16 de junho de 2009

PSICOPATOLOGIA DA VIDA CONTEMPORÂNEA: VINHETA ACERCA DO “VI” MANDAMENTO (Marcos InHauser Soriano)

ATO I: A Comédia

Segunda-feira, 06h30min. Toca o despertador para mais uma semana que se inicia. Em frente ao espelho do banheiro, a barba mal-feita é roçada com as mãos... O cabelo desencontrado ainda pelas marcas do travesseiro. Enquanto procuro encontrar-me na imagem refletida, lembro dos melhores lances do jogo de futebol de ontem... Campeonato Inglês... O Manchester United emplacou três pinturas na rede do adversário. Assisti ao jogo vestido com a camisa do Manchester... Parecia estar no Old Trafford, o “Teatro Dos Sonhos”.
Barba feita, banho tomado, café com cigarro engolido as pressas (como sempre), o Consultório chega ao Analista. Aproximadamente vinte degraus que levam à cafeteira na Cozinha... A Sala de Espera aconchegando-se entre os dois – pois que esta história já faz tempo, passado em que o Consultório tinha degraus e cafeteira. Um pouco mais de café? Outro cigarro!!! Café com cigarro, dizem, faz mal à Saúde.
Segunda-feira, 08h15min. Acorda-me a campainha. Vou conhecer o Sr. Antônio. Lembro-me de estar com vontade de conhecê-lo para além da linha telefônica – “Sabe Doutor, Eu sofro dos Nervos...”.
Vinte degraus não combinam com cigarro, principalmente quando se transformam em quarenta – Ali Babá & Os Quarenta Degraus.
Sem “abra-te Vila Sésamo”, estamos tête-à-tête, Eu e o Sr. Antônio – que já foi motorista de ônibus, hoje é pedreiro/encanador/”faz-qualquer-coisa”... Eu (ainda não) sou Analista.
Antônio, pois “o Senhor está no Céu”, já vem com um Relatório. Relatório da Perícia constatando um Sujeito improdutivo, que não mais é capaz de trabalhar – “Eu não posso mais trabalhar... Sou Doente dos Nervos!”.
Sabe... Já faz tempo... Um dia no trânsito, Eu perdi a cabeça! Saí do ônibus e dei sete facadas num cabra que tava perturbando... Foram sete... E o povo aplaudindo!
Encolhido na confortável poltrona, o Analista ouvia as sete facadas. Sete facadas de um Sete Sagrado na Doença dos Nervos: “Sabe Doutor, Eu falo com os Mortos!”.
Sete facadas que saíram no jornal, viraram notícia. E os Mortos? O que falam? “Ah... Esses não me incomodam não! Meu problema é a Doença dos Nervos mesmo!
Os Mortos não fazem mal a ninguém... Diferente daquele cabra... Ele tava atrapalhando ainda mais o trânsito... Tava fazendo algazarra... Me tirou do juízo!
O Analista não diz nada; ouve uma, duas, cinco, sete; ouve o povo aplaudindo e os Mortos que falam em um trânsito atrapalhado. O Analista ouve a Doença dos Nervos: Sujeito Improdutivo Em Produção de vinhetas de um Mundo que o (nos) rodeia.


ATO II: A Tragédia
Não Matarás”, o VI Mandamento do Decálogo. O Decálogo constitui o conjunto de Leis entregues a Moises por Deus, portanto, significativa base da Instituição Humana Ocidental. “Não Matarás”, o VI Mandamento, encontra-se na base de constituição de praticamente qualquer agrupamento humano; idéia tão bem explorada, no melhor estilo de ficção freudiana, em “Totem e Tabu[1]. “Não Matarás” pode ser considerado um Tabu, em seu sentido de Lei contra o Profano (e que também o delimita e define): “interdição sagrada e divinizada, tanto mais respeitada quanto mais distante no tempo estiver sua origem e quanto mais invisível forem os poderes que o decretaram” (Chauí, M. - p.14)[2]. Ainda sobre a antropologia do Tabu, Marilena Chauí nos aponta uma interessante, intrínseca e especial característica:

A peculiaridade do pavor gerado pelo tabu está em que a morte do infrator, na maioria dos casos, não precisa sequer da intervenção física ou direta do grupo, pois o transgressor morre de culpa, medo, isolamento, loucura.”(p.14)[3] (os grifos são meus)

Fabio Herrmann denomina “Real” a Estrutura Psíquica que, para além da Instituição Humana, a sustenta, alimenta e nos cria conforme a imagem que vamos construindo do Mundo em que vivemos – “processo incessante de produção de sentido psíquico no mundo”(p.28)[4].
Em belíssimo Ensaio, “O Ato” (p.162-177)[5], Fabio Herrmann descreve uma das possibilidades da complexidade patológica em que se insere o Cotidiano Contemporâneo. Definindo o “Regime do Atentado” como Estrutura Patológica, escreve: “(...) provisoriamente, diremos apenas que não se trata da violência nem da agressividade, mas que a impotência é que está em questão” (p.164)[6] – impotência que se disfarça de onipotência. No “atentado”, busca-se ser celebridade esvaziada no Ato de Celebração da própria Impotência.

Na Humanização extrema do Mundo Moderno, Globalizado, Tecnológico e Técno-burocrata, nesse estado de Humanização Absoluta do Mundo, o modelo de Ser é o próprio Ato Humano que, ao contrapor-se ao Tabu, gera uma reação oposta de “Negação”, em uma espécie de “Tamponamento de Massa”(p.165)[7].

Aqui não há celebridade a ser idolatrada, mas sim cabeça em busca de carapuça - representação absoluta da “Loucura”, do “Asco” e do “Ridículo”, da qual nos defendemos incansavelmente através de normatizações de uma (Im)Possível Rotina Cotidiana – esta que constrói, opacifica e insere linearidade em uma Realidade à qual denominamos Cotidiano.

*

Coliseu Redivivo em Antônio. O Senhor está no Céu. Crucificação Reeditada em Antônio.

Impotência frente a um Mundo que não lhe cabe... Cabra da algazarra... Trânsito em um Mundo que já não lhe sustenta psiquicamente... Ato... Heroísmo... Disfarce de Onipotência... Aplausos do Povo... Perseguição pelas “Fúrias” do Tabu... Diálogo com os Mortos... Morte por loucura... Doença dos nervos... Condenação por impureza, por improdutividade.


ATO III: O Drama
Foram 40 minutos... Antônio se foi sem nunca mais retornar, deixando “Antônito” o Analista.
O Analista nada disse, apenas ouviu, desencaixado confortavelmente na poltrona.
Do desencontro, Sete Facas restaram, pois Antônio foi embora sem nunca mais dar sinal de vida... Ficaram-se os Mortos Falantes.
Sete Facas nas mãos ou enterradas no peito?” – pergunta o Analista. “Tanto faz como tanto fez” – respondem os Mortos – “Pois de quem são as mãos e de quem é o peito?
Santificada seja a Rotina do dia-a-dia que nos afasta, nos esconde e nos defende deste território, híbrido de infinitas possibilidades, denominado “Real”... Tão insuportavelmente Humano.
Mais um cafezinho?


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] FREUD, S. (1913/1995) Totem e Tabu. In FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2ª edição.
[2] CHAUÍ, M. (s/d) Repressão Sexual – Essa Nossa (Des)Conhecida. São Paulo: Círculo do Livro.
[3] CHAUÍ, M. – op. cit.
[4] HERRMANN, F. (1997) Psicanálise do Quotidiano. Porto Alegre: Artes Médicas.
[5] HERRMANN, F. – op. cit.
[6] HERRMANN, F. – op. cit.
[7] HERRMANN, F. – op. cit.


MARCOS INHAUSER SORIANO é Psicanalista.
Rua Tuiuti, 2530 (cj. 116) – Tatuapé
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