30 de setembro de 2009

KOGAL: CHAPEUZINHO VERMELHO CONTEMPORÂNEO (Diego Tiscar)

"Envergonhar-se da nossa imoralidade é um degrau na escada, em cujo extremo, se tem também vergonha da nossa moralidade"
(Nietzsche)

Este Ensaio tem por objetivo discutir a possibilidade de compreensão do Fetichismo nos tempos atuais, utilizando-se da imagem de uma personagem feminina contemporânea – a Kogal.

A idéia do fetiche é comum a todos os campos do saber. Freud a abordou com especial atenção. Tendo destaque especial nas sessões da Sociedade Psicológica Das Quartas-Feiras, Freud apontou o tema em diversos ensaios. Mas foi apenas com a introdução do termo Renegação (Verleugnung), em 1923, que Freud deu contornos definitivos a sua Teoria sobre o Fetiche[1].
A conotação do termo Verleugnung, em alemão, remete a uma ambiguidade entre verdade e mentira - tal sentido perde seu significado ao ser traduzido para o português[2]. A Renegação é um mecanismo de clivagem do Eu voltado para a Perversão, através do qual o indivíduo faz com que coexistam duas realidades contraditórias: a recusa e o reconhecimento da ausência do pênis na mulher[1]. O Fetiche substitui o órgão "faltante" (o pênis primitivo que as crianças acreditam que suas mães possuem) - o fetichista encontra prazer no fato da mulher ser ao mesmo tempo castrada e não castrada e de o homem também poder ser castrado. O Objeto de Fetiche funciona como mecanismo de defesa que visa destruir a prova da castração e, por consequência, a angústia de castração, pois o interesse pelo Objeto de Fetiche passa a superar o interesse pelos órgãos genitais. O Objeto de Fetiche é de fácil acesso e seu significado é conhecido apenas pelo fetichista, permitindo-o manter uma adoração secreta sem correr o risco, em fantasias superegóicas, de que outras pessoas retirem seu tão desejado objeto.

Não é de hoje que imagens relacionadas a uniformes escolares femininos usados por colegiais são objetos de Fetiche.
Apesar de vivermos no Brasil, a primeira imagem mental (representação) de tal Fetiche envolve mini-saias, camisas com gravata ou do tipo "marinheiro", blazers e meiões; portanto, muito diferente da cultura de nosso País.
Tais modelitos originaram-se no Japão do sec. XIX, baseando-se na Marinha Real Britânica, quando o Governo tornou obrigatório o uso de uniformes ocidentais no país, visando à modernização do Japão. O modelo sofreu alterações em 1921 e em 1980, sendo introduzidos mini-saias e blazers. Nesta época, houve um declínio das taxas de natalidade, o que diminuiu o número de jovens, aumentando a concorrência entre os colégios, que viram na moda uma maneira de atrair as estudantes. Escolas particulares contrataram designers renomados para criarem seus uniformes[3]. Com o tempo, a idéia do uniforme difundiu-se pelo mundo e, apesar de sofrer algumas modificações, jamais perdeu seu apelo fetichista.

No Japão, as garotas que costumam usar tais uniformes são denominadas Kogal (“Gal” gíria para “garotas” e “Ko” diminutivo de criança). Estas “estudantes” têm por objetivo representar uma aparência jovem, meiga e sensual. Valendo-se de acessórios de grife e extremo cuidado com a aparência, a Kogal pode ser “sustentada” por homens mais velhos - prática conhecida como “encontros pagos” ou “caça aos velhos”[3]. Estes homens pagariam pela oportunidade de passar algumas horas com a Kogal, ansiando peças de seu uniforme ou relações sexuais.

Na cultura ocidental existe uma figura que representa a mesma relação edípica, que é passada de geração em geração por muitas vias, porém com um final diferente. Estamos falando do Conto de Fadas “Chapeuzinho Vermelho” dos Irmãos Grimm. Tal conto tem como protagonista uma garota de nome Chapeuzinho Vermelho, e aborda questões cruciais que as meninas enfrentam ao defrontarem-se com a fascinação infantil pelo sexo e as dificuldades em lidar com o mesmo. Sendo assim, Chapeuzinho Vermelho vive o dilema entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade - representado pelo Lobo que a convida a apreciar os prazeres da natureza, contrariando os conselhos de sua mãe em não sair da estrada. Fica claro, pelo próprio nome da protagonista, que Chapeuzinho Vermelho (uma pré-púbere trajando um acessório que induz emoções sexuais) lida com sensações ambivalentes. A figura paterna está presente em duas personagens: o Lobo - entidade perigosa, sedutora, violenta, egoísta e potencialmente destrutiva -; e o Caçador - responsável, forte, altruísta e protetor. O Lobo também representa tendências animalescas - um impulso a contrariar normas sociais[4]. Ao ensinar o caminho da casa de sua avó, Chapeuzinho estaria marcando um “encontro” com o Lobo.

Tal relação seria re-atualizada pelas colegiais (porém mais velhas que a Chapeuzinho Vermelho): troca-se o capuz vermelho por um uniforme colegial e o Lobo-Animal-Simbólico pelo Humano-Simbólico, permanecendo portanto, os rastros emocionais de uma sexualidade prematura, despertando tudo o que é primitivo dentro de nós.
Nos encontros com homens mais velhos, os anseios edípicos primários emergiriam: o desejo de seduzir o Pai e de ser seduzida pelo mesmo toma forma. Para os homens, a conquista do Objeto de Fetiche não só é possível, como acessível, desde que se pague o preço. Com isto, o desejo pode ser realizado de maneira concreta em uma relação que também é proibida, desta vez por leis contra a pedofilia e a prostituição.

Como a função do Fetiche é negar a Castração, retirando-se o sentimento de culpa, o Fetiche confronta a própria Sociedade - baseada na Castração -, através de manifestações populares de raiva e indignação como mecanismos projetivos vigentes naqueles que não compartilham o desejo pelo Objeto de Fetiche (ou não o assumem).
Afinal, as diversas releituras da história de Chapeuzinho não permaneceriam vivas em nosso imaginário até os dias de hoje se, tanto a Garota como o Lobo, não exercessem efeitos de Fascínio, mistura perfeita entre Ridículo e Repugnância, sobre o Sedutor Inconsciente que existe em todos nós.

Fabio Herrmann ressaltou a lacuna existente entre Sujeito e Objeto de Desejo nas relações perversas: “não me posso fundir com minha imagem, mas posso sempre tentar reconstruir o outro à imagem e semelhança do que me falta”[5]. Esta afirmação pode ser tida como a base da relação fetichista. Vejamos que na relação Homem x Kogal / Lobo x Chapeuzinho, existem dois papéis a serem desempenhados. O fetichista encontra um local onde possa gozar sem ser questionado, enquanto a Kogal representa a personagem passiva que oferece conforto, mas contendo a representação de um ser humano com anseios e desejos. Nesta relação, sensibilidade e desejos possessivos interagem em perfeita contradição.

A relação com o Objeto de Fetiche (e com qualquer outro objeto) depende do Apelo que Fascina - a alma do Desejo. O Apelo que Fascina possui dois pólos: o Asco e o Ridículo. Talvez poucos objetos tenham estas duas características tão evidentes como a Kogal.
O Asco é aquilo que emerge de locais sombrios e inóspitos do nosso Ser e, por isso, torna-se repugnante ao ganhar a luz do dia. Em contrapartida há o Ridículo, provindo do Outro, sentido como alheio. A sensação desperta é Cômica. Quando interagem em harmonia o asqueroso e o ridículo convertem-se no Fascínio[5]. A Kogalveste” a Lolita, mas seus gestos infantis/sexualizados devem harmonizar sua personagem; se ela passar da medida, torna-se uma adolescente agindo como criança - torna-se ridícula; por outro lado, se a Kogal revelar-se mais como adolescente-real-de-carne-e-osso, o asco por desejar uma garota que não deveria ser desejada invade-nos como auto-reprovação e constrangimento. Já a medida exata é difícil de ser alcançada e a harmonia é tênue, mas uma vez que o Fascínio surge em sua plenitude, revela-se este belo e irresistível Objeto de Fetiche.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] ROUDINESCO, E. & PLON, M. (1998) Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[2] HANNS, L. (1996) Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.
[3] MACIAS, P.; EVERS, I. & NONAKA, K. (2007) Tokyo Girls. São Paulo: JBC.
[4] BETTELHEIM, B. (1979) A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Paz e Terra.
[5] HERRMANN, F. (1991) Andaimes do Real I: O Método da Psicanálise. 2ª edição. São Paulo: Brasiliense.

DIEGO TISCAR é Psicólogo Clínico.
Tel.: (011)9239.8243 Email:
dtiscar@gmail.com