8 de agosto de 2010

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SIGMUND FREUD


A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE abre um novo campo: a Série “Notórios da Psicanálise”. A Série destina-se à publicação de biografias de importantes psicanalistas, importantes pensadores que possuem uma interlocução com a Psicanálise, bem como o historial de relevantes casos clínicos da História da Psicanálise. A REVISTA se coloca aberta para Artigos e sugestões neste novo espaço.
CORPO EDITORIAL


Sigmund Freud, psicanalista austríaco, nasceu em Freiberg (atual Pribor – República Checa), em 06 de maio de 1856, vindo a falecer em Londres, em 23 de setembro de 1939.
O criador da Psicanálise nasceu na região da Moravia, que então fazia parte do Império Austro-Húngaro. Sua mãe, Amália, era a terceira esposa de Jacob, um modesto comerciante. A família mudou-se para Viena em 1860.
Em 1877, ele abreviou o seu nome de Sigismund Schlomo Freud para Sigmund Freud. Desde 1873, era aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de Viena, onde gostava de pesquisar no Laboratório de Neurofisiologia. Ao se formar, em 1882, entrou no Hospital Geral de Viena.
Em parceria com o médico Joseph Breuer, publicou em 1895 os "Estudos Sobre a Histeria". O livro descreve a teoria de que as emoções reprimidas levam aos sintomas da Histeria, que poderiam desaparecer se o paciente conseguisse expressar recordações sobre a origem dos mesmos. As memórias ressurgiam sob o efeito da Hipnose. 
Insatisfeito com a Hipnose, Freud desenvolveu o que é hoje a base da Técnica Psicanalítica: a Livre Associação. O paciente é convidado a falar o que lhe vem à mente para revelar memórias reprimidas causadoras das Neuroses.
Em 1899, publicou "A Interpretação Dos Sonhos", em que afirma que os sonhos são "a estrada mestra para o Inconsciente", a camada mais profunda da mente humana, um mundo íntimo que se oculta no interior de cada indivíduo, comandando seu comportamento, a despeito de suas convicções conscientes.
Mesmo com dificuldades para ser reconhecido pelo meio acadêmico, Freud reuniu um grupo que deu origem, em 1908, à Sociedade Psicanalítica de Viena. Seus mais fiéis seguidores eram Karl Abraham, Sandor Ferenczi e Ernest Jones. Já Alfred Adler e Carl Jung acabaram como dissidentes.
A perda de Jung foi muito mais dolorosa, pois Freud esperava que o discípulo, suíço e protestante, projetasse a Psicanálise além do ambiente judaico. O principal motivo da discórdia foi o papel prioritário dado por Freud ao desejo sexual.
Freud inicia os estudos na universidade aos 17 anos, os quais tomam-lhe inesperadamente bastante tempo até a graduação, em 1881. Registros de amigos que o conheciam naquela época, assim como informações nas próprias cartas escritas por Freud, sugerem que ele foi menos diligente nos estudos de Medicina do que deveria ter sido. Em lugar dos estudos, ele atinha-se à pesquisa científica, inicialmente pelos estudos dos órgãos sexuais de enguias — um estranho, mas interessante presságio das teorias psicanalíticas que estariam por vir vinte anos mais tarde. De acordo com os registros, Freud completa tal estudo satisfatoriamente, mas sem distinção especial. Em 1877, desapontado com os resultados e talvez menos excitado em enfrentar mais dissecações, Freud vai ao laboratório de Ernst Brücke, que torna-se seu principal modelo de ciência.
Com Brücke, Freud entra em contato com a linha fisicalista da Fisiologia. O interesse de Brücke não era apenas descobrir as estruturas de órgãos ou células particulares, mas sim, suas funções. Dentre as atribuições de Freud, nesta época, estavam o estudo da anatomia e da histologia do cérebro humano. Durante os estudos, identifica várias semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a dos répteis, o que o remete ao então recente estudo de Charles Darwin sobre a Evolução das Espécies e à discussão da "superioridade" dos seres humanos sobre outras espécies.
Freud, então, conhece Martha Bernays. O seu desejo de desposar Martha, o baixo salário e as poucas perspectivas de carreira na pesquisa científica, fazem-no abandonar o laboratório e a começar a trabalhar no Hospital Geral, o principal hospital de Viena, passando por vários departamentos do mesmo. O próprio Brücke aconselha-o a mudar, apesar de seu bom desempenho, e com razão, já que Freud precisava ganhar dinheiro.
No hospital, depois de algumas desilusões com o estudo dos efeitos terapêuticos da cocaína — incluindo um episódio de morte por overdose de um amigo da época do laboratório de Brücke —, Freud recebe uma licença e viaja para a França, onde trabalha com Charcot, um respeitável psiquiatra do Hospital Psiquiátrico Saltpêtrière que estudava a Histeria e os efeitos da Hipnose.
De volta ao Hospital Geral e entusiasmado pelos estudos de Charcot, Freud passa a atender, na maior parte, jovens senhoras judias que sofriam de um conjunto de sintomas aparentemente neurológicos que compreendiam paralisia, cegueira parcial, alucinações, perda de controle motor, e que não podiam ser diagnosticados com exames. O tratamento mais eficaz para tal doença incluía, na época, Massagem, Terapia de Repouso e Hipnose.
Apenas em setembro de 1886 Freud casa-se com Martha Bernays, com a ajuda financeira de alguns amigos mais abastados, dentre eles Josef Breuer. Foi com as discussões de casos clínicos com Breuer que surgiram as idéias que culminaram com a publicação dos primeiros artigos sobre a Psicanálise.
O primeiro caso clínico relatado deve-se a Breuer, e descreve o tratamento dado a uma paciente (Bertha Pappenheim, conhecida pelo pseudônimo de "Anna O."), que demonstrava vários sintomas clássicos de Histeria. O método de tratamento consistia na chamada "cura pela fala" ou "cura catártica", na qual a paciente discutia sobre suas associações com cada sintoma e, com isso, os fazia desaparecer. Esta técnica tornou-se o centro das técnicas de Freud, que também acreditava que as memórias ocultas ou "reprimidas", nas quais baseavam-se os sintomas da Histeria, eram sempre de natureza sexual. Breuer não concordava com Freud neste último ponto, o que levou à separação entre eles logo após a publicação dos casos clínicos.
Na verdade, a classe médica em geral marginalizava as idéias de Freud inicialmente; seu único confidente durante esta época era o médico Wilhelm Fliess. Depois que o pai de Freud falece, em outubro de 1896, segundo as cartas recebidas por Fliess, Freud, naquele período, dedica-se a anotar e analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua própria infância e, no processo, determinando as raízes de suas próprias neuroses. Tais anotações tornam-se a fonte para a obra “A Interpretação dos Sonhos”. Durante o curso desta Auto-análise, Freud chega à conclusão de que seus próprios problemas eram devidos a uma atração por sua mãe e a uma hostilidade ao seu pai. É o famoso "Complexo de Édipo", que se torna o coração da Teoria de Freud sobre a origem da Neurose em todos os seus pacientes.
Nos primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras "A Interpretação dos Sonhos" e "A Psicopatologia da Vida Cotidiana". Nesta época, Freud já não mantinha mais contato nem com Josef Breuer, nem com Wilhelm Fliess. No início, as tiragens das obras não animavam Freud, mas logo médicos de vários lugares — Eugen Bleuler, Carl Jung, Karl Abrahams, Ernest Jones, Sandor Ferenczi — mostram respaldo às suas idéias e passam a compor o Movimento Psicanalítico.
Sensibilizado pela Primeira Guerra Mundial e pela morte da filha Sophie, vítima de gripe, Freud teorizou sobre a luta constante entre a Força da Vida e do Amor contra a Morte e a Destruição, simbolizados pelos deuses gregos Eros (Amor) e Tanatos (Morte). A sua Teoria da Mente ganhou forma com a publicação em 1923, de "O Ego e o Id".
Em 1936, disse considerar um avanço seus livros terem sido queimados pelos nazistas. Afinal, no passado, eram os autores que iam à fogueira. Mas a subida de Hitler ao poder ditatorial não demorou e a perseguição aos judeus se intensificou.
Casou com Martha Bernays. O casal teve seis filhos, um dos quais, Anna, tornou-se discípula, porta-voz do pai e psicanalista. Em março de 1938, quando da invasão da Áustria pela Alemanha, com a intervenção do diplomata americano William Bullitt e de um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud e sua família deixam Viena indo para Londres, residindo em Maresfield Gardens 20 (hoje "Freud Museum").
Freud morre de câncer na mandíbula aos 83 anos de idade (passou por trinta e três cirurgias), em 23 de setembro de 1939. Supõe-se que tenha morrido de uma overdose de morfina. Freud sentia muita dor, e segundo a história contada, ele teria dito ao médico que lhe aplicasse uma dose excessiva de morfina para terminar com o sofrimento.
Freud inovou em dois campos. Simultaneamente, desenvolveu uma Teoria da Mente e da Conduta Humana, e uma Técnica terapêutica para ajudar pessoas afetadas psiquicamente.
Provavelmente a contribuição mais significativa que Freud fez ao Pensamento Moderno é a de tentar dar ao conceito de Inconsciente um status científico. Seus conceitos de Inconsciente, Desejos Inconscientes e Repressão foram revolucionários; propõem uma mente dividida em camadas ou níveis, dominada em certa medida por vontades primitivas que estão escondidas sob a Consciência e que se manifestam nos lapsos e nos sonhos.
Em sua obra mais conhecida, "A Interpretação dos Sonhos", Freud explica o argumento para postular o novo modelo do Inconsciente e desenvolve um Método para conseguir o acesso ao mesmo, tomando elementos de suas experiências prévias com as técnicas da Hipnose.
Como parte de suaTeoria, Freud postula também a existência de um Pré-Consciente, a camada entre o Consciente e o Inconsciente. A Repressão em si tem grande importância no conhecimento do Inconsciente. De acordo com Freud, as pessoas experimentam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão dolorosos que não podem suportá-los. Tais pensamentos e sentimentos (assim como as recordações associadas a eles) não podem ser expulsos da mente, mas, em troca, são expulsos do Consciente para formar parte do Inconsciente.
Embora ao longo de sua carreira Freud tenha tentado encontrar padrões de repressão entre seus pacientes que derivassem em um modelo geral para a mente, ele observou que pacientes diferentes reprimiam fatos diferentes. Observou ainda que o processo da repressão é em si mesmo um ato não-consciente (isto é, não ocorreria através da intenção dos pensamentos ou sentimentos conscientes). Em outras palavras, o Inconsciente era tanto causa como efeito da repressão.
Freud procurou uma explicação à forma de operar do Inconsciente, propondo uma estrutura particular. No primeiro tópico recorre à imagem do iceberg em que o Consciente corresponde à parte visivel, e o Inconsciente corresponde à parte não visivel, ou seja, a parte submersa do iceberg. De sua teoria ele estava preocupado em estudar o que levava à formação dos sintomas psicossomáticos (principalmente a Histeria, motivo pelo qual apenas os conceitos de Inconsciente, Pré-Consciente e Consciente eram suficientes). Quando sua preocupação se virou para a forma como se dava o processo da repressão, passou a adotar os conceitos de Id, Ego e Superego.
O Id representa os processos primitivos do pensamento e constitui, segundo Freud, o reservatório das Pulsões, dessa forma toda energia envolvida na atividade humana seria advinda do Id. Inicialmente, considerou que todas essas pulsões seriam ou de origem sexual, ou que atuariam no sentido de auto-preservação. Posteriormente, introduziu o conceito das pulsões de morte, que atuariam no sentido contrário ao das pulsões de agregação e preservação da vida. O id é responsável pelas demandas mais primitivas e perversas.
O Ego, permanece entre ambos, alternando nossas necessidades primitivas e nossas crenças éticas e morais. É a instância na que se inclui a Consciência. Um Eu saudável proporciona a habilidade para adaptar-se à realidade e interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja cômoda para o Id e o Superego.
O Superego, a parte que contra-age ao Id, representa os pensamentos morais e éticos internalizados.
Freud estava especialmente interessado na dinâmica destas três partes da mente. Argumentou que essa relação é influenciada por fatores ou energias inatas, que chamou de Pulsões. Descreveu duas pulsões antagónicas: Eros, uma pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e Tanatos, a pulsão de morte, que levaria à segregação de tudo o que é vivo, à destruição. Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto. Como no exemplo de se alimentar, embora haja pulsão de vida presente, afinal a finalidade de se alimentar é a manutenção da vida, existe também a pulsão de morte presente, pois é necessário que se destrua o alimento antes de ingeri-lo, e aí está presente um elemento agressivo, de segregação.
Freud também acreditava que a Libido amadurecia nos indivíduos por meio da troca de seu objeto (ou objetivo). Argumentava que os humanos nascem "polimorficamente perversos", no sentido de que uma grande variedade de objetos possam ser uma fonte de prazer, sem ter a pretensão de se chegar à finalidade última, ou seja, o ato sexual. O desenvolvimento psicosexual ocorreria em etapas, de acordo com a área na qual a libido está mais concentrada: a etapa oral (exemplificada pelo prazer dos bebês ao chupar a chupeta, que não tem nenhuma função vital, mas apenas de proporcionar prazer); a etapa anal (exemplificada pelo prazer das crianças ao controlar sua defecação); e logo a etapa fálica (que é demonstrada pela manipulação dos órgãos genitais). Até então percebe-se que a Libido é voltada para o próprio Ego, ou seja, a criança sente prazer consigo mesma. O primeiro investimento objetal da Libido, segundo Freud, ocorreria no genitor do sexo oposto, esta fase caracterizada pelo investimento libidinal em um dos genitores se chama Complexo de Édipo. A criança percebe então que entre ela e a mãe (no caso de um menino) existe o pai, impedindo a comunhão por ele desejada. A criança passa então a amar a mãe e a experienciar um sentimento antagônico de amor e ódio com relação ao pai. Ela percebe que, tanto o amor vivido com a mãe como o ódio vivido com o pai, são proibidos - o Complexo de Édipo finaliza-se com o surgimento do Superego, com a desistência da criança com relação à mãe e com a identificação do menino com o pai.
Sua obra, traduzida em cerca de 30 línguas, é composta de 24 livros propriamente ditos (dos quais dois em colaboração, um com Josef Breuer, outro com William Bullitt) e de 123 artigos. Freud também escreveu prefácios, necrológios, intervenções diversas em congressos e contribuições para enciclopédias. Acredita-se geralmente que a psicanálise renovou o interesse tradicionalmente atribuído aos eventos da existência para compreender ou interpretar o comportamento e as obras dos homens excepcionais. Isso não é verdade, e Freud, sobre isso, é categórico: “Quem quiser se tornar biógrafo deve se comprometer com a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e até mesmo com a dissimulação de sua incompreensão, pois a verdade biográfica não é acessível e, se o fosse, não serviria de nada” (carta a A. Zweig, de 31 de maio de 1936). Kurt Eissler avaliou em 15 mil o número de cartas escritas por Freud e em cerca de 10 mil as que estão depositadas na Biblioteca do Congresso, em Washington. O historiador alemão Gerhard Fichtner propôs outras cifras. Segundo ele, Freud teria escrito cerca de 20 mil cartas. Dez mil teriam sido destruídas ou perdidas, cinco mil estão conservadas e cinco mil ainda poderiam ser encontradas nos dias atuais, ou seja, dez mil no total.
Atualmente, Freud continua tão polêmico quanto na época em que esteve vivo. É verdadeiramente idolatrado por seguidores ortodoxos da teoria psicanalítica.
FONTES: Wikipédia; Netsaber; Pensador; Geniosmundiais

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund “A História Do Movimento Psicanalítico” (1914)
FREUD, Sigmund “Um Estudo Autobiográfico” (1925)
JONES, Ernest “A Vida e a Obra de Sigmund Freud
SCHUR, Max “Freud: Vida e Agonia – Uma Biografia
GAY, Peter “Freud: Uma Vida para nosso Tempo
RODRIGUÉ, Emilio “Sigmund Freud: O Século da Psicanálise

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