1 de janeiro de 2013

HORIZONTE VERTICAL (Marcos InHauser Soriano)



O tempo está estável, o mar está calmo. Ótima oportunidade para navegar, para realizar a experiência de encontrar o final do horizonte. Sim, do horizonte. Por que não? De repente, vai ver que a Terra é quadrada e o horizonte desaba numa queda sem fim?!? Angústia!!!
Oras, vamos numa jangada, assim, tipo artesanal. Pequena? Só na aparência... Pode entrar tranquilo – balança um pouco, mas cabe todo mundo!!!

O Homem Psicanalítico, objeto da Psicanálise, pode ser compreendido como a crise, a tentativa adaptativa do sujeito em relação ao mundo em que este, o próprio sujeito, se dá como possibilidade de existência. Tentemos descomplicar a ideia: a criatura humana, distante da ideia de uma biologia natural, gera e é gerada por um mundo que não a comporta – como se fizéssemos nossa casa para percebermos não caber nela.
No Homem Psicanalítico a identidade está em crise, a realidade está em crise – por crise podemos entender a tentativa de um achado, de um encontro desencontrado. A experiência de estarem, analista e analisando, mergulhados na Torre de Babel proporcionada pelo campo transferencial, é um bom exemplo: um fala alho, ato falho, para o outro entender bugalho, arriscando uma ficção denominada Interpretação, que só poderá ser reconhecida veritativamente momentos depois, após o ato consumado. O Homem Psicanalítico não é criatura do “antes”, da previsibilidade. O Homem Psicanalítico é do futuro do pretérito, do vir a ser já sendo antes possibilidade. O Homem Psicanalítico é o próprio Absurdo.
Entendo que na Psicanálise, Método e Absurdo são inseparáveis, criando-se e recriando-se infinitamente. O conceito de Inconsciente, por exemplo, só se faz sentido nessa fantástica ficção/ciência de via dupla. Há o Inconsciente... no Absurdo e no Método que o tenta apreender.

Pronto!!! Viu!!! Não avisei!!! Agora estamos aqui, em nossa jangadinha, no meio do nada, com linhas de horizonte por todos os lados... E agora?!? Que seja: vamos em frente pra ver se a Terra é quadrada...
Quer saber?!? Eu não devia era ter te dado ouvido!!! Já te falei... você precisa é deitar num divã ao invés de navegar em jangadinha!!! E eu que podia ter ficado na praia, tomando sol a olhar corpinhos em biquíni, com uma cervejinha gelada descendo pela goela!!!

O Cotidiano é horizontal. O Homem do Cotidiano vai assim, sobrevivendo psiquicamente a pressões e compressões, sem pensar na lógica de concepção das regras inaparentes que regem seu existir no mundo em que vivemos. Absurdo é a denominação desta lógica de concepção, que rege identidade e realidade num conjunto coeso e inquestionável. Vamos assim sobrevivendo, em nosso tempo sempre apressado, fora do tempo, teclando nossos smartphones que serão lançados amanhã, fazendo nossos happy-hours tomando qualquer coisa, com medo da violência e praticando-a a todo instante.
O Absurdo é vertical. É na verticalidade, no mergulho do desencontro de sentidos produzido pela interpretação, que se faz revelar a lógica de concepção – exercício nada confortável, mas sensibilizador do momento de pensar-se e fazer-se surgir. A interpretação é o ato mesmo de criação do inconsciente – não do inconsciente dogmático, topográfico, mas o da lógica mesma, outra, o avesso do avesso do avesso, que o concebe e o localiza na Psicanálise. O Inconsciente é vertical. O Homem Psicanalítico é a relação mesma encontrada no ato interpretativo. O Homem Psicanalítico é vertical.
No encontro entre horizontal e vertical é que podemos entrever a ideia de uma Espessura Ontológica do Método Psicanalítico: um grau de aglomeração, ajuntamento de ideias que formam um todo compacto, que diz respeito à natureza do Ser, no caso, o próprio Homem Psicanalítico.

Ô... Acorda, acorda!!! Olha lá na frente... O fim do horizonte!!! Mas que... Como?!? Onde?!? Ali, ali, olha pra frente!!! Mas... Oras, aquilo está me parecendo “terra à vista”, terra firme!!! Espera aí, vou usar meu GPS “MAX TURBO SUPER DOUBLE 7 BY JB made in China”!!! Hum... Ah sim, claro, o fim do horizonte!!! Sua besta quadrada, aquilo é a costa africana, mais precisamente a Namíbia. Por Deus do céu, não sei onde estava com a cabeça pra te seguir nessa empreitada de louco... VOCÊ É LOUCO!!! LOUCO!!! Unf!!! Olha meu amigo, eu não quero nem saber, chegando lá, no teu “fim do horizonte”... rsrsrs... Voltaremos de avião!!! Nada de jangadinha, que minhas costas estão me matando!!!
Olha só eu conforto de avião, um luxo só!!! Sabe... Até que a aventura não foi tão descabida assim!!! Como?!? Eu estava aqui a pensar... E você faz isso?!? Engraçadinho... Então, estava a pensar em um daqueles programas soníferos da NATGEO, aqueles de Darwin e coisa e tal... E?!? Pô, não é que no fim do horizonte demos de cara com nós mesmos!!! Não dizem que foi na África que surgiu o homem primitivo e teve início a tal evolução dos mamíferos superiores?!? Caraca, é mesmo!!!
A aeromoça ficou, por um tempo, tentando entender aquele homem, quatro fileiras à frente, na poltrona do meio, com um copo de whisky não mão, a rir copiosamente. A sensação era de satisfação. Aquele homem estava satisfeito.

*****

João deitou-se.
Cansado, exibindo sapatos de sola gasta, calça social, camisa branca de manga curta, amarrotada, suada, com os botões bem abotoados. O dia foi longo, andou bastante pela rua, mas não vendeu quase nada. João transpira às bicas. Joãosuado, João abençoado, João de Deus.
João deitou-se suado. O ar condicionado da sala é uma benção. Não vendeu quase nada.
Diz não conseguir lembrar-se de uma palavra – maldita palavra que lhe escapou da cabeça o dia inteiro. Deve ser importante, ocorreu em um desabafo com uma amiga.
Deitado, João reclama que lhe falta tudo, lhe falta uma mesa, um galinheiro. Há o pênis, sem dúvida. Mas como bater com o pau na mesa que não há?!? Como mostrar para a família que manda na casa, se não há mesa para bater o pau?!?
ANTROPOFAGIA: ato de consumir uma parte, ou várias partes da totalidade de um ser humano. Ritual mágico do desejo de adquirir as características do Outro engolido. Deglutição do Outro.
De sobressalto, João senta, e com rosto de satisfação diz: “Lembrei... Lembrei a maldita palavra... CANIBAL!!! CANIBAL!!!

Os conceitos apresentados neste Artigo são uma leitura particular do autor sobre a produção e o sistema de pensamento de Fabio Herrmann, conhecido por Teoria dos Campos.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.