5 de dezembro de 2011

A FRESTA (Marcos InHauser Soriano)



O que é o Amor? – Um conto simples, dito de muitas maneiras.
(ÉMILE ZOLA)


Ela se viu assim, de repente, a surgir perambulando pela rua, sozinha, perdida. Uma rua sozinha, uma rua perdida... Uma, dentre tantas delas, a perambular – ato de caminhar sem destino certo. Naquele momento não havia o como pensar, havia apenas um corpo a perambular pela rua sozinha.
Ouvi uma vez, de um velho amigo, que em certa medida o autor se funde com o texto. Não sei bem ao certo se este texto se faz psicanalítico, mas sei que é disto que se trata: de uma fusão, de uma sala de análise, de uma história contada desta maneira. A Sala de Análise comparece onde se presentifica o Analista.

Pra se viver do amor (...) Há que penar no amor (...) Há que apanhar e sangrar e suar (...) E é um veneno medonho (...) É por isso que se há de entender (...) O amor é sacrifício, o amor é sacerdócio. Amar é iluminar a dor (...).” (“Viver do Amor”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

Ela, tempos atrás, por opção, abdicou-se de tantas delas para entregar-se ao Amor, em sua visceralidade, posto que verdadeiramente. Por que duvidar? Há muita legitimidade nesta entrega – por mais que insistamos em não compreender e, portanto, tentar julgar/classificar. Às vezes me questiono qual o lugar do analista em assuntos tão legítimos...
Ela, em um amor incondicional, em busca do Falo, do Pai, talvez... Amor reparador de uma família fragmentada, talvez... Talvez simplesmente amor... Talvez tudo junto, misturado – vórtice.

Histórias de Amor são histórias humanas. Histórias humanas vão, incontestavelmente, ao encontro de um destino – poder-se-ia dizer do Destino. A criatura humana nasce, e nascendo, vai ao encontro da morte – velha ideia freudiana.
Esta história, a história dela, dentre tantas outras, não poderia ser diferente. Não escolhemos a maneira com a qual nos encontraremos com o Destino. O amor dela não escolheu, ela tampouco. No amor dela, o Destino se fez no corpo – um tumor maligno, avassalador, Thánatos a invadir seu projeto de felicidade, sua fantasia reparadora.
Ela virou Maria, tentando aproximar-se do filho crucificado. O amor condicionou-se ao amor de mãe. Amor de mãe é incompreendido em sua dimensão vertical, de profundidade, de entrega, de anulação.

Oh, pedaço de mim. Oh, metade arrancada de mim. Leva o vulto teu. Que a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.” (“Pedaço De Mim”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

No encontro com o Destino, ela perdeu o Fim – por cansaço, cochilou na hora em que seu amor se foi. Ela não consegue mais dormir. Um cochilo de tirar o sono dela, para o resto da vida desta. Um cochilo que reinveste o não sepultamento do Objeto amado, pois é de Amor que se trata aqui.

Ela pergunta se a entendo? Entendo a perda, o luto, o precipício melancólico da falta de sentido dela, a frustração de um sonho interrompido.
Ela, segurando firme minha mão, diz do dormir que vai se fazendo assim, com um toque humano, um cheiro humano, um som humano, um objeto transicional para uma nova ela possível. Sempre há de se ter outra possível...

Na solda blindada entre Eu e Mundo há uma fresta – Aquiles, apesar do escudo perfeito, esqueceu-se do calcanhar. Nesta fresta a sala de análise faz sua fina cirurgia, criando um rodopio de representações possíveis, interpretando a hierarquia de possíveis colagens Eu/Mundo Meu. Para viver é necessária tanto a blindagem como a fresta. Caso contrário, não teríamos o desfecho da Ilíada, por exemplo.

Outro dia ela me viu voltando de meu habitual cafezinho, pois que meu cafezinho é assim: habitual blindagem/fresta. Ela acreditava em minha figura ali, retida na sala de análise, figura sentada eternamente na poltrona a pensar – Eu/Poltrona pensante. Eis que surge a fresta para ela em meu cafezinho. Minha mão, um toque humano, um cheiro de café, um som de café para além da poltrona, um objeto a transitar fora da sala de análise.

Agora ela é um pouco outra. Faz careta no circo. Representa outras elas no palco, apesar de conservar a cicatriz na carne, na pele – antes de qualquer outra coisa, o Eu é pele; prega outra velha ideia freudiana.
Agora faz por ela, por esta que vai surgindo suspeitosa, caminhando para a dúvida – que tem por Destino a convicção: Outro amor?!? Por que não?!? Agora não... Ela está bem assim.

Oh, pedaço de mim. Oh, metade adorada de mim. Lava os olhos meus. Que a saudade é o pior castigo, e eu não quero levar comigo a mortalha do amor. Adeus.” (“Pedaço De Mim”, da “Ópera Do Malandro”, de CHICO BUARQUE, 1979)

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
E-mail: misoriano@terra.com.br
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com