12 de dezembro de 2013

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: AURELIA (KRONICH) ÖHM



AURELIA KRONICH (1875-1929) - sobrenome de nascimento - é uma das pacientes de Sigmund Freud, cujo caso é apresentado sob o pseudônimo de Katharina, nos “Estudos Sobre a Histeria”. Sob a forma de um diálogo, Freud relata um encantador encontro que tiveram em 1893 nos Alpes austríacos (o Raxalpe), quando se encontrava de férias. Em uma taberna, uma jovem garçonete, com a idade de 18 anos, pede conselhos ao doutor Freud a propósito de seus sintomas “nervosos” – falta de ar, vertigens, sensação de sufocamento. Questionada por ele, evoca a cena de sedução traumatizante à qual assistira dois anos antes entre seu tio (o dono do albergue) e sua prima Franziska. Estavam os dois deitados um sobre o outro em uma cama e, ao ver esse espetáculo, Katharina teve acessos de vômitos e de vertigens. Foi em seguida contar a cena à sua tia, que decidiu então abandonar o marido, enquanto Franziska encontrava-se grávida dele.
Explorando suas lembranças, Katharina descobre cenas anteriores. Lembra que, quando tinha 14 anos, seu tio tentara igualmente seduzi-la. Freud conclui, de acordo com sua teoria da sedução de antes de 1896: “Desse ponto de vista, o caso de Katharina é típico. Em todas as análises de histeria fundadas em traumas sexuais, descobrimos que certas impressões sentidas em uma época pré-sexual, e que não haviam tido efeito algum sobre a criança, conservam mais tarde seu poder traumatizante enquanto lembranças, uma vez que a moça ou a mulher tenha adquirido a noção de sexualidade”. Segundo Freud, os sintomas de Katharina eram os representantes do “horror de que mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade”.
Em 1924, acrescentará uma nota para esclarecer que Katharina não era a sobrinha, mas a filha do dono do albergue.
Albrecht Hirschmüller e Gerhard Fichtner foram os primeiros a revelar, em 1985, a verdadeira identidade de Katharina. Tratava-se de Aurelia Kronich, a segunda filha de um casal de ricos hoteleiros vienenses. O pai, Julius Kronich, seduziu efetivamente Barbara Göschl, sua sobrinha por aliança, quando esta tinha 25 anos. Em seguida, desposou-a e teve com ela dois filhos. Quanto a Aurelia, casou-se com um húngaro, teve seis filhos e depois voltou a viver, em 1903, em seus Alpes austríacos, onde morreu vinte e seis anos mais tarde. Peter Swales considerou esse “caso princeps” como a primeira psicanálise selvagem.
Aurelia Öhm – Katharina -, que nunca chegou a se tornar paciente de Freud, é descrita assim pelo Pai da Psicanálise: “foi um caso agradável para mim”. Lisa Appignanesi & John Forrester escrevem que “foi assim que essa filha de estalajadeiro, com quem Freud conversou no alto de uma montanha de dois mil metros de altura num dia de agosto de 1893, se tornou a demonstração da nova terapia radical e da teoria da histeria que ele e Breuer propunham”.

Este Artigo segue as diretrizes biográficas do verbete redigido por Elisabeth Roudinesco & Michel Plon, para o Dicionário de Psicanálise.

16 de agosto de 2013

A NEGATIVIDADE DO ATO COMO RESISTÊNCIA AOS IMPERATIVOS DE GOZO DA SOCIEDADE CAPITALISTA (Milena Maria Sarti)


O que o reclamão ainda não percebeu
é que ele está inteiramente apegado a situações
que possam legitimar as suas infindáveis reclamações.
(Ricardo Coimbra)



INTRODUÇÃO
Pretendo discorrer sobre a atualidade do conceito de “política da negatividade do ato” ou “política Bartleby”, tal como elaborado por Zizek na obra “A visão em paralaxe” de 2006 (2008), em referência à personagem Bartleby do conto “Bartleby: o escriturário (uma história de Wall Street)” de Melville ([1853] 2008), cuja fala emblemática é “I would prefer not to (do)”.
Proponho com isso elaborar a forma pela qual a ética do fracasso ou a ontologia negativa em psicanálise lacaniana emerge como um grito do real frente aos imperativos de gozo que organizam a sociedade capitalista, uma vez que para a psicanálise o sujeito do desejo contém algo que vai além do princípio de identidade, ou do lugar oferecido a ele pelo simbólico. Esse algo a mais marca a existência contraditória do sujeito por uma espécie de “tudo é e não é”, pois embora o discurso capitalista dê como certa, positiva a possibilidade de gozar - o que torna a falta ou o “não é” um dolo que exige reparação -, no que se refere ao desejo, esse objeto é inexistente, é um não-objeto. Dessa forma, o desejo é um “lugar” que só pode aparecer como irredutivelmente negativo no sujeito, escapando sempre das posições de identidade, identificação social, reconhecimento intersubjetivo e auto apreensão reflexiva. A abertura dessa negatividade é onde o ato singular e o político devem ser resgatados, na medida em que marca o sujeito por uma inadequação/resistência ao que se pretende universalmente compartilhado e naturalizado na sociedade capitalista. Operando com o conceito da negação como ato singular e político buscamos também colocar em xeque a racionalidade social marcada pela submissão a significantes como auto empreendedorismo, atividade e participação sociais discutindo que o resgate das categorias de impossível e de contingente inerentes ao real corresponde a devolver ao sujeito e à história o potencial para acontecimentos, estes sim potencialmente revolucionários.

A RELEITURA: O VALOR SINGULAR E POLÍTICO DE BARTLEBY
O conto de Herman Melville surge pela voz de seu narrador, um advogado, tentando a custo compreender a estranha psicologia de Bartleby, o Escriturário. Melville compõe uma imagem fabulosa do cotidiano num escritório de advocacia: o advogado dispõe de dois escriturários encarregados de ‘copiar e colar’ as leis e toda a rotina resume-se a escrever documentos, e depois comparar aos originais. Estes copistas colaboram no escritório alternando dois estados típicos de humor: durante a manhã, um está bem, enquanto o outro está mal, e de tarde vice-versa, num ciclo de repetições que configuram um ritmo às cenas de fúria no escritório. É a história do advogado, que apresenta-se como ‘um homem já de certa idade’, com uma vida comprometida com as leis, com a racionalidade em geral, mas que, levado pelas circunstâncias em seus negócios, precisava de um novo escriturário, e assim contratou rapidamente Bartleby, mesmo que sem qualquer ‘referência’, julgando pela aparência tratar-se simplesmente de um homem pobre e tranquilo, que talvez fosse benéfico para acalmar o humor terrível dos seus outros copistas. Alojou-o em sua sala, atrás de um biombo e de frente para uma janela sem vistas [parede de tijolos], estrategicamente próximo para ser solicitado, no caso de pequenas necessidades [longe da visão, mas ao alcance da voz]” (SARTI, F. 2012).
Bartleby aqui aparece caracterizado pelo narrador-personagem como um homem de confiança, que permaneceria atrás do biombo copiando avidamente e não se negaria a atender a nenhuma de suas solicitações para a prestação de outros pequenos serviços: copiando sem ser visto e escutando em espera, “[...] sem voz e sem visão, oculto atrás do biombo em frente à janela e não mais que alguns metros distante; o trabalho vai muito bem durante uns três dias, até quando nosso caso começa” (SARTI, F. 2012).
Nessa caracterização vemos que Bartleby é convocado a identificar-se como um homem de confiança (o que deixa supor algum pacto tácito e compartilhado, que não conta com imprevistos), pronto a atender às demandas do advogado, à imagem e semelhança dos outros copistas e de suas funções (“copiar e colar”) no escritório. Aí Bartleby, ele mesmo, deveria responder a essa demanda imaginária assumindo o lugar e a função oferecidos a ele, ou seja, formando-se ele mesmo como cópia fidedigna da imagem da demanda dessa ordem simbólica, representada pelo discurso do advogado. Como sabemos pela Psicanálise, o sujeito é, ao mesmo tempo, sujeito do significante e sujeito do real. Isso significa afirmar que o sujeito do desejo contém algo que vai além do princípio de identidade, ou do lugar oferecido a ele pelo simbólico (SAFATLE, 2005). Logo, segundo essa ontologia negativa do sujeito em psicanálise, há uma recusa de um vínculo ontológico entre sujeito e princípio de identidade (SAFATLE, 2005) que veremos ser experimentada por Bartleby. 
Na sequência da obra, a imagem de uma plena identificação de Bartleby à demanda do advogado que, podemos entender operar como porta-voz dos mandatos do significante-mestre, é destruída por um acontecimento discursivo que desencadeia em múltiplas consequências: “pela primeira vez, o advogado solicita a Bartleby que o ajude numa comparação, com a ‘natural expectativa de ser atendido’, estendendo nervosamente as cópias, para que ele ressurgisse do seu isolamento e começasse a trabalhar, sem demora. Entretanto, Bartleby lhe responde sem se mover de seu lugar: ‘Prefiro não fazer’” (SARTI, F., 2012, grifo nosso). O advogado reduzido ao silêncio diante da irracionalidade dessa recusa de Bartleby em copiar-se e colar-se à imagem da demanda de ação, à imagem de cumprimento de um dever “usual e de bom senso”, pensa ter se enganado e repete a incitação/solicitação, obtendo a mesma resposta de forma tranquila e despreocupada de Bartleby: “Prefiro não fazer”. Segue-se a passagem:
Nem uma nesga de preocupação o afetava. Se houvesse o menor sinal de inquietação, raiva, impaciência ou impertinência em suas maneiras; noutras palavras, se houvesse qualquer coisa de ordinariamente humana a respeito dele, não havia dúvidas de que eu deveria tê-lo expulsado do escritório violentamente. (MELVILLE, [1853] 2008, p.31, grifo nosso)

Denotamos aqui que a tradução do inglês “I would prefer not to (do)” perdeu um elemento essencial para que possamos apreender a afirmação da negação de Bartleby como uma alegoria do que é o desejo em psicanálise, a saber, um lugar irredutivelmente negativo do sujeito. A partícula “to” do inglês cria uma zona de indeterminação entre o que seria preferido e o que seria recusado por Bartleby, o que interpretamos como materialização da universalidade da inadequação do desejo a qualquer positividade ou racionalidade, ou seja, a qualquer rede de determinações positivas. A irracionalidade de Bartleby rompe com a racionalidade que dá ancoragem ao advogado solapando os modelos de identificação adequados à demanda, ou seja, fazendo surgir o desejo no que ele sempre escapa à demanda, no que ele tem de Real, de vazio, de não-objeto.
Não há realidade senão do discurso, logo o discurso que organiza o microcosmo do escritório, que tomamos aqui como alegoria do discurso que organiza uma determinada racionalidade social, opera segundo uma rede de evidências diante da qual todos devem se inclinar, alguma coisa com a qual todos deveriam concordar numa espécie de universalização do sujeito do desejo, por sua vez, produtora de subjetividades que fazem funcionar um “para todos”, uma organização social do desejo e seus modos de gozar (formas de vida e critérios de ação). Mas, como pontua Soler, isso só pode funcionar ao preço de uma exclusão, a saber, a exclusão do que é impossível de se universalizar (SOLER, 1998), ou seja, a exclusão da parte Real do sujeito, da parte que marca a inadequação radical do desejo às demandas de um discurso e seus modelos de identificação.
Com efeito, a fórmula de Bartleby extrai todo seu vigor de grito do real ecoando por de trás do biombo da fantasia ideológica em sua “objetividade fantasmática” (SAFLATLE, 2008): ela rompe com os pressupostos da linguagem a partir dos quais os discursos são formulados como auto evidentes.  Nesse sentido, podemos dizer que Bartleby se utiliza do verbo “preferir” de modo que este negue-se a si mesmo, ou seja, o preferir não se refere a algo que se escolhe, entre uma coisa e outra, mas à escolha pelo nada, pelo vazio do desejo: “eu preferiria nada a algo” (DELEUZE, 1997) pode representar aí a função pura do desejo como “desejo de nada de nomeável” (SAFATLE, 2005). Isso pode ser entendido como uma resistência do sujeito do desejo (valor singular e político) frente aos imperativos de gozo que organizam “o novo espírito do capitalismo”.

POR UMA POLÍTICA BARTLEBY FRENTE AO NOVO ESPÍRITO DO CAPITALISMO
Na passagem da sociedade de produtores para a sociedade de consumo, o discurso da mercadoria assumiu às vezes de organizador da demanda e dos modelos de identificação sociais procurando coletivizar o sujeito do desejo segundo o imperativo “Todo desejo deve encontrar seu objeto” (DUFOUR, 2005). Isso criou uma “objetividade fantasmática” (SAFATLE, 2008) - realidade ideológica - produtora de subjetividades para as quais os objetos de consumo adquiriram o peso universal de “objetos irrecusáveis do desejo” (KEHL, 2008) com valor e significação de gozo garantidos pelo discurso do Outro (mercado): a possibilidade de gozar assim transmitida como certa, e sobretudo, feita obrigatória, além de fazer da falta um dolo que exige reparação, incitou os sujeitos, identificados como consumidores, à realização da tarefa falaciosa de apenas ter que procurar/escolher por sua felicidade de preferência dentre as opções disponíveis no “mercado de gozo” (LACAN, [1968/69] 2008). Aí o discurso de Bartleby ecoa subversivo como “manifestação da resistência do sujeito aos processos de instrumentalização social do gozo” (SAFATLE, 2003), operando como porta voz do que é impossível de se universalizar, e consequentemente, de se governar pelo espaço político: o vazio do desejo ou a parte Real do sujeito que se manifesta na expressão “Prefiro nada a algo” faz surgir de trás do biombo o impossível de se cumprir, algo da ordem de um reconhecimento do desejo em sua verdade pela via da indiferença aos objetos empíricos, o que faz aparecer os vestígios da impossibilidade de totalização do laço social que a fantasia ideológica procura apagar/conter.
Em outras palavras, Bartleby age como um louco ou um doente ou um inventor de novas coordenadas lógicas. Contradizendo o imperativo GOZA!, sua fórmula irracional assume a um só tempo o impossível de se universalizar e o contingente de um “tudo é e não é” (ROSA, [1956] 2005) no que se refere ao desejo: diante da inadequação radical do desejo aos objetos do mundo ou da “irremediável insuficiência do sujeito do desejo” (KEHL, 2009), que fará o vazio sempre persistir como mola propulsora (trazendo a injunção a uma administração política dessa insatisfação), “eu prefiro nada a algo”, prefiro manter o espaço vazio a “ceder de [meu] desejo” (LACAN, [1959/60] 1991) colando-o e copiando-o à imagem da ilusão compartilhada de preenchimento dada pelo consumo, ou por qualquer outro conteúdo ou realidade positivas determinadas.
Como é sinalizado no início da obra de Melville, Bartleby aparece como um escriturário ou copista sobre o qual “nada é passível de confirmação”. Bartleby não é razoável ou racionalizável pelas usuais coordenadas lógicas, é um original, e não uma cópia, como afirma Sarti(2012); ele não aceita os clichês ou as alternativas lógicas que lhe são oferecidas para ser, nem tampouco alguma função social. Daí Zizek concluir sua “política Bartleby” ou política da negatividade do ato para os tempos atuais: “Contra uma política da identidade, uma política da universalidade da inadequação” (SAFATLE, 2003, p. 184). Segue-se o trecho de Melville: “Nada irrita mais um homem sério do que uma resistência passiva”. Segundo Zizek (2008, p. 437):
É melhor não fazer nada do que participar de atos localizados cuja principal função é fazer o sistema funcionar mais azeitado (atos como dar espaço à miríade de novas subjetividades etc.) Hoje a ameaça não é a passividade, mas a pseudo-atividade, a ânsia de ser “ativo”, e “participar”, de mascarar a Nulidade do que acontece. Todos intervêm o tempo todo, “fazem alguma coisa”, os acadêmicos participam de debates sem sentido e assim por diante, mas a verdadeira dificuldade é dar um passo atrás, é se afastar disso tudo. Os que estão no poder muitas vezes preferem até a participação “crítica”, o diálogo, ao silêncio – só para nos envolver num “diálogo”, para garantir o rompimento de nossa agourenta passividade.

A miríade de discursos anticapitalistas, antineoliberalismo, anti isso, anti aquilo, ou pró isso, pró aquilo..., revela uma exigência revolucionária, algo constante girando em torno não do que é, mas do que poderia ser. Tudo isso é falsamente revolucionário para Zizek, para quem a verdadeira vontade revolucionária surge como um “não posso agir de outro modo”, um “impossível não fazer” ou não tem valor, i.e., um ato revolucionário é aquele que não presta conta a nada, não se endereça, não tem garantias, fiadores que os legitimem como contra-hegemônicos,  nem, tampouco, é o que possui ideais a serem atingidos, oferecendo apenas abertura lógica a novas coordenadas simbólicas que formariam uma outra organização social da ilusão, por retroação ao ato. Pontuamos que a revolução feita exigência ou obrigação moral, i.e., feita decalque do imperativo categórico consumista de procura e certeza de encontrar o objeto ideal para si, faz com que devamos ser críticos, devamos fazer algo, propor algo, ser algo novo e a mais sempre, numa “tirania da escolha que não deveria nos enganar, pois trata-se de seu verdadeiro oposto: da ausência da escolha real quanto à estrutura fundamental da sociedade” (ZIZEK, 2008, p. 455).
O que nos faz retornar a Bartleby e sua enlouquecedora resistência passiva como gesto exemplar de resistência singular e política adequada para os tempos atuais. Segundo Zizek (2008, p. 448), ao contrário da “passividade agressiva” que marca o modo comum de atividade e participação na vida sócio-ideológica atual, em que ficamos o tempo todo ativos e pró-ativos para garantir que nada aconteça, para que nada mude de verdade, o ato negativo de Bartleby seria um “recuo para a passividade”, um recusar-se a participar da festa, da ordem caótica do poder e do “serviço dos bens” (LACAN, [1959/60] 1991), para a qual somos perenemente “convidados”, ao modo da proposta irrecusável do Poderoso Chefão (escolha forçada). Nesse sentido, Bartleby parece-nos informar o caminho para um ponto de parada ou recuo no qual a insustentável leveza do ser, de que fala Milan Kundera (1985), pode ser comparada ao desejo em estado puro, aquele que se sustenta sem endereçamento, “como uma tendência desprovida de objeto” (SAFATLE, 2005). Isso perturba a fantasia ideológica que dá o peso do ser, faz barra a sua valoração e significação sociais, ou seja, evidencia o colapso ou o fracasso da ordem simbólica em ser total.
Ao final da obra de Melville, Bartleby é expulso do escritório que ocupava e enclausurado na prisão onde morre. Segue o único relato que o narrador-personagem nos fornece acerca da possível história pregressa de Bartleby: “ele seria ex-funcionário na ‘Seção de Cartas Extraviadas’, e o advogado pergunta, em meio a uma grande emoção, se isto não se parece com ‘homens extraviados’” (SARTI, F., 2012).
Pense em um homem cuja natureza ou má-sorte fizeram tender a uma pálida desesperança – pode qualquer trabalho parecer mais adequado para aumentar essa desesperança que lidar continuamente com cartas extraviadas e classificá-las para as chamas? Porque elas são incineradas anualmente em abundância. Algumas vezes, o pálido funcionário achava um anel dentro do papel dobrado – e o dedo a que se destinava, talvez, esteja apodrecendo debaixo da terra; uma nota bancária enviada numa rápida caridade – aquele a quem iria aliviar já não come ou passa fome; perdão para aqueles que morreram em desespero; boas novas para os que morreram sem assistência na calamidade. Com mensagens de vida, essas cartas correm até a morte. Oh, Bartleby! Oh, humanidade! (MELVILLE, [1853] 2008, p.88)

Concluímos que, embora a mensagem de vida de Bartleby caminhe para a morte, seja condenada ao extravio - pois o sujeito em sua existência contraditória entre submissão (sujeito do significante) e objeção (sujeito do real) tem como condição a inscrição em determinadas coordenadas simbólico-políticas - a política Bartleby -, a política da negatividade do ato, ou a política da universalidade da inadequação de Zizek, seja lá como prefiram chamá-la, evidencia um ato que faz o retorno daquilo, da impossibilidade, enquanto o que “precisa ser excluído da realidade para que a própria realidade se mostre consistente” (KYRILLOS NETO; MOREIRA, 2009). Isso deixa de reproduzir os modelos de identificação estabilizados, o “encaixe” na demanda tornando impossível a continuidade do discurso: Bartleby está em suspenso, leve, experimentando uma “destituição subjetiva” (SAFATLE, 2005) ou um “grau zero de subjetivação” (SARTI, F., 2012). Expressando um desejo em estado puro que não afirma nem nega nada, é vazio e em língua original, Bartleby torna potencial uma nova escritura, uma nova reordenação das coordenadas simbólicas que deverão ser engajadas de forma retroativa a seu ato revolucionário. Segundo Kyrilos Neto e Moreira (2009, p.411):
Ao contrário das ações correntes, um ato se situa sempre além do bem e do mal ou, mais precisamente, reconfigura aquilo que se entende por bem e mal. Do ponto de vista subjetivo, um ato ocorre quando o sujeito aceita perder a si mesmo e põe em questão aquilo que, a seu ver, o define, experimentando uma destituição subjetiva. No plano político, um ato ocorre quando alguém assume o risco de agir sem garantias, engajando-se numa aposta de que o ato em si há de criar as condições para sua própria legitimação democrática “retroativa”: é o que se chama revolução. O ato revela a inexistência do Outro, ou seja, de toda instância capaz de garantir nossos atos e fundar nossa vida. O resultado dessa aposta é um salto no abismo, único sentido válido para a palavra liberdade.

CONSIDERAÇÃO FINAL
O reconhecimento do vazio do desejo implicado no ato negativo de Bartleby, que como vimos faz o resgate das categorias de impossível e contingente do real, devolveria ao sujeito e à história o potencial para acontecimentos singulares e políticos verdadeiramente revolucionários. A saída do discurso do capitalista, atualmente regido por significantes como (auto)-empreendedorismo, participação e atividades sociais, assim pensada pela via da psicanálise, anuncia que a saída sempre esteve aí, como no clássico filme “Anjo Exterminador” de Buñuel, bastando que pensemos contra nós mesmos de forma a assumir a contingência e reconhecer o vazio, a lacuna em torno da qual se erguem as posições de identidade, identificação social, reconhecimento intersubjetivo e auto apreensão reflexiva. Essa seria uma aposta sem garantias na invenção de uma atual e verdadeira tinta vermelha, ou seja, da inscrição no discurso político da liberdade - inventar um lugar de linguagem para falar da falta de liberdade, como, de forma violentamente silenciosa, fez Bartleby ao profanar o preferir com o “preferir nada”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, G. (1997) Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34.
DUFOUR, D.–R. (2005) A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Cia de Freud.
KEHL, M. R. (2008) “Publicidade, perversões e fobias” in Ide: psicanálise e cultura. São Paulo, vol. 1, nº 1, pp. 27-38.
KEHL, M. R. (2009) O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.
KUNDERA, M. (1985) A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Nova fronteira.
KYRILLOS NETO, F. & MOREIRA, J. O. (2009) “Psicanálise e política: conexões” in Psicol. Clin., vol. 21, nº 2, pp. 397-414.
LACAN, J. (1959/1960) O seminário, Livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
LACAN, J. (1969) O seminário, Livro 16: De um outro ao Outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
MELVILLE, H. (1853) Bartleby, o escriturário - uma história de Wall Street. Porto Alegre: LP&M, 2008.
ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
SAFATLE, V. “Posfácio: a política do real em Slavoj Zizek” in ZIZEK, S. (2003) Bem vindo ao deserto do real!. São Paulo: Boitempo. - (Estado de sítio).
SAFATLE, V. (2005) “Uma clínica do sensível: a respeito da relação entre destituição subjetiva e primado do objeto” in Interações, v. 10, nº19, pp. 123-150, jan./jun.
SAFATLE, V. (2008) Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo. - (Estado de sítio).
SARTI, F. (2012) O empirismo transcendental de Gilles Deleuze para análise dos fundamentos da Psicologia. Primeiro relatório Científico FAPESP – Tese de doutorado em andamento. FFCLRP-USP.
SOLER, C. (1998) A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa livraria.
ZIZEK, S. (2008) A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo.

MILENA MARIA SARTI é Professora Doutora na UNIP (Universidade Paulista) de São Paulo, SP.
Email: misarti@hotmail.com

8 de agosto de 2013

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SANDOR FERENCZI


SANDOR FERENCZI, psiquiatra e psicanalista húngaro, nascido em Miskolc, em 07 de julho de 1873, vindo a falecer em Budapeste, em 22 de maio de 1933, foi o oitavo filho de Bernat Ferenczi e Rosa Eibenschütz – que teriam doze filhos.
Um dos mais íntimos colaboradores de Freud, originário de uma família de judeus poloneses imigrantes, Sandor Ferenczi foi não só o discípulo preferido de Sigmund Freud, mas também o clínico mais talentoso da história do freudismo. Foi através dele que a escola húngara de psicanálise, da qual foi o primeiro animador, produziu uma prestigiosa filiação de artífices do movimento, entre os quais Melanie Klein, Geza Roheim e Michael Balint. A obra escrita de Ferenczi é composta de numerosos artigos, redigidos em estilo inventivo e sempre ligados à realidade. Grande escritor de cartas, Ferenczi também foi autor de um Diário Clínico, publicado em 1969. Um ano antes de sua morte, havia registrado vários relatos de casos, muitas inovações, assim como as críticas que dirigia ao dogmatismo psicanalítico.
O pai de Ferenczi, falecido em 1888, era um simpático livreiro, que se empenhava com fervor na revolução de 1848 antes de se tornar editor militante, favorável à causa do renascimento húngaro. Assim, mudara seu nome, de sonoridade alemã (Baruch Fraenkel), para um patronímico magiar (Bernat Ferenczi). Deu ao filho predileto, uma educação em que prevaleciam o culto da liberdade e um gosto acentuado pela literatura e pela filosofia.
Optando pela carreira médica (formado em 1894, em Viena), o jovem Ferenczi, que já se interessava pelos fenômenos psíquicos e pela hipnose, trabalhou no Hospital Saint Roch, onde quarenta anos antes, outro grande médico húngaro, Philippe Ignace Semmelweis (1818-1865), tentou fazer com que o caráter infeccioso da febre puerperal, que descobrira, fosse reconhecido. Como seu ilustre antecessor, Ferenczi logo se mostrou adepto da medicina social, se tornando médico assistente no asilo de pobres e prostitutas. Sempre pronto a ajudar os oprimidos, a escutar os problemas das mulheres e a socorrer os excluídos e marginais, tomou, em 1906, a defesa dos homossexuais em um texto corajoso apresentado à Associação Médica de Budapeste. Atacava os preconceitos reacionários da classe dominante, que tendia a designar aqueles que se chamavam uranianos como degenerados responsáveis pela desordem social.
Entre 1899 e 1908, escreve inúmeros artigos pré-psicanalíticos, dentre eles, “Espiritismo”, dedicado à telepatia. Em 1900, Ferenczi estabelece-se como neurologista.

Esse era o homem que, depois de ler com entusiasmo A Interpretação Dos Sonhos, visitou Freud em fevereiro de 1908, acompanhado do seu colega e amigo Fulop Stein (1867-1917). Este o iniciou no teste de associação verbal, elaborado por Carl Gustav Jung. A partir desse dia, durante um quarto de século, Ferenczi trocaria com o mestre de Viena mil e duzentas cartas. Um verdadeiro tesouro de invenção teórica e clínica, com algumas confidências pessoais com aquele que se tornaria seu analista, mestre e íntimo amigo. Dono de uma curiosidade insaciável, Ferenczi se interessou, durante toda a vida, por múltiplas formas de pensamento, das mais eruditas às mais irracionais. Freud o chamava o seu “Paladino”, ou seu “Grão-vizir Secreto”. E Ferenczi gostava de se apresentar nos meios analíticos como “um astrólogo da corte”.
Em 1908 Ferenczi já participou do I Congresso de Psicanálise em Salzburgo e fez uma conferência sobre “Psicanálise e Pedagogia”, começando a praticar a psicanálise em Budapeste e realizando conferências de divulgação para médicos.
Partindo de um combate contra o niilismo terapêutico, Freud elaborou uma teoria da neurose e da psicose que superava amplamente os limites da clínica. Sempre consciente de seu próprio gênio e da importância de sua descoberta, sabia dominar seus afetos e mostrar-se implacável para com seus adversários. Acima de tudo, amava a razão, a lógica, as construções doutrinárias. Mais intuitivo, mais sensual e mais feminino, Ferenczi procurava na psicanálise os meios de aliviar o sofrimento dos pacientes. Era pois menos atraído pelas grandes hipóteses genéricas do que pelas questões técnicas. Assim, era mais inventivo que Freud na análise das relações com o outro. Em 1908, descobriu a existência da contratransferência, explicando a seu interlocutor sua tendência em considerar os assuntos do paciente como seus próprios. Dois anos depois, Freud conceitualizou essa noção, fazendo dela um elemento essencial na situação analítica. Entre ambos, portanto, o intercâmbio epistolar teve como função fazer surgir novas problemáticas, que serviam depois para alimentar a doutrina comum.

Como muitos pioneiros do freudismo, Ferenczi experimentou em si mesmo os efeitos de suas descobertas. Em 1904, tornou-se companheiro de Gizella Palos, oito anos mais velha que ele. Essa ligação era tolerada pelo marido desta, que entretanto lhe recusava o divórcio. Gizella vivia com suas duas filhas, Magda, casada com o irmão mais novo de Ferenczi, e Elma, nascida em 1887. Não só Ferenczi tornou-se, em 1908, analista de sua amante, como também não hesitou em tratar de Elma quando esta apresentou sintomas de depressão três anos depois.
Inutilmente Freud o advertiu contra os perigos de uma prática como essa. Implicado em uma espécie de autoanálise epistolar, ele procurava desafiar Freud, pedindo-lhe que o reconhecesse como um pai reconhece um filho, dando-lhe a entender ao mesmo tempo em que podia perfeitamente passar sem ele. Em novembro de 1911, depois do suicídio com arma de fogo do noivo de Elma, anunciou a Freud que estava apaixonado pela jovem. Disse que não sentia mais desejo sexual por Gizella, muito idosa, e queria fazer com que ela ocupasse uma posição de sogra, fundando uma família com sua filha. Na verdade, queria ficar com as duas. Logo, anunciou sua intenção de se casar com Elma.
Finalmente, percebeu que se envolvera em uma confusão transferencial e desistiu de desposar a jovem, junto a quem ocupou uma posição de médico e de analista. Mas, não podendo conduzir adequadamente o tratamento, obrigou Freud a analisar Elma e depois se fez analisar em três ocasiões pelo mestre, entre 1914 e 1916. Este agiu então como um pai autoritário, obrigando Ferenczi a casar-se com Gizella e a renunciar a Elma. Assim, acreditava confirmar a tese anunciada em Totem e Tabu em 1912, segundo a qual o desejo de incesto é inerente ao homem e só um interdito, formulado como uma lei, pode afastá-lo dele. Em 1919, Ferenczi casa-se com Gizella – o casal não teve filhos.
Se Freud se comportava à maneira dos famosos “casamenteiros” das histórias judaicas, Ferenczi tinha a impressão de ter sido despojado, por essa análise, de suas paixões e seus desejos. Em suma, aceitou pesarosamente ter sido “normalizado” por Freud: “Eu disse a Gizella que me tornara outro homem, menos interessante e mais normal. Confessei-lhe também que alguma coisa em mim lamenta o homem de antes, um pouco instável, mas tão capaz de grandes entusiasmos (e na verdade, muitas vezes inutilmente deprimido)”.
Assim, vemos como atuaram, nas relações entre Freud e Ferenczi, todas as contradições do tratamento psicanalítico que leva um sujeito a passar de um estado infantil para a idade adulta, da desrazão para a razão, da onipotência ilusória para a sabedoria, do gozo para o verdadeiro desejo. Mas arriscando-se a que essa perda, longe de ser benéfica e fonte de uma nova paixão, não seja nada mais do que a expressão da vontade normalizadora do analista e, além deste, da sociedade na qual ele vive. De qualquer forma, o episódio dessa confusão familiar e transferencial pode ser compreendido como a matriz de todas as reflexões posteriores sobre o estatuto incerto do tratamento psicanalítico, oscilando sempre entre um excesso de conformismo adaptador, que seria denunciado por Ferenczi e seus partidários, e a ausência de lei, contra a qual reagiriam os herdeiros ortodoxos de Freud.

Ao mesmo tempo em que prosseguia sua análise com Freud, Ferenczi se devotava de corpo e alma à “causa” freudiana. Em 1909, com Jung, acompanhou Freud na célebre viagem aos Estados Unidos, e publicou seu primeiro grande trabalho teórico, “Transferência e Introjeção” (onde introduz o termo “introjeção”, retomado por Freud posteriormente). Um anos depois, viajou com ele para a Itália, passando por Florença, Roma, Palermo e Siracusa. No mesmo ano, fundou a International Psychoanalytical Association (IPA). Enfim, em 1912, criou a Sociedade Psicanalítica de Budapeste, com Sandor Rado, Istvan Holos e Ignotus, além de publicar “O Conceito de Introjeção”. A partir de 1919, viriam Geza Roheim, René Spitz, Imre Hermann e Eugénie Sokolnicka.
Em 1913, publica o caso clínico “O Pequeno Homem-Galo”, além de redigir uma crítica de “Metamorfoses e Símbolos da Libido”, de Jung, expondo publicamente sua posição ao lado de Freud no tocando ao conflito entre Freud e Jung.
Membro do Comitê Secreto a partir de 1913, participou de todas as atividades de direção do movimento freudiano, formando com Otto Rank e Freud um polo “sulista” e austro-húngaro, diante das iniciativas mais rígidas e burocráticas dos discípulos vindos do norte da Europa: Karl Abraham, Ernest Jones e Max Eitingon. Foi nesse período que se desenrolou o grande debate sobre a telepatia, em torno do qual se cristalizaram os conflitos entre Jones, partidário de uma psicanálise racionalista empírica, e Ferenczi, muito mais aberto a experiências julgadas desviantes, irracionais ou extravagantes por seu adversário.
Em 1914, Ferenczi analisou duas grandes figuras do movimento psicanalítico: Geza Roheim e Melanie Klein. Analisou também Ernest Jones – análise marcada, obviamente, pela ambivalência.
Em 1918, é eleito presidente da IPA.

A derrota dos impérios centrais anunciou a insurreição húngara. Em março de 1919, Bela Kun proclamou a República dos Conselhos, enquanto em Budapeste era criada, pela primeira vez no mundo, uma cátedra de ensino da psicanálise na universidade. Ferenczi foi, naturalmente, nomeado para esse posto. Mas, quatro meses depois, a Comuna foi reprimida com sangue pelas tropas do almirante Miklos Horthy. A Hungria caiu então sob o jugo de outra ditadura, e os brilhantes representantes da escola húngara de psicanálise, florão do movimento, começaram a emigrar. Berlim tornou-se então o centro nevrálgico do movimento freudiano: efetivamente, foi nessa época que se fundou o Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI).

A partir de 1919, como Rank, Ferenczi se empenhou na reforma completa da técnica psicanalítica. Inventou primeiro a técnica ativa, que consiste em intervir diretamente no tratamento, através de gestos de ternura e afeto, e depois a análise mútua, durante a qual o analisando é convidado a “dirigir” o tratamento ao mesmo tempo em que o terapeuta, antes de reatar com a teoria do trauma, denunciando a hipocrisia da corporação analítica em um texto famoso de 1932, intitulado “Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança”. Através dessa exposição, que suscitou a oposição de Jones e de Freud, relançava todo o debate sobre a teoria da sedução.
De 1919 a 1924, Ferenczi publica vários textos. Entre eles: “A Técnica Psicanalítica” (1919); “Prolongamentos da Técnica Ativa em Psicanálise” (1921); “O Sonho do Bebê Sábio” (1923); “Perspectivas da Psicanálise” (1924, com Otto Rank).
Em 1921, Ferenczi conhece Groddeck, que seria seu amigo por toda a vida.
Em 1926, fez uma viagem de conferências pelos Estados Unidos, onde alguns terapeutas, como Clara Thompson (1893-1958), grande amiga de Harry Stack Sullivan, o reconheceram logo como um clínico genial.
Foi em 1924 que Ferenczi publicou Thalassa: Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade, obra próxima da de Rank, sobre o trauma do nascimento. Nos dois textos, desenha-se o abandono da tese da prioridade do pai em prol de uma pesquisa sobre as origens do vínculo arcaico da criança com a mãe, tema trabalhado por Melanie Klein na mesma época. Ao contrário dos kleinianos, Ferenczi se situava no terreno do evolucionismo darwiniano. Afirmava que a vida intrauterina reproduzia a existência dos organismos primitivos que viviam no oceano. Segundo ele, o homem teria a nostalgia do seio da mãe, mas também procuraria regredir ao estado fetal nas profundezas marítimas. Essa abordagem da psicanálise através da metáfora da cripta e das profundezas era acompanhada de inovações técnicas. Se a sessão analítica repetia uma sequência da história individual e se, aliás, a ontogênese recapitulava a filogênese, a reflexão sobre a própria sessão conduzia naturalmente à pergunta: qual o estado traumático que a ontogênese repete simbolicamente?

Duramente contestado por suas teses e suas inovações pelos partidários da ortodoxia, Ferenczi não deixaria o regaço freudiano como Rank. Jones, entretanto, o chamaria de psicótico: “Ferenczi sempre acreditou firmemente na telepatia. Depois, foram os delírios sobre a pretensa hostilidade de Freud. No fim, apareceu uma violenta paranoia, acompanhada até de explosões homicidas. Foi o fim trágico de uma personalidade brilhante”. Na verdade, Ferenczi morreu em consequência de problemas respiratórios, em decorrência de uma anemia perniciosa. Freud lhe prestou uma vibrante homenagem, mas enfatizando a excessiva importância que assumira, a seus olhos, o desejo de curar: “Ao voltar de uma temporada de trabalho na América, ele pareceu isolar-se cada vez mais em um trabalho solitário. Soubemos que um único problema monopolizava o seu interesse. A necessidade de curar e de ajudar nele se tornara avassaladora”.
Foi na França e na Suíça que a obra de Ferenczi foi particularmente apreciada, graças à sua tradutora Judith Dupont, sobrinha de Alice Balint (1898-1939), e a André Haynal, responsável em Genebra pelos arquivos de Michael Balint.
Dentre suas publicações, destacam-se: “Contraindicações da Técnica Ativa” (1926); “Fantasias Gulliverianas” (1926); “O Filho Mal Recebido e sua Pulsão de Morte” (1929); “Princípio de Relaxamento e Neocatarse” (1930); “Análises de Crianças e Adultos” (1931).


Este Artigo segue as diretrizes biográficas do verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE.

12 de junho de 2013

O CLOSE-UP DA MÃE EM “ELENA” (Ludmila Naves)



Tive a oportunidade de assistir uma aula magna de Michael Renov – Professor Doutor de Estudos Críticos de Cinema na Universidade da Califórnia – recentemente, no Departamento de Cinema, Rádio e TV da USP. A aula tinha como tema a pesquisa que Renov desenvolve em seu departamento: O Poder do Close-up no Documentário.
Segundo Renov: “O contato visual entre sujeito e cineasta é estendido à audiência”. Portanto, quando o sujeito (entrevistado) olha para a câmera num primeiro plano (close-up), o expectador experimenta a sensação de que o personagem está olhando diretamente para ele.
Ainda sobre o poder do close-up, Renov continua: “O close-up é a melhor escolha de composição para fortalecer os laços de engajamento e compaixão que podem emergir de um testemunho audiovisual”.
A partir desse ponto de vista, proponho analisar algumas escolhas no documentário brasileiro de 2013, Elena, dirigido por Petra Costa.
O documentário acompanha a busca de Petra (diretora do filme) pela irmã – Elena - que aos vinte anos mudou-se para Nova Iorque atrás do sonho de ser atriz de cinema. Lá, Elena é frustrada pelas contínuas negativas recebidas em testes e em seguida, vivencia uma forte depressão que culminará em seu suicídio.
Petra tinha apenas sete anos quando Elena morreu, e desde então, ouvira da família que poderia escolher qualquer profissão e qualquer lugar para viver, exceto ser atriz em Nova Iorque.  Dez anos mais tarde, Petra opta por artes cênicas e se matricula na Universidade de Columbia em Nova Iorque. Segundo a fala da própria Petra no filme, realizando o documentário, ela pretendia compreender melhor a figura da irmã e enfim, seguir adiante, superando seu medo e o da família de que a mesma tragédia lhe ocorresse.
O documentário é acompanhado quase integralmente por uma narração em off de Petra, mas curiosamente, até o terço final do filme, ela não mostra seu próprio rosto. Embora se detenha apenas às imagens de Elena, Petra reitera que vivem lhe apontando a semelhança com a irmã. Tal dado, o espectador só poderá conferir nos minutos finais do filme.
Na metade do filme, Petra, que antes apenas mostrara sua mãe em fotos, pela primeira vez, mostra-a em imagem e som. Nessa sequência, Petra (atrás da câmera) e a mãe, revisitam a casa em Nova Iorque onde moravam, quando Elena se suicidou.
A câmera acompanha o trajeto sem desgrudar-se do rosto da mãe, que segue narrando como encontrou a filha morta. Mas, uma vez que a mãe cessa o movimento, a câmera também pára; e enquadrando o rosto da mesma em close-up, fica então registrada a falta de contato visual entre mãe-câmera. Isto é, a personagem da mãe não consegue fixar o olhar na lente. E, contrariando alguns pontos de Renov, o efeito gerado não é de enfraquecimento, mas sim de uma compaixão intensa e pungente.
Para Renov, o close-up com contato visual entre personagem e câmera é visto como endereçamento direto a audiência. No entanto, é justamente no impacto gerado pela falta desse contato que o documentário Elena melhor se constrói.
No olhar “perdido” da mãe, incapaz de se configurar numa direção, sente-se a dor ininterrupta dessa mulher. Uma mulher que talvez até hoje, vinte e três anos após a morte da filha, ainda não tenha reencontrado um caminho para direcionar o olhar.
Só no terço final do filme, a mãe de Petra finalmente olha diretamente para a câmera. E, por alguns segundos, como espectadora, o close-up não me fez acreditar que ela me olhava. Tive a impressão de que ela olhava a outra filha - a viva - que estava atrás das câmeras: Petra.
E a partir daí, transcendemos a leitura que a própria Petra faz de seu filme. Não se trata apenas de um filme de Petra para a irmã; mas sim, uma obra para a mãe. Um filme para capturar a atenção materna. Um filme para cobrar e agradecer essa mãe. Quando a mesma finalmente olha para a câmera, o objetivo da diretora (e filha) é alcançado. Enfim, a mãe direcionou seu olhar à filha viva.
Mãe, olha para mim. Seus olhos não refletem mais nada desde que Elena se foi. Mas eu não morri. Estou viva e preciso do seu amor. Do seu olhar. Obrigada por permanecer viva. Ainda que por mim.
Essa declaração poderia ser facilmente feita por Petra a sua mãe. Arrisco dizer que poderia também sintetizar o porquê do filme.

LUDMILA NAVES é roteirista.
E-mail: ludmila_naves@yahoo.com.br

10 de junho de 2013

III ENCONTRO "LER & ESCREVER" DA REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE: A TRANSMISSÃO EM PSICANÁLISE



Prezados Leitores,


É com muita satisfação que convidamos para o III Encontro "Ler & Escrever", promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O Encontro será realizado no próximo dia 06/jul, das 15h30 às 18h, na Rua Cardeal Arcoverde, 833 (cj.1) - São Paulo/SP.
O tema será "A Transmissão em Psicanálise", do qual esperamos um diálogo aberto entre os participantes.
As inscrições são restritas à um número de 30 (trinta) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), até o dia 30/jun. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.


Atenciosamente,

CORPO EDITORIAL

20 de abril de 2013

SOBRE O TEMPO: DOIS BREVES ENSAIOS (Marcos InHauser Soriano)



Viver é pôr vírgulas no tempo, e às vezes um pouco de exclamação.
(FABIO HERRMANN)

Este Artigo apresenta-se, através de dois ensaios, numa reflexão sobre o tempo.
Acredito ser interessante localizar como pano de fundo, espécie de gestalt brincalhona, dois filmes que se puseram a passar em minha cabeça na ocasião desta reflexão: “De Volta Para O Futuro” (Back To The Future – Robert Zemeckis, EUA, 1985) e “Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect – Eric Bress & J. Mackye Gruber, EUA, 2004). Duas ficções-científicas que exploram, para além da deliciosa aventura, a questão do tempo. Tempo que se foi, tempo do vir a ser, tempo que se cria e recria na memória, tempo que se crê num tempo sempre inalcançável, tempo curto, um atemporal Proust “Em Busca Do Tempo Perdido”.

A EUCARISTIA NEURÓTICA
Vamos logo... Vamos nos arrumar direitinho... Vamos que estamos atrasados para a missa de domingo. Na missa de domingo vamos celebrar a morte do Senhor, vamos celebrar a ressurreição do Senhor. Olha mulher, não importa mais o que significa isto... Vamos que já estamos atrasados!!!
Na Umbanda, religião autenticamente da Terra Brasilis, sacrifica-se o animal para que todos os participantes possam ingerir um pedaço da força doada às entidades do centro. Religião que padece de muito preconceito frente à ocidentalidade imperativa das religiões oficiais. O termo “macumba”, por exemplo, encontra-se inserido em várias histórias contadas. Uma dessas histórias diz que o termo tem sua origem em reuniões de afrodescendentes, reuniões festeiras, um tipo de pagode, onde o principal instrumento era uma espécie de reco-reco denominado “macumba”. Distorções que acabam fazendo toda a diferença.
Seguindo as ideias de Freud, em “Totem & Tabu” de 1913, a celebração totêmica foi adquirindo, ao longo do tempo, características de afastar da consciência os resquícios, os ecos, da barbárie cometida contra o Pai Primevo.
Fabio Herrmann, acompanhando a inter-relação entre sintoma, inibição e angústia, apresentada por Freud em 1925/1926, descreve o campo neurótico como sendo composto por dois mundos e dois tempos sobrepostos. Como em nosso calendário, há os dias marcados em preto, os dias reservados ao cotidiano dos homens, ao trabalho, ao lazer, às relações interpessoais, à vida em família; e há os dias marcados em vermelho, reservados aos feriados nacionais e dias santificados, que celebram a convenção das datas, mas sem apreender e relembrar sua verdade histórica. Eis o sentido do sintoma: a celebração do trauma, repetido e repetido e repetido, sem entretanto, se apoderar da história secreta que se encontra apagada no tempo da consciência, coexistindo como pequenos fragmentos, resquícios, ecos, que acabam por denunciar uma forma restrita da atividade mental.
Seria justamente o desvelamento desta história secreta, do sentido secreto que o sintoma denuncia, o trabalho a ser executado na sala de análise – proporcionar, para além da celebração, a possibilidade de comemoração, ou seja, relembrar com, através do campo transferencial depositado na figura do analista. Uma memória conjunta, uma desvelar que tem como característica principal um criar novamente o que foi, numa outra ordem de sentido. Um vir a ser de Proust, que através do cheiro e sabor da “madeleine”, faz surgir uma cidade inteira onde antes o quarto de dormir imperava.
Posto que, seguindo o pensamento de Fabio Herrmann, quem não cria, crê paralisado num tempo que não se fez, que não se faz.


FUTURO DO PRETÉRITO: O ABSURDO, A CURA & A LOUCURA
A Linguagem, tão cara à Psicanálise, é uma das mais absurdas e fantásticas características do humano, que no discurso do sujeito promove infinitas abstrações e revelações de múltiplos sentidos encontradas nos sonhos, atos falhos, lapsos, esquecimentos, representações – como as diversas possibilidades de compreensão do termo “macumba”, no exemplo apresentado acima. A Linguagem, que não é apenas verbal, na Sala de Análise faz surgir nosso objeto de interesse: o Homem Psicanalítico, ser da crise representacional entre Sujeito e Mundo, entre Desejo e Realidade – a busca do Homem-Deus autobastante, o sujeito do Incondicional, em um Mundo que se completa em perfeição narcísica; o encontro de um homem completamente desencontrado, já que a ideia do autobastar-se nunca se deu em tempo algum – é uma ilusão, o Absurdo.
Na Linguagem, o verbo e o tempo verbal é o tempo da ação, o que dá sentido ao sujeito e ao discurso. Na Língua Portuguesa, temos um tempo verbal que beira a irrealidade, o Absurdo: o Futuro do Pretérito – condicional um tanto esquecido, discreto, que aponta e sugere algo de estranho.
O Eu é o representante da tentativa de manutenção de uma forma coesa de discurso. Na Sala de Análise o Eu resiste corajosamente ao apelo gravitacional do Campo Transferêncial, morada do Homem Psicanalítico, que faz rodopiar o que é coeso, em uma loucura compartilhada, promotora de irrupções de desencontro dos sentidos do discurso – ampliação de possíveis.
Como o sonho, sentido do sonhado que surge no instante em que é contado, o tempo verbal da Sala de Análise revela a possibilidade da Cura – mais próxima da Literatura do que do Laboratório Científico – uma Ficção Científica que perpassa certa dose de loucura: lembro-me do que agora estamos a criar, diferente do que fui, e que me possibilita ser outro em meu amanhã, diverso ao destino de meu presente, que me impõe ser isto que já não sou mais. Futuro do Pretérito.
Poder-se-ia pensar na Cura como o atingir o Incondicional, o Absoluto; mas o Homem é, por natureza, incompleto de si. Não tenhamos tanta pretensão, fiquemos na loucura do Futuro do Pretérito.
A Cura, como adaptação do sujeito na experiência de experimentar-se.

OBSERVAÇÃO
Utilizei como referencial para este Artigo, a exaustiva, entretanto brilhante, apresentação de Leda Herrmann sobre os pensamentos de Fabio Herrmann - HERRMANN, LEDA (2007) Andaimes do Real: A Construção de um Pensamento. São Paulo: Casa do Psicólogo.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.

16 de abril de 2013

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: WILLIAM SHAKESPEARE




WILLIAM SHAKESPEARE é considerado um dos mais importantes dramaturgos e escritores de todos os tempos. Seus textos literários são verdadeiras obras de arte e permaneceram vivas até os dias de hoje, onde são retratadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura. 
Nasceu em 23 de abril de 1564, na pequena cidade inglesa de Stratford-upon-Avon. Filho de John Shakespeare, um bem-sucedido luveiro e subprefeito de Stratford, vindo de Snitterfild, e Mary Arden, filha afluente de um rico proprietário de terras, Shakespeare foi o terceiro filho de uma prole de oito. Nesta região começa seus estudos e já demonstra grande interesse pela literatura e pela escrita. Teve uma vida sem maiores problemas financeiros até os 12 anos, quando o seu pai faliu. A partir daí, Shakespeare começou a trabalhar para ajudar no sustento da família. Mesmo assim, não deixou de ler autores clássicos, novelas, contos e crônicas, que foram fundamentais na sua formação de poeta e dramaturgo.
Com 18 anos de idade casou-se com Anne Hathaway e, com ela, teve três filhos, Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet, que morreu aos 11 anos de idade.
No ano de 1591 foi morar na cidade de Londres, em busca de oportunidades na área cultural. Começa escrever sua primeira peça, “Comédia dos Erros”, no ano de 1590 e termina quatro anos depois.
Embora seus sonetos sejam até hoje considerados os mais lindos de todos os tempos, foi na dramaturgia que ganhou destaque. Em 1592, com menos de 30 anos, Shakespeare já tinha o seu talento reconhecido no teatro, tendo redigido pelo menos duas peças: “A Comédia dos Erros” e “A Megera Domada”. O seu prestígio aumentou ainda mais em 1594, quando começou a trabalhar para a companhia de teatro The Lord Chamberlain's Men, que possuía um excelente teatro em Londres. Neste período, o contexto histórico favorecia o desenvolvimento cultural e artístico, pois a Inglaterra vivia os tempos de ouro sob o reinado da rainha Elisabeth I. O teatro deste período, conhecido como teatro elisabetano, foi de grande importância. Escreveu tragédias, dramas históricos e comédias que marcam até os dias de hoje o cenário teatral.
A arte dramática do poeta pode ser dividida em três partes. Na primeira, compreendida entre os anos de 1590 e 1602, Shakespeare escreveu comédias alegres, dramas históricos e tragédias no estilo renascentista. A segunda fase, que vai até 1610, é caracterizada por tragédias grandiosas e comédias amargas, o autor está no seu auge produtivo. A última parte, que vai até a sua morte, é marcada basicamente pelo lançamento de peças que têm o final conciliatório. Sua primeira peça, “Tito Andrônico”, escrita provavelmente em 1590, já revelava alguns dos elementos shakespearianos: o texto era uma tragédia repleta de assassinatos e violações.
Os textos de Shakespeare fizeram e ainda fazem sucesso, pois tratam de temas próprios dos seres humanos, independente do tempo histórico. Amor, relacionamentos afetivos, sentimentos, questões sociais, temas políticos e outros assuntos, relacionados à condição humana, são constantes nas obras deste escritor. Toda a sua obra, escrita em 20 anos, está presente em palcos e telas de todo o mundo. Quase quatro séculos após a sua morte, William Shakespeare é um dos dramaturgos mais encenados no planeta. O autor inglês escreveu cerca de 40 peças, entre tragédias (Otelo, Romeu e Julieta, Rei Lear); dramas históricos (Henrique V, Ricardo III); e comédias (Muito Barulho por Nada, Sonhos de uma Noite de Verão). Shakespeare escreveu também poemas e mais de 150 sonetos que expressam frustração, agitação, masoquismo e homossexualidade.
Antes de Shakespeare, nenhum outro dramaturgo ou poeta havia mostrado a natureza humana em toda a sua complexidade: a paixão de Romeu e Julieta, a sua obra mais conhecida, o ciúme cego de Otelo, a ambição de MacBeth. Shakespeare também deve ser um dos escritores mais citados no mundo. Mesmo quem nunca leu Hamlet certamente conhece a famosa frase: “Ser ou não ser, eis a questão”.
Frequentemente, alguns poucos estudiosos atribuem a Francis Bacon (1561/1626) e a Christopher Marlowe (1564/1593) parte de sua obra. No entanto, os pesquisadores que desconfiam da produção do dramaturgo não conseguiram provar as suas teorias e a densa obra de Skakespeare sobrevive pela excelente qualidade poética. Suas peças aliam uma visão poética e refinada a um forte caráter popular. Nelas, os crimes, os incestos, as violações e as traições são ingredientes para o divertimento do público.
Em 1610 retornou para Stratford, sua cidade natal, local onde escreveu sua última peça, “A Tempestade”, terminada somente em 1613. Em 23 de abril de 1616 faleceu o maior dramaturgo de todos os tempos.
Shakespeare foi um poeta e dramaturgo respeitado em sua própria época, mas sua reputação só viria a atingir o nível em que se encontra hoje no século XIX. Os românticos, especialmente, aclamaram a genialidade de Shakespeare, e os vitorianos idolatraram-no como um herói, com uma reverência que George Bernard Shaw chamava de “bardolatria”. No século XX sua obra foi adotada e redescoberta repetidamente por novos movimentos, tanto na academia e quanto na performance. Suas peças permanecem extremamente populares hoje em dia e são estudadas, encenadas e reinterpretadas constantemente, em diversos contextos culturais e políticos, por todo o mundo.
As peças shakespearianas são peculiares, complexas, misteriosas e com um fundo psicológico espantoso. Uma das qualidades do trabalho de Shakespeare foi justamente sua capacidade de individualizar todos seus personagens, fazendo com que cada um se tornasse facilmente identificado. Shakespeare também era excêntrico e se adaptava a gêneros diferentes. Trabalhando com o sombrio e com o divertido ou cômico, Shakespeare conseguiu chegar perto da unanimidade.
Diversos filósofos e psicanalistas estudaram as obras de Shakespeare e a maioria encontrou uma riqueza psicológica e existencial. Entre eles, Arthur Schopenhauer, Freud e Goethe são os que mais se destacam. No Brasil, Machado de Assis foi muito influenciado pelo dramaturgo. Diversas fontes alegam que Bentinho, de Dom Casmurro, seja a versão tropical de Otelo. A revolta dos canjicas, em O Alienista, é provavelmente uma outra versão da revolta fracassada do Jack Cage, descrita em Henrique IV. Na introdução de A Cartomante, Assis utiliza a frase “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe vossa vã filosofia”, frase que pode ser encontrada em Hamlet.

SHAKESPEARE E A PSICANÁLISE
Desde o início do século XX, os psicanalistas vêm estudando as obras de Shakespeare, a fim de aprofundar sua compreensão do conflito psíquico e suas competências interpretativas. Os pesquisadores em literatura voltaram-se para a psicanálise na esperança de resolverem os problemas que vinham encontrando desde há muito tempo no estudo dos textos de Shakespeare.
Numa carta a seu amigo Wilhelm Fliess (15/out/1897), Sigmund Freud fala pela primeira vez do que ele chamará mais tarde de o complexo de Édipo; depois, muito rapidamente, passa a mostrar como essa noção pode ser utilizada para explicar certos pontos obscuros no “Hamlet”. Freud fazia a ligação, graças à estrutura triangular do complexo de Édipo, entre as hesitações de Hamlet para vingar seu pai, seus debates de consciência, sua hostilidade em relação à Ofélia, a repugnância sexual que lhe causava Gertrude e sua destruição final. “Existem mais coisas entre a terra e o céu, Horácio, do que pode imaginar toda a tua filosofia”: para Ernest Jones, era essa a citação preferida de Freud, entre todas as suas fontes literárias, e a que expunha, segundo o “Hamlet”, a dificuldade de ser.
A natureza do apego de Freud aos textos de Shakespeare encontra-se igualmente nessa cadência especial do texto de seus sonhos, a qual remete para a cadência do discurso de Brutus quando tenta justificar-se no “Júlio César”: “Por ter-me amado César, pranteio-o; por ter sido ele feliz, alegro-me; por ter sido valente, honro-o; mas por ter sido ambicioso, matei-o”. Freud expôs com clareza o conflito inconsciente que tinha fraturado a psique de Lady MacBeth entre sua feminilidade e sua ambição masculina, assim como a técnica de Shakespeare para cindir uma personagem em duas: “Ela torna-se o remorso após o ato, ele (MacBeth) torna-se o desafio”.
Na crítica shakespeariana, após os conhecidos trabalhos de Jekels, Jones, Reik, Sachs e Wangh, entre outros, deparamo-nos com uma proliferação de ensaios que aplicam diversos aspectos da teoria psicanalítica aos textos de Shakespeare: a teoria do sonho, o modelo estrutural, as fantasias incestuosas, as fantasias de cena primitiva e as funções simbolizantes e criativas da própria psique. “Sobre a tendência universal à depreciação da esfera do amor”, de 1912, permitiu discutir os obstáculos ao amor que são regularmente explorados na comédia. “Luto e melancolia”, de 1916/17, incitou à reflexão sobre a ambivalência em relação ao objeto perdido e à depressão grave na tragédia, ou mesmo numa comédia como “Noite de Reis”. “À guisa de introdução ao narcisismo”, de 1914, e a reflexão que se lhe seguiu sobre a estrutura da psique e suas raízes no desenvolvimento infantil influenciaram numerosas interpretações recentes de Shakespeare. “A Negativa”, de 1925, permitiu aos shakespearianos entenderem como a psique se encontra por vezes num impasse quando negocia as suas próprias contradições internas.
Depois de Freud, o “estádio do espelho” de Jacques Lacan, o “objeto transicional” em Donald Winnicott, a “separação/individuação” em Margareth Mahler e a “confiança fundamental” em Erik Erikson desencadearam novas análises das peças de Shakespeare. De todos os textos clássicos dessa crítica psicanalítica, o mais sutil continua sendo o de Ernst Kris, de 1952, o modelo do gênero pelo modo como ele integra em elementos da língua, dos personagens e da intriga os elementos correspondentes da estrutura psíquica. Kris, ao examinar as fontes de uma peça e os diálogos, reconhece o gênio excepcional de Shakespeare e sua notável capacidade para observar os fenômenos sob os ângulos histórico e psicológico.
Mais recentemente, registra-se a influência da psicanálise como em Murray Schwartz, em 1980, que considera ser Shakespeare um dramaturgo “cujas peças e cujos poemas não se contentam em ilustrar sua identidade, mas são, em cada caso, a expressão dinâmica da luta pela recriação e a exploração das origens”. No mesmo espírito, Janet Adelman, em 1992, analisou a identidade masculina e as fantasias do poder materno e do corpo materno na obra de Shakespeare.
A crítica psicanalítica de Shakespeare dominou a aplicação da teoria psicanalítica ao domínio das letras e permitiu articular certo número de debates sobre a psicanálise aplicada. Há os eu são da opinião de que os textos de Shakespeare devem ser analisados com respeito ao gênero, às suas qualidades formais, estéticas, e à sua arte, sem que seja necessário inventar tal ou tal neurose infantil ou efeito do Inconsciente numa personagem, nem fazer a análise selvagem do autor; não se deve ir além do texto. Outros pensam, pelo contrário, que a escrita é um produto da psique humana, cuja criatividade se nutre constantemente do Inconsciente e dos seus desejos. As interpretações psicanalíticas mais fecundas do dramaturgo britânico situam-se, de fato, entre as duas posições, cada vez que fazem do texto prova e árbitro, sem perder de vista uma característica shakespeariana: a ilusão de que o palco é o lugar de expressão de um indivíduo que possui uma vida interior cujos poderes e ações podem escapar-lhe.

A linha da relação entre Shakespeare e a Psicanálise segue as diretrizes do verbete redigido por Margarett Ann Fitzpatrick Hanly, para o DICIONÁRIO INTERNACIONAL DA PSICANÁLISE.

15 de março de 2013

EDITORIAL ANO IV



A REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE completa em março seu quarto ano de existência. O CORPO EDITORAL gostaria de parabenizar a todos pelo esforço e pela participação nesta empreitada psicanalítica.
Desde FREUD, percebemos a importância da LEITURA e da ESCRITA para o desenvolvimento da Psicanálise. Com seus precisos levantamentos bibliográficos nos Artigos Teóricos, bem como na arte de sua escrita, ora romanceada nos Historiais Clínicos, ora metodologicamente perfeita nos Artigos Técnicos, FREUD nos deixou esse legado e essa deliciosa obrigação: LER e ESCREVER.
Em 1925, escreve FREUD, incansável: “É quase humilhante que, após trabalharmos por tanto tempo, ainda estejamos tendo dificuldade para compreender os fatos mais fundamentais. Mas decidimos nada simplificar e nada ocultar. Se não conseguirmos ver as coisas claramente, pelo menos veremos claramente quais são as obscuridades”.
Ficamos, portanto, com esse desafio: perpetuar a LEITURA e a ESCRITA.
Uma LEITURA e uma ESCRITA que permitam um diálogo mais profundo com outras áreas de saber, sempre com o intuito de fazer retornar a Psicanálise às suas origens, ou seja, ser um instrumento de compreensão do Humano, caminhando em direção a uma Ciência Geral da Psique.
Neste ano de 2013, daremos seguimento ao Encontro de Autores e Leitores da REVISTA, com o propósito de favorecer o diálogo com esses dois lugares: LER e ESCREVER.
Nos empenharemos em conseguir um “registro oficial”, para que os Artigos adquiram um caráter e peso acadêmico (solicitação de alguns de nossos autores). A empreitada inclui um sistema de arquivos em PDF, para facilitar o download.
Não podemos esquecer-nos da criação, em 2012, de um sistema de buscas (“Pesquisar na Revista”) e de um espaço reservado para comunicação de nossos leitores (“Palavra do Leitor”).
Continuamos com a página no Facebook, e criamos uma no Google Plus.
Estamos empenhados em continuar propiciando e aprimorando um espaço aberto de interlocução psicanalítica. Portanto, convidamos todos a participarem com Artigos, Ensaios, Crônicas e demais formas nas quais a Psicanálise se faz instrumento poderoso. Ainda estamos em falta em relação a “dicas e críticas” cinematográficas, artísticas, literárias, teatrais... Que sejam bem vindas.
Mais uma vez, muito obrigado a todos que diretamente ou indiretamente participaram desta empreitada.

CORPO EDITORIAL

1 de janeiro de 2013

HORIZONTE VERTICAL (Marcos InHauser Soriano)



O tempo está estável, o mar está calmo. Ótima oportunidade para navegar, para realizar a experiência de encontrar o final do horizonte. Sim, do horizonte. Por que não? De repente, vai ver que a Terra é quadrada e o horizonte desaba numa queda sem fim?!? Angústia!!!
Oras, vamos numa jangada, assim, tipo artesanal. Pequena? Só na aparência... Pode entrar tranquilo – balança um pouco, mas cabe todo mundo!!!

O Homem Psicanalítico, objeto da Psicanálise, pode ser compreendido como a crise, a tentativa adaptativa do sujeito em relação ao mundo em que este, o próprio sujeito, se dá como possibilidade de existência. Tentemos descomplicar a ideia: a criatura humana, distante da ideia de uma biologia natural, gera e é gerada por um mundo que não a comporta – como se fizéssemos nossa casa para percebermos não caber nela.
No Homem Psicanalítico a identidade está em crise, a realidade está em crise – por crise podemos entender a tentativa de um achado, de um encontro desencontrado. A experiência de estarem, analista e analisando, mergulhados na Torre de Babel proporcionada pelo campo transferencial, é um bom exemplo: um fala alho, ato falho, para o outro entender bugalho, arriscando uma ficção denominada Interpretação, que só poderá ser reconhecida veritativamente momentos depois, após o ato consumado. O Homem Psicanalítico não é criatura do “antes”, da previsibilidade. O Homem Psicanalítico é do futuro do pretérito, do vir a ser já sendo antes possibilidade. O Homem Psicanalítico é o próprio Absurdo.
Entendo que na Psicanálise, Método e Absurdo são inseparáveis, criando-se e recriando-se infinitamente. O conceito de Inconsciente, por exemplo, só se faz sentido nessa fantástica ficção/ciência de via dupla. Há o Inconsciente... no Absurdo e no Método que o tenta apreender.

Pronto!!! Viu!!! Não avisei!!! Agora estamos aqui, em nossa jangadinha, no meio do nada, com linhas de horizonte por todos os lados... E agora?!? Que seja: vamos em frente pra ver se a Terra é quadrada...
Quer saber?!? Eu não devia era ter te dado ouvido!!! Já te falei... você precisa é deitar num divã ao invés de navegar em jangadinha!!! E eu que podia ter ficado na praia, tomando sol a olhar corpinhos em biquíni, com uma cervejinha gelada descendo pela goela!!!

O Cotidiano é horizontal. O Homem do Cotidiano vai assim, sobrevivendo psiquicamente a pressões e compressões, sem pensar na lógica de concepção das regras inaparentes que regem seu existir no mundo em que vivemos. Absurdo é a denominação desta lógica de concepção, que rege identidade e realidade num conjunto coeso e inquestionável. Vamos assim sobrevivendo, em nosso tempo sempre apressado, fora do tempo, teclando nossos smartphones que serão lançados amanhã, fazendo nossos happy-hours tomando qualquer coisa, com medo da violência e praticando-a a todo instante.
O Absurdo é vertical. É na verticalidade, no mergulho do desencontro de sentidos produzido pela interpretação, que se faz revelar a lógica de concepção – exercício nada confortável, mas sensibilizador do momento de pensar-se e fazer-se surgir. A interpretação é o ato mesmo de criação do inconsciente – não do inconsciente dogmático, topográfico, mas o da lógica mesma, outra, o avesso do avesso do avesso, que o concebe e o localiza na Psicanálise. O Inconsciente é vertical. O Homem Psicanalítico é a relação mesma encontrada no ato interpretativo. O Homem Psicanalítico é vertical.
No encontro entre horizontal e vertical é que podemos entrever a ideia de uma Espessura Ontológica do Método Psicanalítico: um grau de aglomeração, ajuntamento de ideias que formam um todo compacto, que diz respeito à natureza do Ser, no caso, o próprio Homem Psicanalítico.

Ô... Acorda, acorda!!! Olha lá na frente... O fim do horizonte!!! Mas que... Como?!? Onde?!? Ali, ali, olha pra frente!!! Mas... Oras, aquilo está me parecendo “terra à vista”, terra firme!!! Espera aí, vou usar meu GPS “MAX TURBO SUPER DOUBLE 7 BY JB made in China”!!! Hum... Ah sim, claro, o fim do horizonte!!! Sua besta quadrada, aquilo é a costa africana, mais precisamente a Namíbia. Por Deus do céu, não sei onde estava com a cabeça pra te seguir nessa empreitada de louco... VOCÊ É LOUCO!!! LOUCO!!! Unf!!! Olha meu amigo, eu não quero nem saber, chegando lá, no teu “fim do horizonte”... rsrsrs... Voltaremos de avião!!! Nada de jangadinha, que minhas costas estão me matando!!!
Olha só eu conforto de avião, um luxo só!!! Sabe... Até que a aventura não foi tão descabida assim!!! Como?!? Eu estava aqui a pensar... E você faz isso?!? Engraçadinho... Então, estava a pensar em um daqueles programas soníferos da NATGEO, aqueles de Darwin e coisa e tal... E?!? Pô, não é que no fim do horizonte demos de cara com nós mesmos!!! Não dizem que foi na África que surgiu o homem primitivo e teve início a tal evolução dos mamíferos superiores?!? Caraca, é mesmo!!!
A aeromoça ficou, por um tempo, tentando entender aquele homem, quatro fileiras à frente, na poltrona do meio, com um copo de whisky não mão, a rir copiosamente. A sensação era de satisfação. Aquele homem estava satisfeito.

*****

João deitou-se.
Cansado, exibindo sapatos de sola gasta, calça social, camisa branca de manga curta, amarrotada, suada, com os botões bem abotoados. O dia foi longo, andou bastante pela rua, mas não vendeu quase nada. João transpira às bicas. Joãosuado, João abençoado, João de Deus.
João deitou-se suado. O ar condicionado da sala é uma benção. Não vendeu quase nada.
Diz não conseguir lembrar-se de uma palavra – maldita palavra que lhe escapou da cabeça o dia inteiro. Deve ser importante, ocorreu em um desabafo com uma amiga.
Deitado, João reclama que lhe falta tudo, lhe falta uma mesa, um galinheiro. Há o pênis, sem dúvida. Mas como bater com o pau na mesa que não há?!? Como mostrar para a família que manda na casa, se não há mesa para bater o pau?!?
ANTROPOFAGIA: ato de consumir uma parte, ou várias partes da totalidade de um ser humano. Ritual mágico do desejo de adquirir as características do Outro engolido. Deglutição do Outro.
De sobressalto, João senta, e com rosto de satisfação diz: “Lembrei... Lembrei a maldita palavra... CANIBAL!!! CANIBAL!!!

Os conceitos apresentados neste Artigo são uma leitura particular do autor sobre a produção e o sistema de pensamento de Fabio Herrmann, conhecido por Teoria dos Campos.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.