10 de outubro de 2012

CONVERSANDO SOBRE FRESTAS: DIÁLOGOS PERTINENTES (Eliana Ribeiro da Silva)



Artigo inspirado na apresentação da autora no II ENCONTRO “LER & ESCREVER” da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE, em 19/mai/2012.
 

Na epígrafe do texto “A Fresta”, de M. I. Soriano, temos a indagação de E. Zola do que seja o amor; ao que ele mesmo responde como sendo um conto simples, dito de muitas maneiras. Continuo, então, esta conversa, anunciando que sobre o amor e o amar, vou dizê-lo à minha maneira, a partir do que a leitura do texto original provocou nesta leitora. Então passo a explicar: não consegui me furtar à tentação de olhar este texto de forma bipartida, isto é, me detendo nas análises da estrutura e do conteúdo. Sem nenhuma dificuldade me peguei tentando fazer o percurso do processo de criação do autor. Identifiquei alguns mecanismos de construção importantes que me auxiliaram na posterior análise do conteúdo. Não há dúvida de que o texto se assenta no gênero psicanalítico, e sobre ele recaem dois olhares que, ao se fundirem, produziram tal gênero que aqui se apresenta. E entre o objeto mostrado e o objeto visto nasce o texto dialogado.
É possível identificar o potencial dialógico de “A Fresta” por três elementos expressamente claros, a saber: a metáfora presente já no próprio título - fresta; a epígrafe de Zola; e a intertextualidade explícita – as referências a Chico Buarque e a Homero.
E porque somos seres finitos, nos completando e nos extendendo uns nos outros, segui a leitura perguntando ao próprio texto quais visões se podem detectar nesta produção; ao que o texto me respondeu:
A da analisanda – seu objeto
A do analista – seu texto sobre o objeto
A desta leitora – seu sentido
 
Isto é, respectivamente,
O objeto - corpo amor/dor: a própria experiência vivida
O texto - o olhar intertextualizado: Chico Buarque e Homero
A leitura - leitura amplificada: outras de Chico, Caetano e C. Drummond
 
E porque o sentido quem dá ao texto é o leitor, é possível, a partir da leitura feita, trazer outras referências para ampliar o diálogo, pois todo texto é dialógico, e “A Fresta” dialoga intensamente com esta leitora de uma maneira peculiar, diferentemente da maneira como dialogou com todos os demais leitores.
Dialogo com “Atrás da Porta” de Chico Buarque, quando a fresta me lembra de um amor que caiu exausto: “... quando olhaste bem nos olhos meus/ e o teu olhar era de adeus/ juro que não acreditei, eu te estranhei/ me debrucei sobre o teu corpo e duvidei...”.
E aí vem “Tatuagem”, também de C. Buarque, para me lembrar de que todo amor exaure diferente, e diferentemente fere, e marca, e ergue ao dizer: “... quero ficar no teu corpo feito tatuagem/ que é para te dar coragem/ pra seguir viagem quando a noite vem...”.
Mas logo, em “Esse Cara” (de C. Veloso) – pensado ao avesso, subjaz a idéia de que é sempre possível nascer-se outra: “... Ah! que esse cara tem me consumido/ A mim e a tudo que eu quis / Com os seus olhinho infantis/ Como os olhos de um bandido/ Ele está na minha vida porque quer/ Eu estou pra o que der e vier...”.
E, exatamente, neste ponto, salta “Apesar de Você”, para dialogar com a metáfora blindagem/fresta “... Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”.
E porque é possível nascer diferente na mesma pele, “Olhos nos Olhos” (de C. Buarque) não nos deixa esquecer de que “... quando você me deixou meu bem, me disse pra ser feliz/ e passar bem, quis morrer de ciúmes, quase enlouqueci/ mas depois como era de costume obedeci./ Quando você me quiser rever/ já vai me encontrar refeita, pode crer./ Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ Ao sentir que sem você eu passo bem demais...”.
E finalizando o diálogo, porque, embora o amor tenda a exaurir, quem sofre de amor não precisa adoecer, mas, simplesmente, de novo, amar, como nos lembra C. Drumond de Andrade:
 
Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e de olhos vendados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodas, também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia;
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
Distribuída pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

E ao escrever sobre o diálogo que travei com o texto original “A Fresta”, desvendei o mundo, o meu mundo subterrâneo; andei por um território de solo, até a bem pouco tempo pantanoso, para caminhar num chão arenoso, em que sinto o aconchegante calor da caminhada. E não paramos nunca de dialogar, e de nos reconhecer na extensão do outro; neste trechinho mesmo dialoguei com Simone Beauvoir, Antonio Machado, Paulo Freire, e, claro, Marcos Inhauser Soriano. Com este, os diálogos mais pertinentes, porque eficazes!!!
 
ELIANA RIBEIRO DA SILVA é Doutora em Educação pela PUC-SP; Mestre em Linguística e Semiótica pela USP; Graduada em Letras pela UNICID; Pesquisadora; Autora e Escritora na área de Leitura; Professora da Educação Básica por 14 anos e do Ensino Superior a 25 anos; Leitora atenta do Mundo e da Palavra
Email: ribeiroeli@ig.com.br