2 de dezembro de 2011

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SRA. EMMY VON N.


SRA. EMMY VON N., pseudônimo de FANNY MOSER, paciente de Freud apresentada nos “Estudos sobre a Histeria” de 1985 - a paciente na qual Freud disse ter utilizado pela primeira vez o método “catártico”.
Nascida Fanny von Sulzer Wart, a 29 de julho de 1848 na antiga Livônia, em uma nobre e antiga família de Winterthur, com a idade de 23 anos casou-se com Heinrich Moser, um riquíssimo homem de negócios, quarenta anos mais velho e já pai de dois filhos.
Com a morte do marido, Fanny herdou toda a sua fortuna, sendo inclusive acusada de envenená-Io. A suspeita de assassinato pesaria tão forte sobre o seu destino, que ela nunca conseguiria realizar o seu desejo mais caro: ser recebida nos salões da aristocracia européia.
Levou uma vida errante, teve amantes entre os seus médicos, e acabou apaixonando-se por um jovem que se apoderou de boa parte da fortuna. Fixou-se enfim em Au, perto de Zurique, em um “castelo”, onde faleceu a 02 de abril de 1925.
Suas duas filhas foram marcadas, cada uma à sua maneira, pela neurose materna: a mais velha faria uma brilhante carreira de zoóloga, antes de publicar em 1935 uma obra sobre a parapsicologia, prefaciada por Jung. A mais nova, revoltada contra os valores da classe dominante, da qual ela era um puro produto, se tornaria militante comunista, fundaria em 1928 uma creche em Ivanova (URSS) e publicaria em 1941 um livro de histórias de animais para crianças.
Os animais tinham desempenhado um grande papel na patologia materna. Com efeito, em 1889, Freud decidira tratar Fanny Moser, que manifestava uma grave fobia por certos animais. O tratamento durou seis semanas. Freud lhe fez massagens, prescreveu-lhe banhos e procurou, através do sono artificial, da hipnose e do diálogo, “libertá-Ia” das suas emoções dolorosas. Afirmou que a tinha curado. A 1º de maio de 1889, em uma crise de pânico, ela lhe deu ordem de afastar-se: “Não se mexa! Não diga nada! Não me toque!”. A paciente também fez uma observação cujas consequências práticas Freud não deixou de observar: ela pediu para ele parar de interrompê-la com perguntas e para permitir que ela falasse livremente.
Na história oficial das origens da Psicanálise, atribuiu-se a Emmy von N. a invenção da cena psicanalítica, como se atribuía a Anna O. a invenção do tratamento psicanalítico (por “limpeza de chaminé”). Emmy “fabricou”, dizia-se, as interdições necessárias a uma nova técnica de tratamento, fundada sobre o afastamento do olhar. Depois dela, o médico iria tornar-se psicanalista e instalar-se fora da vista do doente, renunciando a tocá-Io e obrigando-se a escutá-lo. Apesar do mito, Emmy nunca foi curada de sua neurose, nem por Freud, nem por seus outros médicos.
Trabalhos recentes tendem a questionar os diferentes diagnósticos de Histeria, de Melancolia, e até de Esquizofrenia, feitos por Freud e seus sucessores, e consideram que Fanny Moser sofria da Doença de Gilles de Ia Tourette - debate onde reencontramos a antiga querela que opôs Freud aos partidários do organicismo.
O tratamento desenvolvido por Freud com a Sra. Emmy von N., possui para a história da psicanálise um valor especial, pois através dele podemos perceber as dificuldades encontradas por Freud em utilizar a hipnose e a sugestão como instrumentos terapêuticos, assim como encontramos a primeira menção à utilização da regra da livre associação, no momento em que a própria paciente pede ao médico que não a interrompa com tantas perguntas e que a deixe falar livremente sobre suas queixas. O atendimento se desenrolou por aproximadamente seis semanas, durante as quais Freud visitou a paciente todos os dias, duas vezes ao dia. Segundo o seu relato, a Sra. von N., indicada por Breuer, era uma mulher de aproximadamente 40 anos, histérica, que sofria de problemas nervosos. Freud indicou um tratamento hipnótico, acompanhado por banhos quentes e massagens corporais, permanecendo a paciente internada e, portanto, afastada da família e da realidade social. O trabalho terapêutico visava à eliminação dos sintomas de forma a permitir que a paciente retomasse suas atividades junto à família e à empresa que gerenciava. E, embora tenha encontrado um êxito apenas parcial, pois apesar de enfraquecidos em sua intensidade, os sintomas histéricos se tornaram recorrentes, Freud considerou o tratamento bastante satisfatório tecendo inúmeras considerações acerca dos mecanismos psíquicos dos fenômenos histéricos em geral. No curso da exposição do caso, Freud faz inúmeras referências à moralidade repressora vigente à época, na qual imputa a responsabilidade pelos problemas neuróticos desenvolvidos pela paciente. Freud é categórico em ressaltar as qualidades intelectuais e morais da paciente, afirmando que ela possui um caráter impecável e desfruta de um modo de vida bem orientado segundo as regras sociais: preocupa-se sobremaneira com a educação das filhas, consegue gerir a empresa da família com sabedoria, apresenta maneiras requintadas e uma profunda humildade de espírito.
Podemos perceber nessas indicações o referencial paradigmático da moralidade de uma época na qual se reservava um lugar e uma expectativa específicos para as mulheres: moralidade estrita, sexualidade reprimida, cordialidade, maternidade e humildade de espírito como atributos naturais da feminilidade e cuidado com a educação familiar. Ou seja, encontramos nesses referenciais, os pilares estruturais da sociedade burguesa: regras morais rígidas, sexualidade reprimida, valorização do núcleo familiar e individualidade.
Em 01 de maio de 1889, durante sua primeira visita, Freud descreveu seu encontro com Emmy: “Esta senhora, quando vi pela primeira vez, estava deitada em um sofá, com a cabeça apoiada em uma almofada de couro. Ela ainda parecia jovem e tinha características finas, cheia de personalidade. Seu rosto tinha uma expressão tensa e dolorosa, suas pálpebras estavam reunidas e os seus olhos baixos. Falou em voz baixa como se com dificuldade, e seu discurso era, de tempo em tempo, sujeito a interrupções espásticas, no valor de um gaguejo”. Ele também observou o som de “clique” que ela fazia com a língua, quando chateada.
O tratamento era consistente com a prática habitual, que consistia em estadia em uma clínica, separada de suas duas filhas (com quem ela não se dava bem). Freud prescrevia banhos mornos e massagens duas vezes por dia. A paciente foi completamente acessível à hipnose e, neste estado, contou a origem dos medos delirantes e alucinações visuais (ratos, sapos) de que ela sofria, refazendo-os a sua infância.
Em janeiro 1890 Emmy teve uma recaída. Ela foi ver Breuer, queixando-se de distúrbios do sistema nervoso. Ela estava tão agitada que teve de ser internada em um sanatório, fugindo com a ajuda de uma amiga. Sem dúvida, Emmy passou a representar um dos casos referidos por Freud para explicar o abandono da hipnose.
Em maio de 1890, o aniversário de sua primeira terapia, ela voltou para ver Freud - uma terapia adicional que durou oito semanas, até julho. Ela se sentiu melhor, mas sofria de confusão mental, “tempestades na cabeça”, insônia, e os “cliques” e gagueira tinha reaparecido. Freud analisou a origem do retorno destes sintomas e novamente conseguiu eliminá-los.
Na primavera de 1891, Freud viu Emmy von N. em sua casa, onde permaneceu por vários dias para ajudar a resolver os problemas que estava tendo com sua filha mais velha. Ela estava se sentindo melhor, mas Freud retomou o tratamento para eliminar uma fobia de viajar de trem.
Em um adendo que data de 1924, Freud relata que, vários anos após esta última visita, ele conheceu um médico com quem ela havia se comportado de forma idêntica: fácil de hipnotizar no início, em seguida, irritável e sujeita a recaídas. Freud acrescenta que, por volta de 1920, sua filha mais velha tinha escrito para ele, solicitando um relatório – Fanny Moser queria iniciar um processo contra este “tirano cruel” que tinha afugentado suas duas filhas.