12 de junho de 2012

F DE FRACA E VITOR COM VIGOR - UMA NARRATIVA CLÍNICA SOBRE UMA INTERVENÇÃO EM SAÚDE MENTAL INFANTIL NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA (Patrícia Farina)



O caso já vinha sendo acompanhado e envolvia diversos atores, a equipe de saúde da família, o conselho tutelar, a escola e uma infinidade de relatórios que narravam uma cena em que Vitor, um menino que à época tinha dez anos, era cercado em sala de aula por colegas em uma “cabaninha” feita com os agasalhos de moletom. O que aconteceu na “cabaninha” ao certo ninguém podia afirmar, mas sugeria-se um abuso.
- Não, não. Mas com o Vitor foi abuso mesmo, abuso sexual de verdade. - dizia um dos membros da equipe. 
- Mas, não foi entre crianças? Podemos usar esse termo, abuso sexual, prá dizer do que aconteceu na “cabaninha” entre crianças? - comentava outro colega.
- Não, você não entendeu, o Felipe era mais velho, e com o Vitor foi abuso mesmo. 
- Você está querendo dizer que Vitor sofreu um abuso sexual porque Fernando que é dois anos mais velho introduziu seu pênis no ânus de Vitor a força? É isso que aconteceu na “cabaninha”?
Silêncio.

No primeiro contato com Vitor, juntamente com outro terapeuta, minha impressão foi de uma criança bastante comprometida emocionalmente, que ficava o tempo todo olhando para cima ou para os lados, que pouco se expressava e nem tinha iniciativa, para a qual a psicoterapia era fundamental. Realizava desenhos bastante miúdos, mas com riqueza de detalhes, em geral robôs.
Paralelo ao episódio da “cabaninha”, presenciado por uma professora em sala de aula, um colega de Vitor contou à sua mãe, Dona F., que os meninos da escola e da rua, liderados por Fernando, judiavam de Vitor - eram estúpidos com ele, o xingavam e o subjugavam. Não só Fernando estudava na mesma classe que Vitor, como ambas as famílias compartilhavam o mesmo quintal, com a casa de Fernando na frente e a de Vitor nos fundos.
Os pais de Vitor tomaram então a iniciativa de conversarem com os pais de Fernando, com o envolvimento sobretudo, do conselho tutelar e, posteriormente, pela equipe saúde da família – o que intimidou visivelmente a família da casa da frente. Os pais de Fernando, que até então se mostravam bastante omissos com relação ao comportamento do filho, foram capazes de ouvir as queixas dos pais de Vitor e ter uma conversa com os conselheiros tutelares. O resultado disso foi a transferência de Fernando para outra escola e o afastamento da família de sua equipe de cuidados no Programa Saúde da Família (PSF), bem como o distanciamento entre Fernando e Vitor. Não foi possível lidar propriamente com o problema, o conflito resultou em evitações.
Algum tempo após todas as “denúncias”, Vitor teve uma significativa melhora na aprendizagem e no desenvolvimento, passou a frequentar aulas de reforço na escola e realizar atividades com outras crianças de um grupo do qual participava na Igreja de seus pais, também passou a frequentar um curso de informática e profissionalização numa instituição de contra-turno do bairro. Está mais expressivo e tem um vocabulário rico.
Marcamos uma conversa com seus pais e pedimos que estivessem presentes os dois. É muito difícil acertar um dia e horário para essa conversa, devido à poça disponibilidade de ambos em comparecerem ao encontro. Na data finalmente combinada, o pai de Vitor comparece no horário e sua mãe chega com alguns minutos de atraso, trazendo consigo Vitor, sua irmã mais nova Vitória – que ao contrário de Vitor e seus pais é bastante esperta e articulada – e duas crianças pequenas as quais Dona F. cuida como babá.
Dona F. entra com todos na sala, o pai de Vitor, Sr. F., reclama por Dona F. ter trazido a todos. Peço que as quatro crianças aguardem na sala de espera e Dona F. sai com elas. Peço que Dona F. volte e explico que hoje a consulta será somente com os pais.
Os pais de Vitor são bastante humildes e passivos, tem dificuldade em falar sobre o que ocorreu com o filho dizendo sempre “aquilo”, “aquilo que aconteceu com ele, aquilo que deixamos acontecer”, “por que ele nunca nos contou aquilo?”, “por que ele nunca tomou uma atitude quanto aquilo?”.
Aquilo o quê? Penso em voz alta.
Silêncio.
Quando faço essa pergunta, sinto como se fosse eu quem estivesse cometendo uma violência contra os pais. É aqui que minha agressividade se revela: na pergunta invasiva, de abuso.
Os dois confirmam os progressos de Vitor com relação à interação com outras crianças na Igreja e a aprendizagem na escola. Mas nas entrelinhas, Vitor carrega a marca de abusado, frágil, incapaz de se defender. Os pais descrevem Vitor como bobo, sem atitude, não entendem por que ele é assim.
Chama-me a atenção os pais exigirem tantas atitudes de Vitor, uma vez que ambos se apresentam como muito passivos, lentificados e resignados.
Vem-me a cabeça um exemplo: comento com Dona F. como é para ela, por exemplo, quando recebe o troco errado no açougue, se ela é capaz de voltar ao vendedor e exigir a quantia correta e justa, ou se simplesmente aceita o “abuso”.
Novamente um silêncio.
É, é difícil - responde o casal.
É interessante pensar neste exemplo, escolhido por mim naquele momento. Trazendo a ideia de abuso (sexual?) para de “abuso econômico”, tomada por sentimentos contra-transferenciais, sigo manifestando minha agressividade com estes pais, quase que dando o “troco” a eles. Passo a exigir força e vigor mesmo diante da fraqueza e fragilidade que percebo no casal. 
Tal exigência, entretanto, é para atender minha irritabilidade pessoal e inconformação... Afinal, são pais tão fracos, empobrecidos no campo dos afetos com relação a Vitor - que parece ser visto como um pedaço de “carne” incapaz de incorporar vigor, dinamismo, energia - e com pais que pouco podem investi-lo dessas forças. A marca do abuso incide sobre mim, ao exigir algo que aqueles pais, naquele momento, não podiam oferecer.
Preocupa-me a marca que Vitor carrega - como aquele que sofreu um abuso sexual (alguns membros da equipe inclusive o designam dessa maneira). O fato de estarem encaminhando o menino a uma psicóloga parece reforçar ainda mais essa condição. Levo essa preocupação para as discussões com a equipe, mas não a consigo deixar tão clara aos pais. Todavia, tento conversar com eles sobre os “abusos” que sofremos no dia a dia e a maneira como vamos lidando ou não com as dificuldades da vida, as opressões, as situações em que somos corajosos e as que nos omitimos.
Diante dos avanços mais recentes de Vitor, proponho que ele permaneça acompanhado pela equipe de saúde da família, e ao contrário de antes, não priorizo mais uma psicoterapia.
A situação vivida por Vitor gera tanta mobilização que a escola em que ele estuda é uma das escolhidas para um projeto de intervenção em Cultura de Paz - embora Vitor, conforme acompanhamos em sua história, nunca seja deixado em paz.
É interessante ressaltar que Vitor não é um caso isolado: são muitos os relatos e queixas de professores e pais que dizem terem presenciado ou constatado “abusos” entre alunos/crianças ou mesmo das próprias crianças que relatam terem sido “abusadas”. A forma de crueldade ou opressão entre as relações infantis tem comumente aparecido dessa maneira: “Ele disse que ia fazer comigo o mesmo que faz naquele jogo de videogame” - foi uma das frases que ouvimos na Unidade Básica de Saúde (UBS).
Passam-se alguns meses e a agente comunitária que acompanha a família de Vitor pede que realizemos uma visita domiciliar para conversar novamente com os pais, pois Vitor mudou de escola, e no colégio novo permanecem acontecendo agressões contra ele. Surpreendo-me, pois já estávamos no final do ano letivo e uma mudança de escola nesse período me pareceu sem propósito. Vitor é tirado de lugar, e a chance de encontrar ou constituir um ambiente forte o suficiente vai desaparecendo. 
Na visita domiciliar encontro Vitor, sua irmã e sua mãe, além das duas crianças menores das quais cuida. É difícil conversar com ela na casa, que ora se preocupa com as panelas, ora com as crianças; em outros momentos pede que Vitor dê conta de impedir que as crianças saiam da casa para o quintal. Não tem muita energia ou firmeza na voz. Eu e a agente comunitária enfatizamos que viemos para conversar e que era importante que ela parasse o que estava fazendo e, juntamente com Vitor, compartilhasse conosco o que estava acontecendo.
Dona F. conta que as agressões contra Vitor permaneciam acontecendo na escola, e que outras mães também passaram a ofendê-la, dizendo que seu filho “é que era bicha”. Vitor confirma. Achou melhor transferi-lo de escola - novamente não conseguiu lidar com essa situação, foi mais fácil “transferir o bicha”. Conseguiu uma vaga num colégio no bairro vizinho, e na nova escola fez questão de contar a diretora “aquilo” que Vitor havia passado. Na nova escola as crianças também passam a caçoar de Vitor - segundo a mãe, de maneira semelhante à escola anterior. Ela se pergunta – Como eles sabiam?
Dou-me conta de que quando conheci Vitor ele já estava em acompanhamento pela unidade, de que fui seguindo as coisas do ponto de onde estavam, e que pouco sabia sobre Vitor, sua história, ou mesmo quando essa história de “abusos” começou!
Pergunto para mãe sobre Vitor, sobre quando ela começou a perceber suas dificuldades. Dona F. me conta que se mudaram para aquela casa quando Vitor tinha cinco anos e que nesta época o menino passou a chorar muito à noite, e não conseguia dormir. Pergunto a Dona F. porque ela achava que Vitor se comportava assim e ela me conta de Fernando e de outros meninos do quintal (Fernando, seus irmãos, crianças da vizinhança), que chegou a presenciar as crianças empurrando Vitor contra a parede e o agredindo mais de uma vez. À noite Vitor não dormia.
Dona F. me conta que à época dessa situação, sentia-se muito intimidada pela vizinha da frente, mãe de Fernando, preferia não conversar com ela sobre o assunto - “ela sempre foi muito barraqueira”, me diz. Então orientava Vitor a ficar em casa, não sair e, que quando situações de agressão ou opressão acontecessem no quintal ou na casa de Fernando, caso ele insistisse em brincar com as outras crianças, quanto a isso ela não poderia fazer nada: “tem que aguentar, né”.
É como se Dona F. também estivesse no lugar da abusada. Ela reafirma a fraqueza em Vitor. Não consegue acolher seus medos e transformá-los. Ela aguenta o abuso, mas não aguenta oferecer este tipo de cuidado ao filho.
Olho para Vitor que não diz nada. Eu e a agente de saúde ficamos bastante mobilizadas com a história de Dona F., inédita para ambas. Converso sobre o fato de Vitor vir passando por diversas avaliações e orientações, e ao contrário de antes, com estigmas ou sem estigmas, penso que Vitor precisa de tratamento. Pego na mão de Vitor e o convido para um atendimento na UBS. Ele aceita.

Nas semanas seguintes atendo Vitor juntamente com outra criança de sua idade, Pedro, que está passando por um processo de transição: após morar anos com os avós e diversos tios e primos na Bahia, Pedro, filho único, veio para São Paulo morar com pais, que migraram inicialmente em busca de melhores oportunidades financeiras, e agora estabilizados, foram buscar o filho que tem encontrado certa dificuldade no aprender, segundo a escola.
Pedro é uma criança com bastante iniciativa, curiosa, falante, ele parece injetar energia em Vitor que interage com ele: realizam jogos juntos, discordam em algumas coisas, contam um para o outro sobre seus videogames, me pedem que lhes conte a história do livro do Rei Leão, mas como já conhecem o final, preferem me contar sobre o que acontece no filme. Percebo Vitor mais vivaz e potente, com um amplo vocabulário. No final do atendimento, Vitor me pergunta se o próximo atendimento vai demorar muito para acontecer, porque sempre demora. Digo que vamos tentar nos encontrar com mais frequência, mas que eu gostaria que ele frequentasse um atendimento semanal com outro colega e em outro lugar, onde seria necessário pegar um ônibus, justamente pela frequência que ele me pede.
É interessante notar que a injeção de energia na interação dos atendimentos se dá pelo brincar. Não há persecutoriedade. Vitor não é invadido nem abusado e deseja estar ali.
A seguir abro a porta da sala para a mãe de Vitor, que logo reclama que a sessão demorou muito. Foi uma hora. Em oposição a Vitor, que pede mais tempo, ela acha que é tempo demais. Chamo Dona F. para conversar e como de costume ela aceita reticente - percebo que Dona F. nunca se agrada em conversar comigo, parece estar sempre com medo, se esquivando. Para Dona F. não há tempo para receber as suas injeções de vigor, entretanto é preciso disso para “aguentar” seu filho sendo cuidado.
Dona F. entra na sala e falamos sobre a possibilidade Vitor ingressar numa psicoterapia em serviço de clínica-escola, com valor e localização acessíveis. Ela diz que não poderá levá-lo, não tem dinheiro e cuida das outras crianças em casa, não pode se deslocar. Comento então que Vitor pediu maior regularidade no atendimento, que é algo que de fato ele precisa, mas que na UBS não posso oferecer. Dona F. fica satisfeita se ao menos eu puder atendê-lo uma vez ao mês. Dona F. diz que só quer “a avaliação”, “o relatório que a escola pediu”. Atender simplesmente ao pedido escolar é como reafirmar o mito do abuso. Já recai sobre Vitor uma série estigmas: o abusado, o bicha, o anormal. O que não lhe faltam são avaliações. Não seria hora de deixá-lo em paz? Conto a ela que minha avaliação é de que a terapêutica da qual Vitor melhor se beneficiaria é a psicoterapia. Dona F. demonstra desânimo.
Existe algo que me incomoda em Dona F.: a maneira como ela pronuncia o nome de Vitor, omitindo a letra “r” - Dona F. tira todo o vigor de Vitor chamando-o Vito. Ela o diminui.
No atendimento seguinte Pedro não aparece e Vitor pergunta por ele, digo que talvez Pedro não possa mais vir e ele lamenta. Peço que Vitor escolha a brincadeira, e ele tem dificuldade em iniciar algo. Ofereço algumas opções e ele escolhe um jogo de encaixe - faremos uma casa para o boneco do jogo. Vitor é bastante lento ao construir a casa: encaixar as peças, a configuração da casa não sai da maneira como gostaria, e eu tento negociar algumas posições de encaixe. Levamos toda sessão para construir a casa, e Vitor pede que eu a guarde montada.
Em outro atendimento, Vitor aparece juntamente com um colega, Pablo - um bom amigo, segundo Vitor e sua mãe. Diferente de Pedro, Pablo não dá espaço para Vitor na sessão, faz as escolhas, conta sobre suas coisas e só pede que Vitor confirme. “Vamos jogar esse, né?” “É de tal jeito, né Vitor?”, tento alguma mediação sem sucesso, Pablo se contém, mas Vitor pouco se manifesta. Nossa casa continua guardada. Penso no quanto o atendimento sem outra criança pode ser angustiante para Vitor, na dificuldade que teve em construir a casa.
Na sessão seguinte, a agente de saúde, bastante angustiada, me diz que Vitor não vem à consulta, que não está comendo e vai ao médico do convênio, e que há dias atrás esteve em consulta com um especialista do mesmo convênio que o diagnosticou como autista. Todavia, seus pais virão no fim da tarde para conversarmos.
Os pais comparecem. Esclarecem que o “não comer” foi pontual. Na verdade foram orientados pelo pediatra a limitarem as guloseimas com Vitor, para que ele realize adequadamente as refeições. Quanto ao diagnóstico de autismo, dado por outro especialista, não sabem o que significa ou do que se trata. Quando pergunto sobre porque encaminharam Vitor a um médico do convênio da família e não a UBS, eles me dizem que Vitor não muda, não melhora, não consegue se impor.
Tomada de decepção, ofereço aos pais de Vitor quase que um sermão, retomando a situação de cinco anos atrás, quando eles mesmos disseram a Vitor que com relação aos filhos da vizinha não se pode tomar atitude; que foi preciso a escola, o conselho tutelar, para que Vitor fosse ouvido e fosse tomada uma atitude; que Vitor não ia mudar de uma hora para outra, e que passar em médicos especializados, ter diferentes diagnósticos, não ia mudar o comportamento de Vitor de uma hora para outra; que em todas as avaliações médicas ou multiprofissionais indicava-se a Vitor a psicoterapia; que ele pedia por menores intervalos entre os atendimentos e que ao invés disso, teve seu atendimento cancelado por uma consulta médica privada, mesmo sabendo que ele poderia ser atendido na unidade, pela mesma médica de equipe que já vem acompanhando seu caso, e não ficar transitando em avaliações; e que conforme conversamos na última visita domiciliar, não será o caso de Vitor receber finalmente um tratamento? E de não ser novamente arrancado de um lugar, para que finalmente possamos construir algo firme? De ser deixado em paz?
Os pais se mobilizam. A mãe de Vitor chora, diz que o psicólogo do contra-turno, onde Vitor faz aula de informática, falou a mesma coisa. A agente de saúde estava presente no atendimento, ela não comenta nada, mas parece menos ansiosa.
Em discussão na reunião de equipe saúde da família, a equipe pensa se não seria o caso de colocar Vitor em alguma atividade - mais uma, além da escola e contra-turno. Converso sobre o fato de Vitor já estar em atividade, e de que talvez precise de uma atenção um pouco mais próxima (não necessariamente individual, mas onde ele não desapareça e nem seja transferido), de que talvez não estejamos no momento de encaminhá-lo ou inseri-lo, mas de apenas construir junto com ele.

Em encontros seguintes com Vitor, com nossa casa já consolidada, passamos a construir outras formas, com base nos modelos exposto na embalagem do jogo de encaixe. No último encontro percebo que Victor ao encaixar as peças, o faz de maneira hipotônica, molenga, embora saiba que elas precisem ser encaixadas com mais força ou em ângulos que garantam maior firmeza e equilíbrio da construção.
Em determinado momento, fico irritada com isso e digo: Vitor, você vê que isso está frouxo, você tem força para encaixar melhor, não vou fazer prá você e nosso tempo já está acabando. Em fato, Vitor não pedia ajuda verbalmente, mas demonstrava tal fragilidade que despertava que tomássemos iniciativa por ele. Após o meu comentário Vitor passa a se empenhar nos encaixes e terminamos nossa construção em tempo para o encerramento da sessão. Novamente, a partir de minha irritabilidade, tento trazer um pouco de energia para a fraqueza que percebo. Ainda que repetindo mais uma vez o tom de cobrança, tal como com os pais de Vitor, o elemento contra-transferencial se manifestou de maneira mais positiva.
Trata-se de nosso último encontro, pois na semana seguinte serei transferida para outra unidade. Vitor, bem como sua mãe, já haviam sido avisados sobre isso anteriormente. A mãe reclama com a agente comunitária sobre essa mudança: “Poxa, agora que eu estava me acostumando”. Dona F. já estava bem mais a vontade comigo nos últimos tempos, bem como eu mais compreensiva e menos taxativa com a maneira como ela se relacionava com Vitor e nossos encontros. Vitor seria encaminhado a outro terapeuta – um dos outros apoiadores NASF que já conhecia sua história. E neste último atendimento não me abstenho em dizer a Vitor que vou comentar com seu futuro terapeuta que ele não é tão fraco assim.

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A sigla NASF refere-se a Núcleo de Apoio a Saúde da Família. O NASF é composto por profissionais de diversas formações, que devem atuar entre si de maneira transdisciplinar, bem como apoiar as equipes de saúde da família – Equipe SF, na construção de projetos terapêuticos singulares para indivíduos, famílias e territórios. Ao invés dos termos equipe ou centro – uma vez que não se trata de uma equipe a parte, e tampouco da centralização de algum saber específico – o termo núcleo vem resgatar a ideia de matriz, tal como em determinadas estruturas. É missão do NASF trabalhar a partir do apoio matricial e das ações compartilhadas, ou seja, da troca de conhecimentos e da experiência conjunta. A ênfase é na corresponsabilização, nunca no encaminhamento de departamento. É possível matriciar, nas reuniões, a partir de discussões de projeto terapêutico, nas intervenções compartilhadas – consultas, visitas, grupos, encontros -, e nas ações mais didáticas, como nas capacitações, oficinas ou construção de narrativas entre os profissionais.
No caso de Vitor e da construção de seu projeto terapêutico, as ações foram sendo construídas a partir das discussões nas reuniões do NASF, na reunião da equipe de saúde da família responsável por seu caso, bem como por consultas e visitas compartilhadas com sua agente comunitária de saúde, co-terapeuta nesse processo.
Ao longo do processo de cuidado com Vitor e sua família, tentamos desconstruir não só estigmas com relação ao “abuso escolar”; mas também a certa patologização dos comportamentos, em que muitas demandas são encaminhadas aos saberes “psi” – psicólogos, psiquiatras, psicanalistas –, sem que se possa de fato refletir sobre os olhares distorcidos, os diversos atores envolvidos com a questão, e por que não, sem que se possa investir em outros potenciais terapêuticos dos diversos profissionais de saúde, assistência, educação, meio ambiente e tantos outros.
O descontruir-se também se deu com relação a mim. Embora a psicoterapia semanal fosse um desejo e uma necessidade para o projeto terapêutico de Vitor, ainda que com encontros que como ele mesmo dizia, sempre demoravam a acontecer, deixei de ver as ações de cuidado em saúde mental com Vitor e com outros casos, no âmbito da atenção primária e do apoio matricial, como fracas. Também foi possível encontrar meu próprio vigor como apoiadora da estratégia saúde da família - uma clínica em que mais importante que a interpretação e o sigilo, é a possibilidade de compartilhar uma determinada situação, compreensão ou uma contradição.  E que mais importante que a frequência, é a simples possibilidade do encontro, que pode ser único, mas não medíocre, dada a potencialidade do que se produz ali.
Mas, não teria sido um acompanhamento psicoterápico o que realizamos com Vitor? Ao menos o acompanhamento psicoterápico possível diante das condições de nossa atuação? Fica-nos essa questão.
Penso, que mesmo distantes do enquadre clássico da psicoterapia, nossa atuação foi psicoterapêutica! Para além de protocolos, o que se produziu ali reverberou de diferentes maneiras, em Vítor, sua mãe, sua equipe de saúde da família, na equipe NASF e em mim, que durante certo tempo menosprezei o fato de que a psicoterapia, o cuidado, o tratamento terapêutico pode acontecer nas consultas mesmo que espaçadas, nas visitas domiciliares, na sala de espera, na rua...
O que difere a atuação de um psicólogo apoiador do NASF é justamente a possibilidade de fortalecer a clínica da estratégia saúde da família, onde a saúde é entendida de maneira integral, onde não há separação entre corpo e mente. Assim, a especialidade de um apoiador se faz importante não para fragmentar o sujeito e insistir num modelo estanque de atendimento ambulatorial, mas no investimento e na potencialização das ações próprias da atenção primária e de seus profissionais. Muitas vezes, é difícil para as equipes compreender que independente de suas ações, estas já lidam (ou entram em contato, mesmo que de maneira temerosa) com as questões de saúde mental, e que estas são próprias à estratégia saúde da família. O intuito é justamente combater uma lógica de encaminhamentos defensivos – fale de sua dor, de sua violência, de seu abuso em outro lugar, não sabemos como lidar com isso aqui – e fazer com que cada profissional se aproprie das questões de saúde mental valendo-se dos recursos que já possui, como por exemplo, a agente de saúde quando pede que os pais se responsabilizem pela ausência de Vitor na consulta ou a médica da equipe de saúde da família que por conhecer Vitor, sua família e a história dessas pessoas em determinado momento evita encaminhar a criança para novas avaliações e atender ao pedido dos pais.
Uma característica das equipes NASF é seu formato volante. As equipes costumam oferecer apoio a mais de uma UBS e segundo sua mais recente portaria podem apoiar até quinze equipes de saúde da família. Este formato, que é visto por alguns como “enxuga gelo”, inicialmente me fez pensar na dificuldade em se manter ações mais contínuas com os usuários e com as equipes. Posteriormente entendi que se esse modelo não se faz por acaso, o fato dos profissionais circularem entre UBS (e em determinados momentos também auxiliarem as equipes a articularem projetos terapêuticos com outros dispositivos da rede como os Centros de Atenção Psicossocial – CAPS, entre outros) favorece a implicação dos profissionais das equipes de saúde da família com os casos.
Na ação de apoio, corresponsabilização e compromisso de outros profissionais com o paciente para que este não se perca numa rede de encaminhamentos muitas vezes sem sentido e de fato seja acolhido e se vincule a UBS fazendo uso dos recursos possíveis que está tem a lhe oferecer, é aí que a clínica da estratégia saúde da família acontece.

PATRÍCIA FARINA é psicóloga pela Universidade São Francisco, possui aprimoramento em Saúde Mental e Justiça (FUNDAP) pelo Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Prof. André Teixeira Lima, Especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior, possui experiência como docente na Faculdade Anhanguera Jundiaí, Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (sob orientação do Prof. Manoel Tosta Berlinck), foi psicóloga da Casa de Saúde São João de Deus, psicóloga apoiadora matricial da equipe NASF (Núcleo de Apoio a Saúde da Família) SMS/SP, atuou na região da Brasilândia, atualmente compõe a equipe NASF República na região central da cidade de São Paulo/SP, possui experiência na área de Psicologia, com ênfase em Saúde Pública e Saúde Mental