12 de dezembro de 2010

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ANNA O.



Anna O., pseudônimo de Bertha Pappenheim (1859-1936), paciente de Josef Breuer, que publicou seu estudo de caso no "Estudos sobre a Histeria” (1895), escrito em colaboração com Sigmund Freud, é sem dúvida um dos principais casos clínicos da Psicanálise, por ser considerado por muitos como marco inicial do que mais tarde haveria de se tornar o tratamento psicanalítico.

Bertha Pappenheim nasceu em Viena, em 27 de fevereiro de 1859, falecendo em Iselberg, na Alemanha, em 28 de maio de 1936. Foi uma líder do Movimento Feminista, assistente social e escritora judia austro-alemã.

De personalidade sensível, por volta dos vinte anos de idade, Bertha sofreu muito com a longa doença terminal do pai que, juntamente com as tensões da infância, foram as responsáveis pelo desencadear de seu quadro de Histeria, marcado por sintomas como depressão, nervosismo, tendência ao suicídio, paralisia, perturbações visuais, contraturas musculares e outros, e que a deixavam praticamente inválida. Foi então, levada ao médico Josef Breuer, pertencente à elite de cientistas vienenses da época, sendo por ele tratada de 1880 a 1882.
Inicialmente, Bertha foi submetida a sessões de hipnose, mas no decorrer do tratamento, o médico descobriu que dialogando com ela sobre a sua vida, podia levá-la a relatar traumas de sua infância, do mesmo modo que sob hipnose, e que as recordações faziam que ela se sentisse melhor e que seus sintomas desaparecessem. A própria Bertha chamou o tratamento de "cura pela fala". Muitas pessoas acreditam que Breuer posteriormente a encaminhou para Freud, o que não é verdade.
Bertha Pappenheim teve um papel muito importante no desenvolvimento do método que Breuer denominou catarsis, e que viria ser o fundamento do futuro tratamento psicanalítico.
Após várias internações, em decorrência do agravamento dos sintomas da doença, e em razão da dependência em morfina, começou a dedicar-se ao trabalho social em prol da dignidade da mulher judia, o que, aparentemente, contribuiu para a sua recuperação.

Em 1902, Bertha fundou e dirigiu por 29 anos a Weibliche Fürsorge (Assistência da Mulher), uma Instituição destinada a colocar órfãs em lares adotivos, a educar mães sobre o cuidado com seus bebês, e a dar orientação vocacional e oportunidades de emprego para moças. Foi o primeiro abrigo e lar coletivo para mães solteiras e seus filhos, para crianças e meninas retiradas da prostituição.
Em 1904, fundou a "Liga das Mulheres Judias", a primeira organização judaica a lutar pelos direitos civis e religiosos da mulher judia, da qual foi a Presidente por vinte anos.
Em 1890, publicou o livro de contos “Na loja De Segunda Mão”, sob o pseudônimo de Paul Berthold. Em 1899 escreveu a peça de teatro “Direitos Da Mulher”, e traduziu para o alemão o livro da feminista Mary Wollstonecrafts, “A Vindication of the Rights of Woman”.
Uma de suas publicações mais conhecidas é “Sisyphus-Arbeit” (O trabalho de Sísifo), em alusão ao trabalho incansável do herói grego Sísifo, que persistentemente empurrava uma pedra para o alto da montanha, quantas vezes essa voltasse a rolar montanha abaixo.
Em 1910, Bertha publicou “O Problema Judeu Na Galícia” e “Sobre A Condição Da População Judia Na Galícia”, sobre a relação entre o baixo nível de educação e a pobreza entre as meninas judias. No mesmo ano traduziu as “Memórias de Gluekl von Hameln” (a primeira autobiografia de uma mulher na Alemanha). Em 1913, publicou a peça teatral “Momentos Trágicos”.
Após deixar a presidência da Liga das Mulheres, Bertha traduziu o “Maaseh Buch”, uma coleção de narrativas judaicas tradicionais; o “Ze'enah u-Re'enah”, uma bíblia seiscentista da mulher, de Isaac Ashkenazi; os cinco “Megillot”, que são o Livro de Ester, o Livro de Rute, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes e o Lamentações; e o “Haftarot”, uma seleção de textos dos profetas, lidos em ocasiões especiais.

Inteligente e atraente, Anna O. apresentava sintomas profundos de histeria, incluindo paralisia, perda de memória, deteriorização mental, náuseas e distúrbios visuais e orais. Os primeiros sintomas apareceram quando ela cuidava do pai, que sempre a mimara, e que estava morrendo.
Breuer começou o tratamento de Anna O. usando a hipnose. Ele pensava que, enquanto estivesse hipnotizada, ela se lembraria de experiências específicas que pudessem ter originado alguns dos sintomas. Ao falar sobe as experiências durante a hipnose, frequentemente ela se sentia aliviada dos sintomas. Durante mais de um ano, Breuer atendeu Anna O. diariamente. Ela relatava os incidentes perturbadores ocorridos durante o dia e, depois de falar, algumas vezes alegava sentir-se aliviada dos sintomas. Ela se referia as conversas como uma “limpeza de chaminé”, o que chamou de “cura pela palavra”. Conforme prosseguiam as sessões, Breuer percebia (assim disse ele a Freud) que os incidentes de que Anna O. se lembrava estavam relacionados com pensamentos ou eventos que ela repudiava. Revivendo as experiências perturbadoras durante a sessão de hipnose, os sintomas eram reduzidos ou eliminados.
A esposa de Breuer começou a ficar com ciúmes da relação emocional muito próxima criada entre os dois. A jovem Anna O. exibia, o que se tornou teorizado posteriormente por Freud, uma “transferência” para Breuer. Em outras palavras, ela estava transferindo o amor que sentia pelo pai para o terapeuta. Essa transferência fora incentivada pela semelhança física entre o pai e Breuer. Além disso, talvez Breuer também estivesse nutrindo uma ligação emocional com a paciente. Breuer acabou sentindo-se ameaçado com a situação, e disse a Anna O. que não podia mais tratar dela. Dali a poucas horas, Anna O. foi acometida de dores histéricas comparáveis às de um parto. Breuer acabou com essa condição usando a hipnose. Assim, reza a lenda, que ele teria viajado com a esposa para Veneza em uma espécie de segunda lua-de-mel.
Análises posteriores dos registros históricos revelaram que Anna O. não foi curada com os tratamentos catárticos de Breuer. Depois que ele deixou de vê-la, foi internada e passava horas diante da foto do pai, dizendo que ia visitar seu túmulo. Ela teve alucinações e convulsões, neuralgia facial e dificuldades recorrentes na fala e também se viciou em morfina (Breuer prescrevera a droga para aliviar a dor facial).
Breuer disse a Freud que Bertha enlouqueceria, acreditando que ela sofreria até morrer. Não se sabe bem ao certo como Bertha Pappenheim superou os problemas emocionais, mas ela acabou se tornando assistente social e feminista, apoiando a educação feminina. Publicou vários contos, escreveu uma peça sobre os direitos da mulher e acabou sendo homenageada com a criação de um selo postal alemão.

O relato de Breuer acerca do caso de Anna O. foi importante para o desenvolvimento da Psicanálise, por ter apresentado a Freud o Método Catártico, a chamada cura por meio da conversa, que mais tarde viria a figurar com destaque em seus trabalhos.

FONTES: