12 de dezembro de 2012

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: MISS LUCY R.



MISS LUCY R. é o pseudônimo do segundo caso clínico apresentado por Freud nos “Estudos sobre a histeria”. Trata-se de uma governanta britânica atendida durante nove semanas, a partir do início de dezembro de 1882.
De trinta anos de idade, encaminhada por um colega médico que a tratava de uma rinite purulenta crônica, sujeita a frequentes recaídas, essa “jovem inglesa de constituição delicada”, governanta na residência do diretor-gerente de uma fábrica nos arredores de Viena, já havia perdido completamente o olfato, sofria de analgesia no nariz, e afundava num estado depressivo acompanhado de alucinações olfativas de cheiros de pudim queimado, que logo foram classificadas por Freud como de origem histérica.
 “Resolvi, então, tomar como ponto de partida da análise esse odor de pudim queimado.
Mas o tratamento, que poderia ter sido rápido, foi mais difícil de conduzir, porque a paciente, que trabalhava, só podia ir ver Freud durante o seu horário de consultas, o que fazia com que ele não lhe pudesse dedicar mais do que “alguns instantes”, contrariamente às facilidades de que se beneficiavam os pacientes visitados em suas residências, ou recebidos em horários previamente combinados.
Costumávamos, portanto, interromper nossa conversa em meio a seu curso, e retomar o fio da meada no mesmo ponto, na visita seguinte. Miss Lucy R. não cedeu ao sonambulismo quando tentei hipnotizá-la. Assim, abri mão do sonambulismo e conduzi toda a sua análise enquanto ela se encontrava num estado que, a rigor, talvez não fosse muito diferente de um estado normal.
Foi por ocasião do relato desse caso que Freud fez, pela primeira vez, uma exposição detalhada de seu novo modo de proceder.
Quando, portanto, minha primeira tentativa não me conduzia nem ao sonambulismo, nem a um grau de hipnose que acarretasse modificações físicas marcantes, eu abandonava de modo ostensivo a hipnose e pedia apenas ‘concentração’; e ordenava ao paciente que se deitasse e deliberadamente fechasse os olhos, como meio de alcançar essa ‘concentração’. Resolvi partir do pressuposto de que meus pacientes sabiam tudo o que tinha qualquer significado patogênico, e que se tratava apenas de uma questão de os obrigar a comunicá-lo.
O esquecimento era muitas vezes intencional e desejado, e seu êxito nunca era nada além de uma aparência. Isto porque, aquilo que era esquecido, era algo insuportável para o sujeito.
Colocava a mão na testa do paciente ou lhe tomava a cabeça entre minhas mãos e dizia: ‘Você pensará nisso sob a pressão da minha mão. No momento em que eu relaxar a pressão, verá algo à sua frente, ou algo aparecerá em sua cabeça. Agarre-o. Será o que estamos procurando. – E então, o que foi que viu, ou o que lhe ocorreu?’. Desde então, esse procedimento quase nunca me decepcionou.
A sugestão era de tal ordem, que lhe bastava afirmar ao paciente ser impossível ter falhado, para conseguir “extorquir-lhe a informação desejada”.
Mas neste caso, o ato de ligar fatos e falar não eliminou os sintomas e nem modificou seu estado de depressão e angústia. O que aconteceu foi um enfraquecimento do sintoma (sentir cheiro de pudim queimado quando ficava agitada) conforme a paciente falava dele, ligando-o a outros fatos, outros acontecimentos.
Não satisfeito com este resultado (típico de um tratamento sintomático, em que se elimina um sintoma para que seu lugar seja ocupado por um outro), Freud dedicou-se à tarefa de eliminar este novo símbolo mnêmico através da análise.
Após ter feito Miss Lucy R. reconhecer que estava apaixonada pelo viúvo de cujos filhos era a preceptora, e apesar da contribuição de um tratamento hidroterápico que ele não deixou de prescrever, Freud ficou surpreso ao vê-la de volta, após as festas natalinas, sem apresentar nenhuma melhora real. Mais do que isso, ela tinha substituído o cheiro de pudim queimado, ligado ao amor oculto por seu patrão, pelo cheiro de fumaça de charuto.
Sob a pressão das mãos de Freud, uma outra cena em que o patrão a recriminava por não ter impedido que uma visita beijasse seus filhos, demonstrou que ela tinha compreendido que o viúvo não a amava - lembrança ligada a uma outra cena de fim de refeição, quando a sala foi invadida pela fumaça de charutos. Esse reconhecimento acarretou, então, a cura completa, em fins de janeiro de 1893.
Freud voltou a vê-la em perfeita saúde em maio/junho de 1893, e nunca mais se ventilou a questão que surgiria, igualmente a propósito de fumaça, no seu tratamento de Dora – pois nenhum paciente podia ignorar a paixão que Freud tinha pelos charutos. Nada existe da natureza de uma “neurose de transferência” reconhecida no que Freud viu e descreveu desses primeiros tratamentos que, aliás, ainda têm muito pouco a ver com o futuro tratamento psicanalítico. São importantes, porém, além do interesse em ver Freud “ao vivo”, em sua atividade de terapeuta, porque nos informam sobre a sua progressão teórico-clínica. No que se refere a Miss Lucy R., com o abandono da hipnose, é a certeza que ele adquiriu de um conhecimento íntimo, mas recalcado, que os pacientes têm da origem do sintoma – donde a importância dos recursos a empregar, para vencer a resistência à rememoração.

Esta biografia segue as diretrizes do verbete redigido por Alain de Mijolla para o DICIONÁRIO INTERNACIONAL DA PSICANÁLISE.