26 de maio de 2009

VINI: UM OLHAR A MAIS (Silvia Cafaro Furlani)

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente...
(Fernando Pessoa)

Eu andava meio perdida naquele hospital. Tantas coisas a aprender, sufocada por notas, competições, contradições e muita gente doente, carente, sufocada também.
Eu e meus pacientes tínhamos algo em comum nesse momento: o sufocamento, como um parto prestes a acontecer, com toda sua dor, angústia e beleza.
Eu trabalhava com as gestantes de alto-risco que tinham para mim um significado e uma carga a mais: eram cardiopatas, traziam em si a vida e a morte presentes em todos os instantes de presença naquele hospital. Eram mães especiais e com suas próprias contradições.
Até que um dia desse longo e intenso ano encontrei com Anita que, à parte seu problema cardíaco, tinha uma doença rara, degenerativa, caracterizada por uma desordem genética, causadora de tumores benignos em órgãos internos e outros tantos tormentos que Anita tão bem conhecia.
Vini, seu primogênito, estava para nascer.
Não mais que de repente, ao atender Anita virei sensação em minha ala. Fui procurada pelo médico geneticista, por supervisoras, enfermeiras, todos queriam saber a respeito da “paciente da doença rara”.
Fiquei atenta ao olhar de Anita, pois este sim era o que importava para mim. Tão jovem e com tanta coisa a carregar nessa vida de quem “mora longe”, é pobre, doente e vai ser mãe de outro “serzinho” que vai morar longe e ser doente.
O dia chegou e Vini veio ao mundo. Lindo, com bom peso e um tumor enorme grudadinho em seu coração. Vini tinha herdado a doença da mãe.
Anita teve alta e deixou seu menino para trás, aos cuidados dos médicos e enfermeiros. Antes de nos despedirmos ela pediu: “Você vem olhar o Vini todos os dias por mim?"
Promessa é promessa, e todos os dias eu me encaminhava ao berçário para “olhar” o Vini; mesmo que a médica pedisse: “Fale com Anita, ela tem de se preparar para o pior, ela tem muita esperança, conversa com Vini como se ele fosse para casa e o estado dele é muito grave!".
Anita era surda para tais “conversas”. Era apenas uma mãe que queria levar seu bebê para casa e poder enfim “olhar” para ele o quanto quisesse.
Aquele bebê tão lindo a princípio, foi enfeiando, enfeiando, judiado com tantos procedimentos necessários à sua sobrevivência, mas sempre com o olhar de esperança de sua mãe, que vinha visitá-lo sempre que podia, e o meu que cumpri à risca minha promessa.
Vieram muitas intervenções, olhares, feriados e fins-de-semana.
Naquela segunda-feira dirigi-me como de costume ao berçário. Ao chegar perto da incubadora onde Vini ficava notei que estava vazia. Fui invadida por uma tremenda angústia, corri até o posto de enfermagem e pedi notícias de Vini, a enfermeira me informou de maneira um tanto formal: “Ele teve alta ontem!".
Como compreender o ocorrido com Vini? A surpresa tomou conta de todos que acompanharam o caso. Foi a dedicação dos médicos? Das enfermeiras? Ou foi o olhar de sua mãe que se negava a entregá-lo para a morte antes da vida? Será que meu olhar contribuiu?
Tenho pensado muito no saber popular, seus ditos, frases fortes, que em momentos angustiantes nos ajuda a olhar o mundo de um modo mais tranqüilo e benevolente, um desses ditos nos ensina: “Às vezes um olhar vale mais do que mil palavras”. E Vini foi com sua mãe para casa.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Pessoa, F. (1981). Análise. In Pessoa, F. Obra Poética. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar S. A., (8ª edição) p. 40.

SILVIA CAFARO FURLANI é Psicóloga.
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Tel.: 2965.7261
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