25 de maio de 2012

NA FRESTA: REFLEXÕES SOBRE O II ENCONTRO "LER & ESCREVER" (Mariana Giorgion)



Texto apresentado no II ENCONTRO “LER & ESCREVER” da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE, em 19/mai/2012.


Hoje eu gostaria de pensar com vocês a ideia do (des)encontro, no texto do Marcos, na clínica psicanalítica e mais especialmente no processo de escrita, seja ela psicanalítica ou não. Apesar de falado, esse nosso encontro é sobre leitura e escrita, então eu escrevi e vou ler para vocês algumas considerações.
A Fresta” nos conta uma triste história de amor, onde uma mãe perde, para o destino, para a vida, seu filho. O texto em sua forma, por decisão do autor, já reflete um desencontro. A escrita truncada, interrompida, enigmática, não segue o combinado. Intercala trechos de análise, momentos de vida, reflexões, movimento, música e poesia sem aviso prévio. E invoca tristeza, muita tristeza.
Da primeira vez que li, achei bonito, mas quis me certificar com o autor se ele queria mesmo tanto desencontro. Preocupei-me com o leitor. Vai entender o seu sentido? Vai suportar o incômodo? E Marcos corre o risco.
O conteúdo de “A Fresta” também delineia, a cada parágrafo, encontros e desencontros.
Ela se viu assim, de repente, perambulando pela rua (…) não havia como pensar”. O que seria pensar? O que não era possível? Lembrar? Entender? Sentir? Justificar? Buscar um sentido que acolhesse a alma e assentasse a angústia?
E o texto segue, mas agora buscando um encontro:
(...) em certa medida o autor se funde com o texto. (...) sei que é disto que se trata: de uma fusão, de uma sala de análise, de uma história contada desta maneira”.
O que é uma fusão? Segundo o dicionário Aurélio a palavra comporta diversos sentidos. Pode ser a passagem de um corpo sólido ao estado líquido sob a ação do calor; a união de muitos átomos leves em alta temperatura que vão dar origem a átomos mais pesados, com desprendimento de energia; pode ser também uma união, uma aliança, onde dois ou mais se aproximam ao abandonarem as discordâncias e diferenças; mas eu gosto mais do sentido de mistura, liga, amálgama. Em Psicanálise, segundo nosso saudoso Laplanche, falecido no início do mês de maio, e seu colega Pontalis, o termo fusão foi usado por Freud em sua última teoria das pulsões, descrevendo as relações entre as pulsões de vida e de morte. A fusão das pulsões é mistura de agressividade e sexualidade. Então compreendo assim: neste momento do artigo, da análise, está tudo junto, misturado, vida e morte, agressividade e sexualidade, uma única história possível, mas, ao contrário da fusão da química, aqui a energia é concentrada, não liberada, para garantir o estado fusional. Há que se fazer força para manter a fusionalidade emocional.
E o autor convoca a dor com a “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque, e eu me desencontro: dor do amor fusional? Dor de todo amor? Dor da fusão entre Eros e Thánatos? De que se trata afinal?
Mas segue o texto: “ela abdicou-se de tantas delas para entregar-se ao Amor, (...) um amor incondicional”. E, apesar de oscilar, o autor tende a crer que não é de graça que se abdica de ser, se abdica de condições para amar. Ela busca algo, um preenchimento, uma obturação, como costumava conceituar Lacan, um Falo que não tem, um pai que de alguma forma, de muitas formas, ou de todas as formas já se foi, ou nunca foi, não sei.
No parágrafo seguinte um novo desencontro: “histórias de Amor são histórias humanas. Histórias humanas vão ao encontro de um destino”. Então buscamos no amor a completude, aquilo que nos falta e vamos de encontro ao único destino certo que é a morte?
Na personagem de “A Fresta”, o destino, o limite ao amor que era sem limite, se dá pelo outro, mais especificamente pela morte do outro. A morte invade o encontro, a completude, e reinstala a falta. O ser, que abdicou de tantos para ser esse, fica sem ser nada. Morte em vida. Marcos identifica em outros o sentido desse ser que sobra: Maria, mãe de Jesus; Pedaço de mim, de Chico Buarque.
Mas eis que o personagem do texto, o sujeito da análise, não suporta vivenciar a morte. Cochila no ato de morte do outro, recorre à inconsciência, perpetua o último suspiro. No recalque o sintoma se instaura: seu cochilo tira seu sono o resto da vida e o analista conduz seu tratamento promovendo um encontro, entendendo a perda, o luto, a frustração.
Esse analista, diferente de outros, dá vida ao corpo, no texto, na análise. Segura firme a mão de sua analisanda, abre espaço para o toque, o cheiro. Invoca Winnicott ao manejar-se como um objeto transicional. E eu me recordo da velha rixa entre Lacan e Laplanche: “a linguagem é a condição do inconsciente” ou “o inconsciente é a condição da linguagem”? Parece que Laplanche e Marcos, dentre tantos outros, consideram a segunda versão mais adequada à ideia freudiana de primado do inconsciente na formação do sujeito e essa coerência teórica, filosófica, essa ética analítica, abre brechas, frestas nas representações dessa mulher, que não precisa mais ser só a mãe de um morto. A nomeação de novas possibilidades se dá ao ver o próprio analista em movimento do corpo. O cara anda, toma café, tem cheiro. Ele é outro, também.
Ao tecer essas considerações sobre o artigo de Marcos e sobre a análise que ele conduziu, me vejo enredada na escrita de um texto.
Quando ocupo o lugar de analista, tenho a escuta como norteador de minha prática, lembrando sempre que a base da escuta analítica é o desencontro com o sentido pressuposto pelo analisando. Busco encontros, relações, entrecruzamentos de sentidos, que trazem a tona uma outra fala, diferente daquela consentida pelo paciente. Neste manejo questiono representações e possibilito brechas para novos sentidos. Não ocupo o lugar de quem sabe, pelo contrário, me posiciono como um permanente incomodo que questiona o certo, mas também como um laboratório experimental de outras possibilidades.
Como analisanda, parte inseparável da condição de analista, lembro de uma eterna sensação de que eu deveria estar muito atenta e cuidadosa com minhas fantasias na sala de análise, porque, sei lá por que, elas fatalmente se realizavam na vida lá fora. Efeito sinistro da aproximação com o desejo.
Mas e a escrita? Vim aqui para um encontro com vocês. Produzi um texto que pretendo compreensível, perceptível, quiçá admirável. Preocupo-me com a redação, a ortografia, a gramática. Cuido da forma e do sentido, tentando controlar o incontrolável: o que meu texto causa no outro.
Já devaneei sobre isso na Revista Vórtice, tanto no meu artigo “Pulsão”, quanto em “Seu Zé faleceu”. Ambos foram escritos em momentos de angústia, onde se fazia premente a redação de textos que me deixavam insegura, questionada em meu saber e o paradoxal, ou sintomático, é que vi na própria escrita, ou em outra forma de escrever, um espaço de elaboração, de organização, de apresentação das minhas ideias, que segundo Fabio Herrmann já eram sentimentos, posto que eram carregadas de afetos.
Ao apresentar meus artigos assim me vejo invocando em meus leitores uma certa indulgência. Leitores não são indulgentes, pelo contrário, partem do pressuposto de que, se escrevi, devo, com meu texto, fazer função para sua leitura.
E aí me pego pensando quando e por que eu não escrevo, porque, muitas vezes, mesmo querendo, mesmo achando que deveria, eu não escrevo.
Percebo também que é bem mais difícil encontrar sentidos para a não escrita e vejo uma relação muito clara entre a minha não escrita e a minha não fala. Falo e escrevo por razões semelhantes, mas, em alguns momentos, me calo. A sensação que tenho, agora, é que essas palavras que travam, essas ideias que não concatenam, esse sentido que não emerge e essa nomeação que não se permite poderiam causar muito mais movimento, vórtice, caso eu tivesse tolerância para suportar o que Herrmann denominou de “expectativa de trânsito”. Escrever sobre o que eu ainda não sei, ou não sei se sei, seria permitir o deslocamento e o novo que daí advém. Em análise, tal movimento poderia ser comparado à associação livre, onde se fala demais, mesmo correndo-se o risco de arcar com as consequências do dito. Escrever como um processo de descoberta, de pesquisa, indo além do que já se sabe, é permitir-se reelaborar, acrescer, ser novo, mas é também correr o risco de ser descoberto, desmascarado. O analista não ocupa o lugar de quem sabe, mas pode gozar do e no prestígio dessa suposição. Na escrita, assim como na fala, exponho o que sou, o que sei, como faço, como repito, como reedito e como supero e esse não é, sempre, um lugar confortável.
Lembro-me que sou membro do corpo editorial da Revista Vórtice, ocupando um lugar de analisar um texto que, se me foi enviado, é porque se considerava pronto. Também não é com indulgencia que leio os artigos de meus colegas, pelo contrário, espero a todo instante ser surpreendida, acrescida, ampliada e renovada pela leitura. Mas sou solidaria àqueles que se propõem, assim como eu, a enfrentar mais esse desafio que caracteriza a formação de um analista. Análise pessoal, supervisão e transmissão são a tríade técnica que nos forma e nesse percurso nos encontramos agora, buscando sair daqui, hoje, um pouco diferentes, deslocados, acrescidos ou questionados em relação ao momento em que chegamos, porque esse é o terreno fértil da psicanálise.

MARIANA GIORGION é psicanalista

20 de maio de 2012

A CONFISSÃO COMO NECESSIDADE DO SUJEITO QUE PERDEU UM ENTE QUERIDO: CONSEQUÊNCIA DA INTERDIÇÃO DA MORTE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA (Juriene Pereira da Silva e Márcia Aparecida Amador Mascia)



INTRODUÇÃO
Um dos assuntos mais difíceis de trazer à discussão em nossa sociedade é a morte, pois construímos uma sociedade alicerçada entre outros valores, no consumo e na imagem. Esta sociedade imagética e consumista não tem com a morte uma relação em que ela é encarada como um processo natural da vida. A morte, sendo inevitavelmente, o fim da vida, ou a última ação que o sujeito fará/sofrerá no processo de viver, traz em si, a necessidade de uma discussão.
O presente estudo pretende apresentar a questão da morte como uma condição da vida humana e como a nossa sociedade tornou a morte um interdito cada vez mais distante da realidade dos sujeitos que a compõe.
Como profissional da educação deparei-me com a necessidade de uma discussão mais profunda sobre a morte há muito tempo. É triste estar neste processo e ver, ao longo dos anos, estudantes brilhantes se apagarem porque seu pai ou sua mãe morreram e não há nada que se possa fazer. E não há mesmo, em relação ao morto, mas em relação ao estudante, poderíamos discutir o assunto e apoiá-lo em suas necessidades, se tivéssemos preparados para tal e não tivéssemos tantos problemas em relação à questão da morte, como indivíduos, nós mesmos. Se não jogássemos na vala comum do esquecimento nossos entes queridos já falecidos, para nos poupar, ou poupar os entes queridos vivos, da lembrança de alguém que já foi tão amado e tão necessário em nossas vidas. É comum quando visitamos parentes, vizinhos ou conhecidos que perderam um ente querido há pouco tempo, estes não falarem sobre o motivo da visita, ao contrário, tentarem conversar sobre banalidades, porque não é de “bom tom” falar sobre o que faz uma pessoa sofrer.
A urgência da discussão sobre a morte se faz presente face aos recentes acontecimentos vivenciados por nós enquanto educadores: quando um dos nossos estudantes faleceu vítima de problemas com drogas; outro estudante perdeu a namorada, morta em um acidente de carro com dezesseis anos de idade; e mais alguns outros casos semelhantes aconteceram em nossa escola.
A escola como lugar privilegiado do exercício do direito à educação precisa atentar para o fato de que sua clientela passa boa parte de seu dia entre seus muros, dentro de suas salas, corredores e pátios e é nesses lugares que aprendem a conviver. Na escola se faz a maioria das amizades que acompanham o sujeito por toda a vida. Amizades que compartilham alegrias, progressos pessoais, profissionais, afetivos em alguns casos, e que também se partilham momentos de perdas e de dores.
Esta pesquisa se insere na área de Educação. O tema abordado é a morte e o discurso sobre este tema. Temos como hipótese que a sociedade contemporânea interditou o tema da morte, e fez àquele sujeito que passa pela experiência da perda de um ente querido, que não encontre espaço para expressar a tristeza e o sofrimento, sentimentos esses que acabam sendo vividos na solidão e no silêncio.
Contribuir para tratar a educação para além do meramente pedagógico, repensando a vida e a morte, é o objetivo geral deste artigo.
Entre outros, propomos também, como objetivos específicos:

1. Fazer um levantamento das representações acerca da morte e do morrer em discursos manifestados por alunos do Ensino Médio;
2. Apontar os efeitos de sentido que emergem nas falas de sujeitos que vivenciaram perdas significativas nos últimos cinco anos;
3. Mostrar como tais efeitos e representações se materializam linguisticamente;
4. Tentar apontar em que medida, ao falar de sua relação sobre a morte, o sujeito se ressignifica.

O estudo proposto torna-se importante no momento em que busca suprir uma lacuna existente no sistema de ensino, onde não se discute o processo de morte do homem. É como se ela não existisse em nossa sociedade.

DA MORTE: PALAVRAS INTRODUTÓRIAS
Sobre a morte não cabe à raça humana saber nada além do que aquilo que se percebe quando ela se apresenta na forma da morte do outro. É impossível ao ser humano pensar na morte de si mesmo. Esta impossibilidade é tamanha que, na linguagem, o homem só é capaz de expressar-se sobre a própria morte quando se trata de hipérboles, numa linguagem exagerada e denotativa, ou metaforicamente.
Ele é capaz de dizer quando faminto que está “morrendo de fome”, mas isso não é em absoluto verdadeiro, posto que aquele que verdadeiramente está morrendo de fome sequer consegue falar e, nesta construção linguística, há o auxílio do verbo estar, conjugado na primeira pessoa do presente do modo indicativo. Ainda o homem costuma dizer ao ver um filme de terror que “está morrendo de medo”, o que é absolutamente falso, sendo que quando iniciou o filme ele já sabia que era uma fantasia criada por alguém com a condição de entretê-lo. Há ainda os mais românticos que dizem “morro de amor”, sobre essa forma de morrer nada há a fazer senão deixá-la aos cuidados dos poetas, porque só eles seriam capazes de fazê-la, pois quem ama, ama a si mesmo em primeiro lugar e, portanto, não morreria de amor pelo outro.
Com exceção do exemplo acima e outros muito conhecidos do senso comum que representam as fantasias humanas sobre a morte e o morrer, nada mais se poderia falar sobre a morte de si, além do que nos diz Elias (2001 p. 16-17):

Aqui encontramos, sob forma extrema, um dos problemas mais gerais de nossa época - nossa incapacidade de dar aos moribundos a ajuda e a afeição de que mais que nunca precisam quando se despedem dos outros homens, exatamente porque a morte do outro é uma lembrança de nossa própria morte.

É salutar notarmos que a nossa sociedade fez da morte um interdito, mas um interdito tão profundo que depois de milênios de história e após construirmos e destruirmos culturas singulares, através da dominação histórica dos países do ocidente sobre o novo mundo, após milhares de milhões de experiências de morte e vida de também milhares de milhões de indivíduos, não fomos capazes de, como seres que se utilizam da linguagem para se comunicar, e mais que isso, para se constituir como sujeitos a partir dela, de criarmos um verbo para designar a morte de nós mesmos.
Para o nosso idioma, a forma de dizer de si ao mundo e pelo mundo, criado por nossa cultura, a palavra morte significa: cessação da vida, termo, fim, destruição, ruína, pesar profundo (FERREIRA 2001, p. 472). O que nos leva a pensar que quem morre é um sujeito de uma oração, porque sendo sujeito de uma oração há sempre e necessariamente um verbo que demonstre esta ação causada ou sofrida pelo sujeito. Se quem morre é um sujeito de uma oração, ele é capaz de sofrer a ação na voz passiva do verbo, mas também de cometer a ação na forma ativa do verbo. Morrer em nosso idioma significa: “perder a vida, falecer, finar-se, fenecer, expirar, desaparecer, descansar, desencarnar, ir, perecer, sucumbir, espichar, esticar, extinguir-se, acabar-se, perder o vigor, estiolar-se, não chegar a efetuar-se, parar de funcionar, experimentar em grau muito intenso, achar-se no fim da vida” (FERREIRA, 2001).
Morrer é um verbo intransitivo, que tem uma conjugação regular, mas não transita para um complemento, tem significado próprio, ou melhor, ao se dizer morrer, entende-se a mensagem por si mesma. Ao se conjugar em português o verbo morrer, na primeira pessoa do singular do pretérito do modo indicativo, se faz essa conjugação sem uma relação direta com a realidade, com a conotação da oração. “Eu morri”, na prática, não se pode dizer, a não ser, nas condições exemplificadas acima.
Compreende-se que ao sujeito que poderia dizer “eu morri”, a partir do momento em que o verbo fosse conjugado, já não seria possível fazê-lo, porque o sujeito da frase não estaria mais vivo para pronunciá-la, portanto, em linguagem conotativa, esta conjugação é impossível em nosso idioma. O que não acontece no futuro do mesmo verbo, no mesmo modo de conjugação, “eu morrerei”.
O “eu morrerei” é uma realidade dada, mas que ao sujeito que conjuga o verbo parece sempre uma possibilidade remota. Algo que acontecerá um dia, num futuro, tão impessoal e distante como o verbo conjugado. Algo que nos remete à condição de mortal, mas não uma mortalidade imediata, dada, possível, condição única da vida que já está sendo gasta minuto a minuto, desde o nascimento. Essa realidade é tão premente que as pessoas contam o tempo em relação ao futuro como se caminhassem num ad aeternum, num caminho sem fim, onde os significados estão adiante, no próximo passo, numa nova oportunidade, numa nova perspectiva, numa nova alternativa, e se esquecem de que o que já foi vivido é o que realmente se teve. As experiências que se viveu e os sentimentos em relação a elas, a construção da vida, é o que se fez; não o que se fará. Na próxima curva, da próxima estrada, poderá não haver curva e muito menos estrada. O caminho ex finitum que a cada um de nós não cabe saber quanto termina e em que condições este fim se dará.
Para Elias (2001, p. 10), a consciência da morte faz parte da condição humana, e diferencia a espécie humana de maneira singular entre as demais espécies da natureza:

A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos. Embora compartilhem o nascimento, a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os animais, apenas eles, dentre todos os vivos, sabem que morrerão; apenas eles, podem prever seu próprio fim, estando cientes de que pode ocorrer a qualquer momento...

ANÁLISE DO DISCURSO
Apresentaremos os pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso (doravante AD) de linha francesa que subsidiou a análise do corpus da pesquisa.
A AD costuma ser concebida no imbricamento de três grandes correntes do pensamento: a linguística, o marxismo e a psicanálise; considerados fundantes para esta disciplina. É no encontro dessas três correntes que vai culminar na AD e implicará em ressignificações de alguns conceitos com os quais a teoria irá trabalhar.
A AD nos oferece um referencial metodológico de análise, possibilitando um instrumento de análise e levantamento das imagens das práticas dos sujeitos que se apresentam através das técnicas do dizer de si. Um dos fatores constituintes do discurso e fundamentais da Análise do Discurso é o outro. O outro constituído na figura das pessoas que interferem no discurso do sujeito, seja de forma a justificar o discurso deste, seja de forma a contrariar seu discurso. Este Outro é uma contribuição trazida da psicanálise no seu conceito de inconsciente. É no inconsciente e suas imagens criadas, a partir da percepção da realidade ou de imagens oníricas, que o sujeito constitui uma forma de se perceber como sujeito. O outro na Análise do Discurso está relacionando ao conceito de alteridade formulado por Lacan, e pode ser entendido como

Termo cunhado por Lacan para explicar a dualidade do sujeito. Vincula-se às produções formuladas a respeito da função do Eu e a complexa estrutura aí presente, envolvendo os conceitos do outro (pequeno) e o Outro (grande). O Eu não se encontra como uma forma fechada em si, mas tem relação direta com um exterior que o determina.” (op., cit., p. 11)

O sujeito é entendido como descentrado: um mesmo sujeito é, efetivamente, outro (os outros com os quais se relacionou e se relaciona), noção que advém de Bakhtin enquanto polifonia (COURTINE & HAROCHE 1988). O Outro (maiúsculo) advém dos estudos de Lacan e remetem ao inconsciente. Lacan (1998) aborda esta questão detalhadamente no texto “O estágio do espelho como formador da função do eu”, de 1949.
Para a AD não importa a verdade do discurso dito, já que a verdade não é um “ser em si” como na concepção de Heidegger. Para os teóricos da AD, não existe o “ser em si” como constituinte de uma essência, algo que só existe no âmago de cada ente. Por sua vez, os pensadores da ontologia entendem que cada ente ou coisa tem em si um ser que é a sua essência ou a sua razão de existir. Assim cada semente tem em si, a árvore que um dia será, cada criança tem em si, a pessoa adulta que um dia será. Todavia para a AD, o que existe é o discurso e o sujeito que se constitui a partir do discurso que faz.  Foucault (1998, p.20) nos diz, sobre os regimes de verdade que alicerçam os discursos em nossa sociedade:

Apoiados nos mesmos regimes de verdade que alicerçaram nossa sociedade, que é a mesma desde ou mesmo antes de Sócrates. Creio que essa vontade de verdade assim apoiada sobre um suporte e uma distribuição institucional tende a exercer sobre os outros discursos... uma espécie de pressão e como que um poder de coerção... E a razão disso é, talvez, esta: é que se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde ao desejo ou aquele que exerce o poder na vontade de verdade, na vontade de dizer este discurso verdadeiro, o que está em jogo, senão o desejo e o poder?

A língua que interessa à AD é aquela que mantém uma relação com a ideologia que pode ser observada; por isso, a contribuição do marxismo como proposta ideológica foi fundamental para a construção da AD, assim como a da linguística. Sobre o discurso nos diz Foucault (1998, p.10):

Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou - não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é também, aquilo que é o objeto do desejo; e visto que - isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente àquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que pelo que se luta o poder do qual nos queremos apoderar.

CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO
Inicialmente precisávamos descobrir quem comporia o corpus da pesquisa. Sendo a pesquisa sobre o tema da morte há de se ter muita cautela ao colocar o tema, porque as pessoas costumam não gostar muito de discuti-lo.
Para a realização da pesquisa, foram entrevistados três sujeitos, cujos nomes foram alterados, e cada um recebeu o nome de uma flor, que também pode ser o nome de uma cor, e de uma fragrância.
Apresentaremos a seguir, os resultados de análise, a partir desta regularidade observada nos dizeres de nossas entrevistadas.
A necessidade de confissão: consequência da interdição da morte
Já nos referimos, na parte teórica deste artigo, que a sociedade ocidental interditou a morte; não se fala da morte entre os vivos, o que é um paradoxo, pois para Elias (2001), “a morte é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas”. Diante dessa afirmação, supomos que, aos vivos, cabe a discussão sobre a morte.
Assim, é muito forte e evidente esse paradoxo da interdição e necessidade de falar sobre a morte nos discursos de nossas entrevistadas, como apontamos, a seguir.
        
Ao ser solicitado, em entrevista, a falar da morte de seu filho, Rosa nos diz:

...por mais que esse é um assunto dolorido. É um assunto muito dolorido, mas me faz bem falar disso. Sabe. Eu consigo desabafar. Sabe. Você expondo é uma coisa realmente dolorida, mas me faz bem assim eu não fico com aquilo guardado pra mim, eu consigo desabafar, eu consigo esclarecer está sendo. Esse momento pra mim eu não vou dizer pra você que está sendo fácil. Não tá sendo fácil mesmo. Eu passei o dia inteiro pensando nisso, eu falei meu Deus, eu tenho que ter forças pra conseguir fazer isso. Mas ao mesmo tempo é bom pra mim. Sabe. Não só com você, mas tocar neste assunto a turma fala, é dolorido? É dolorido, só que hoje em dia eu consigo vê isso como que eu vou dizer pra você? Um refúgio? Não. Não seria um refúgio. Sabe, seria uma saída pra eu poder ir aceitando isso que aconteceu, e se você não conversa, você não fala você vai guardando pra você, é onde sua cabeça vai ficando mais confusa você pensa: eu vou desanimar, eu vou parar , mas eu não posso, de forma nenhuma, eu não posso. É bom, é bom conversar por mais dolorido que seja é bom eu me desabafo, você vê que eu chorei um pouco, mas agora eu já estou mais controlada ...
        
Neste excerto, Rosa inicia seu discurso apresentando uma contradição logo na sua primeira frase quando afirma: “Por mais que esse é um assunto dolorido. É um assunto muito dolorido, mas me faz bem falar disso”. Tal contradição permeia o discurso de Rosa quando se trata da morte de seu filho e do falar sobre ela. É um paradoxo esta atitude de Rosa porque se, de um lado, ela expressa sua dor, possivelmente a maior dor a que ela já foi exposta, a dor da morte de um filho, e este tema, a morte de seu filho é, para Rosa muito dolorido, falar sobre ele é algo considerado por ela como algo que faz bem. Para expressar o bem que falar sobre a morte de seu filho lhe faz, Rosa apresenta em seu discurso termos de um mesmo campo semântico como: “desabafo, refúgio e saída”, que significam “colocar algo para fora”. 
Dos termos acima, dois chamaram muito a atenção, “refúgio” e “saída”, como em: “Um refúgio? Não. Não seria um refúgio. Sabe, seria uma saída pra eu poder ir aceitando isso que aconteceu”.
Rosa deixa claro que não é um refúgio, palavra que, segundo o dicionário Aurélio, significa: “asilo, abrigo, apoio, amparo, mas afirma ser uma saída cujo significado é ato ou efeito de sair, lugar por onde se sai, movimento de sair” (FERREIRA. 2001 p.66). Segundo seu discurso, Rosa não está procurando amparo, abrigo ou apoio, ela não quer ser apoiada pelos demais em sua dor, a busca de Rosa é encontrar uma saída para este sofrimento todo. Por ser muito dolorido, Rosa não procura se esconder, se asilar, ela busca sair do sofrimento, nesta busca, encontra-se a necessidade de escrita de si.
A expressão “dolorida” ou “dolorido” surge no discurso de Rosa num total de cinco vezes, enquanto a expressão “faz bem falar, é bom conversar. É bom”, surge quatro vezes, sempre seguindo uma expressão sobre a dor. Essa materialidade linguística nos deixa ver que a dor gera uma necessidade de confissão. A confissão da sua dor para outra pessoa alivia a dor. Como diz Rosa: “é bom conversar por mais dolorido que seja é bom, eu me desabafo”. E desabafo, substantivo utilizado por Rosa significa: “ato ou efeito de desabafar”, que, entre outros, tem o significado de “desafogar-se, desentranhar-se e expressar o que sente ou pensa” (op.cit. p. 244). Notamos que Rosa usa “desabafar-se”, verbo reflexivo, no sentido de “eu desabafo”, “eu me desentranho”, “eu me ponho para fora”, “eu me desafogo”. Neste caso, o sujeito e o objeto coincidem, é como se ela falasse consigo mesma - tal é, possivelmente, a perspectiva da escrita de si, postulada por Foucault: ao falar, escrever para o outro, o sujeito está falando e escrevendo para si, mais do que para o outro, ou ainda, existe outro dentro de cada um de nós, com o qual, infalivelmente, nos defrontamos o tempo todo. Note-se que não é alguém ou algo fora de Rosa que a afoga, e, sim, ela mesma que se desabafa, tentando sair do refúgio em que esconde para depois procurar uma saída para si mesma. Mas essa saída procurada por Rosa choca-se com o interdito social do falar sobre a morte, materializado pelo verbo “controlar” como vemos, no final deste mesmo excerto, quando Rosa afirma: “mas agora eu já estou mais controlada”.
Neste momento, aparece no discurso o interdito social ao tema morte e o falar sobre a morte, gerando a necessidade de confissão, pois ao dizer que “agora eu já estou mais controlada”, Rosa também diz que o discurso social a controla, ela diz estar mais controlada - quem está controlada não é alguém que se controla, é alguém que é controlada, por outro, pela sociedade, pelo interdito da morte, pela “ordem do discurso” da morte: “pode-se até falar, mas para se livrar”, “falar para calar”.
Rosa diz que o tema é dolorido, mas em nenhum momento, ela menciona o tema em questão: a morte do filho. Ela parece evitar o uso do termo “morte”, utilizando para isso a palavra “assunto”, em momento algum ela diz morte, ou diz o nome do filho, durante toda a entrevista concedida a esta autora. Para se referir à morte do filho, ela utiliza várias instâncias linguísticas como “assunto”, “coisa”, e pronomes indefinidos como “isso”, “aquilo”, “isso que aconteceu”. Ela trata a morte do filho, o nome do filho e a morte em si como um interdito. Ela interdita o nome do filho na entrevista toda, como veremos adiante, assim como o tema morte. Mesmo quando ela diz “é bom conversar” não termina a frase, é bom conversar sobre o quê?  E quando ela diz “por mais que seja dolorido é bom, eu me desabafo”, desabafa o quê? Desabafar sobre o quê? Essa “fuga” da palavra morte, e a interdição ao nome do filho nos apontam um paradoxo no discurso de Rosa.

Também surge no discurso de Violeta a questão da interdição da morte e a necessidade que esta interdição desperta de falar sobre o acontecimento da morte de um ente querido, como a seguir:

É... Falar né. Acho que a gente guarda muita coisa dentro da gente, quando a gente perde alguém, você fica pensando em tudo aquilo que você passou com a pessoa ou deixou de passar com ela. E tá tudo ali. Tá tudo guardado dentro da gente, então, quando a gente fala, parece que tá eliminando um pouco todo esse fardo. Que você carrega e principalmente da culpa, porque lá no fundo todo mundo carrega culpa pela pessoa ter ido embora, pelo que você fez, pelo que deixou de fazer, pelo que deixou de dizer. A vida que você deixou de dar. Eu acho que falar é sempre bom para eliminar mesmo o que... a gente sabe que lá no fundo as coisas acontecem mesmo e não tem como voltar atrás. A gente tem que realmente aprender a viver direito com os que ficaram. Fica sempre um aprendizado. Acho que falando, discutindo, abrindo o coração mesmo, você ganha forças prá lembrar dessa pessoa o quanto melhor possível, que tira um pouco da tristeza,. Você passa a lembrar de tudo o que você passou com ela, dos momentos bons, e não fica com aquela coisa de que ela morreu...
        
Neste excerto, parece muito explicitamente a troca de pronomes (a gente, no lugar de nós, como se fosse um “eu”, e também um “você” como se fosse um “eu”). Violeta alterna esses pronomes, em seu discurso para dizer de si, “escondendo” assim, atrás do “a gente/nós” o “eu” que não suportaria os dizeres, mas tem necessidade de se expressar.
Outra materialidade linguística importante é a repetição do verbo “falar” nas suas conjugações (fala, falar, falando) por cinco vezes, podendo indicar a necessidade que tem Violeta de expressar sua dor, através da palavra.
Ainda observa-se, expressa outra materialidade linguística nos verbos “guardar”, “carregar” e “passar”, seguidamente e na sequência, por três vezes num único parágrafo. Para Violeta, esta perda é um fardo que se guarda para ser carregado até passar.
Neste excerto, Violeta traz um dos estágios do luto apresentado por Kubler-Ross, na parte teórica deste estudo, neste caso, o da raiva (1987, p. 49). Aparece, em seu discurso, explicitamente “quando a gente fala, parece que tá eliminando um pouco todo esse fardo. Que você carrega e principalmente da culpa, porque lá, no fundo, todo mundo carrega culpa pela pessoa ter ido embora, pelo que você fez, pelo que deixou de fazer, pelo que deixou de dizer. A vida que você deixou de dar”.
Essa culpa, que caracteriza o segundo estágio, o de raiva, apresentado por Kübler-Ross (1987), é muito conhecido por quem perde um ente querido. É como culpado, por ter morrido, que o morto é visto pelos vivos, mas também, como culpado que o enlutado é visto socialmente logo após a morte de um ente querido - não é uma culpa relacionada à morte do outro, mas é uma culpa relacionada à falta de alegria, de felicidade, a traição da promessa de felicidade perene que a sociedade faz em relação às pessoas. Ninguém tem o direito de morrer, menos ainda o de sofrer com a perda. Sobre este segundo estágio, o estágio de raiva, que traz entre outros componentes a culpa, nos diz a pesquisadora:

Contrastando com o estágio de negação, é muito difícil do ponto de vista da família e do pessoal hospitalar lidar com o estágio de raiva. Deve-se isto ao fato dessa raiva se propagar em todas as direções e projetar-se no ambiente, muitas vezes sem razão plausível... A reação dos parentes é de choro, e pesar, culpa ou humilhação; ou então, evitam visitas futuras, aumentando no paciente a mágoa e a raiva.” (op., cit., p. 62).

A culpa/raiva é entendida como interiorizada no corpo/alma do sujeito; como pode ser evidenciado pelo uso do verbo “guardar” (FERREIRA, 2001, p 357) e a preposição de lugar “dentro”, contradição com os termos “eliminando, abrindo o coração, discutindo” num contexto em que Violeta afirma que, ao falar, o sujeito se abre, e esta abertura “tira um pouco da tristeza”, pois vai se “eliminando um pouco todo esse fardo”. 
Observa-se, assim, que a culpa/raiva se manifesta pelo uso do substantivo “fardo”, que significa “coisa mais ou menos volumosa, ou pesada, destinada a transporte, carga, o que moralmente custa carregar” (op., cit., p. 313).
Violeta parece afirmar que a morte de um ente querido é “uma carga pesada que se carrega aos lugares em que se vai, e que, moralmente, esta carga recai sobre os ombros daquele que perde um ente querido”.
Então podemos concluir que é necessário se livrar do fardo e da carga guardada dentro, para que se possa “ganha(r) forças prá lembrar dessa pessoa o quanto melhor possível; é preciso falar: acho que falando, discutindo, abrindo o coração mesmo”.
Quando Violeta se refere a um fardo a ser carregado, e que falar sobre o tema ajuda a eliminá-lo, está se referindo ao interdito que a sociedade apresenta em relação à morte e ao morrer. Interdito que Martins considera quando diz que “a morte acabou por ser banida, ocultada, proibida das preocupações do homem ocidental do nosso século; ela chega a ser até algo obsceno, um verdadeiro tabu”. (1983, p.62)
        
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A característica singular desta pesquisa é seu tema, tão necessário e urgente, quanto tabu em nossa sociedade, especialmente quando se relaciona a morte com a educação.
Tema maior da filosofia e da filosofia contemporânea, em se tratando deste período de transição entre Modernidade e Pós-modernidade, ele sequer é citado nas escolas ou surge como assunto de discussão pedagógica - reflexo que é sua ausência das rodas de conversa na escola, assim como ausente está nas discussões da sociedade atual.
Percebemos que nossa cultura se baseia na fala - somos uma sociedade falante. E numa sociedade falante, um interdito traz consigo uma necessidade - no caso do interdito da morte, ele traz consigo, a necessidade de expressão a partir da fala.
Porém, como nossa sociedade interditou a morte, a fala sobre ela é a principal característica deste interdito. Esse não falar, não dizer sobre ela é a expressão deste interdito. É através deste silêncio perturbador que o interdito social e moral sobre a morte apresenta sua mais característica expressão.
Foucault (2004a) afirma que cada sociedade constrói seus regimes de verdade de acordo com os princípios que a norteiam naquele momento, e eles são propagados e incorporados pelos sujeitos, também (re)formatados por essa sociedade. Ou seja, o sujeito é forma(ta)do para a manutenção da própria sociedade.
Em nossa sociedade, estes sujeitos são formatados e (re)formatados com temas interditos, entre eles a morte e o morrer. Não se concebe discuti-los, porque não se pode falar sobre o que não se experimentou. Nossa sociedade, por ser uma sociedade falante, traz na fala a possibilidade de construção da realidade e esta construção só se faz possível a partir da experiência desta realidade, por isso, não é possível produzir um discurso sobre algo não experimentado, como já dissemos acima - este não discurso torna-se então um tabu.
A hipótese que norteou este artigo foi que a sociedade contemporânea interditou o tema da morte, o que faz com que aquele sujeito que passa pela experiência da perda de um ente querido não encontre espaço na sociedade para expressar a tristeza, o sofrimento; sentimentos esses que acabam sendo vividos na solidão e no silêncio, por conta de um certo “pacto de felicidade” que supostamente a sociedade capitalista traz como promessa ao sujeito contemporâneo.
(Re)pensar a educação para além do meramente pedagógico, discutindo a morte e o morrer, foi uma via para alcançarmos o objetivo geral deste artigo, trazer a vida para o centro da discussão na escola.
Descobrimos que nossas entrevistadas precisavam falar sobre a morte e que a escola, lugar privilegiado de construção do conhecimento nesta sociedade contemporânea, não lhes permite buscarem na sua dor e no seu sofrimento a profundidade necessária e a força que se faz mister para continuar a vida, depois da perda de seus entes queridos.
Tivemos nas pessoas de Rosa, Violeta e Lavanda, a generosidade necessária a que uma pesquisa, nestas condições, exige àqueles que se dispõem a colocar suas dores à mostra, porque também precisam falar.
A necessidade de falar, citadas nos três casos, pode nos alertar sobre quanto à escola atual deixa a desejar no que se refere à educação em direção a uma humanização. Perceber o sujeito como pessoa, além da condição de aluno, talvez seja uma das urgências em relação à educação que buscamos ou acreditamos desejar.
A relação paradoxal que norteia os discursos de Rosa, Violeta e Lavanda, apresentadas como regularidades destes discursos, no paradoxo “interdição da morte” x “a necessidade de confissão sobre a morte”, está relacionada ao silenciamento envolto ao tema da morte e a necessidade de falar sobre sua dor, quando se perde um ente querido - foi a mais importante descoberta deste artigo.


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VEIGA NETO, Alfredo. Foucault & e a educação. 2ª edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

JURIENE PEREIRA DA SILVA é formada em Filosofia e Pedagogia; Mestre em Educação; atua como professora da Rede Municipal de Itatiba

MÁRCIA APARECIDA AMADOR MASCIA é formada em Letras; Mestre em Linguística e Doutora em Linguística Aplicada; atua como professora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade São Francisco, Campus Itatiba, na linha de Linguagem, Discurso e Práticas Educativas.

1 de maio de 2012

II ENCONTRO "LER & ESCREVER"



Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 19/mai/2012 (sábado), das 15h às 18h, o II Encontro "LER & ESCREVER", promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Capote Valente, 432.
Faça sua inscrição pelo Email da Revista (revistavortice@terra.com.br), pois haverá uma lista de presença e de entrada no auditório. A taxa é de R$15,00 - paga na entrada. As inscrições são limitadas, portanto re-enviaremos um Email de confirmação.

Neste Encontro será apresentado o Artigo "A FRESTA" (http://www.revistavortice.com.br/2011/12/fresta-marcos-inhauser-soriano.html), de Marcos Inhauser Soriano.

O Artigo será discutido sobre três vertentes: a teorização da função da Crença, proposta por Fabio Herrmann; a fresta no descompasso entre identidade e realidade, como possibilidade de instrumental clínico e; a fresta transferencial do analista, onde o texto se fez entrecortado por trechos de Chico Buarque.

O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os convidados e o público.

Segue abaixo os convidos à discussão:

MARCOS INHAUSER SORIANO
Psicanalista; Membro do Corpo Editorial da Revista Vórtice de Psicanálise

ELIANA RIBEIRO DA SILVA
Professora Universitária; Doutira em Educação (PUC-SP); Mestre em Linguística e Semiótica (USP); Pesquisadora; Autora e Escritora na área de Leitura; Leitora atenta do Mundo e da Palavra

LUDMILA NAVES
Graduanda do Curso Superior de Audiovisual da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), com Especialização em Roteiro e Direção de Fotografia; Fundadora-integrante do Coletivo Audiovisual "Simples Colher" e do Núcleo de Criação de Conteúdo "G.C."

MARIANA GIORGION
Psicanalista; Mestre em Educação (FE-USP); Especialista em Psicologia Hospitalar (ICHC-FMUSP); Professora Universitária e Pesquisadora; Membro do Corpo Editorial da REvista Vórtice de Psicanálise