27 de maio de 2011

A IMPORTÂNCIA DE LER E ESCREVER PARA A CONSTITUIÇÃO DO HUMANO (Eliana Ribeiro da Silva)


Apresentado no Encontro “LER & ESCREVER” (mai/2011)


Quando recebi o convite da REVISTA para contribuir com esta mesa, com o tema “A importância de ler e escrever para a constituição do humano”, olhei muitas vezes para estas palavras escritas tentando encontrar o fio condutor para esta conversa, num tom mais pessoal - logo, humano, como o tema requer -, pois este é um assunto com que venho cotidianamente trabalhando com meus alunos em sala de aula, e eu não queria dar aqui um tom científico. Assim comecei interrogando a mim mesma o próprio tema.

- Em que medida ler e escrever me constituem humana?

- Como e enquanto me constituo humana?

- Por que leio e escrevo?


Então, fui me deixando entrar no tema pensando no próprio caminho que trilhei desde a descoberta da importância da leitura e da escrita em minha vida, pois não me parecia autêntico falar disso sem refletir (e expor algumas experiências) de como em mim se deu esse processo - e não consegui fazê-lo senão praticando os atos de que aqui venho tratar. Portanto, foi escrevendo e lendo que fui me lendo e me reescrevendo neste texto, na busca das respostas que formulei em torno do tema.

Desse modo fui tentando organizar as idéias, começando a pensar que ninguém se torna humano fora do contexto sócio-histórico-cultural em que se insere, e que, portanto, a leitura que fazemos – ou não - do Mundo a que pertencemos nos instaura na possível leitura que fazemos de nós, no Mundo com o Outro. E talvez esta atitude de, desde muito cedo, olhar o Mundo a minha volta e a mim mesma neste Mundo com os outros, foi me fazendo perceber a necessidade de buscar me compreender sempre um pouco mais, pois me parece que é justamente esta condição de seres inacabados que nos constitui humanos, na medida em que temos a necessidade de buscarmos mais de nós na relação com o Outro. Então, me parece que os atos de ler e de escrever nos possibilitam a busca do encontro com o humano que podemos vir a ser. Assim, penso que encontrei uma resposta possível a esta primeira questão: ler e escrever me constitui humana na medida em que não me basto em mim, na medida em que me estendo no Outro, em que me completo me relacionando com o Outro para me ler melhor – consequentemente, para me reescrever. E esta reflexão me remete a Harold Bloom:


Ler bem é um dos grandes prazeres da solidão. Ao menos segundo a minha experiência, é o mais benéfico dos prazeres. Ler nos conduz à alteridade, seja à nossa própria ou à de nossos amigos, presentes ou futuros. Literatura de ficção é alteridade e, portanto, nos alivia a solidão. Lemos não apenas porque, na vida real jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura, mas, também, porque amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar e amorosa.” (p.15)


O modo e o tempo - aqui colocado não como marco, mas como processo de nossa constituição como humanos -, me faz pensar acerca do que lemos, portanto dos objetos de leitura  com que nos deparamos enquanto buscamos também nos fazer na existência que construímos. E aqui lembro Paulo Freire ao dizer que:


A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre texto e contexto...” (p.11) 


Assim, penso que encontrei uma resposta possível a esta segunda questão: constituo-me humana ao tomar distância dos objetos que se me apresentam na busca de me entender na relação com eles, enquanto dou sentido ou busco sentido aos meus atos no processo de existência.

E penso também, que na medida em que vamos lendo o Mundo, vivido e escrito, vamos nos lendo nele, bem como lendo as palavras que o Outro escreveu, tentando desvendar o Mundo. Assim, vamos dando outra forma ao Mundo. Na verdade, vamos tentando desvendar um mundo que transborda dentro de nós, e é preciso desvelá-lo. Logo, pelo ato da escrita vamos como que nos aliviando de um turbilhão de sentimentos e pensamentos que nos sufocam. Ao escrever, vamos nos criando e nos descobrindo, de modo que o ato de escrever vai se tornando um ato de apreensão da realidade, da nossa realidade, mas já filtrada, uma vez que a língua escrita é língua de reflexão, diferentemente da falada. A este respeito Affonso Romano de Sant’anna nos lembra que:

As idéias e sensações só existem quando convertidas em linguagem. E o ato de ir escrevendo é um ato de construção. Por meio dele é que o autor vai descobrindo o que pensa. É isto: a escrita viabiliza o conhecimento de si e do mundo. Depois que escreve, muita vez o autor se admira: mas eu pensava assim? Eu não sabia que eu sabia disto! Eu não sabia que eu era capaz de pensar assim! Por isto que escrever é um ato de criação, uma epifania.” (p.30)

Assim, penso que encontrei uma resposta possível a esta terceira questão: leio para tentar ler a mim, me colocando nos contextos em que os enredos criados, por exemplo, pela literatura, me posicionam frente às questões e/ou tramas neles postas, para ir me descobrindo e assim me fazendo e refazendo.

Não posso deixar de lembrar o que isto me causou quando li, ainda menina, “Demian” de Herman Hesse, depois “Pai contra Mãe” de Machado de Assis e mais recentemente, “Sobre o Amor” de Ferreira Gullar.

Escrevo para ir ao encontro de mim mesma, na relação que constituo com o Outro, escrevo para ir me aliviando, me renovando. Portanto, acho que posso dizer que a escrita é um gesto de autoconhecimento, e também de explicação da realidade, da de cada um.

Assim, ao final, ao menos da escrita deste texto, que não significa para mim o final da reflexão acerca do tema, considero que ler e escrever para a constituição do Humano encontra sua importância na possibilidade mesma de irmos suavizando nossa existência com o Outro, na medida em que a Literatura nos põe em contato com ingredientes, como a Estética e a Ética, pois que permitem o relaxamento das tensões com que o cotidiano tenta nos engolir.

E para encerrar, não poderia deixar de dizer que o exercício de tratar sobre este tema, refletindo, escrevendo, lendo e falando, me possibilitou resgatar um prazer muito caro: o de escrever.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BLOOM, H. (2001) Como e Por Que Ler. Rio de Janeiro: Objetiva.
FREIRE. P. (1989) A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez.
SANT’ANNA, A. R. (2000) A sedução da palavra. Brasília: Letraviva.

ELIANA RIBEIRO DA SILVA é Doutora em Educação pela PUC-SP; Mestre em Linguística e Semiótica pela USP; Graduada em Letras pela UNICID; Pesquisadora; Autora e Escritora na área de Leitura; Professora da Educação Básica e do Ensino Superior; Leitora atenta do Mundo e da Palavra.
Email: ribeiroeli@ig.com.br