16 de abril de 2013

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: WILLIAM SHAKESPEARE




WILLIAM SHAKESPEARE é considerado um dos mais importantes dramaturgos e escritores de todos os tempos. Seus textos literários são verdadeiras obras de arte e permaneceram vivas até os dias de hoje, onde são retratadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura. 
Nasceu em 23 de abril de 1564, na pequena cidade inglesa de Stratford-upon-Avon. Filho de John Shakespeare, um bem-sucedido luveiro e subprefeito de Stratford, vindo de Snitterfild, e Mary Arden, filha afluente de um rico proprietário de terras, Shakespeare foi o terceiro filho de uma prole de oito. Nesta região começa seus estudos e já demonstra grande interesse pela literatura e pela escrita. Teve uma vida sem maiores problemas financeiros até os 12 anos, quando o seu pai faliu. A partir daí, Shakespeare começou a trabalhar para ajudar no sustento da família. Mesmo assim, não deixou de ler autores clássicos, novelas, contos e crônicas, que foram fundamentais na sua formação de poeta e dramaturgo.
Com 18 anos de idade casou-se com Anne Hathaway e, com ela, teve três filhos, Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet, que morreu aos 11 anos de idade.
No ano de 1591 foi morar na cidade de Londres, em busca de oportunidades na área cultural. Começa escrever sua primeira peça, “Comédia dos Erros”, no ano de 1590 e termina quatro anos depois.
Embora seus sonetos sejam até hoje considerados os mais lindos de todos os tempos, foi na dramaturgia que ganhou destaque. Em 1592, com menos de 30 anos, Shakespeare já tinha o seu talento reconhecido no teatro, tendo redigido pelo menos duas peças: “A Comédia dos Erros” e “A Megera Domada”. O seu prestígio aumentou ainda mais em 1594, quando começou a trabalhar para a companhia de teatro The Lord Chamberlain's Men, que possuía um excelente teatro em Londres. Neste período, o contexto histórico favorecia o desenvolvimento cultural e artístico, pois a Inglaterra vivia os tempos de ouro sob o reinado da rainha Elisabeth I. O teatro deste período, conhecido como teatro elisabetano, foi de grande importância. Escreveu tragédias, dramas históricos e comédias que marcam até os dias de hoje o cenário teatral.
A arte dramática do poeta pode ser dividida em três partes. Na primeira, compreendida entre os anos de 1590 e 1602, Shakespeare escreveu comédias alegres, dramas históricos e tragédias no estilo renascentista. A segunda fase, que vai até 1610, é caracterizada por tragédias grandiosas e comédias amargas, o autor está no seu auge produtivo. A última parte, que vai até a sua morte, é marcada basicamente pelo lançamento de peças que têm o final conciliatório. Sua primeira peça, “Tito Andrônico”, escrita provavelmente em 1590, já revelava alguns dos elementos shakespearianos: o texto era uma tragédia repleta de assassinatos e violações.
Os textos de Shakespeare fizeram e ainda fazem sucesso, pois tratam de temas próprios dos seres humanos, independente do tempo histórico. Amor, relacionamentos afetivos, sentimentos, questões sociais, temas políticos e outros assuntos, relacionados à condição humana, são constantes nas obras deste escritor. Toda a sua obra, escrita em 20 anos, está presente em palcos e telas de todo o mundo. Quase quatro séculos após a sua morte, William Shakespeare é um dos dramaturgos mais encenados no planeta. O autor inglês escreveu cerca de 40 peças, entre tragédias (Otelo, Romeu e Julieta, Rei Lear); dramas históricos (Henrique V, Ricardo III); e comédias (Muito Barulho por Nada, Sonhos de uma Noite de Verão). Shakespeare escreveu também poemas e mais de 150 sonetos que expressam frustração, agitação, masoquismo e homossexualidade.
Antes de Shakespeare, nenhum outro dramaturgo ou poeta havia mostrado a natureza humana em toda a sua complexidade: a paixão de Romeu e Julieta, a sua obra mais conhecida, o ciúme cego de Otelo, a ambição de MacBeth. Shakespeare também deve ser um dos escritores mais citados no mundo. Mesmo quem nunca leu Hamlet certamente conhece a famosa frase: “Ser ou não ser, eis a questão”.
Frequentemente, alguns poucos estudiosos atribuem a Francis Bacon (1561/1626) e a Christopher Marlowe (1564/1593) parte de sua obra. No entanto, os pesquisadores que desconfiam da produção do dramaturgo não conseguiram provar as suas teorias e a densa obra de Skakespeare sobrevive pela excelente qualidade poética. Suas peças aliam uma visão poética e refinada a um forte caráter popular. Nelas, os crimes, os incestos, as violações e as traições são ingredientes para o divertimento do público.
Em 1610 retornou para Stratford, sua cidade natal, local onde escreveu sua última peça, “A Tempestade”, terminada somente em 1613. Em 23 de abril de 1616 faleceu o maior dramaturgo de todos os tempos.
Shakespeare foi um poeta e dramaturgo respeitado em sua própria época, mas sua reputação só viria a atingir o nível em que se encontra hoje no século XIX. Os românticos, especialmente, aclamaram a genialidade de Shakespeare, e os vitorianos idolatraram-no como um herói, com uma reverência que George Bernard Shaw chamava de “bardolatria”. No século XX sua obra foi adotada e redescoberta repetidamente por novos movimentos, tanto na academia e quanto na performance. Suas peças permanecem extremamente populares hoje em dia e são estudadas, encenadas e reinterpretadas constantemente, em diversos contextos culturais e políticos, por todo o mundo.
As peças shakespearianas são peculiares, complexas, misteriosas e com um fundo psicológico espantoso. Uma das qualidades do trabalho de Shakespeare foi justamente sua capacidade de individualizar todos seus personagens, fazendo com que cada um se tornasse facilmente identificado. Shakespeare também era excêntrico e se adaptava a gêneros diferentes. Trabalhando com o sombrio e com o divertido ou cômico, Shakespeare conseguiu chegar perto da unanimidade.
Diversos filósofos e psicanalistas estudaram as obras de Shakespeare e a maioria encontrou uma riqueza psicológica e existencial. Entre eles, Arthur Schopenhauer, Freud e Goethe são os que mais se destacam. No Brasil, Machado de Assis foi muito influenciado pelo dramaturgo. Diversas fontes alegam que Bentinho, de Dom Casmurro, seja a versão tropical de Otelo. A revolta dos canjicas, em O Alienista, é provavelmente uma outra versão da revolta fracassada do Jack Cage, descrita em Henrique IV. Na introdução de A Cartomante, Assis utiliza a frase “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe vossa vã filosofia”, frase que pode ser encontrada em Hamlet.

SHAKESPEARE E A PSICANÁLISE
Desde o início do século XX, os psicanalistas vêm estudando as obras de Shakespeare, a fim de aprofundar sua compreensão do conflito psíquico e suas competências interpretativas. Os pesquisadores em literatura voltaram-se para a psicanálise na esperança de resolverem os problemas que vinham encontrando desde há muito tempo no estudo dos textos de Shakespeare.
Numa carta a seu amigo Wilhelm Fliess (15/out/1897), Sigmund Freud fala pela primeira vez do que ele chamará mais tarde de o complexo de Édipo; depois, muito rapidamente, passa a mostrar como essa noção pode ser utilizada para explicar certos pontos obscuros no “Hamlet”. Freud fazia a ligação, graças à estrutura triangular do complexo de Édipo, entre as hesitações de Hamlet para vingar seu pai, seus debates de consciência, sua hostilidade em relação à Ofélia, a repugnância sexual que lhe causava Gertrude e sua destruição final. “Existem mais coisas entre a terra e o céu, Horácio, do que pode imaginar toda a tua filosofia”: para Ernest Jones, era essa a citação preferida de Freud, entre todas as suas fontes literárias, e a que expunha, segundo o “Hamlet”, a dificuldade de ser.
A natureza do apego de Freud aos textos de Shakespeare encontra-se igualmente nessa cadência especial do texto de seus sonhos, a qual remete para a cadência do discurso de Brutus quando tenta justificar-se no “Júlio César”: “Por ter-me amado César, pranteio-o; por ter sido ele feliz, alegro-me; por ter sido valente, honro-o; mas por ter sido ambicioso, matei-o”. Freud expôs com clareza o conflito inconsciente que tinha fraturado a psique de Lady MacBeth entre sua feminilidade e sua ambição masculina, assim como a técnica de Shakespeare para cindir uma personagem em duas: “Ela torna-se o remorso após o ato, ele (MacBeth) torna-se o desafio”.
Na crítica shakespeariana, após os conhecidos trabalhos de Jekels, Jones, Reik, Sachs e Wangh, entre outros, deparamo-nos com uma proliferação de ensaios que aplicam diversos aspectos da teoria psicanalítica aos textos de Shakespeare: a teoria do sonho, o modelo estrutural, as fantasias incestuosas, as fantasias de cena primitiva e as funções simbolizantes e criativas da própria psique. “Sobre a tendência universal à depreciação da esfera do amor”, de 1912, permitiu discutir os obstáculos ao amor que são regularmente explorados na comédia. “Luto e melancolia”, de 1916/17, incitou à reflexão sobre a ambivalência em relação ao objeto perdido e à depressão grave na tragédia, ou mesmo numa comédia como “Noite de Reis”. “À guisa de introdução ao narcisismo”, de 1914, e a reflexão que se lhe seguiu sobre a estrutura da psique e suas raízes no desenvolvimento infantil influenciaram numerosas interpretações recentes de Shakespeare. “A Negativa”, de 1925, permitiu aos shakespearianos entenderem como a psique se encontra por vezes num impasse quando negocia as suas próprias contradições internas.
Depois de Freud, o “estádio do espelho” de Jacques Lacan, o “objeto transicional” em Donald Winnicott, a “separação/individuação” em Margareth Mahler e a “confiança fundamental” em Erik Erikson desencadearam novas análises das peças de Shakespeare. De todos os textos clássicos dessa crítica psicanalítica, o mais sutil continua sendo o de Ernst Kris, de 1952, o modelo do gênero pelo modo como ele integra em elementos da língua, dos personagens e da intriga os elementos correspondentes da estrutura psíquica. Kris, ao examinar as fontes de uma peça e os diálogos, reconhece o gênio excepcional de Shakespeare e sua notável capacidade para observar os fenômenos sob os ângulos histórico e psicológico.
Mais recentemente, registra-se a influência da psicanálise como em Murray Schwartz, em 1980, que considera ser Shakespeare um dramaturgo “cujas peças e cujos poemas não se contentam em ilustrar sua identidade, mas são, em cada caso, a expressão dinâmica da luta pela recriação e a exploração das origens”. No mesmo espírito, Janet Adelman, em 1992, analisou a identidade masculina e as fantasias do poder materno e do corpo materno na obra de Shakespeare.
A crítica psicanalítica de Shakespeare dominou a aplicação da teoria psicanalítica ao domínio das letras e permitiu articular certo número de debates sobre a psicanálise aplicada. Há os eu são da opinião de que os textos de Shakespeare devem ser analisados com respeito ao gênero, às suas qualidades formais, estéticas, e à sua arte, sem que seja necessário inventar tal ou tal neurose infantil ou efeito do Inconsciente numa personagem, nem fazer a análise selvagem do autor; não se deve ir além do texto. Outros pensam, pelo contrário, que a escrita é um produto da psique humana, cuja criatividade se nutre constantemente do Inconsciente e dos seus desejos. As interpretações psicanalíticas mais fecundas do dramaturgo britânico situam-se, de fato, entre as duas posições, cada vez que fazem do texto prova e árbitro, sem perder de vista uma característica shakespeariana: a ilusão de que o palco é o lugar de expressão de um indivíduo que possui uma vida interior cujos poderes e ações podem escapar-lhe.

A linha da relação entre Shakespeare e a Psicanálise segue as diretrizes do verbete redigido por Margarett Ann Fitzpatrick Hanly, para o DICIONÁRIO INTERNACIONAL DA PSICANÁLISE.