22 de dezembro de 2011

NOSFERATU: A SOMBRA DO DESEJO (Diego Tiscar)


"As terríveis experiências de vida fazem-nos pensar se o seu protagonista não é, ele mesmo, algo de terrível." (Nietzsche)
 
Possuo duas grandes paixões nesta vida: o Cinema e a Psicanálise. Como toda paixão, estas são ciumentas, disputam pela titularidade, se digladiam para ver quem assume o destaque em meu texto. Psicanálise e Cinema ou Cinema e Psicanálise? Talvez tenha sido este o motivo pela demora em escrever uma crítica psicanalítica/cinematográfica. Talvez esteja sendo simplista comigo mesmo, evitando um mergulho direto no vórtice. Quem é o autor deste artigo? O analista? O cinéfilo? O escritor? Ou aquele que se acredita um escritor?
Esta é a grande dúvida do elenco da filmagem de Nosferatu: na fantasia "A Sombra do Vampiro" quem é o protagonista do filme? Quem interpretará o Conde Orlock? Dúvida que rapidamente torna-se nossa, do público, do ator. Vampiro? Drácula? Uma pobre criatura solitária ou um assassino cruel?
Este brilhante suspense com doses dramáticas nos conta uma versão do absurdo sobre a filmagem de Nosferatu. Por não ter conseguido comprar os direitos do romance "Drácula", o diretor F. W. Murnau (John Malkovich) modifica o nome das personagens e trás a trama para Berlim. Seu grande trunfo, no entanto, é o misterioso ator Max Schreck (Willem Dafoe), um vampiro, cujo pagamento será a eternidade e o pescoço da protagonista.

Já possuímos três grandes temas para construção deste Ensaio:

a) O filme versa sobre o Absurdo, o Irreal, um vampiro fingindo ser um ator que interpreta um vampiro. Temática digna do ultimo filme dos Looney Tunes, dirigido por Joe Dante, onde um agente secreto finge ser um ator que interpreta um agente secreto nos cinemas para ocultar sua identidade como agente secreto. Qual a diferença destas situações? Schreck, cujo sobrenome em alemão significa susto, é repugnante, sua presença em cena incomoda aliando-se ao ridículo da situação, existe apenas o sombrio, a atração pelas trevas. Tal sensação mostra-se idêntica nos filmes "Nosferatu" (1922) e "A Sombra do Vampiro" (2000).

b) É fato verídico que os produtores de Nosferatu não conseguiram comprar os direitos do romance "Drácula" e modificaram os nomes das personagens. Como consequência, a viúva de Stoker mandou queimar as cópias do filme, alegando plágio. O brilhante diretor alemão fugiu, levando consigo a única cópia. A pergunta a ser feita é: Orlock é Drácula? Assisti ao filme de 1922, li o romance e posso dizer, sem nenhuma dúvida, são personagens diferentes. Mas não é a esta identificação que estou me referindo. Muda-se o nome, muda-se a personagem, muda-se o indivíduo.
Um ditado americano diz que se rosas possuíssem outro nome continuariam sendo rosas. Não, não seriam rosas: estas frágeis flores de vida curta, cobertas por espinhos, tingidas com a cor do sangue, perderiam seu correlato com o amor caso mudassem de nome. Quem é esta personagem criada para "Nosferatu"? É aquele que acredita ser um vampiro, mas sabe não ser Drácula - não existe nada antes, apenas a sombra de Drácula que o guia na sua construção. Conde Orlock é o extremo oposto do vampiro criado por Bram Stoker.

c) Por que um ser eterno desejaria a eternidade? Durante o filme, o vampiro comenta o romance "Drácula" dizendo que o livro é triste - o Conde dos Cárpatos passou 400 anos sem criados, na mais completa solidão. O momento mais triste, segundo Nosferatu, teria sido quando este foi flagrado por seu "hospede" pondo a mesa. Nosferatu se questiona: Drácula se lembraria de seus hábitos humanos? Sim, com eles viria o passado glorioso, a decadência, por fim o ostracismo - destino de todo ator que brilhou na juventude e perdeu os aplausos na velhice.

Nosferatu se diferencia de Drácula em seus servos. Orlock não possui a capacidade de gerar noivas como Drácula, ele não pode criar outros vampiros, ele nem mesmo se lembra de como se tornou vampiro, dizendo apenas ter passado a noite com uma mulher por quem se apaixonou - esta nunca mais foi vista por ele, tornando-se uma pintura que se perde no tempo. O que justifica o outro argumento de Murnau: honrar o contrato do vampiro entregando a este Greta, a estrela da filmagem. Finalmente me aproximo do verdadeiro objetivo desta crítica psicanalítica.
Nosferatu é ansioso. Este ser poderoso, terrível, que faz homens tremerem e povoados esconderem-se por detrás de cruzes, mostra-se aflito. Sua presença perante Greta muda, sua postura aristocrática/animalesca/intimidadora mostra-se excitada, repleta de expectativas. Seus tiques de roedor dos esgotos o controlam - Nosferatu admira sua presa. A impressão que temos é que Dafoe criou sua personagem unicamente para a cena em que este morde o pescoço de Greta - ele ordena ao diretor que empunhe sua câmera e avança sobre a garota com luxúria, sua mão explora o seio da atriz extasiada pelo prazer de ser consumida em sangue e satisfação, cria-se desta forma uma das cenas mais eróticas do cinema.
Seria "A Sombra do Vampiro" um filme de terror? Não, ele é um filme sobre a destrutividade, sobre o incômodo, sobre a angústia, sobre a solidão. É um filme sobre o desejo, mas a cima de tudo um filme sobre a necessidade da frustração do desejo, sim, "A Sombra do Vampiro" é um filme sobre este terror - "Só há duas tragédias na vida: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é consegui-lo" (Oscar Wilde).
Nosferatu é o homem desejante, reflexo do homem comum, ridículo em sua metalinguagem que se procura no outro, e asqueroso na intensidade do que se deseja. "Das formas de tal projeto de união, a aglutinação total seria a mais clara testemunha deste anseio. De dois faz-se um (...) parece que se deseja o outro aniquilado em sua individualidade" [1]. A descrição do desejo dada por Herrmann é expressa na figura do Nosferatu de Dafoe - seu trincar de dedos, o arranhar de unhas, os tiques nervosos revelam a ansiedade, os assassinatos dos membros da equipe são um movimento masturbatório, para aliviar a ansiedade até o ato final, a cena de sua morte, onde finalmente poderá desfrutar-se de Greta.
Durante a filmagem Greta olha para o espelho e não vê o reflexo do vampiro, ela entra em pânico, precisando ser sedada para dar sequência ao filme e receber as presas do príncipe das trevas. Ao ser atacada ela não existe, resta apenas seu corpo a ser desfrutado com total volúpia. Herrmann nos diz que a pulsão sádica torna-se substituto da elaboração do outro durante o ATO sexual - a "lacuna insuportável entre sujeito e objeto" é anulada [1]. Fico parado na frente do computador, lendo estas palavras, penso em como poderia discordar. Não acho que sadismo seja o termo correto.
Se fosse possível criar um ambiente artificial em laboratório onde se pudesse saciar o desejo em sua forma mais "pura", apenas para fins de observação, esta seria a realização mais brutal e sanguinolenta que se possa ter consciência. Os cientistas envolvidos certamente perderiam sua humanidade antes mesmo do término do experimento, recorrendo ao canibalismo. O apocalipse bíblico, a chuva de fogo e enxofre, as torturas no inferno, a figura de Plutão devorando seus filhos não se aproximariam do ATO da satisfação do desejo. Sadismo é uma palavra muito inocente para descrever tal gozo.
Uma cena invade meus pensamentos, a de um homem devorando sua própria mão com volúpia - o prazer que leva à morte - mesmo assim não nos aproximamos do que é o desejo. A simples possibilidade de imaginar seria suficiente para nos destruir. Mas como podemos ver Nosferatu se alimentando de maneira tão sensual? Mesmo sabendo que ele representa o humano, não o sentimos como humano.
Ao ser atacada Greta exprime prazer, não existe medo, rancor ou desespero em seus olhos, apenas satisfação em ser destruída pelo monstro - mais humano do que nunca - ao se afastar da moça deitada na cama, fica nítida sua linguagem pelo olhar: "volte, não pare". Por isto ele para e ela deseja. O diretor continua filmando, ele dá a ordem para o Vampiro. Mas quem é o vampiro?
Lembrem-se, Nosferatu exprime a união do asco e do ridículo, ele não é sujeito é objeto - o asco é o reconhecimento das vísceras, é o que vem de dentro; o ridículo é o extremo oposto, que se afasta do humano [1] dando a Nosferatu suas orelhas pontiagudas, unhas compridas, expressão de roedor. Ele existe para satisfazer nosso desejo. Murnau filma Nosferatu invadindo o corpo de Greta apenas para o nosso prazer.
Preparo-me para terminar este artigo... Já passam das 00h50m e estou preocupado, temo romper o frágil equilibro existente na composição do fascínio por Nosferatu. Temor infundado, eu sei, infundado pela necessidade de impedir a satisfação deste desejo e manter nossa humanidade. Nosferatu também é um mecanismo de defesa.
Concluindo: "A Sombra do Vampiro", filme de 2000, é uma película deliciosa para aqueles que se enteiam pela psicanálise, e altamente recomendado para quem aprecia uma boa produção cinematográfica. Aconselho a quem quer que esteja lendo este artigo que procure pelo filme em sua locadora mais próxima, não para fins psicanalíticos, mas para uma boa noite cinematográfica. Lembre-se de apagar as luzes.

“A Sombra do Vampiro”
Estados Unidos, Luxemburgo, Reino Unido (2000)
Direção: E. Elias Merhige

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
[1] HERRMANN, F. (1991) Andaimes do real I: O método da psicanálise. 2ª edição. São Paulo: Brasiliense.

DIEGO TISCAR é psicanalista.
Email: dtiascar@gmail.com

5 de dezembro de 2011

A FRESTA (Marcos InHauser Soriano)



O que é o Amor? – Um conto simples, dito de muitas maneiras.
(ÉMILE ZOLA)


Ela se viu assim, de repente, a surgir perambulando pela rua, sozinha, perdida. Uma rua sozinha, uma rua perdida... Uma, dentre tantas delas, a perambular – ato de caminhar sem destino certo. Naquele momento não havia o como pensar, havia apenas um corpo a perambular pela rua sozinha.
Ouvi uma vez, de um velho amigo, que em certa medida o autor se funde com o texto. Não sei bem ao certo se este texto se faz psicanalítico, mas sei que é disto que se trata: de uma fusão, de uma sala de análise, de uma história contada desta maneira. A Sala de Análise comparece onde se presentifica o Analista.

Pra se viver do amor (...) Há que penar no amor (...) Há que apanhar e sangrar e suar (...) E é um veneno medonho (...) É por isso que se há de entender (...) O amor é sacrifício, o amor é sacerdócio. Amar é iluminar a dor (...).” (“Viver do Amor”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

Ela, tempos atrás, por opção, abdicou-se de tantas delas para entregar-se ao Amor, em sua visceralidade, posto que verdadeiramente. Por que duvidar? Há muita legitimidade nesta entrega – por mais que insistamos em não compreender e, portanto, tentar julgar/classificar. Às vezes me questiono qual o lugar do analista em assuntos tão legítimos...
Ela, em um amor incondicional, em busca do Falo, do Pai, talvez... Amor reparador de uma família fragmentada, talvez... Talvez simplesmente amor... Talvez tudo junto, misturado – vórtice.

Histórias de Amor são histórias humanas. Histórias humanas vão, incontestavelmente, ao encontro de um destino – poder-se-ia dizer do Destino. A criatura humana nasce, e nascendo, vai ao encontro da morte – velha ideia freudiana.
Esta história, a história dela, dentre tantas outras, não poderia ser diferente. Não escolhemos a maneira com a qual nos encontraremos com o Destino. O amor dela não escolheu, ela tampouco. No amor dela, o Destino se fez no corpo – um tumor maligno, avassalador, Thánatos a invadir seu projeto de felicidade, sua fantasia reparadora.
Ela virou Maria, tentando aproximar-se do filho crucificado. O amor condicionou-se ao amor de mãe. Amor de mãe é incompreendido em sua dimensão vertical, de profundidade, de entrega, de anulação.

Oh, pedaço de mim. Oh, metade arrancada de mim. Leva o vulto teu. Que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.” (“Pedaço De Mim”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

No encontro com o Destino, ela perdeu o Fim – por cansaço, cochilou na hora em que seu amor se foi. Ela não consegue mais dormir. Um cochilo de tirar o sono dela, para o resto da vida desta. Um cochilo que reinveste o não sepultamento do Objeto amado, pois é de Amor que se trata aqui.

Ela pergunta se a entendo? Entendo a perda, o luto, o precipício melancólico da falta de sentido dela, a frustração de um sonho interrompido.
Ela, segurando firme minha mão, diz do dormir que vai se fazendo assim, com um toque humano, um cheiro humano, um som humano, um objeto transicional para uma nova ela possível. Sempre há de se ter outra possível...

Na solda blindada entre Eu e Mundo há uma fresta – Aquiles, apesar do escudo perfeito, esqueceu-se do calcanhar. Nesta fresta a sala de análise faz sua fina cirurgia, criando um rodopio de representações possíveis, interpretando a hierarquia de possíveis colagens Eu/Mundo Meu. Para viver é necessária tanto a blindagem como a fresta. Caso contrário, não teríamos o desfecho da Ilíada, por exemplo.

Outro dia ela me viu voltando de meu habitual cafezinho, pois que meu cafezinho é assim: habitual blindagem/fresta. Ela acreditava em minha figura ali, retida na sala de análise, figura sentada eternamente na poltrona a pensar – Eu/Poltrona pensante. Eis que surge a fresta para ela em meu cafezinho. Minha mão, um toque humano, um cheiro de café, um som de café para além da poltrona, um objeto a transitar fora da sala de análise.

Agora ela é um pouco outra. Faz careta no circo. Representa outras elas no palco, apesar de conservar a cicatriz na carne, na pele – antes de qualquer outra coisa, o Eu é pele; prega outra velha ideia freudiana.
Agora faz por ela, por esta que vai surgindo suspeitosa, caminhando para a dúvida – que tem por Destino a convicção: Outro amor?!? Por que não?!? Agora não... Ela está bem assim.

Oh, pedaço de mim. Oh, metade adorada de mim. Lava os olhos meus. Que a saudade é o pior castigo, e eu não quero levar comigo a mortalha do amor. Adeus.” (“Pedaço De Mim”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
E-mail: misoriano@terra.com.br
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com

2 de dezembro de 2011

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SRA. EMMY VON N.


SRA. EMMY VON N., pseudônimo de FANNY MOSER, paciente de Freud apresentada nos “Estudos sobre a Histeria” de 1985 - a paciente na qual Freud disse ter utilizado pela primeira vez o método “catártico”.
Nascida Fanny von Sulzer Wart, a 29 de julho de 1848 na antiga Livônia, em uma nobre e antiga família de Winterthur, com a idade de 23 anos casou-se com Heinrich Moser, um riquíssimo homem de negócios, quarenta anos mais velho e já pai de dois filhos.
Com a morte do marido, Fanny herdou toda a sua fortuna, sendo inclusive acusada de envenená-Io. A suspeita de assassinato pesaria tão forte sobre o seu destino, que ela nunca conseguiria realizar o seu desejo mais caro: ser recebida nos salões da aristocracia européia.
Levou uma vida errante, teve amantes entre os seus médicos, e acabou apaixonando-se por um jovem que se apoderou de boa parte da fortuna. Fixou-se enfim em Au, perto de Zurique, em um “castelo”, onde faleceu a 02 de abril de 1925.
Suas duas filhas foram marcadas, cada uma à sua maneira, pela neurose materna: a mais velha faria uma brilhante carreira de zoóloga, antes de publicar em 1935 uma obra sobre a parapsicologia, prefaciada por Jung. A mais nova, revoltada contra os valores da classe dominante, da qual ela era um puro produto, se tornaria militante comunista, fundaria em 1928 uma creche em Ivanova (URSS) e publicaria em 1941 um livro de histórias de animais para crianças.
Os animais tinham desempenhado um grande papel na patologia materna. Com efeito, em 1889, Freud decidira tratar Fanny Moser, que manifestava uma grave fobia por certos animais. O tratamento durou seis semanas. Freud lhe fez massagens, prescreveu-lhe banhos e procurou, através do sono artificial, da hipnose e do diálogo, “libertá-Ia” das suas emoções dolorosas. Afirmou que a tinha curado. A 1º de maio de 1889, em uma crise de pânico, ela lhe deu ordem de afastar-se: “Não se mexa! Não diga nada! Não me toque!”. A paciente também fez uma observação cujas consequências práticas Freud não deixou de observar: ela pediu para ele parar de interrompê-la com perguntas e para permitir que ela falasse livremente.
Na história oficial das origens da Psicanálise, atribuiu-se a Emmy von N. a invenção da cena psicanalítica, como se atribuía a Anna O. a invenção do tratamento psicanalítico (por “limpeza de chaminé”). Emmy “fabricou”, dizia-se, as interdições necessárias a uma nova técnica de tratamento, fundada sobre o afastamento do olhar. Depois dela, o médico iria tornar-se psicanalista e instalar-se fora da vista do doente, renunciando a tocá-Io e obrigando-se a escutá-lo. Apesar do mito, Emmy nunca foi curada de sua neurose, nem por Freud, nem por seus outros médicos.
Trabalhos recentes tendem a questionar os diferentes diagnósticos de Histeria, de Melancolia, e até de Esquizofrenia, feitos por Freud e seus sucessores, e consideram que Fanny Moser sofria da Doença de Gilles de Ia Tourette - debate onde reencontramos a antiga querela que opôs Freud aos partidários do organicismo.
O tratamento desenvolvido por Freud com a Sra. Emmy von N., possui para a história da psicanálise um valor especial, pois através dele podemos perceber as dificuldades encontradas por Freud em utilizar a hipnose e a sugestão como instrumentos terapêuticos, assim como encontramos a primeira menção à utilização da regra da livre associação, no momento em que a própria paciente pede ao médico que não a interrompa com tantas perguntas e que a deixe falar livremente sobre suas queixas. O atendimento se desenrolou por aproximadamente seis semanas, durante as quais Freud visitou a paciente todos os dias, duas vezes ao dia. Segundo o seu relato, a Sra. von N., indicada por Breuer, era uma mulher de aproximadamente 40 anos, histérica, que sofria de problemas nervosos. Freud indicou um tratamento hipnótico, acompanhado por banhos quentes e massagens corporais, permanecendo a paciente internada e, portanto, afastada da família e da realidade social. O trabalho terapêutico visava à eliminação dos sintomas de forma a permitir que a paciente retomasse suas atividades junto à família e à empresa que gerenciava. E, embora tenha encontrado um êxito apenas parcial, pois apesar de enfraquecidos em sua intensidade, os sintomas histéricos se tornaram recorrentes, Freud considerou o tratamento bastante satisfatório tecendo inúmeras considerações acerca dos mecanismos psíquicos dos fenômenos histéricos em geral. No curso da exposição do caso, Freud faz inúmeras referências à moralidade repressora vigente à época, na qual imputa a responsabilidade pelos problemas neuróticos desenvolvidos pela paciente. Freud é categórico em ressaltar as qualidades intelectuais e morais da paciente, afirmando que ela possui um caráter impecável e desfruta de um modo de vida bem orientado segundo as regras sociais: preocupa-se sobremaneira com a educação das filhas, consegue gerir a empresa da família com sabedoria, apresenta maneiras requintadas e uma profunda humildade de espírito.
Podemos perceber nessas indicações o referencial paradigmático da moralidade de uma época na qual se reservava um lugar e uma expectativa específicos para as mulheres: moralidade estrita, sexualidade reprimida, cordialidade, maternidade e humildade de espírito como atributos naturais da feminilidade e cuidado com a educação familiar. Ou seja, encontramos nesses referenciais, os pilares estruturais da sociedade burguesa: regras morais rígidas, sexualidade reprimida, valorização do núcleo familiar e individualidade.
Em 01 de maio de 1889, durante sua primeira visita, Freud descreveu seu encontro com Emmy: “Esta senhora, quando vi pela primeira vez, estava deitada em um sofá, com a cabeça apoiada em uma almofada de couro. Ela ainda parecia jovem e tinha características finas, cheia de personalidade. Seu rosto tinha uma expressão tensa e dolorosa, suas pálpebras estavam reunidas e os seus olhos baixos. Falou em voz baixa como se com dificuldade, e seu discurso era, de tempo em tempo, sujeito a interrupções espásticas, no valor de um gaguejo”. Ele também observou o som de “clique” que ela fazia com a língua, quando chateada.
O tratamento era consistente com a prática habitual, que consistia em estadia em uma clínica, separada de suas duas filhas (com quem ela não se dava bem). Freud prescrevia banhos mornos e massagens duas vezes por dia. A paciente foi completamente acessível à hipnose e, neste estado, contou a origem dos medos delirantes e alucinações visuais (ratos, sapos) de que ela sofria, refazendo-os a sua infância.
Em janeiro 1890 Emmy teve uma recaída. Ela foi ver Breuer, queixando-se de distúrbios do sistema nervoso. Ela estava tão agitada que teve de ser internada em um sanatório, fugindo com a ajuda de uma amiga. Sem dúvida, Emmy passou a representar um dos casos referidos por Freud para explicar o abandono da hipnose.
Em maio de 1890, o aniversário de sua primeira terapia, ela voltou para ver Freud - uma terapia adicional que durou oito semanas, até julho. Ela se sentiu melhor, mas sofria de confusão mental, “tempestades na cabeça”, insônia, e os “cliques” e gagueira tinha reaparecido. Freud analisou a origem do retorno destes sintomas e novamente conseguiu eliminá-los.
Na primavera de 1891, Freud viu Emmy von N. em sua casa, onde permaneceu por vários dias para ajudar a resolver os problemas que estava tendo com sua filha mais velha. Ela estava se sentindo melhor, mas Freud retomou o tratamento para eliminar uma fobia de viajar de trem.
Em um adendo que data de 1924, Freud relata que, vários anos após esta última visita, ele conheceu um médico com quem ela havia se comportado de forma idêntica: fácil de hipnotizar no início, em seguida, irritável e sujeita a recaídas. Freud acrescenta que, por volta de 1920, sua filha mais velha tinha escrito para ele, solicitando um relatório – Fanny Moser queria iniciar um processo contra este “tirano cruel” que tinha afugentado suas duas filhas.