29 de dezembro de 2010

SEU ZÉ FALECEU (Mariana Giorgion)


Sábado Seu Zé faleceu. Uma barra muito pesada para toda a família. Menos de um mês antes, havia falecido o Zé, seu filho, quarenta e tantos anos, de um câncer fulminante. Loucura. Choque. Muita dor.
Mas o enterro do Zé pai foi sereno, Dona Neuza, sua eterna companheira, segurando a barra. A Cidinha parecia que, depois disso tudo, queria voar um pouco, sentir o vento no rosto. Queria até andar de moto. A Rosanita também perdeu muito, mas parecia querer agora ganhar a vida, olhar coisas bonitas e amar, porque ela é muito amada e ama muito, muita gente. A Fátima eu não sei... Não conversamos muito, mas ela me pareceu tranquila, bem amparada. E por fim a Rosangela, expressando o susto, elaborando esse evento sinistro que é o morrer, e que ela acompanhou de muito perto, no pai e no irmão, tentando talvez apreender o exato momento em que se deixa de ser.

Seu Zé foi figura presente na minha vida. Nem sei expressar como, de que forma, ou na forma cronológica que costumamos contar. Eu sou meio assim, lacunar na minha história. A psicanálise já viu e já sabe como me ajudar a reescrever. Mas ele está aqui, de alguma forma, me fazendo pensar, e lembrar. Quando eu era adolescente ele era o “Dono das Chaves”. Era responsável pela Manutenção, pela organização do patrimônio do Jornal, e ele podia abrir portas que eu queria muito que estivessem abertas, porque era um mundo de informações, curiosidades, conhecimento. Eu queria aprender a operar os computadores e programas. Aquilo era mágico. Você fazia a programação no Página Certa (programa de computação gráfica), gravava num disquete, levava para a fotoreveladora, que chamávamos de Geppeto - acho que era o nome do fabricante, sei lá. Dentro dela ia uma caixinha preta, onde ficava o papel filme. Depois ia prá sala de revelação e na sua frente surgiam as tiras de texto, as fotos. Depois você recortava com estilete e montava a página, o Jornal. Seu Luís, que também já perdemos, fazia o fotolito e depois ia prá rotativa. Era fantástico e eu queria saber fazer aquilo tudo. Mas não era fácil. O material era caro, os equipamentos mais caros ainda, e muito caros também ao pessoal do Partido, que fazia um esforço imenso prá comprar e manter tudo aquilo. A responsabilidade do Seu Zé era grande e ele não achava muito certo deixar criança mexer. Mas, às vezes, ele ficava em dúvida e as portas se abriam.
Seu Zé era uma pessoa profundamente original, estilosa mesmo. Era fácil identificar ele no seu jeito de viver. Num dia de bom humor, estava ele tentando me justificar por que eu não devia ficar mexendo e desregulando as máquinas. Ele me dizia que aquela era a tarefa dele: prezar pelo cuidado e conservação. E me disse que fazendo isso bem feito, que era o que ele sabia fazer, ele dava uma imensa contribuição para o Partido, para a Revolução. Dizia que não sabia fazer o Jornal, ou as coisas grandiosas que os outros companheiros faziam, especialmente o Cláudio. Ele adorava o Cláudio. Mas ele sabia cuidar do patrimônio e manutenção. Contou-me que desse jeito ele fez parte da história do Brasil. Disse-me que na década de 40 ele era técnico de manutenção de balanças da Fillizola e que foi chamado para regular a balança do presidente Getúlio Vargas. Parece que esse foi um momento muito especial para ele. Disse que chegou lá, acho que no gabinete, ou na casa do Presidente (lacunas...) e foi recebido pessoalmente por Getúlio, que o acompanhou até o banheiro e apontou para a balança. Seu Zé regulou a balança o melhor que pôde e sentiu que, contribuindo com Getúlio, estava também contribuindo com toda sua Obra.
Ele encontrou seu próprio jeito de viver, de se admirar e de se orgulhar. Prá outros, talvez não fosse a melhor forma. Sempre há possibilidades de se fazer diferente, mas era o jeito dele e todos nós que convivemos com ele sabíamos identificar e – tomara - valorizar.

E neste momento me reencontro com minha própria vida, ou neste momento muito próprio de viver. O estilo, a originalidade, a marca, o traço, são questões que andam me fisgando.

Recentemente reli o conto de Padmini, no “Divã a Passeio”, e a marca de Fabio Herrmann salta à vista. Do jeito que ele descreve, a fórmula do fazer analítico não parece, a primeira vista, tão complicada. O diferencial está no olhar. Se encontrarmos o sentido, o movimento psíquico, as expressões de caráter inconsciente, elaboramos uma tese provisória sobre esse movimento e essa tese é, e só pode ser, profundamente original, porque é única - diz dessa fotografia instantânea. O mais curioso é que, imediatamente após a sua apreensão, essa fotografia vai se desfazer e novos sentidos poderão advir. Depois é só dar uma consultada, prá ver se outros, como nós, também andam buscando estes sentidos e comparar as descobertas e hipóteses.
A primeira empreitada é conseguir este olhar. Se armar das ferramentas certas, e se desprender delas no momento certo, prá apreender a fotografia. Igualzinho na Geppeto e no laboratório: como mágica a imagem se faz. Mas, se desregular, se errar o tempo, a química, a iluminação, queima o filme e a imagem se perde. Você até fica lá, com o papel filme borrado, ou desfocado, todo preto ou amarelo. Você até pode dizer que essa é a imagem apreendida. Mas é conversa fiada, o original se perdeu. O consolo da Geppeto é que está tudo no disquete. Na análise, vamos ter que esperar a repetição.
Outro problema sério, e Freud nos disse que temos que enfrentá-lo, é expressar este olhar através de texto, de teoria, de palavras. Ando muito tentando fazer isso, mas me deparo com outra questão: minhas palavras estão se dirigindo aos outros. Fico extremamente preocupada com esses tais outros. Como pensam, como sentem, como vão compreender; e pior, como vão avaliar minhas palavras. Penso que talvez fosse melhor escrever na língua deles, com palavras parecidas, na esperança de que sejam mais piedosos com meu rascunho. Aliás, quando falo em outros, penso logo em Lacan. Ele falou bastante do grande Outro e eu ainda me perco nos sentidos do Outro dele, que também, profundamente estiloso, tinha um jeito muito próprio de expressar seus pensamentos. Mas alguma coisa me diz que Lacan estava também falando desses meus outros que, no momento, me parecem bem grandes.
O resultado é caca. Ao focar em quem vai me ler, desfoco de quem dá-se a ver. Perco o sentido analítico e a possibilidade de desvelar sentidos próprios que, aliás, não são meus. Pensando por este lado, talvez possa até me consolar. Não sou eu quem tem de dizer, essa responsabilidade não é minha. Eu preciso é estar livre o suficiente para deixar advir os sentidos de quem fala. E, falando assim, parece até fácil, se libertar dos sentidos dos seus grandes outros, inclusive dos de Lacan, prá deixar surgir os sentidos do foco de seu olhar analítico.

Extremamente difícil. Mas aí me lembro do Seu Zé. Me parece que de alguma forma ele conseguiu. Seu olhar singular, seu foco no trabalho, na originalidade e importância de sua contribuição, permitiram que ele cumprisse sua tarefa e, por esta contribuição, estávamos todos lá, prestando nossa justa homenagem a esse velho guerreiro.

MARIANA GIORGION é psicanalista.
Rua Cardeal Arcoverde, 833 – conj. 1 – Pinheiros – São Paulo, SP
Tel.: (11) 4111.6841

20 de dezembro de 2010

LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA (Marcos InHauser Soriano)


O Escudo pode ser tão importante como a Lança sob o ponto de vista da Vitória"
(CHARLES DARWIN)


Em 1831, aos 22 anos de idade, Charles Darwin embarcava como naturalista no Beagle. A bordo do navio britânico, passaria os próximos cinco anos em viagem pelo litoral da América do Sul e das Ilhas do Pacífico, coletando espécimes vegetais e animais e fazendo longas anotações sobre suas observações. Após uma construção científica laboriosa, publicaria em 1859, “A Origem das Espécies”, apresentando ao Mundo sua Teoria da Seleção Natural. Sob o açoite da crítica, a idéia de que todas as espécies de plantas e animais se desenvolveram a partir de formas mais primitivas pela transmissão hereditária de ligeiras variações em sucessivas gerações, sobrevivendo as formas que melhor se adaptaram ao meio ambiente, transformou Darwin em um dos maiores cientistas de seu tempo. Até hoje, suas idéias são motivo de discussão científica e religiosa.
Em resumo, poderíamos dizer que a base da Teoria da Seleção Natural encontra-se no Fator Adaptativo do organismo em sua luta pela sobrevivência da espécie à qual pertence.

Quando o trabalho de Darwin foi divulgado no mundo de língua alemã, Freud encontrava-se cursando a escola secundária. Por apresentarem esperanças de um extraordinário avanço científico na compreensão do Mundo, Freud foi fortemente atraído pelas idéias darwinianas – que eram então de interesse corrente na época.

Em 1900, publica-se em Viena, “A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud. Fiasco editorial e fracasso de vendas, “A Interpretação dos Sonhos” tornar-se-ia um dos mais meticulosos levantamentos científicos sobre o assunto, bem como apresentaria – em seu famoso capítulo VII - uma das mais ousadas teorias acerca da Alma Humana. A apresentação ao mundo médico-científico de Viena, da Primeira Tópica, principalmente do conceito de Inconsciente, abalaria – em princípio por horror e asco - e modificaria para sempre toda uma visão histórica da relação entre Doença e Normalidade, bem como invadiria, sem proporções de comparação, a Cultura e o Cotidiano Humanos até os dias atuais.
A idéia de que a Razão consciente é produto de conflitos instintivos e opostos, advindos de uma batalha pela sobrevivência do Eu simultaneamente aos imperativos do Desejo (tomado aqui com sendo da ordem do que falta, da apetência pulsional do Prazer) concernente ao Inconsciente, e a invenção de um método próprio – intrínseco a essa idéia - para se chegar às raízes conflitantes, colocaria Freud com um dos mais importantes investigadores e escritores de seu tempo.

Boas Idéias carregam esse Destino: há de se lutar para sobreviver.

* * * * *

Freud foi influenciado por muitos dos notórios de sua época, em diversas áreas que incluíam a Medicina, as Artes, a Filosofia e a Ciência, dentre tantas outras. Não foram poucas as citações e analogias utilizadas na construção da Psicanálise.

Por toda a obra freudiana encontramos diversas citações à Darwin. Podemos destacar em duas vertentes a influência das idéias de Darwin no pensamento freudiano: uma vertente histórica, que auxilia na localização da Psicanálise enquanto importante e marcante movimento científico; e uma vertente teórica, que através de analogias, ajuda o desenvolvimento de importantes conceitos psicanalíticos.

No Artigo de 1917, “Uma Dificuldade No Caminho Da Psicanálise”, que trata do alienamento afetivo e resistencial, de certa antipatia às idéias da Psicanálise, Freud cita os “três severos golpes” sofridos pelo “narcisismo universal” do Homem, ou seja, em “seu amor-próprio”. Entre o primeiro golpe, advindo das idéias de Copérnico, que marcava a destituição da Terra como posição central do Universo, e o terceiro golpe, fornecido pela própria Psicanálise, destituindo a Razão Consciente do comando das idéias e atos humanos, Freud aponta Darwin como síntese do segundo golpe:

No curso do desenvolvimento da civilização, o homem adquiriu uma posição dominante sobre as outras criaturas do reino animal. Não satisfeito com essa supremacia, contudo, começou a colocar um abismo entre a sua natureza e a dos animais. Negava-lhes a posse de uma razão e atribuiu a si próprio uma alma imortal, alegando uma ascendência divina que lhe permitia romper o laço de comunidade entre ele e o reino animal. (...) Todos sabemos que, há pouco mais de meio século, as pesquisas de Charles Darwin e seus colaboradores e precursores puseram fim a essa presunção por parte do homem. O homem não é um ser diferente dos animais, ou superior a eles; ele próprio tem ascendência animal, relacionando-se mais estreitamente com algumas espécies, e mais distanciadamente com outras. As conquistas que realizou posteriormente não conseguiram apagar as evidências, tanto na sua estrutura física quanto nas suas aptidões mentais, da analogia do homem com os animais. Foi esse o segundo, o golpe biológico no narcisismo do homem.” (p.174-5)

Sem dúvida, a principal analogia utilizada por Freud em consequência das idéias de Darwin, como instrumento para desenvolvimento e atualização de importantes conceitos da Psicanálise, encontra-se no Mito da Horda Primeva, em “Totem E Tabu” de 1913. No citado Artigo, Freud constrói uma hipótese sobre a pré-história da descendência humana, que culmina - e/ou fornece forma - em importantes conclusões conceituais como o Complexo de Édipo, os Instintos Sexuais e suas proibições, a relação entre o Tabu e a construção da Sociedade Humana, dentre tantas outras formulações de extrema importância para a Psicanálise.
Partindo da idéia darwiniana da Seleção Sexual, onde “os machos mais vigorosos, isto é, os que são mais capazes a ocupar o seu lugar na natureza, deixam um número maior de descendentes” (Darwin, p.91), e da hipótese de Darwin sobre o estado social dos homens primitivos, que viviam originalmente em grupos pequenos dominados pelo macho mais velho e mais forte, Freud nos relata a seguinte história:

Certo dia, os irmãos que tinham sido expulsos retornaram juntos, mataram e devoraram o pai, colocando assim um fim à horda patriarcal. Unidos, tiveram coragem de fazê-lo e foram bem sucedidos no que lhes teria sido impossível fazer individualmente. Selvagens canibais como eram, não é preciso dizer que não apenas matavam, mas também devoravam a vítima. O violento pai primevo fora sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força. (...) Odiavam o pai, que representava um obstáculo tão formidável ao seu anseio de poder e aos desejos sexuais; mas amavam-no e admiravam-no também. Após terem-se livrado dele, satisfeito o ódio e posto em prática os desejos de identificarem-se com ele, a afeição que todo esse tempo tinha sido recalcada estava fadada a fazer-se sentir e assim o fez sob a forma de remorso. Um sentimento de culpa surgiu, o qual, nesse caso, coincidia com o remorso sentido por todo o grupo. O pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo.” (p.145-46)

Ainda em “Totem E Tabu”, Freud faz uma interessante citação de Darwin, que impressiona pela similaridade entre a história apresentada acima:

Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo (...) a julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe (...) a visão mais provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava contra todos os outros homens. Ou pode ter vivido sozinho com diversas esposas, como o gorila. (...) Os machos mais novos, sendo assim expulsos e forçados a vaguear por outros lugares, quando por fim conseguiam encontrar uma companheira, preveniram também uma endogamia muito estreita dentro dos limites da mesma família.” (p.131)

Encontramos nesta hipótese a base para um dos pilares, senão o mais importante, sobre os quais se erigiu a Psicanálise: a luta incessante entre os instintos de prazer, advindos do Inconsciente, e os instintos de sobrevivência, ligados fortemente ao Eu – uma guerra de forças que impulsiona e exige uma adaptação do Homem à Realidade que o cerca.

* * * * * *

O Aparelho Psíquico inventado por Freud funciona como uma balança buscando o ponto de equilíbrio entre “prazer” e “desprazer”; mais de uma vez, Freud o descreve através da funcionalidade de evitar “desprazer”.

Como toda Ciência, a Psicanálise também tem seu Objeto. Herrmann o define como “Homem Psicanalítico”: a crise representacional-existencial do Sujeito, que coloca em choque direto a Realidade e a Identidade. Seguindo esta idéia, o Homem Psicanalítico, o Homem em análise, busca constante adaptação em um coeso “Existir no Mundo” – um choque direto entre o Sujeito Inconsciente, direcionado pelas pulsões de prazer; e o Mundo externo, contentor das regras da boa convivência civilizatória. A Psicanálise denomina “Defesa” esta busca adaptativa que evita a desintegração e aniquilamento do Sujeito psíquico frente às infinitas possibilidades de Ser em outras infinitas possibilidades de Mundo. Apesar da complexidade envolvida na construção, a idéia é relativamente simples: como nas boas Obras de Ficção-Científica, a pergunta que sobra é “Eu qual? E em qual Mundo?" – resto de uma aritmética psíquica que, aliás, em prol da saúde mental, é melhor que passe despercebido.
Percebe-se que aqui, estamos nos referindo a um tipo de defesa extremante primitiva e intrinsecamente fundante do Sujeito.

No belíssimo Artigo “O Escudo de Aquiles” (originalmente de 1987, publicado em “O Divã A Passeio”), Herrmann apresenta a “função defensiva da representação”.

A vida civilizada, a cuja invenção parecem aludir os poemas homéricos, depende da laboriosa diferenciação entre o reino do contágio e o plano superficial da representação. Ódio e paixão amorosa, morte e geração, fome e sexo e acima de tudo o impulso torturado de se agarrar aos semelhantes num abraço fundente permanecem como se fossem um magma borbulhando sob a organização do quotidiano. (...) Com intervalo temporal ou sem ele, no entanto, a superfície representacional desempenha sempre papel defensivo. Reveste, em primeiro lugar, a subjetividade com a película demarcadora de limites que representa a identidade; em segundo lugar, é o representante da desmedida inter-relação entre os homens, em que os grandes motivos humanos – paixão, guerra, morte, etc. – estão perpetuamente ativos, estrato a que podemos chamar reino do contágio ou ‘real’. (...) A representação está investida por uma forte carga pulsional, furtada à desejada fusão no real, em que os homens são plenamente corpos em ação comum. (...) De outra parte, como superfície identitária, a representação possui a inequívoca utilidade de oferecer ao sujeito os contornos definidos de um objeto altamente valorizado: o eu.” (p.169)

Do Totemismo, solução da crise representacional da “horda primeva”, aos dias contemporâneos, com suas tribos e constantes novidades, o Homem trava uma luta constante pela sobrevivência do Sujeito psíquico.
O “Eu”, pode ser compreendido como engenhosa defesa psíquica em constante tentativa adaptativa do Homem à seu Mundo.
Quanto mais complexo o Homem vai moldando o Mundo, mais se exige da função defensiva da representação – talvez, o mais fantástico instrumento de “evolução” na “luta pela sobrevivência” desta espécie – O Humano.

O “golpe psicanalítico” no amor-próprio do Homem foi mais fundo do que o próprio Freud poderia imaginar: atingiu diretamente o “Eu”, em um nocaute revelador de que “Eu” é apenas mais uma representação dentre tantas possíveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DARWIN, C. (s.d.) A Origem Das Espécies E A Seleção Natural. 5ª Edição. São Paulo: Hemus.
FREUD, S. (1913) Totem E Tabu in Edição Standard Brasileira Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud (vol. XIII). 2ª Edição. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
FREUD, S. (1917) Uma Dificuldade No Caminho Da Psicanálise in Edição Standard Brasileira Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud (vol. XVII). Rio de Janeiro: Imago, 1976.
HERRMANN, F. (1992) O Divã A Passeio – À Procura Da Psicanálise Onde Não Parece Estar. São Paulo: Brasiliense.
RITVO, L. B. (1992) A Influência De Darwin Sobre Freud – Um Conto De Duas Ciências. Rio de Janeiro: Imago.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Rua Tuiuti, 2530 (cj.116) – Tatuapé – São Paulo, SP – CEP 03307-000
Tel.: (11) 2295.4167

E-mail: misoriano@terra.com.br

12 de dezembro de 2010

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ANNA O.



Anna O., pseudônimo de Bertha Pappenheim (1859-1936), paciente de Josef Breuer, que publicou seu estudo de caso no "Estudos sobre a Histeria” (1895), escrito em colaboração com Sigmund Freud, é sem dúvida um dos principais casos clínicos da Psicanálise, por ser considerado por muitos como marco inicial do que mais tarde haveria de se tornar o tratamento psicanalítico.

Bertha Pappenheim nasceu em Viena, em 27 de fevereiro de 1859, falecendo em Iselberg, na Alemanha, em 28 de maio de 1936. Foi uma líder do Movimento Feminista, assistente social e escritora judia austro-alemã.

De personalidade sensível, por volta dos vinte anos de idade, Bertha sofreu muito com a longa doença terminal do pai que, juntamente com as tensões da infância, foram as responsáveis pelo desencadear de seu quadro de Histeria, marcado por sintomas como depressão, nervosismo, tendência ao suicídio, paralisia, perturbações visuais, contraturas musculares e outros, e que a deixavam praticamente inválida. Foi então, levada ao médico Josef Breuer, pertencente à elite de cientistas vienenses da época, sendo por ele tratada de 1880 a 1882.
Inicialmente, Bertha foi submetida a sessões de hipnose, mas no decorrer do tratamento, o médico descobriu que dialogando com ela sobre a sua vida, podia levá-la a relatar traumas de sua infância, do mesmo modo que sob hipnose, e que as recordações faziam que ela se sentisse melhor e que seus sintomas desaparecessem. A própria Bertha chamou o tratamento de "cura pela fala". Muitas pessoas acreditam que Breuer posteriormente a encaminhou para Freud, o que não é verdade.
Bertha Pappenheim teve um papel muito importante no desenvolvimento do método que Breuer denominou catarsis, e que viria ser o fundamento do futuro tratamento psicanalítico.
Após várias internações, em decorrência do agravamento dos sintomas da doença, e em razão da dependência em morfina, começou a dedicar-se ao trabalho social em prol da dignidade da mulher judia, o que, aparentemente, contribuiu para a sua recuperação.

Em 1902, Bertha fundou e dirigiu por 29 anos a Weibliche Fürsorge (Assistência da Mulher), uma Instituição destinada a colocar órfãs em lares adotivos, a educar mães sobre o cuidado com seus bebês, e a dar orientação vocacional e oportunidades de emprego para moças. Foi o primeiro abrigo e lar coletivo para mães solteiras e seus filhos, para crianças e meninas retiradas da prostituição.
Em 1904, fundou a "Liga das Mulheres Judias", a primeira organização judaica a lutar pelos direitos civis e religiosos da mulher judia, da qual foi a Presidente por vinte anos.
Em 1890, publicou o livro de contos “Na loja De Segunda Mão”, sob o pseudônimo de Paul Berthold. Em 1899 escreveu a peça de teatro “Direitos Da Mulher”, e traduziu para o alemão o livro da feminista Mary Wollstonecrafts, “A Vindication of the Rights of Woman”.
Uma de suas publicações mais conhecidas é “Sisyphus-Arbeit” (O trabalho de Sísifo), em alusão ao trabalho incansável do herói grego Sísifo, que persistentemente empurrava uma pedra para o alto da montanha, quantas vezes essa voltasse a rolar montanha abaixo.
Em 1910, Bertha publicou “O Problema Judeu Na Galícia” e “Sobre A Condição Da População Judia Na Galícia”, sobre a relação entre o baixo nível de educação e a pobreza entre as meninas judias. No mesmo ano traduziu as “Memórias de Gluekl von Hameln” (a primeira autobiografia de uma mulher na Alemanha). Em 1913, publicou a peça teatral “Momentos Trágicos”.
Após deixar a presidência da Liga das Mulheres, Bertha traduziu o “Maaseh Buch”, uma coleção de narrativas judaicas tradicionais; o “Ze'enah u-Re'enah”, uma bíblia seiscentista da mulher, de Isaac Ashkenazi; os cinco “Megillot”, que são o Livro de Ester, o Livro de Rute, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes e o Lamentações; e o “Haftarot”, uma seleção de textos dos profetas, lidos em ocasiões especiais.

Inteligente e atraente, Anna O. apresentava sintomas profundos de histeria, incluindo paralisia, perda de memória, deteriorização mental, náuseas e distúrbios visuais e orais. Os primeiros sintomas apareceram quando ela cuidava do pai, que sempre a mimara, e que estava morrendo.
Breuer começou o tratamento de Anna O. usando a hipnose. Ele pensava que, enquanto estivesse hipnotizada, ela se lembraria de experiências específicas que pudessem ter originado alguns dos sintomas. Ao falar sobe as experiências durante a hipnose, frequentemente ela se sentia aliviada dos sintomas. Durante mais de um ano, Breuer atendeu Anna O. diariamente. Ela relatava os incidentes perturbadores ocorridos durante o dia e, depois de falar, algumas vezes alegava sentir-se aliviada dos sintomas. Ela se referia as conversas como uma “limpeza de chaminé”, o que chamou de “cura pela palavra”. Conforme prosseguiam as sessões, Breuer percebia (assim disse ele a Freud) que os incidentes de que Anna O. se lembrava estavam relacionados com pensamentos ou eventos que ela repudiava. Revivendo as experiências perturbadoras durante a sessão de hipnose, os sintomas eram reduzidos ou eliminados.
A esposa de Breuer começou a ficar com ciúmes da relação emocional muito próxima criada entre os dois. A jovem Anna O. exibia, o que se tornou teorizado posteriormente por Freud, uma “transferência” para Breuer. Em outras palavras, ela estava transferindo o amor que sentia pelo pai para o terapeuta. Essa transferência fora incentivada pela semelhança física entre o pai e Breuer. Além disso, talvez Breuer também estivesse nutrindo uma ligação emocional com a paciente. Breuer acabou sentindo-se ameaçado com a situação, e disse a Anna O. que não podia mais tratar dela. Dali a poucas horas, Anna O. foi acometida de dores histéricas comparáveis às de um parto. Breuer acabou com essa condição usando a hipnose. Assim, reza a lenda, que ele teria viajado com a esposa para Veneza em uma espécie de segunda lua-de-mel.
Análises posteriores dos registros históricos revelaram que Anna O. não foi curada com os tratamentos catárticos de Breuer. Depois que ele deixou de vê-la, foi internada e passava horas diante da foto do pai, dizendo que ia visitar seu túmulo. Ela teve alucinações e convulsões, neuralgia facial e dificuldades recorrentes na fala e também se viciou em morfina (Breuer prescrevera a droga para aliviar a dor facial).
Breuer disse a Freud que Bertha enlouqueceria, acreditando que ela sofreria até morrer. Não se sabe bem ao certo como Bertha Pappenheim superou os problemas emocionais, mas ela acabou se tornando assistente social e feminista, apoiando a educação feminina. Publicou vários contos, escreveu uma peça sobre os direitos da mulher e acabou sendo homenageada com a criação de um selo postal alemão.

O relato de Breuer acerca do caso de Anna O. foi importante para o desenvolvimento da Psicanálise, por ter apresentado a Freud o Método Catártico, a chamada cura por meio da conversa, que mais tarde viria a figurar com destaque em seus trabalhos.

FONTES:

10 de setembro de 2010

A TRAGÉDIA DO ATO: "UM LITRO DE LÁGRIMAS" COMO IDEAL ROMÂNTICO ALEMÃO (Diego Tiscar)


"Às vezes, por amor humanitário, abraça-se um ser qualquer (já que não se pode abraçar a todo mundo). E é exatamente isto que não se deve revelar ao tal ser qualquer." (Nietzsche)

Confesso que não sei por onde começar este Artigo. Não posso começar pelo começo, pois "Um litro de lágrimas" é um Mangá (história em quadrinhos japonesa), e como tal, sua leitura é invertida - devemos ler um Mangá de trás para frente. Este em especial, tem início e final semelhantes.
Começarei pelo Título, "Um Litro De Lágrimas" - à primeira vista parece Título exagerado, tornando-se pior ao constatar-se que sua tradução é literal. Eu lhes garanto que esta impressão é precipitada e errônea. "Um Litro De Lágrimas" adapta o diário de Aya Kito, garota de 15 anos, portadora de uma rara doença degenerativa - tal adaptação foi realizada por uma artista que assina apenas como "Kita", lançado em volume único. Agora sim, temos um começo.
Aos 15 anos, Aya é diagnosticada com Degeneração Espinocerebelar - quadro onde as células da espinha dorsal, cerebelo e tronco cerebral se degeneram, alterando o equilíbrio e a fala. A posteriore, a doença impede a locomoção e por fim leva a morte. Um de seus médicos sugere a Aya que escreva em um caderno seus sintomas para facilitar o tratamento [1]. Aya vai além e escreve um diário com todas suas percepções e sentimentos. É este diário que foi adaptado por Kita - a artista simplesmente quadrinizou as palavras de Aya, intercalando seus desenhos com frases da verdadeira Aya, que morreu aos 25 anos, paralisada e muda, tendo escrito em seu diário até os 23 anos. O Mangá aborda apenas o primeiro ano da doença de Aya, dividindo-se em quatro capítulos: O início, Abalo, Decisão e Olhando Para O Céu.
"Um Litro De Lágrimas" teve grande repercussão internacional chegando tardiamente ao Brasil (a verdadeira Aya viveu entre as décadas de 60 e 80). Seu diário foi publicado inicialmente como um livro, posteriormente sendo adaptado para o cinema e por fim em uma novela nipônica.
O Ato, neste Artigo, é considerado como o colocar-se em prática um Desejo sem elaboração emocional/mental, dele resultando o Automatismo. O que veremos a seguir é a História de Aya, menina gentil, madura e cuidadosa - características negativas ao seu Desejo. Aya quer ser cuidada, acolhida: não quer ser madura e cuidar de seus irmãos, quer ser criança eternamente. O Desejo impossível de ser simbolizado é atuado.

O Início - Aya como Heroína Romântica
A adaptação da história de Aya começa com a composição de um pensamento/ato otimista - a menina diz precisar andar olhando para cima a fim de evitar que suas lágrimas escorram -, porém este ato representa um problema para ela: "Se eu não tiver apoio, meu corpo irá cair para trás. Se isto acontecer, como fica a minha lágrima? Como eu faço para derramar as lágrimas sem que ninguém perceba?" [1].
O Movimento Romântico Alemão teve seu "pré-início" no ano de 1750, no momento em que Alexander Baumgarten, cunhando este termo, o define como a Ciência que estuda os Fenômenos Artísticos na medida em que afetam nossos sentidos e são produzidos pelas faculdades do Sujeito. O próprio Baumgarten não atribuía devida importância ao Movimento, considerando-o como uma Ciência das Faculdades Inferiores. O Romantismo teve seu início como Movimento a partir da célebre frase de Goethe: "No início existe o ato!", publicado em Fausto [2].
Despertada pela ascensão e queda da Revolução Francesa, a Europa estava devastada pela guerra. Influenciados pelas religiões orientais como o Budismo e o Hinduísmo, que pregavam o Nirvana como meta e a interpretação do Mundo como Realidade interna e pessoal, gênios como Kant, Goethe, Hegel, Schopenhauer, Wagner, Nietzsche, Beethoven e posteriormente Freud (dentre outros), geraram este momento histórico onde o Sujeito toma consciência de sua força, possibilidades e limites a partir da legitimação da Subjetividade Criadora [2]. Os Românticos visavam romper com a Racionalização, a Lógica, a supervalorização do Intelecto sobre as emoções, e as Ciências Naturais, instituindo uma nova visão de Homem no Mundo.
Ao escrever em seu diário, Aya expõe sua subjetividade, rompendo com o cotidiano - seu, daqueles que a cercam e do leitor. Aya é uma Heroína Romântica - presa em um Mundo envolto pela névoa da morte, derramando lágrimas em desespero melancólico pelo seu passado que não voltará, pelo futuro tenebroso, temendo cair para trás no presente. Nietzsche compara o Romantismo com a Tragédia Grega, ressaltando o conhecimento, proximidade e impotência perante a Morte [3]. A Tragédia Grega, o Romantismo Alemão e a história de Aya apresentam a mesma lógica: "O Pessimismo é um sinal de decadência; o Otimismo é sinal de superficialidade, o 'Otimismo Trágico' é a [...] busca da intensidade e extensão de experiência, mesmo a custa de sofrimentos" [3]. Esta lição não é compreendida pela protagonista, mas sim pelo leitor - a exemplo de grandes personagens românticos, o destino de Aya não pode ser promissor.
Este capítulo tem função introdutória, ele nos apresenta a personagem principal sem muitas informações acerca de seu passado: filha mais velha de quatro irmãos, chorona, estudiosa, porém fisicamente fraca, Aya diz ser lenta ao andar e não gostar de Educação Física. No início a garota está com 15 anos, terminando o ensino fundamental e estudando para o "vestibulinho" de uma escola exigente com os estudos e difícil de entrar. É neste momento que ela apresenta os primeiros sintomas de sua doença, como o andar cambaleante e as quedas. Sua mãe a convence a fazer exames, onde é diagnosticada sua doença. A mãe da protagonista guarda segredo desta doença tentando aliviar o sofrimento da filha. O médico que a atende aconselha Aya a escrever em um caderno suas percepções acerca das dificuldades motoras.
Outro aspecto abordado é o tratamento vexatório pelo qual Aya é submetida por seus colegas, que ridicularizam seu andar cambaleante gerando um sentimento de incompreensão e isolamento. Já no final do capítulo, Aya presta o vestibular - momentos antes da prova ela é derrubada em uma escada por um garoto, tendo que fazer sua prova no ambulatório do colégio. Por fim, descobrimos que Aya foi aprovada na nova escola - o capítulo termina com um aviso de sua mãe: "Dentre seus colegas de sala, pode ser que haja preconceitos e pode ser que você sofra bastante por isso" [1].
Em todo o Mangá, Aya descreve sua interatividade com a natureza. Em um trecho do diário, ela enxerga o céu como algo bondoso e tenta aproximar-se do mesmo após ser ridicularizada por seus colegas e decidir perdoá-los: "Quero ter um coração tão grande quanto este céu azul [...] quero ser uma pessoa com coração grande que aceita e perdoa muitas coisas" [1]. O que aparentemente é um desabafo revela-se como desejo de amparo pelo Objeto Bom que a protegeria das ansiedades persecutórias - fonte de alegria e beleza, percebido como o seio amoroso e/ou como o pênis criador do Pai. A boa relação com a natureza está ligada à boa relação com a mãe (como Seio Bom). A Sublimação é uma tentativa de proteger este Seio das ansiedades persecutórias [4]. Aya quer ser nutrida por este Seio, mas antes de tudo ela deve protegê-lo, pois possivelmente, este está enfraquecendo, assim como seu corpo.
Nos demais capítulos, podemos observar o desenvolvimento de Aya e sua relação com as fantasmagorias ameaçadoras que a cercam, como um bom Romance Melancólico.

Abalo - No início existe o Ato
Próximo ao final do Mangá, Aya escreve em seu diário: "Por que será que essa doença me escolheu?" [1] - esta pergunta ainda revela mais do que a dúvida a cerca do "destino", ou ainda uma grande injustiça Divina: “Por que eu? Por que comigo?”. O que se tem é a doença e a doença é um fato. Aya inicia uma reflexão rudimentar a cerca de si e do momento em que vive. O que temos nesta fala é o Ato. O Ato é fato cru, mas não deve ser definido pelo ato em si, e sim pela sua construção no Real, a construção de seu Mundo Subjetivo, a manifestação de ansiedades, fantasias e desejos explicitados em um evento particular. Para além de descargas tanaticas (mesmo que elas existam), o Ato representa um desejo de expressão aliado ao esgotamento simbólico [5].
Ao mudar de escola, Aya caminha apoiada em suas novas colegas, que oferecem espontaneamente o ombro amigo. Ela está sempre abraçando e sendo abraçada por suas colegas, como única maneira segura de andar - os meninos se oferecem para carregar sua bolsa de material escolar.
"Era uma coisa que tinha decidido fazer quando entrasse no colégio Higashi: sorrir, cumprimentar e dizer sempre 'obrigada'. No começo fiquei insegura de não conseguir agir naturalmente, aos poucos não estou mais tensa" [1]. A frase de Aya expõe o Ato e sua constituição - o mínimo de articulação racional e o máximo de valor simbólico [5].
Dos notórios da Psicanálise, Melanie Klein foi a primeira a dedicar-se a ansiedade e ao Édipo feminino. Na primeira infância, as crianças acreditam que a mãe é fonte de nutrição e prazer, sendo ela o Objeto original de prazer - o corpo da mãe contém tudo que é desejável, incluindo o pênis do pai. O reconhecimento da Castração gera sentimentos frustrantes na menina, que passa a fantasiar que sua mãe a substituíra pelo pai. Simultaneamente, ela visa roubar o pênis do pai para sua satisfação. Como resultado, a menina nutre fantasias sádicas contra a mãe, ao mesmo tempo em que introjeta o pai. Como esta introjeção ocorre em meio às fantasias sádicas contra o primeiro Objeto e o Pai fantasmático adquire características destrutivas, o Objeto introjetado com fúria é sentido como se estivesse danificado, gerando o medo de ser retalhada e o medo de ter perdido este Objeto de proteção [6].
Esta necessidade de introjetar o Bom Objeto, mesmo correndo o risco de danificá-lo permanentemente, é posteriormente ilustrada no mangá: à medida que a doença de Aya progride, ela passa a rasgar seus livros e grampear os capítulos, carregando apenas o que precisa usar - amante da leitura e incapaz de realizar atividades físicas, Aya tem os livros como objetos de prazer. Aya chora por culpa em rasgá-los: "Ainda dói um pouco fazer isso. Rasgo pedindo desculpas no fundo do meu coração" [1]. A dor de Aya justifica-se pelo fato de seu Objeto de satisfação provocar quedas e enfraquecimento de seu corpo, o que não está explícito, mas talvez, seja o medo de retaliação do Objeto - os ataques ao Objeto original e introjeção sádica do pênis do pai são a origem do Superego feminino, mais ameaçador que o masculino, pela intensidade de como foi absorvido o Seio Mal, formado por dois Objetos sedentos por vingança - esta situação gera o medo de ser destruída por dentro, medo que retorna na puberdade [6]. Diversas vezes Aya descreve um medo pelo desconhecido em seu corpo, ela evita perguntar sobre sua doença evitando confirmar seus receios de destruição interna. Um Superego mais destrutivo significa uma maior dependência dos bons Objetos. Há uma busca pelo Amor, considerado perdido pela danificação do Seio Bom e do Objeto Pai [6]. Aya tenta manter estes Objetos a toda custa, com atitudes meigas e de gratidão - porém estas atitudes podem chegar às raias do martírio, como no caso da protagonista. O ato é universal, onipresente, variando de sujeito a sujeito, quantitativamente, e não qualitativamente. A atuação vai além do apoio de colegas ou mudanças da infância para a adolescência, ela é uma tentativa falha de expressão - um gesto individual de estrutura patológica que identifica o Sujeito como portador da ação [5].
Em ultima instância, o Ato é a exposição de uma impotência mascarada pela onipotência - aquele que atua tende, movido pelo sofrimento, a alterar a Realidade a partir do Ato [5].
Somos apresentados a dois novos personagens de relativa importância para a história, mas de grande importância para o desfecho da história: Ishikawa, um garoto que se senta ao lado de Aya e nunca a olha nos olhos, ficando tenso e nervoso perto dela, e que lê os mesmos livros que ela - "Queria que ele olhasse nos meus olhos quando estivesse falando comigo. Parece que está negando a minha existência e isso me deixa triste" [1]; Sati Inoue, colega da escola de Aya, dois anos mais velha prestes a prestar o vestibular. As duas se conheceram em um momento que Aya estava indo sozinha para a biblioteca, caminhando lentamente apoiada em uma parede, evitando as escadas. Na volta da biblioteca, as duas garotas se apresentam e andam lado a lado - "Não é que ela me ajuda, apenas anda no mesmo ritmo que eu, devagar. Está andando do meu lado, só isso" [1]. A partir deste ponto, Sati torna-se a melhor amiga de Aya.
O Ato não se restringe a Aya, permeando a relação com suas colegas, e mesmo com aqueles com quem Aya não mantém contato. Nesta nova escola, Aya torna-se uma aluna popular, quase uma celebridade dentre seus colegas. Os livros que a garota lê são rapidamente emprestados junto à biblioteca - todos querem ler o mesmo que ela. O Ato é alimentado pelo meio em que o indivíduo está inserido, em um Mundo cada vez mais naturalista, onde o Sujeito é passivo - os fenômenos são inalteráveis e repetem-se infinitamente sem interação com o Homem, o resultado são atos individuais que se adéquam à Sociedade.
Existe na adolescência uma tendência a adorar algum Herói, enquanto outras figuras podem ser odiadas, separando assim o Amor do Ódio, integrados em Pai e Mãe. Objetos amados e odiados são receptáculos de sentimentos conflitantes e opressivos, que surgem na adolescência com a ascendência edípica [4].
Aya torna-se ao mesmo tempo Objeto fruto de Amor e Sujeito que subverte a ordem: quando os alunos são sorteados para realizarem tarefas escolares que vão desde limpar a sala a organizar os livros na biblioteca, Aya é a única que não recebe nenhuma responsabilidade - ela decide fazer aquilo que suas limitações permitem: "Vou fazer o trabalho de um anjo" [1]. Existe um modelo a ser seguido. O Ato torna-se a necessidade social que o cria, o instiga e depois chora seus efeitos. Como podemos ver no final do capítulo, Aya está no hospital, andando apoiada em um corrimão - ela tropeça, mas evita machucar-se -, orgulhosa de si, a garota começa a levantar-se quando ouve uma mãe dando bronca em sua filha: "Se você não se comportar você vai ficar igual a ela" [1]. A reação de Aya é comovente e atuante: "Nossa, essa doeu muito" [1]. Aya racionaliza que aquela mãe não sabia o que estava dizendo. O sentimento de impotência do Sujeito atuante está na ineficácia em tornar-se porta voz daquilo que o faz sofrer [5].
A pressão em inserir-se, em ser aceito, em seguir o modelo existente na sociedade (sentida como um indivíduo que exige uma identificação), cinde o Ego e provoca a impotência [5]. O Ato reúne em uma só ação, identificação com os demais e desejo de superação, alimentado pelo próprio sofrimento, esmagando o sujeito.
Ao final do capítulo, Aya é internada no hospital, onde passará suas férias fazendo exames de saúde e tratamentos médicos. O capítulo termina com Aya voltando para casa, registrada como deficiente física: "Me internei, fiz fisioterapia. Achava que, com isso, eu poderia voltar a ser a Aya de antes. Mas o que eu ganhei ao sair do hospital foi apenas uma identidade” [1].

Decisão - Todos os caminhos levam a Thanatos
Diziam os Gregos: "Todos os caminhos levam aos infernos" [7].
Longe de serem fatalistas, estes sabiam que a Morte é o único destino possível. Seja nas Tragédias Gregas ou nas obras do Romantismo, o destino é apenas um: a Morte. Antes da Morte, havia o sofrimento evidenciando o Humano e suas relações, demasiadas humanas.
A mesma sociedade que alimenta o Ato, fortificando-o, também pacifica o meio: a Realidade é antes de tudo "construção de aparência permanente" [5] - tudo retorna ao que era.
No terceiro capítulo temos duas situações muito distintas.
As colegas de Aya ajudam-na a ficar ereta, para que esta possa olhar um arco-íris; enquanto que mais para frente, o diretor do colégio e alguns professores, sugerem à Aya que mude para uma escola de deficientes, pois seus colegas começavam a considerar que era um peso cuidar dela.
Este argumento torna-se decisivo para Aya mudar de colégio ao final do ano concluindo seus estudos em uma escola de deficientes.
O Ato é uma denúncia: ele aponta o processo que leva à patologia - o Ato evidencia o Campo, mas este se reestrutura em seguida, da forma que era antes, porém com uma percepção diferente [5].
Se o Ato evidência uma estrutura social falha, mentirosa, hipócrita, fruto e mãe de patologias; aqueles que vivem neste Campo, alheios a tal estrutura, "não perdoam" quem quer que seja, que evidencie tal processo.
Quando Aya decide abandonar seu colégio (quando na prática, ela foi obrigada a sair), suas colegas fazem 1.000 dobraduras de passados de papel (uma tradição para desejar melhoras a quem está doente) para despedir-se. Mas Aya tem outra visão: "As minhas amigas que me ajudaram sempre vão dizer 'Aya, não vá'". Para Herrmann [5] o Ato é a queda do mais fraco perante a Realidade em que se vive, tornando-se necessário diminuir a distância entre o pensar e o agir. No caso de Aya, esta distância inexiste, ela inverte-se: o pensamento vem depois da ação, registrado em seu diário.
Freud ponderou que a Morte não seria uma necessidade biológica, mas a realização de um Desejo. Talvez aconteça o mesmo com doenças graves.
Aya questiona-se: "Por que será que essa doença me escolheu?" [1]. Não Aya, a pergunta está invertida. A pergunta a ser feita seria: Por que você escolheu esta doença?
Aya não consegue encontrar a resposta para esta pergunta, concluindo apenas: "Eu não posso mudar o Agora" [1] - eis a impotência do Ato.
O Mundo não existe enquanto Realidade objetiva, mas como Subjetividade, permeada por nossas fantasias, ansiedades e desejos - as ansiedades (do alemão Angst - medo ou pânico) perseguem e ameaçam. Como existe o desconhecido, sempre haverá ansiedade; as fantasias estão entre as defesas mais arcaicas contra a ansiedade persecutória - enquanto houver ansiedade haverá fantasia. Já o Desejo... O Inconsciente é fonte de desejos que nunca serão satisfeitos: no máximo realizados de forma alucinógena ou adaptados ao Princípio de Realidade. Em uma analogia com Schopenhauer, esta realização parcial é como "jogar esmolas a um mendigo para que este viva para sofrer mais um dia" [8]. Penso então, que o Mundo em que vivemos é permeado por fantasias, desejos, ansiedades e sofrimento.
O desejo de Aya fica claro: ela quer ser vista, sua doença proporciona esta visão, mas por pouco tempo - logo a garota desaparece e resta a degeneração de seu sistema nervoso: "Dentro de mim, ainda mora o 'eu' saudável; a única coisa que me diferencia dos meus amigos é este corpo defeituoso" [1].
Ela passa a ser cuidada por todos, sem conseguir se expressar, aliviando-se ao escrever em seu diário: este alívio se dá no Inferno. Ela tenta antecipar ou socorrer o sofrimento, mas nunca compreende-lo: não há espaço entre a dor e a ação.
O conhecimento da dor só é possível pela Psicanálise, onde analista e paciente contemplam o sofrimento, para então haver a adequação freudiana, que antes de tudo visa à funcionalidade do paciente: este deve ser capaz de retornar ao Mundo - não adequado a este (como no behaviorismo), mas conhecedor de si mesmo.
Não que Aya não tente se conhecer, mas o Ato a impede na Realidade construída por ela. Não há o que conhecer, há apenas o Ato. Não existe compreensão, apenas julgamento. Não existe Aya Kito, apenas Degeneração Espinocerebelar. Todos os caminhos levam ao Rio Ébero, morada de Thanatos.
A Pulsão (trieb) é força inata/interna que impele para a ação. Ela nasce no corpo, preenche o Id e inunda o Ego, que exige sua satisfação (a Pulsão é sentida como fenômeno psíquico) [9]. A satisfação pulsional só pode ser prazerosa se vinculada afetivamente a representações objetais. Thanatos (Pulsão de Morte) não só é anterior a Eros (Pulsão de Vida) como realiza o Desejo - tudo o que vive, morre.
Se a Pulsão nasce do corpo, sua tendência é retornar ao corpo. Este caminho é impelido por Thanatos/Pulsão de Destruição, desfazendo os vínculos afetivos em um ímpeto de retorno ao inanimado: surgem sintomas, atuações, patologias (psíquicas e físicas). Por fim, a desintegração das funções do corpo - como Thanatos é anterior a Eros e nossa sociedade é arquitetada pela repressão, impedindo a satisfação imediata do Desejo, a vida é arquitetada para alcançar o retorno ao pré-vida: esta é a Morte, pela desintegração dos laços afetivos e do corpo.
É justamente esta desintegração que caracteriza a doença de Aya. Apesar de faltarem dados regressos, posso supor que existia uma necessidade de acolhimento ou de destaque (provavelmente os dois), que Aya não conseguiu elaborar. Se Aya está presa a uma repetição de atuações e sintomas cujo único destino é a Morte, então por que ela apega-se tanto a vida?
A manutenção da vida é feita pela Pulsão de Autoconservação. Esta promove a manutenção da Morte - a vida é um fenômeno externo, enquanto o retorno ao inanimado é uma tendência interna. Assim, Aya atesta querer viver (e de fato ela o quer), para que possa morrer segundo o Desejo do organismo.
A relação de Aya com sua família, presente e cuidadosa; amigos (principalmente Sati); e a escrita do diário protegeu alguns objetos mais preciosos da destruição thanática. Com a expulsão pela escola, Aya afunda-se nas trevas da Morte. O capítulo termina com nossa protagonista embalada pelos braços de Thanatos.

Olhando para o céu - Ode to Joy
Os mestres do Romantismo usaram a seu favor a dor que sentiam.
Nietzsche definia o Sublime como sujeição artística do Horrível [3]. Amargurado, solitário, surdo e abandonado por todos, Beethoven compôs sua mais bela Sinfonia ao musicar “Ode to Joy” (Ode à alegria) de Schiller: "Oh amigos, mudemos de tom!/Entoemos algo mais agradável/E cheio de alegria!".
No quarto movimento da Nona Sinfonia (devo avisar que todo este capítulo foi escrito ao som da Nona Sinfonia), em 1774 Goethe publicou "O triste fim do jovem Werther", onde o personagem título escrevia em seu diário sua louca e frustrada paixão por Charlott S. – esta, apaixonada por outro. O romance fora inspirado em uma passagem real da vida do Poeta, que vivera em relação triangular com um jovem casal: um outro amigo apaixonara-se por esta mulher que o renegava - o amigo acabaria suicidando-se da mesma forma que Werther [11].
Beethoven expressou toda sua decadência afetiva e social na Nona Sinfonia, pedindo uma mudança de tom em seu sofrimento já insuportável; enquanto Goethe elaborava a dor da morte de um colega. Ambas as obras trouxeram comoção popular: se Beethoven foi aplaudido de pé por se expor, Goethe modificou padrões - os leitores de Werther passaram a imitar os personagens do livro em suas mentes, seus hábitos e em seu epílogo, gerando uma onda de suicídio na Europa [11].
No Movimento Romântico Alemão, o Ato não está apenas no artista, mas em seu público. "A aderência do real e o fascínio pela mais estrita atualidade sempre estiveram no âmago do romance moderno" [11].
O romance epistolar, escrito por meio de cartas (ou por diário), é o que mais aproxima o leitor do sofrimento de quem escreve. Aqui, o autor torna-se um mero editor, vivendo no presente, ignorando qualquer possibilidade de futuro [11]. A distância entre protagonista e leitor inexiste, restando o Trágico por excelência e o Amor pela perda.

O ultimo capítulo começa na desesperança.
Aya decidiu mudar de escola, e pensa em como sentirá falta de seus colegas. Ela finalmente questiona sobre sua doença, recebendo a confirmação médica de um temor arcaico de desintegração. Suas colegas despedem-se dela, como num grande Ato regado a lágrimas. Porém, existem duas despedidas reais. Sati despede-se antes das demais, cantando uma música para Aya; enquanto Ishikawa, após a despedida coletiva, revela o motivo por não a olhar nos olhos: no dia do exame para admissão no colégio, foi Ishikawa quem esbarrou em Aya, derrubando-a. Culpado por tê-la machucado, o molecote sentia vergonha de encará-la. Ele lia os mesmos livros que Aya, procurando um assunto em comum. Mas só consegue olhar para a protagonista ao despedir-se, longe dos demais colegas de classe.
Se a vida escolar de Aya era embasada na atuação, Sati e Ishikawa mostraram uma relação verdadeira para com Aya.
As relações verdadeiras fortalecem e favorecem a integração do Ego, nutrem o bom Objeto, ampliando o domínio de Eros.
Aya diferencia estas despedidas das demais - talvez sem saber o porquê -, sentindo gratidão verdadeira por elas. Até então Aya atuava "sorrir, cumprimentar e dizer 'obrigada'" [1]. Era um dogma auto-imposto, uma defesa contra a retaliação objetal. Com Sati e Ishikawa, Aya sente a verdadeira gratidão.
Ao sair do colégio para uma escola de deficientes, Aya rompe sua relação saudável e retorna ao Ato que a levaria à morte alguns anos depois. A atuação da protagonista demonstra uma má recordação do acolhimento materno, em oposição à voracidade e frustração - predisposições para a inveja [12]. Sua atuação bondosa e generosa demonstra a paz que o bebê sente no seio materno, a qual Aya considera perdida. Tal sensação de que o Seio Bom internalizado não mais satisfaz, é representada numa cena em que Aya sonha que pode andar: rapidamente ela acorda caindo da cama. Frustrada, a garota soca suas pernas num raro momento de raiva, um raro momento sem atuação. Se Aya estivesse em um processo analítico toda sua agressividade voltada para a destruição de seu corpo teria emergido em sessão, atenuando os efeitos de Thanatos.
Retornando à despedida bem elaborada, que suscita o sentimento de gratidão que permite que Aya entre em contato com o bom Objeto, ela sente que algo de bom existe dentro dela e de outras pessoas, sendo possível relacionar-se [12]. A interrupção de seu convívio com tais amigos não permite o fortalecimento do bom Objeto.
O mangá termina ao final dos 16 anos de Aya. Ela continuou escrevendo em seu diário até os 23 anos, falecendo aos 25 anos. Para o leitor, sua história termina aqui.
Após a despedida de seus amigos, Aya pede para sua mãe estacionar o carro perto de uma árvore de cerejeira, onde a menina deita-se, pensando que sua deterioração - e por fim a Morte -, são inevitáveis. Ela pensa em seus sentimentos: "Meu coração... Sinto o batimento no peito... Esta vida é muito importante... Estou vivendo" [1]. A proximidade da Morte revela a beleza da Vida.

A Morte é o sentido da Vida, o Extremo de todos os sentimentos, a Nostalgia pelo que não se conhece; enquanto Thanatos é o retorno ao estado embrionário, do cuidado e nutrição constantes. Thanatos é Destruição: onde há Destruição, há Amor.
Existe Amor em Thanatos?
Thanatos é Amor cínico pela Vida.
Aya ama a Vida.
Para amá-la, ela teve que destruí-la - não sem antes assegurar-se de viver para sempre.
Esta é a função do Diário: através deste, Aya tornou-se Imortal.
Após sua morte, ela continua sendo vista e cuidada.
Ao abraçar a Morte, ela encontra a Vida.
Esta é a nossa atuação como leitores.
O início do mangá mostra seu final.
O Fim denota um novo Começo: não para Aya, mas para nós leitores, que assumimos nosso papel na grande farsa que é a Realidade.
Mesmo porque, no Início existe o Ato.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] KITA & KITO, A. (2009) Um litro de lágrimas. São Paulo: New Pop.
[2] WERLE, M. A. & GALÉ, P. F. (2009) Arte e filosofia no idealismo alemão. São Paulo: Barcarolla.
[3] DURANT, W. (s.d.) A filosofia de Nietzsche. Rio de Janeiro: Ediouro.
[4] KLEIN, M. (1937) Amor, culpa e reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
[5] HERRMANN, F. (2001) Andaimes do real II: Psicanálise do Quotidiano. 3ª edição. São Paulo: Casa do Psicólogo.
[6] KLEIN, M. (1932) Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual da menina. In A Psicanálise de Crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
[7] COMMELIN, P. (1941) Nova mitologia grega e romana. 7ª edição. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia Editores.
[8] DURANT, W. (s.d.) A filosofia de Schopenhauer. Rio de Janeiro: Ediouro.
[9] HANNS, L. (1996) Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.
[10] GARCIA-ROZA, L. A. (1996) Freud e o inconsciente. 12ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[11] MATOS, f. (2002) O solilóquio de Werther. In WERLE, M. A. & GALÉ, P. F. (org.) Arte e filosofia no idealismo alemão. São Paulo: Barcarolla.
[12] KLEIN, M. (1957) Inveja e gratidão. Rio de Janeiro: Imago. 1991.


DIEGO TISCAR é Psicólogo Clínico.
Tel.: (011) 9239-8243
Email: dtiscar@gmail.com

30 de agosto de 2010

DESTAQUE ESPECIAL: VI Workshop Produção Escrita e Psicanálise - Movimentos pelo escrito: do medo ao entusiasmo



Quais significados são atribuídos para os atos de ler e escrever por parte daqueles que se propõem a sustentar este exercício em contextos públicos? Em 2004, esta questão deu origem ao Grupo de Estudos e Pesquisa Produção Escrita e Psicanálise - GEPPEP, atualmente composto por 33 participantes (11 doutores, 6 doutorandos, 6 mestres, 9 mestrandos, 1 graduado e 2 graduandos). Conjuntamente, os membros do GEPPEP interrogam a produção escrita contemporânea, tomando, em sua maior parte, versões de textos escolares e científicos como objeto de análise. Assim, nossos esforços voltam-se para a elucidação de uma produção escrita que é fruto de uma época na qual, face a uma degradação do saber constituído, a concepção de Sujeito formulada no momento em que havia uma predominância da Ética Racionalista, já não mais funciona tão bem. Levamos a derrocada do duplo Sujeito da Modernidade em conta. Portanto, não mais trabalhamos nem com o Sujeito Crítico (kantiano) nem com o Sujeito Neurótico (freudiano). Alertas para o surgimento de um novo Sujeito, Pós-moderno, temos considerado o trabalho de autores que defendem a hipótese de que, graças à configuração político-econômica da contemporaneidade, está ocorrendo a decadência da figura do grande Outro. Partindo de uma teorização psicanalítica calcada no último ensino de Jacques Lacan, estamos lidando com uma teorização de Sujeito que o toma tal qual ele se constitui na contemporaneidade e, a partir dela, buscando novos modos de conduzir a formação para a leitura e a escrita. Em uma sociedade que não mais parece ser organizada pelo Complexo de Édipo, que ressignificações se tornam necessárias para:
a) compreender os impasses na aquisição do sistema alfabético de representação?
b) escrever textos acadêmicos que obtenham sustentação dos pares e possam circular em ambientes nos quais dedica-se à produção e à transmissão de conhecimentos?
Esta discussão é o cerne do projeto de pesquisa coletivo Movimentos do Escrito, realizado conjuntamente de 2009 a 2012.

Os membros do Grupo de Estudos e Pesquisa Produção Escrita e PsicanáliseGEPPEP, tomaram a obra “Coração de Tinta”, de Cornélia Funke, como mote para refletir a respeito dos impasses com que o Sujeito Contemporâneo se depara ao se engajar na tentativa de realizar uma produção escrita singular.
Tal qual Maggie, protagonista do romance, muitos pesquisadores extraem ensinamentos valiosos a partir do deciframento dos dados de seus estudos, e assim descobrem a possibilidade de acenderem a patamares inimaginados no que se refere à elaboração teórica, ou, ainda, vivenciam situações de angústia ao se defrontarem com as peculiaridades do trabalho que uma escrita rigorosa requer.
Em 2010, portanto, o GEPPEP examina as possibilidades que se colocam na atualidade para aqueles que visam a acrescentar algo singular à produção acadêmica por meio da escrita, colocando em cena os diversos percursos trilhados e também examinados nos estudos desenvolvidos no decorrer do ano.

21 e 22 /out/2010
Auditório da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
Inscrições: seção de Apoio Acadêmico da Faculdade de Educação da USP - Sala 103 Bloco A
Informações: geppep@usp.br
Telefone para contato: (11) 3091-8260

8 de agosto de 2010

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SIGMUND FREUD


A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE abre um novo campo: a Série “Notórios da Psicanálise”. A Série destina-se à publicação de biografias de importantes psicanalistas, importantes pensadores que possuem uma interlocução com a Psicanálise, bem como o historial de relevantes casos clínicos da História da Psicanálise. A REVISTA se coloca aberta para Artigos e sugestões neste novo espaço.
CORPO EDITORIAL


Sigmund Freud, psicanalista austríaco, nasceu em Freiberg (atual Pribor – República Checa), em 06 de maio de 1856, vindo a falecer em Londres, em 23 de setembro de 1939.
O criador da Psicanálise nasceu na região da Moravia, que então fazia parte do Império Austro-Húngaro. Sua mãe, Amália, era a terceira esposa de Jacob, um modesto comerciante. A família mudou-se para Viena em 1860.
Em 1877, ele abreviou o seu nome de Sigismund Schlomo Freud para Sigmund Freud. Desde 1873, era aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de Viena, onde gostava de pesquisar no Laboratório de Neurofisiologia. Ao se formar, em 1882, entrou no Hospital Geral de Viena.
Em parceria com o médico Joseph Breuer, publicou em 1895 os "Estudos Sobre a Histeria". O livro descreve a teoria de que as emoções reprimidas levam aos sintomas da Histeria, que poderiam desaparecer se o paciente conseguisse expressar recordações sobre a origem dos mesmos. As memórias ressurgiam sob o efeito da Hipnose. 
Insatisfeito com a Hipnose, Freud desenvolveu o que é hoje a base da Técnica Psicanalítica: a Livre Associação. O paciente é convidado a falar o que lhe vem à mente para revelar memórias reprimidas causadoras das Neuroses.
Em 1899, publicou "A Interpretação Dos Sonhos", em que afirma que os sonhos são "a estrada mestra para o Inconsciente", a camada mais profunda da mente humana, um mundo íntimo que se oculta no interior de cada indivíduo, comandando seu comportamento, a despeito de suas convicções conscientes.
Mesmo com dificuldades para ser reconhecido pelo meio acadêmico, Freud reuniu um grupo que deu origem, em 1908, à Sociedade Psicanalítica de Viena. Seus mais fiéis seguidores eram Karl Abraham, Sandor Ferenczi e Ernest Jones. Já Alfred Adler e Carl Jung acabaram como dissidentes.
A perda de Jung foi muito mais dolorosa, pois Freud esperava que o discípulo, suíço e protestante, projetasse a Psicanálise além do ambiente judaico. O principal motivo da discórdia foi o papel prioritário dado por Freud ao desejo sexual.
Freud inicia os estudos na universidade aos 17 anos, os quais tomam-lhe inesperadamente bastante tempo até a graduação, em 1881. Registros de amigos que o conheciam naquela época, assim como informações nas próprias cartas escritas por Freud, sugerem que ele foi menos diligente nos estudos de Medicina do que deveria ter sido. Em lugar dos estudos, ele atinha-se à pesquisa científica, inicialmente pelos estudos dos órgãos sexuais de enguias — um estranho, mas interessante presságio das teorias psicanalíticas que estariam por vir vinte anos mais tarde. De acordo com os registros, Freud completa tal estudo satisfatoriamente, mas sem distinção especial. Em 1877, desapontado com os resultados e talvez menos excitado em enfrentar mais dissecações, Freud vai ao laboratório de Ernst Brücke, que torna-se seu principal modelo de ciência.
Com Brücke, Freud entra em contato com a linha fisicalista da Fisiologia. O interesse de Brücke não era apenas descobrir as estruturas de órgãos ou células particulares, mas sim, suas funções. Dentre as atribuições de Freud, nesta época, estavam o estudo da anatomia e da histologia do cérebro humano. Durante os estudos, identifica várias semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a dos répteis, o que o remete ao então recente estudo de Charles Darwin sobre a Evolução das Espécies e à discussão da "superioridade" dos seres humanos sobre outras espécies.
Freud, então, conhece Martha Bernays. O seu desejo de desposar Martha, o baixo salário e as poucas perspectivas de carreira na pesquisa científica, fazem-no abandonar o laboratório e a começar a trabalhar no Hospital Geral, o principal hospital de Viena, passando por vários departamentos do mesmo. O próprio Brücke aconselha-o a mudar, apesar de seu bom desempenho, e com razão, já que Freud precisava ganhar dinheiro.
No hospital, depois de algumas desilusões com o estudo dos efeitos terapêuticos da cocaína — incluindo um episódio de morte por overdose de um amigo da época do laboratório de Brücke —, Freud recebe uma licença e viaja para a França, onde trabalha com Charcot, um respeitável psiquiatra do Hospital Psiquiátrico Saltpêtrière que estudava a Histeria e os efeitos da Hipnose.
De volta ao Hospital Geral e entusiasmado pelos estudos de Charcot, Freud passa a atender, na maior parte, jovens senhoras judias que sofriam de um conjunto de sintomas aparentemente neurológicos que compreendiam paralisia, cegueira parcial, alucinações, perda de controle motor, e que não podiam ser diagnosticados com exames. O tratamento mais eficaz para tal doença incluía, na época, Massagem, Terapia de Repouso e Hipnose.
Apenas em setembro de 1886 Freud casa-se com Martha Bernays, com a ajuda financeira de alguns amigos mais abastados, dentre eles Josef Breuer. Foi com as discussões de casos clínicos com Breuer que surgiram as idéias que culminaram com a publicação dos primeiros artigos sobre a Psicanálise.
O primeiro caso clínico relatado deve-se a Breuer, e descreve o tratamento dado a uma paciente (Bertha Pappenheim, conhecida pelo pseudônimo de "Anna O."), que demonstrava vários sintomas clássicos de Histeria. O método de tratamento consistia na chamada "cura pela fala" ou "cura catártica", na qual a paciente discutia sobre suas associações com cada sintoma e, com isso, os fazia desaparecer. Esta técnica tornou-se o centro das técnicas de Freud, que também acreditava que as memórias ocultas ou "reprimidas", nas quais baseavam-se os sintomas da Histeria, eram sempre de natureza sexual. Breuer não concordava com Freud neste último ponto, o que levou à separação entre eles logo após a publicação dos casos clínicos.
Na verdade, a classe médica em geral marginalizava as idéias de Freud inicialmente; seu único confidente durante esta época era o médico Wilhelm Fliess. Depois que o pai de Freud falece, em outubro de 1896, segundo as cartas recebidas por Fliess, Freud, naquele período, dedica-se a anotar e analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua própria infância e, no processo, determinando as raízes de suas próprias neuroses. Tais anotações tornam-se a fonte para a obra “A Interpretação dos Sonhos”. Durante o curso desta Auto-análise, Freud chega à conclusão de que seus próprios problemas eram devidos a uma atração por sua mãe e a uma hostilidade ao seu pai. É o famoso "Complexo de Édipo", que se torna o coração da Teoria de Freud sobre a origem da Neurose em todos os seus pacientes.
Nos primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras "A Interpretação dos Sonhos" e "A Psicopatologia da Vida Cotidiana". Nesta época, Freud já não mantinha mais contato nem com Josef Breuer, nem com Wilhelm Fliess. No início, as tiragens das obras não animavam Freud, mas logo médicos de vários lugares — Eugen Bleuler, Carl Jung, Karl Abrahams, Ernest Jones, Sandor Ferenczi — mostram respaldo às suas idéias e passam a compor o Movimento Psicanalítico.
Sensibilizado pela Primeira Guerra Mundial e pela morte da filha Sophie, vítima de gripe, Freud teorizou sobre a luta constante entre a Força da Vida e do Amor contra a Morte e a Destruição, simbolizados pelos deuses gregos Eros (Amor) e Tanatos (Morte). A sua Teoria da Mente ganhou forma com a publicação em 1923, de "O Ego e o Id".
Em 1936, disse considerar um avanço seus livros terem sido queimados pelos nazistas. Afinal, no passado, eram os autores que iam à fogueira. Mas a subida de Hitler ao poder ditatorial não demorou e a perseguição aos judeus se intensificou.
Casou com Martha Bernays. O casal teve seis filhos, um dos quais, Anna, tornou-se discípula, porta-voz do pai e psicanalista. Em março de 1938, quando da invasão da Áustria pela Alemanha, com a intervenção do diplomata americano William Bullitt e de um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud e sua família deixam Viena indo para Londres, residindo em Maresfield Gardens 20 (hoje "Freud Museum").
Freud morre de câncer na mandíbula aos 83 anos de idade (passou por trinta e três cirurgias), em 23 de setembro de 1939. Supõe-se que tenha morrido de uma overdose de morfina. Freud sentia muita dor, e segundo a história contada, ele teria dito ao médico que lhe aplicasse uma dose excessiva de morfina para terminar com o sofrimento.
Freud inovou em dois campos. Simultaneamente, desenvolveu uma Teoria da Mente e da Conduta Humana, e uma Técnica terapêutica para ajudar pessoas afetadas psiquicamente.
Provavelmente a contribuição mais significativa que Freud fez ao Pensamento Moderno é a de tentar dar ao conceito de Inconsciente um status científico. Seus conceitos de Inconsciente, Desejos Inconscientes e Repressão foram revolucionários; propõem uma mente dividida em camadas ou níveis, dominada em certa medida por vontades primitivas que estão escondidas sob a Consciência e que se manifestam nos lapsos e nos sonhos.
Em sua obra mais conhecida, "A Interpretação dos Sonhos", Freud explica o argumento para postular o novo modelo do Inconsciente e desenvolve um Método para conseguir o acesso ao mesmo, tomando elementos de suas experiências prévias com as técnicas da Hipnose.
Como parte de suaTeoria, Freud postula também a existência de um Pré-Consciente, a camada entre o Consciente e o Inconsciente. A Repressão em si tem grande importância no conhecimento do Inconsciente. De acordo com Freud, as pessoas experimentam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão dolorosos que não podem suportá-los. Tais pensamentos e sentimentos (assim como as recordações associadas a eles) não podem ser expulsos da mente, mas, em troca, são expulsos do Consciente para formar parte do Inconsciente.
Embora ao longo de sua carreira Freud tenha tentado encontrar padrões de repressão entre seus pacientes que derivassem em um modelo geral para a mente, ele observou que pacientes diferentes reprimiam fatos diferentes. Observou ainda que o processo da repressão é em si mesmo um ato não-consciente (isto é, não ocorreria através da intenção dos pensamentos ou sentimentos conscientes). Em outras palavras, o Inconsciente era tanto causa como efeito da repressão.
Freud procurou uma explicação à forma de operar do Inconsciente, propondo uma estrutura particular. No primeiro tópico recorre à imagem do iceberg em que o Consciente corresponde à parte visivel, e o Inconsciente corresponde à parte não visivel, ou seja, a parte submersa do iceberg. De sua teoria ele estava preocupado em estudar o que levava à formação dos sintomas psicossomáticos (principalmente a Histeria, motivo pelo qual apenas os conceitos de Inconsciente, Pré-Consciente e Consciente eram suficientes). Quando sua preocupação se virou para a forma como se dava o processo da repressão, passou a adotar os conceitos de Id, Ego e Superego.
O Id representa os processos primitivos do pensamento e constitui, segundo Freud, o reservatório das Pulsões, dessa forma toda energia envolvida na atividade humana seria advinda do Id. Inicialmente, considerou que todas essas pulsões seriam ou de origem sexual, ou que atuariam no sentido de auto-preservação. Posteriormente, introduziu o conceito das pulsões de morte, que atuariam no sentido contrário ao das pulsões de agregação e preservação da vida. O id é responsável pelas demandas mais primitivas e perversas.
O Ego, permanece entre ambos, alternando nossas necessidades primitivas e nossas crenças éticas e morais. É a instância na que se inclui a Consciência. Um Eu saudável proporciona a habilidade para adaptar-se à realidade e interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja cômoda para o Id e o Superego.
O Superego, a parte que contra-age ao Id, representa os pensamentos morais e éticos internalizados.
Freud estava especialmente interessado na dinâmica destas três partes da mente. Argumentou que essa relação é influenciada por fatores ou energias inatas, que chamou de Pulsões. Descreveu duas pulsões antagónicas: Eros, uma pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e Tanatos, a pulsão de morte, que levaria à segregação de tudo o que é vivo, à destruição. Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto. Como no exemplo de se alimentar, embora haja pulsão de vida presente, afinal a finalidade de se alimentar é a manutenção da vida, existe também a pulsão de morte presente, pois é necessário que se destrua o alimento antes de ingeri-lo, e aí está presente um elemento agressivo, de segregação.
Freud também acreditava que a Libido amadurecia nos indivíduos por meio da troca de seu objeto (ou objetivo). Argumentava que os humanos nascem "polimorficamente perversos", no sentido de que uma grande variedade de objetos possam ser uma fonte de prazer, sem ter a pretensão de se chegar à finalidade última, ou seja, o ato sexual. O desenvolvimento psicosexual ocorreria em etapas, de acordo com a área na qual a libido está mais concentrada: a etapa oral (exemplificada pelo prazer dos bebês ao chupar a chupeta, que não tem nenhuma função vital, mas apenas de proporcionar prazer); a etapa anal (exemplificada pelo prazer das crianças ao controlar sua defecação); e logo a etapa fálica (que é demonstrada pela manipulação dos órgãos genitais). Até então percebe-se que a Libido é voltada para o próprio Ego, ou seja, a criança sente prazer consigo mesma. O primeiro investimento objetal da Libido, segundo Freud, ocorreria no genitor do sexo oposto, esta fase caracterizada pelo investimento libidinal em um dos genitores se chama Complexo de Édipo. A criança percebe então que entre ela e a mãe (no caso de um menino) existe o pai, impedindo a comunhão por ele desejada. A criança passa então a amar a mãe e a experienciar um sentimento antagônico de amor e ódio com relação ao pai. Ela percebe que, tanto o amor vivido com a mãe como o ódio vivido com o pai, são proibidos - o Complexo de Édipo finaliza-se com o surgimento do Superego, com a desistência da criança com relação à mãe e com a identificação do menino com o pai.
Sua obra, traduzida em cerca de 30 línguas, é composta de 24 livros propriamente ditos (dos quais dois em colaboração, um com Josef Breuer, outro com William Bullitt) e de 123 artigos. Freud também escreveu prefácios, necrológios, intervenções diversas em congressos e contribuições para enciclopédias. Acredita-se geralmente que a psicanálise renovou o interesse tradicionalmente atribuído aos eventos da existência para compreender ou interpretar o comportamento e as obras dos homens excepcionais. Isso não é verdade, e Freud, sobre isso, é categórico: “Quem quiser se tornar biógrafo deve se comprometer com a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e até mesmo com a dissimulação de sua incompreensão, pois a verdade biográfica não é acessível e, se o fosse, não serviria de nada” (carta a A. Zweig, de 31 de maio de 1936). Kurt Eissler avaliou em 15 mil o número de cartas escritas por Freud e em cerca de 10 mil as que estão depositadas na Biblioteca do Congresso, em Washington. O historiador alemão Gerhard Fichtner propôs outras cifras. Segundo ele, Freud teria escrito cerca de 20 mil cartas. Dez mil teriam sido destruídas ou perdidas, cinco mil estão conservadas e cinco mil ainda poderiam ser encontradas nos dias atuais, ou seja, dez mil no total.
Atualmente, Freud continua tão polêmico quanto na época em que esteve vivo. É verdadeiramente idolatrado por seguidores ortodoxos da teoria psicanalítica.
FONTES: Wikipédia; Netsaber; Pensador; Geniosmundiais

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund “A História Do Movimento Psicanalítico” (1914)
FREUD, Sigmund “Um Estudo Autobiográfico” (1925)
JONES, Ernest “A Vida e a Obra de Sigmund Freud
SCHUR, Max “Freud: Vida e Agonia – Uma Biografia
GAY, Peter “Freud: Uma Vida para nosso Tempo
RODRIGUÉ, Emilio “Sigmund Freud: O Século da Psicanálise

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12 de março de 2010

DESTAQUE ESPECIAL: PENSANDO E SENTINDO AS PAIXÕES


São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua
(Vinicius de Moraes)


A Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto - SBPRP - está organizando a sua II Bienal de Psicanálise e Cultura, que se realizará de 13 a 16 de Maio próximo, no Centro de Convenções Ribeirão Preto. A Bienal será um encontro científico-cultural de amplitude internacional que receberá pensadores convidados de todo o país, e também da Argentina, para refletirmos sobre temas que envolvem as mais variadas PAIXÕES.


São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão”: o inspirado Soneto do Corifeu, de Vinicius de Moraes, nos remete ao tema deste encontro entre a Psicanálise e os mais diversos setores da Cultura e do Saber. Todas as PAIXÕES sejam elas claras (como o amor ou a amizade) ou obscuras (como a inveja, o ódio, a vingança, etc.), são companheiras inerentes ao humano. Carregamos, desde o nosso umbigo, a marca de sermos seres cujas nascentes nos remetem às mais arcaicas paixões. São elas que nos movem, embora em outros momentos nos paralisem frente ao que é belo ou terrível demais; são elas, frequentemente, a fonte da nossa criatividade e vitalidade, embora às vezes acarreiem o cessar da própria vida. A dor de estar vivo e de existir deve aprender a conviver com a paixão pelo milagre de se habitar esse mundo e se sentir existindo ao longo do tempo com uma identidade e individualidade próprias.
O tema escolhido para esta Bienal, “Paixões”, transpõe as fronteiras de tempo e espaço, é ao mesmo tempo antigo e atual e existe em todas as culturas do planeta. Portanto, a nossa proposta de pensarmos juntos sobre as mais variadas paixões não poderia se restringir a uma determinada área do conhecimento, pelo contrário, precisamos do intercâmbio de todas. A Psicanálise ocupa um lugar privilegiado junto ao tema proposto, uma vez que lida com as paixões humanas no ofício cotidiano dos nossos consultórios. Por isso convidamos renomados colegas para dialogarem com pensadores das mais diversas áreas da cultura e do conhecimento, bem como com o público participante, para juntos pensarmos e sentirmos amplas paixões humanas.
Freud, nosso pioneiro, teve nas suas paixões pessoais a dolorosa fonte de inspiração para a descoberta da ciência que ele batizou de Psicanálise. Isto foi há mais de cem anos; desde então, muitos psicanalistas tem se dedicado ao estudo aprofundado das paixões. Nas demais áreas do sentir e do pensar este estudo já acontece há muito tempo. A Filosofia se dedicou ao tema desde sempre, o próprio Sócrates ilustrou a importância da ironia como poderosa arma corrosiva e propedêutica.
A Literatura, plena de paixões humanas, intuitivamente precedeu a Psicanálise. Uma das obras que mais inspirou Freud foi a monumental tragédia Édipo Rex escrita por Sófocles em 427 a.C., que deu origem ao fundamental conceito “Complexo de Édipo” (Freud, 1900), tão caro aos analistas. Ou então Shakespeare, que devido à amplitude e densidade emocional presente em sua obra, poderia ser considerado o primeiro "psicanalista" da História. Outra curiosa associação entre a literatura e a psicanálise é o fato de que o fundador desta última teve como única manifestação pública de reconhecimento em vida, o consagrado Prêmio Goethe de Literatura, concedido a Freud em 1930.
Na Medicina, em 300 a.C. Hipócrates descreveu a “bílis negra”, representante das paixões da ordem do ódio e inveja. A bílis seria um dos quatro “humores” que estariam presentes em nossa circulação sanguínea num delicado equilíbrio responsável pelo estado de saúde psicossomática, ou de doença. Insight poderoso, este do pai da Medicina!
Paixão e Artes Plásticas sempre dialogaram. Os primeiros artistas da humanidade, desde a Pré-história, demonstraram que o desejo de expressão através da arte é inerente ao ser humano e independente de seu estágio no desenvolvimento. Deixaram, por exemplo, as paredes das cavernas de Lascaux no sudoeste da França (17.000 anos AP) impregnadas pela sua paixão pela caça. Lá podemos vislumbrar a luta pela sobrevivência da espécie estimulando a criativa expressividade humana.
Nas Artes Cênicas e Cinema, as paixões sempre foram força motriz. Quem, mesmo na atualidade, não assistiu alguma cena antológica do cinema mudo de Charlie Chaplin e não se emocionou?
A Arquitetura possui inúmeras obras, como a Brasília do nosso centenário Niemeyer, que evidenciam as paixões como fonte inspiradora.
É do Oscar a reveladora frase:

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.” (Oscar Niemeyer)

Portanto, a Psicanálise, as Artes Plásticas, o Teatro, a Música, a Literatura, a Filosofia, a Mitologia, a Dança, a Educação, a Antropologia, a Psicologia, a Semiótica, a Sociologia e as demais áreas do saber e do sentir que tem nas paixões sua origem e fonte de inspiração científica e estética, estão convidadas a participar deste fértil encontro que ocorrerá de 13 a 16 de maio próximo. Podemos pensar nesta Bienal como uma grande viagem às nascentes dos sentidos, constituindo-se numa proposta de transcendência têmporo-espacial em busca da inesgotável fonte de vitalidade humana chamada Paixão! Esperamos que todos os presentes participem ativamente deste encontro, configurando-o como uma experiência emocional de qualidade passional.


Maiores informações:


PAULO DE MORAES MENDONÇA RIBEIRO
Diretor Científico da SBPRP
Coordenador Geral da Bienal