29 de dezembro de 2010

SEU ZÉ FALECEU (Mariana Giorgion)


Sábado Seu Zé faleceu. Uma barra muito pesada para toda a família. Menos de um mês antes, havia falecido o Zé, seu filho, quarenta e tantos anos, de um câncer fulminante. Loucura. Choque. Muita dor.
Mas o enterro do Zé pai foi sereno, Dona Neuza, sua eterna companheira, segurando a barra. A Cidinha parecia que, depois disso tudo, queria voar um pouco, sentir o vento no rosto. Queria até andar de moto. A Rosanita também perdeu muito, mas parecia querer agora ganhar a vida, olhar coisas bonitas e amar, porque ela é muito amada e ama muito, muita gente. A Fátima eu não sei... Não conversamos muito, mas ela me pareceu tranquila, bem amparada. E por fim a Rosangela, expressando o susto, elaborando esse evento sinistro que é o morrer, e que ela acompanhou de muito perto, no pai e no irmão, tentando talvez apreender o exato momento em que se deixa de ser.

Seu Zé foi figura presente na minha vida. Nem sei expressar como, de que forma, ou na forma cronológica que costumamos contar. Eu sou meio assim, lacunar na minha história. A psicanálise já viu e já sabe como me ajudar a reescrever. Mas ele está aqui, de alguma forma, me fazendo pensar, e lembrar. Quando eu era adolescente ele era o “Dono das Chaves”. Era responsável pela Manutenção, pela organização do patrimônio do Jornal, e ele podia abrir portas que eu queria muito que estivessem abertas, porque era um mundo de informações, curiosidades, conhecimento. Eu queria aprender a operar os computadores e programas. Aquilo era mágico. Você fazia a programação no Página Certa (programa de computação gráfica), gravava num disquete, levava para a fotoreveladora, que chamávamos de Geppeto - acho que era o nome do fabricante, sei lá. Dentro dela ia uma caixinha preta, onde ficava o papel filme. Depois ia prá sala de revelação e na sua frente surgiam as tiras de texto, as fotos. Depois você recortava com estilete e montava a página, o Jornal. Seu Luís, que também já perdemos, fazia o fotolito e depois ia prá rotativa. Era fantástico e eu queria saber fazer aquilo tudo. Mas não era fácil. O material era caro, os equipamentos mais caros ainda, e muito caros também ao pessoal do Partido, que fazia um esforço imenso prá comprar e manter tudo aquilo. A responsabilidade do Seu Zé era grande e ele não achava muito certo deixar criança mexer. Mas, às vezes, ele ficava em dúvida e as portas se abriam.
Seu Zé era uma pessoa profundamente original, estilosa mesmo. Era fácil identificar ele no seu jeito de viver. Num dia de bom humor, estava ele tentando me justificar por que eu não devia ficar mexendo e desregulando as máquinas. Ele me dizia que aquela era a tarefa dele: prezar pelo cuidado e conservação. E me disse que fazendo isso bem feito, que era o que ele sabia fazer, ele dava uma imensa contribuição para o Partido, para a Revolução. Dizia que não sabia fazer o Jornal, ou as coisas grandiosas que os outros companheiros faziam, especialmente o Cláudio. Ele adorava o Cláudio. Mas ele sabia cuidar do patrimônio e manutenção. Contou-me que desse jeito ele fez parte da história do Brasil. Disse-me que na década de 40 ele era técnico de manutenção de balanças da Fillizola e que foi chamado para regular a balança do presidente Getúlio Vargas. Parece que esse foi um momento muito especial para ele. Disse que chegou lá, acho que no gabinete, ou na casa do Presidente (lacunas...) e foi recebido pessoalmente por Getúlio, que o acompanhou até o banheiro e apontou para a balança. Seu Zé regulou a balança o melhor que pôde e sentiu que, contribuindo com Getúlio, estava também contribuindo com toda sua Obra.
Ele encontrou seu próprio jeito de viver, de se admirar e de se orgulhar. Prá outros, talvez não fosse a melhor forma. Sempre há possibilidades de se fazer diferente, mas era o jeito dele e todos nós que convivemos com ele sabíamos identificar e – tomara - valorizar.

E neste momento me reencontro com minha própria vida, ou neste momento muito próprio de viver. O estilo, a originalidade, a marca, o traço, são questões que andam me fisgando.

Recentemente reli o conto de Padmini, no “Divã a Passeio”, e a marca de Fabio Herrmann salta à vista. Do jeito que ele descreve, a fórmula do fazer analítico não parece, a primeira vista, tão complicada. O diferencial está no olhar. Se encontrarmos o sentido, o movimento psíquico, as expressões de caráter inconsciente, elaboramos uma tese provisória sobre esse movimento e essa tese é, e só pode ser, profundamente original, porque é única - diz dessa fotografia instantânea. O mais curioso é que, imediatamente após a sua apreensão, essa fotografia vai se desfazer e novos sentidos poderão advir. Depois é só dar uma consultada, prá ver se outros, como nós, também andam buscando estes sentidos e comparar as descobertas e hipóteses.
A primeira empreitada é conseguir este olhar. Se armar das ferramentas certas, e se desprender delas no momento certo, prá apreender a fotografia. Igualzinho na Geppeto e no laboratório: como mágica a imagem se faz. Mas, se desregular, se errar o tempo, a química, a iluminação, queima o filme e a imagem se perde. Você até fica lá, com o papel filme borrado, ou desfocado, todo preto ou amarelo. Você até pode dizer que essa é a imagem apreendida. Mas é conversa fiada, o original se perdeu. O consolo da Geppeto é que está tudo no disquete. Na análise, vamos ter que esperar a repetição.
Outro problema sério, e Freud nos disse que temos que enfrentá-lo, é expressar este olhar através de texto, de teoria, de palavras. Ando muito tentando fazer isso, mas me deparo com outra questão: minhas palavras estão se dirigindo aos outros. Fico extremamente preocupada com esses tais outros. Como pensam, como sentem, como vão compreender; e pior, como vão avaliar minhas palavras. Penso que talvez fosse melhor escrever na língua deles, com palavras parecidas, na esperança de que sejam mais piedosos com meu rascunho. Aliás, quando falo em outros, penso logo em Lacan. Ele falou bastante do grande Outro e eu ainda me perco nos sentidos do Outro dele, que também, profundamente estiloso, tinha um jeito muito próprio de expressar seus pensamentos. Mas alguma coisa me diz que Lacan estava também falando desses meus outros que, no momento, me parecem bem grandes.
O resultado é caca. Ao focar em quem vai me ler, desfoco de quem dá-se a ver. Perco o sentido analítico e a possibilidade de desvelar sentidos próprios que, aliás, não são meus. Pensando por este lado, talvez possa até me consolar. Não sou eu quem tem de dizer, essa responsabilidade não é minha. Eu preciso é estar livre o suficiente para deixar advir os sentidos de quem fala. E, falando assim, parece até fácil, se libertar dos sentidos dos seus grandes outros, inclusive dos de Lacan, prá deixar surgir os sentidos do foco de seu olhar analítico.

Extremamente difícil. Mas aí me lembro do Seu Zé. Me parece que de alguma forma ele conseguiu. Seu olhar singular, seu foco no trabalho, na originalidade e importância de sua contribuição, permitiram que ele cumprisse sua tarefa e, por esta contribuição, estávamos todos lá, prestando nossa justa homenagem a esse velho guerreiro.

MARIANA GIORGION é psicanalista.
Rua Cardeal Arcoverde, 833 – conj. 1 – Pinheiros – São Paulo, SP
Tel.: (11) 4111.6841

20 de dezembro de 2010

LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA (Marcos InHauser Soriano)


O Escudo pode ser tão importante como a Lança sob o ponto de vista da Vitória"
(CHARLES DARWIN)


Em 1831, aos 22 anos de idade, Charles Darwin embarcava como naturalista no Beagle. A bordo do navio britânico, passaria os próximos cinco anos em viagem pelo litoral da América do Sul e das Ilhas do Pacífico, coletando espécimes vegetais e animais e fazendo longas anotações sobre suas observações. Após uma construção científica laboriosa, publicaria em 1859, “A Origem das Espécies”, apresentando ao Mundo sua Teoria da Seleção Natural. Sob o açoite da crítica, a idéia de que todas as espécies de plantas e animais se desenvolveram a partir de formas mais primitivas pela transmissão hereditária de ligeiras variações em sucessivas gerações, sobrevivendo as formas que melhor se adaptaram ao meio ambiente, transformou Darwin em um dos maiores cientistas de seu tempo. Até hoje, suas idéias são motivo de discussão científica e religiosa.
Em resumo, poderíamos dizer que a base da Teoria da Seleção Natural encontra-se no Fator Adaptativo do organismo em sua luta pela sobrevivência da espécie à qual pertence.

Quando o trabalho de Darwin foi divulgado no mundo de língua alemã, Freud encontrava-se cursando a escola secundária. Por apresentarem esperanças de um extraordinário avanço científico na compreensão do Mundo, Freud foi fortemente atraído pelas idéias darwinianas – que eram então de interesse corrente na época.

Em 1900, publica-se em Viena, “A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud. Fiasco editorial e fracasso de vendas, “A Interpretação dos Sonhos” tornar-se-ia um dos mais meticulosos levantamentos científicos sobre o assunto, bem como apresentaria – em seu famoso capítulo VII - uma das mais ousadas teorias acerca da Alma Humana. A apresentação ao mundo médico-científico de Viena, da Primeira Tópica, principalmente do conceito de Inconsciente, abalaria – em princípio por horror e asco - e modificaria para sempre toda uma visão histórica da relação entre Doença e Normalidade, bem como invadiria, sem proporções de comparação, a Cultura e o Cotidiano Humanos até os dias atuais.
A idéia de que a Razão consciente é produto de conflitos instintivos e opostos, advindos de uma batalha pela sobrevivência do Eu simultaneamente aos imperativos do Desejo (tomado aqui com sendo da ordem do que falta, da apetência pulsional do Prazer) concernente ao Inconsciente, e a invenção de um método próprio – intrínseco a essa idéia - para se chegar às raízes conflitantes, colocaria Freud com um dos mais importantes investigadores e escritores de seu tempo.

Boas Idéias carregam esse Destino: há de se lutar para sobreviver.

* * * * *

Freud foi influenciado por muitos dos notórios de sua época, em diversas áreas que incluíam a Medicina, as Artes, a Filosofia e a Ciência, dentre tantas outras. Não foram poucas as citações e analogias utilizadas na construção da Psicanálise.

Por toda a obra freudiana encontramos diversas citações à Darwin. Podemos destacar em duas vertentes a influência das idéias de Darwin no pensamento freudiano: uma vertente histórica, que auxilia na localização da Psicanálise enquanto importante e marcante movimento científico; e uma vertente teórica, que através de analogias, ajuda o desenvolvimento de importantes conceitos psicanalíticos.

No Artigo de 1917, “Uma Dificuldade No Caminho Da Psicanálise”, que trata do alienamento afetivo e resistencial, de certa antipatia às idéias da Psicanálise, Freud cita os “três severos golpes” sofridos pelo “narcisismo universal” do Homem, ou seja, em “seu amor-próprio”. Entre o primeiro golpe, advindo das idéias de Copérnico, que marcava a destituição da Terra como posição central do Universo, e o terceiro golpe, fornecido pela própria Psicanálise, destituindo a Razão Consciente do comando das idéias e atos humanos, Freud aponta Darwin como síntese do segundo golpe:

No curso do desenvolvimento da civilização, o homem adquiriu uma posição dominante sobre as outras criaturas do reino animal. Não satisfeito com essa supremacia, contudo, começou a colocar um abismo entre a sua natureza e a dos animais. Negava-lhes a posse de uma razão e atribuiu a si próprio uma alma imortal, alegando uma ascendência divina que lhe permitia romper o laço de comunidade entre ele e o reino animal. (...) Todos sabemos que, há pouco mais de meio século, as pesquisas de Charles Darwin e seus colaboradores e precursores puseram fim a essa presunção por parte do homem. O homem não é um ser diferente dos animais, ou superior a eles; ele próprio tem ascendência animal, relacionando-se mais estreitamente com algumas espécies, e mais distanciadamente com outras. As conquistas que realizou posteriormente não conseguiram apagar as evidências, tanto na sua estrutura física quanto nas suas aptidões mentais, da analogia do homem com os animais. Foi esse o segundo, o golpe biológico no narcisismo do homem.” (p.174-5)

Sem dúvida, a principal analogia utilizada por Freud em consequência das idéias de Darwin, como instrumento para desenvolvimento e atualização de importantes conceitos da Psicanálise, encontra-se no Mito da Horda Primeva, em “Totem E Tabu” de 1913. No citado Artigo, Freud constrói uma hipótese sobre a pré-história da descendência humana, que culmina - e/ou fornece forma - em importantes conclusões conceituais como o Complexo de Édipo, os Instintos Sexuais e suas proibições, a relação entre o Tabu e a construção da Sociedade Humana, dentre tantas outras formulações de extrema importância para a Psicanálise.
Partindo da idéia darwiniana da Seleção Sexual, onde “os machos mais vigorosos, isto é, os que são mais capazes a ocupar o seu lugar na natureza, deixam um número maior de descendentes” (Darwin, p.91), e da hipótese de Darwin sobre o estado social dos homens primitivos, que viviam originalmente em grupos pequenos dominados pelo macho mais velho e mais forte, Freud nos relata a seguinte história:

Certo dia, os irmãos que tinham sido expulsos retornaram juntos, mataram e devoraram o pai, colocando assim um fim à horda patriarcal. Unidos, tiveram coragem de fazê-lo e foram bem sucedidos no que lhes teria sido impossível fazer individualmente. Selvagens canibais como eram, não é preciso dizer que não apenas matavam, mas também devoravam a vítima. O violento pai primevo fora sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força. (...) Odiavam o pai, que representava um obstáculo tão formidável ao seu anseio de poder e aos desejos sexuais; mas amavam-no e admiravam-no também. Após terem-se livrado dele, satisfeito o ódio e posto em prática os desejos de identificarem-se com ele, a afeição que todo esse tempo tinha sido recalcada estava fadada a fazer-se sentir e assim o fez sob a forma de remorso. Um sentimento de culpa surgiu, o qual, nesse caso, coincidia com o remorso sentido por todo o grupo. O pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo.” (p.145-46)

Ainda em “Totem E Tabu”, Freud faz uma interessante citação de Darwin, que impressiona pela similaridade entre a história apresentada acima:

Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo (...) a julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe (...) a visão mais provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava contra todos os outros homens. Ou pode ter vivido sozinho com diversas esposas, como o gorila. (...) Os machos mais novos, sendo assim expulsos e forçados a vaguear por outros lugares, quando por fim conseguiam encontrar uma companheira, preveniram também uma endogamia muito estreita dentro dos limites da mesma família.” (p.131)

Encontramos nesta hipótese a base para um dos pilares, senão o mais importante, sobre os quais se erigiu a Psicanálise: a luta incessante entre os instintos de prazer, advindos do Inconsciente, e os instintos de sobrevivência, ligados fortemente ao Eu – uma guerra de forças que impulsiona e exige uma adaptação do Homem à Realidade que o cerca.

* * * * * *

O Aparelho Psíquico inventado por Freud funciona como uma balança buscando o ponto de equilíbrio entre “prazer” e “desprazer”; mais de uma vez, Freud o descreve através da funcionalidade de evitar “desprazer”.

Como toda Ciência, a Psicanálise também tem seu Objeto. Herrmann o define como “Homem Psicanalítico”: a crise representacional-existencial do Sujeito, que coloca em choque direto a Realidade e a Identidade. Seguindo esta idéia, o Homem Psicanalítico, o Homem em análise, busca constante adaptação em um coeso “Existir no Mundo” – um choque direto entre o Sujeito Inconsciente, direcionado pelas pulsões de prazer; e o Mundo externo, contentor das regras da boa convivência civilizatória. A Psicanálise denomina “Defesa” esta busca adaptativa que evita a desintegração e aniquilamento do Sujeito psíquico frente às infinitas possibilidades de Ser em outras infinitas possibilidades de Mundo. Apesar da complexidade envolvida na construção, a idéia é relativamente simples: como nas boas Obras de Ficção-Científica, a pergunta que sobra é “Eu qual? E em qual Mundo?" – resto de uma aritmética psíquica que, aliás, em prol da saúde mental, é melhor que passe despercebido.
Percebe-se que aqui, estamos nos referindo a um tipo de defesa extremante primitiva e intrinsecamente fundante do Sujeito.

No belíssimo Artigo “O Escudo de Aquiles” (originalmente de 1987, publicado em “O Divã A Passeio”), Herrmann apresenta a “função defensiva da representação”.

A vida civilizada, a cuja invenção parecem aludir os poemas homéricos, depende da laboriosa diferenciação entre o reino do contágio e o plano superficial da representação. Ódio e paixão amorosa, morte e geração, fome e sexo e acima de tudo o impulso torturado de se agarrar aos semelhantes num abraço fundente permanecem como se fossem um magma borbulhando sob a organização do quotidiano. (...) Com intervalo temporal ou sem ele, no entanto, a superfície representacional desempenha sempre papel defensivo. Reveste, em primeiro lugar, a subjetividade com a película demarcadora de limites que representa a identidade; em segundo lugar, é o representante da desmedida inter-relação entre os homens, em que os grandes motivos humanos – paixão, guerra, morte, etc. – estão perpetuamente ativos, estrato a que podemos chamar reino do contágio ou ‘real’. (...) A representação está investida por uma forte carga pulsional, furtada à desejada fusão no real, em que os homens são plenamente corpos em ação comum. (...) De outra parte, como superfície identitária, a representação possui a inequívoca utilidade de oferecer ao sujeito os contornos definidos de um objeto altamente valorizado: o eu.” (p.169)

Do Totemismo, solução da crise representacional da “horda primeva”, aos dias contemporâneos, com suas tribos e constantes novidades, o Homem trava uma luta constante pela sobrevivência do Sujeito psíquico.
O “Eu”, pode ser compreendido como engenhosa defesa psíquica em constante tentativa adaptativa do Homem à seu Mundo.
Quanto mais complexo o Homem vai moldando o Mundo, mais se exige da função defensiva da representação – talvez, o mais fantástico instrumento de “evolução” na “luta pela sobrevivência” desta espécie – O Humano.

O “golpe psicanalítico” no amor-próprio do Homem foi mais fundo do que o próprio Freud poderia imaginar: atingiu diretamente o “Eu”, em um nocaute revelador de que “Eu” é apenas mais uma representação dentre tantas possíveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DARWIN, C. (s.d.) A Origem Das Espécies E A Seleção Natural. 5ª Edição. São Paulo: Hemus.
FREUD, S. (1913) Totem E Tabu in Edição Standard Brasileira Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud (vol. XIII). 2ª Edição. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
FREUD, S. (1917) Uma Dificuldade No Caminho Da Psicanálise in Edição Standard Brasileira Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud (vol. XVII). Rio de Janeiro: Imago, 1976.
HERRMANN, F. (1992) O Divã A Passeio – À Procura Da Psicanálise Onde Não Parece Estar. São Paulo: Brasiliense.
RITVO, L. B. (1992) A Influência De Darwin Sobre Freud – Um Conto De Duas Ciências. Rio de Janeiro: Imago.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Rua Tuiuti, 2530 (cj.116) – Tatuapé – São Paulo, SP – CEP 03307-000
Tel.: (11) 2295.4167

E-mail: misoriano@terra.com.br

12 de dezembro de 2010

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ANNA O.



Anna O., pseudônimo de Bertha Pappenheim (1859-1936), paciente de Josef Breuer, que publicou seu estudo de caso no "Estudos sobre a Histeria” (1895), escrito em colaboração com Sigmund Freud, é sem dúvida um dos principais casos clínicos da Psicanálise, por ser considerado por muitos como marco inicial do que mais tarde haveria de se tornar o tratamento psicanalítico.

Bertha Pappenheim nasceu em Viena, em 27 de fevereiro de 1859, falecendo em Iselberg, na Alemanha, em 28 de maio de 1936. Foi uma líder do Movimento Feminista, assistente social e escritora judia austro-alemã.

De personalidade sensível, por volta dos vinte anos de idade, Bertha sofreu muito com a longa doença terminal do pai que, juntamente com as tensões da infância, foram as responsáveis pelo desencadear de seu quadro de Histeria, marcado por sintomas como depressão, nervosismo, tendência ao suicídio, paralisia, perturbações visuais, contraturas musculares e outros, e que a deixavam praticamente inválida. Foi então, levada ao médico Josef Breuer, pertencente à elite de cientistas vienenses da época, sendo por ele tratada de 1880 a 1882.
Inicialmente, Bertha foi submetida a sessões de hipnose, mas no decorrer do tratamento, o médico descobriu que dialogando com ela sobre a sua vida, podia levá-la a relatar traumas de sua infância, do mesmo modo que sob hipnose, e que as recordações faziam que ela se sentisse melhor e que seus sintomas desaparecessem. A própria Bertha chamou o tratamento de "cura pela fala". Muitas pessoas acreditam que Breuer posteriormente a encaminhou para Freud, o que não é verdade.
Bertha Pappenheim teve um papel muito importante no desenvolvimento do método que Breuer denominou catarsis, e que viria ser o fundamento do futuro tratamento psicanalítico.
Após várias internações, em decorrência do agravamento dos sintomas da doença, e em razão da dependência em morfina, começou a dedicar-se ao trabalho social em prol da dignidade da mulher judia, o que, aparentemente, contribuiu para a sua recuperação.

Em 1902, Bertha fundou e dirigiu por 29 anos a Weibliche Fürsorge (Assistência da Mulher), uma Instituição destinada a colocar órfãs em lares adotivos, a educar mães sobre o cuidado com seus bebês, e a dar orientação vocacional e oportunidades de emprego para moças. Foi o primeiro abrigo e lar coletivo para mães solteiras e seus filhos, para crianças e meninas retiradas da prostituição.
Em 1904, fundou a "Liga das Mulheres Judias", a primeira organização judaica a lutar pelos direitos civis e religiosos da mulher judia, da qual foi a Presidente por vinte anos.
Em 1890, publicou o livro de contos “Na loja De Segunda Mão”, sob o pseudônimo de Paul Berthold. Em 1899 escreveu a peça de teatro “Direitos Da Mulher”, e traduziu para o alemão o livro da feminista Mary Wollstonecrafts, “A Vindication of the Rights of Woman”.
Uma de suas publicações mais conhecidas é “Sisyphus-Arbeit” (O trabalho de Sísifo), em alusão ao trabalho incansável do herói grego Sísifo, que persistentemente empurrava uma pedra para o alto da montanha, quantas vezes essa voltasse a rolar montanha abaixo.
Em 1910, Bertha publicou “O Problema Judeu Na Galícia” e “Sobre A Condição Da População Judia Na Galícia”, sobre a relação entre o baixo nível de educação e a pobreza entre as meninas judias. No mesmo ano traduziu as “Memórias de Gluekl von Hameln” (a primeira autobiografia de uma mulher na Alemanha). Em 1913, publicou a peça teatral “Momentos Trágicos”.
Após deixar a presidência da Liga das Mulheres, Bertha traduziu o “Maaseh Buch”, uma coleção de narrativas judaicas tradicionais; o “Ze'enah u-Re'enah”, uma bíblia seiscentista da mulher, de Isaac Ashkenazi; os cinco “Megillot”, que são o Livro de Ester, o Livro de Rute, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes e o Lamentações; e o “Haftarot”, uma seleção de textos dos profetas, lidos em ocasiões especiais.

Inteligente e atraente, Anna O. apresentava sintomas profundos de histeria, incluindo paralisia, perda de memória, deteriorização mental, náuseas e distúrbios visuais e orais. Os primeiros sintomas apareceram quando ela cuidava do pai, que sempre a mimara, e que estava morrendo.
Breuer começou o tratamento de Anna O. usando a hipnose. Ele pensava que, enquanto estivesse hipnotizada, ela se lembraria de experiências específicas que pudessem ter originado alguns dos sintomas. Ao falar sobe as experiências durante a hipnose, frequentemente ela se sentia aliviada dos sintomas. Durante mais de um ano, Breuer atendeu Anna O. diariamente. Ela relatava os incidentes perturbadores ocorridos durante o dia e, depois de falar, algumas vezes alegava sentir-se aliviada dos sintomas. Ela se referia as conversas como uma “limpeza de chaminé”, o que chamou de “cura pela palavra”. Conforme prosseguiam as sessões, Breuer percebia (assim disse ele a Freud) que os incidentes de que Anna O. se lembrava estavam relacionados com pensamentos ou eventos que ela repudiava. Revivendo as experiências perturbadoras durante a sessão de hipnose, os sintomas eram reduzidos ou eliminados.
A esposa de Breuer começou a ficar com ciúmes da relação emocional muito próxima criada entre os dois. A jovem Anna O. exibia, o que se tornou teorizado posteriormente por Freud, uma “transferência” para Breuer. Em outras palavras, ela estava transferindo o amor que sentia pelo pai para o terapeuta. Essa transferência fora incentivada pela semelhança física entre o pai e Breuer. Além disso, talvez Breuer também estivesse nutrindo uma ligação emocional com a paciente. Breuer acabou sentindo-se ameaçado com a situação, e disse a Anna O. que não podia mais tratar dela. Dali a poucas horas, Anna O. foi acometida de dores histéricas comparáveis às de um parto. Breuer acabou com essa condição usando a hipnose. Assim, reza a lenda, que ele teria viajado com a esposa para Veneza em uma espécie de segunda lua-de-mel.
Análises posteriores dos registros históricos revelaram que Anna O. não foi curada com os tratamentos catárticos de Breuer. Depois que ele deixou de vê-la, foi internada e passava horas diante da foto do pai, dizendo que ia visitar seu túmulo. Ela teve alucinações e convulsões, neuralgia facial e dificuldades recorrentes na fala e também se viciou em morfina (Breuer prescrevera a droga para aliviar a dor facial).
Breuer disse a Freud que Bertha enlouqueceria, acreditando que ela sofreria até morrer. Não se sabe bem ao certo como Bertha Pappenheim superou os problemas emocionais, mas ela acabou se tornando assistente social e feminista, apoiando a educação feminina. Publicou vários contos, escreveu uma peça sobre os direitos da mulher e acabou sendo homenageada com a criação de um selo postal alemão.

O relato de Breuer acerca do caso de Anna O. foi importante para o desenvolvimento da Psicanálise, por ter apresentado a Freud o Método Catártico, a chamada cura por meio da conversa, que mais tarde viria a figurar com destaque em seus trabalhos.

FONTES: