12 de setembro de 2011

O PÉ DE INFÂNCIA (Juan Salazar)


Estive ausente: conjuntivite. No reencontro com Josué ele me recebe com um presente, um canudo envolto num papel qualquer. Trata-se dum calendário evangélico. Em seu cabeçalho, letras garrafais anunciam:
IMPRESSIONANTE! O SENHOR JESUS OPERA SINAIS E MARAVILHAS: FAZ PARALÍTICO ANDAR, MUDO FALAR, CEGO VER, SURDO OUVIR E TODOS OS TIPOS DE MILAGRE.
Jesus, o onipresente de muitas de nossas andanças. Igreja Universal, Deus é amor. Quando você vai aceitar Jesus? – Josué repete.
Agradecido o presente, saímos para a rua. Seu presente é como uma tentativa de cura da minha conjuntivite – digo, na tentativa de curar minha ausência também. Cura não, milagre; afinal, Jesus faz cego ver e inclusive o olho parar de arder: faz ver o ausente no presente. 
Ele à frente, sem destino: o caminho se repete.  A Igreja Universal se aproxima, penso, aflito. Para onde vamos hoje? – interrompo o caminho. Para onde você quer ir? – ele responde, quebrando seu silêncio. Que tal a praça da paineira?
Ele aceita o destino sugerido. Não diz exatamente um sim, mas simplesmente segue letárgico na direção da praça, arrastando o pé, com seu moletom azul encapuzando-o, a boca babando, seu paninho sempre em mãos.
Chegamos à praça. Ao fundo avistamos um parquinho. E o parquinho é todo um mundo numa grande caixa retangular preenchida de areia úmida. Escorregador, trepa-trepa, balanços e gangorras: os brinquedos possuem carga de abandono – enferrujados. Poças da água repousam debaixo dos balanços. Um homem dorme ali: esconde a face do sol com um boné. Árvores e arbustos mais ao fundo, galhos e pequeninos frutos já secos no chão. 
Josué é o parquinho. E a um passo deste outro mundo, porém a léguas de distância deste, permanecemos ali, parados, olhando de frente o terreno intocável, como quem avista algo desconhecido lá longe. E Josué estático.  
Vamos até lá? – arrisco.
Um passo aproxima a distância. Ele caminha até o balanço e segura uma das correntes: paralisa novamente. Aproximo-me e seguro a outra corrente: imito-o para depois dar um pequeno impulso. A harmonia logo vem e assim balançamos juntos, num vai e vem sutil. Balançamos o nada ou ninguém.
O que te lembra esse balanço?  Prisão – ele responde.
Com certo esforço, decide se sentar num dos balanços. Abre bem suas pernas para não inundar os pés na água. E com breves impulsos, mantendo os pés em terra firme, a criança inicia a viagem. 
Quando eu era pequeno, não tinha balanço. Josué lembra-se e brinca o que não brincou, preso na e da infância. Agacho-me, recolho um galhinho e risco no chão de areia. Brinco também. E de desenhar na areia, você já brincou?
Na gangorra ele não sabe como se sentar. Ensino-o e iniciamos a brincadeira com certa cautela. E aos poucos vamos brincando. O que você escreveu na areia? Nada, eu apenas rabisquei. Jesus escreveu na areia... E o que foi que Jesus escreveu na areia? Foi quando iam apedrejar uma mulher. Jesus então protegeu a mulher? Como uma criança...
Como uma criança desprotegida, uma mulher. Josué-criança-mulher protegido por Eu-Jesus. E ser mulher é da ordem do apedrejamento: mulher profana, prostituta, Maria Madalena. Quem não tem pecado que atire a primeira pedra.
Na gangorra inicia-se um jogo de dominação e confiança. O impulso das pernas vai e vem, sobe e desce. Ora sou mantido no topo, com as pernas no ar, sem o impulso de Josué para me fazer descer, permanecendo preso lá em cima: ele me detém ali. Ora apenas gangorreamos, como bons meninos, confiando que nenhum dos dois deixará o outro cair lá do topo. Pois vale lembrar que numa gangorra exige-se confiança de ambos.
Você prefere ficar em cima ou embaixo? – ele pergunta. Pois se tratará de um ensaio ao coito, brincadeira sexual? Ele: a mulher - ela prefere ficar em cima ou embaixo?
Saímos do mundo-parquinho e nos dirigimos para um banquinho que fica logo ali. Sentamos. Silêncio. Crianças aparecem para brincar no parquinho e numa envoltura ímpar denunciam a desenvoltura de Josué. Ao longe, a mãe chamando as crianças.
Um rapazinho se aproxima e me entrega um panfleto: MEDICAMENTOS POPULARES. Mostro-lhe o panfleto: silêncio.  Apesar de estarmos juntos ele entregou só pra você – ele nota. Acho que entregar para mim é o mesmo que ter entregado para os dois – digo me dando conta da desmedida da fala, mas também indicando o caráter especial e de proximidade do encontro (após longos meses de silêncios mortais). Mas sendo assim ele poderia ter entregado a você ao invés de mim – e prossigo depois de uma pausa: Juntos, porém diferentes.
Concorda e se diz a criança, se sente como tal, ou “aquele que se faz de criança” e me nomeia seu protetor, guardião. Juntos, porém diferentes.
[E aceitar Jesus é a possibilidade dele me aceitar, sentir-se protegido, guardado e poder brincar. Por tantas andanças com Josué me senti perdido e entediado com sua insistência sobre “quando eu iria aceitar Jesus” (esse Jesus que ainda se limitava ao campo religioso). Não conseguindo significar tal experiência, permaneci junto com ele no engodo que é a dúvida e a não-aceitação, incitado por esta recusa à transferência, à imersão neste mapa que se começava a trilhar]
Ele se levanta lentamente e retorna ao parquinho pisando na muretinha que o circunda. Contorna a infância. Vira-se pra trás e me procura com o olhar, eu que ainda permanecia sentado, levanto-me e sigo-o. Passamos por aquela árvore, a que oferece pequeninos frutos. Josué pára e olha admirado.
Parece um pé de infância – me diz, espontâneo.  Parece mesmo – respondo admirado com a poesia, com este arranjo do encontro, do tudo mais perdido, arranjo interpretativo. Eis o fruto da infância, da experiência analítica.
Ele volta a pisar na areia e dirigindo-se ao trepa-trepa balbucia: Infância roubada. Josué escala arduamente as grades do trepa-trepa, explora o seu interior, vai do chão ao topo e de lá me pergunta: O que significa o AT* pra você? O AT é esse pé de infância – respondo. Pé de infância roubada – diz. Pé de infância brincada – rebato. Silêncio. É, roubada não, brincada – ele reafirma como quem pensou melhor sobre o assunto.
Tomamos o rumo de volta ao CAPS. Como ninguém sabe, nem percebe que existe um lugar como esse. Um paraíso – Josué comenta, fascinado. Saímos do paraíso.

*Acompanhamento Terapêutico

JUAN SALAZAR é psicanalista e poeta; escreve no blog El Jardín http://eljardin.posterous.com
Rua Pará, 65 – cj. 81
Higienópolis – São Paulo, SP
Tel.: (11) 2856.1177