrar. Enganei todo mundo. Eles acham que eu sei. Mas ele, o professor, esse fica em dúvida o tempo todo. Fica testando. Acho que ele desconfia. Mas eu engano bem e chego. Na aula, psicanálise... lingüística. Será um monte de significados diferentes para os mesmos significantes? Ou os mesmos significados, agora nomeados de outra forma? Vou tropeçando, mas entendendo essa nova forma de falar, essa Psicanálise com outro sotaque. Lembro de Fabio Herrmann: “a verdade não está aqui nem lá, campos distintos pedem distintas teorias
[1]”... Me acalmo.
Mas dura pouco. Ele me vê na sala. “A próxima aula é sua. Quero que você fale sobre pulsão”. E eu, que não sei do que sei, não acredito que sei e sei da minha necessidade de acertar, me comporto como rege a (com)pulsão (à repetição): entro em pânico.

Peço socorro ao Fabrício (lembra?). Ele, que sabe tanto de Freud e de mim, vai ajudar. E ajuda. Diz que existem mais de 45 nomes diferentes para o tal Conceito, que Freud mudou três vezes a dita Teoria, que já realizaram Simpósios com Mega Psicanalistas de todas as Escolas para discutir a tal “Pulsão de Morte”, que ainda gera controvérsia entre os teóricos da Teoria...

E começo a descobrir...

Fabrício me conta que o primeiro contato de Freud com o Conceito Trieb é através da leitura de um Ensaio de Schiller, datado de 1780, que contém o seguinte parágrafo: "As pulsões animais despertam e desenvolvem as pulsões intelectuais“. No Vocabulário da Psicanálise
[2] leio que é possível também encontrar referências de Freud (1899) ao poema de Schiller, "Os sábios do mundo", onde consta "a influência dos dois mais poderosos motivos (Triebferden), a fome e o amor". A palavra Trieb mesmo, só surge na teoria freudiana em 1905. Porém desde seus Textos mais primórdios (“Sobre as Afasias” de 1895, ou “Projeto para uma Psicologia Científica” de 1896), vemos referências a idéia de Pulsão, como uma distinção entre dois tipos de excitações no sistema nervoso: externas, às quais o indivíduo pode fugir ou proteger-se; ou internas, portadoras constantes de um afluxo de excitação da qual não se pode escapar, fator propulsor do funcionamento do aparelho psíquico.

É na descrição da Sexualidade Humana que Freud esboça pela primeira vez sua noção de Pulsão
[3], passando a ver a sexualidade como uma abertura do sistema nervoso para algo diferente dos fatores orgânicos, como, por exemplo, as influências relacionais.

Segundo Freud, a Pulsão é inata e programada a disparar em determinados momentos (fases do desenvolvimento psicossexual) e a parte psíquica da Pulsão é a Fantasia (conceito introduzido em 1908), já que a pulsão é limítrofe entre o orgânico e o psíquico.

As coisas estão fluindo, mas eu ainda me (pré)ocupo e (pós)ocupo com o Tema. O cara (editor) da edição Standard das Obras de Freud, que traduziu do alemão para o inglês, jura que o melhor significado para o termo Trieb é “instinto”. Mas hoje em dia todo mundo diz que é Pulsão. O Luís Hans (colega de sala do meu professor) está até refazendo a tradução das obras de Freud, agora direto do alemão para o português, e mudou inteirinho o Capítulo, que antes era “O instinto e suas Vicissitudes” e agora é “A pulsão e os Destinos da Pulsão” (Freud, 1915). Não vai ter jeito. Alguém vai falar disso e eu, no lugar de quem sabe, e no lugar que estou, vou ter que saber. Melhor preparar a resposta:
- A Pulsão freudiana se diferencia dos conceitos de Instinto da biologia por quatro características, sendo:
a) Pressão: própria essência da Pulsão. A quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa;
b) Finalidade: é sempre a satisfação, porém existem as finalidades próximas ou intermediárias que proporcionam a satisfação parcial;
c) Objeto: através do qual a Pulsão atinge a sua finalidade. É o que há de mais variável na Pulsão;
d) Fonte: processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo, e cujo estímulo é representado na vida mental por uma Pulsão.

Acho que por hora resolve. Mas é de Freud que se trata, e em 10 anos ele resolve reinventar a roda que ele mesmo inventou, ou a Pulsão. Em 1915
[4] inaugura a idéia do caráter dualista da Pulsão, baseado na hipótese de que o que causa as afecções nervosas (neurose histérica e obsessiva) é o conflito existente entre as Pulsões do Ego (ou de autopreservação) e as Pulsões Sexuais. As Pulsões Sexuais seriam caracterizadas por serem numerosas, terem uma grande variedade de fontes orgânicas, serem inicialmente independentes uma das outras, mas posteriormente atingirem uma síntese - inicialmente buscarem o prazer do órgão, mas quando atingem a síntese destinam-se a reprodução e podem ser identificadas como Pulsões Sexuais. Originam-se nas Pulsões de Autopreservação e seguem as Pulsões do Ego na escolha objetal e mudam prontamente de objeto, podendo se distanciar drasticamente de seus destinos originais (sublimação).
Freud também diz que as Pulsões Sexuais são parciais, funcionando primeiro independentemente e depois tendendo a uma síntese, que deve ser alcançada na puberdade e diferenciam-se pela fonte (Pulsão oral, anal, genital) e pela meta (Pulsão de olhar, Pulsão de dominação).

Outra reviravolta marca a história da Psicanálise e em 1920
[5] Freud revê a Teoria Pulsional, mantendo o seu caráter dualista, porém reescrevendo a rota e o destino das pulsões humanas. O conflito pulsional não se localiza mais entre as Pulsões de Autoconservação/Ego e Sexuais, mas entre Pulsões de Vida e Pulsões de Morte. A Inversão está no próprio princípio da organização pulsional. A Pulsão de Morte é desagregada e desagregadora, tendendo ao princípio de inércia. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Ela contém em sua composição as pulsões agressivas/destrutivas com destinos externos e internos; enquanto a Pulsão de Vida passa a abranger as pulsões de autoconservação, tendendo agora à unidade e manutenção da unidade psíquica e física.

Freud morre exilado por Hitler, em 1939, aos 82 anos. Seu Conceito de Pulsão, assim como toda sua Obra, gera movimentos intensos, verdadeiros vórtices. Para algumas brilhantes açougueiras - parafraseando Lacan -, a Pulsão de Morte é a própria regência do psiquismo. Para outros franceses, pouco afeitos ao afeto, esse circuito pulsional todo só pode ser acionado na presença de um Outro, porque o Inconsciente se estrutura como uma Linguagem. Outros ingleses preferem não acreditar na destrutividade humana, aferindo a tendência criativa que só precisa ser facilitada.

Já eu, estou aqui, tomada por minhas pulsões, que guiam, dirigem, me levam, me curvam e transbordam ao longo e ao largo desse texto. Se não cumpro o papel de esclarecer conceitualmente a Teoria Pulsional de Freud, me coloco, de corpo e alma, como testemunho dessa energia, que flui e causa, agora alocada, dirigida e sublimada, em mais uma tosca tentativa de aplacar a Angústia.


NOTAS
[1] Herrmann, F. O Divã a Passeio. Editora Brasiliense, 1992.
[2] Laplanche e Pontalis. Vocabulário da Psicanálise. Martins Fontes, 1991.
[3] Freud, S. (1905) Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Edição eletrônica. 2002.
[4] Freud, S. (1915) O Instinto e suas vicissitudes. Edição eletrônica. 2002.
[5] Freud, S. (1920) Além do princípio do prazer. Edição Eletrônica. 2002.

MARIANA GIORGION é Psicanalista. Membro do Instituo Vórtice de Psicanálise.
Av. João Carlos da Silva Borges, 101 (sl.02) - Santo Amaro
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