12 de dezembro de 2012

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: MISS LUCY R.



MISS LUCY R. é o pseudônimo do segundo caso clínico apresentado por Freud nos “Estudos sobre a histeria”. Trata-se de uma governanta britânica atendida durante nove semanas, a partir do início de dezembro de 1882.
De trinta anos de idade, encaminhada por um colega médico que a tratava de uma rinite purulenta crônica, sujeita a frequentes recaídas, essa “jovem inglesa de constituição delicada”, governanta na residência do diretor-gerente de uma fábrica nos arredores de Viena, já havia perdido completamente o olfato, sofria de analgesia no nariz, e afundava num estado depressivo acompanhado de alucinações olfativas de cheiros de pudim queimado, que logo foram classificadas por Freud como de origem histérica.
 “Resolvi, então, tomar como ponto de partida da análise esse odor de pudim queimado.
Mas o tratamento, que poderia ter sido rápido, foi mais difícil de conduzir, porque a paciente, que trabalhava, só podia ir ver Freud durante o seu horário de consultas, o que fazia com que ele não lhe pudesse dedicar mais do que “alguns instantes”, contrariamente às facilidades de que se beneficiavam os pacientes visitados em suas residências, ou recebidos em horários previamente combinados.
Costumávamos, portanto, interromper nossa conversa em meio a seu curso, e retomar o fio da meada no mesmo ponto, na visita seguinte. Miss Lucy R. não cedeu ao sonambulismo quando tentei hipnotizá-la. Assim, abri mão do sonambulismo e conduzi toda a sua análise enquanto ela se encontrava num estado que, a rigor, talvez não fosse muito diferente de um estado normal.
Foi por ocasião do relato desse caso que Freud fez, pela primeira vez, uma exposição detalhada de seu novo modo de proceder.
Quando, portanto, minha primeira tentativa não me conduzia nem ao sonambulismo, nem a um grau de hipnose que acarretasse modificações físicas marcantes, eu abandonava de modo ostensivo a hipnose e pedia apenas ‘concentração’; e ordenava ao paciente que se deitasse e deliberadamente fechasse os olhos, como meio de alcançar essa ‘concentração’. Resolvi partir do pressuposto de que meus pacientes sabiam tudo o que tinha qualquer significado patogênico, e que se tratava apenas de uma questão de os obrigar a comunicá-lo.
O esquecimento era muitas vezes intencional e desejado, e seu êxito nunca era nada além de uma aparência. Isto porque, aquilo que era esquecido, era algo insuportável para o sujeito.
Colocava a mão na testa do paciente ou lhe tomava a cabeça entre minhas mãos e dizia: ‘Você pensará nisso sob a pressão da minha mão. No momento em que eu relaxar a pressão, verá algo à sua frente, ou algo aparecerá em sua cabeça. Agarre-o. Será o que estamos procurando. – E então, o que foi que viu, ou o que lhe ocorreu?’. Desde então, esse procedimento quase nunca me decepcionou.
A sugestão era de tal ordem, que lhe bastava afirmar ao paciente ser impossível ter falhado, para conseguir “extorquir-lhe a informação desejada”.
Mas neste caso, o ato de ligar fatos e falar não eliminou os sintomas e nem modificou seu estado de depressão e angústia. O que aconteceu foi um enfraquecimento do sintoma (sentir cheiro de pudim queimado quando ficava agitada) conforme a paciente falava dele, ligando-o a outros fatos, outros acontecimentos.
Não satisfeito com este resultado (típico de um tratamento sintomático, em que se elimina um sintoma para que seu lugar seja ocupado por um outro), Freud dedicou-se à tarefa de eliminar este novo símbolo mnêmico através da análise.
Após ter feito Miss Lucy R. reconhecer que estava apaixonada pelo viúvo de cujos filhos era a preceptora, e apesar da contribuição de um tratamento hidroterápico que ele não deixou de prescrever, Freud ficou surpreso ao vê-la de volta, após as festas natalinas, sem apresentar nenhuma melhora real. Mais do que isso, ela tinha substituído o cheiro de pudim queimado, ligado ao amor oculto por seu patrão, pelo cheiro de fumaça de charuto.
Sob a pressão das mãos de Freud, uma outra cena em que o patrão a recriminava por não ter impedido que uma visita beijasse seus filhos, demonstrou que ela tinha compreendido que o viúvo não a amava - lembrança ligada a uma outra cena de fim de refeição, quando a sala foi invadida pela fumaça de charutos. Esse reconhecimento acarretou, então, a cura completa, em fins de janeiro de 1893.
Freud voltou a vê-la em perfeita saúde em maio/junho de 1893, e nunca mais se ventilou a questão que surgiria, igualmente a propósito de fumaça, no seu tratamento de Dora – pois nenhum paciente podia ignorar a paixão que Freud tinha pelos charutos. Nada existe da natureza de uma “neurose de transferência” reconhecida no que Freud viu e descreveu desses primeiros tratamentos que, aliás, ainda têm muito pouco a ver com o futuro tratamento psicanalítico. São importantes, porém, além do interesse em ver Freud “ao vivo”, em sua atividade de terapeuta, porque nos informam sobre a sua progressão teórico-clínica. No que se refere a Miss Lucy R., com o abandono da hipnose, é a certeza que ele adquiriu de um conhecimento íntimo, mas recalcado, que os pacientes têm da origem do sintoma – donde a importância dos recursos a empregar, para vencer a resistência à rememoração.

Esta biografia segue as diretrizes do verbete redigido por Alain de Mijolla para o DICIONÁRIO INTERNACIONAL DA PSICANÁLISE.

22 de novembro de 2012

RESENHA: “O HOMEM QUE SE ACHAVA NAPOLEÃO: POR UMA HISTÓRIA POLÍTICA DA LOUCURA” - de Laure Murat



MURAT, Laure (2012) O homem que se achava Napoleão: por uma história política da loucura. São Paulo: Três Estrelas.


A História da Loucura pode não levar em conta a Loucura da História? – esta é a questão a ser respondida por Murat neste fascinante passeio pela História e pela Psiquiatria.
Élisabeth Roudinesco escreve em Le Monde des Livres: “Todos os médicos da alma se perguntaram se os distúrbios políticos tinham um papel na eclosão do delírio e na aparição da loucura. Em ensaio muito bem documentado e apoiado em arquivos inéditos, Laure Murat revisita essa problemática de maneira resolutamente nova.
Murat vai mais longe. A historiadora faz um minucioso levantamento de fatos e registros, debruçando-se sobre arquivos e documentos inéditos que marcaram a França de 1789 a 1871, guardados nos hospitais Bicêtre, Salpêtrière, Sainte-Anne e Charenton, para examinar as relações entre Política e Loucura – um mergulho profundo que expõe as consequências dos eventos revolucionários na vida psíquica dos cidadãos.
O homem que se achava Napoleão pode ser considerado complemento/continuidade de ideias exploradas por Michel Foucault, principalmente ao conceito de Biopoder/Biopolítica, qual seja, a prática dos estados modernos na regulação dos que a eles estão assujeitados, por meio da subjugação dos corpos e da subjetividade como controle da população, tida como meio produtivo.
Logo na Apresentação, escreve Jurandir Freire Costa: “O espectro de Michel Foucault surge desde as primeiras linhas”.
Um pouco da riqueza da obra traz fatos extremamente curiosos, instigantes e investigativos.
Em 21 de janeiro de 1793, o rei Luís XVI é guilhotinado. Entre março daquele ano e agosto de 1794, cerca de 17 mil pessoas serão executadas na França. Por vários anos no país, a guilhotina se torna um delírio comum entre os alienados. Ironicamente, à execução de Luís XVI, encontrava-se presente Philippe Pinel, que no futuro seria o principal responsável por tirar os “tolos” das prisões.
Eram frequentes casos como o de um homem internado no Charenton, em 1802, que afirmava ter sido decapitado e estar portando outra cabeça, já que a sua havia sido levada para a Inglaterra.
Em 1840, quando os restos de Napoleão são transportados à França, catorze pessoas que acreditam ser o imperador dão entrada no Bicêtre. Uma onda de delírios de grandeza, de “monomania orgulhosa” – denominação da medicina da época -, espalha Napoleões pelos asilos do país.
O homem que se achava Napoleão é também uma investigação sobre os primórdios da Psiquiatria, por meio de seus expoentes, como o já citado Philippe Pinel e Jean-Étienne Esquirol, e sobre os vínculos estabelecidos entre Medicina e Ideologia, para estigmatizar os insurretos da Comuna de Paris, em 1871, e outros adversários do Estado.
Em 1845, em confissão quase profética, escreveu o Dr. Moreau de Tours: “Se os doentes às vezes falaram, não se registrou suficientemente o que eles disseram”.
No outono de 1885, Sigmund Freud chega a Paris e no Salpêtrière acompanha de perto as experiências de Jean Martin Charcot. Intrigado e estimulado pelas ideias do “Grande Homem”, Freud passa a “dar ouvidos” às histéricas da época. Em 1900, com a publicação de “A Interpretação dos Sonhos”, nasce a Psicanálise, que iria trazer até os dias atuais, uma profunda modificação na compreensão da Loucura.
Como sugestão de auxílio na resposta à questão de Murat, a Função da Crença e a exploração da Lógica do Delírio, ideias originais de Fabio Herrmann, que apresentam a biface Identidade/Realidade ou Homem/Mundo como o produto do Real Humano – o Absurdo, esta estranha casa/mundo que construímos -, possam dar início à discussão. Toda estrutura delirante revela uma parte do mundo em que foi gerada – um umbigo “corajosamente” exposto.
Muito interessante a maneira com que Murat, ludicamente, joga com certas expressões e palavras, como por exemplo, “perder a cabeça” (guilhotina/loucura) – belos exemplos de interpretantes psicanalíticos.
Fica, portanto, a indicação e recomendação da leitura de O homem que se achava Napoleão – obra importante para a História, a Psiquiatria e a Pré-História das ideias psicanalíticas.

SOBRE A AUTORA
LAURE MURAT é historiadora francesa. Doutorou-se na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, em 2006, e é professora do Departamento de Estudos Franceses e Francófonos da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). Ganhadora do Prêmio Goncourt de Biografia e o Prêmio da Crítica da Academia Francesa, em 2001. Em 2011, recebeu o Prêmio Femina de Ensaio, por O homem que se achava Napoleão – seu primeiro livro publicado no Brasil.


O CORPO EDITORIAL da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE agradece a gentileza da EDITORA TRÊS ESTRELAS (selo editorial do Grupo Folha/Publifolha), na figura da Assessora de Imprensa CECÍLIA DO VAL, pelo exemplar cedido, bem como pelo excelente material de divulgação.

20 de outubro de 2012

O MEDO: AMIGO OU INIMIGO? (Henrique Senhorini)


 
Texto apresentado na “Jornada Mal-Estar na Cultura: O Medo”, realizada nos dias 31 de agosto e 01 de setembro de 2012, no Sindicato dos Professores de São Paulo - SIMPRO-SP
  

O que me levou a fazer essa reflexão foi o medo. Eu explico: a oportunidade de produzir um texto para publicação suscitou, em mim, uma sensação de surpresa, seguida por uma satisfação - misto de felicidade, reconhecimento, honra e lisonjeio. Mas isso durou muito pouco, porque após aceitar o desafio, assumir compromisso, e cair a ficha da real dimensão desse feito, da importância da publicação e o que ela representa em termos de transmissão, um frio congelante percorreu a minha espinha, de ponta a ponta.
Era disso que se tratava: o medo.
E, por um bom tempo, ele me causou certa paralisia, bloqueando o surgimento de um mínimo de organização na elaboração daquilo que me propus a fazer (o medo causa isso?).
Bem, a questão que não se calava era: como abordar o tema “Medo” sem cair na vala da Fobia e nem na do Pânico?
Dias seguiam e nada desse medo ir embora, ao contrário, na medida em que o tempo avançava - e eu não produzindo nada - a impressão era que ele aumentava.
Mas, medo de quê? Questionava.
Medo de não conseguir me expressar de forma inteligível?
Medo de fracassar? Medo de decepcionar?  De não dar conta de minha frustração caso não conseguisse? Afinal, era medo de falar sobre o Medo?
Assim expondo, pode parecer cômico agora (a diversão é mais uma faceta do medo?). Contudo, eu precisava nomear aquilo que muitas vezes me invadia, aquela opressão no peito que suscitava quando olhava para o calendário, pensando na aproximação da Jornada. Não raro eu a chamei de Angústia. Angústia em saber que era limitado, não podia tudo, que era castrado, barrado pela castração em termos psicanalíticos. Era uma confusão só. E o relógio fazendo tic-tac, tic-tac...
Mas de repente não mais que de repente – lembrando o poeta Vinicius de Moraes –, a chamada “paralisia” foi dando lugar a um movimento. Não é que o medo em decepcionar, que poderia me fixar numa posição de nada fazer, de nada saber e de nada querer, promoveu justamente o oposto, me colocando em atividade mental e física? - (seria esse os dois lados da moeda do medo?).
 
Um parêntese aqui:
Interessante também, foi notar que o medo fazia parte e função na minha vida cotidiana, sem eu ter a devida ciência disso, sem me dar conta. Ele até me protege...  Não atravesso a rua sem antes olhar para os lados, porque tenho medo de ser atropelado.
 
E justamente por não querer o pior, fui tentar escrever algo, no mínimo, apresentável, para aqueles que representam a diversidade da Cultura, até do ponto de vista de singularização do Sujeito.
        
Bem, aqui estou, porém nada tenho a ensinar, mas tenho algo a dizer: O Medo – Amigo ou Inimigo?
 
A propósito, não dá para falar de Medo sem falar de Angústia.
A Angústia é reconhecida, pela psiquiatria, como um dos sintomas mais presentes nas ditas doenças mentais, tanto na sua vertente de fenômenos psíquicos (ansiedade, apreensão, preocupação), como nos aspectos físicos, tais como sufocamento, palpitações, sudoreses, tonturas, tremores, etc.
O termo alemão “Angst - língua do pai da Psicanálise - pode servir para uma longa lista de palavras desde o medo até o pânico, inclusive a própria Angústia - o que ajuda a complicar a compreensão de alguns textos, e até, por incrível que pareça, levar-nos a certa angústia. Mas enfim, vocês devem estar se perguntando por que cito a Psiquiatria, se escrevo e penso como psicanalista que sou.
Bem, faço isso para lembrar que Freud era médico de formação, um neurologista quando começou a sua psicanálise e o desenvolvimento de suas teorias, incluindo a Angústia. Ao longo de seu trabalho utilizava o termo “Angst não só no sentido psiquiátrico, mas, também, na forma coloquial, corriqueira da linguagem.
E neste momento, porque se faz necessário, os convido para um curto e brevíssimo voo panorâmico sobre as teorias freudianas pertinentes ao tema, mas sem me preocupar muito com uma ordem cronológica.
Nas belas palavras de Ana Maria Loffredo, “nos primórdios da Psicanálise, o interesse de Freud se voltava para o trajeto seguido pelas excitações, concebendo as modalidades de padecimento da alma como as respostas possíveis aos impactados assim produzidos, apreendidos como intensidades pelo psiquismo e atravessados pela historicidade do sujeito”.
Bem no início, no período chamado pré-psicanalítico, ainda não era possível para Freud compor uma teoria a respeito das causas, das origens das neuroses, entre elas a Neurose de Angústia. Lança hipóteses, mas não lhe resta dúvida sobre sua “aquisição” ser por questões de âmbito sexual (do tipo coito interrompido). Um pouco mais adiante (e um pouco antes do seu artigo de 1895, “Neurose de Angústia”) conclui que a fonte de angústia é de origem orgânica e, portanto, não está no campo psíquico, e sim mais relacionada ao sexual, propondo que o mecanismo responsável pelo seu surgimento é uma tensão física, que se desenvolve até um patamar (não identificado) que coloca em movimento “o desejo sexual”. E este, por estar em dívida, não pode conter a tensão. Então, isso quer dizer que a falta de ligação entre a tensão oriunda do corpo com o psiquismo transforma-se em angústia, que volta para o corpo, resultando em sintomas somáticos.
Estamos entre 1884 e 1925, época da sua primeira teoria sobre a Angústia, que sustentava que a angústia neurótica era “simplesmente” uma transformação da libido que não havia sido adequadamente descarregada. Porém, era também vista como um sinalizador dos perigos externos e internos. A teoria não dava conta.
É nesse período fundante, que noções importantes para a Psicanálise, como pulsão, energia libidinal, quantum energético, afetos e representações, recalcamento, aparelho psíquico (consciente – pré-consciente – inconsciente), conversões histéricas (somáticas), Complexo de Édipo, Complexo de Castração, e tantas outras, estavam num processo de levantamento de hipóteses, formalização, conceituação e teorização. Enfim, a Psicanálise estava sendo criada e recriada, mantendo-se aberta até hoje.
Em 1926, ele “abandona” a primeira teoria sobre a Angústia, segundo Dylan Evans, a favor da ideia que a angústia era uma reação a uma “situação traumática”, uma experiência de “desamparo” a uma acumulação de excitação que não poderia ser descarregada. Os traumas são precipitados por “situações de perigo” tais como o nascimento, a perda da mãe como um objeto, a perda do objeto de amor e, acima de tudo, a castração.
 
Aqui abro outro parêntese:
Fiz assim “ ” para o Desamparo, porque a minha sensação fantasiada é muito próxima com a de um antigo professor meu, a de se estar pendurado sobre o CAOS amarrado apenas pelo NADA. 
 
Voltemos...
 
Freud diferencia a “angústia automática”, cujo estado surge diretamente como resultado de uma situação traumática, da “angústia como sinal”, reproduzida ativamente pelo ego (Eu) para alertar sobre uma situação prevista de perigo.
Lacan, no início, relaciona a angústia principalmente com a ameaça de fragmentação do sujeito frente ao estádio do espelho. Só depois, estes fantasmas de despedaçamento corporal dão origem à angústia de castração (1938). Também vincula a angústia ao medo de ser absorvido por uma mãe devoradora (bem kleiniano).
Aqui temos uma diferença entre Lacan e Freud, mas penso que se complementam. Freud fala da angústia de separação com a mãe, e Lacan da mãe que não quer se separar de seu bebê, de deixá-lo ter vida própria. Mãe fálica?
Depois de 1953, Lacan começa a articular cada vez mais a angústia com seu conceito de Real: um elemento traumático que permanece externo à simbolização, e com o qual não há, portanto, mediação possível. E por estar fora do simbólico, todas as palavras cessam e todas as categorias falham. Trata-se da Angústia por excelência. Lacan continua desenvolvendo sua teoria da angústia e, no contexto de sua discussão sobre a fobia, argumenta que a angústia é o perigo radical que o sujeito tenta evitar a qualquer preço, e que as várias formações subjetivas, desde as diversas fobias até o fetichismo, são proteções contra a Angústia.
        
Outro parêntese:
Até que ponto o objeto fóbico se aproxima do objeto fetiche?
 
Em 1962-63, no seminário “A Angústia”, e também no seminário 11 “Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise” (de 1964), Lacan diz que a angústia é um afeto, não uma emoção: é aquilo que não engana, um termo de referência crucial para análise. Freud diferenciou o medo (focalizado em um objeto específico) e a angústia (sem objeto focalizado). Lacan não!
Ele diz que a Angústia não é sem objeto e sim com um objeto especial que não pode ser simbolizado. Trata-se de o objeto causa do desejo (o objeto “a”), que falta desde sempre. E se todo desejo surge da falta, a angústia surge quando falta essa falta. É falta da falta. Não é ausência do seio, mas sua sufocante presença.
Bem, chegamos, então, à Angústia de Castração, ao Complexo de Castração, e como estão intimamente implicados, chegamos ao Édipo.
E por que isso é importante? Porque a Angústia de Castração é, de seu modo, organizadora e mobilizadora. Ela faz uma borda no abismo. É na Castração que o sujeito percebe pela primeira fez que o Outro fundamental também não é completo, nem auto-suficiente. E é no Édipo que é feito o interdito da relação dual (quase simbiótica) mãe-filho, através da instalação da Lei simbólica pela intervenção de um pai imaginário. Ele barra a mãe do filho e o filho da mãe. “Posto que o simbólico é o reino da Lei e o complexo de Édipo é a conquista da ordem simbólica, este tem uma função normativa e normalizadora”, nas palavras de Evans.
Portanto, os dois complexos são estruturantes do e no Sujeito. São as raízes de todas as estruturas psicopatológicas, de todas as estruturas clínicas. Assim como a angústia é a raiz do medo.
Não há medo sem certa “dose” da raiz angústia.
Bem, então, pensando o medo por uma via econômica, podemos suscitar, como hipótese, que sua problemática está relacionada a um quantum?
E por que o medo surge e responde de forma diferente para cada um de nós?
Por que para uns paralisa e para outros mobiliza?
Freud nos ensina que o tipo da resposta de nossas escolhas depende da especificidade de cada sujeito e da singularidade da interação entre constituição psíquica e circunstâncias do ambiente e da história de cada um.
        
E vocês têm de medo de quê?
        
Na clínica, na minha clínica, o que aparece muito são pessoas que procuram entrar num processo de análise sem saber direito o que as levam até lá. Apresentam uma causa, mas na maioria das vezes e sem conhecimento prévio disso, é outra. Não raro, surge a questão do medo, mas ele vem disfarçado. E o que emerge, depois de um trabalho em entrevistas preliminares, é o medo do amor e suas variantes. Como assim?
Bem, trata-se do medo da falta do amor do Outro. Medo de não sentir amor. Medo do desamor. Medo da perda do amor. Da perda do objeto de amor. Medo de não se fazer objeto de amor para Outro. E esse outro, esse grande Outro pode ser o Outro primordial (geralmente a mãe), o pai, o esposo/esposa, a sociedade, o capital, e outros, que vão ocupando esse lugar de suposta importância no decorrer da vida.
E, também, aparece na forma de medo em não ser reconhecido pelos colegas, pelos pares, pelo pai, pela mãe, como o melhor dos filhos, como o mais sociável, como o mais articulado, o mais clicado pelo facebook (Outro?), e por aí vai. Além desses, tem também um tipo de medo, esse talvez um pouco mais acentuado, que é o medo de descobrirem as nossas faltas, os nossos buracos, as nossas falhas, os nossos erros e enganos, e aquele bem escondido nosso lado obscuro, nosso Lado B, nosso lado Darth Vader.
E, talvez, o pior é o que podemos fazer - em nome do amor - contra nós mesmos, em tentativas de satisfazer o desejo do Outro, cedendo até do nosso próprio.
Bem, o que fazer com isso?
Na clínica, tentamos escutar o medo, dar a palavra ao medo, pois ele geralmente tem muito a dizer, até através do silêncio. É um processo de análise, de deciframento do medo apresentado. Via palavra, um trabalho de desconstrução, reconstrução, ressignificação, um trabalho do sujeito de se reinventar, de se reposicionar subjetivamente frente as suas questões.
Trata-se de modificar um sofrimento brutal em dor banal, como diz Karin de Paula. O que não é pouca coisa, e que é bastante diferente de um projeto ingênuo de trazer para o consciente conteúdos inconscientes para se ter um “controle” dos nossos medos.
E considerando que o homem é o lobo do próprio homem, formulo a questão:
- Um lobo, mesmo que um dia seja possível “domesticá-lo”, deixará de ser um lobo?
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BELOT-FOURCADE, P. (1994) A estratégia da aranha in “A Fobia”. Rio de Janeiro: Ed. Revinter, pp.25-34.
BERGES, J. (1994) Quando Freud fala das fobias in “A Fobia”. Rio de Janeiro: Ed. Revinter, pp.17-24.
EVANS, D. (1997) Diccionario Introductorio de Psicoanálisis Lacaniano. Buenos Aires: Ed. Paidós.
FREUD, S. (1894) As neuropsicoses de defesa in “Obras Completas de S. Freud” - V.II. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1958, pp.119-137.
FREUD, S. (1895) A neurastenia e a neurose de angústia in “Obras Completas de S. Freud” - V.II. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1958, pp.139-171.
FREUD, S. (1895) Crítica da neurose de angústia in “Obras Completas de S. Freud” - V.II. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1958, pp.229-250.
FREUD, S. (1896) A sexualidade na etiologia das neuroses in “Obras Completas de S. Freud” - V.II. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1958, pp.47-73.
FREUD, S. (1925) Inibição, sintoma e angústia in “Obras Completas de S. Freud” - V.IX. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1958, pp.233-320.
FREUD, S. (1930) O mal-estar na civilização in “Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud” - V.XXI. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1980, pp.75-177.
FREUD, S. (1932) Novas contribuições à psicanálise: A angústia e a vida instintiva in “Obras Completas de S. Freud” - V.XVII. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1958, pp.87-118.
LACAN, J. (1962-1963) O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2005.
LACAN, J. (1964) O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
LERUDE-FLECHET, M. (1994) O gosto pelo quarto?: Estudo clínico da fobia in “A Fobia”. Rio de Janeiro: Ed. Revinter, pp.4-16.
MENEZES, L.S (2006) Pânico: efeito do desamparo na contemporaneidade. São Paulo: Ed. Casa do Psicólogo.
WHITAKER, C. (2003) Pânico e Psicanálise: a angústia em Freud e Lacan. Taubaté: Ed. Cabral.
 
 
HENRIQUE SENHORINI é psicanalista, psicólogo e supervisor clínico
Av. Faria Lima, 1478 (cj. 210) - Pinheiros, São Paulo/SP - CEP: 01451-913
Tel.: 11 3032.3013
 

10 de outubro de 2012

CONVERSANDO SOBRE FRESTAS: DIÁLOGOS PERTINENTES (Eliana Ribeiro da Silva)



Artigo inspirado na apresentação da autora no II ENCONTRO “LER & ESCREVER” da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE, em 19/mai/2012.
 

Na epígrafe do texto “A Fresta”, de M. I. Soriano, temos a indagação de E. Zola do que seja o amor; ao que ele mesmo responde como sendo um conto simples, dito de muitas maneiras. Continuo, então, esta conversa, anunciando que sobre o amor e o amar, vou dizê-lo à minha maneira, a partir do que a leitura do texto original provocou nesta leitora. Então passo a explicar: não consegui me furtar à tentação de olhar este texto de forma bipartida, isto é, me detendo nas análises da estrutura e do conteúdo. Sem nenhuma dificuldade me peguei tentando fazer o percurso do processo de criação do autor. Identifiquei alguns mecanismos de construção importantes que me auxiliaram na posterior análise do conteúdo. Não há dúvida de que o texto se assenta no gênero psicanalítico, e sobre ele recaem dois olhares que, ao se fundirem, produziram tal gênero que aqui se apresenta. E entre o objeto mostrado e o objeto visto nasce o texto dialogado.
É possível identificar o potencial dialógico de “A Fresta” por três elementos expressamente claros, a saber: a metáfora presente já no próprio título - fresta; a epígrafe de Zola; e a intertextualidade explícita – as referências a Chico Buarque e a Homero.
E porque somos seres finitos, nos completando e nos extendendo uns nos outros, segui a leitura perguntando ao próprio texto quais visões se podem detectar nesta produção; ao que o texto me respondeu:
A da analisanda – seu objeto
A do analista – seu texto sobre o objeto
A desta leitora – seu sentido
 
Isto é, respectivamente,
O objeto - corpo amor/dor: a própria experiência vivida
O texto - o olhar intertextualizado: Chico Buarque e Homero
A leitura - leitura amplificada: outras de Chico, Caetano e C. Drummond
 
E porque o sentido quem dá ao texto é o leitor, é possível, a partir da leitura feita, trazer outras referências para ampliar o diálogo, pois todo texto é dialógico, e “A Fresta” dialoga intensamente com esta leitora de uma maneira peculiar, diferentemente da maneira como dialogou com todos os demais leitores.
Dialogo com “Atrás da Porta” de Chico Buarque, quando a fresta me lembra de um amor que caiu exausto: “... quando olhaste bem nos olhos meus/ e o teu olhar era de adeus/ juro que não acreditei, eu te estranhei/ me debrucei sobre o teu corpo e duvidei...”.
E aí vem “Tatuagem”, também de C. Buarque, para me lembrar de que todo amor exaure diferente, e diferentemente fere, e marca, e ergue ao dizer: “... quero ficar no teu corpo feito tatuagem/ que é para te dar coragem/ pra seguir viagem quando a noite vem...”.
Mas logo, em “Esse Cara” (de C. Veloso) – pensado ao avesso, subjaz a idéia de que é sempre possível nascer-se outra: “... Ah! que esse cara tem me consumido/ A mim e a tudo que eu quis / Com os seus olhinho infantis/ Como os olhos de um bandido/ Ele está na minha vida porque quer/ Eu estou pra o que der e vier...”.
E, exatamente, neste ponto, salta “Apesar de Você”, para dialogar com a metáfora blindagem/fresta “... Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”.
E porque é possível nascer diferente na mesma pele, “Olhos nos Olhos” (de C. Buarque) não nos deixa esquecer de que “... quando você me deixou meu bem, me disse pra ser feliz/ e passar bem, quis morrer de ciúmes, quase enlouqueci/ mas depois como era de costume obedeci./ Quando você me quiser rever/ já vai me encontrar refeita, pode crer./ Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ Ao sentir que sem você eu passo bem demais...”.
E finalizando o diálogo, porque, embora o amor tenda a exaurir, quem sofre de amor não precisa adoecer, mas, simplesmente, de novo, amar, como nos lembra C. Drumond de Andrade:
 
Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e de olhos vendados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodas, também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia;
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
Distribuída pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

E ao escrever sobre o diálogo que travei com o texto original “A Fresta”, desvendei o mundo, o meu mundo subterrâneo; andei por um território de solo, até a bem pouco tempo pantanoso, para caminhar num chão arenoso, em que sinto o aconchegante calor da caminhada. E não paramos nunca de dialogar, e de nos reconhecer na extensão do outro; neste trechinho mesmo dialoguei com Simone Beauvoir, Antonio Machado, Paulo Freire, e, claro, Marcos Inhauser Soriano. Com este, os diálogos mais pertinentes, porque eficazes!!!
 
ELIANA RIBEIRO DA SILVA é Doutora em Educação pela PUC-SP; Mestre em Linguística e Semiótica pela USP; Graduada em Letras pela UNICID; Pesquisadora; Autora e Escritora na área de Leitura; Professora da Educação Básica por 14 anos e do Ensino Superior a 25 anos; Leitora atenta do Mundo e da Palavra
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