19 de outubro de 2009

DURANTE AS FÉRIAS: DUAS NOTAS SOBRE O COTIDIANO (Thomas Ferrari Ballis)

O Equívoco, a Verdade e o Lixo

Estive de férias durante os últimos dez dias. Fui para bem longe de São Paulo, precisamente em Belém, capital do Estado do Pará. Pensei que assim poderia manter minha mente longe de São Paulo, do trabalho e da Psicanálise. Não sei dizer se tive sucesso. Apesar da riqueza de minha expedição “antropológico-gastronômica”, por vezes tropeçava em pensamentos sobre fatos que ocorreram e continuam ocorrendo em São Paulo, e no Brasil em geral.
Sempre desconfio de ensaios onde psicanalistas discorrem sobre fatos mundanos, que estão fora da “morada do analista”, como dizia Fabio Herrmann. A desconfiança é um bom indicativo de hipótese diagnóstica, mas deixarei a minha para outra ocasião, ou para outra morada. Confesso também que já vi ensaios belíssimos de psicanalistas sobre fatos cotidianos. Tentarei fazer o meu aqui. No máximo dirão “Meu caro, as coisas não são bem assim, estude mais alguns anos”. Mas vamos lá, chega de resistir.

No primeiro semestre deste ano a Secretaria de Educação de São Paulo distribuiu aos alunos da terceira série do Ensino Fundamental (faixa etária de nove anos) o livro “Dez na área, um na banheira e nenhum no gol”. Após demonstrações de indignação por parte de professores da rede, o Governo admitiu o “equívoco” ao distribuir os livros, que em suas histórias continham palavras chulas de conotação sexual e palavrões. Lembrei que dois meses antes a mesma Secretaria havia distribuído um livro didático de Geografia com mais de 20 “erros” de impressão.

Em julho deste ano 680 toneladas de lixo foram encontradas em containers no Porto de Santos, outras 890 toneladas de lixo também foram encontradas em dois Portos do Estado do Rio Grande do Sul. Os containers haviam sido exportados ilegalmente da Inglaterra. O lixo dos ingleses não era mais bonito que o nosso. Nos containers havia lixo doméstico, hospitalar e até lixo de uma Instituição Ambiental inglesa. As duas Empresas Britânicas responsáveis pela exportação dos containers para o Brasil pertencem a um cidadão brasileiro que vive na Inglaterra. Ele se defendeu dizendo que suas empresas apenas realizam a prensagem de plásticos enviados por Empresas Britânicas, e que, portanto, a responsabilidade pelo envio do lixo seria das fornecedoras. Até o momento três pessoas foram presas na Inglaterra. No Brasil as empresas foram multadas e ninguém foi preso.

Quem lê o livro “Gomorra”, do italiano Roberto Saviano, nunca mais olha prá um canteiro de obras com os mesmos olhos - o mesmo acontece quando se olha para o lixo. Em seu livro, ele expõe as vísceras da Camorra, a Máfia Napolitana, que movimenta milhões de dólares por ano com o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro em obras públicas, especulações imobiliárias e o “tratamento” do Lixo de grandes Organizações Européias. No momento o autor de “Gomorra” vive sob proteção policial e identidade secreta. Por ter a rara ousadia de expor tantas verdades em seu livro, a Camorra agora quer a sua cabeça.

Saí de São Paulo em meio às últimas notícias sobre a “Crise do Senado”, onde uma série de “Atos Secretos” foi identificada pela Comissão de Sindicância do Senado - muitos deles envolviam o próprio Presidente do Senado, José Sarney. Curiosamente, segundo Relatório da Comissão, a ausência de publicação dos Atos foi atribuída “a simples falha humana, erros operacionais, etc”. Mesmo após a publicação de mais de 600 “Atos Secretos”, editados pelo Senado, ninguém foi preso, nem mesmo José Sarney abandonou a Presidência do Senado.
Achei curiosa a expressão “Atos Secretos”. Imaginei uma engrenagem funcionando no subterrâneo da cidade projetada por Lucio Costa. Por falar em subterrâneo, aprendi a associar a imagem do político à figura de um rato. Aprendi da mesma forma, que o Plano Piloto projetado por Lucio Costa, foi comparado popularmente a um avião - apesar de ele rejeitar esta comparação, preferindo compará-lo a uma borboleta. Aprendi a ver os políticos como se olha para uma prancha de Rorschach, e vejo um rato, como aqueles que o grafiteiro inglês “Banksy” espalha pelas ruas de Londres. Banksy é um tipo de Roberto Saviano da Inglaterra. O que ele deixa nos muros não é só um Grafite, mas uma imagem que trás o lixo de volta. Talvez seja por isso que, a exemplo do escritor italiano, ele mantém sua identidade secreta.

Vocês devem estar se perguntando qual a relação existente entre o equívoco na distribuição de material didático, os livros repletos de erros, o lixo importado e os Atos Secretos – o que tudo isso tem em comum? Tento chamar a atenção aqui para uma certa banalização do erro, do equívoco e da isenção de responsabilidade. Tão típicos do humano.
Podem-se abrir as portas do Consultório para, ousadamente, transformar o Mundo em um setting psicanalítico, os erros, os equívocos e os Atos Secretos tomam forma. Os erros nos livros não serão mais meros equívocos, mas a forma como se conduz a Educação neste País - uma forma que milita e insiste em ser reconhecida. Uma verdade absurda que se revela em meio às “novas” propostas pedagógicas em materiais didáticos, livros novos, escolas com piscinas e latas de leite, que caricaturam uma bela imagem pra venda de votos.
Se o lixo produzido é o reflexo de uma Sociedade, eu me pergunto: Por que ele é enviado para debaixo dos tapetes de outro Continente? Tento analisar por que certas Organizações (mafiosas ou não) travestidas de Egos Sociais avaliam economicamente a melhor forma e o melhor destino do lixo que pulsa da Sociedade. Da mesma forma que, em minha morada, me pergunto quando uma paciente, com um histórico de longas depressões severas, sofre um Acidente Vascular Cerebral, e durante seu tratamento analítico, comete o seguinte Ato Falho: “Quando eu estava boa! Quer dizer... ruim, ninguém me ajudou!!!” (referindo-se a época que teve o AVC). É exatamente o mesmo erro, o mesmo Ato Falho, que evidencia uma verdade ao mesmo tempo bizarra e assustadora, tão desconcertante, que cotidianamente é jogada no lixo. O problema é que quando se joga uma verdade no lixo, ela retorna. A verdade/lixo retorna com a enchente, ou no caso dos containers, ela voltou para Londres.

Voltando para São Paulo, pude ver do avião a Cidade de Brasília. O que realmente me impressionou não foi o formato da Cidade, mas com a ajuda de um belo dia ensolarado e escassez de nuvens, tive a possibilidade de avistar lá de cima o Congresso Nacional e outras importantes Instituições de meu País. Percebi que elas se agrupavam exatamente onde se aconchegaria um piloto de avião, que ao decolar da pista se responsabiliza por tantas vidas. Senti um leve frio na barriga, comecei a pensar se era possível pilotar um avião com vendas nos olhos, sem se ater a algum possível erro, equívoco, ato impensado ou secreto. O frio na barriga aumentou, um suor frio e cortante passeava em minha face. Comecei a pensar que na verdade eu estava nos dois aviões ao mesmo tempo. Repentinamente fechei a janela do avião e abri minha revista, no intuito de parar de pensar. Minha viagem estava chegando ao fim.


O Bocejo

É de manhã. Estou sentado à mesa de um restaurante a beira de alguma estrada do Pará. Sentados comigo há mais cinco pessoas. Tomamos um belo café da manhã. Na mesa ao lado há seis pessoas - uma delas prende a minha atenção. Outra pessoa da mesma mesa comemora o raiar do sol com um belo bocejo. Observo. A pessoa ao lado da dona do primeiro bocejo não se contem, abre um bocejo mais tímido, mas o termina com um semblante de alívio. De repente mais um bocejo, agora da mesa em que me encontro, seguido de um “ai que sono”, justificando-o. E os bocejos vão seguindo, de boca em boca. Um bocejo, e um convite a bocejar. Fiquei pensando como o Humano se imita, mesmo sem perceber. Bocejamos achando que o nosso bocejo é único, original e libertador. Ninguém percebe o coral de bocejos.

A verdade é que é muito difícil ser original - fazemos sempre o mesmo caminho para o trabalho todos os dias, e quando chegamos ao trabalho comentamos com o primeiro que encontramos pelo caminho, “Nossa, que transito!", e recebemos o consolo que queremos, “Nossa hoje estava demais, né?”. E consolados, começamos a trabalhar. Quando chega aquele esperado feriado, o que fazemos? Vamos para praia ou para o campo. Não importa, o importante é pegarmos o trânsito.
Não somos originais nem pra adoecer - nossa criatividade nunca é suficiente, por mais que tentemos. Aliás, o excesso de criatividade na Doença se enquadra rapidinho na categoria “Loucura”, porque neste caso a criatividade causa estranheza, e não há nada pior do que o Estranho, nenhuma Sociedade suporta. E mesmo na categoria “Loucura”, por mais interessante que seja nossa Neurose, Psicose ou Perversão, não conseguimos ir além. Neste momento, Humano que é Humano adoece de Gripe Suína, o nome popular da Influenza A (H1N1). A Dengue já ficou démodé - se você chegar num Pronto Socorro com Dengue, você vai se envergonhar - como pode estar tão desatualizado? Mas não tem problema, o médico te atualizará e seu Diagnóstico será de Influenza A (H1N1). Pronto, humanamente atualizado. Chistes aparte, essas insígnias humanas que nos enquadram em determinado campo e nos confortam, provocam ao mesmo tempo a soma que potencializa a intolerância perante a diferença. Uma marca de identidade que separa quem está deste ou do outro lado da linha.

Durante as minhas férias eu vi o quanto as pessoas estavam atualizadas. Algumas transitavam pelo Aeroporto devidamente paramentadas com suas máscaras. Eu arranjei um ótimo método para pegar um assento na sala de embarque: eu chegava de mansinho, pertinho de alguém sentado e dava uma modesta “tossidinha”. Aí eu contava no máximo até quatro segundos e a pessoa delicadamente pegava sua mala de mão e saía sorrateiramente - era humanamente natural. Já dentro do Avião eu pensei em dar uma “tossidinha” para o passageiro do assento ao lado, mas não seria muito vantajoso - você já deitou em dois assentos de um Avião Classe Econômica?

Na ilha de Marajó eu me senti realmente longe de casa. Depois de três horas de Barco vindo de Belém, mais trinta minutos de Van que atravessou a comunidade de Salvaterra, peguei outro Barco para atravessar um braço de mar. O barqueiro, habilidosamente, sentava no teto do Barco e conduzia o manche com o dedão do pé. E sentado ali tinha ampla visão de seu trajeto, sem mascaras ou vendas nos olhos. Tal habilidade poderia soar um pouco perigosa, no entanto, senti-me mais seguro naquele Barco do que no Avião de Brasília, aquele que nós nos encontramos.
Finalmente cheguei à comunidade de Soure, mas a praia ainda não estava perto, então eu peguei uma Moto Taxi. Depois de vinte e cinco minutos de Moto atravessando a ilha, cheguei a Praia do Pesqueiro de Soure.
Não havia nenhum sinal da Gripe Suína. Comecei a achar estranho (aquele Estranho lá de cima). É claro que a praia era linda, mas involuntariamente, comecei a procurar alguma identificação. Só fiquei mais aliviado quando fui pegar uma cerveja no quiosque da praia (uma Cerpa! Conhece?). Lá havia uma pequena televisão, e adivinha qual canal a moça do quiosque assistia? A Globo! Putz! Como nós somos Humanos.

Se você está preocupado por não ter contraído a Gripe Suína, não se martirize. Basta dar uma bocejada, de preferência perto de outras pessoas. Ser original e diferente é muito difícil, pra você e para os outros, uma proeza de poucos. Como aquele garoto da mesa ao lado, que prendeu minha atenção no café da manhã a beira da estrada. Justamente ele, um Autista que aparentava uns 10 anos de idade, ele não bocejou.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
http://www.banksy.co.uk/
http://www.robertosaviano.it/


THOMAS FERRARI BALLIS é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise.
Rua Tuiuti, 2530 (cj 91) – Tatuapé – CEP 03307-000 - São Paulo, SP
Tel. (011) 2092.4131