12 de março de 2010

DESTAQUE ESPECIAL: PENSANDO E SENTINDO AS PAIXÕES


São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua
(Vinicius de Moraes)


A Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto - SBPRP - está organizando a sua II Bienal de Psicanálise e Cultura, que se realizará de 13 a 16 de Maio próximo, no Centro de Convenções Ribeirão Preto. A Bienal será um encontro científico-cultural de amplitude internacional que receberá pensadores convidados de todo o país, e também da Argentina, para refletirmos sobre temas que envolvem as mais variadas PAIXÕES.


São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão”: o inspirado Soneto do Corifeu, de Vinicius de Moraes, nos remete ao tema deste encontro entre a Psicanálise e os mais diversos setores da Cultura e do Saber. Todas as PAIXÕES sejam elas claras (como o amor ou a amizade) ou obscuras (como a inveja, o ódio, a vingança, etc.), são companheiras inerentes ao humano. Carregamos, desde o nosso umbigo, a marca de sermos seres cujas nascentes nos remetem às mais arcaicas paixões. São elas que nos movem, embora em outros momentos nos paralisem frente ao que é belo ou terrível demais; são elas, frequentemente, a fonte da nossa criatividade e vitalidade, embora às vezes acarreiem o cessar da própria vida. A dor de estar vivo e de existir deve aprender a conviver com a paixão pelo milagre de se habitar esse mundo e se sentir existindo ao longo do tempo com uma identidade e individualidade próprias.
O tema escolhido para esta Bienal, “Paixões”, transpõe as fronteiras de tempo e espaço, é ao mesmo tempo antigo e atual e existe em todas as culturas do planeta. Portanto, a nossa proposta de pensarmos juntos sobre as mais variadas paixões não poderia se restringir a uma determinada área do conhecimento, pelo contrário, precisamos do intercâmbio de todas. A Psicanálise ocupa um lugar privilegiado junto ao tema proposto, uma vez que lida com as paixões humanas no ofício cotidiano dos nossos consultórios. Por isso convidamos renomados colegas para dialogarem com pensadores das mais diversas áreas da cultura e do conhecimento, bem como com o público participante, para juntos pensarmos e sentirmos amplas paixões humanas.
Freud, nosso pioneiro, teve nas suas paixões pessoais a dolorosa fonte de inspiração para a descoberta da ciência que ele batizou de Psicanálise. Isto foi há mais de cem anos; desde então, muitos psicanalistas tem se dedicado ao estudo aprofundado das paixões. Nas demais áreas do sentir e do pensar este estudo já acontece há muito tempo. A Filosofia se dedicou ao tema desde sempre, o próprio Sócrates ilustrou a importância da ironia como poderosa arma corrosiva e propedêutica.
A Literatura, plena de paixões humanas, intuitivamente precedeu a Psicanálise. Uma das obras que mais inspirou Freud foi a monumental tragédia Édipo Rex escrita por Sófocles em 427 a.C., que deu origem ao fundamental conceito “Complexo de Édipo” (Freud, 1900), tão caro aos analistas. Ou então Shakespeare, que devido à amplitude e densidade emocional presente em sua obra, poderia ser considerado o primeiro "psicanalista" da História. Outra curiosa associação entre a literatura e a psicanálise é o fato de que o fundador desta última teve como única manifestação pública de reconhecimento em vida, o consagrado Prêmio Goethe de Literatura, concedido a Freud em 1930.
Na Medicina, em 300 a.C. Hipócrates descreveu a “bílis negra”, representante das paixões da ordem do ódio e inveja. A bílis seria um dos quatro “humores” que estariam presentes em nossa circulação sanguínea num delicado equilíbrio responsável pelo estado de saúde psicossomática, ou de doença. Insight poderoso, este do pai da Medicina!
Paixão e Artes Plásticas sempre dialogaram. Os primeiros artistas da humanidade, desde a Pré-história, demonstraram que o desejo de expressão através da arte é inerente ao ser humano e independente de seu estágio no desenvolvimento. Deixaram, por exemplo, as paredes das cavernas de Lascaux no sudoeste da França (17.000 anos AP) impregnadas pela sua paixão pela caça. Lá podemos vislumbrar a luta pela sobrevivência da espécie estimulando a criativa expressividade humana.
Nas Artes Cênicas e Cinema, as paixões sempre foram força motriz. Quem, mesmo na atualidade, não assistiu alguma cena antológica do cinema mudo de Charlie Chaplin e não se emocionou?
A Arquitetura possui inúmeras obras, como a Brasília do nosso centenário Niemeyer, que evidenciam as paixões como fonte inspiradora.
É do Oscar a reveladora frase:

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.” (Oscar Niemeyer)

Portanto, a Psicanálise, as Artes Plásticas, o Teatro, a Música, a Literatura, a Filosofia, a Mitologia, a Dança, a Educação, a Antropologia, a Psicologia, a Semiótica, a Sociologia e as demais áreas do saber e do sentir que tem nas paixões sua origem e fonte de inspiração científica e estética, estão convidadas a participar deste fértil encontro que ocorrerá de 13 a 16 de maio próximo. Podemos pensar nesta Bienal como uma grande viagem às nascentes dos sentidos, constituindo-se numa proposta de transcendência têmporo-espacial em busca da inesgotável fonte de vitalidade humana chamada Paixão! Esperamos que todos os presentes participem ativamente deste encontro, configurando-o como uma experiência emocional de qualidade passional.


Maiores informações:


PAULO DE MORAES MENDONÇA RIBEIRO
Diretor Científico da SBPRP
Coordenador Geral da Bienal