31 de março de 2011

VULTOS PSICANALÍTICOS NO OSCAR 2011 (Thomas Ferrari Ballis)


Recentemente tive o prazer de conferir dois ótimos filmes em cartaz nos cinemas da cidade: “Cisne Negro” (Black Swan) de Darren Aronofsky e “O Discurso do Rei” (The King’s Speech) de Tom Hooper. Além de serem ótimos, em minha opinião, ambos receberam inúmeras indicações ao Oscar 2011, cerimônia que aconteceu no dia 27 de fevereiro.
Resolvi escrever sobre os filmes, não somente por se tratar daquelas películas em que sentimo-nos tentados a indicar aos convivas, mas porque, ao vê-los, somos capturados pelo movimento inconsciente de analisá-los. Mas que espinhoso fazer este nosso, não? Será que não podemos simplesmente ir ao cinema? Tendo a dizer que Não! Quando escolho a palavra “captura”, trato desta nossa forma maquinal e automática de digerir a experiência, que por vezes não escolhe hora, local, nem se ganha convite para tal. Nunca sabemos de antemão, ao entrarmos no cinema, se seremos capturados por esta força motriz. O que está em jogo, e aí determina, é o exemplar da sétima arte que esta por vir.
Antes das pequenas notas sobre os filmes, trago à baila a peculiaridade de nosso fazer. Se a Psicanálise se presta a dar conta do que é Humano, estamos letrados não somente aos espinhos do ambulatório ou consultório, basta-nos o que se espalha nas esguelhas entre humanas, no “lugar da captura”. Em nossa rua, bairro, cidade, outras, o “lugar da captura” está ali, diante da obra de arte, está entre as duas mãos que seguram o universo de um livro. Está na platéia, naquela viagem. Esta em toda produção humana.
Este papo é bom, não acha?

Mas voltando aos filmes, começaremos pelo “Cisne Negro”, que conta a história de Nina (Natalie Portman), uma jovem bailarina dedicada que acaba de conseguir o papel principal em uma produção de “Lago dos Cisnes”, aclamada peça de balé dramático do compositor russo Tchaikovsky.
Nina logo se depara com a responsabilidade de ocupar o papel principal da produção, a pressão psicológica exercida pelo seu diretor (Vincent Cassel) e a concorrência com outras bailarinas da trupe, levarão Nina aos frangalhos psíquicos.
Logo no começo da viagem do Cisne, já é perceptível em Nina (e na bela atuação de Natalie Portman) o semblante de algo latente (como uma leve coceira nas costas), que se revela na busca pelo cisne perfeito e na relação da protagonista com a mãe (Bárbara Hershey), uma bailarina fracassada que deposita patologicamente o seu mundo na filha. Em uma das cenas, para comemorar a conquista da filha, a mãe lhe presenteia com um grande bolo de festa, que após ser recusado por Nina, a mãe ameaça jogá-lo no lixo. As expressões faciais da mãe de Nina falam por si só, mudam como relâmpago, são afiadas e cortantes, psicotizantes.
O diretor da produção esta contente com o “Cisne Branco” de Nina, no entanto, passa a exercer enorme pressão acerca de uma boa atuação do “Cisne Negro”. O diretor não sabe que, ao convocar a sexualidade de Nina para expressar o “Cisne Negro”, está abrindo as portas de sua patologia latente. A metáfora do branco-negro é esplêndida. Mas vai custar a Nina os poucos recursos que mantém sua sanidade aparente.
Sem mais delongas, e para que não se perca a característica de “pequenas notas”, o que vemos em “Cisne Negro” é uma extraordinária aula sobre a Paranóia, que só o didatismo da sétima arte, seus novos recursos tecnológicos (além da ousada direção de Darren Aronofsky) e a sua velha capacidade de nos transportar para dentro da tela, e de uma vida, pode nos proporcionar. Fica o convite.

No segundo filme, “O Discurso do Rei”, somos levados a história de George (Colin Firth), que após ver seu irmão Edward (Guy Pearce) abdicar o trono inglês, se vê obrigado a assumir o trono da Inglaterra. Tal empreitada é assumida por George a contragosto, uma vez que ele sofre de uma terrível gagueira, que o acomete principalmente durante o pronunciamento de discursos. Após consultar-se com inúmeros especialistas, George chega ao consultório de Lionel Logue (Geoffrey Rush), um “especialista da voz” que através de seus métodos nada convencionais ajudará George a livrar-se do mal que o acomete.
George está cansado de especialistas que não conseguem ajudá-lo, por isso, quem bate a porta de Lionel Logue para pedir ajuda é sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter). O que se inicia a partir daí é o que Freud chamou de “Experimento Preliminar”: as primeiras entrevistas que precedem à entrada de qualquer paciente em análise. “O Discurso do rei” expressa magistralmente a dialética encontro-desencontro que compõem as primeiras entrevistas em Psicanálise. O fato de Lionel Logue não saber que a sua frente está a rainha da Inglaterra é o equivoco perfeito para a vinda de George, e mesmo após saber que está sendo requisitado para tratar o rei, dispara “Minha casa, minhas regras!", recusando-se a ir de encontro ao rei.
Os desencontros se sucedem com a vinda de George, que estranha o recinto logo ao chegar. O “estranho” se revela nas perguntas de Lionel: “não estou aqui para discutir assuntos pessoais... estou aqui porque gaguejo!”, dispara George, afirmando não voltar. Mas ele volta, após ouvir sua própria voz recitando normalmente versos de Shakespeare, gravada por leonel.
Colin Firth e Natalie Portman são os grandes concorrentes ao oscar de melhor ator e atriz, no entanto, Geoffrey Rush encarnado por Leonel Logue é quem merece o nosso prêmio. Em poucas vezes no cinema foi possível ver um verdadeiro analista em sua atividade. Leonel é disruptivo, provoca em George um vórtice de desencontro consigo mesmo, chacoalha seu espelho e escuta o que não se ouve. Sabe muito bem de onde vem a gagueira de George, e por isso, se utiliza de uma terapêutica de exercícios físicos como simples manejo para suas doses de ruptura, o combustível, que faz George ir de encontro ao incerto de uma “voz” que desconhece.
Leonel se diz um “especialista da voz”, é um analista genuíno sem saber que sabe.

Termino estas notas privilegiando o que considero a pérola do filme, as primeiras entrevistas em Psicanálise. Mas em “O Discurso do Rei” há muito mais: afinal, depois das entrevistas... A Psicanálise.

Soslaio e repressor, aquele olhar do segurança do museu revela “Não se aproxime muito do lugar da captura!”.

THOMAS FERRARI BALLIS é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise
Rua Tuiuti, 2530 (cj 91) – Tatuapé – CEP 03307-000 - São Paulo, SP
Tel. (011) 2092.4131
Email - thomferrari@yahoo.com.br

20 de março de 2011

DO REAL AO MÉTODO: UMA TRAVESSIA COM HERRMANN E LACAN (Rosa Eliza Z. Naves, João Luiz Leitão Paravidini & Maria Lúcia Castilho Romera)


Introdução
A Psicanálise trabalha com a lógica do paradoxo e dela pretendemos nos acercar através de uma interlocução entre as teorias de Jacques Lacan e Fabio Herrmann. Estabelecer esse diálogo é essencial ao ofício de pesquisador, pois é por meio dele, e da avaliação crítica da comunidade acadêmica, que conhecimentos já estabelecidos sejam revisitados. Esse diálogo se efetivará por meio de uma apresentação do conceito de Real para cada um dos autores e do entendimento que cada um deles tem acerca do Método Psicanalítico. Aqui, considera-se fundamental ao campo de pesquisa em Psicanálise, a compreensão desse efeito do Real, como campo do fora-de-sentido e assim, caminhar na direção do tratamento junto à clínica psicanalítica na contemporaneidade.


O Real na teoria de Fabio Herrmann
O conceito de Real em Fabio Herrmann foi construído inicialmente em seu livro Psicanálise do Quotidiano (1997). Trata-se de uma lógica implícita demonstrada e desenvolvida por ele a partir do conceito de realidade psíquica de Freud. Ao considerar que desde Freud a noção de Realidade ultrapassa a observação das contingências e a adequação a elas, Herrmann desdobrará seu pensamento para a relação fantasia/realidade, concluindo que elas estão num movimento de fusão, onde uma cria a outra; e contrapô-las, serve apenas a um discutível recurso didático.
Por isso, o autor não considera a necessidade de se estabelecer diferença entre mundo interno e mundo externo, conforme o fazem algumas escolas psicanalíticas. Aliás, é interessante frisar que, sob esse aspecto, Herrmann tem uma visão dinâmica, entendendo que o conjunto mundo-psiquê teria que ser visto como uma complexa construção mutável, onde habitariam o interior e o exterior do Homem. Segundo esse autor, no Inconsciente residiria a base da teoria implícita do Real. Portanto, se a lógica da vida psíquica é regida pelo Inconsciente, esta também seria a lógica do Real, desde os processos que levam em conta a razão, num sentido comum, até aqueles que se dirigem em sentido oposto a ela. Esclarece que todos pensam o Real, e que Inconsciente e Real estão em continuidade.
O Real humano é, portanto, indiferenciado do Isso , e composto por um jogo de forças e de energias que impregnam o sujeito humano desse real psíquico, deixando-o exposto a toda sorte de conflitos, que só conseguirá diferenciar-se do social graças a sua capacidade de representar. Será então por meio da Representação que o individuo irá reinserir-se no Mundo. Por meio dela, o individuo fica impedido de fundir-se ao Outro de forma magmática. No entanto, Herrmann (2001) chama a atenção para que se compreenda que o nível em que se situa o Real não é o das representações, nem o das coisas materiais.
Ao longo da discussão acerca da teoria implícita do Real, Herrmann (1997) compara esse Real a: “(...) um organismo vivo dotado de psiquismo” (p.244). O Real está muito além da mente individual, posto que ele habita também o mundo em que vivemos. Pode-se pensar na existência de uma continuidade psíquica entre a interioridade do sujeito em relação com o todo, porém essa continuidade não é linear, posto que os campos do Inconsciente tem uma extensão para “dentro” e para “fora” do Sujeito, conforme Herrmann (2001).
À medida que concebe o Real como Inconsciente, que se situa fora de todo o campo representacional, ele irá sustentá-lo junto à noção de Desejo: o Real passa a ser produtor do Desejo.
A idéia desse autor é, portanto, criar condições de método para que a Psicanálise investigue o conceito de Real de modo complementar ao conceito de Desejo.
Finalmente, pode-se depreender que uma teoria psicanalítica do Real deve levar em conta o princípio fundamental da Psicanálise, que é a interpretação ativa e produtora de sentido, pois o Real não se dá a conhecer, se não por aqueles elementos que falham à Consciência.

O Real na teoria de Jacques Lacan
Lacan propõe como modelo de representação psíquica, os três registros por ele denominados: Real, Simbólico e Imaginário. Esses registros estão entrelaçados entre si à maneira do nó borromeano: desatado um dos anéis os outros dois se soltam também. Para ele, é a estrutura do psiquismo humano. Nesse nó, o fundamental é o entrelaçamento entre os registros, apontando que a realidade psíquica é produto dessa articulação. Não de um ou outro, mas da articulação dos três.
De forma breve, serão expostas definições conforme Roudinesco e Plon (2008) dos dois primeiros registros, e só posteriormente será tratado o registro do Real. O registro do Simbólico ajusta-se com um sistema de representações calcado na linguagem, por meio de signos e significações possíveis que determinam o sujeito do Inconsciente e a capacidade de simbolização. É o registro da ordem e da lei simbólica responsável pela cisão constitutiva do Sujeito. O registro do Imaginário é utilizado por Lacan com o intento de definir um lugar ao Eu, com os seus fenômenos de ilusão, captação e engodo, e que corresponde ao que é da ordem da invenção, da identificação e consistência psíquica, como as fantasias.
Inicialmente, como nos mostra Roudinesco (2008), Lacan introduziu o conceito de Real como aquele que Freud chamou de realidade psíquica, ou seja, o desejo Inconsciente e as fantasias conexas. Em Freud, esta realidade psíquica apresenta uma coerência congruente à realidade material e pode assumir valor tão “consistente” quanto à realidade externa, chegando até ser tomada por ela.
Foi a partir de Albert Einstein e a Teoria da Relatividade, que Lacan buscou sua primeira reflexão sobre o Real. Os filósofos da época discutiam a oposição entre o real dado e o real construído, e a palavra real passou a ser correntemente usada como um correlato de um absoluto ontológico, um ser em si que escapa à percepção. Em Émile Meyerson (1859-1933) encontra-se sustentação a propósito da existência de semelhança entre os objetos criados pela ciência e aqueles que sua existência é tida como uma verdade indemonstrável pela percepção. Todavia, foi com a ciência heterológica de Georges Bataille [1] que Lacan tomará emprestado a idéia de resto ou parte maldita, que integrará a noção de Real, que será articulada ao conceito freudiano de realidade psíquica.
No entanto, ainda conforme Roudinesco (2008), essa combinação resultou numa “torção”, pois onde Freud havia construído uma realidade psíquica calcada na fantasia, Lacan pensará uma realidade desejante, fora de simbolização, sombra negra que escapa à Razão.
Na conferência de 1953, intitulada “O Simbólico, O Imaginário e O Real”, Lacan define Real como o que nos escapa e, admitindo ter falado pouco deste registro, diz que “o Real é ora totalidade ou o instante transcorrido” (p.15).
Mostra-nos deste modo, que o Real é o que nos escapa em uma análise, aquilo que é anterior ao Simbólico e não pode ser alcançado pela Palavra.
Em seu Seminário, Livro 3, As psicoses (1955-1956/2002), Lacan aborda o Real como o que escapa à simbolização, pois na relação do Sujeito com o Símbolo, há a possibilidade de uma Verwerfung primitiva, ou seja, que alguma coisa não é simbolizada e que vai se manifestar no Real (Lacan, 2002).
Nesse seminário, explica que sua conhecida formulação em que o que é foracluído do simbólico retorna no Real, é originada a partir de uma frase de Freud no texto O homem dos Lobos (1914). Nesse referido texto, Freud relata com precisão a alucinação que O homem dos Lobos tivera quando criança, e sua consequente incapacidade para expressar sua experiência alucinatória à sua babá, ao ponto de não saber dizê-lo, o que revelaria um resto não simbolizado.
Lacan entende que a relação feita por Freud entre esse fenômeno alucinatório e esse não saber da coisa em si pode ser traduzido como “o que é recusado na ordem simbólica ressurge no real” (Lacan, 1955-1956/2002, p.22). Daí, pode-se entender que essa posição lacaniana com relação à psicose é a exclusão do que surge como resto não simbolizado e reaparece no Real, de forma alucinatória. A coisa em si da qual não se tem acesso, por ter sido rejeitada, foracluída da ordem simbólica.
De acordo com Roudinesco e Plon (1998), seu registro está vinculado a uma noção de “realidade” fenomênica, impossível de ser representada, e Lacan irá usar a topologia do nó borromeano, interligando os três registros: Real, Simbólico e Imaginário.
A noção de Real em Lacan, a partir do nó borromeano ou borromeo, é melhor entendida considerando a idéia de algo que articula uma coisa com outra, mas, distintas uma da outra. Deste modo, os três registros são atados de uma maneira que os põe em uma relação estreita de um com outro e de um com os outros dois, e isso na mesma relação.
Posteriormente, será acrescido um quarto elo a essa articulação de registros que formam o nó borromeano, o Sintoma, e é “no sintoma que identificamos o que produz no campo do Real” (Lacan, 1974/1975, p.7).
Lacan (1974/1975), dirá que o “Real se demonstra por não ter sentido” (p.52), e o que pode lhe atribuir sentido é da ordem da evanescência do Gozo. A noção de Real não é fácil de ser apreendida, não é óbvia, não se compreende rapidamente, uma vez que Lacan buscou inúmeras formas para explicá-la ao longo dos anos. Atitude de um mestre perseverante e comprometido com a formulação de algo que pode, de certa maneira, dar conta do discurso analítico. Seu ensino foi feito de constante retificação e, por isso, o Lacan dos anos setenta que sustenta o Gozo atrelado à noção de Real, nos ajuda a entender melhor que a Linguagem não dá conta de tudo, algo sempre vai escapar à simbolização. Lacan (1974/1975, p.66) dirá que “a condição a se exigir para o Real é que ele existe enquanto impossível”.
O Real lacaniano, em nossos dias, passa por um sinônimo de impossível de ser representado, conforme nos mostra Kaufmann (1996, p.445): o “Real será conferido o estatuto de vazio, de impossível de ser representado, situado fora de todo campo demarcável”.
Podemos dizer então, que Lacan inventou o termo Real, e que o Real de Lacan não tem nada a ver com o termo Realidade de uso comum e, a realidade psíquica de Freud foi apenas seu ponto de partida para a criação do conceito de Real, eixo que organiza a clínica e a teoria lacaniana. A noção de Real para a Psicanálise é diferente da noção de Real para a ciência. Para nós, interessa saber sobre o Real para chegar ao método psicanalítico e prática clínica - Real como uma condição própria de busca de articulação, condição de impossível.

Articulando o conceito de Real em Herrmann e Lacan
Em que medida o discurso psicanalítico permite “articulações” dessa ordem?
Em uma primeira aproximação, a resposta parece ser profícua, pois a princípio seria possível reconhecer que tanto Lacan quanto Herrmann remeteriam, inicialmente, ao conceito de realidade psíquica criado por Freud, que a propósito, não escreveu nenhum texto que tenha o Real como um construto.
Contudo, dada a importância de sua teoria sobre a realidade psíquica pode-se observar que ela incide sobre a concepção que Fabio Hermann e Jacques Lacan desenvolveram sobre o Real.
Essa proximidade, no entanto, se revela problemática à medida que Herrmann mantém, ao longo de sua obra, o conceito de Real próximo ao conceito de Desejo; enquanto em Lacan, a noção do Real como o que escapa, nos remete à falta primordial, e não ao Desejo, mas à sua causa, o Objeto a. Objeto a como o Objeto que se destaca da articulação simbólica, como aquilo que sobra do advento do simbólico no Real, o que resta disso que antecede as palavras (o Simbólico), e que sempre retorna e é a causa do Sujeito. Este pequeno a do qual nada é pensável, com o senão apenas de que tudo que é sujeito, sujeito de pensamento que se imagina ser Ser, é por isso determinado” (Lacan, 1974/1975, p.22). Então, este pequeno a está relacionado ao Real que implica um gozo, e podemos dizer que ele é a causa do Sujeito, do sujeito do Desejo.
Em continuidade às controvérsias entre os autores, pode-se dizer que se as idéias de Herrmann polemizam com a de um Lacan estruturalista, apoiado em uma metapsicologia e, para demonstrar tal pensamento, cito uma passagem de O divã a passeio (2001b) onde ele coloca que “a metapsicologia não descreve o homem total, mas o ser do método interpretativo, isto é, a configuração subjetiva que a análise cria e desvela, ao mesmo tempo”. No entanto, não se pode esquecer que Lacan, ao trabalhar com a representação da superfície de Moebius, avança no sentido de uma “descristalização” da estrutura, uma vez que demonstra que o Sujeito está em uma exclusão interna a seu objeto, o Inconsciente.
A existência do Inconsciente, concebido como um campo ou como estrutural, e a busca pelo conceito de Real entre os dois autores, não se trata de um paralelismo, o que poderia revelar-se um perigo dogmático. Aqui, trata-se de uma busca pela elucidação teórica da atividade analítica, e nos interessará o modo como cada um deles pensa o Método Psicanalítico (e não pelo mero gosto da especulação). Enquanto Herrmann desenvolve a idéia de Método por ruptura de campo como um modo de pensar a Psicanálise, Lacan aponta para a vocação de ciência da Psicanálise.
Se para Herrmann a teoria psicanalítica do Real deve levar em conta o princípio fundamental da Psicanálise, que é a Interpretação ativa e produtora de sentido; para Lacan o Real nunca se dará a conhecer, considerando-se que o importante não é trabalhar com a Interpretação, mas com o Significante.
Lacan (1998) tratará o Sujeito tomado numa divisão constitutiva, em que o psicanalista o situa em sua práxis, pois esse Sujeito não se encontra na objetividade. Vai dizer que esse Sujeito é visto como um correlato da ciência, porém um correlato contraditório, como ele demonstra em A ciência e a verdade, uma vez que “não há ciência do homem porque o homem da ciência não existe, mas apenas seu sujeito” (Lacan, 1998, p.873). Então, nos mostra que a ciência se caracteriza pela exclusão do Sujeito, pois para a ciência atual, aquela do paradigma cartesiano, o científico é quando o Sujeito fica excluído do pensamento sobre o Objeto. Postura diferente tem a Psicanálise, que inclui o Sujeito. E, a questão do Método na psicanálise lacaniana, se sustenta em uma ética que diz respeito ao Sujeito, ou seja, ao que foi excluído pelas ciências positivas, sendo este o Objeto da Psicanálise: o sujeito do Inconsciente, sujeito do Desejo, e cuja causa é o impossível, o Objeto a. Então, em Psicanálise, a questão ética é que o Sujeito precisa se a ver com isso que lhe é causa, a impossibilidade de gozo pleno.
A consideração metódica do Sujeito é o que há de grande novidade em Lacan, e a noção de Sujeito é a sua chave fundamental, sobretudo, ao considerá-lo em seu discurso, fato que a ciência, ao se constituir, o excluiu. A Psicanálise fará, deste modo, a inclusão desse Sujeito em seu campo, pela via do Inconsciente, e Lacan o denominará como sujeito do Inconsciente.
Assim, fica claro que o ponto central da questão metodológica para Lacan é a inclusão desse Sujeito em toda a extensão do campo da Psicanálise, pois a Psicanálise trabalha com um método extraído de seu Objeto, o Inconsciente (ou melhor, com o sujeito do Inconsciente).
Para continuidade dessa conversa entre esses dois pensadores, convido à participação de Jacques Alain Miller para nos auxiliar com relação ao que Lacan entendia como sendo o Método da Psicanálise, e posteriormente, João Frayze-Pereira, ao que diz respeito à questão metodológica para Herrmann.
Para o psicanalista francês, Jacques Alain Miller (1997), na coletânea de palestras no Brasil, Lacan elucidado, coloca que na Psicanálise que se considera a leitura lacaniana, não há padrões, mas sim, princípios, dos quais Lacan aponta em seu livro “Direção do tratamento”, onde acata a idéia de um Tratado do Método. Contudo, este não enumerou os princípios da Interpretação.
Mas ao falar de Método para Lacan, Miller (1997) cita o ato analítico como um dos princípios metódicos, enumerando três níveis relativos ao método, a saber: avaliação clínica, onde o analista faz o diagnóstico para efeito de direção do tratamento; a localização subjetiva, da qual não está desvinculado o diagnóstico, e é onde a “enunciação é considerada como um operador prático” (p.229) e; deste modo inicie um terceiro tempo que é a análise propriamente dita, que seria a introdução ao Inconsciente. Estes três níveis são, conforme o autor, precedidos pela demanda de análise, e sua aceitação ou não, já é um ato analítico, que pode ser traduzido por “um ato de decidir-se, com tudo que isso implica. Essa decisão implica um certo compromisso” (Lacan, 1957).
Miller (1997) nos mostra que, em se tratando de questões metodológicas para Lacan, não basta passar da dimensão do fato para dimensão do dito. Há que se questionar qual o lugar do enunciante frente ao enunciado, o que levará este Sujeito a perceber a verdade ou não em seu dito, e que o importante “é questionar a posição tomada por quem fala em relação aos próprios ditos e a partir dos ditos localizar o dizer do sujeito” (p.236). Neste ponto, percebe-se que é de fundamental importância o analista distinguir entre o conteúdo dito e o dizer, pois é justo aí que Sujeito impinge sua marca, sua posição.
Para Miller (1997), no Método Psicanalítico de Lacan, as questões técnicas e práticas estão atreladas às questões éticas por um motivo muito claro: a análise dirige-se ao Sujeito, e a categoria de Sujeito não é técnica e sim ética. Vai muito além de ir dos fatos aos ditos.
Quanto a Teoria dos Campos de Fabio Herrmann, o psicanalista João Frayze-Pereira (2002), ao nos auxiliar com relação à idéia de Método, colocando seu estranhamento ligado ao fato de, ainda hoje, a questão do Método ser adotada quando a perspectiva é a psicanalítica. Para ele, esse discurso não atribui cientificidade a essa disciplina, no entanto até a Teoria dos Campos, que é crítica com relação à Psicanálise, mantém esse discurso.
A propósito do enunciado de Herrmann de que o Método Psicanalítico é dotado de “espessura ontológica”, Frayze-Pereira diz que nele, Sujeito e Objeto são inseparáveis. Portanto, a dicotomia Sujeito/Objeto, inerente ao Método, não se encontra presente. O que leva nosso interlocutor a afirmar que o Método Psicanalítico, enquanto concebido pela Teoria dos Campos de Fabio Herrmann, é visto como um modo de pensar: é um fazer que gera um conhecimento peculiar pela via de um trabalho em busca do sentido não conhecido.
Trabalho que caminha junto a um processo de reflexão, exatamente porque interroga as experiências imediatas, deixando surgir e tomando em consideração as mediações desconhecidas que as tornam possíveis (Frayze-Pereira, 2002).
Deste ponto de vista, o autor demonstra que o Método Psicanalítico, ao ponderar o caráter imediato de uma experiência, e também se ter em conta as mediações dessa mesma experiência, não se trata de recusá-la, mas sim de negá-la. Negação esta em sentido dialético, ou seja, critica e questiona o que há de imediato na experiência para em seguida tomar em consideração o mediato nela contido. Como consequência, poderá advir a construção de um saber que se dá à medida que se caminha no processo analítico. E por se tratar de uma construção, não há nenhum sentido pronto ou dado, não há a possibilidade de uma garantia prévia acerca da verdade das interpretações.
Valoriza-se o caráter instituinte em detrimento do instituído. Mais precisamente, trata-se de pensar esse processo como formatividade, isto é, como um fazer formativo tal, que enquanto faz, nega o feito, o instituído, e inventa o por fazer e o modo de fazer. (Frayze-Pereira, 2002).
Por isso é que se diz na Teoria dos Campos que o Método Psicanalítico é dotado de espessura ontológica, que é uma forma de conhecimento peculiar que produz aquilo que estuda, sem que deixem de ser corretas suas descobertas. Este fazer analítico se dá, portanto, de forma reflexiva, que não pode mais ser compreendido como uma relação em que Sujeito e Objeto são exteriores um ao outro. Deixa-se assim entrever que considerar a Psicanálise dessa maneira significa considerá-la em uma posição de não pertencimento à ciência do paradigma cartesiano, e aproximá-la do saber ficcional seria mais adequado, uma vez que a linguagem se libera de sua função representativa e seu campo é da ordem não representacional.
Neste ponto, também Lacan concebe o Sujeito como aquele da ordem não cartesiana, e tomou a dialética de Hegel, do senhor e do escravo, para a construção de sua teoria dos quatro discursos. Segundo Miller (1997), ele permaneceu “fiel” a esses paradigmas ao longo de sua construção teórica. Assim, podemos perceber que tanto um quanto o outro autor tiveram que retomar uma enorme quantidade de literatura psicanalítica para demonstrar seus conceitos.
Se por um lado, Herrmann trabalha esse Real associado à noção de Desejo, por outro lado, Lacan o constrói como sendo a causa desse Desejo, e tanto uma quanto outra noção, são arquitetadas sob o signo da irrepresentabilidade acolhida pelo Método Psicanalítico. Neste ponto não há ancoragem, fica faltando o ponto de chegada, uma destinação que vem dizer desse impuxo a produzir a travessia a que se propôs fazer. Isso por fim é o que nos move a escrever, esse ir e vir que será metaforizado por Guimarães Rosa no conto A terceira margem do rio (1968), com o intuito de ilustração do Estranho, do Insólito, que habitam o conceito de Real a que nos remete a leitura roseana. Sob esse prisma, a terceira margem do rio mostra um homem ordeiro, integrado a rotina de um vilarejo, que de repente, resolve abandonar tudo para viver numa canoa, num eterno movimento de ir e vir rio acima, rio abaixo. Esse movimento, que se esgota em si mesmo, sem a finalidade prática de conduzir a algum lugar, extrapola a lógica racionalista, utilitária, para ir ao encontro do indizível, ao impossível, como é relatado no excerto a seguir:

O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim.” (Rosa, 1968, p.34)

Este ponto, que margeia a dimensão do Humano, nos permite concluir com uma aproximação da idéia de Real: diria que o Real nos propicia o margear com o desconhecido, com o estranho, com o estúrdio, com um espaço fronteiriço, com a procura do inexplicado que habita entre o aqui e o lá, entre a vida e a morte, não oferece possibilidade de escolha ou de controle, acontece ao acaso. É algo que a lógica racionalista cartesiana não consegue enunciar porque, talvez, se encontre num outro lugar onde o saber ficcional possa dar conta, uma vez que sua potência é da ordem subversiva, pois está para além de todo campo representacional.

NOTAS
[1] C.f. Roudinesco ( 1998 ) A heteratarologia, é um termo inventado por Bataille para designar a ciência do irrecuperável que tem por objeto o “improdutivo”, os restos os excrementos Existencia outra, expulsa de todas as normas: loucura, delirio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FRAYZE-PEREIRA, João (2002) Psicanálise, Teoria dos Campos e Filosofia: A Questão do Método. In: BARONE, Leda Maria Codeço (coord.) O II Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos: O psicanalista hoje e amanhã. São Paulo: Casa do Psicólogo.
HANS, Luiz (1996) Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.
HERRMANN, Fabio (1991) Andaimes do Real. São Paulo: Brasiliense.
HERRMANN, Fabio (1997) Clínica Psicanalítica, A Arte da Interpretação. São Paulo: Brasiliense.
HERRMANN, Fabio (1997) Psicanálise do Quotidiano. Porto Alegre: Artes Médicas.
HERRMANN, Fabio (1999) O que é Psicanálise para iniciantes ou não. São Paulo: Editora Psique.
HERRMANN, Fabio (2001) O Divã a Passeio. São Paulo: Casa do Psicólogo.
HERRMANN, Fabio (2001) Introdução à Teoria dos Campos. São Paulo: Editora Casa do Psicólogo.
KAUFMANN, Pierre (1996) Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
LACAN, Jacques (2002) O seminário, livro 3: As psicoses [1955-1956]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
LACAN, Jacques (1998) Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
LACAN, Jacques. O simbólico, o imaginário e o real. (*) Conferência de 08 de julho de 1953 na Sociedade Francesa de Psicanálise. Acessado em 02/06/10.
LACAN, Jacques (*) R.S.I. O Seminário [1974/1975]. Copia xerografada.
MILLER, Jacques Alain (1997) Lacan elucidado: palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
ROSA, João Guimarães (1968) A terceira Margem do Rio. In: Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: José Olympio.
ROUDINESCO, Elizabeth (2008) Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras.
ROUDINESCO, Elizabeth. & PLON, Michel (1998) Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

ROSA ELIZA Z. NAVES é psicóloga, mestranda em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia
E-mail: rosa-eliza@bol.com.br
JOÃO LUIZ LEITÃO PARAVIDINI é professor, doutor, docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia
E-mail: jlparavidini@gmail.com
MARIA LÚCIA CASTILHO ROMERA é professora, doutora, docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia, Membro efetivo da SBPSP, Membro do CETEC
E-mail: mluciaro@terra.com.br

10 de março de 2011

EDITORIAL ANO II


A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE completa em março seu segundo ano de existência. O CORPO EDITORAL gostaria de parabenizar a todos pelo esforço e pela participação nesta empreitada psicanalítica.
Desde FREUD, percebemos a importância da LEITURA e da ESCRITA para o desenvolvimento da Psicanálise. Com seus precisos levantamentos bibliográficos nos Artigos Teóricos, bem como na arte de sua escrita, ora romanceada nos Historiais Clínicos, ora metodologicamente perfeita nos Artigos Técnicos, FREUD nos deixou esse legado e essa deliciosa obrigação: LER e ESCREVER.
Ficamos, portanto, com esse desafio: perpetuar a LEITURA e a ESCRITA.
Uma LEITURA e uma ESCRITA que permitam um diálogo mais profundo com outras áreas de saber, sempre com o intuito de fazer retornar a Psicanálise às suas origens, ou seja, ser um instrumento de compreensão do Humano, caminhando em direção a uma Ciência Geral da Psique.
Neste ano, estamos organizando um Primeiro Encontro de Autores e Leitores da REVISTA, com o propósito de favorecer o diálogo com esses dois lugares: LER e ESCREVER.
Lançamos também a série NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE, com o objetivo de publicar material sobre a História de nossa ciência-arte: bibliografias de importantes psicanalistas; os principais historiais clínicos; bem como notas sobre figuras importantes que indiretamente influenciaram a Psicanálise.
Infelizmente, ainda não nos foi possível concretizar a publicação de um primeiro número impresso da REVISTA, porém, o projeto continua vivo e estamos nos empenhando para que o mesmo aconteça.
Mais uma vez, muito obrigado a todos que diretamente ou indiretamente participaram desta empreitada.

CORPO EDITORIAL