22 de novembro de 2012

RESENHA: “O HOMEM QUE SE ACHAVA NAPOLEÃO: POR UMA HISTÓRIA POLÍTICA DA LOUCURA” - de Laure Murat



MURAT, Laure (2012) O homem que se achava Napoleão: por uma história política da loucura. São Paulo: Três Estrelas.


A História da Loucura pode não levar em conta a Loucura da História? – esta é a questão a ser respondida por Murat neste fascinante passeio pela História e pela Psiquiatria.
Élisabeth Roudinesco escreve em Le Monde des Livres: “Todos os médicos da alma se perguntaram se os distúrbios políticos tinham um papel na eclosão do delírio e na aparição da loucura. Em ensaio muito bem documentado e apoiado em arquivos inéditos, Laure Murat revisita essa problemática de maneira resolutamente nova.
Murat vai mais longe. A historiadora faz um minucioso levantamento de fatos e registros, debruçando-se sobre arquivos e documentos inéditos que marcaram a França de 1789 a 1871, guardados nos hospitais Bicêtre, Salpêtrière, Sainte-Anne e Charenton, para examinar as relações entre Política e Loucura – um mergulho profundo que expõe as consequências dos eventos revolucionários na vida psíquica dos cidadãos.
O homem que se achava Napoleão pode ser considerado complemento/continuidade de ideias exploradas por Michel Foucault, principalmente ao conceito de Biopoder/Biopolítica, qual seja, a prática dos estados modernos na regulação dos que a eles estão assujeitados, por meio da subjugação dos corpos e da subjetividade como controle da população, tida como meio produtivo.
Logo na Apresentação, escreve Jurandir Freire Costa: “O espectro de Michel Foucault surge desde as primeiras linhas”.
Um pouco da riqueza da obra traz fatos extremamente curiosos, instigantes e investigativos.
Em 21 de janeiro de 1793, o rei Luís XVI é guilhotinado. Entre março daquele ano e agosto de 1794, cerca de 17 mil pessoas serão executadas na França. Por vários anos no país, a guilhotina se torna um delírio comum entre os alienados. Ironicamente, à execução de Luís XVI, encontrava-se presente Philippe Pinel, que no futuro seria o principal responsável por tirar os “tolos” das prisões.
Eram frequentes casos como o de um homem internado no Charenton, em 1802, que afirmava ter sido decapitado e estar portando outra cabeça, já que a sua havia sido levada para a Inglaterra.
Em 1840, quando os restos de Napoleão são transportados à França, catorze pessoas que acreditam ser o imperador dão entrada no Bicêtre. Uma onda de delírios de grandeza, de “monomania orgulhosa” – denominação da medicina da época -, espalha Napoleões pelos asilos do país.
O homem que se achava Napoleão é também uma investigação sobre os primórdios da Psiquiatria, por meio de seus expoentes, como o já citado Philippe Pinel e Jean-Étienne Esquirol, e sobre os vínculos estabelecidos entre Medicina e Ideologia, para estigmatizar os insurretos da Comuna de Paris, em 1871, e outros adversários do Estado.
Em 1845, em confissão quase profética, escreveu o Dr. Moreau de Tours: “Se os doentes às vezes falaram, não se registrou suficientemente o que eles disseram”.
No outono de 1885, Sigmund Freud chega a Paris e no Salpêtrière acompanha de perto as experiências de Jean Martin Charcot. Intrigado e estimulado pelas ideias do “Grande Homem”, Freud passa a “dar ouvidos” às histéricas da época. Em 1900, com a publicação de “A Interpretação dos Sonhos”, nasce a Psicanálise, que iria trazer até os dias atuais, uma profunda modificação na compreensão da Loucura.
Como sugestão de auxílio na resposta à questão de Murat, a Função da Crença e a exploração da Lógica do Delírio, ideias originais de Fabio Herrmann, que apresentam a biface Identidade/Realidade ou Homem/Mundo como o produto do Real Humano – o Absurdo, esta estranha casa/mundo que construímos -, possam dar início à discussão. Toda estrutura delirante revela uma parte do mundo em que foi gerada – um umbigo “corajosamente” exposto.
Muito interessante a maneira com que Murat, ludicamente, joga com certas expressões e palavras, como por exemplo, “perder a cabeça” (guilhotina/loucura) – belos exemplos de interpretantes psicanalíticos.
Fica, portanto, a indicação e recomendação da leitura de O homem que se achava Napoleão – obra importante para a História, a Psiquiatria e a Pré-História das ideias psicanalíticas.

SOBRE A AUTORA
LAURE MURAT é historiadora francesa. Doutorou-se na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, em 2006, e é professora do Departamento de Estudos Franceses e Francófonos da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). Ganhadora do Prêmio Goncourt de Biografia e o Prêmio da Crítica da Academia Francesa, em 2001. Em 2011, recebeu o Prêmio Femina de Ensaio, por O homem que se achava Napoleão – seu primeiro livro publicado no Brasil.


O CORPO EDITORIAL da REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE agradece a gentileza da EDITORA TRÊS ESTRELAS (selo editorial do Grupo Folha/Publifolha), na figura da Assessora de Imprensa CECÍLIA DO VAL, pelo exemplar cedido, bem como pelo excelente material de divulgação.