8 de abril de 2009

UM MUNDO A CADA PORTÃO (Thomas Ferrari Ballis)


A casa do Seu João, meu vizinho da direita, possui um portão de ferro, baixinho, daqueles que vem no máximo à altura do peito, com aberturas entre as finas barras de ferro que tornam livre o acesso de gatos errantes da vizinhança, especialmente o gato do Seu João. Após o almoço, o próprio Seu João vem ocupar um lugar estratégico junto ao seu portão. Pousa calmamente seus cotovelos e com o cigarro devidamente encaixado no canto da boca, curte seus tragos e atravessa tardes a apreciar as moças bonitas que passam pela rua.

Dona Ana, a italiana, uma velhinha gorducha e atarracada, é minha vizinha do lado esquerdo. O portão de sua casa é daqueles eletrônicos, inteiramente de alumínio, e pintado de um negro fosco. As poucas aberturas na parte superior do portão dão a Dona Ana o direito a poucas horas do sol da manhã. Os raios solares são recebidos com furor pelas duas samambaias do quintal, que parecem saber o tempo exato de início e fim do banho de luz. As 11h30min da manhã as samambaias já esperam ansiosamente pelo sol do dia seguinte, claro, se ele resolver aparecer. A Dona Ana mesmo é muito difícil de ver, assim como o sol das samambaias, ela aparece sorrateiramente no portão, e some rapidinho.

Propus-me a investigar os motivos de tamanha disparidade entre os portões de casas vizinhas e no final de semana aproveitei que Seu João estava no seu ritual vespertino de apreciação de moças e perguntei – “Seu João, por que seu portão é diferente do portão da Dona Ana?” Seu João hesitou a princípio, mas logo percebeu que se tratava de uma pesquisa séria de minha parte - “Olha! Eu não sei porque o portão dela é diferente, mas eu gosto do meu assim, é baixinho, dá pra se apoiar e olhar a rua. O sol bate logo cedinho lá na janela da sala e você sabe né... é bom pra apreciar as mocinhas”.

E no mesmo dia, intrigado com tamanha fundamentação e embasamento da resposta de Seu João, consegui abordar Dona Ana, que saía de sua casa a passeio com Trovão, seu minúsculo e barulhento cachorro. Aproximei-me sem delongas e perguntei - “Dona Ana por que seu portão é tão diferente do portão do Seu João?” - “Mas que pergunta é essa rapaz?" questionou meio confusa, enquanto Trovão mostrava-me ferozmente seus dentes em pose de cão de guarda. Depois Sorriu, tateou um pouco e respondeu - “Você acha que pode?!? Neste lugar que a gente vive? Cheio de bandido entrando na casa dos outros, de noite é um vai e vem de gente usando droga aqui, imagine com um portão baixinho daquele, como fica fácil de entrar...hoje em dia não se pode bobear não, você não assiste televisão?

Após refletir seriamente sobre o material dos participantes da minha intrigante pesquisa de uma pergunta só, descobri algo realmente valioso. Ambos vizinhos tinham razão, ambos contaram a verdade e utilizaram sem economia todo seu sólido conhecimento do bairro onde moramos. Apesar disso, descobri que os dois viviam em mundos completamente diferentes, por mais próximas que fossem suas casas. Na rua de um passavam moças bonitas, na da outra, drogados e bandidos. Em um dos quintais o sol era esperado, e por isso chegava cedo, depois passava no outro quintal pra visitar as samambaias, mas só uma visitinha.

Descobri que a quantidade de sol e segurança depende do mundo em que se vive, e naquele final de semana me organizei um pouco. Senti a necessidade de mudanças para o ano novo, que já despontava no horizonte. Já pensava em trocar o meu portão e viver em outro mundo.


Thomas Ferrari Ballis é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise
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