20 de dezembro de 2010

LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA (Marcos InHauser Soriano)


O Escudo pode ser tão importante como a Lança sob o ponto de vista da Vitória"
(CHARLES DARWIN)


Em 1831, aos 22 anos de idade, Charles Darwin embarcava como naturalista no Beagle. A bordo do navio britânico, passaria os próximos cinco anos em viagem pelo litoral da América do Sul e das Ilhas do Pacífico, coletando espécimes vegetais e animais e fazendo longas anotações sobre suas observações. Após uma construção científica laboriosa, publicaria em 1859, “A Origem das Espécies”, apresentando ao Mundo sua Teoria da Seleção Natural. Sob o açoite da crítica, a idéia de que todas as espécies de plantas e animais se desenvolveram a partir de formas mais primitivas pela transmissão hereditária de ligeiras variações em sucessivas gerações, sobrevivendo as formas que melhor se adaptaram ao meio ambiente, transformou Darwin em um dos maiores cientistas de seu tempo. Até hoje, suas idéias são motivo de discussão científica e religiosa.
Em resumo, poderíamos dizer que a base da Teoria da Seleção Natural encontra-se no Fator Adaptativo do organismo em sua luta pela sobrevivência da espécie à qual pertence.

Quando o trabalho de Darwin foi divulgado no mundo de língua alemã, Freud encontrava-se cursando a escola secundária. Por apresentarem esperanças de um extraordinário avanço científico na compreensão do Mundo, Freud foi fortemente atraído pelas idéias darwinianas – que eram então de interesse corrente na época.

Em 1900, publica-se em Viena, “A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud. Fiasco editorial e fracasso de vendas, “A Interpretação dos Sonhos” tornar-se-ia um dos mais meticulosos levantamentos científicos sobre o assunto, bem como apresentaria – em seu famoso capítulo VII - uma das mais ousadas teorias acerca da Alma Humana. A apresentação ao mundo médico-científico de Viena, da Primeira Tópica, principalmente do conceito de Inconsciente, abalaria – em princípio por horror e asco - e modificaria para sempre toda uma visão histórica da relação entre Doença e Normalidade, bem como invadiria, sem proporções de comparação, a Cultura e o Cotidiano Humanos até os dias atuais.
A idéia de que a Razão consciente é produto de conflitos instintivos e opostos, advindos de uma batalha pela sobrevivência do Eu simultaneamente aos imperativos do Desejo (tomado aqui com sendo da ordem do que falta, da apetência pulsional do Prazer) concernente ao Inconsciente, e a invenção de um método próprio – intrínseco a essa idéia - para se chegar às raízes conflitantes, colocaria Freud com um dos mais importantes investigadores e escritores de seu tempo.

Boas Idéias carregam esse Destino: há de se lutar para sobreviver.

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Freud foi influenciado por muitos dos notórios de sua época, em diversas áreas que incluíam a Medicina, as Artes, a Filosofia e a Ciência, dentre tantas outras. Não foram poucas as citações e analogias utilizadas na construção da Psicanálise.

Por toda a obra freudiana encontramos diversas citações à Darwin. Podemos destacar em duas vertentes a influência das idéias de Darwin no pensamento freudiano: uma vertente histórica, que auxilia na localização da Psicanálise enquanto importante e marcante movimento científico; e uma vertente teórica, que através de analogias, ajuda o desenvolvimento de importantes conceitos psicanalíticos.

No Artigo de 1917, “Uma Dificuldade No Caminho Da Psicanálise”, que trata do alienamento afetivo e resistencial, de certa antipatia às idéias da Psicanálise, Freud cita os “três severos golpes” sofridos pelo “narcisismo universal” do Homem, ou seja, em “seu amor-próprio”. Entre o primeiro golpe, advindo das idéias de Copérnico, que marcava a destituição da Terra como posição central do Universo, e o terceiro golpe, fornecido pela própria Psicanálise, destituindo a Razão Consciente do comando das idéias e atos humanos, Freud aponta Darwin como síntese do segundo golpe:

No curso do desenvolvimento da civilização, o homem adquiriu uma posição dominante sobre as outras criaturas do reino animal. Não satisfeito com essa supremacia, contudo, começou a colocar um abismo entre a sua natureza e a dos animais. Negava-lhes a posse de uma razão e atribuiu a si próprio uma alma imortal, alegando uma ascendência divina que lhe permitia romper o laço de comunidade entre ele e o reino animal. (...) Todos sabemos que, há pouco mais de meio século, as pesquisas de Charles Darwin e seus colaboradores e precursores puseram fim a essa presunção por parte do homem. O homem não é um ser diferente dos animais, ou superior a eles; ele próprio tem ascendência animal, relacionando-se mais estreitamente com algumas espécies, e mais distanciadamente com outras. As conquistas que realizou posteriormente não conseguiram apagar as evidências, tanto na sua estrutura física quanto nas suas aptidões mentais, da analogia do homem com os animais. Foi esse o segundo, o golpe biológico no narcisismo do homem.” (p.174-5)

Sem dúvida, a principal analogia utilizada por Freud em consequência das idéias de Darwin, como instrumento para desenvolvimento e atualização de importantes conceitos da Psicanálise, encontra-se no Mito da Horda Primeva, em “Totem E Tabu” de 1913. No citado Artigo, Freud constrói uma hipótese sobre a pré-história da descendência humana, que culmina - e/ou fornece forma - em importantes conclusões conceituais como o Complexo de Édipo, os Instintos Sexuais e suas proibições, a relação entre o Tabu e a construção da Sociedade Humana, dentre tantas outras formulações de extrema importância para a Psicanálise.
Partindo da idéia darwiniana da Seleção Sexual, onde “os machos mais vigorosos, isto é, os que são mais capazes a ocupar o seu lugar na natureza, deixam um número maior de descendentes” (Darwin, p.91), e da hipótese de Darwin sobre o estado social dos homens primitivos, que viviam originalmente em grupos pequenos dominados pelo macho mais velho e mais forte, Freud nos relata a seguinte história:

Certo dia, os irmãos que tinham sido expulsos retornaram juntos, mataram e devoraram o pai, colocando assim um fim à horda patriarcal. Unidos, tiveram coragem de fazê-lo e foram bem sucedidos no que lhes teria sido impossível fazer individualmente. Selvagens canibais como eram, não é preciso dizer que não apenas matavam, mas também devoravam a vítima. O violento pai primevo fora sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força. (...) Odiavam o pai, que representava um obstáculo tão formidável ao seu anseio de poder e aos desejos sexuais; mas amavam-no e admiravam-no também. Após terem-se livrado dele, satisfeito o ódio e posto em prática os desejos de identificarem-se com ele, a afeição que todo esse tempo tinha sido recalcada estava fadada a fazer-se sentir e assim o fez sob a forma de remorso. Um sentimento de culpa surgiu, o qual, nesse caso, coincidia com o remorso sentido por todo o grupo. O pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo.” (p.145-46)

Ainda em “Totem E Tabu”, Freud faz uma interessante citação de Darwin, que impressiona pela similaridade entre a história apresentada acima:

Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo (...) a julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe (...) a visão mais provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava contra todos os outros homens. Ou pode ter vivido sozinho com diversas esposas, como o gorila. (...) Os machos mais novos, sendo assim expulsos e forçados a vaguear por outros lugares, quando por fim conseguiam encontrar uma companheira, preveniram também uma endogamia muito estreita dentro dos limites da mesma família.” (p.131)

Encontramos nesta hipótese a base para um dos pilares, senão o mais importante, sobre os quais se erigiu a Psicanálise: a luta incessante entre os instintos de prazer, advindos do Inconsciente, e os instintos de sobrevivência, ligados fortemente ao Eu – uma guerra de forças que impulsiona e exige uma adaptação do Homem à Realidade que o cerca.

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O Aparelho Psíquico inventado por Freud funciona como uma balança buscando o ponto de equilíbrio entre “prazer” e “desprazer”; mais de uma vez, Freud o descreve através da funcionalidade de evitar “desprazer”.

Como toda Ciência, a Psicanálise também tem seu Objeto. Herrmann o define como “Homem Psicanalítico”: a crise representacional-existencial do Sujeito, que coloca em choque direto a Realidade e a Identidade. Seguindo esta idéia, o Homem Psicanalítico, o Homem em análise, busca constante adaptação em um coeso “Existir no Mundo” – um choque direto entre o Sujeito Inconsciente, direcionado pelas pulsões de prazer; e o Mundo externo, contentor das regras da boa convivência civilizatória. A Psicanálise denomina “Defesa” esta busca adaptativa que evita a desintegração e aniquilamento do Sujeito psíquico frente às infinitas possibilidades de Ser em outras infinitas possibilidades de Mundo. Apesar da complexidade envolvida na construção, a idéia é relativamente simples: como nas boas Obras de Ficção-Científica, a pergunta que sobra é “Eu qual? E em qual Mundo?" – resto de uma aritmética psíquica que, aliás, em prol da saúde mental, é melhor que passe despercebido.
Percebe-se que aqui, estamos nos referindo a um tipo de defesa extremante primitiva e intrinsecamente fundante do Sujeito.

No belíssimo Artigo “O Escudo de Aquiles” (originalmente de 1987, publicado em “O Divã A Passeio”), Herrmann apresenta a “função defensiva da representação”.

A vida civilizada, a cuja invenção parecem aludir os poemas homéricos, depende da laboriosa diferenciação entre o reino do contágio e o plano superficial da representação. Ódio e paixão amorosa, morte e geração, fome e sexo e acima de tudo o impulso torturado de se agarrar aos semelhantes num abraço fundente permanecem como se fossem um magma borbulhando sob a organização do quotidiano. (...) Com intervalo temporal ou sem ele, no entanto, a superfície representacional desempenha sempre papel defensivo. Reveste, em primeiro lugar, a subjetividade com a película demarcadora de limites que representa a identidade; em segundo lugar, é o representante da desmedida inter-relação entre os homens, em que os grandes motivos humanos – paixão, guerra, morte, etc. – estão perpetuamente ativos, estrato a que podemos chamar reino do contágio ou ‘real’. (...) A representação está investida por uma forte carga pulsional, furtada à desejada fusão no real, em que os homens são plenamente corpos em ação comum. (...) De outra parte, como superfície identitária, a representação possui a inequívoca utilidade de oferecer ao sujeito os contornos definidos de um objeto altamente valorizado: o eu.” (p.169)

Do Totemismo, solução da crise representacional da “horda primeva”, aos dias contemporâneos, com suas tribos e constantes novidades, o Homem trava uma luta constante pela sobrevivência do Sujeito psíquico.
O “Eu”, pode ser compreendido como engenhosa defesa psíquica em constante tentativa adaptativa do Homem à seu Mundo.
Quanto mais complexo o Homem vai moldando o Mundo, mais se exige da função defensiva da representação – talvez, o mais fantástico instrumento de “evolução” na “luta pela sobrevivência” desta espécie – O Humano.

O “golpe psicanalítico” no amor-próprio do Homem foi mais fundo do que o próprio Freud poderia imaginar: atingiu diretamente o “Eu”, em um nocaute revelador de que “Eu” é apenas mais uma representação dentre tantas possíveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DARWIN, C. (s.d.) A Origem Das Espécies E A Seleção Natural. 5ª Edição. São Paulo: Hemus.
FREUD, S. (1913) Totem E Tabu in Edição Standard Brasileira Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud (vol. XIII). 2ª Edição. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
FREUD, S. (1917) Uma Dificuldade No Caminho Da Psicanálise in Edição Standard Brasileira Das Obras Psicológicas Completas De Sigmund Freud (vol. XVII). Rio de Janeiro: Imago, 1976.
HERRMANN, F. (1992) O Divã A Passeio – À Procura Da Psicanálise Onde Não Parece Estar. São Paulo: Brasiliense.
RITVO, L. B. (1992) A Influência De Darwin Sobre Freud – Um Conto De Duas Ciências. Rio de Janeiro: Imago.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Rua Tuiuti, 2530 (cj.116) – Tatuapé – São Paulo, SP – CEP 03307-000
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