7 de abril de 2009

QUEM SOU EU NESTE DIVÃ? (Lourdes T. Tozetti)


No meu solipsismo, insisto e não desisto:
Quem é este Eu (in)deter(minado) que urge, mas não surge.
Quer se fazer presente, até então supostamente ausente.
É todo onipotente e onipresente.
Escondido na sombra de meu Ser.
E lá, à minha frente, está o divã e este Eu:
Instável e nada amável,
Indomado, assustado, abalado, malfadado e aprisionado,
Que quer, não só aparecer com naturalidade,
como também parecer com algo coerente, pois se sabe incoerente,
com algo perfumado, pois se sente mal cheiroso,
incongruente, incapaz, inóspito e, assim, inconformado.
É um Eu embaraçoso, vergonhoso e aparentemente pecaminoso.

Que lógica é esta que o faz existir e resistir ao mesmo tempo?
Ele aparece e desaparece. É intenso, talvez hipertenso...
Ele vive brincando com minhas emoções e divagações.
Quer fazer graça e esqueceu a piada.
Quer fazer desgraça e esqueceu a tragédia.
É não-dito e quer se fazer inédito.
Fica nas entrelinhas, esperando, graciosamente, ser capturado
E afagado. Ser aceito e aplaudido.
Foi rechaçado e ficou entalado.

Ele consegue que, aos poucos, eu o vá reconhecendo.
Talvez meio encabulado, mal arquivado, mas não
Malfadado e mitigado como vinha até então.
Sou só mais este Eu que rompe neste rico divã,
Que não economiza para que seja mais conhecido.
E não sofra mais das intempéries de minha má
Interpretação a que outrora havia sido destinado.
E neste agora, posso contatá-lo, conectá-lo e dizer
Acolhedoramente: Sou só mais um Eu entre tantos
Eus possíveis.


Lourdes T. Tozetti é Psicóloga com ênfase em Psicanálise
São Paulo, SP
Email - lounew@gmail.com