20 de abril de 2013

SOBRE O TEMPO: DOIS BREVES ENSAIOS (Marcos InHauser Soriano)



Viver é pôr vírgulas no tempo, e às vezes um pouco de exclamação.
(FABIO HERRMANN)

Este Artigo apresenta-se, através de dois ensaios, numa reflexão sobre o tempo.
Acredito ser interessante localizar como pano de fundo, espécie de gestalt brincalhona, dois filmes que se puseram a passar em minha cabeça na ocasião desta reflexão: “De Volta Para O Futuro” (Back To The Future – Robert Zemeckis, EUA, 1985) e “Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect – Eric Bress & J. Mackye Gruber, EUA, 2004). Duas ficções-científicas que exploram, para além da deliciosa aventura, a questão do tempo. Tempo que se foi, tempo do vir a ser, tempo que se cria e recria na memória, tempo que se crê num tempo sempre inalcançável, tempo curto, um atemporal Proust “Em Busca Do Tempo Perdido”.

A EUCARISTIA NEURÓTICA
Vamos logo... Vamos nos arrumar direitinho... Vamos que estamos atrasados para a missa de domingo. Na missa de domingo vamos celebrar a morte do Senhor, vamos celebrar a ressurreição do Senhor. Olha mulher, não importa mais o que significa isto... Vamos que já estamos atrasados!!!
Na Umbanda, religião autenticamente da Terra Brasilis, sacrifica-se o animal para que todos os participantes possam ingerir um pedaço da força doada às entidades do centro. Religião que padece de muito preconceito frente à ocidentalidade imperativa das religiões oficiais. O termo “macumba”, por exemplo, encontra-se inserido em várias histórias contadas. Uma dessas histórias diz que o termo tem sua origem em reuniões de afrodescendentes, reuniões festeiras, um tipo de pagode, onde o principal instrumento era uma espécie de reco-reco denominado “macumba”. Distorções que acabam fazendo toda a diferença.
Seguindo as ideias de Freud, em “Totem & Tabu” de 1913, a celebração totêmica foi adquirindo, ao longo do tempo, características de afastar da consciência os resquícios, os ecos, da barbárie cometida contra o Pai Primevo.
Fabio Herrmann, acompanhando a inter-relação entre sintoma, inibição e angústia, apresentada por Freud em 1925/1926, descreve o campo neurótico como sendo composto por dois mundos e dois tempos sobrepostos. Como em nosso calendário, há os dias marcados em preto, os dias reservados ao cotidiano dos homens, ao trabalho, ao lazer, às relações interpessoais, à vida em família; e há os dias marcados em vermelho, reservados aos feriados nacionais e dias santificados, que celebram a convenção das datas, mas sem apreender e relembrar sua verdade histórica. Eis o sentido do sintoma: a celebração do trauma, repetido e repetido e repetido, sem entretanto, se apoderar da história secreta que se encontra apagada no tempo da consciência, coexistindo como pequenos fragmentos, resquícios, ecos, que acabam por denunciar uma forma restrita da atividade mental.
Seria justamente o desvelamento desta história secreta, do sentido secreto que o sintoma denuncia, o trabalho a ser executado na sala de análise – proporcionar, para além da celebração, a possibilidade de comemoração, ou seja, relembrar com, através do campo transferencial depositado na figura do analista. Uma memória conjunta, uma desvelar que tem como característica principal um criar novamente o que foi, numa outra ordem de sentido. Um vir a ser de Proust, que através do cheiro e sabor da “madeleine”, faz surgir uma cidade inteira onde antes o quarto de dormir imperava.
Posto que, seguindo o pensamento de Fabio Herrmann, quem não cria, crê paralisado num tempo que não se fez, que não se faz.


FUTURO DO PRETÉRITO: O ABSURDO, A CURA & A LOUCURA
A Linguagem, tão cara à Psicanálise, é uma das mais absurdas e fantásticas características do humano, que no discurso do sujeito promove infinitas abstrações e revelações de múltiplos sentidos encontradas nos sonhos, atos falhos, lapsos, esquecimentos, representações – como as diversas possibilidades de compreensão do termo “macumba”, no exemplo apresentado acima. A Linguagem, que não é apenas verbal, na Sala de Análise faz surgir nosso objeto de interesse: o Homem Psicanalítico, ser da crise representacional entre Sujeito e Mundo, entre Desejo e Realidade – a busca do Homem-Deus autobastante, o sujeito do Incondicional, em um Mundo que se completa em perfeição narcísica; o encontro de um homem completamente desencontrado, já que a ideia do autobastar-se nunca se deu em tempo algum – é uma ilusão, o Absurdo.
Na Linguagem, o verbo e o tempo verbal é o tempo da ação, o que dá sentido ao sujeito e ao discurso. Na Língua Portuguesa, temos um tempo verbal que beira a irrealidade, o Absurdo: o Futuro do Pretérito – condicional um tanto esquecido, discreto, que aponta e sugere algo de estranho.
O Eu é o representante da tentativa de manutenção de uma forma coesa de discurso. Na Sala de Análise o Eu resiste corajosamente ao apelo gravitacional do Campo Transferêncial, morada do Homem Psicanalítico, que faz rodopiar o que é coeso, em uma loucura compartilhada, promotora de irrupções de desencontro dos sentidos do discurso – ampliação de possíveis.
Como o sonho, sentido do sonhado que surge no instante em que é contado, o tempo verbal da Sala de Análise revela a possibilidade da Cura – mais próxima da Literatura do que do Laboratório Científico – uma Ficção Científica que perpassa certa dose de loucura: lembro-me do que agora estamos a criar, diferente do que fui, e que me possibilita ser outro em meu amanhã, diverso ao destino de meu presente, que me impõe ser isto que já não sou mais. Futuro do Pretérito.
Poder-se-ia pensar na Cura como o atingir o Incondicional, o Absoluto; mas o Homem é, por natureza, incompleto de si. Não tenhamos tanta pretensão, fiquemos na loucura do Futuro do Pretérito.
A Cura, como adaptação do sujeito na experiência de experimentar-se.

OBSERVAÇÃO
Utilizei como referencial para este Artigo, a exaustiva, entretanto brilhante, apresentação de Leda Herrmann sobre os pensamentos de Fabio Herrmann - HERRMANN, LEDA (2007) Andaimes do Real: A Construção de um Pensamento. São Paulo: Casa do Psicólogo.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.