25 de maio de 2012

NA FRESTA: REFLEXÕES SOBRE O II ENCONTRO "LER & ESCREVER" (Mariana Giorgion)



Texto apresentado no II ENCONTRO “LER & ESCREVER” da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE, em 19/mai/2012.


Hoje eu gostaria de pensar com vocês a ideia do (des)encontro, no texto do Marcos, na clínica psicanalítica e mais especialmente no processo de escrita, seja ela psicanalítica ou não. Apesar de falado, esse nosso encontro é sobre leitura e escrita, então eu escrevi e vou ler para vocês algumas considerações.
A Fresta” nos conta uma triste história de amor, onde uma mãe perde, para o destino, para a vida, seu filho. O texto em sua forma, por decisão do autor, já reflete um desencontro. A escrita truncada, interrompida, enigmática, não segue o combinado. Intercala trechos de análise, momentos de vida, reflexões, movimento, música e poesia sem aviso prévio. E invoca tristeza, muita tristeza.
Da primeira vez que li, achei bonito, mas quis me certificar com o autor se ele queria mesmo tanto desencontro. Preocupei-me com o leitor. Vai entender o seu sentido? Vai suportar o incômodo? E Marcos corre o risco.
O conteúdo de “A Fresta” também delineia, a cada parágrafo, encontros e desencontros.
Ela se viu assim, de repente, perambulando pela rua (…) não havia como pensar”. O que seria pensar? O que não era possível? Lembrar? Entender? Sentir? Justificar? Buscar um sentido que acolhesse a alma e assentasse a angústia?
E o texto segue, mas agora buscando um encontro:
(...) em certa medida o autor se funde com o texto. (...) sei que é disto que se trata: de uma fusão, de uma sala de análise, de uma história contada desta maneira”.
O que é uma fusão? Segundo o dicionário Aurélio a palavra comporta diversos sentidos. Pode ser a passagem de um corpo sólido ao estado líquido sob a ação do calor; a união de muitos átomos leves em alta temperatura que vão dar origem a átomos mais pesados, com desprendimento de energia; pode ser também uma união, uma aliança, onde dois ou mais se aproximam ao abandonarem as discordâncias e diferenças; mas eu gosto mais do sentido de mistura, liga, amálgama. Em Psicanálise, segundo nosso saudoso Laplanche, falecido no início do mês de maio, e seu colega Pontalis, o termo fusão foi usado por Freud em sua última teoria das pulsões, descrevendo as relações entre as pulsões de vida e de morte. A fusão das pulsões é mistura de agressividade e sexualidade. Então compreendo assim: neste momento do artigo, da análise, está tudo junto, misturado, vida e morte, agressividade e sexualidade, uma única história possível, mas, ao contrário da fusão da química, aqui a energia é concentrada, não liberada, para garantir o estado fusional. Há que se fazer força para manter a fusionalidade emocional.
E o autor convoca a dor com a “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque, e eu me desencontro: dor do amor fusional? Dor de todo amor? Dor da fusão entre Eros e Thánatos? De que se trata afinal?
Mas segue o texto: “ela abdicou-se de tantas delas para entregar-se ao Amor, (...) um amor incondicional”. E, apesar de oscilar, o autor tende a crer que não é de graça que se abdica de ser, se abdica de condições para amar. Ela busca algo, um preenchimento, uma obturação, como costumava conceituar Lacan, um Falo que não tem, um pai que de alguma forma, de muitas formas, ou de todas as formas já se foi, ou nunca foi, não sei.
No parágrafo seguinte um novo desencontro: “histórias de Amor são histórias humanas. Histórias humanas vão ao encontro de um destino”. Então buscamos no amor a completude, aquilo que nos falta e vamos de encontro ao único destino certo que é a morte?
Na personagem de “A Fresta”, o destino, o limite ao amor que era sem limite, se dá pelo outro, mais especificamente pela morte do outro. A morte invade o encontro, a completude, e reinstala a falta. O ser, que abdicou de tantos para ser esse, fica sem ser nada. Morte em vida. Marcos identifica em outros o sentido desse ser que sobra: Maria, mãe de Jesus; Pedaço de mim, de Chico Buarque.
Mas eis que o personagem do texto, o sujeito da análise, não suporta vivenciar a morte. Cochila no ato de morte do outro, recorre à inconsciência, perpetua o último suspiro. No recalque o sintoma se instaura: seu cochilo tira seu sono o resto da vida e o analista conduz seu tratamento promovendo um encontro, entendendo a perda, o luto, a frustração.
Esse analista, diferente de outros, dá vida ao corpo, no texto, na análise. Segura firme a mão de sua analisanda, abre espaço para o toque, o cheiro. Invoca Winnicott ao manejar-se como um objeto transicional. E eu me recordo da velha rixa entre Lacan e Laplanche: “a linguagem é a condição do inconsciente” ou “o inconsciente é a condição da linguagem”? Parece que Laplanche e Marcos, dentre tantos outros, consideram a segunda versão mais adequada à ideia freudiana de primado do inconsciente na formação do sujeito e essa coerência teórica, filosófica, essa ética analítica, abre brechas, frestas nas representações dessa mulher, que não precisa mais ser só a mãe de um morto. A nomeação de novas possibilidades se dá ao ver o próprio analista em movimento do corpo. O cara anda, toma café, tem cheiro. Ele é outro, também.
Ao tecer essas considerações sobre o artigo de Marcos e sobre a análise que ele conduziu, me vejo enredada na escrita de um texto.
Quando ocupo o lugar de analista, tenho a escuta como norteador de minha prática, lembrando sempre que a base da escuta analítica é o desencontro com o sentido pressuposto pelo analisando. Busco encontros, relações, entrecruzamentos de sentidos, que trazem a tona uma outra fala, diferente daquela consentida pelo paciente. Neste manejo questiono representações e possibilito brechas para novos sentidos. Não ocupo o lugar de quem sabe, pelo contrário, me posiciono como um permanente incomodo que questiona o certo, mas também como um laboratório experimental de outras possibilidades.
Como analisanda, parte inseparável da condição de analista, lembro de uma eterna sensação de que eu deveria estar muito atenta e cuidadosa com minhas fantasias na sala de análise, porque, sei lá por que, elas fatalmente se realizavam na vida lá fora. Efeito sinistro da aproximação com o desejo.
Mas e a escrita? Vim aqui para um encontro com vocês. Produzi um texto que pretendo compreensível, perceptível, quiçá admirável. Preocupo-me com a redação, a ortografia, a gramática. Cuido da forma e do sentido, tentando controlar o incontrolável: o que meu texto causa no outro.
Já devaneei sobre isso na Revista Vórtice, tanto no meu artigo “Pulsão”, quanto em “Seu Zé faleceu”. Ambos foram escritos em momentos de angústia, onde se fazia premente a redação de textos que me deixavam insegura, questionada em meu saber e o paradoxal, ou sintomático, é que vi na própria escrita, ou em outra forma de escrever, um espaço de elaboração, de organização, de apresentação das minhas ideias, que segundo Fabio Herrmann já eram sentimentos, posto que eram carregadas de afetos.
Ao apresentar meus artigos assim me vejo invocando em meus leitores uma certa indulgência. Leitores não são indulgentes, pelo contrário, partem do pressuposto de que, se escrevi, devo, com meu texto, fazer função para sua leitura.
E aí me pego pensando quando e por que eu não escrevo, porque, muitas vezes, mesmo querendo, mesmo achando que deveria, eu não escrevo.
Percebo também que é bem mais difícil encontrar sentidos para a não escrita e vejo uma relação muito clara entre a minha não escrita e a minha não fala. Falo e escrevo por razões semelhantes, mas, em alguns momentos, me calo. A sensação que tenho, agora, é que essas palavras que travam, essas ideias que não concatenam, esse sentido que não emerge e essa nomeação que não se permite poderiam causar muito mais movimento, vórtice, caso eu tivesse tolerância para suportar o que Herrmann denominou de “expectativa de trânsito”. Escrever sobre o que eu ainda não sei, ou não sei se sei, seria permitir o deslocamento e o novo que daí advém. Em análise, tal movimento poderia ser comparado à associação livre, onde se fala demais, mesmo correndo-se o risco de arcar com as consequências do dito. Escrever como um processo de descoberta, de pesquisa, indo além do que já se sabe, é permitir-se reelaborar, acrescer, ser novo, mas é também correr o risco de ser descoberto, desmascarado. O analista não ocupa o lugar de quem sabe, mas pode gozar do e no prestígio dessa suposição. Na escrita, assim como na fala, exponho o que sou, o que sei, como faço, como repito, como reedito e como supero e esse não é, sempre, um lugar confortável.
Lembro-me que sou membro do corpo editorial da Revista Vórtice, ocupando um lugar de analisar um texto que, se me foi enviado, é porque se considerava pronto. Também não é com indulgencia que leio os artigos de meus colegas, pelo contrário, espero a todo instante ser surpreendida, acrescida, ampliada e renovada pela leitura. Mas sou solidaria àqueles que se propõem, assim como eu, a enfrentar mais esse desafio que caracteriza a formação de um analista. Análise pessoal, supervisão e transmissão são a tríade técnica que nos forma e nesse percurso nos encontramos agora, buscando sair daqui, hoje, um pouco diferentes, deslocados, acrescidos ou questionados em relação ao momento em que chegamos, porque esse é o terreno fértil da psicanálise.

MARIANA GIORGION é psicanalista