10 de setembro de 2010

A TRAGÉDIA DO ATO: "UM LITRO DE LÁGRIMAS" COMO IDEAL ROMÂNTICO ALEMÃO (Diego Tiscar)


"Às vezes, por amor humanitário, abraça-se um ser qualquer (já que não se pode abraçar a todo mundo). E é exatamente isto que não se deve revelar ao tal ser qualquer." (Nietzsche)

Confesso que não sei por onde começar este Artigo. Não posso começar pelo começo, pois "Um litro de lágrimas" é um Mangá (história em quadrinhos japonesa), e como tal, sua leitura é invertida - devemos ler um Mangá de trás para frente. Este em especial, tem início e final semelhantes.
Começarei pelo Título, "Um Litro De Lágrimas" - à primeira vista parece Título exagerado, tornando-se pior ao constatar-se que sua tradução é literal. Eu lhes garanto que esta impressão é precipitada e errônea. "Um Litro De Lágrimas" adapta o diário de Aya Kito, garota de 15 anos, portadora de uma rara doença degenerativa - tal adaptação foi realizada por uma artista que assina apenas como "Kita", lançado em volume único. Agora sim, temos um começo.
Aos 15 anos, Aya é diagnosticada com Degeneração Espinocerebelar - quadro onde as células da espinha dorsal, cerebelo e tronco cerebral se degeneram, alterando o equilíbrio e a fala. A posteriore, a doença impede a locomoção e por fim leva a morte. Um de seus médicos sugere a Aya que escreva em um caderno seus sintomas para facilitar o tratamento [1]. Aya vai além e escreve um diário com todas suas percepções e sentimentos. É este diário que foi adaptado por Kita - a artista simplesmente quadrinizou as palavras de Aya, intercalando seus desenhos com frases da verdadeira Aya, que morreu aos 25 anos, paralisada e muda, tendo escrito em seu diário até os 23 anos. O Mangá aborda apenas o primeiro ano da doença de Aya, dividindo-se em quatro capítulos: O início, Abalo, Decisão e Olhando Para O Céu.
"Um Litro De Lágrimas" teve grande repercussão internacional chegando tardiamente ao Brasil (a verdadeira Aya viveu entre as décadas de 60 e 80). Seu diário foi publicado inicialmente como um livro, posteriormente sendo adaptado para o cinema e por fim em uma novela nipônica.
O Ato, neste Artigo, é considerado como o colocar-se em prática um Desejo sem elaboração emocional/mental, dele resultando o Automatismo. O que veremos a seguir é a História de Aya, menina gentil, madura e cuidadosa - características negativas ao seu Desejo. Aya quer ser cuidada, acolhida: não quer ser madura e cuidar de seus irmãos, quer ser criança eternamente. O Desejo impossível de ser simbolizado é atuado.

O Início - Aya como Heroína Romântica
A adaptação da história de Aya começa com a composição de um pensamento/ato otimista - a menina diz precisar andar olhando para cima a fim de evitar que suas lágrimas escorram -, porém este ato representa um problema para ela: "Se eu não tiver apoio, meu corpo irá cair para trás. Se isto acontecer, como fica a minha lágrima? Como eu faço para derramar as lágrimas sem que ninguém perceba?" [1].
O Movimento Romântico Alemão teve seu "pré-início" no ano de 1750, no momento em que Alexander Baumgarten, cunhando este termo, o define como a Ciência que estuda os Fenômenos Artísticos na medida em que afetam nossos sentidos e são produzidos pelas faculdades do Sujeito. O próprio Baumgarten não atribuía devida importância ao Movimento, considerando-o como uma Ciência das Faculdades Inferiores. O Romantismo teve seu início como Movimento a partir da célebre frase de Goethe: "No início existe o ato!", publicado em Fausto [2].
Despertada pela ascensão e queda da Revolução Francesa, a Europa estava devastada pela guerra. Influenciados pelas religiões orientais como o Budismo e o Hinduísmo, que pregavam o Nirvana como meta e a interpretação do Mundo como Realidade interna e pessoal, gênios como Kant, Goethe, Hegel, Schopenhauer, Wagner, Nietzsche, Beethoven e posteriormente Freud (dentre outros), geraram este momento histórico onde o Sujeito toma consciência de sua força, possibilidades e limites a partir da legitimação da Subjetividade Criadora [2]. Os Românticos visavam romper com a Racionalização, a Lógica, a supervalorização do Intelecto sobre as emoções, e as Ciências Naturais, instituindo uma nova visão de Homem no Mundo.
Ao escrever em seu diário, Aya expõe sua subjetividade, rompendo com o cotidiano - seu, daqueles que a cercam e do leitor. Aya é uma Heroína Romântica - presa em um Mundo envolto pela névoa da morte, derramando lágrimas em desespero melancólico pelo seu passado que não voltará, pelo futuro tenebroso, temendo cair para trás no presente. Nietzsche compara o Romantismo com a Tragédia Grega, ressaltando o conhecimento, proximidade e impotência perante a Morte [3]. A Tragédia Grega, o Romantismo Alemão e a história de Aya apresentam a mesma lógica: "O Pessimismo é um sinal de decadência; o Otimismo é sinal de superficialidade, o 'Otimismo Trágico' é a [...] busca da intensidade e extensão de experiência, mesmo a custa de sofrimentos" [3]. Esta lição não é compreendida pela protagonista, mas sim pelo leitor - a exemplo de grandes personagens românticos, o destino de Aya não pode ser promissor.
Este capítulo tem função introdutória, ele nos apresenta a personagem principal sem muitas informações acerca de seu passado: filha mais velha de quatro irmãos, chorona, estudiosa, porém fisicamente fraca, Aya diz ser lenta ao andar e não gostar de Educação Física. No início a garota está com 15 anos, terminando o ensino fundamental e estudando para o "vestibulinho" de uma escola exigente com os estudos e difícil de entrar. É neste momento que ela apresenta os primeiros sintomas de sua doença, como o andar cambaleante e as quedas. Sua mãe a convence a fazer exames, onde é diagnosticada sua doença. A mãe da protagonista guarda segredo desta doença tentando aliviar o sofrimento da filha. O médico que a atende aconselha Aya a escrever em um caderno suas percepções acerca das dificuldades motoras.
Outro aspecto abordado é o tratamento vexatório pelo qual Aya é submetida por seus colegas, que ridicularizam seu andar cambaleante gerando um sentimento de incompreensão e isolamento. Já no final do capítulo, Aya presta o vestibular - momentos antes da prova ela é derrubada em uma escada por um garoto, tendo que fazer sua prova no ambulatório do colégio. Por fim, descobrimos que Aya foi aprovada na nova escola - o capítulo termina com um aviso de sua mãe: "Dentre seus colegas de sala, pode ser que haja preconceitos e pode ser que você sofra bastante por isso" [1].
Em todo o Mangá, Aya descreve sua interatividade com a natureza. Em um trecho do diário, ela enxerga o céu como algo bondoso e tenta aproximar-se do mesmo após ser ridicularizada por seus colegas e decidir perdoá-los: "Quero ter um coração tão grande quanto este céu azul [...] quero ser uma pessoa com coração grande que aceita e perdoa muitas coisas" [1]. O que aparentemente é um desabafo revela-se como desejo de amparo pelo Objeto Bom que a protegeria das ansiedades persecutórias - fonte de alegria e beleza, percebido como o seio amoroso e/ou como o pênis criador do Pai. A boa relação com a natureza está ligada à boa relação com a mãe (como Seio Bom). A Sublimação é uma tentativa de proteger este Seio das ansiedades persecutórias [4]. Aya quer ser nutrida por este Seio, mas antes de tudo ela deve protegê-lo, pois possivelmente, este está enfraquecendo, assim como seu corpo.
Nos demais capítulos, podemos observar o desenvolvimento de Aya e sua relação com as fantasmagorias ameaçadoras que a cercam, como um bom Romance Melancólico.

Abalo - No início existe o Ato
Próximo ao final do Mangá, Aya escreve em seu diário: "Por que será que essa doença me escolheu?" [1] - esta pergunta ainda revela mais do que a dúvida a cerca do "destino", ou ainda uma grande injustiça Divina: “Por que eu? Por que comigo?”. O que se tem é a doença e a doença é um fato. Aya inicia uma reflexão rudimentar a cerca de si e do momento em que vive. O que temos nesta fala é o Ato. O Ato é fato cru, mas não deve ser definido pelo ato em si, e sim pela sua construção no Real, a construção de seu Mundo Subjetivo, a manifestação de ansiedades, fantasias e desejos explicitados em um evento particular. Para além de descargas tanaticas (mesmo que elas existam), o Ato representa um desejo de expressão aliado ao esgotamento simbólico [5].
Ao mudar de escola, Aya caminha apoiada em suas novas colegas, que oferecem espontaneamente o ombro amigo. Ela está sempre abraçando e sendo abraçada por suas colegas, como única maneira segura de andar - os meninos se oferecem para carregar sua bolsa de material escolar.
"Era uma coisa que tinha decidido fazer quando entrasse no colégio Higashi: sorrir, cumprimentar e dizer sempre 'obrigada'. No começo fiquei insegura de não conseguir agir naturalmente, aos poucos não estou mais tensa" [1]. A frase de Aya expõe o Ato e sua constituição - o mínimo de articulação racional e o máximo de valor simbólico [5].
Dos notórios da Psicanálise, Melanie Klein foi a primeira a dedicar-se a ansiedade e ao Édipo feminino. Na primeira infância, as crianças acreditam que a mãe é fonte de nutrição e prazer, sendo ela o Objeto original de prazer - o corpo da mãe contém tudo que é desejável, incluindo o pênis do pai. O reconhecimento da Castração gera sentimentos frustrantes na menina, que passa a fantasiar que sua mãe a substituíra pelo pai. Simultaneamente, ela visa roubar o pênis do pai para sua satisfação. Como resultado, a menina nutre fantasias sádicas contra a mãe, ao mesmo tempo em que introjeta o pai. Como esta introjeção ocorre em meio às fantasias sádicas contra o primeiro Objeto e o Pai fantasmático adquire características destrutivas, o Objeto introjetado com fúria é sentido como se estivesse danificado, gerando o medo de ser retalhada e o medo de ter perdido este Objeto de proteção [6].
Esta necessidade de introjetar o Bom Objeto, mesmo correndo o risco de danificá-lo permanentemente, é posteriormente ilustrada no mangá: à medida que a doença de Aya progride, ela passa a rasgar seus livros e grampear os capítulos, carregando apenas o que precisa usar - amante da leitura e incapaz de realizar atividades físicas, Aya tem os livros como objetos de prazer. Aya chora por culpa em rasgá-los: "Ainda dói um pouco fazer isso. Rasgo pedindo desculpas no fundo do meu coração" [1]. A dor de Aya justifica-se pelo fato de seu Objeto de satisfação provocar quedas e enfraquecimento de seu corpo, o que não está explícito, mas talvez, seja o medo de retaliação do Objeto - os ataques ao Objeto original e introjeção sádica do pênis do pai são a origem do Superego feminino, mais ameaçador que o masculino, pela intensidade de como foi absorvido o Seio Mal, formado por dois Objetos sedentos por vingança - esta situação gera o medo de ser destruída por dentro, medo que retorna na puberdade [6]. Diversas vezes Aya descreve um medo pelo desconhecido em seu corpo, ela evita perguntar sobre sua doença evitando confirmar seus receios de destruição interna. Um Superego mais destrutivo significa uma maior dependência dos bons Objetos. Há uma busca pelo Amor, considerado perdido pela danificação do Seio Bom e do Objeto Pai [6]. Aya tenta manter estes Objetos a toda custa, com atitudes meigas e de gratidão - porém estas atitudes podem chegar às raias do martírio, como no caso da protagonista. O ato é universal, onipresente, variando de sujeito a sujeito, quantitativamente, e não qualitativamente. A atuação vai além do apoio de colegas ou mudanças da infância para a adolescência, ela é uma tentativa falha de expressão - um gesto individual de estrutura patológica que identifica o Sujeito como portador da ação [5].
Em ultima instância, o Ato é a exposição de uma impotência mascarada pela onipotência - aquele que atua tende, movido pelo sofrimento, a alterar a Realidade a partir do Ato [5].
Somos apresentados a dois novos personagens de relativa importância para a história, mas de grande importância para o desfecho da história: Ishikawa, um garoto que se senta ao lado de Aya e nunca a olha nos olhos, ficando tenso e nervoso perto dela, e que lê os mesmos livros que ela - "Queria que ele olhasse nos meus olhos quando estivesse falando comigo. Parece que está negando a minha existência e isso me deixa triste" [1]; Sati Inoue, colega da escola de Aya, dois anos mais velha prestes a prestar o vestibular. As duas se conheceram em um momento que Aya estava indo sozinha para a biblioteca, caminhando lentamente apoiada em uma parede, evitando as escadas. Na volta da biblioteca, as duas garotas se apresentam e andam lado a lado - "Não é que ela me ajuda, apenas anda no mesmo ritmo que eu, devagar. Está andando do meu lado, só isso" [1]. A partir deste ponto, Sati torna-se a melhor amiga de Aya.
O Ato não se restringe a Aya, permeando a relação com suas colegas, e mesmo com aqueles com quem Aya não mantém contato. Nesta nova escola, Aya torna-se uma aluna popular, quase uma celebridade dentre seus colegas. Os livros que a garota lê são rapidamente emprestados junto à biblioteca - todos querem ler o mesmo que ela. O Ato é alimentado pelo meio em que o indivíduo está inserido, em um Mundo cada vez mais naturalista, onde o Sujeito é passivo - os fenômenos são inalteráveis e repetem-se infinitamente sem interação com o Homem, o resultado são atos individuais que se adéquam à Sociedade.
Existe na adolescência uma tendência a adorar algum Herói, enquanto outras figuras podem ser odiadas, separando assim o Amor do Ódio, integrados em Pai e Mãe. Objetos amados e odiados são receptáculos de sentimentos conflitantes e opressivos, que surgem na adolescência com a ascendência edípica [4].
Aya torna-se ao mesmo tempo Objeto fruto de Amor e Sujeito que subverte a ordem: quando os alunos são sorteados para realizarem tarefas escolares que vão desde limpar a sala a organizar os livros na biblioteca, Aya é a única que não recebe nenhuma responsabilidade - ela decide fazer aquilo que suas limitações permitem: "Vou fazer o trabalho de um anjo" [1]. Existe um modelo a ser seguido. O Ato torna-se a necessidade social que o cria, o instiga e depois chora seus efeitos. Como podemos ver no final do capítulo, Aya está no hospital, andando apoiada em um corrimão - ela tropeça, mas evita machucar-se -, orgulhosa de si, a garota começa a levantar-se quando ouve uma mãe dando bronca em sua filha: "Se você não se comportar você vai ficar igual a ela" [1]. A reação de Aya é comovente e atuante: "Nossa, essa doeu muito" [1]. Aya racionaliza que aquela mãe não sabia o que estava dizendo. O sentimento de impotência do Sujeito atuante está na ineficácia em tornar-se porta voz daquilo que o faz sofrer [5].
A pressão em inserir-se, em ser aceito, em seguir o modelo existente na sociedade (sentida como um indivíduo que exige uma identificação), cinde o Ego e provoca a impotência [5]. O Ato reúne em uma só ação, identificação com os demais e desejo de superação, alimentado pelo próprio sofrimento, esmagando o sujeito.
Ao final do capítulo, Aya é internada no hospital, onde passará suas férias fazendo exames de saúde e tratamentos médicos. O capítulo termina com Aya voltando para casa, registrada como deficiente física: "Me internei, fiz fisioterapia. Achava que, com isso, eu poderia voltar a ser a Aya de antes. Mas o que eu ganhei ao sair do hospital foi apenas uma identidade” [1].

Decisão - Todos os caminhos levam a Thanatos
Diziam os Gregos: "Todos os caminhos levam aos infernos" [7].
Longe de serem fatalistas, estes sabiam que a Morte é o único destino possível. Seja nas Tragédias Gregas ou nas obras do Romantismo, o destino é apenas um: a Morte. Antes da Morte, havia o sofrimento evidenciando o Humano e suas relações, demasiadas humanas.
A mesma sociedade que alimenta o Ato, fortificando-o, também pacifica o meio: a Realidade é antes de tudo "construção de aparência permanente" [5] - tudo retorna ao que era.
No terceiro capítulo temos duas situações muito distintas.
As colegas de Aya ajudam-na a ficar ereta, para que esta possa olhar um arco-íris; enquanto que mais para frente, o diretor do colégio e alguns professores, sugerem à Aya que mude para uma escola de deficientes, pois seus colegas começavam a considerar que era um peso cuidar dela.
Este argumento torna-se decisivo para Aya mudar de colégio ao final do ano concluindo seus estudos em uma escola de deficientes.
O Ato é uma denúncia: ele aponta o processo que leva à patologia - o Ato evidencia o Campo, mas este se reestrutura em seguida, da forma que era antes, porém com uma percepção diferente [5].
Se o Ato evidência uma estrutura social falha, mentirosa, hipócrita, fruto e mãe de patologias; aqueles que vivem neste Campo, alheios a tal estrutura, "não perdoam" quem quer que seja, que evidencie tal processo.
Quando Aya decide abandonar seu colégio (quando na prática, ela foi obrigada a sair), suas colegas fazem 1.000 dobraduras de passados de papel (uma tradição para desejar melhoras a quem está doente) para despedir-se. Mas Aya tem outra visão: "As minhas amigas que me ajudaram sempre vão dizer 'Aya, não vá'". Para Herrmann [5] o Ato é a queda do mais fraco perante a Realidade em que se vive, tornando-se necessário diminuir a distância entre o pensar e o agir. No caso de Aya, esta distância inexiste, ela inverte-se: o pensamento vem depois da ação, registrado em seu diário.
Freud ponderou que a Morte não seria uma necessidade biológica, mas a realização de um Desejo. Talvez aconteça o mesmo com doenças graves.
Aya questiona-se: "Por que será que essa doença me escolheu?" [1]. Não Aya, a pergunta está invertida. A pergunta a ser feita seria: Por que você escolheu esta doença?
Aya não consegue encontrar a resposta para esta pergunta, concluindo apenas: "Eu não posso mudar o Agora" [1] - eis a impotência do Ato.
O Mundo não existe enquanto Realidade objetiva, mas como Subjetividade, permeada por nossas fantasias, ansiedades e desejos - as ansiedades (do alemão Angst - medo ou pânico) perseguem e ameaçam. Como existe o desconhecido, sempre haverá ansiedade; as fantasias estão entre as defesas mais arcaicas contra a ansiedade persecutória - enquanto houver ansiedade haverá fantasia. Já o Desejo... O Inconsciente é fonte de desejos que nunca serão satisfeitos: no máximo realizados de forma alucinógena ou adaptados ao Princípio de Realidade. Em uma analogia com Schopenhauer, esta realização parcial é como "jogar esmolas a um mendigo para que este viva para sofrer mais um dia" [8]. Penso então, que o Mundo em que vivemos é permeado por fantasias, desejos, ansiedades e sofrimento.
O desejo de Aya fica claro: ela quer ser vista, sua doença proporciona esta visão, mas por pouco tempo - logo a garota desaparece e resta a degeneração de seu sistema nervoso: "Dentro de mim, ainda mora o 'eu' saudável; a única coisa que me diferencia dos meus amigos é este corpo defeituoso" [1].
Ela passa a ser cuidada por todos, sem conseguir se expressar, aliviando-se ao escrever em seu diário: este alívio se dá no Inferno. Ela tenta antecipar ou socorrer o sofrimento, mas nunca compreende-lo: não há espaço entre a dor e a ação.
O conhecimento da dor só é possível pela Psicanálise, onde analista e paciente contemplam o sofrimento, para então haver a adequação freudiana, que antes de tudo visa à funcionalidade do paciente: este deve ser capaz de retornar ao Mundo - não adequado a este (como no behaviorismo), mas conhecedor de si mesmo.
Não que Aya não tente se conhecer, mas o Ato a impede na Realidade construída por ela. Não há o que conhecer, há apenas o Ato. Não existe compreensão, apenas julgamento. Não existe Aya Kito, apenas Degeneração Espinocerebelar. Todos os caminhos levam ao Rio Ébero, morada de Thanatos.
A Pulsão (trieb) é força inata/interna que impele para a ação. Ela nasce no corpo, preenche o Id e inunda o Ego, que exige sua satisfação (a Pulsão é sentida como fenômeno psíquico) [9]. A satisfação pulsional só pode ser prazerosa se vinculada afetivamente a representações objetais. Thanatos (Pulsão de Morte) não só é anterior a Eros (Pulsão de Vida) como realiza o Desejo - tudo o que vive, morre.
Se a Pulsão nasce do corpo, sua tendência é retornar ao corpo. Este caminho é impelido por Thanatos/Pulsão de Destruição, desfazendo os vínculos afetivos em um ímpeto de retorno ao inanimado: surgem sintomas, atuações, patologias (psíquicas e físicas). Por fim, a desintegração das funções do corpo - como Thanatos é anterior a Eros e nossa sociedade é arquitetada pela repressão, impedindo a satisfação imediata do Desejo, a vida é arquitetada para alcançar o retorno ao pré-vida: esta é a Morte, pela desintegração dos laços afetivos e do corpo.
É justamente esta desintegração que caracteriza a doença de Aya. Apesar de faltarem dados regressos, posso supor que existia uma necessidade de acolhimento ou de destaque (provavelmente os dois), que Aya não conseguiu elaborar. Se Aya está presa a uma repetição de atuações e sintomas cujo único destino é a Morte, então por que ela apega-se tanto a vida?
A manutenção da vida é feita pela Pulsão de Autoconservação. Esta promove a manutenção da Morte - a vida é um fenômeno externo, enquanto o retorno ao inanimado é uma tendência interna. Assim, Aya atesta querer viver (e de fato ela o quer), para que possa morrer segundo o Desejo do organismo.
A relação de Aya com sua família, presente e cuidadosa; amigos (principalmente Sati); e a escrita do diário protegeu alguns objetos mais preciosos da destruição thanática. Com a expulsão pela escola, Aya afunda-se nas trevas da Morte. O capítulo termina com nossa protagonista embalada pelos braços de Thanatos.

Olhando para o céu - Ode to Joy
Os mestres do Romantismo usaram a seu favor a dor que sentiam.
Nietzsche definia o Sublime como sujeição artística do Horrível [3]. Amargurado, solitário, surdo e abandonado por todos, Beethoven compôs sua mais bela Sinfonia ao musicar “Ode to Joy” (Ode à alegria) de Schiller: "Oh amigos, mudemos de tom!/Entoemos algo mais agradável/E cheio de alegria!".
No quarto movimento da Nona Sinfonia (devo avisar que todo este capítulo foi escrito ao som da Nona Sinfonia), em 1774 Goethe publicou "O triste fim do jovem Werther", onde o personagem título escrevia em seu diário sua louca e frustrada paixão por Charlott S. – esta, apaixonada por outro. O romance fora inspirado em uma passagem real da vida do Poeta, que vivera em relação triangular com um jovem casal: um outro amigo apaixonara-se por esta mulher que o renegava - o amigo acabaria suicidando-se da mesma forma que Werther [11].
Beethoven expressou toda sua decadência afetiva e social na Nona Sinfonia, pedindo uma mudança de tom em seu sofrimento já insuportável; enquanto Goethe elaborava a dor da morte de um colega. Ambas as obras trouxeram comoção popular: se Beethoven foi aplaudido de pé por se expor, Goethe modificou padrões - os leitores de Werther passaram a imitar os personagens do livro em suas mentes, seus hábitos e em seu epílogo, gerando uma onda de suicídio na Europa [11].
No Movimento Romântico Alemão, o Ato não está apenas no artista, mas em seu público. "A aderência do real e o fascínio pela mais estrita atualidade sempre estiveram no âmago do romance moderno" [11].
O romance epistolar, escrito por meio de cartas (ou por diário), é o que mais aproxima o leitor do sofrimento de quem escreve. Aqui, o autor torna-se um mero editor, vivendo no presente, ignorando qualquer possibilidade de futuro [11]. A distância entre protagonista e leitor inexiste, restando o Trágico por excelência e o Amor pela perda.

O ultimo capítulo começa na desesperança.
Aya decidiu mudar de escola, e pensa em como sentirá falta de seus colegas. Ela finalmente questiona sobre sua doença, recebendo a confirmação médica de um temor arcaico de desintegração. Suas colegas despedem-se dela, como num grande Ato regado a lágrimas. Porém, existem duas despedidas reais. Sati despede-se antes das demais, cantando uma música para Aya; enquanto Ishikawa, após a despedida coletiva, revela o motivo por não a olhar nos olhos: no dia do exame para admissão no colégio, foi Ishikawa quem esbarrou em Aya, derrubando-a. Culpado por tê-la machucado, o molecote sentia vergonha de encará-la. Ele lia os mesmos livros que Aya, procurando um assunto em comum. Mas só consegue olhar para a protagonista ao despedir-se, longe dos demais colegas de classe.
Se a vida escolar de Aya era embasada na atuação, Sati e Ishikawa mostraram uma relação verdadeira para com Aya.
As relações verdadeiras fortalecem e favorecem a integração do Ego, nutrem o bom Objeto, ampliando o domínio de Eros.
Aya diferencia estas despedidas das demais - talvez sem saber o porquê -, sentindo gratidão verdadeira por elas. Até então Aya atuava "sorrir, cumprimentar e dizer 'obrigada'" [1]. Era um dogma auto-imposto, uma defesa contra a retaliação objetal. Com Sati e Ishikawa, Aya sente a verdadeira gratidão.
Ao sair do colégio para uma escola de deficientes, Aya rompe sua relação saudável e retorna ao Ato que a levaria à morte alguns anos depois. A atuação da protagonista demonstra uma má recordação do acolhimento materno, em oposição à voracidade e frustração - predisposições para a inveja [12]. Sua atuação bondosa e generosa demonstra a paz que o bebê sente no seio materno, a qual Aya considera perdida. Tal sensação de que o Seio Bom internalizado não mais satisfaz, é representada numa cena em que Aya sonha que pode andar: rapidamente ela acorda caindo da cama. Frustrada, a garota soca suas pernas num raro momento de raiva, um raro momento sem atuação. Se Aya estivesse em um processo analítico toda sua agressividade voltada para a destruição de seu corpo teria emergido em sessão, atenuando os efeitos de Thanatos.
Retornando à despedida bem elaborada, que suscita o sentimento de gratidão que permite que Aya entre em contato com o bom Objeto, ela sente que algo de bom existe dentro dela e de outras pessoas, sendo possível relacionar-se [12]. A interrupção de seu convívio com tais amigos não permite o fortalecimento do bom Objeto.
O mangá termina ao final dos 16 anos de Aya. Ela continuou escrevendo em seu diário até os 23 anos, falecendo aos 25 anos. Para o leitor, sua história termina aqui.
Após a despedida de seus amigos, Aya pede para sua mãe estacionar o carro perto de uma árvore de cerejeira, onde a menina deita-se, pensando que sua deterioração - e por fim a Morte -, são inevitáveis. Ela pensa em seus sentimentos: "Meu coração... Sinto o batimento no peito... Esta vida é muito importante... Estou vivendo" [1]. A proximidade da Morte revela a beleza da Vida.

A Morte é o sentido da Vida, o Extremo de todos os sentimentos, a Nostalgia pelo que não se conhece; enquanto Thanatos é o retorno ao estado embrionário, do cuidado e nutrição constantes. Thanatos é Destruição: onde há Destruição, há Amor.
Existe Amor em Thanatos?
Thanatos é Amor cínico pela Vida.
Aya ama a Vida.
Para amá-la, ela teve que destruí-la - não sem antes assegurar-se de viver para sempre.
Esta é a função do Diário: através deste, Aya tornou-se Imortal.
Após sua morte, ela continua sendo vista e cuidada.
Ao abraçar a Morte, ela encontra a Vida.
Esta é a nossa atuação como leitores.
O início do mangá mostra seu final.
O Fim denota um novo Começo: não para Aya, mas para nós leitores, que assumimos nosso papel na grande farsa que é a Realidade.
Mesmo porque, no Início existe o Ato.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] KITA & KITO, A. (2009) Um litro de lágrimas. São Paulo: New Pop.
[2] WERLE, M. A. & GALÉ, P. F. (2009) Arte e filosofia no idealismo alemão. São Paulo: Barcarolla.
[3] DURANT, W. (s.d.) A filosofia de Nietzsche. Rio de Janeiro: Ediouro.
[4] KLEIN, M. (1937) Amor, culpa e reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
[5] HERRMANN, F. (2001) Andaimes do real II: Psicanálise do Quotidiano. 3ª edição. São Paulo: Casa do Psicólogo.
[6] KLEIN, M. (1932) Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual da menina. In A Psicanálise de Crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
[7] COMMELIN, P. (1941) Nova mitologia grega e romana. 7ª edição. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia Editores.
[8] DURANT, W. (s.d.) A filosofia de Schopenhauer. Rio de Janeiro: Ediouro.
[9] HANNS, L. (1996) Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.
[10] GARCIA-ROZA, L. A. (1996) Freud e o inconsciente. 12ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[11] MATOS, f. (2002) O solilóquio de Werther. In WERLE, M. A. & GALÉ, P. F. (org.) Arte e filosofia no idealismo alemão. São Paulo: Barcarolla.
[12] KLEIN, M. (1957) Inveja e gratidão. Rio de Janeiro: Imago. 1991.


DIEGO TISCAR é Psicólogo Clínico.
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