22 de dezembro de 2011

NOSFERATU: A SOMBRA DO DESEJO (Diego Tiscar)


"As terríveis experiências de vida fazem-nos pensar se o seu protagonista não é, ele mesmo, algo de terrível." (Nietzsche)
 
Possuo duas grandes paixões nesta vida: o Cinema e a Psicanálise. Como toda paixão, estas são ciumentas, disputam pela titularidade, se digladiam para ver quem assume o destaque em meu texto. Psicanálise e Cinema ou Cinema e Psicanálise? Talvez tenha sido este o motivo pela demora em escrever uma crítica psicanalítica/cinematográfica. Talvez esteja sendo simplista comigo mesmo, evitando um mergulho direto no vórtice. Quem é o autor deste artigo? O analista? O cinéfilo? O escritor? Ou aquele que se acredita um escritor?
Esta é a grande dúvida do elenco da filmagem de Nosferatu: na fantasia "A Sombra do Vampiro" quem é o protagonista do filme? Quem interpretará o Conde Orlock? Dúvida que rapidamente torna-se nossa, do público, do ator. Vampiro? Drácula? Uma pobre criatura solitária ou um assassino cruel?
Este brilhante suspense com doses dramáticas nos conta uma versão do absurdo sobre a filmagem de Nosferatu. Por não ter conseguido comprar os direitos do romance "Drácula", o diretor F. W. Murnau (John Malkovich) modifica o nome das personagens e trás a trama para Berlim. Seu grande trunfo, no entanto, é o misterioso ator Max Schreck (Willem Dafoe), um vampiro, cujo pagamento será a eternidade e o pescoço da protagonista.

Já possuímos três grandes temas para construção deste Ensaio:

a) O filme versa sobre o Absurdo, o Irreal, um vampiro fingindo ser um ator que interpreta um vampiro. Temática digna do ultimo filme dos Looney Tunes, dirigido por Joe Dante, onde um agente secreto finge ser um ator que interpreta um agente secreto nos cinemas para ocultar sua identidade como agente secreto. Qual a diferença destas situações? Schreck, cujo sobrenome em alemão significa susto, é repugnante, sua presença em cena incomoda aliando-se ao ridículo da situação, existe apenas o sombrio, a atração pelas trevas. Tal sensação mostra-se idêntica nos filmes "Nosferatu" (1922) e "A Sombra do Vampiro" (2000).

b) É fato verídico que os produtores de Nosferatu não conseguiram comprar os direitos do romance "Drácula" e modificaram os nomes das personagens. Como consequência, a viúva de Stoker mandou queimar as cópias do filme, alegando plágio. O brilhante diretor alemão fugiu, levando consigo a única cópia. A pergunta a ser feita é: Orlock é Drácula? Assisti ao filme de 1922, li o romance e posso dizer, sem nenhuma dúvida, são personagens diferentes. Mas não é a esta identificação que estou me referindo. Muda-se o nome, muda-se a personagem, muda-se o indivíduo.
Um ditado americano diz que se rosas possuíssem outro nome continuariam sendo rosas. Não, não seriam rosas: estas frágeis flores de vida curta, cobertas por espinhos, tingidas com a cor do sangue, perderiam seu correlato com o amor caso mudassem de nome. Quem é esta personagem criada para "Nosferatu"? É aquele que acredita ser um vampiro, mas sabe não ser Drácula - não existe nada antes, apenas a sombra de Drácula que o guia na sua construção. Conde Orlock é o extremo oposto do vampiro criado por Bram Stoker.

c) Por que um ser eterno desejaria a eternidade? Durante o filme, o vampiro comenta o romance "Drácula" dizendo que o livro é triste - o Conde dos Cárpatos passou 400 anos sem criados, na mais completa solidão. O momento mais triste, segundo Nosferatu, teria sido quando este foi flagrado por seu "hospede" pondo a mesa. Nosferatu se questiona: Drácula se lembraria de seus hábitos humanos? Sim, com eles viria o passado glorioso, a decadência, por fim o ostracismo - destino de todo ator que brilhou na juventude e perdeu os aplausos na velhice.

Nosferatu se diferencia de Drácula em seus servos. Orlock não possui a capacidade de gerar noivas como Drácula, ele não pode criar outros vampiros, ele nem mesmo se lembra de como se tornou vampiro, dizendo apenas ter passado a noite com uma mulher por quem se apaixonou - esta nunca mais foi vista por ele, tornando-se uma pintura que se perde no tempo. O que justifica o outro argumento de Murnau: honrar o contrato do vampiro entregando a este Greta, a estrela da filmagem. Finalmente me aproximo do verdadeiro objetivo desta crítica psicanalítica.
Nosferatu é ansioso. Este ser poderoso, terrível, que faz homens tremerem e povoados esconderem-se por detrás de cruzes, mostra-se aflito. Sua presença perante Greta muda, sua postura aristocrática/animalesca/intimidadora mostra-se excitada, repleta de expectativas. Seus tiques de roedor dos esgotos o controlam - Nosferatu admira sua presa. A impressão que temos é que Dafoe criou sua personagem unicamente para a cena em que este morde o pescoço de Greta - ele ordena ao diretor que empunhe sua câmera e avança sobre a garota com luxúria, sua mão explora o seio da atriz extasiada pelo prazer de ser consumida em sangue e satisfação, cria-se desta forma uma das cenas mais eróticas do cinema.
Seria "A Sombra do Vampiro" um filme de terror? Não, ele é um filme sobre a destrutividade, sobre o incômodo, sobre a angústia, sobre a solidão. É um filme sobre o desejo, mas a cima de tudo um filme sobre a necessidade da frustração do desejo, sim, "A Sombra do Vampiro" é um filme sobre este terror - "Só há duas tragédias na vida: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é consegui-lo" (Oscar Wilde).
Nosferatu é o homem desejante, reflexo do homem comum, ridículo em sua metalinguagem que se procura no outro, e asqueroso na intensidade do que se deseja. "Das formas de tal projeto de união, a aglutinação total seria a mais clara testemunha deste anseio. De dois faz-se um (...) parece que se deseja o outro aniquilado em sua individualidade" [1]. A descrição do desejo dada por Herrmann é expressa na figura do Nosferatu de Dafoe - seu trincar de dedos, o arranhar de unhas, os tiques nervosos revelam a ansiedade, os assassinatos dos membros da equipe são um movimento masturbatório, para aliviar a ansiedade até o ato final, a cena de sua morte, onde finalmente poderá desfrutar-se de Greta.
Durante a filmagem Greta olha para o espelho e não vê o reflexo do vampiro, ela entra em pânico, precisando ser sedada para dar sequência ao filme e receber as presas do príncipe das trevas. Ao ser atacada ela não existe, resta apenas seu corpo a ser desfrutado com total volúpia. Herrmann nos diz que a pulsão sádica torna-se substituto da elaboração do outro durante o ATO sexual - a "lacuna insuportável entre sujeito e objeto" é anulada [1]. Fico parado na frente do computador, lendo estas palavras, penso em como poderia discordar. Não acho que sadismo seja o termo correto.
Se fosse possível criar um ambiente artificial em laboratório onde se pudesse saciar o desejo em sua forma mais "pura", apenas para fins de observação, esta seria a realização mais brutal e sanguinolenta que se possa ter consciência. Os cientistas envolvidos certamente perderiam sua humanidade antes mesmo do término do experimento, recorrendo ao canibalismo. O apocalipse bíblico, a chuva de fogo e enxofre, as torturas no inferno, a figura de Plutão devorando seus filhos não se aproximariam do ATO da satisfação do desejo. Sadismo é uma palavra muito inocente para descrever tal gozo.
Uma cena invade meus pensamentos, a de um homem devorando sua própria mão com volúpia - o prazer que leva à morte - mesmo assim não nos aproximamos do que é o desejo. A simples possibilidade de imaginar seria suficiente para nos destruir. Mas como podemos ver Nosferatu se alimentando de maneira tão sensual? Mesmo sabendo que ele representa o humano, não o sentimos como humano.
Ao ser atacada Greta exprime prazer, não existe medo, rancor ou desespero em seus olhos, apenas satisfação em ser destruída pelo monstro - mais humano do que nunca - ao se afastar da moça deitada na cama, fica nítida sua linguagem pelo olhar: "volte, não pare". Por isto ele para e ela deseja. O diretor continua filmando, ele dá a ordem para o Vampiro. Mas quem é o vampiro?
Lembrem-se, Nosferatu exprime a união do asco e do ridículo, ele não é sujeito é objeto - o asco é o reconhecimento das vísceras, é o que vem de dentro; o ridículo é o extremo oposto, que se afasta do humano [1] dando a Nosferatu suas orelhas pontiagudas, unhas compridas, expressão de roedor. Ele existe para satisfazer nosso desejo. Murnau filma Nosferatu invadindo o corpo de Greta apenas para o nosso prazer.
Preparo-me para terminar este artigo... Já passam das 00h50m e estou preocupado, temo romper o frágil equilibro existente na composição do fascínio por Nosferatu. Temor infundado, eu sei, infundado pela necessidade de impedir a satisfação deste desejo e manter nossa humanidade. Nosferatu também é um mecanismo de defesa.
Concluindo: "A Sombra do Vampiro", filme de 2000, é uma película deliciosa para aqueles que se enteiam pela psicanálise, e altamente recomendado para quem aprecia uma boa produção cinematográfica. Aconselho a quem quer que esteja lendo este artigo que procure pelo filme em sua locadora mais próxima, não para fins psicanalíticos, mas para uma boa noite cinematográfica. Lembre-se de apagar as luzes.

“A Sombra do Vampiro”
Estados Unidos, Luxemburgo, Reino Unido (2000)
Direção: E. Elias Merhige

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
[1] HERRMANN, F. (1991) Andaimes do real I: O método da psicanálise. 2ª edição. São Paulo: Brasiliense.

DIEGO TISCAR é psicanalista.
Email: dtiascar@gmail.com

5 de dezembro de 2011

A FRESTA (Marcos InHauser Soriano)



O que é o Amor? – Um conto simples, dito de muitas maneiras.
(ÉMILE ZOLA)


Ela se viu assim, de repente, a surgir perambulando pela rua, sozinha, perdida. Uma rua sozinha, uma rua perdida... Uma, dentre tantas delas, a perambular – ato de caminhar sem destino certo. Naquele momento não havia o como pensar, havia apenas um corpo a perambular pela rua sozinha.
Ouvi uma vez, de um velho amigo, que em certa medida o autor se funde com o texto. Não sei bem ao certo se este texto se faz psicanalítico, mas sei que é disto que se trata: de uma fusão, de uma sala de análise, de uma história contada desta maneira. A Sala de Análise comparece onde se presentifica o Analista.

Pra se viver do amor (...) Há que penar no amor (...) Há que apanhar e sangrar e suar (...) E é um veneno medonho (...) É por isso que se há de entender (...) O amor é sacrifício, o amor é sacerdócio. Amar é iluminar a dor (...).” (“Viver do Amor”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

Ela, tempos atrás, por opção, abdicou-se de tantas delas para entregar-se ao Amor, em sua visceralidade, posto que verdadeiramente. Por que duvidar? Há muita legitimidade nesta entrega – por mais que insistamos em não compreender e, portanto, tentar julgar/classificar. Às vezes me questiono qual o lugar do analista em assuntos tão legítimos...
Ela, em um amor incondicional, em busca do Falo, do Pai, talvez... Amor reparador de uma família fragmentada, talvez... Talvez simplesmente amor... Talvez tudo junto, misturado – vórtice.

Histórias de Amor são histórias humanas. Histórias humanas vão, incontestavelmente, ao encontro de um destino – poder-se-ia dizer do Destino. A criatura humana nasce, e nascendo, vai ao encontro da morte – velha ideia freudiana.
Esta história, a história dela, dentre tantas outras, não poderia ser diferente. Não escolhemos a maneira com a qual nos encontraremos com o Destino. O amor dela não escolheu, ela tampouco. No amor dela, o Destino se fez no corpo – um tumor maligno, avassalador, Thánatos a invadir seu projeto de felicidade, sua fantasia reparadora.
Ela virou Maria, tentando aproximar-se do filho crucificado. O amor condicionou-se ao amor de mãe. Amor de mãe é incompreendido em sua dimensão vertical, de profundidade, de entrega, de anulação.

Oh, pedaço de mim. Oh, metade arrancada de mim. Leva o vulto teu. Que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.” (“Pedaço De Mim”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

No encontro com o Destino, ela perdeu o Fim – por cansaço, cochilou na hora em que seu amor se foi. Ela não consegue mais dormir. Um cochilo de tirar o sono dela, para o resto da vida desta. Um cochilo que reinveste o não sepultamento do Objeto amado, pois é de Amor que se trata aqui.

Ela pergunta se a entendo? Entendo a perda, o luto, o precipício melancólico da falta de sentido dela, a frustração de um sonho interrompido.
Ela, segurando firme minha mão, diz do dormir que vai se fazendo assim, com um toque humano, um cheiro humano, um som humano, um objeto transicional para uma nova ela possível. Sempre há de se ter outra possível...

Na solda blindada entre Eu e Mundo há uma fresta – Aquiles, apesar do escudo perfeito, esqueceu-se do calcanhar. Nesta fresta a sala de análise faz sua fina cirurgia, criando um rodopio de representações possíveis, interpretando a hierarquia de possíveis colagens Eu/Mundo Meu. Para viver é necessária tanto a blindagem como a fresta. Caso contrário, não teríamos o desfecho da Ilíada, por exemplo.

Outro dia ela me viu voltando de meu habitual cafezinho, pois que meu cafezinho é assim: habitual blindagem/fresta. Ela acreditava em minha figura ali, retida na sala de análise, figura sentada eternamente na poltrona a pensar – Eu/Poltrona pensante. Eis que surge a fresta para ela em meu cafezinho. Minha mão, um toque humano, um cheiro de café, um som de café para além da poltrona, um objeto a transitar fora da sala de análise.

Agora ela é um pouco outra. Faz careta no circo. Representa outras elas no palco, apesar de conservar a cicatriz na carne, na pele – antes de qualquer outra coisa, o Eu é pele; prega outra velha ideia freudiana.
Agora faz por ela, por esta que vai surgindo suspeitosa, caminhando para a dúvida – que tem por Destino a convicção: Outro amor?!? Por que não?!? Agora não... Ela está bem assim.

Oh, pedaço de mim. Oh, metade adorada de mim. Lava os olhos meus. Que a saudade é o pior castigo, e eu não quero levar comigo a mortalha do amor. Adeus.” (“Pedaço De Mim”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
E-mail: misoriano@terra.com.br
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com

2 de dezembro de 2011

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SRA. EMMY VON N.


SRA. EMMY VON N., pseudônimo de FANNY MOSER, paciente de Freud apresentada nos “Estudos sobre a Histeria” de 1985 - a paciente na qual Freud disse ter utilizado pela primeira vez o método “catártico”.
Nascida Fanny von Sulzer Wart, a 29 de julho de 1848 na antiga Livônia, em uma nobre e antiga família de Winterthur, com a idade de 23 anos casou-se com Heinrich Moser, um riquíssimo homem de negócios, quarenta anos mais velho e já pai de dois filhos.
Com a morte do marido, Fanny herdou toda a sua fortuna, sendo inclusive acusada de envenená-Io. A suspeita de assassinato pesaria tão forte sobre o seu destino, que ela nunca conseguiria realizar o seu desejo mais caro: ser recebida nos salões da aristocracia européia.
Levou uma vida errante, teve amantes entre os seus médicos, e acabou apaixonando-se por um jovem que se apoderou de boa parte da fortuna. Fixou-se enfim em Au, perto de Zurique, em um “castelo”, onde faleceu a 02 de abril de 1925.
Suas duas filhas foram marcadas, cada uma à sua maneira, pela neurose materna: a mais velha faria uma brilhante carreira de zoóloga, antes de publicar em 1935 uma obra sobre a parapsicologia, prefaciada por Jung. A mais nova, revoltada contra os valores da classe dominante, da qual ela era um puro produto, se tornaria militante comunista, fundaria em 1928 uma creche em Ivanova (URSS) e publicaria em 1941 um livro de histórias de animais para crianças.
Os animais tinham desempenhado um grande papel na patologia materna. Com efeito, em 1889, Freud decidira tratar Fanny Moser, que manifestava uma grave fobia por certos animais. O tratamento durou seis semanas. Freud lhe fez massagens, prescreveu-lhe banhos e procurou, através do sono artificial, da hipnose e do diálogo, “libertá-Ia” das suas emoções dolorosas. Afirmou que a tinha curado. A 1º de maio de 1889, em uma crise de pânico, ela lhe deu ordem de afastar-se: “Não se mexa! Não diga nada! Não me toque!”. A paciente também fez uma observação cujas consequências práticas Freud não deixou de observar: ela pediu para ele parar de interrompê-la com perguntas e para permitir que ela falasse livremente.
Na história oficial das origens da Psicanálise, atribuiu-se a Emmy von N. a invenção da cena psicanalítica, como se atribuía a Anna O. a invenção do tratamento psicanalítico (por “limpeza de chaminé”). Emmy “fabricou”, dizia-se, as interdições necessárias a uma nova técnica de tratamento, fundada sobre o afastamento do olhar. Depois dela, o médico iria tornar-se psicanalista e instalar-se fora da vista do doente, renunciando a tocá-Io e obrigando-se a escutá-lo. Apesar do mito, Emmy nunca foi curada de sua neurose, nem por Freud, nem por seus outros médicos.
Trabalhos recentes tendem a questionar os diferentes diagnósticos de Histeria, de Melancolia, e até de Esquizofrenia, feitos por Freud e seus sucessores, e consideram que Fanny Moser sofria da Doença de Gilles de Ia Tourette - debate onde reencontramos a antiga querela que opôs Freud aos partidários do organicismo.
O tratamento desenvolvido por Freud com a Sra. Emmy von N., possui para a história da psicanálise um valor especial, pois através dele podemos perceber as dificuldades encontradas por Freud em utilizar a hipnose e a sugestão como instrumentos terapêuticos, assim como encontramos a primeira menção à utilização da regra da livre associação, no momento em que a própria paciente pede ao médico que não a interrompa com tantas perguntas e que a deixe falar livremente sobre suas queixas. O atendimento se desenrolou por aproximadamente seis semanas, durante as quais Freud visitou a paciente todos os dias, duas vezes ao dia. Segundo o seu relato, a Sra. von N., indicada por Breuer, era uma mulher de aproximadamente 40 anos, histérica, que sofria de problemas nervosos. Freud indicou um tratamento hipnótico, acompanhado por banhos quentes e massagens corporais, permanecendo a paciente internada e, portanto, afastada da família e da realidade social. O trabalho terapêutico visava à eliminação dos sintomas de forma a permitir que a paciente retomasse suas atividades junto à família e à empresa que gerenciava. E, embora tenha encontrado um êxito apenas parcial, pois apesar de enfraquecidos em sua intensidade, os sintomas histéricos se tornaram recorrentes, Freud considerou o tratamento bastante satisfatório tecendo inúmeras considerações acerca dos mecanismos psíquicos dos fenômenos histéricos em geral. No curso da exposição do caso, Freud faz inúmeras referências à moralidade repressora vigente à época, na qual imputa a responsabilidade pelos problemas neuróticos desenvolvidos pela paciente. Freud é categórico em ressaltar as qualidades intelectuais e morais da paciente, afirmando que ela possui um caráter impecável e desfruta de um modo de vida bem orientado segundo as regras sociais: preocupa-se sobremaneira com a educação das filhas, consegue gerir a empresa da família com sabedoria, apresenta maneiras requintadas e uma profunda humildade de espírito.
Podemos perceber nessas indicações o referencial paradigmático da moralidade de uma época na qual se reservava um lugar e uma expectativa específicos para as mulheres: moralidade estrita, sexualidade reprimida, cordialidade, maternidade e humildade de espírito como atributos naturais da feminilidade e cuidado com a educação familiar. Ou seja, encontramos nesses referenciais, os pilares estruturais da sociedade burguesa: regras morais rígidas, sexualidade reprimida, valorização do núcleo familiar e individualidade.
Em 01 de maio de 1889, durante sua primeira visita, Freud descreveu seu encontro com Emmy: “Esta senhora, quando vi pela primeira vez, estava deitada em um sofá, com a cabeça apoiada em uma almofada de couro. Ela ainda parecia jovem e tinha características finas, cheia de personalidade. Seu rosto tinha uma expressão tensa e dolorosa, suas pálpebras estavam reunidas e os seus olhos baixos. Falou em voz baixa como se com dificuldade, e seu discurso era, de tempo em tempo, sujeito a interrupções espásticas, no valor de um gaguejo”. Ele também observou o som de “clique” que ela fazia com a língua, quando chateada.
O tratamento era consistente com a prática habitual, que consistia em estadia em uma clínica, separada de suas duas filhas (com quem ela não se dava bem). Freud prescrevia banhos mornos e massagens duas vezes por dia. A paciente foi completamente acessível à hipnose e, neste estado, contou a origem dos medos delirantes e alucinações visuais (ratos, sapos) de que ela sofria, refazendo-os a sua infância.
Em janeiro 1890 Emmy teve uma recaída. Ela foi ver Breuer, queixando-se de distúrbios do sistema nervoso. Ela estava tão agitada que teve de ser internada em um sanatório, fugindo com a ajuda de uma amiga. Sem dúvida, Emmy passou a representar um dos casos referidos por Freud para explicar o abandono da hipnose.
Em maio de 1890, o aniversário de sua primeira terapia, ela voltou para ver Freud - uma terapia adicional que durou oito semanas, até julho. Ela se sentiu melhor, mas sofria de confusão mental, “tempestades na cabeça”, insônia, e os “cliques” e gagueira tinha reaparecido. Freud analisou a origem do retorno destes sintomas e novamente conseguiu eliminá-los.
Na primavera de 1891, Freud viu Emmy von N. em sua casa, onde permaneceu por vários dias para ajudar a resolver os problemas que estava tendo com sua filha mais velha. Ela estava se sentindo melhor, mas Freud retomou o tratamento para eliminar uma fobia de viajar de trem.
Em um adendo que data de 1924, Freud relata que, vários anos após esta última visita, ele conheceu um médico com quem ela havia se comportado de forma idêntica: fácil de hipnotizar no início, em seguida, irritável e sujeita a recaídas. Freud acrescenta que, por volta de 1920, sua filha mais velha tinha escrito para ele, solicitando um relatório – Fanny Moser queria iniciar um processo contra este “tirano cruel” que tinha afugentado suas duas filhas.

13 de setembro de 2011

A ANGÚSTIA É LÍQUIDA (Mariana Giorgion)



A angústia, pra mim, é líquida,
Mata de sufoco e engasgo,
Como a água.
A angústia empurra, exige, impera.
Desenha o desejo que eu não posso aceitar.
Desespera, e, mesmo me calando,
Me sujeitando,
Me enganando,
Não cessa.
E me contorço,
Me rasgo,
Me quebro
Na busca de parar o rio.
E descubro que,
Contra a maré do âmago,
Ninguém pode.
E me entrego.

MARIANA GIORGION é psicanalista
Email: marianacpg@terra.com.br

12 de setembro de 2011

O PÉ DE INFÂNCIA (Juan Salazar)


Estive ausente: conjuntivite. No reencontro com Josué ele me recebe com um presente, um canudo envolto num papel qualquer. Trata-se dum calendário evangélico. Em seu cabeçalho, letras garrafais anunciam:
IMPRESSIONANTE! O SENHOR JESUS OPERA SINAIS E MARAVILHAS: FAZ PARALÍTICO ANDAR, MUDO FALAR, CEGO VER, SURDO OUVIR E TODOS OS TIPOS DE MILAGRE.
Jesus, o onipresente de muitas de nossas andanças. Igreja Universal, Deus é amor. Quando você vai aceitar Jesus? – Josué repete.
Agradecido o presente, saímos para a rua. Seu presente é como uma tentativa de cura da minha conjuntivite – digo, na tentativa de curar minha ausência também. Cura não, milagre; afinal, Jesus faz cego ver e inclusive o olho parar de arder: faz ver o ausente no presente. 
Ele à frente, sem destino: o caminho se repete.  A Igreja Universal se aproxima, penso, aflito. Para onde vamos hoje? – interrompo o caminho. Para onde você quer ir? – ele responde, quebrando seu silêncio. Que tal a praça da paineira?
Ele aceita o destino sugerido. Não diz exatamente um sim, mas simplesmente segue letárgico na direção da praça, arrastando o pé, com seu moletom azul encapuzando-o, a boca babando, seu paninho sempre em mãos.
Chegamos à praça. Ao fundo avistamos um parquinho. E o parquinho é todo um mundo numa grande caixa retangular preenchida de areia úmida. Escorregador, trepa-trepa, balanços e gangorras: os brinquedos possuem carga de abandono – enferrujados. Poças da água repousam debaixo dos balanços. Um homem dorme ali: esconde a face do sol com um boné. Árvores e arbustos mais ao fundo, galhos e pequeninos frutos já secos no chão. 
Josué é o parquinho. E a um passo deste outro mundo, porém a léguas de distância deste, permanecemos ali, parados, olhando de frente o terreno intocável, como quem avista algo desconhecido lá longe. E Josué estático.  
Vamos até lá? – arrisco.
Um passo aproxima a distância. Ele caminha até o balanço e segura uma das correntes: paralisa novamente. Aproximo-me e seguro a outra corrente: imito-o para depois dar um pequeno impulso. A harmonia logo vem e assim balançamos juntos, num vai e vem sutil. Balançamos o nada ou ninguém.
O que te lembra esse balanço?  Prisão – ele responde.
Com certo esforço, decide se sentar num dos balanços. Abre bem suas pernas para não inundar os pés na água. E com breves impulsos, mantendo os pés em terra firme, a criança inicia a viagem. 
Quando eu era pequeno, não tinha balanço. Josué lembra-se e brinca o que não brincou, preso na e da infância. Agacho-me, recolho um galhinho e risco no chão de areia. Brinco também. E de desenhar na areia, você já brincou?
Na gangorra ele não sabe como se sentar. Ensino-o e iniciamos a brincadeira com certa cautela. E aos poucos vamos brincando. O que você escreveu na areia? Nada, eu apenas rabisquei. Jesus escreveu na areia... E o que foi que Jesus escreveu na areia? Foi quando iam apedrejar uma mulher. Jesus então protegeu a mulher? Como uma criança...
Como uma criança desprotegida, uma mulher. Josué-criança-mulher protegido por Eu-Jesus. E ser mulher é da ordem do apedrejamento: mulher profana, prostituta, Maria Madalena. Quem não tem pecado que atire a primeira pedra.
Na gangorra inicia-se um jogo de dominação e confiança. O impulso das pernas vai e vem, sobe e desce. Ora sou mantido no topo, com as pernas no ar, sem o impulso de Josué para me fazer descer, permanecendo preso lá em cima: ele me detém ali. Ora apenas gangorreamos, como bons meninos, confiando que nenhum dos dois deixará o outro cair lá do topo. Pois vale lembrar que numa gangorra exige-se confiança de ambos.
Você prefere ficar em cima ou embaixo? – ele pergunta. Pois se tratará de um ensaio ao coito, brincadeira sexual? Ele: a mulher - ela prefere ficar em cima ou embaixo?
Saímos do mundo-parquinho e nos dirigimos para um banquinho que fica logo ali. Sentamos. Silêncio. Crianças aparecem para brincar no parquinho e numa envoltura ímpar denunciam a desenvoltura de Josué. Ao longe, a mãe chamando as crianças.
Um rapazinho se aproxima e me entrega um panfleto: MEDICAMENTOS POPULARES. Mostro-lhe o panfleto: silêncio.  Apesar de estarmos juntos ele entregou só pra você – ele nota. Acho que entregar para mim é o mesmo que ter entregado para os dois – digo me dando conta da desmedida da fala, mas também indicando o caráter especial e de proximidade do encontro (após longos meses de silêncios mortais). Mas sendo assim ele poderia ter entregado a você ao invés de mim – e prossigo depois de uma pausa: Juntos, porém diferentes.
Concorda e se diz a criança, se sente como tal, ou “aquele que se faz de criança” e me nomeia seu protetor, guardião. Juntos, porém diferentes.
[E aceitar Jesus é a possibilidade dele me aceitar, sentir-se protegido, guardado e poder brincar. Por tantas andanças com Josué me senti perdido e entediado com sua insistência sobre “quando eu iria aceitar Jesus” (esse Jesus que ainda se limitava ao campo religioso). Não conseguindo significar tal experiência, permaneci junto com ele no engodo que é a dúvida e a não-aceitação, incitado por esta recusa à transferência, à imersão neste mapa que se começava a trilhar]
Ele se levanta lentamente e retorna ao parquinho pisando na muretinha que o circunda. Contorna a infância. Vira-se pra trás e me procura com o olhar, eu que ainda permanecia sentado, levanto-me e sigo-o. Passamos por aquela árvore, a que oferece pequeninos frutos. Josué pára e olha admirado.
Parece um pé de infância – me diz, espontâneo.  Parece mesmo – respondo admirado com a poesia, com este arranjo do encontro, do tudo mais perdido, arranjo interpretativo. Eis o fruto da infância, da experiência analítica.
Ele volta a pisar na areia e dirigindo-se ao trepa-trepa balbucia: Infância roubada. Josué escala arduamente as grades do trepa-trepa, explora o seu interior, vai do chão ao topo e de lá me pergunta: O que significa o AT* pra você? O AT é esse pé de infância – respondo. Pé de infância roubada – diz. Pé de infância brincada – rebato. Silêncio. É, roubada não, brincada – ele reafirma como quem pensou melhor sobre o assunto.
Tomamos o rumo de volta ao CAPS. Como ninguém sabe, nem percebe que existe um lugar como esse. Um paraíso – Josué comenta, fascinado. Saímos do paraíso.

*Acompanhamento Terapêutico

JUAN SALAZAR é psicanalista e poeta; escreve no blog El Jardín http://eljardin.posterous.com
Rua Pará, 65 – cj. 81
Higienópolis – São Paulo, SP
Tel.: (11) 2856.1177

9 de agosto de 2011

PAIXÃO EM ABUNDÂNCIA (Diego Tiscar)


Seria pequeno o atrativo do conhecimento, se no caminho que a ele conduz não houvesse que vencer tanto pudor” (NIETZSCHE)

Este é um texto sobre a “bunda”, e pretende ser um texto psicanalítico, disruptivo em sua raiz e terminologia.
A Sexualidade vive em meio a uma neblina densa, cujos ingredientes são o Asco, o Ridículo e a Moral (o que torna a tarefa de iniciar este Artigo tão difícil - esta é a terceira tentativa de iniciar meu texto e ainda não estou completamente satisfeito com ela).
O que posso dizer sobre a bunda? Paixão Nacional? Alvo de piadinhas e juras de amor eterno?
Recuso-me a escrever nádega: bunda é mais cru - enche-se a boca para falar bunda -, nádega restringe-se aos laboratórios de Anatomia. Nádega é o que se olha, bunda é o que se vê. Camilo José Cela, Prêmio Nobel de Literatura em 1989, que faz surgir riqueza literária das inesgotáveis possibilidades expressivas encontradas na linguagem que alguns costumam chamar de “escrachada” ou “prostibular”, nos diz:
Quem usa o palavrão, diz o palavrão naturalmente. E quem pensa o contrário, azar seu, é porque talvez viva em uma espécie de campânula pneumática, no limbo.” (p.12) [9]
Como disse, este é um texto sobre a bunda. Mas não sobre qualquer bunda, “pois os palavrões têm de estar no lugar certo” (p.12) [9], como nos alerta o literato espanhol. Não se trata aqui da bunda do campo/relação homossexual, nem da bunda compreendida no campo/relação sadomasoquista, nem tampouco da bunda simbolizada pelo campo/relação obsessivo-compulsivo. A bunda aqui é aquela significada pelo Carnaval, pela televisão – uma bunda estética que dá contorno de status quo. 
A amada bunda vem somando centímetros em sua circunferência, já ultrapassando a barreira dos 100 cm. A bunda não é apreciada apenas no nosso país, e muito menos se trata de um fenômeno recente. Em um primeiro momento tentarei entender esta adoração (tendo que, para isso, transitar pelo entrelaçamento dos campos descritos acima), para então compreender seu crescimento.

I. AMADA BUNDA
Seria exagero chamar a bunda de amada ou paixão nacional? Se observarmos uma criança vivenciando e representando seu primeiro amor, aparecem corações estilizados, daqueles que vemos em chocolates com os quais rapazes presenteiam suas namoradas, ou meninas preenchem com o nome de seus amores secretos. Ao inverter esta bela imagem teremos o desenho de uma bunda (também poderiam ser seios, mas vamos ficar na parte de baixo). Nesta representação o Amor poderia ser apenas o "cenário para o sexo"?
Estamos no “campo das inversões” - a relação entre Amor e Sexo nos leva as “segundas intenções” - o Amor não existe isento de emoções “baixas”, como nos fizeram acreditar os príncipes encantados que salvam suas princesas nos contos de fadas da Disney. Melanie Klein identificou a origem do Amor no lactante: enquanto o bebê chucha no seio da mãe, ele não apenas absorve o leite materno, como se excita. Logo a excitação genital substitui a oral, a qual nunca desaparece e desempenha papel fundamental em nossas vidas [1].
A excitação pelo contato com a mãe gera forte ódio contra o pai, porém, o pai também é um objeto de prazer ao qual o menino se excita. Nas meninas a excitação oral se desenvolve forçando um deslocamento do Objeto para o pênis do pai: ela passa a ter fantasias de roubar o pai de sua mãe e ter com ele outros bebês [1]. O "be-a-ba" da Psicanálise nos ensina que o Amor em si não é nada romântico, ao contrário, envolve sentimentos de ódio, posse e voracidade, que constituem a base da Inveja.
Mesmo sabendo desta gênese do Amor, ainda encontramos pessoas chocadas com qualquer reflexão que não seja a romantizada. Não sou contra o romance, e dissecar o Amor cientificamente o torna chato. Porém o julgo necessário, principalmente ao falar da bunda: esta moralização do Amor é a mesma que prega a igualdade entre os homens, a Democracia, o utilitarismo e o Socialismo, a exaltação da Piedade e o sacrifício de si mesmo [2]. Esta moralização até certo ponto se torna necessária para vivermos em sociedade, na convivência com outros e com nossos próprios pais: “Por trás de toda essa 'Moral' há um desejo secreto de Poder. O próprio Amor é apenas um desejo de posse; o namoro é um duelo e o matrimônio uma dominação” [2]. Sem o manto protetor da Cultura, a vida seria impossível: como odiar quem se ama?
O conflito mais básico e, portanto, fundamental do homem civilizado é: “o que fazer com a sexualidade?”. Nosso impulso mais primitivo permeia as relações humanas. Se no início existe o Ato, todo o resto fora criado para justificar e conter a Sexualidade. Este ajuste entre Id e Superego nunca será satisfatório para nenhuma das duas partes.
Se pensarmos que a civilização não passa de uma representação superegoica, a repressão do nosso lado primitivo torna-se mais selvagem e ameaçador: naturalmente o lactante irá desenvolver fantasias e manter um Objeto internalizado (Imago) para cada objeto real - o qual será alvo de ataques sádicos que visam a destruição do mesmo [3].
Cada vez que o Objeto for atacado, sua Imago sofrerá o mesmo ataque, com a diferença de que este irá buscar vingança, sedenta pelo sangue do lactante. Esta situação angustiante é diminuída pela presença da mãe cuidadora, que influencia a Imago furiosa e devoradora, transformando-a em objeto integrado. A tendência é a diminuição dos ataques sádicos por parte do bebê, que em um futuro próximo irá transformá-lo em um molecote com bons modos. 
Após o período de latência, homens e mulheres passam a se interessar por pessoas fora de sua família. A primeira atração se dá pelo visual: já que não podemos ver a índole de uma pessoa, vemos seu corpo, seu agir e seu vestir. É a partir da escopofilia que a bunda salta aos olhos. Porém, esta admiração pode ser contestada: se ela é quase unânime, podemos pensar na mesma como um fenômeno social.
Não existe nenhum componente fisiológico ou pulsional que explique tamanha admiração. Temos países onde a fonte de Amor são os seios; as bundas grandes tornam-se motivo de escárnio (como nos Estados Unidos pré-latinização). Sendo assim, a única explicação que me vem é a Cultural: o amor à bunda é da ordem da aprendizagem.
Deste amor podemos traçar um diagrama: a bunda é a maçã, o Superego é Deus, e nosso Id a serpente. Podemos admirar a bunda, mas não podemos devorá-la: quantas vezes ouvimos que o ânus é orifício de excreção e não serve para atividade sexual? O ânus, e por consequência a bunda, está relacionado às escatologias e ao odor fétido.
Neste momento brota uma pergunta: qual a diferença entre o sexo anal e o vaginal quando ambos são vistos com pudor? O termo escatológico também pode ser designado para os impulsos mais primitivos. Klein nos conta que a maior ansiedade de criança não é a Imago devoradora do pai ou a da mãe, mas sim dos dois, fundidos em uma única entidade a partir do ato sexual. A partir desta unidade surge uma poderosa figura ameaçadora - a mulher com pênis, que nada mais é do que um deslocamento do medo da castração [3].
Perante a ameaça da castração deslocada para a vagina, nada mais lógico do que evitar a vagina, local do pênis castrador, focando-se em outras cavidades. Tal relação deslocada não ocorre, pois a superação da ansiedade representa a adesão das normas sociais como pré-requisito para vida em sociedade. Nas palavras de Melanie Klein, a ansiedade primitiva é necessária [3].
Tal relação lógica não acontece. Culturalmente ainda existe a tese de que o sexo anal é vexatório, impróprio e doloroso, somado a incrédula idéia de que o sexo existe para reprodução da espécie. Estas teses não deixam de ter fundamento. Ao proibir-se o sexo anal, criam-se fantasias sádicas de onipotência do pênis. O homem “dota seu pênis, na imaginação, de poderes destrutivos, e equipara-o a feras devoradoras e assassinas, armas de fogo, e assim por diante” [3]. Desta forma existe uma fantasia de destruição relacionada ao apreço pela bunda, não por inatismo, mas por uma proibição cultural: as relações anais não passariam, desta forma, de um ataque ao superego.
Ainda estamos no “campo das inversões”. Existe uma outra versão onde o sexo anal  mantém a virgindade. Estou falando de uma prática antiga, utilizada por donzelas que desejam manter sua virgindade, e não relutam aos prazeres sexuais. O sexo anal foi utilizado por séculos como uma brecha na manutenção da pureza de mocinhas, e ainda hoje tal prática se apresenta.
Freud nos alerta que diversas culturas não valorizam a virgindade: tribos primitivas mantinham um homem para desvirginar as noivas antes da noite de núpcias. O mestre vienense atribuía tal prática a frustração edípica. O sexo anal, simbolicamente, protegeria o homem do ódio deslocado contra o pai que não aderiu aos encantos de sua filha [4].
Como já foi dito, na sexualidade o ridículo acompanha o asco: o riso nos oferece válvulas de escape, aponta para as brechas da censura. O riso tira o encanto da sexualidade, permanecendo apenas o deboche do escatológico - como nos lembra Herrmann: “O que, como sempre acontece com as grandes generalizações , mistura certa verdade no engano”[5]. Um dos exemplos dados por Freud em “O Tabu da Virgindade”, onde algumas tribos possuíam instrumentos de madeira para desvirginar as donzelas [4], retira o ridículo da fórmula. Por sua vez, a música "Cú e boca", escrita e composta por Rogério Skylab, retira o asco, permanecendo o ridículo: “Linda, os cabelos cacheados/Os seus olhos esmeraldas/E a pele de cetim/Mas se a beijava/Vinha um cheiro de esgoto (...) Um dia desses, eu beijava o seu pinguelo/Quando assim bem de repente, Ela peidou (...) o cheiro da sua boca/Era igual/Depois disso eu concluí,/cú e boca é tudo a mesma coisa”.
São nestas duas exposições cruas que percebemos como a atração pela bunda (como qualquer outra atração sexual) é uma farsa tão bem construída que acabamos por aceita-la sem questionamentos.
A relação existente entre o sexo vaginal com a civilização se faz por afirmações antropológicas de que nossos ancestrais copulavam de quatro imitando os animais inferiores. A mesma relação se dá no mito da criação, onde Adão relaciona-se pela primeira vez com Lilith, demônio criado entre os lagartos e, portanto, não humano.
Lilith não era humana: sua figura é descrita como coberta por saliva e sangue - o qual representa o sangue menstrual, uma metáfora a sexualidade livre de todos os tabus. A saliva é substituto para a Libido [6]. A figura apela tanto para o asco (sangue menstrual), como para o ridículo da mulher lasciva (da qual rimos e chamamos de puta), o que, portanto, fascina. O próprio Adão, que num primeiro momento repudia sua parceira devido à intensidade da sexualidade, perde-se entre suas pernas logo depois.
O que nos interessa no mito de Lilith abrange sua gênesis. Lilith havia sido criada com pó negro e excremento [6], o que garante sua inferioridade perante Adão. Lilith, a lasciva, surge como suja, vinda da merda, portanto do ânus. Em uma comparação entre Lilith e Eva, esta diferença fica ainda mais clara: Lilith gera repulsa, enquanto Eva tem sua beleza descrita.
Lilith nunca é descrita como mulher, mas como demônio. Apesar da repulsa inicial, Adão rende-se a seus encantos. A relação sexual de ambos é descrita como uma cópia da cópula dos animais: “com a cara de um voltado para as costas do outro” [6].
A relação de ambos fora logo perturbada. Lilith não aceitava ficar por baixo, exigindo uma relação “natural”. Após diversas discussões, Lilith rompe com Adão e com o próprio Deus, e alça vôo em direção as margens do rio vermelho, "um lugar maldito", onde copula com demônios. Furioso, Deus extermina os filhos de Lilith, a qual parte para o mundo dos humanos, assassinando os homens e seus filhos durante a noite[6].
Temos no mito de Lilith a condensação do horror provocado pelo Tabu: a lua negra, ao exigir sair de baixo de seu marido, representa todos os desejos do Inconsciente que tentam vir à luz e são barrados pelo superego, que como Deus, pune severamente o ser querelante. Lilith é reclusa ao rio vermelho, ao sangue menstrual, ao Inconsciente, onde, só ali, poderá gozar - mas mesmo assim ela é atacada pelo superego. Como resposta pela repressão, Lilith vem durante a noite, invade nossos sonhos e se deleita de prazer. O resultado é percebido no dia seguinte: o medo e a culpa.
Porém este desejo é primitivo, animalesco, "sujo": tudo aquilo que é banido pela cultura é condensado e deslocado para a bunda, um lugar da anatomia “escolhido” pela cultura, de onde não poderá sair, sob pena de severas críticas, tornando-se livre apenas em nossas fantasias.

II. AS BUNDAS GIGANTES
A bunda sempre esteve em destaque. Uma das músicas brasileiras mais famosas, que assume papel de destaque pelo mundo, "Garota de Ipanema", foi feita para uma bunda. A posição da bunda começou a mudar na década de 90 com a criação da personagem Tiazinha: pela primeira vez a bunda perde um rosto e um nome, assumindo a vanguarda. Tiazinha não tinha nome e nem rosto, ela representava um fetiche (posição que a bunda ocupa). Da Tiazinha surgiram outras mulheres semelhantes.
A bunda passou de inspiração para tema musical de grupos de Axé Music. Carla Perez foi a primeira "celebridade" a ultrapassar a barreira de um metro de bunda somando 102 cm. Nos anos 2000 esta barreira fora ultrapassada por outras mulheres-fetiche: Carol Miranda alcança 112 cm de quadril, enquanto a Garota Melancia ostenta 121 cm, só para ficar nestas duas "abençoadas por Deus".
Esta nova bunda está longe de ser um fenômeno restrito as "famosas". Uma rápida olhada em nossa sociedade e encontraremos mocinhas voluptuosas em todos os aspectos de suas características sexuais; o mesmo acontecendo com o corpo dos homens, que estão mais robustos. Chegamos finalmente ao verdadeiro objetivo deste Ensaio: por que este crescimento?
Nietzsche definia nossa "realidade" como um fluxo caótico e sem sentido - a realidade inexiste. Posteriormente, Freud cravou o Tabu como máscara e tentativa de organização deste caos. Herrmann foi além, dizendo que a realidade é uma construção. Retornando ao filósofo, este afirma que a relação sujeito/predicado gera a ilusão de uma realidade pré-existente. Peguemos a bunda: aquela bunda é bela, aquela bunda é desejada ou aquela bunda é perfeita. Porém não existe bunda, existe o desejo condensado e deslocado.
"Totem e Tabu" foi uma tentativa de Freud em comprovar a universalidade do Complexo de Édipo a partir de um fundamento histórico/antropológico [7]. O conceito de Sociedade está apoiado em um tripé: totemismo, exogamia e proibição do incesto, o que significa dizer que toda e qualquer ordem social nasce da proibição de dois desejos - proibição do incesto e do assassinato do pai. "Em outras palavras, Freud introduziu dois temas na antropologia: a lei moral e a culpa. Em lugar da origem, um ato real: o assassinato necessário; em vez do horror ao incesto, um ato simbólico: a internalização da proibição" [7]. 
Se a Sociedade nasce como farsa aceita e inquestionável, resta apenas o Ato, enquanto a realidade se monta ao redor dele. As últimas décadas foram marcadas pelo culto ao corpo e a supervalorização da beleza. O corpo, e por consequência a bunda, assume papel primordial na atração sexual tornando-se o objetivo da sedução.
Esta sedução pelo corpo - bunda voluptuosa = atração sexual - constitui em si a realidade construída, aceita e propagada. Não de maneira racional, mas aceita sem questionamentos como uma atuação: o mínimo de articulação racional e o máximo de valor simbólico [5]. Inclusive as criticas contra o excesso da erotização da bunda são atuações trabalhando em função da moralidade, que proíbe a satisfação do desejo, mesmo quando este se encontra deslocado e condensado. Se o Ato é uma impotência mascarada pela onipotência [5], não existe muito o que fazer, a não ser não fazer parte deste destino social.
Está posto que uma das principais formas de atração é a bunda, mesmo quando se rejeita verbalmente esta idéia. Podemos pensar nas consequências quando o Desejo não é representado: não ocorre uma representação simbólica, ele encontra escoamento simbólico e sua descarga se dá no corpo. Este é o poder do Ato. Mas seria possível a somatização de um desejo transformar a genética das futuras gerações? Poderíamos apresentar uma prototeoria pautada no Absurdo. Imaginemos um diálogo entre Freud e Darwin, no qual o grande viajante resolvesse aplicar a Teoria da Evolução das Espécies sobre o Imaginário humano.
Darwin descreveu que as espécies mais comuns e espalhadas são as que mais se modificam. O autor de "A origem das Espécies" vai além, afirmando que as espécies dominantes são as que produzem mais variações: "Partindo do princípio de que as espécies são apenas variedades bem talhadas e definidas, fui levado a supor que as espécies dos gêneros mais ricos em cada país devem oferecer mais variedades do que as espécies dos gêneros menos ricos, porque, cada vez que as espécies afins se formaram (falo das espécies do mesmo gênero), muitas variedades ou espécies nascentes devem em regra geral, estar atualmente em via de formação" [8].
Darwin está nos dizendo que as espécies mais ricas (aquelas que possuem mais variedades) tendem a produzir tipos diferentes - a espécie humana é muito variada. Além dos gêneros caucasiano, negro, asiático e indígena, teremos variações em cada uma destas raças. Em cada país temos variações desta espécie e nestas variações subvariações. Pegando como exemplo o Brasil, fora a mistura racial, observaremos uma grande variedade. É esta variedade que está em mutação constante. No que diz respeito à bunda, ela está se modificando para fins evolutivos (pelo menos no imaginário desta prototeoria).
O evolucionista crava que a seleção natural modifica os dois sexos em relação aos hábitos da espécie. Tal modificação é frequente e recebeu o título de Seleção Sexual. A Seleção Sexual está relacionada à luta pela sobrevivência entre indivíduos do mesmo sexo - é este embate que garante as diferenças e modificações na mesma espécie: "Todas as vezes que os machos e as fêmeas de qualquer espécie animal têm os hábitos normais de vida, diferindo apenas do ponto de vista da conformação, da cor ou da ornamentação, estas diferenças são devidas quase que unicamente à seleção sexual" [8].
Darwin nos afirma que para as mulheres atraírem a atenção dos homens, elas podem modificar sua estrutura genética no decorrer das gerações, adaptando seu corpo ao desejo sexual dos homens. Tal mudança é gradual e acaba por caracterizar as espécies. Não é por acaso que a mulher brasileira é conhecida internacionalmente por sua bunda. Tal característica anatômica se desenvolveu a fim de garantir a atração de um possível parceiro para o sexo, ou para ela poder integrar estruturas sociais como namoro, casamento ou outros tipos de união existentes ou que podem vir a existir.
Indo além, o amor pela bunda - assim como a tendência para o crescimento da mesma - é o destino sexual de nosso país e sociedade, tendo em vista que esta nova profissão feminina, "a gostosa profissional" - desde assistentes de palco até modelos que fotografam para revistas masculinas -, não passa de um reflexo deste destino e, ao mesmo tempo, objeto de crítica e ataques vorazes contra o próprio destino e a virtual incapacidade de fugir do mesmo.
Ecce homo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] KLEIN, M. (1937) Amor, Culpa e Reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
[2] DURANT, W. (s.d.) A Filosofia de Nietzsche. Rio de Janeiro: Ediouro.
[3] KLEIN, M. (1932) Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual do menino. In A Psicanálise de Crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
[4] FREUD, S. (1918 [1917]) O Tabu da Virgindade (contribuições à psicologia do amor III). Edição eletrônica, 2002.
[5] HERRMANN, F. (2001) Andaimes do real II: Psicanálise do Quotidiano. 3ª edição. São Paulo: Casa do Psicólogo.
[6] SICUTERI, R. (1985) O mito de Lilith nas versões bíblicas em Lilith. In Lilith: A Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
[7] ROUDINESCO, E & PLON, M. (1998) Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[8] DARWIN, C. (1859) A Origem das Espécies. São Paulo: Folha de São Paulo.
[9] CELA, C. J. (1995) Saracoteios, Tateios e Outros Meneios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.


DIEGO TISCAR é psicólogo clínico.
Email: dtiscar@gmail.com