16 de junho de 2009

PSICOPATOLOGIA DA VIDA CONTEMPORÂNEA: VINHETA ACERCA DO “VI” MANDAMENTO (Marcos InHauser Soriano)

ATO I: A Comédia

Segunda-feira, 06h30min. Toca o despertador para mais uma semana que se inicia. Em frente ao espelho do banheiro, a barba mal-feita é roçada com as mãos... O cabelo desencontrado ainda pelas marcas do travesseiro. Enquanto procuro encontrar-me na imagem refletida, lembro dos melhores lances do jogo de futebol de ontem... Campeonato Inglês... O Manchester United emplacou três pinturas na rede do adversário. Assisti ao jogo vestido com a camisa do Manchester... Parecia estar no Old Trafford, o “Teatro Dos Sonhos”.
Barba feita, banho tomado, café com cigarro engolido as pressas (como sempre), o Consultório chega ao Analista. Aproximadamente vinte degraus que levam à cafeteira na Cozinha... A Sala de Espera aconchegando-se entre os dois – pois que esta história já faz tempo, passado em que o Consultório tinha degraus e cafeteira. Um pouco mais de café? Outro cigarro!!! Café com cigarro, dizem, faz mal à Saúde.
Segunda-feira, 08h15min. Acorda-me a campainha. Vou conhecer o Sr. Antônio. Lembro-me de estar com vontade de conhecê-lo para além da linha telefônica – “Sabe Doutor, Eu sofro dos Nervos...”.
Vinte degraus não combinam com cigarro, principalmente quando se transformam em quarenta – Ali Babá & Os Quarenta Degraus.
Sem “abra-te Vila Sésamo”, estamos tête-à-tête, Eu e o Sr. Antônio – que já foi motorista de ônibus, hoje é pedreiro/encanador/”faz-qualquer-coisa”... Eu (ainda não) sou Analista.
Antônio, pois “o Senhor está no Céu”, já vem com um Relatório. Relatório da Perícia constatando um Sujeito improdutivo, que não mais é capaz de trabalhar – “Eu não posso mais trabalhar... Sou Doente dos Nervos!”.
Sabe... Já faz tempo... Um dia no trânsito, Eu perdi a cabeça! Saí do ônibus e dei sete facadas num cabra que tava perturbando... Foram sete... E o povo aplaudindo!
Encolhido na confortável poltrona, o Analista ouvia as sete facadas. Sete facadas de um Sete Sagrado na Doença dos Nervos: “Sabe Doutor, Eu falo com os Mortos!”.
Sete facadas que saíram no jornal, viraram notícia. E os Mortos? O que falam? “Ah... Esses não me incomodam não! Meu problema é a Doença dos Nervos mesmo!
Os Mortos não fazem mal a ninguém... Diferente daquele cabra... Ele tava atrapalhando ainda mais o trânsito... Tava fazendo algazarra... Me tirou do juízo!
O Analista não diz nada; ouve uma, duas, cinco, sete; ouve o povo aplaudindo e os Mortos que falam em um trânsito atrapalhado. O Analista ouve a Doença dos Nervos: Sujeito Improdutivo Em Produção de vinhetas de um Mundo que o (nos) rodeia.


ATO II: A Tragédia
Não Matarás”, o VI Mandamento do Decálogo. O Decálogo constitui o conjunto de Leis entregues a Moises por Deus, portanto, significativa base da Instituição Humana Ocidental. “Não Matarás”, o VI Mandamento, encontra-se na base de constituição de praticamente qualquer agrupamento humano; idéia tão bem explorada, no melhor estilo de ficção freudiana, em “Totem e Tabu[1]. “Não Matarás” pode ser considerado um Tabu, em seu sentido de Lei contra o Profano (e que também o delimita e define): “interdição sagrada e divinizada, tanto mais respeitada quanto mais distante no tempo estiver sua origem e quanto mais invisível forem os poderes que o decretaram” (Chauí, M. - p.14)[2]. Ainda sobre a antropologia do Tabu, Marilena Chauí nos aponta uma interessante, intrínseca e especial característica:

A peculiaridade do pavor gerado pelo tabu está em que a morte do infrator, na maioria dos casos, não precisa sequer da intervenção física ou direta do grupo, pois o transgressor morre de culpa, medo, isolamento, loucura.”(p.14)[3] (os grifos são meus)

Fabio Herrmann denomina “Real” a Estrutura Psíquica que, para além da Instituição Humana, a sustenta, alimenta e nos cria conforme a imagem que vamos construindo do Mundo em que vivemos – “processo incessante de produção de sentido psíquico no mundo”(p.28)[4].
Em belíssimo Ensaio, “O Ato” (p.162-177)[5], Fabio Herrmann descreve uma das possibilidades da complexidade patológica em que se insere o Cotidiano Contemporâneo. Definindo o “Regime do Atentado” como Estrutura Patológica, escreve: “(...) provisoriamente, diremos apenas que não se trata da violência nem da agressividade, mas que a impotência é que está em questão” (p.164)[6] – impotência que se disfarça de onipotência. No “atentado”, busca-se ser celebridade esvaziada no Ato de Celebração da própria Impotência.

Na Humanização extrema do Mundo Moderno, Globalizado, Tecnológico e Técno-burocrata, nesse estado de Humanização Absoluta do Mundo, o modelo de Ser é o próprio Ato Humano que, ao contrapor-se ao Tabu, gera uma reação oposta de “Negação”, em uma espécie de “Tamponamento de Massa”(p.165)[7].

Aqui não há celebridade a ser idolatrada, mas sim cabeça em busca de carapuça - representação absoluta da “Loucura”, do “Asco” e do “Ridículo”, da qual nos defendemos incansavelmente através de normatizações de uma (Im)Possível Rotina Cotidiana – esta que constrói, opacifica e insere linearidade em uma Realidade à qual denominamos Cotidiano.

*

Coliseu Redivivo em Antônio. O Senhor está no Céu. Crucificação Reeditada em Antônio.

Impotência frente a um Mundo que não lhe cabe... Cabra da algazarra... Trânsito em um Mundo que já não lhe sustenta psiquicamente... Ato... Heroísmo... Disfarce de Onipotência... Aplausos do Povo... Perseguição pelas “Fúrias” do Tabu... Diálogo com os Mortos... Morte por loucura... Doença dos nervos... Condenação por impureza, por improdutividade.


ATO III: O Drama
Foram 40 minutos... Antônio se foi sem nunca mais retornar, deixando “Antônito” o Analista.
O Analista nada disse, apenas ouviu, desencaixado confortavelmente na poltrona.
Do desencontro, Sete Facas restaram, pois Antônio foi embora sem nunca mais dar sinal de vida... Ficaram-se os Mortos Falantes.
Sete Facas nas mãos ou enterradas no peito?” – pergunta o Analista. “Tanto faz como tanto fez” – respondem os Mortos – “Pois de quem são as mãos e de quem é o peito?
Santificada seja a Rotina do dia-a-dia que nos afasta, nos esconde e nos defende deste território, híbrido de infinitas possibilidades, denominado “Real”... Tão insuportavelmente Humano.
Mais um cafezinho?


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] FREUD, S. (1913/1995) Totem e Tabu. In FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2ª edição.
[2] CHAUÍ, M. (s/d) Repressão Sexual – Essa Nossa (Des)Conhecida. São Paulo: Círculo do Livro.
[3] CHAUÍ, M. – op. cit.
[4] HERRMANN, F. (1997) Psicanálise do Quotidiano. Porto Alegre: Artes Médicas.
[5] HERRMANN, F. – op. cit.
[6] HERRMANN, F. – op. cit.
[7] HERRMANN, F. – op. cit.


MARCOS INHAUSER SORIANO é Psicanalista.
Rua Tuiuti, 2530 (cj. 116) – Tatuapé
CEP 03307-000 São Paulo, SP
Tel.: 2295.4167
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com

1 de junho de 2009

ENTRE AS TRIPAS E O CORAÇÃO: O SUJEITO DA LUTA ANTI-MANICOMIAL (Juan Salazar)

Trabalho apresentado no Evento Comemorativo do Dia da Luta Anti-manicomial - “Direitos Humanos e Loucura” -, realizado na Universidade Braz Cubas (UBC) de Mogi das Cruzes, em maio de 2009.

I

Toda luta envolve sempre uma noção de combate e enfrentamento, passa pela idéia de sobrevivência de um ser e, em alguns casos, a luta envolverá armas, guerra e uma batalha altamente corporal que culminará no derramamento de sangue.

A luta é também luta da fala, luta do distanciamento entre idéia e coisa, luta por uma tentativa vã de dar conta do humano, daquilo sem nome em nós. Diria Drummond[1] que

Lutar com palavras
é a luta mais vã.

Pois então, é primeiramente sobre o Campo da Palavra que eu gostaria de me deter, para daí então, angariar um Sujeito. Falarei de Luta Anti-manicomial, de Sujeito, Poesia e Palavra. Falarei da luta corporal das Instituições. Falarei do Luto.

Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não tem carne e sangue
entretanto luto.

Drummond visitado novamente, que aqui nos mostra a luta enquanto enlutamento: Luto.

II

O nome da luta sobre qual escrevo diz-se “anti-manicomial”. O vocábulo anti-manicomial é sentido que se forma a partir de uma negação, do negar o manicomial, do não ao manicômio. O prefixo “anti” é aqui compreendido enquanto Não, negador e repelente ao manicomial.
Retomo aqui uma idéia da negação freudiana, onde se verifica que negar algo é justamente a afirmação daquilo que se pretende recalcar, e que isto não significa uma aceitação daquilo que se recalcou
[2]. Ou seja, esta oposição “manicomial x anti-manicomial”, pares opostos, acaba por se tornar uma lógica formadora de uma prática em Saúde Mental. A luta anti-manicomial é Luta, Ideologia e Prática, que se cria a partir daquilo que se pretende negar e abolir: o Manicômio.


III

Partamos agora para outra palavra: a Poesia.

Ao pensar a poesia para me auxiliar nesta investigação sobre uma luta, utilizo-a não para descrever uma determinada prática profissional em saúde, que se aproveite do objeto poesia como instrumento clínico de intervenção, mas, ao invés disso, decido falar da poesia enquanto fundadora de uma Ética, para então uma prática.

Meneses
[3] concebe que uma das principais funções da Poesia será a de nomear.

Dirá:

É assim que, colocando em palavras, nomeando emoções e situações existenciais até então inarticuladas, a literatura promove uma passagem de nosso caos de sentimentos e percepções a um cosmos, mundo organizado. Ela permite que os sentimentos passem do estado de mera emoção para o da forma construída, e é essa forma que lhe assegura sua generalidade e permanência (MENESES, 2005, p. 122).

Existe um Poema de Adélia Prado
[4] em que podemos observar isto:

ARTE
Das tripas, coração.


Neste Poema, Meneses
[5] nos mostra que a poetisa se apropria de um lugar-comum, o lugar do cotidiano, e transforma uma expressão popular (fazer das tripas coração) em poesia, inserindo um título, uma vírgula e um ponto. Transformam-se as tripas, tida como o lugar do caótico, da confusão; num coração, um órgão organizado, mas também orgânico, e que aqui se apresenta como uma metáfora, já que o coração é tido como figura do amor, da emoção e do sentimento. Podemos observar que o sentido cotidiano e popular de “coração” não está excluso da poesia, mas ganha um sentido maior e se transforma (ao prescindir das tripas), apresentando-se como um organizador dotado de um novo sentido emocional que é justamente a função poética. Observa-se também que neste processo de transformação temos literalmente uma pontuação, já que não houve inserção de palavras. Portanto, o entendimento de “arte” não é tratado como tradução da emoção pela razão (pela palavra dotada de razão): a arte é emoção organizada.

A Poesia se insere neste ensaio para tratar justamente de tripas e coração, órgãos componentes de um corpo, de um alguém, órgãos que nos indicam certa topografia e funcionamento corporal. Tal “funcionamento corporal” me servirá de base pala tratar da Rede de Atenção Pública em Saúde Mental e da inserção de práticas de negação ao manicômio neste contexto.

O que pretendo fazer aqui, se trata na verdade, de uma reivindicação poética em prol de novas formas de tratamento e práticas profissionais em saúde mental; reivindicação esta que se contrapõe ao atual empobrecimento poético destas práticas (empobrecimento criativo), de uma “Rede” que muitas vezes se torna não somente a negação ao manicômio, mas a negação da escuta de um Sujeito que demanda cuidados.


IV

Conforme o avanço do movimento da luta anti-manicomial, do lema “por uma sociedade sem manicômios”, mudanças significativas se efetivaram principalmente no que se refere à criação de modelos substitutivos de tratamento como o CAPS, que visa a não internação do paciente e a promoção da reinserção social do mesmo. Este movimento também propiciou uma mobilização social para a questão da Saúde Mental, promovendo diversas manifestações artísticas, culturais e científicas
[6].

Com o desenvolvimento destes modelos substitutivos, as políticas públicas vêm buscando criar uma articulação do tratamento do paciente junto a uma rede de serviços que busquem dar conta disso. A essa rede de serviços em Saúde Mental incluo a rede de equipamentos sociais, vinculadas a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, que também se mostra muito próxima desta demanda de pacientes e expressa algumas “situações” da qual pretendo compartilhar neste ensaio.

Retomo agora a metáfora (já não tão metáfora) dos órgãos “tripas e coração” e da idéia topográfica em prol de um funcionamento corporal, para falar desta rede que dispõe de diversos lugares e se esforça por uma organização, por um bombeamento de sangue adequado para todas as partes de seu corpo e que muitas vezes acaba se esquecendo do corpo e dimensão do Sujeito. A rede-corpo ou tentativa-de-dar-corpo.

Tendo estes elementos em mente passo agora a um breve relato de minha experiência profissional num Centro de Acolhida em São Paulo, popularmente conhecido como “albergue”, um lugar que acolhe a população em situação de rua. Atualmente o albergue vem se configurando como uma Instituição que acolhe também os pacientes psiquiátricos que receberam alta de sua internação e, por não apresentarem vínculos sociais e familiares, lhe são encaminhados. Desejo expor três breves vinhetas clínicas que expressam a condição de um Sujeito entre-lugares, entre o albergue e a rua, o CAPS e a internação, enfim entre as tripas e o coração: a condição própria de um sujeito dilacerado.

*

Reinaldo

Quando conheci Reinaldo, creio que ele estava alcoolizado. Com o tempo, assim o fui conhecendo, numa repetição de lágrimas e embriaguez. A repetição demarcava também suas falas: ele sempre me dizia o mesmo e quase sempre chorava.

Freqüentemente passava por breves internações num Hospital Geral por quedas que sofria nas ruas, e às vezes pelo sangue que vomitava. Nestas idas e voltas ao hospital, ele sempre temia que no seu regresso ao albergue fosse perder sua vaga. O regimento interno do albergue não permite que a pessoa entre alcoolizada, motivo este que pode culminar no seu desligamento. Obviamente, o temor de ser desligado manifestava também sua condição de ligamento e de ser um sujeito “pegajoso” junto à Instituição e à equipe, o que muitas vezes causava um sentimento de repulsa.

Atendi Reinaldo por alguns meses, atendimentos tumultuados, regados a faltas, álcool e sempre com sua incerteza de que talvez eu não estivesse mais ali para atendê-lo. Problemas com horários começaram a surgir, e num desencontro meu para com ele (nestes horários que nunca eram seguidos por Reinaldo) ele desistiu da psicoterapia dizendo que “nós dois tínhamos problemas com horário e que não nos encontrávamos”. Apesar da desistência, outros encontros ocorreram pelos corredores, pela rua, pelo pátio e, em algumas ocasiões, em minha sala.

Permaneceu internado por um mês num hospital psiquiátrico, rigorosamente, sem acesso ao álcool e a rua. Quando regressou ao albergue o vi e falei com ele, sem álcool. Apertava minha mão e agradecia. Algumas horas depois, neste mesmo dia, já com álcool, ele se encontrava debruçado num banco, apertava a minha mão, chorava e dizia que não havia bebido.


Clara

Desde o primeiro atendimento de Clara, o seu discurso confuso somente me confundia - confusão que se intensificava a cada palavra pronunciada. Sempre que falava, me perguntava se eu havia entendido o que ela disse - pergunta que demorei em responder -, até que com o tempo eu pude reconhecer a honestidade como um importante elemento clínico e lhe disse que não entendia. Algumas imagens começavam a delinear-se: um ser mulher-forte, uma carreira artística, uma dançarina, um estar pelada mesmo com roupa e um rascunhar incessante de relatórios que me foram entregues em alguns momentos. O delírio de Clara, que inicialmente me parecia sem lógica, passava a ganhar uma, na medida em que podia ser honesto com ela. Eu também notava que o albergue, em certa medida, vinha sendo um lugar que acolhia esta confusão à sua maneira. Clara virava personagem no âmbito institucional, porém personagem que se integrava ao convívio das pessoas que ali viviam: à sua maneira, com humor, as pessoas ali convivem com a loucura, pelo menos até então assim vinha sendo com Clara.

Fiquei surpreso quando a agente comunitária de saúde me contou que Clara havia sido internada. Ao questioná-la sobre o motivo da internação esta me respondeu que ela estava delirando demais e que a psiquiatra considerava necessário.

Passada duas semanas, o assistente social recebe uma ligação de Clara do hospital psiquiátrico: ela lhe disse que não era louca e que queria sair dali.


João

Quando Seu João, um senhor, chegou ao albergue, ele praticamente não falava. Permanecia sentado nos bancos, mexendo as pernas e sempre indo ao banheiro. Aos poucos começou a participar dos grupos e oficinas.

Com as aproximações contínuas ele começou a falar, tomava banho e havia se livrado das “muquiranas”. Tinha uma participação ativa no albergue, ajudando na pintura da casa, no carregamento sagrado da comida e raramente faltava na oficina e grupo que eu realizava. Sua vida era o albergue. Com o tempo fui conhecendo melhor a sua história, que me era contada “em particular”, nunca em grupo. Internações, tutelas, um sociólogo e um carinho infantilizado foram aparecendo.

Quando me desliguei do albergue, segui realizando quinzenalmente, uma Oficina de Poesia de caráter voluntário. Num dos meus retornos, sou recebido com a “Queixa-João”. Todos, entre funcionários e usuários, vão me apontando que Seu João está enlouquecendo, está agressivo e se recusa a ser encaminhado ou ao menos ir até um CAPS. Interpreto que a queixa da Instituição é uma solicitação para que eu facilite este encaminhamento, pois “ele precisa ser medicado”; e afinal de contas só quem está de fora (meu desligamento) pode colocar alguém para fora (Seu João e o CAPS).

Encontro-me com Seu João, que me cumprimenta de maneira estranha. Desta vez ele não veio me receber. Quando vou iniciar a Oficina, o surpreendo pintando a parede do espaço de convivência e ameaçando dar uma paulada num outro usuário do serviço. Convido-o a participar da Oficina e ele apenas me responde “você não sabe de nada, você está chegando agora”. No meio da oficina ele aparece, interrompe, fala diversas coisas e me pede ajuda.

No meu último retorno ao albergue, sou informado por uma equipe fragilizada que Seu João não está mais lá. Está na rua, sujo, não se alimenta e de vez em quando aparece no albergue presenteando alguns funcionários com objetos encontrados no lixo.

*

Notem que nestas vinhetas temos situações em comum: o transitar entre-lugares. A rua, o albergue, o CAPS e a internação surgem como elementos que, de maneira inarticulada, buscam dar conta de um Sujeito. São órgãos que não se vêem e nem se conversam. A pretensa Rede se apresenta como rede de captura do Sujeito diante de um ordenamento institucional e soltura a partir do momento em que os ordenamentos do sujeito não atendam ao sintoma institucional, à contra-demanda da Instituição.

O alcoolismo de Reinaldo, os delírios de Clara e o enlouquecimento de Seu João não puderam ser compreendidos pela lógica institucional do albergue que se propõe a escutar um Sujeito em situação de rua, desconsiderando o emocional. Nega-se uma Escuta e forja-se uma solução e um tratamento. O encaminhamento vira eliminação. Cabe ao CAPS, à internação psiquiátrica e aos medicamentos, dar conta do sofrimento do Outro.

Trata-se do poder, daquilo que alguém pode ou não escutar e cuidar no Outro. Basaglia
[7] diz que o que caracteriza as Instituições é a divisão entre os que têm o poder e os que não o têm, fundamentando-se numa relação opressora e violenta entre poder e não-poder que culmina na exclusão do segundo pelo primeiro. Tal violência será sempre justificada primeiramente por uma finalidade corretiva, para depois chegarmos à culpa da doença - afinal de contas, lugar de louco é na rua ou no manicômio.

Na internação de Clara não houve uma participação da equipe técnica do albergue: esta foi uma determinação do Centro de Saúde aonde ela se tratava. Reinaldo foi encaminhado para a internação pelo Serviço Social, creio que até num encaminhamento que fazia sentido, mas pelo que vimos, a internação apenas o internou, não o tratou. Seu João não foi internado nem foi para o CAPS, foi para a rua.

Estes são sujeitos entre-lugares, articulados por uma Rede que sustenta a Doença, não promovendo libertação. A luta anti-manicomial se apresenta aqui como uma luta de lugares, pois aonde devem permanecer e ser cuidadas estas pessoas? E isto levando em conta que há uma demanda, há um pedido de ajuda e o desejo de um cuidado por parte destes sujeitos.

A negação do manicômio legitima as práticas manicomiais num sistema de tratamento e cuidado que se crê liberto e promotor da reinserção social, mas o que se vê são apenas Instituições que buscam dar conta de um corpo que não é mais o do Sujeito e sim desta Rede que captura e dilacera o Sujeito e seu corpo. Entre as tripas e o coração: não há poesia aqui.


V

Nesta batalha, com ou sem armas, entre o manicomial e o anti-manicomial, aquele que permanece no front é o Sujeito, se esforçando por sobreviver (ou não) e defender certa integridade física e moral que lhe resta. O Sujeito deste front de batalha é um Sujeito que adoecido, sofre. Trata-se de uma luta onde nenhuma das partes morre, pois manicômios e não-manicômios ainda vivem. O processo de mortificação costuma ser efetivado sob o Sujeito.

Aqui podemos retomar a idéia de luta enquanto Luto. A luta anti-manicomial mantém-se num Luto Patológico, uma vez que, ao negar a morte do esquema manicomial, ela acaba por presentificá-lo, na maneira como os sujeitos vão se organizando nesta nova Rede insuficiente que não oferece lugar.

O desejo de morte ao manicômio se constrói como defesa que perdura pela própria sobrevivência dos manicômios ainda hoje. Vida aos manicômios. “Outras práticas” merecem ser investigadas e criadas a partir da experiência construída na aproximação com o Sujeito e não pela negação de esquemas ideológicos.


VI

Diante deste pensar sobre outras práticas, retomo aqui a idéia da Poesia enquanto fundadora de uma Ética que só poderá ser fundada para além da legitimação emocional do discurso sob a palavra. No caso, as palavras às quais me refiro aqui são “anti” e “manicomial”.

Alfredo Bosi
[8] utiliza-se do termo poesia-resistência para falar de uma Poesia que resiste à falsa ordem - que é a rigor, barbárie e caos -, que desfaz o sentido do presente em nome de uma libertação futura e que promove um Ser da (e na) Poesia que contradiz o ser dos discursos correntes.

Sendo assim, fundar uma “outra prática” refere-se a uma legitimação emocional que se dá para além dos sentidos limitadores que a palavra cotidiana exerce sobre o Sujeito, trata-se de fundar uma legitimação poética que parta da experiência. Diante disso, considero que muitas vezes a luta anti-manicomial acaba por se transformar num discurso corrente que se acorrenta ao passado e acorrenta sua Escuta do Sujeito.

Quando uma intervenção no campo da Saúde Mental se torna um “cuidado”, reconsidera-se a Escuta do Sujeito - esta, não como elemento integrador a uma Rede ou ao Social vigente, mas sim como elemento libertador disto. Escutar é desfazer o sentido que aprisiona o Sujeito em seu sofrimento, em prol de uma cria-atividade, de ser criador e ativo frente a um viver.

Uma “outra prática” deve ser fundada, podendo apenas ser “outra” a partir daquilo que se vive com o Outro. Não se trata do manicomial, se trata do Sujeito. A Poesia pode sim fundar uma Ética que se afaste dos embates de Poder e de Política, já que toda pessoa pode vir a ler um poema e ser surpreendida. Mas, mais do que uma leitura preventiva para uma prática, refiro-me à experiência emocional da Ética Poética. A arte no cuidado do outro não falará de tripas e corações, ela curiosamente irá escutar e escrever uma “outra poesia”, nova e viva.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] DRUMMOND DE ANDRADE, C. (1998). Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record.
[2] FREUD, S. (1925) A negativa. In FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v.XIX. Rio de Janeiro: Imago, edição de 1976, p. 295-300.
[3] BEZERRA DE MENESES, A. (2005) A literatura e a organização da experiência. In BARONE, L. M. C. (coord.). A Psicanálise e a Clínica Extensa: III Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos. São Paulo: Casa do Psicólogo, p. 121-123.
[4] PRADO, A. (1999) Oráculos de Maio. São Paulo: Siciliano.
[5] BEZERRA DE MENESES, A., op. cit.
[6] AMARANTE, P. (1995) Novos Sujeitos, Novos Direitos: O Debate em torno da Reforma Psiquiátrica. Cad. Saúde Pública, 11 (3): p. 491-494, Jul/Set, 1995.
[7] BASAGLIA, F. (1991) As Instituições da Violência. In BASAGLIA, F. A Instituição Negada. Rio de Janeiro: Edições Graal, p. 99 – 133.
[8] BOSI, A. (2000) O Ser e o Tempo da Poesia. São Paulo: Companhia das Letras.

JUAN SALAZAR é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise.
Email:
juansalazarj@gmail.com