29 de dezembro de 2010

SEU ZÉ FALECEU (Mariana Giorgion)


Sábado Seu Zé faleceu. Uma barra muito pesada para toda a família. Menos de um mês antes, havia falecido o Zé, seu filho, quarenta e tantos anos, de um câncer fulminante. Loucura. Choque. Muita dor.
Mas o enterro do Zé pai foi sereno, Dona Neuza, sua eterna companheira, segurando a barra. A Cidinha parecia que, depois disso tudo, queria voar um pouco, sentir o vento no rosto. Queria até andar de moto. A Rosanita também perdeu muito, mas parecia querer agora ganhar a vida, olhar coisas bonitas e amar, porque ela é muito amada e ama muito, muita gente. A Fátima eu não sei... Não conversamos muito, mas ela me pareceu tranquila, bem amparada. E por fim a Rosangela, expressando o susto, elaborando esse evento sinistro que é o morrer, e que ela acompanhou de muito perto, no pai e no irmão, tentando talvez apreender o exato momento em que se deixa de ser.

Seu Zé foi figura presente na minha vida. Nem sei expressar como, de que forma, ou na forma cronológica que costumamos contar. Eu sou meio assim, lacunar na minha história. A psicanálise já viu e já sabe como me ajudar a reescrever. Mas ele está aqui, de alguma forma, me fazendo pensar, e lembrar. Quando eu era adolescente ele era o “Dono das Chaves”. Era responsável pela Manutenção, pela organização do patrimônio do Jornal, e ele podia abrir portas que eu queria muito que estivessem abertas, porque era um mundo de informações, curiosidades, conhecimento. Eu queria aprender a operar os computadores e programas. Aquilo era mágico. Você fazia a programação no Página Certa (programa de computação gráfica), gravava num disquete, levava para a fotoreveladora, que chamávamos de Geppeto - acho que era o nome do fabricante, sei lá. Dentro dela ia uma caixinha preta, onde ficava o papel filme. Depois ia prá sala de revelação e na sua frente surgiam as tiras de texto, as fotos. Depois você recortava com estilete e montava a página, o Jornal. Seu Luís, que também já perdemos, fazia o fotolito e depois ia prá rotativa. Era fantástico e eu queria saber fazer aquilo tudo. Mas não era fácil. O material era caro, os equipamentos mais caros ainda, e muito caros também ao pessoal do Partido, que fazia um esforço imenso prá comprar e manter tudo aquilo. A responsabilidade do Seu Zé era grande e ele não achava muito certo deixar criança mexer. Mas, às vezes, ele ficava em dúvida e as portas se abriam.
Seu Zé era uma pessoa profundamente original, estilosa mesmo. Era fácil identificar ele no seu jeito de viver. Num dia de bom humor, estava ele tentando me justificar por que eu não devia ficar mexendo e desregulando as máquinas. Ele me dizia que aquela era a tarefa dele: prezar pelo cuidado e conservação. E me disse que fazendo isso bem feito, que era o que ele sabia fazer, ele dava uma imensa contribuição para o Partido, para a Revolução. Dizia que não sabia fazer o Jornal, ou as coisas grandiosas que os outros companheiros faziam, especialmente o Cláudio. Ele adorava o Cláudio. Mas ele sabia cuidar do patrimônio e manutenção. Contou-me que desse jeito ele fez parte da história do Brasil. Disse-me que na década de 40 ele era técnico de manutenção de balanças da Fillizola e que foi chamado para regular a balança do presidente Getúlio Vargas. Parece que esse foi um momento muito especial para ele. Disse que chegou lá, acho que no gabinete, ou na casa do Presidente (lacunas...) e foi recebido pessoalmente por Getúlio, que o acompanhou até o banheiro e apontou para a balança. Seu Zé regulou a balança o melhor que pôde e sentiu que, contribuindo com Getúlio, estava também contribuindo com toda sua Obra.
Ele encontrou seu próprio jeito de viver, de se admirar e de se orgulhar. Prá outros, talvez não fosse a melhor forma. Sempre há possibilidades de se fazer diferente, mas era o jeito dele e todos nós que convivemos com ele sabíamos identificar e – tomara - valorizar.

E neste momento me reencontro com minha própria vida, ou neste momento muito próprio de viver. O estilo, a originalidade, a marca, o traço, são questões que andam me fisgando.

Recentemente reli o conto de Padmini, no “Divã a Passeio”, e a marca de Fabio Herrmann salta à vista. Do jeito que ele descreve, a fórmula do fazer analítico não parece, a primeira vista, tão complicada. O diferencial está no olhar. Se encontrarmos o sentido, o movimento psíquico, as expressões de caráter inconsciente, elaboramos uma tese provisória sobre esse movimento e essa tese é, e só pode ser, profundamente original, porque é única - diz dessa fotografia instantânea. O mais curioso é que, imediatamente após a sua apreensão, essa fotografia vai se desfazer e novos sentidos poderão advir. Depois é só dar uma consultada, prá ver se outros, como nós, também andam buscando estes sentidos e comparar as descobertas e hipóteses.
A primeira empreitada é conseguir este olhar. Se armar das ferramentas certas, e se desprender delas no momento certo, prá apreender a fotografia. Igualzinho na Geppeto e no laboratório: como mágica a imagem se faz. Mas, se desregular, se errar o tempo, a química, a iluminação, queima o filme e a imagem se perde. Você até fica lá, com o papel filme borrado, ou desfocado, todo preto ou amarelo. Você até pode dizer que essa é a imagem apreendida. Mas é conversa fiada, o original se perdeu. O consolo da Geppeto é que está tudo no disquete. Na análise, vamos ter que esperar a repetição.
Outro problema sério, e Freud nos disse que temos que enfrentá-lo, é expressar este olhar através de texto, de teoria, de palavras. Ando muito tentando fazer isso, mas me deparo com outra questão: minhas palavras estão se dirigindo aos outros. Fico extremamente preocupada com esses tais outros. Como pensam, como sentem, como vão compreender; e pior, como vão avaliar minhas palavras. Penso que talvez fosse melhor escrever na língua deles, com palavras parecidas, na esperança de que sejam mais piedosos com meu rascunho. Aliás, quando falo em outros, penso logo em Lacan. Ele falou bastante do grande Outro e eu ainda me perco nos sentidos do Outro dele, que também, profundamente estiloso, tinha um jeito muito próprio de expressar seus pensamentos. Mas alguma coisa me diz que Lacan estava também falando desses meus outros que, no momento, me parecem bem grandes.
O resultado é caca. Ao focar em quem vai me ler, desfoco de quem dá-se a ver. Perco o sentido analítico e a possibilidade de desvelar sentidos próprios que, aliás, não são meus. Pensando por este lado, talvez possa até me consolar. Não sou eu quem tem de dizer, essa responsabilidade não é minha. Eu preciso é estar livre o suficiente para deixar advir os sentidos de quem fala. E, falando assim, parece até fácil, se libertar dos sentidos dos seus grandes outros, inclusive dos de Lacan, prá deixar surgir os sentidos do foco de seu olhar analítico.

Extremamente difícil. Mas aí me lembro do Seu Zé. Me parece que de alguma forma ele conseguiu. Seu olhar singular, seu foco no trabalho, na originalidade e importância de sua contribuição, permitiram que ele cumprisse sua tarefa e, por esta contribuição, estávamos todos lá, prestando nossa justa homenagem a esse velho guerreiro.

MARIANA GIORGION é psicanalista.
Rua Cardeal Arcoverde, 833 – conj. 1 – Pinheiros – São Paulo, SP
Tel.: (11) 4111.6841