10 de abril de 2011

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: WILHELM FLIESS


Wilhelm Fliess, médico alemão, nasceu em 24 de outubro 1858, em Arswalde; vindo a falecer em 13 de outubro de 1928, em Berlim.
Personagem pitoresco, amigo íntimo de Sigmund Freud e teórico da bissexualidade, Fliess pertence à longa linhagem de sábios prometeicos da literatura romântica, cujos traços se encontram na obra de Thomas Mann.
De uma família de judeus sefardins, sua mãe observava os ritos religiosos, tradição que Wilhelm não seguiu. Teve um irmão natimorto antes de seu nascimento e uma irmã um ano mais jovem, Clara, que morreu de pneumonia quando Wilhelm tinha vinte anos. Seu pai era comerciante de cereais e suicidou-se pouco depois de Wilhelm completar dezenove anos. Ele não falou desse  nem a Freud, nem a seus filhos, que só descobriram a verdade após a morte de Fliess.

Fez seus estudos de medicina em Berlim. Em 1883 montou consultório como clínico geral, dedicando-se depois a Otorrinolaringologia. Sua clientela cresceu rapidamente, bem como sua notoriedade. Viajava muito. Esteve em Paris em 1886, um ano antes de seu encontro com Freud, a cujo curso assistiu em Viena. Foi o início de sua amizade, a qual deu lugar a uma abundante correspondência, de 1887 a 1901, com um pico em 1899. Fliess casou com uma vienense oriunda do círculo de pacientes de Josef Breuer, Ida Bondy, e nasceram vários filhos dessa união: Robert (1895), que virá a ser um psicanalista de renome após sua emigração para os Estados Unidos; Pauline (1898); Conrad (1899); e uma filha natimorta em 1902.  Freud faz-se tratar por Fliess e apaixona-se por seus trabalhos, nos quais colabora. Os dois homens encontram-se cerca de uma vez por ano.

Fliess conhece Freud através de Josef Breuer. Os dois jovens médicos estavam então sob a influência da escola alemã de Hermann Von Helmholtz. Ambos se interessavam pela sexualidade, procurando na Medicina e na Ciência de sua época os meios de construir uma nova teoria biológica e darwiniana da vida psíquica do Homem. Sua amizade foi curta, mas apaixonada, como são habitualmente essas aventuras iniciáticas de uma juventude à procura de identidade intelectual, e foi acompanhada de uma riquíssima correspondência, da qual infelizmente só se conhece a parte escrita por Freud.

Adepto de uma teoria mística e organicista da sexualidade, Fliess era uma espécie de duplo de Freud. Dominado por uma visão paranóica da Ciência, misturava as teses mais extravagantes (e também as mais inovadoras) sem conseguir organizá-las em um sistema de pensamento adequado à realidade.  

Fliess teve primeiro a idéia de uma correlação entre os órgãos sexuais e o nariz, ao que dá inicialmente o nome de Neurose Nasal-reflexa. Em maio de 1895, estando sua mulher grávida do primeiro filho, ele tem a revelação da Teoria dos Períodos, como solução para o enigma do determinismo do momento da fecundação e da escolha do sexo da criança. A partir desse instante, formaliza-se o seu sistema, o qual postula a existência de uma harmonia cósmica regida por ciclos solares, contado em dias e anos, entre eventos pessoais, familiares e sociais, mas proveniente também dos reinos vegetal e animal. Todos os acontecimentos vitais são estritamente determinados por dois períodos: um masculino, de vinte  dias; e um feminino, de vinte e oito dias, os quais se transmitem de geração em geração, de mães a filhos. A essa bi-periodicidade bissexual soma-se a idéia de uma bilateralidade que representa a marca de simultaneidade dos dois períodos do corpo, sendo a metade esquerda portadora de qualidades e dos defeitos do sexo oposto do sujeito.  Freud interessou-se por vários aspectos dessa teoria, mas duvidou da coesão das três “bi”, essencial para Fliess - o que Fliess interpreta como uma rejeição. Considerou-a de forma persecutória e, começa em 1900, começa a distanciar-se de seu amigo, sem que Freud se desse conta disso.

A ruptura definitiva só se deu em 1906, simultaneamente com a publicação de sua obra fundamental sobre a “Teoria dos Períodos: O Curso da Vida”. Fundamentado em uma Biologia Exata, Fliess redige um violento panfleto (“Em defesa de minha própria causa”), no qual acusa Freud de ter servido de intermediário para o plágio de sua obra, cometido por dois jovens autores vienenses, Hermann Swoboda e Otto Weininger, que se teriam apropriado, cada um deles, de uma metade de suas idéias.

Após o rompimento com seu amigo, Freud destruiu todas as cartas que tinha recebido dele e concebeu uma Teoria da Paranóia a partir de seu caso, que aplicou ao mesmo tempo a Daniel Paul Schreber.  

A ignorância e a censura sobre as relações entre Freud e Fliess contribuíram para urdir a versão da auto-análise de Freud como origem mítica da Psicanálise, a qual projeta sobre a origem o esquema posterior de uma cura analítica clássica: Fliess não foi o analista do desejo inconsciente de Freud, mas representou uma figura antecipatória do suposto saber do sujeito em Biologia, servindo por isso, para unir o desejo de analista de Freud a uma ciência futura (de cujo domínio cada um tinha uma parcela).

Após seu rompimento com Freud, Fliess continuou se dedicando à prática médica, cuidando de vários analistas (Alix Strachey e Karl Abraham, entre outros) e escrevendo numerosos artigos, sempre sobre os mesmos temas, reunidos em livros. Fez parte, com Ivan Bloch e Ernest Haeckel, da Sociedade Médica de Berlim para as Ciências Sexuais e a Eugenia. Vítima de um câncer do intestino, faleceu em 13 de outubro de 1928. À sua morte, foi saudado como um grande médico berlinense.