9 de junho de 2011

A CONSTRUÇÃO DO ARTIGO “DURANTE AS FÉRIAS: DUAS NOTAS SOBRE O COTIDIANO” (Thomas Ferrari Ballis)



Apresentado no Encontro “LER & ESCREVER” (mai/2011)



Ao aceitar o convite para participar deste encontro, atraído pelo convidativo tema “Ler & Escrever”, confesso ter sido acometido por uma estranha surpresa, acerca da escolha deste texto, por parte dos organizadores. “Durante as Férias: Duas Notas sobre o Cotidiano” é uma de minhas primeiras tentativas de escrever sobre Psicanálise e sua articulação com temas cotidianos.

O livro de Roberto Saviano, os contos de Anton Tchekhov e Horacio Quiroga, grafites e intervenções urbanas de Banksy, são os ingredientes manifestos que permeiam esta tentativa de aventura analítica, mesclada com imagens de uma expedição ao Norte do Brasil. Durante sua construção, de forma proposital, procurei alcançar uma narrativa de devaneios, em ritmo de férias, em detrimento de uma linguagem formal e conceitos teóricos psicanalíticos.

Relendo-o hoje, percebo que uma das forças que me levam a escrever, este e outros textos, possui intima e curiosa ligação com o tema proposto para este encontro. Foi nos primeiros anos do curso de Psicologia que me deparei com sérias dificuldades para me expressar razoavelmente através de um texto. A educação recebida nas escolas públicas, a falta de professores e as festejadas aulas vagas, se transformavam pela primeira vez em indignação na Universidade. Talvez seja por isso, que haja em “Durante as Férias”, uma ingênua indignação a respeito de temas minimamente desenvolvidos, como política e educação. Assuntos que ainda hoje me incomodam sobremaneira.

Através dos textos, tento reaver um tempo outro, uma espécie de dívida com a nossa língua.

Dentre as forças que me levaram a escrever “Durante as Férias” nem todas são palpáveis como a supracitada. É claro que há prazer, mas no início há somente um comichão, certa dose de mal estar e algumas idéias cozinhando. Uma das piores coisas de se estudar Psicanálise é que você fica sabendo que a loucura dá as caras quando a comunicação estanca. Então seguindo esta sucessão de fenômenos o que vem depois é aquele frio na barriga. O ato de escrever é sem dúvida, um dos artifícios humanos profiláticos de evitação da loucura.


Pensemos por um momento no pai da Psicanálise. Um escritor compulsivo, que produziu vinte e três volumes de mais ou menos quatrocentas páginas cada um, cerca de nove mil páginas em quarenta anos. Somem-se a isso as inúmeras correspondências com seus interlocutores. Veremos que não há um simples prazer que encerra a gama de forças a qual Freud se submeteu para deixar tamanha documentação acerca de seu desenvolvimento científico. Nas cartas e textos freudianos vemos o embate de um homem e sua criação, vemos sua auto-análise, conversas com seus “Eus”, contornos em torno da coisa, do indizível de sua ficção científica.
Por falar em Leitura & Escrita, recentemente tive o prazer de ler um texto sobre um comovente discurso de nossa presidenta a respeito dos “brasileirinhos”, mortos em um massacre no Rio de janeiro. Em uma aguçada investigação do diminutivo “brasileirinhos”, o autor não só rompia com o predomínio da ênfase sobre a idéia de tamanho, como desenvolvia uma bela analise dos desvelamentos emocionais do afeto e delicadeza, que transbordavam deste simples diminutivo. O teórico em questão era Pasquale Cipro Neto, um professor de português em sua coluna semanal na Folha de São Paulo.

Ao ler esta coluna, fui levado imediatamente ao tema de nosso encontro, a importância do domínio de nossa língua, de sua complexidade dentro e fora da sala de análise. Tenho pensado constantemente que, para além da interpretação, da ruptura e construção de sentido, do dissecar da palavra de um sonho, a dificuldade que se impõe ao analista seja, talvez, a de compreender a gama de afetos que jorra a palavra da boca. Àquelas horas da sala de análise onde as lâmpadas piscam a meia luz.

O que seria de um analista sem seu método, sua técnica e teorias psicanalíticas? Mas penso também: o que seria de um analista sem os adjetivos?

Segundo o poeta polonês Adam Zagajewski “O adjetivo esta para a língua assim como a cor para a pintura”.

Em meus devaneios sobre a frase do poeta, imagino um teleférico representando o universo da linguagem, a carona de nossa espécie, o passeio do nascimento à morte do organismo. Para aqueles que conseguem a carona, durante o trajeto, aquele desconforto de primeira viagem. Se arruma daqui, se ajeita dali, e o clima vai se sentindo na pele, aumentando a intensidade, culminando numa metamorfose de imagens que vão se delineando em paisagens. Há lápis para o contorno da paisagem de verbos e substantivos, há também uma aquarela de cores de adjetivos. E a viagem vai seguindo, horizontes vão do estranho ao familiar, numa dialética de espelho, compondo a singularidade de uma realidade psíquica até o fim do passeio, até a morte do organismo.


Em “Durante as Férias”, não havia Freud, Saviano, Quiroga, Banksy ou Tchekhov. Havia apenas um viajante, que diante da linha do trem simplesmente para, olha e escuta. Um transeunte tentando dar sentido as paisagens do horizonte, aproveitando seu transitório passeio de teleférico.


THOMAS FERRARI BALLIS é psicanalista.
Email: thomferrari@yahoo.com.br