9 de agosto de 2011

PAIXÃO EM ABUNDÂNCIA (Diego Tiscar)


Seria pequeno o atrativo do conhecimento, se no caminho que a ele conduz não houvesse que vencer tanto pudor” (NIETZSCHE)

Este é um texto sobre a “bunda”, e pretende ser um texto psicanalítico, disruptivo em sua raiz e terminologia.
A Sexualidade vive em meio a uma neblina densa, cujos ingredientes são o Asco, o Ridículo e a Moral (o que torna a tarefa de iniciar este Artigo tão difícil - esta é a terceira tentativa de iniciar meu texto e ainda não estou completamente satisfeito com ela).
O que posso dizer sobre a bunda? Paixão Nacional? Alvo de piadinhas e juras de amor eterno?
Recuso-me a escrever nádega: bunda é mais cru - enche-se a boca para falar bunda -, nádega restringe-se aos laboratórios de Anatomia. Nádega é o que se olha, bunda é o que se vê. Camilo José Cela, Prêmio Nobel de Literatura em 1989, que faz surgir riqueza literária das inesgotáveis possibilidades expressivas encontradas na linguagem que alguns costumam chamar de “escrachada” ou “prostibular”, nos diz:
Quem usa o palavrão, diz o palavrão naturalmente. E quem pensa o contrário, azar seu, é porque talvez viva em uma espécie de campânula pneumática, no limbo.” (p.12) [9]
Como disse, este é um texto sobre a bunda. Mas não sobre qualquer bunda, “pois os palavrões têm de estar no lugar certo” (p.12) [9], como nos alerta o literato espanhol. Não se trata aqui da bunda do campo/relação homossexual, nem da bunda compreendida no campo/relação sadomasoquista, nem tampouco da bunda simbolizada pelo campo/relação obsessivo-compulsivo. A bunda aqui é aquela significada pelo Carnaval, pela televisão – uma bunda estética que dá contorno de status quo. 
A amada bunda vem somando centímetros em sua circunferência, já ultrapassando a barreira dos 100 cm. A bunda não é apreciada apenas no nosso país, e muito menos se trata de um fenômeno recente. Em um primeiro momento tentarei entender esta adoração (tendo que, para isso, transitar pelo entrelaçamento dos campos descritos acima), para então compreender seu crescimento.

I. AMADA BUNDA
Seria exagero chamar a bunda de amada ou paixão nacional? Se observarmos uma criança vivenciando e representando seu primeiro amor, aparecem corações estilizados, daqueles que vemos em chocolates com os quais rapazes presenteiam suas namoradas, ou meninas preenchem com o nome de seus amores secretos. Ao inverter esta bela imagem teremos o desenho de uma bunda (também poderiam ser seios, mas vamos ficar na parte de baixo). Nesta representação o Amor poderia ser apenas o "cenário para o sexo"?
Estamos no “campo das inversões” - a relação entre Amor e Sexo nos leva as “segundas intenções” - o Amor não existe isento de emoções “baixas”, como nos fizeram acreditar os príncipes encantados que salvam suas princesas nos contos de fadas da Disney. Melanie Klein identificou a origem do Amor no lactante: enquanto o bebê chucha no seio da mãe, ele não apenas absorve o leite materno, como se excita. Logo a excitação genital substitui a oral, a qual nunca desaparece e desempenha papel fundamental em nossas vidas [1].
A excitação pelo contato com a mãe gera forte ódio contra o pai, porém, o pai também é um objeto de prazer ao qual o menino se excita. Nas meninas a excitação oral se desenvolve forçando um deslocamento do Objeto para o pênis do pai: ela passa a ter fantasias de roubar o pai de sua mãe e ter com ele outros bebês [1]. O "be-a-ba" da Psicanálise nos ensina que o Amor em si não é nada romântico, ao contrário, envolve sentimentos de ódio, posse e voracidade, que constituem a base da Inveja.
Mesmo sabendo desta gênese do Amor, ainda encontramos pessoas chocadas com qualquer reflexão que não seja a romantizada. Não sou contra o romance, e dissecar o Amor cientificamente o torna chato. Porém o julgo necessário, principalmente ao falar da bunda: esta moralização do Amor é a mesma que prega a igualdade entre os homens, a Democracia, o utilitarismo e o Socialismo, a exaltação da Piedade e o sacrifício de si mesmo [2]. Esta moralização até certo ponto se torna necessária para vivermos em sociedade, na convivência com outros e com nossos próprios pais: “Por trás de toda essa 'Moral' há um desejo secreto de Poder. O próprio Amor é apenas um desejo de posse; o namoro é um duelo e o matrimônio uma dominação” [2]. Sem o manto protetor da Cultura, a vida seria impossível: como odiar quem se ama?
O conflito mais básico e, portanto, fundamental do homem civilizado é: “o que fazer com a sexualidade?”. Nosso impulso mais primitivo permeia as relações humanas. Se no início existe o Ato, todo o resto fora criado para justificar e conter a Sexualidade. Este ajuste entre Id e Superego nunca será satisfatório para nenhuma das duas partes.
Se pensarmos que a civilização não passa de uma representação superegoica, a repressão do nosso lado primitivo torna-se mais selvagem e ameaçador: naturalmente o lactante irá desenvolver fantasias e manter um Objeto internalizado (Imago) para cada objeto real - o qual será alvo de ataques sádicos que visam a destruição do mesmo [3].
Cada vez que o Objeto for atacado, sua Imago sofrerá o mesmo ataque, com a diferença de que este irá buscar vingança, sedenta pelo sangue do lactante. Esta situação angustiante é diminuída pela presença da mãe cuidadora, que influencia a Imago furiosa e devoradora, transformando-a em objeto integrado. A tendência é a diminuição dos ataques sádicos por parte do bebê, que em um futuro próximo irá transformá-lo em um molecote com bons modos. 
Após o período de latência, homens e mulheres passam a se interessar por pessoas fora de sua família. A primeira atração se dá pelo visual: já que não podemos ver a índole de uma pessoa, vemos seu corpo, seu agir e seu vestir. É a partir da escopofilia que a bunda salta aos olhos. Porém, esta admiração pode ser contestada: se ela é quase unânime, podemos pensar na mesma como um fenômeno social.
Não existe nenhum componente fisiológico ou pulsional que explique tamanha admiração. Temos países onde a fonte de Amor são os seios; as bundas grandes tornam-se motivo de escárnio (como nos Estados Unidos pré-latinização). Sendo assim, a única explicação que me vem é a Cultural: o amor à bunda é da ordem da aprendizagem.
Deste amor podemos traçar um diagrama: a bunda é a maçã, o Superego é Deus, e nosso Id a serpente. Podemos admirar a bunda, mas não podemos devorá-la: quantas vezes ouvimos que o ânus é orifício de excreção e não serve para atividade sexual? O ânus, e por consequência a bunda, está relacionado às escatologias e ao odor fétido.
Neste momento brota uma pergunta: qual a diferença entre o sexo anal e o vaginal quando ambos são vistos com pudor? O termo escatológico também pode ser designado para os impulsos mais primitivos. Klein nos conta que a maior ansiedade de criança não é a Imago devoradora do pai ou a da mãe, mas sim dos dois, fundidos em uma única entidade a partir do ato sexual. A partir desta unidade surge uma poderosa figura ameaçadora - a mulher com pênis, que nada mais é do que um deslocamento do medo da castração [3].
Perante a ameaça da castração deslocada para a vagina, nada mais lógico do que evitar a vagina, local do pênis castrador, focando-se em outras cavidades. Tal relação deslocada não ocorre, pois a superação da ansiedade representa a adesão das normas sociais como pré-requisito para vida em sociedade. Nas palavras de Melanie Klein, a ansiedade primitiva é necessária [3].
Tal relação lógica não acontece. Culturalmente ainda existe a tese de que o sexo anal é vexatório, impróprio e doloroso, somado a incrédula idéia de que o sexo existe para reprodução da espécie. Estas teses não deixam de ter fundamento. Ao proibir-se o sexo anal, criam-se fantasias sádicas de onipotência do pênis. O homem “dota seu pênis, na imaginação, de poderes destrutivos, e equipara-o a feras devoradoras e assassinas, armas de fogo, e assim por diante” [3]. Desta forma existe uma fantasia de destruição relacionada ao apreço pela bunda, não por inatismo, mas por uma proibição cultural: as relações anais não passariam, desta forma, de um ataque ao superego.
Ainda estamos no “campo das inversões”. Existe uma outra versão onde o sexo anal  mantém a virgindade. Estou falando de uma prática antiga, utilizada por donzelas que desejam manter sua virgindade, e não relutam aos prazeres sexuais. O sexo anal foi utilizado por séculos como uma brecha na manutenção da pureza de mocinhas, e ainda hoje tal prática se apresenta.
Freud nos alerta que diversas culturas não valorizam a virgindade: tribos primitivas mantinham um homem para desvirginar as noivas antes da noite de núpcias. O mestre vienense atribuía tal prática a frustração edípica. O sexo anal, simbolicamente, protegeria o homem do ódio deslocado contra o pai que não aderiu aos encantos de sua filha [4].
Como já foi dito, na sexualidade o ridículo acompanha o asco: o riso nos oferece válvulas de escape, aponta para as brechas da censura. O riso tira o encanto da sexualidade, permanecendo apenas o deboche do escatológico - como nos lembra Herrmann: “O que, como sempre acontece com as grandes generalizações , mistura certa verdade no engano”[5]. Um dos exemplos dados por Freud em “O Tabu da Virgindade”, onde algumas tribos possuíam instrumentos de madeira para desvirginar as donzelas [4], retira o ridículo da fórmula. Por sua vez, a música "Cú e boca", escrita e composta por Rogério Skylab, retira o asco, permanecendo o ridículo: “Linda, os cabelos cacheados/Os seus olhos esmeraldas/E a pele de cetim/Mas se a beijava/Vinha um cheiro de esgoto (...) Um dia desses, eu beijava o seu pinguelo/Quando assim bem de repente, Ela peidou (...) o cheiro da sua boca/Era igual/Depois disso eu concluí,/cú e boca é tudo a mesma coisa”.
São nestas duas exposições cruas que percebemos como a atração pela bunda (como qualquer outra atração sexual) é uma farsa tão bem construída que acabamos por aceita-la sem questionamentos.
A relação existente entre o sexo vaginal com a civilização se faz por afirmações antropológicas de que nossos ancestrais copulavam de quatro imitando os animais inferiores. A mesma relação se dá no mito da criação, onde Adão relaciona-se pela primeira vez com Lilith, demônio criado entre os lagartos e, portanto, não humano.
Lilith não era humana: sua figura é descrita como coberta por saliva e sangue - o qual representa o sangue menstrual, uma metáfora a sexualidade livre de todos os tabus. A saliva é substituto para a Libido [6]. A figura apela tanto para o asco (sangue menstrual), como para o ridículo da mulher lasciva (da qual rimos e chamamos de puta), o que, portanto, fascina. O próprio Adão, que num primeiro momento repudia sua parceira devido à intensidade da sexualidade, perde-se entre suas pernas logo depois.
O que nos interessa no mito de Lilith abrange sua gênesis. Lilith havia sido criada com pó negro e excremento [6], o que garante sua inferioridade perante Adão. Lilith, a lasciva, surge como suja, vinda da merda, portanto do ânus. Em uma comparação entre Lilith e Eva, esta diferença fica ainda mais clara: Lilith gera repulsa, enquanto Eva tem sua beleza descrita.
Lilith nunca é descrita como mulher, mas como demônio. Apesar da repulsa inicial, Adão rende-se a seus encantos. A relação sexual de ambos é descrita como uma cópia da cópula dos animais: “com a cara de um voltado para as costas do outro” [6].
A relação de ambos fora logo perturbada. Lilith não aceitava ficar por baixo, exigindo uma relação “natural”. Após diversas discussões, Lilith rompe com Adão e com o próprio Deus, e alça vôo em direção as margens do rio vermelho, "um lugar maldito", onde copula com demônios. Furioso, Deus extermina os filhos de Lilith, a qual parte para o mundo dos humanos, assassinando os homens e seus filhos durante a noite[6].
Temos no mito de Lilith a condensação do horror provocado pelo Tabu: a lua negra, ao exigir sair de baixo de seu marido, representa todos os desejos do Inconsciente que tentam vir à luz e são barrados pelo superego, que como Deus, pune severamente o ser querelante. Lilith é reclusa ao rio vermelho, ao sangue menstrual, ao Inconsciente, onde, só ali, poderá gozar - mas mesmo assim ela é atacada pelo superego. Como resposta pela repressão, Lilith vem durante a noite, invade nossos sonhos e se deleita de prazer. O resultado é percebido no dia seguinte: o medo e a culpa.
Porém este desejo é primitivo, animalesco, "sujo": tudo aquilo que é banido pela cultura é condensado e deslocado para a bunda, um lugar da anatomia “escolhido” pela cultura, de onde não poderá sair, sob pena de severas críticas, tornando-se livre apenas em nossas fantasias.

II. AS BUNDAS GIGANTES
A bunda sempre esteve em destaque. Uma das músicas brasileiras mais famosas, que assume papel de destaque pelo mundo, "Garota de Ipanema", foi feita para uma bunda. A posição da bunda começou a mudar na década de 90 com a criação da personagem Tiazinha: pela primeira vez a bunda perde um rosto e um nome, assumindo a vanguarda. Tiazinha não tinha nome e nem rosto, ela representava um fetiche (posição que a bunda ocupa). Da Tiazinha surgiram outras mulheres semelhantes.
A bunda passou de inspiração para tema musical de grupos de Axé Music. Carla Perez foi a primeira "celebridade" a ultrapassar a barreira de um metro de bunda somando 102 cm. Nos anos 2000 esta barreira fora ultrapassada por outras mulheres-fetiche: Carol Miranda alcança 112 cm de quadril, enquanto a Garota Melancia ostenta 121 cm, só para ficar nestas duas "abençoadas por Deus".
Esta nova bunda está longe de ser um fenômeno restrito as "famosas". Uma rápida olhada em nossa sociedade e encontraremos mocinhas voluptuosas em todos os aspectos de suas características sexuais; o mesmo acontecendo com o corpo dos homens, que estão mais robustos. Chegamos finalmente ao verdadeiro objetivo deste Ensaio: por que este crescimento?
Nietzsche definia nossa "realidade" como um fluxo caótico e sem sentido - a realidade inexiste. Posteriormente, Freud cravou o Tabu como máscara e tentativa de organização deste caos. Herrmann foi além, dizendo que a realidade é uma construção. Retornando ao filósofo, este afirma que a relação sujeito/predicado gera a ilusão de uma realidade pré-existente. Peguemos a bunda: aquela bunda é bela, aquela bunda é desejada ou aquela bunda é perfeita. Porém não existe bunda, existe o desejo condensado e deslocado.
"Totem e Tabu" foi uma tentativa de Freud em comprovar a universalidade do Complexo de Édipo a partir de um fundamento histórico/antropológico [7]. O conceito de Sociedade está apoiado em um tripé: totemismo, exogamia e proibição do incesto, o que significa dizer que toda e qualquer ordem social nasce da proibição de dois desejos - proibição do incesto e do assassinato do pai. "Em outras palavras, Freud introduziu dois temas na antropologia: a lei moral e a culpa. Em lugar da origem, um ato real: o assassinato necessário; em vez do horror ao incesto, um ato simbólico: a internalização da proibição" [7]. 
Se a Sociedade nasce como farsa aceita e inquestionável, resta apenas o Ato, enquanto a realidade se monta ao redor dele. As últimas décadas foram marcadas pelo culto ao corpo e a supervalorização da beleza. O corpo, e por consequência a bunda, assume papel primordial na atração sexual tornando-se o objetivo da sedução.
Esta sedução pelo corpo - bunda voluptuosa = atração sexual - constitui em si a realidade construída, aceita e propagada. Não de maneira racional, mas aceita sem questionamentos como uma atuação: o mínimo de articulação racional e o máximo de valor simbólico [5]. Inclusive as criticas contra o excesso da erotização da bunda são atuações trabalhando em função da moralidade, que proíbe a satisfação do desejo, mesmo quando este se encontra deslocado e condensado. Se o Ato é uma impotência mascarada pela onipotência [5], não existe muito o que fazer, a não ser não fazer parte deste destino social.
Está posto que uma das principais formas de atração é a bunda, mesmo quando se rejeita verbalmente esta idéia. Podemos pensar nas consequências quando o Desejo não é representado: não ocorre uma representação simbólica, ele encontra escoamento simbólico e sua descarga se dá no corpo. Este é o poder do Ato. Mas seria possível a somatização de um desejo transformar a genética das futuras gerações? Poderíamos apresentar uma prototeoria pautada no Absurdo. Imaginemos um diálogo entre Freud e Darwin, no qual o grande viajante resolvesse aplicar a Teoria da Evolução das Espécies sobre o Imaginário humano.
Darwin descreveu que as espécies mais comuns e espalhadas são as que mais se modificam. O autor de "A origem das Espécies" vai além, afirmando que as espécies dominantes são as que produzem mais variações: "Partindo do princípio de que as espécies são apenas variedades bem talhadas e definidas, fui levado a supor que as espécies dos gêneros mais ricos em cada país devem oferecer mais variedades do que as espécies dos gêneros menos ricos, porque, cada vez que as espécies afins se formaram (falo das espécies do mesmo gênero), muitas variedades ou espécies nascentes devem em regra geral, estar atualmente em via de formação" [8].
Darwin está nos dizendo que as espécies mais ricas (aquelas que possuem mais variedades) tendem a produzir tipos diferentes - a espécie humana é muito variada. Além dos gêneros caucasiano, negro, asiático e indígena, teremos variações em cada uma destas raças. Em cada país temos variações desta espécie e nestas variações subvariações. Pegando como exemplo o Brasil, fora a mistura racial, observaremos uma grande variedade. É esta variedade que está em mutação constante. No que diz respeito à bunda, ela está se modificando para fins evolutivos (pelo menos no imaginário desta prototeoria).
O evolucionista crava que a seleção natural modifica os dois sexos em relação aos hábitos da espécie. Tal modificação é frequente e recebeu o título de Seleção Sexual. A Seleção Sexual está relacionada à luta pela sobrevivência entre indivíduos do mesmo sexo - é este embate que garante as diferenças e modificações na mesma espécie: "Todas as vezes que os machos e as fêmeas de qualquer espécie animal têm os hábitos normais de vida, diferindo apenas do ponto de vista da conformação, da cor ou da ornamentação, estas diferenças são devidas quase que unicamente à seleção sexual" [8].
Darwin nos afirma que para as mulheres atraírem a atenção dos homens, elas podem modificar sua estrutura genética no decorrer das gerações, adaptando seu corpo ao desejo sexual dos homens. Tal mudança é gradual e acaba por caracterizar as espécies. Não é por acaso que a mulher brasileira é conhecida internacionalmente por sua bunda. Tal característica anatômica se desenvolveu a fim de garantir a atração de um possível parceiro para o sexo, ou para ela poder integrar estruturas sociais como namoro, casamento ou outros tipos de união existentes ou que podem vir a existir.
Indo além, o amor pela bunda - assim como a tendência para o crescimento da mesma - é o destino sexual de nosso país e sociedade, tendo em vista que esta nova profissão feminina, "a gostosa profissional" - desde assistentes de palco até modelos que fotografam para revistas masculinas -, não passa de um reflexo deste destino e, ao mesmo tempo, objeto de crítica e ataques vorazes contra o próprio destino e a virtual incapacidade de fugir do mesmo.
Ecce homo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] KLEIN, M. (1937) Amor, Culpa e Reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
[2] DURANT, W. (s.d.) A Filosofia de Nietzsche. Rio de Janeiro: Ediouro.
[3] KLEIN, M. (1932) Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual do menino. In A Psicanálise de Crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
[4] FREUD, S. (1918 [1917]) O Tabu da Virgindade (contribuições à psicologia do amor III). Edição eletrônica, 2002.
[5] HERRMANN, F. (2001) Andaimes do real II: Psicanálise do Quotidiano. 3ª edição. São Paulo: Casa do Psicólogo.
[6] SICUTERI, R. (1985) O mito de Lilith nas versões bíblicas em Lilith. In Lilith: A Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
[7] ROUDINESCO, E & PLON, M. (1998) Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
[8] DARWIN, C. (1859) A Origem das Espécies. São Paulo: Folha de São Paulo.
[9] CELA, C. J. (1995) Saracoteios, Tateios e Outros Meneios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.


DIEGO TISCAR é psicólogo clínico.
Email: dtiscar@gmail.com

3 de agosto de 2011

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: KARL ABRAHAM


KARL ABRAHAM, psicanalista alemão, um dos primeiros discípulos de Freud, nasceu em 03 de maio de 1877 (Bremen, Alemanha) e faleceu em 25 de dezembro de 1925 (Berlim, Alemanha), aos 48 anos de idade, vítima de uma doença nos pulmões. Encontrou Freud pela primeira vez em novembro de 1907, numa visita que lhe fez em Viena, onde foi incorporado ao grupo de seus colaboradores mais próximos (o Comitê dos Sete Anéis – em função dos anéis entregues por Freud, como símbolo de confiança). Estabeleceram um laço de amizade que durou até seu falecimento. Em uma ocasião, Freud se referiu a ele como “meu melhor aluno”. Ainda em 1907 estabeleceu-se em Berlim, onde iniciou uma clínica psiquiátrica. Tinha grande capacidade de ensino, tendo realizado certo número de análises didáticas. Assistiu a todos os Congressos da Associação Psicanalítica Internacional realizados até sua morte, tendo sido eleito presidente da Associação em 1924 e reeleito no ano seguinte.

Abraham acabou seus estudos em Medicina em 1901 e entrou em contato com o grupo psicanalítico de Zurique, através de Jung. Em 1906, casou-se com Hedwig Bürgner, com que teve um casal de filhos. A filha, Hilda Abraham, também psicanalista, escreveu uma biografia sobre o pai “Karl Abraham: Biografia inacabada”.

Em 1908, fundou a Sociedade Psicanalítica de Berlim, que presidiu até sua morte. Sua iniciativa o transformou no primeiro psicanalista alemão a ter um consultório psicanalítico particular.

No congresso de Munique da Associação Internacional Psicanalítica de 1913, Abraham coordenou a oposição contra Jung, quando este renunciou à presidência da Associação e Abraham foi nomeado presidente provisório. A partir do nono congresso presidiu a instituição durante quinze anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, criou uma unidade psiquiátrica na frente oriental e esteve quatro anos a cargo da mesma.

Foi analista de Melanie Klein entre 1924 e 1925, e preparou também outros psicanalistas ingleses. Na Alemanha, atuou como mentor de um influente grupo de analistas, como Karen Horney, Helene Deutsch e Franz Alexander.

De acordo com Ernest Jones, na Introdução do livro de Abraham “Teoria Psicanalítica da Libido”, esse autor desenvolveu e publicou diversos artigos interessantes sobre sonhos e mitos, ejaculação precoce, neuroses de guerra e o complexo de castração nas mulheres.

Seus estudos sobre a evolução da libido e a formação do caráter, publicados no livro acima citado, tratam de conceitos que só vieram a ampliar as idéias psicanalíticas do início do século XX. Abraham fez aproximações entre a melancolia e a neurose obsessiva, ressaltando que nessa última, nos casos graves, a libido não pôde desenvolver-se de maneira normal, porque o amor e o ódio, as duas tendências opostas, estão sempre interferindo uma com a outra. Um alto grau de ambivalência pode ser percebido em ambas as enfermidades. Indicou que os sintomas obsessivos se achavam presentes, com certa frequência, nos casos de melancolia, e que os neuróticos obsessivos estão sujeitos a estados de depressão.

Entretanto, destacou que apesar de sua relação comum com a organização sádico-anal da libido, a melancolia e a neurose obsessiva mostram diferenças fundamentais não apenas no que se refere à fase à qual a libido regride no início da doença, mas também na atitude do indivíduo para com o objeto, já que a melancolia abandona o objeto, ao passo que o obsessivo retém, sendo que o processo de regressão na melancolia não se detém no nível mais antigo da fase sádico-anal, mas retrocede em direção a organizações ainda mais primitivas da libido.

Abraham atribuiu às fixações orais e à boca como zona erógena a dificuldade de algumas crianças de dormirem ininterruptamente à noite; acordam e fazem saber que desejam o seio ou a mamadeira ou encontram um substituto.

Deu destaque ao desmame e às suas consequências, destacando que as mães neuróticas retardam o desmame dos filhos por um longo tempo, pois o ato de oferecer o seio para ser sugado é fonte de prazer. Em contrapartida, algumas crianças neuroticamente predispostas reagem à tentativa do desmame ingerindo pouco leite, obrigando a mãe a ceder, em alguns casos podendo essa dificuldade persistir até a idade escolar.

Ainda tratando do processo da melancolia, demonstrou que em alguns casos onde o paciente recusa-se a ingerir qualquer alimento, ele está, na verdade, se punindo por seus impulsos canibalescos. Conclui que o melancólico está sempre tentando fugir de seus impulsos sádico-orais, enquanto que por trás desses impulsos existe o desejo de uma intensa atividade de sugar.

Apesar de ter sido um dos discípulos mais fiéis de Freud, Abraham expressou algumas dúvidas sobre a idéia do instinto de morte. Seu comportamento otimista lhe fez receber com interesse a oferta de Samuel Goldwyn, que, em 1924, quis produzir um filme sobre a psicanálise, com Freud como assessor. Abraham viu nesta oferta uma ocasião extraordinária para popularizar a psicanálise, mas se chocou com o repúdio indignado de Freud e de outros colegas.

Como Jung, Géza Róheim e Otto Rank, Abraham tratou de utilizar a teoria psicanalítica para explicar os mitos, lendas e tradições populares. Em sua concepção, “o mito é um fragmento da vida psíquica infantil dos povos, contém (em forma velada) os desejos da infância dos povos”.

Colaborou com seu mestre no estudo dos transtornos maníaco-depressivos, aos quais Freud dedicou seu ensaio “Duelo e melancolia” (1917). Revisou a teoria freudiana sobre as etapas do desenvolvimento da criança (oral e anal), propondo dividir cada uma delas em duas fases.

Em sua obra abordou também outros temas, como a oralidade, as psicoses, as neuroses de guerra e o vício em drogas.


FONTES
FEBRAPSI http://febrapsi.org.br/resenha.php?texto=resenha_Abraham
WIKIPÉDIA http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Abraham