31 de março de 2011

VULTOS PSICANALÍTICOS NO OSCAR 2011 (Thomas Ferrari Ballis)


Recentemente tive o prazer de conferir dois ótimos filmes em cartaz nos cinemas da cidade: “Cisne Negro” (Black Swan) de Darren Aronofsky e “O Discurso do Rei” (The King’s Speech) de Tom Hooper. Além de serem ótimos, em minha opinião, ambos receberam inúmeras indicações ao Oscar 2011, cerimônia que aconteceu no dia 27 de fevereiro.
Resolvi escrever sobre os filmes, não somente por se tratar daquelas películas em que sentimo-nos tentados a indicar aos convivas, mas porque, ao vê-los, somos capturados pelo movimento inconsciente de analisá-los. Mas que espinhoso fazer este nosso, não? Será que não podemos simplesmente ir ao cinema? Tendo a dizer que Não! Quando escolho a palavra “captura”, trato desta nossa forma maquinal e automática de digerir a experiência, que por vezes não escolhe hora, local, nem se ganha convite para tal. Nunca sabemos de antemão, ao entrarmos no cinema, se seremos capturados por esta força motriz. O que está em jogo, e aí determina, é o exemplar da sétima arte que esta por vir.
Antes das pequenas notas sobre os filmes, trago à baila a peculiaridade de nosso fazer. Se a Psicanálise se presta a dar conta do que é Humano, estamos letrados não somente aos espinhos do ambulatório ou consultório, basta-nos o que se espalha nas esguelhas entre humanas, no “lugar da captura”. Em nossa rua, bairro, cidade, outras, o “lugar da captura” está ali, diante da obra de arte, está entre as duas mãos que seguram o universo de um livro. Está na platéia, naquela viagem. Esta em toda produção humana.
Este papo é bom, não acha?

Mas voltando aos filmes, começaremos pelo “Cisne Negro”, que conta a história de Nina (Natalie Portman), uma jovem bailarina dedicada que acaba de conseguir o papel principal em uma produção de “Lago dos Cisnes”, aclamada peça de balé dramático do compositor russo Tchaikovsky.
Nina logo se depara com a responsabilidade de ocupar o papel principal da produção, a pressão psicológica exercida pelo seu diretor (Vincent Cassel) e a concorrência com outras bailarinas da trupe, levarão Nina aos frangalhos psíquicos.
Logo no começo da viagem do Cisne, já é perceptível em Nina (e na bela atuação de Natalie Portman) o semblante de algo latente (como uma leve coceira nas costas), que se revela na busca pelo cisne perfeito e na relação da protagonista com a mãe (Bárbara Hershey), uma bailarina fracassada que deposita patologicamente o seu mundo na filha. Em uma das cenas, para comemorar a conquista da filha, a mãe lhe presenteia com um grande bolo de festa, que após ser recusado por Nina, a mãe ameaça jogá-lo no lixo. As expressões faciais da mãe de Nina falam por si só, mudam como relâmpago, são afiadas e cortantes, psicotizantes.
O diretor da produção esta contente com o “Cisne Branco” de Nina, no entanto, passa a exercer enorme pressão acerca de uma boa atuação do “Cisne Negro”. O diretor não sabe que, ao convocar a sexualidade de Nina para expressar o “Cisne Negro”, está abrindo as portas de sua patologia latente. A metáfora do branco-negro é esplêndida. Mas vai custar a Nina os poucos recursos que mantém sua sanidade aparente.
Sem mais delongas, e para que não se perca a característica de “pequenas notas”, o que vemos em “Cisne Negro” é uma extraordinária aula sobre a Paranóia, que só o didatismo da sétima arte, seus novos recursos tecnológicos (além da ousada direção de Darren Aronofsky) e a sua velha capacidade de nos transportar para dentro da tela, e de uma vida, pode nos proporcionar. Fica o convite.

No segundo filme, “O Discurso do Rei”, somos levados a história de George (Colin Firth), que após ver seu irmão Edward (Guy Pearce) abdicar o trono inglês, se vê obrigado a assumir o trono da Inglaterra. Tal empreitada é assumida por George a contragosto, uma vez que ele sofre de uma terrível gagueira, que o acomete principalmente durante o pronunciamento de discursos. Após consultar-se com inúmeros especialistas, George chega ao consultório de Lionel Logue (Geoffrey Rush), um “especialista da voz” que através de seus métodos nada convencionais ajudará George a livrar-se do mal que o acomete.
George está cansado de especialistas que não conseguem ajudá-lo, por isso, quem bate a porta de Lionel Logue para pedir ajuda é sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter). O que se inicia a partir daí é o que Freud chamou de “Experimento Preliminar”: as primeiras entrevistas que precedem à entrada de qualquer paciente em análise. “O Discurso do rei” expressa magistralmente a dialética encontro-desencontro que compõem as primeiras entrevistas em Psicanálise. O fato de Lionel Logue não saber que a sua frente está a rainha da Inglaterra é o equivoco perfeito para a vinda de George, e mesmo após saber que está sendo requisitado para tratar o rei, dispara “Minha casa, minhas regras!", recusando-se a ir de encontro ao rei.
Os desencontros se sucedem com a vinda de George, que estranha o recinto logo ao chegar. O “estranho” se revela nas perguntas de Lionel: “não estou aqui para discutir assuntos pessoais... estou aqui porque gaguejo!”, dispara George, afirmando não voltar. Mas ele volta, após ouvir sua própria voz recitando normalmente versos de Shakespeare, gravada por leonel.
Colin Firth e Natalie Portman são os grandes concorrentes ao oscar de melhor ator e atriz, no entanto, Geoffrey Rush encarnado por Leonel Logue é quem merece o nosso prêmio. Em poucas vezes no cinema foi possível ver um verdadeiro analista em sua atividade. Leonel é disruptivo, provoca em George um vórtice de desencontro consigo mesmo, chacoalha seu espelho e escuta o que não se ouve. Sabe muito bem de onde vem a gagueira de George, e por isso, se utiliza de uma terapêutica de exercícios físicos como simples manejo para suas doses de ruptura, o combustível, que faz George ir de encontro ao incerto de uma “voz” que desconhece.
Leonel se diz um “especialista da voz”, é um analista genuíno sem saber que sabe.

Termino estas notas privilegiando o que considero a pérola do filme, as primeiras entrevistas em Psicanálise. Mas em “O Discurso do Rei” há muito mais: afinal, depois das entrevistas... A Psicanálise.

Soslaio e repressor, aquele olhar do segurança do museu revela “Não se aproxime muito do lugar da captura!”.

THOMAS FERRARI BALLIS é Psicanalista, Membro do Instituto Vórtice de Psicanálise
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