Postagens

Mostrando postagens de 2011

NOSFERATU: A SOMBRA DO DESEJO (Diego Tiscar)

Imagem
"As terríveis experiências de vida fazem-nos pensar se o seu protagonista não é, ele mesmo, algo de terrível." (Nietzsche)
Possuo duas grandes paixões nesta vida: o Cinema e a Psicanálise. Como toda paixão, estas são ciumentas, disputam pela titularidade, se digladiam para ver quem assume o destaque em meu texto. Psicanálise e Cinema ou Cinema e Psicanálise? Talvez tenha sido este o motivo pela demora em escrever uma crítica psicanalítica/cinematográfica. Talvez esteja sendo simplista comigo mesmo, evitando um mergulho direto no vórtice. Quem é o autor deste artigo? O analista? O cinéfilo? O escritor? Ou aquele que se acredita um escritor? Esta é a grande dúvida do elenco da filmagem de Nosferatu: na fantasia "A Sombra do Vampiro" quem é o protagonista do filme? Quem interpretará o Conde Orlock? Dúvida que rapidamente torna-se nossa, do público, do ator. Vampiro? Drácula? Uma pobre criatura solitária ou um assassino cruel? Este brilhante suspense com doses dramáticas …

A FRESTA (Marcos InHauser Soriano)

Imagem
O que é o Amor? – Um conto simples, dito de muitas maneiras.
(ÉMILE ZOLA)

Ela se viu assim, de repente, a surgir perambulando pela rua, sozinha, perdida. Uma rua sozinha, uma rua perdida... Uma, dentre tantas delas, a perambular – ato de caminhar sem destino certo. Naquele momento não havia o como pensar, havia apenas um corpo a perambular pela rua sozinha. Ouvi uma vez, de um velho amigo, que em certa medida o autor se funde com o texto. Não sei bem ao certo se este texto se faz psicanalítico, mas sei que é disto que se trata: de uma fusão, de uma sala de análise, de uma história contada desta maneira. A Sala de Análise comparece onde se presentifica o Analista.
Pra se viver do amor (...) Há que penar no amor (...) Há que apanhar e sangrar e suar (...) E é um veneno medonho (...) É por isso que se há de entender (...) O amor é sacrifício, o amor é sacerdócio. Amar é iluminar a dor (...).” (“Viver do Amor”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)
Ela, tempos atrás, por opção, ab…

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SRA. EMMY VON N.

Imagem
SRA. EMMY VON N., pseudônimo de FANNY MOSER, paciente de Freud apresentada nos “Estudos sobre a Histeria” de 1985 - a paciente na qual Freud disse ter utilizado pela primeira vez o método “catártico”. Nascida Fanny von Sulzer Wart, a 29 de julho de 1848 na antiga Livônia, em uma nobre e antiga família de Winterthur, com a idade de 23 anos casou-se com Heinrich Moser, um riquíssimo homem de negócios, quarenta anos mais velho e já pai de dois filhos. Com a morte do marido, Fanny herdou toda a sua fortuna, sendo inclusive acusada de envenená-Io. A suspeita de assassinato pesaria tão forte sobre o seu destino, que ela nunca conseguiria realizar o seu desejo mais caro: ser recebida nos salões da aristocracia européia. Levou uma vida errante, teve amantes entre os seus médicos, e acabou apaixonando-se por um jovem que se apoderou de boa parte da fortuna. Fixou-se enfim em Au, perto de Zurique, em um “castelo”, onde faleceu a 02 de abril de 1925. Suas duas filhas foram marcadas, cada uma à sua …

A ANGÚSTIA É LÍQUIDA (Mariana Giorgion)

Imagem
A angústia, pra mim, é líquida, Mata de sufoco e engasgo, Como a água. A angústia empurra, exige, impera. Desenha o desejo que eu não posso aceitar. Desespera, e, mesmo me calando, Me sujeitando, Me enganando, Não cessa. E me contorço, Me rasgo, Me quebro Na busca de parar o rio. E descubro que, Contra a maré do âmago, Ninguém pode.

O PÉ DE INFÂNCIA (Juan Salazar)

Imagem
Estive ausente: conjuntivite. No reencontro com Josué ele me recebe com um presente, um canudo envolto num papel qualquer. Trata-se dum calendário evangélico. Em seu cabeçalho, letras garrafais anunciam: IMPRESSIONANTE! O SENHOR JESUS OPERA SINAIS E MARAVILHAS: FAZ PARALÍTICO ANDAR, MUDO FALAR, CEGO VER, SURDO OUVIR E TODOS OS TIPOS DE MILAGRE. Jesus, o onipresente de muitas de nossas andanças. Igreja Universal, Deus é amor. Quando você vai aceitar Jesus? – Josué repete. Agradecido o presente, saímos para a rua. Seu presente é como uma tentativa de cura da minha conjuntivite – digo, na tentativa de curar minha ausência também. Cura não, milagre; afinal, Jesus faz cego ver e inclusive o olho parar de arder: faz ver o ausente no presente. Ele à frente, sem destino: o caminho se repete.A Igreja Universal se aproxima, penso, aflito. Para onde vamos hoje? – interrompo o caminho. Para onde você quer ir? – ele responde, quebrando seu silêncio. Que tal a praça da paineira? Ele aceita o destino su…

PAIXÃO EM ABUNDÂNCIA (Diego Tiscar)

Imagem
Seria pequeno o atrativo do conhecimento, se no caminho que a ele conduz não houvesse que vencer tanto pudor” (NIETZSCHE)
Este é um texto sobre a “bunda”, e pretende ser um texto psicanalítico, disruptivo em sua raiz e terminologia. A Sexualidade vive em meio a uma neblina densa, cujos ingredientes são o Asco, o Ridículo e a Moral (o que torna a tarefa de iniciar este Artigo tão difícil - esta é a terceira tentativa de iniciar meu texto e ainda não estou completamente satisfeito com ela). O que posso dizer sobre a bunda? Paixão Nacional? Alvo de piadinhas e juras de amor eterno? Recuso-me a escrever nádega: bunda é mais cru - enche-se a boca para falar bunda -, nádega restringe-se aos laboratórios de Anatomia. Nádega é o que se olha, bunda é o que se vê. Camilo José Cela, Prêmio Nobel de Literatura em 1989, que faz surgir riqueza literária das inesgotáveis possibilidades expressivas encontradas na linguagem que alguns costumam chamar de “escrachada” ou “prostibular”, nos diz: “Quem usa o…