16 de agosto de 2013

A NEGATIVIDADE DO ATO COMO RESISTÊNCIA AOS IMPERATIVOS DE GOZO DA SOCIEDADE CAPITALISTA (Milena Maria Sarti)


O que o reclamão ainda não percebeu
é que ele está inteiramente apegado a situações
que possam legitimar as suas infindáveis reclamações.
(Ricardo Coimbra)



INTRODUÇÃO
Pretendo discorrer sobre a atualidade do conceito de “política da negatividade do ato” ou “política Bartleby”, tal como elaborado por Zizek na obra “A visão em paralaxe” de 2006 (2008), em referência à personagem Bartleby do conto “Bartleby: o escriturário (uma história de Wall Street)” de Melville ([1853] 2008), cuja fala emblemática é “I would prefer not to (do)”.
Proponho com isso elaborar a forma pela qual a ética do fracasso ou a ontologia negativa em psicanálise lacaniana emerge como um grito do real frente aos imperativos de gozo que organizam a sociedade capitalista, uma vez que para a psicanálise o sujeito do desejo contém algo que vai além do princípio de identidade, ou do lugar oferecido a ele pelo simbólico. Esse algo a mais marca a existência contraditória do sujeito por uma espécie de “tudo é e não é”, pois embora o discurso capitalista dê como certa, positiva a possibilidade de gozar - o que torna a falta ou o “não é” um dolo que exige reparação -, no que se refere ao desejo, esse objeto é inexistente, é um não-objeto. Dessa forma, o desejo é um “lugar” que só pode aparecer como irredutivelmente negativo no sujeito, escapando sempre das posições de identidade, identificação social, reconhecimento intersubjetivo e auto apreensão reflexiva. A abertura dessa negatividade é onde o ato singular e o político devem ser resgatados, na medida em que marca o sujeito por uma inadequação/resistência ao que se pretende universalmente compartilhado e naturalizado na sociedade capitalista. Operando com o conceito da negação como ato singular e político buscamos também colocar em xeque a racionalidade social marcada pela submissão a significantes como auto empreendedorismo, atividade e participação sociais discutindo que o resgate das categorias de impossível e de contingente inerentes ao real corresponde a devolver ao sujeito e à história o potencial para acontecimentos, estes sim potencialmente revolucionários.

A RELEITURA: O VALOR SINGULAR E POLÍTICO DE BARTLEBY
O conto de Herman Melville surge pela voz de seu narrador, um advogado, tentando a custo compreender a estranha psicologia de Bartleby, o Escriturário. Melville compõe uma imagem fabulosa do cotidiano num escritório de advocacia: o advogado dispõe de dois escriturários encarregados de ‘copiar e colar’ as leis e toda a rotina resume-se a escrever documentos, e depois comparar aos originais. Estes copistas colaboram no escritório alternando dois estados típicos de humor: durante a manhã, um está bem, enquanto o outro está mal, e de tarde vice-versa, num ciclo de repetições que configuram um ritmo às cenas de fúria no escritório. É a história do advogado, que apresenta-se como ‘um homem já de certa idade’, com uma vida comprometida com as leis, com a racionalidade em geral, mas que, levado pelas circunstâncias em seus negócios, precisava de um novo escriturário, e assim contratou rapidamente Bartleby, mesmo que sem qualquer ‘referência’, julgando pela aparência tratar-se simplesmente de um homem pobre e tranquilo, que talvez fosse benéfico para acalmar o humor terrível dos seus outros copistas. Alojou-o em sua sala, atrás de um biombo e de frente para uma janela sem vistas [parede de tijolos], estrategicamente próximo para ser solicitado, no caso de pequenas necessidades [longe da visão, mas ao alcance da voz]” (SARTI, F. 2012).
Bartleby aqui aparece caracterizado pelo narrador-personagem como um homem de confiança, que permaneceria atrás do biombo copiando avidamente e não se negaria a atender a nenhuma de suas solicitações para a prestação de outros pequenos serviços: copiando sem ser visto e escutando em espera, “[...] sem voz e sem visão, oculto atrás do biombo em frente à janela e não mais que alguns metros distante; o trabalho vai muito bem durante uns três dias, até quando nosso caso começa” (SARTI, F. 2012).
Nessa caracterização vemos que Bartleby é convocado a identificar-se como um homem de confiança (o que deixa supor algum pacto tácito e compartilhado, que não conta com imprevistos), pronto a atender às demandas do advogado, à imagem e semelhança dos outros copistas e de suas funções (“copiar e colar”) no escritório. Aí Bartleby, ele mesmo, deveria responder a essa demanda imaginária assumindo o lugar e a função oferecidos a ele, ou seja, formando-se ele mesmo como cópia fidedigna da imagem da demanda dessa ordem simbólica, representada pelo discurso do advogado. Como sabemos pela Psicanálise, o sujeito é, ao mesmo tempo, sujeito do significante e sujeito do real. Isso significa afirmar que o sujeito do desejo contém algo que vai além do princípio de identidade, ou do lugar oferecido a ele pelo simbólico (SAFATLE, 2005). Logo, segundo essa ontologia negativa do sujeito em psicanálise, há uma recusa de um vínculo ontológico entre sujeito e princípio de identidade (SAFATLE, 2005) que veremos ser experimentada por Bartleby. 
Na sequência da obra, a imagem de uma plena identificação de Bartleby à demanda do advogado que, podemos entender operar como porta-voz dos mandatos do significante-mestre, é destruída por um acontecimento discursivo que desencadeia em múltiplas consequências: “pela primeira vez, o advogado solicita a Bartleby que o ajude numa comparação, com a ‘natural expectativa de ser atendido’, estendendo nervosamente as cópias, para que ele ressurgisse do seu isolamento e começasse a trabalhar, sem demora. Entretanto, Bartleby lhe responde sem se mover de seu lugar: ‘Prefiro não fazer’” (SARTI, F., 2012, grifo nosso). O advogado reduzido ao silêncio diante da irracionalidade dessa recusa de Bartleby em copiar-se e colar-se à imagem da demanda de ação, à imagem de cumprimento de um dever “usual e de bom senso”, pensa ter se enganado e repete a incitação/solicitação, obtendo a mesma resposta de forma tranquila e despreocupada de Bartleby: “Prefiro não fazer”. Segue-se a passagem:
Nem uma nesga de preocupação o afetava. Se houvesse o menor sinal de inquietação, raiva, impaciência ou impertinência em suas maneiras; noutras palavras, se houvesse qualquer coisa de ordinariamente humana a respeito dele, não havia dúvidas de que eu deveria tê-lo expulsado do escritório violentamente. (MELVILLE, [1853] 2008, p.31, grifo nosso)

Denotamos aqui que a tradução do inglês “I would prefer not to (do)” perdeu um elemento essencial para que possamos apreender a afirmação da negação de Bartleby como uma alegoria do que é o desejo em psicanálise, a saber, um lugar irredutivelmente negativo do sujeito. A partícula “to” do inglês cria uma zona de indeterminação entre o que seria preferido e o que seria recusado por Bartleby, o que interpretamos como materialização da universalidade da inadequação do desejo a qualquer positividade ou racionalidade, ou seja, a qualquer rede de determinações positivas. A irracionalidade de Bartleby rompe com a racionalidade que dá ancoragem ao advogado solapando os modelos de identificação adequados à demanda, ou seja, fazendo surgir o desejo no que ele sempre escapa à demanda, no que ele tem de Real, de vazio, de não-objeto.
Não há realidade senão do discurso, logo o discurso que organiza o microcosmo do escritório, que tomamos aqui como alegoria do discurso que organiza uma determinada racionalidade social, opera segundo uma rede de evidências diante da qual todos devem se inclinar, alguma coisa com a qual todos deveriam concordar numa espécie de universalização do sujeito do desejo, por sua vez, produtora de subjetividades que fazem funcionar um “para todos”, uma organização social do desejo e seus modos de gozar (formas de vida e critérios de ação). Mas, como pontua Soler, isso só pode funcionar ao preço de uma exclusão, a saber, a exclusão do que é impossível de se universalizar (SOLER, 1998), ou seja, a exclusão da parte Real do sujeito, da parte que marca a inadequação radical do desejo às demandas de um discurso e seus modelos de identificação.
Com efeito, a fórmula de Bartleby extrai todo seu vigor de grito do real ecoando por de trás do biombo da fantasia ideológica em sua “objetividade fantasmática” (SAFLATLE, 2008): ela rompe com os pressupostos da linguagem a partir dos quais os discursos são formulados como auto evidentes.  Nesse sentido, podemos dizer que Bartleby se utiliza do verbo “preferir” de modo que este negue-se a si mesmo, ou seja, o preferir não se refere a algo que se escolhe, entre uma coisa e outra, mas à escolha pelo nada, pelo vazio do desejo: “eu preferiria nada a algo” (DELEUZE, 1997) pode representar aí a função pura do desejo como “desejo de nada de nomeável” (SAFATLE, 2005). Isso pode ser entendido como uma resistência do sujeito do desejo (valor singular e político) frente aos imperativos de gozo que organizam “o novo espírito do capitalismo”.

POR UMA POLÍTICA BARTLEBY FRENTE AO NOVO ESPÍRITO DO CAPITALISMO
Na passagem da sociedade de produtores para a sociedade de consumo, o discurso da mercadoria assumiu às vezes de organizador da demanda e dos modelos de identificação sociais procurando coletivizar o sujeito do desejo segundo o imperativo “Todo desejo deve encontrar seu objeto” (DUFOUR, 2005). Isso criou uma “objetividade fantasmática” (SAFATLE, 2008) - realidade ideológica - produtora de subjetividades para as quais os objetos de consumo adquiriram o peso universal de “objetos irrecusáveis do desejo” (KEHL, 2008) com valor e significação de gozo garantidos pelo discurso do Outro (mercado): a possibilidade de gozar assim transmitida como certa, e sobretudo, feita obrigatória, além de fazer da falta um dolo que exige reparação, incitou os sujeitos, identificados como consumidores, à realização da tarefa falaciosa de apenas ter que procurar/escolher por sua felicidade de preferência dentre as opções disponíveis no “mercado de gozo” (LACAN, [1968/69] 2008). Aí o discurso de Bartleby ecoa subversivo como “manifestação da resistência do sujeito aos processos de instrumentalização social do gozo” (SAFATLE, 2003), operando como porta voz do que é impossível de se universalizar, e consequentemente, de se governar pelo espaço político: o vazio do desejo ou a parte Real do sujeito que se manifesta na expressão “Prefiro nada a algo” faz surgir de trás do biombo o impossível de se cumprir, algo da ordem de um reconhecimento do desejo em sua verdade pela via da indiferença aos objetos empíricos, o que faz aparecer os vestígios da impossibilidade de totalização do laço social que a fantasia ideológica procura apagar/conter.
Em outras palavras, Bartleby age como um louco ou um doente ou um inventor de novas coordenadas lógicas. Contradizendo o imperativo GOZA!, sua fórmula irracional assume a um só tempo o impossível de se universalizar e o contingente de um “tudo é e não é” (ROSA, [1956] 2005) no que se refere ao desejo: diante da inadequação radical do desejo aos objetos do mundo ou da “irremediável insuficiência do sujeito do desejo” (KEHL, 2009), que fará o vazio sempre persistir como mola propulsora (trazendo a injunção a uma administração política dessa insatisfação), “eu prefiro nada a algo”, prefiro manter o espaço vazio a “ceder de [meu] desejo” (LACAN, [1959/60] 1991) colando-o e copiando-o à imagem da ilusão compartilhada de preenchimento dada pelo consumo, ou por qualquer outro conteúdo ou realidade positivas determinadas.
Como é sinalizado no início da obra de Melville, Bartleby aparece como um escriturário ou copista sobre o qual “nada é passível de confirmação”. Bartleby não é razoável ou racionalizável pelas usuais coordenadas lógicas, é um original, e não uma cópia, como afirma Sarti(2012); ele não aceita os clichês ou as alternativas lógicas que lhe são oferecidas para ser, nem tampouco alguma função social. Daí Zizek concluir sua “política Bartleby” ou política da negatividade do ato para os tempos atuais: “Contra uma política da identidade, uma política da universalidade da inadequação” (SAFATLE, 2003, p. 184). Segue-se o trecho de Melville: “Nada irrita mais um homem sério do que uma resistência passiva”. Segundo Zizek (2008, p. 437):
É melhor não fazer nada do que participar de atos localizados cuja principal função é fazer o sistema funcionar mais azeitado (atos como dar espaço à miríade de novas subjetividades etc.) Hoje a ameaça não é a passividade, mas a pseudo-atividade, a ânsia de ser “ativo”, e “participar”, de mascarar a Nulidade do que acontece. Todos intervêm o tempo todo, “fazem alguma coisa”, os acadêmicos participam de debates sem sentido e assim por diante, mas a verdadeira dificuldade é dar um passo atrás, é se afastar disso tudo. Os que estão no poder muitas vezes preferem até a participação “crítica”, o diálogo, ao silêncio – só para nos envolver num “diálogo”, para garantir o rompimento de nossa agourenta passividade.

A miríade de discursos anticapitalistas, antineoliberalismo, anti isso, anti aquilo, ou pró isso, pró aquilo..., revela uma exigência revolucionária, algo constante girando em torno não do que é, mas do que poderia ser. Tudo isso é falsamente revolucionário para Zizek, para quem a verdadeira vontade revolucionária surge como um “não posso agir de outro modo”, um “impossível não fazer” ou não tem valor, i.e., um ato revolucionário é aquele que não presta conta a nada, não se endereça, não tem garantias, fiadores que os legitimem como contra-hegemônicos,  nem, tampouco, é o que possui ideais a serem atingidos, oferecendo apenas abertura lógica a novas coordenadas simbólicas que formariam uma outra organização social da ilusão, por retroação ao ato. Pontuamos que a revolução feita exigência ou obrigação moral, i.e., feita decalque do imperativo categórico consumista de procura e certeza de encontrar o objeto ideal para si, faz com que devamos ser críticos, devamos fazer algo, propor algo, ser algo novo e a mais sempre, numa “tirania da escolha que não deveria nos enganar, pois trata-se de seu verdadeiro oposto: da ausência da escolha real quanto à estrutura fundamental da sociedade” (ZIZEK, 2008, p. 455).
O que nos faz retornar a Bartleby e sua enlouquecedora resistência passiva como gesto exemplar de resistência singular e política adequada para os tempos atuais. Segundo Zizek (2008, p. 448), ao contrário da “passividade agressiva” que marca o modo comum de atividade e participação na vida sócio-ideológica atual, em que ficamos o tempo todo ativos e pró-ativos para garantir que nada aconteça, para que nada mude de verdade, o ato negativo de Bartleby seria um “recuo para a passividade”, um recusar-se a participar da festa, da ordem caótica do poder e do “serviço dos bens” (LACAN, [1959/60] 1991), para a qual somos perenemente “convidados”, ao modo da proposta irrecusável do Poderoso Chefão (escolha forçada). Nesse sentido, Bartleby parece-nos informar o caminho para um ponto de parada ou recuo no qual a insustentável leveza do ser, de que fala Milan Kundera (1985), pode ser comparada ao desejo em estado puro, aquele que se sustenta sem endereçamento, “como uma tendência desprovida de objeto” (SAFATLE, 2005). Isso perturba a fantasia ideológica que dá o peso do ser, faz barra a sua valoração e significação sociais, ou seja, evidencia o colapso ou o fracasso da ordem simbólica em ser total.
Ao final da obra de Melville, Bartleby é expulso do escritório que ocupava e enclausurado na prisão onde morre. Segue o único relato que o narrador-personagem nos fornece acerca da possível história pregressa de Bartleby: “ele seria ex-funcionário na ‘Seção de Cartas Extraviadas’, e o advogado pergunta, em meio a uma grande emoção, se isto não se parece com ‘homens extraviados’” (SARTI, F., 2012).
Pense em um homem cuja natureza ou má-sorte fizeram tender a uma pálida desesperança – pode qualquer trabalho parecer mais adequado para aumentar essa desesperança que lidar continuamente com cartas extraviadas e classificá-las para as chamas? Porque elas são incineradas anualmente em abundância. Algumas vezes, o pálido funcionário achava um anel dentro do papel dobrado – e o dedo a que se destinava, talvez, esteja apodrecendo debaixo da terra; uma nota bancária enviada numa rápida caridade – aquele a quem iria aliviar já não come ou passa fome; perdão para aqueles que morreram em desespero; boas novas para os que morreram sem assistência na calamidade. Com mensagens de vida, essas cartas correm até a morte. Oh, Bartleby! Oh, humanidade! (MELVILLE, [1853] 2008, p.88)

Concluímos que, embora a mensagem de vida de Bartleby caminhe para a morte, seja condenada ao extravio - pois o sujeito em sua existência contraditória entre submissão (sujeito do significante) e objeção (sujeito do real) tem como condição a inscrição em determinadas coordenadas simbólico-políticas - a política Bartleby -, a política da negatividade do ato, ou a política da universalidade da inadequação de Zizek, seja lá como prefiram chamá-la, evidencia um ato que faz o retorno daquilo, da impossibilidade, enquanto o que “precisa ser excluído da realidade para que a própria realidade se mostre consistente” (KYRILLOS NETO; MOREIRA, 2009). Isso deixa de reproduzir os modelos de identificação estabilizados, o “encaixe” na demanda tornando impossível a continuidade do discurso: Bartleby está em suspenso, leve, experimentando uma “destituição subjetiva” (SAFATLE, 2005) ou um “grau zero de subjetivação” (SARTI, F., 2012). Expressando um desejo em estado puro que não afirma nem nega nada, é vazio e em língua original, Bartleby torna potencial uma nova escritura, uma nova reordenação das coordenadas simbólicas que deverão ser engajadas de forma retroativa a seu ato revolucionário. Segundo Kyrilos Neto e Moreira (2009, p.411):
Ao contrário das ações correntes, um ato se situa sempre além do bem e do mal ou, mais precisamente, reconfigura aquilo que se entende por bem e mal. Do ponto de vista subjetivo, um ato ocorre quando o sujeito aceita perder a si mesmo e põe em questão aquilo que, a seu ver, o define, experimentando uma destituição subjetiva. No plano político, um ato ocorre quando alguém assume o risco de agir sem garantias, engajando-se numa aposta de que o ato em si há de criar as condições para sua própria legitimação democrática “retroativa”: é o que se chama revolução. O ato revela a inexistência do Outro, ou seja, de toda instância capaz de garantir nossos atos e fundar nossa vida. O resultado dessa aposta é um salto no abismo, único sentido válido para a palavra liberdade.

CONSIDERAÇÃO FINAL
O reconhecimento do vazio do desejo implicado no ato negativo de Bartleby, que como vimos faz o resgate das categorias de impossível e contingente do real, devolveria ao sujeito e à história o potencial para acontecimentos singulares e políticos verdadeiramente revolucionários. A saída do discurso do capitalista, atualmente regido por significantes como (auto)-empreendedorismo, participação e atividades sociais, assim pensada pela via da psicanálise, anuncia que a saída sempre esteve aí, como no clássico filme “Anjo Exterminador” de Buñuel, bastando que pensemos contra nós mesmos de forma a assumir a contingência e reconhecer o vazio, a lacuna em torno da qual se erguem as posições de identidade, identificação social, reconhecimento intersubjetivo e auto apreensão reflexiva. Essa seria uma aposta sem garantias na invenção de uma atual e verdadeira tinta vermelha, ou seja, da inscrição no discurso político da liberdade - inventar um lugar de linguagem para falar da falta de liberdade, como, de forma violentamente silenciosa, fez Bartleby ao profanar o preferir com o “preferir nada”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, G. (1997) Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34.
DUFOUR, D.–R. (2005) A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Cia de Freud.
KEHL, M. R. (2008) “Publicidade, perversões e fobias” in Ide: psicanálise e cultura. São Paulo, vol. 1, nº 1, pp. 27-38.
KEHL, M. R. (2009) O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.
KUNDERA, M. (1985) A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Nova fronteira.
KYRILLOS NETO, F. & MOREIRA, J. O. (2009) “Psicanálise e política: conexões” in Psicol. Clin., vol. 21, nº 2, pp. 397-414.
LACAN, J. (1959/1960) O seminário, Livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
LACAN, J. (1969) O seminário, Livro 16: De um outro ao Outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
MELVILLE, H. (1853) Bartleby, o escriturário - uma história de Wall Street. Porto Alegre: LP&M, 2008.
ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
SAFATLE, V. “Posfácio: a política do real em Slavoj Zizek” in ZIZEK, S. (2003) Bem vindo ao deserto do real!. São Paulo: Boitempo. - (Estado de sítio).
SAFATLE, V. (2005) “Uma clínica do sensível: a respeito da relação entre destituição subjetiva e primado do objeto” in Interações, v. 10, nº19, pp. 123-150, jan./jun.
SAFATLE, V. (2008) Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo. - (Estado de sítio).
SARTI, F. (2012) O empirismo transcendental de Gilles Deleuze para análise dos fundamentos da Psicologia. Primeiro relatório Científico FAPESP – Tese de doutorado em andamento. FFCLRP-USP.
SOLER, C. (1998) A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa livraria.
ZIZEK, S. (2008) A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo.

MILENA MARIA SARTI é Professora Doutora na UNIP (Universidade Paulista) de São Paulo, SP.
Email: misarti@hotmail.com

8 de agosto de 2013

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SANDOR FERENCZI


SANDOR FERENCZI, psiquiatra e psicanalista húngaro, nascido em Miskolc, em 07 de julho de 1873, vindo a falecer em Budapeste, em 22 de maio de 1933, foi o oitavo filho de Bernat Ferenczi e Rosa Eibenschütz – que teriam doze filhos.
Um dos mais íntimos colaboradores de Freud, originário de uma família de judeus poloneses imigrantes, Sandor Ferenczi foi não só o discípulo preferido de Sigmund Freud, mas também o clínico mais talentoso da história do freudismo. Foi através dele que a escola húngara de psicanálise, da qual foi o primeiro animador, produziu uma prestigiosa filiação de artífices do movimento, entre os quais Melanie Klein, Geza Roheim e Michael Balint. A obra escrita de Ferenczi é composta de numerosos artigos, redigidos em estilo inventivo e sempre ligados à realidade. Grande escritor de cartas, Ferenczi também foi autor de um Diário Clínico, publicado em 1969. Um ano antes de sua morte, havia registrado vários relatos de casos, muitas inovações, assim como as críticas que dirigia ao dogmatismo psicanalítico.
O pai de Ferenczi, falecido em 1888, era um simpático livreiro, que se empenhava com fervor na revolução de 1848 antes de se tornar editor militante, favorável à causa do renascimento húngaro. Assim, mudara seu nome, de sonoridade alemã (Baruch Fraenkel), para um patronímico magiar (Bernat Ferenczi). Deu ao filho predileto, uma educação em que prevaleciam o culto da liberdade e um gosto acentuado pela literatura e pela filosofia.
Optando pela carreira médica (formado em 1894, em Viena), o jovem Ferenczi, que já se interessava pelos fenômenos psíquicos e pela hipnose, trabalhou no Hospital Saint Roch, onde quarenta anos antes, outro grande médico húngaro, Philippe Ignace Semmelweis (1818-1865), tentou fazer com que o caráter infeccioso da febre puerperal, que descobrira, fosse reconhecido. Como seu ilustre antecessor, Ferenczi logo se mostrou adepto da medicina social, se tornando médico assistente no asilo de pobres e prostitutas. Sempre pronto a ajudar os oprimidos, a escutar os problemas das mulheres e a socorrer os excluídos e marginais, tomou, em 1906, a defesa dos homossexuais em um texto corajoso apresentado à Associação Médica de Budapeste. Atacava os preconceitos reacionários da classe dominante, que tendia a designar aqueles que se chamavam uranianos como degenerados responsáveis pela desordem social.
Entre 1899 e 1908, escreve inúmeros artigos pré-psicanalíticos, dentre eles, “Espiritismo”, dedicado à telepatia. Em 1900, Ferenczi estabelece-se como neurologista.

Esse era o homem que, depois de ler com entusiasmo A Interpretação Dos Sonhos, visitou Freud em fevereiro de 1908, acompanhado do seu colega e amigo Fulop Stein (1867-1917). Este o iniciou no teste de associação verbal, elaborado por Carl Gustav Jung. A partir desse dia, durante um quarto de século, Ferenczi trocaria com o mestre de Viena mil e duzentas cartas. Um verdadeiro tesouro de invenção teórica e clínica, com algumas confidências pessoais com aquele que se tornaria seu analista, mestre e íntimo amigo. Dono de uma curiosidade insaciável, Ferenczi se interessou, durante toda a vida, por múltiplas formas de pensamento, das mais eruditas às mais irracionais. Freud o chamava o seu “Paladino”, ou seu “Grão-vizir Secreto”. E Ferenczi gostava de se apresentar nos meios analíticos como “um astrólogo da corte”.
Em 1908 Ferenczi já participou do I Congresso de Psicanálise em Salzburgo e fez uma conferência sobre “Psicanálise e Pedagogia”, começando a praticar a psicanálise em Budapeste e realizando conferências de divulgação para médicos.
Partindo de um combate contra o niilismo terapêutico, Freud elaborou uma teoria da neurose e da psicose que superava amplamente os limites da clínica. Sempre consciente de seu próprio gênio e da importância de sua descoberta, sabia dominar seus afetos e mostrar-se implacável para com seus adversários. Acima de tudo, amava a razão, a lógica, as construções doutrinárias. Mais intuitivo, mais sensual e mais feminino, Ferenczi procurava na psicanálise os meios de aliviar o sofrimento dos pacientes. Era pois menos atraído pelas grandes hipóteses genéricas do que pelas questões técnicas. Assim, era mais inventivo que Freud na análise das relações com o outro. Em 1908, descobriu a existência da contratransferência, explicando a seu interlocutor sua tendência em considerar os assuntos do paciente como seus próprios. Dois anos depois, Freud conceitualizou essa noção, fazendo dela um elemento essencial na situação analítica. Entre ambos, portanto, o intercâmbio epistolar teve como função fazer surgir novas problemáticas, que serviam depois para alimentar a doutrina comum.

Como muitos pioneiros do freudismo, Ferenczi experimentou em si mesmo os efeitos de suas descobertas. Em 1904, tornou-se companheiro de Gizella Palos, oito anos mais velha que ele. Essa ligação era tolerada pelo marido desta, que entretanto lhe recusava o divórcio. Gizella vivia com suas duas filhas, Magda, casada com o irmão mais novo de Ferenczi, e Elma, nascida em 1887. Não só Ferenczi tornou-se, em 1908, analista de sua amante, como também não hesitou em tratar de Elma quando esta apresentou sintomas de depressão três anos depois.
Inutilmente Freud o advertiu contra os perigos de uma prática como essa. Implicado em uma espécie de autoanálise epistolar, ele procurava desafiar Freud, pedindo-lhe que o reconhecesse como um pai reconhece um filho, dando-lhe a entender ao mesmo tempo em que podia perfeitamente passar sem ele. Em novembro de 1911, depois do suicídio com arma de fogo do noivo de Elma, anunciou a Freud que estava apaixonado pela jovem. Disse que não sentia mais desejo sexual por Gizella, muito idosa, e queria fazer com que ela ocupasse uma posição de sogra, fundando uma família com sua filha. Na verdade, queria ficar com as duas. Logo, anunciou sua intenção de se casar com Elma.
Finalmente, percebeu que se envolvera em uma confusão transferencial e desistiu de desposar a jovem, junto a quem ocupou uma posição de médico e de analista. Mas, não podendo conduzir adequadamente o tratamento, obrigou Freud a analisar Elma e depois se fez analisar em três ocasiões pelo mestre, entre 1914 e 1916. Este agiu então como um pai autoritário, obrigando Ferenczi a casar-se com Gizella e a renunciar a Elma. Assim, acreditava confirmar a tese anunciada em Totem e Tabu em 1912, segundo a qual o desejo de incesto é inerente ao homem e só um interdito, formulado como uma lei, pode afastá-lo dele. Em 1919, Ferenczi casa-se com Gizella – o casal não teve filhos.
Se Freud se comportava à maneira dos famosos “casamenteiros” das histórias judaicas, Ferenczi tinha a impressão de ter sido despojado, por essa análise, de suas paixões e seus desejos. Em suma, aceitou pesarosamente ter sido “normalizado” por Freud: “Eu disse a Gizella que me tornara outro homem, menos interessante e mais normal. Confessei-lhe também que alguma coisa em mim lamenta o homem de antes, um pouco instável, mas tão capaz de grandes entusiasmos (e na verdade, muitas vezes inutilmente deprimido)”.
Assim, vemos como atuaram, nas relações entre Freud e Ferenczi, todas as contradições do tratamento psicanalítico que leva um sujeito a passar de um estado infantil para a idade adulta, da desrazão para a razão, da onipotência ilusória para a sabedoria, do gozo para o verdadeiro desejo. Mas arriscando-se a que essa perda, longe de ser benéfica e fonte de uma nova paixão, não seja nada mais do que a expressão da vontade normalizadora do analista e, além deste, da sociedade na qual ele vive. De qualquer forma, o episódio dessa confusão familiar e transferencial pode ser compreendido como a matriz de todas as reflexões posteriores sobre o estatuto incerto do tratamento psicanalítico, oscilando sempre entre um excesso de conformismo adaptador, que seria denunciado por Ferenczi e seus partidários, e a ausência de lei, contra a qual reagiriam os herdeiros ortodoxos de Freud.

Ao mesmo tempo em que prosseguia sua análise com Freud, Ferenczi se devotava de corpo e alma à “causa” freudiana. Em 1909, com Jung, acompanhou Freud na célebre viagem aos Estados Unidos, e publicou seu primeiro grande trabalho teórico, “Transferência e Introjeção” (onde introduz o termo “introjeção”, retomado por Freud posteriormente). Um anos depois, viajou com ele para a Itália, passando por Florença, Roma, Palermo e Siracusa. No mesmo ano, fundou a International Psychoanalytical Association (IPA). Enfim, em 1912, criou a Sociedade Psicanalítica de Budapeste, com Sandor Rado, Istvan Holos e Ignotus, além de publicar “O Conceito de Introjeção”. A partir de 1919, viriam Geza Roheim, René Spitz, Imre Hermann e Eugénie Sokolnicka.
Em 1913, publica o caso clínico “O Pequeno Homem-Galo”, além de redigir uma crítica de “Metamorfoses e Símbolos da Libido”, de Jung, expondo publicamente sua posição ao lado de Freud no tocando ao conflito entre Freud e Jung.
Membro do Comitê Secreto a partir de 1913, participou de todas as atividades de direção do movimento freudiano, formando com Otto Rank e Freud um polo “sulista” e austro-húngaro, diante das iniciativas mais rígidas e burocráticas dos discípulos vindos do norte da Europa: Karl Abraham, Ernest Jones e Max Eitingon. Foi nesse período que se desenrolou o grande debate sobre a telepatia, em torno do qual se cristalizaram os conflitos entre Jones, partidário de uma psicanálise racionalista empírica, e Ferenczi, muito mais aberto a experiências julgadas desviantes, irracionais ou extravagantes por seu adversário.
Em 1914, Ferenczi analisou duas grandes figuras do movimento psicanalítico: Geza Roheim e Melanie Klein. Analisou também Ernest Jones – análise marcada, obviamente, pela ambivalência.
Em 1918, é eleito presidente da IPA.

A derrota dos impérios centrais anunciou a insurreição húngara. Em março de 1919, Bela Kun proclamou a República dos Conselhos, enquanto em Budapeste era criada, pela primeira vez no mundo, uma cátedra de ensino da psicanálise na universidade. Ferenczi foi, naturalmente, nomeado para esse posto. Mas, quatro meses depois, a Comuna foi reprimida com sangue pelas tropas do almirante Miklos Horthy. A Hungria caiu então sob o jugo de outra ditadura, e os brilhantes representantes da escola húngara de psicanálise, florão do movimento, começaram a emigrar. Berlim tornou-se então o centro nevrálgico do movimento freudiano: efetivamente, foi nessa época que se fundou o Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI).

A partir de 1919, como Rank, Ferenczi se empenhou na reforma completa da técnica psicanalítica. Inventou primeiro a técnica ativa, que consiste em intervir diretamente no tratamento, através de gestos de ternura e afeto, e depois a análise mútua, durante a qual o analisando é convidado a “dirigir” o tratamento ao mesmo tempo em que o terapeuta, antes de reatar com a teoria do trauma, denunciando a hipocrisia da corporação analítica em um texto famoso de 1932, intitulado “Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança”. Através dessa exposição, que suscitou a oposição de Jones e de Freud, relançava todo o debate sobre a teoria da sedução.
De 1919 a 1924, Ferenczi publica vários textos. Entre eles: “A Técnica Psicanalítica” (1919); “Prolongamentos da Técnica Ativa em Psicanálise” (1921); “O Sonho do Bebê Sábio” (1923); “Perspectivas da Psicanálise” (1924, com Otto Rank).
Em 1921, Ferenczi conhece Groddeck, que seria seu amigo por toda a vida.
Em 1926, fez uma viagem de conferências pelos Estados Unidos, onde alguns terapeutas, como Clara Thompson (1893-1958), grande amiga de Harry Stack Sullivan, o reconheceram logo como um clínico genial.
Foi em 1924 que Ferenczi publicou Thalassa: Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade, obra próxima da de Rank, sobre o trauma do nascimento. Nos dois textos, desenha-se o abandono da tese da prioridade do pai em prol de uma pesquisa sobre as origens do vínculo arcaico da criança com a mãe, tema trabalhado por Melanie Klein na mesma época. Ao contrário dos kleinianos, Ferenczi se situava no terreno do evolucionismo darwiniano. Afirmava que a vida intrauterina reproduzia a existência dos organismos primitivos que viviam no oceano. Segundo ele, o homem teria a nostalgia do seio da mãe, mas também procuraria regredir ao estado fetal nas profundezas marítimas. Essa abordagem da psicanálise através da metáfora da cripta e das profundezas era acompanhada de inovações técnicas. Se a sessão analítica repetia uma sequência da história individual e se, aliás, a ontogênese recapitulava a filogênese, a reflexão sobre a própria sessão conduzia naturalmente à pergunta: qual o estado traumático que a ontogênese repete simbolicamente?

Duramente contestado por suas teses e suas inovações pelos partidários da ortodoxia, Ferenczi não deixaria o regaço freudiano como Rank. Jones, entretanto, o chamaria de psicótico: “Ferenczi sempre acreditou firmemente na telepatia. Depois, foram os delírios sobre a pretensa hostilidade de Freud. No fim, apareceu uma violenta paranoia, acompanhada até de explosões homicidas. Foi o fim trágico de uma personalidade brilhante”. Na verdade, Ferenczi morreu em consequência de problemas respiratórios, em decorrência de uma anemia perniciosa. Freud lhe prestou uma vibrante homenagem, mas enfatizando a excessiva importância que assumira, a seus olhos, o desejo de curar: “Ao voltar de uma temporada de trabalho na América, ele pareceu isolar-se cada vez mais em um trabalho solitário. Soubemos que um único problema monopolizava o seu interesse. A necessidade de curar e de ajudar nele se tornara avassaladora”.
Foi na França e na Suíça que a obra de Ferenczi foi particularmente apreciada, graças à sua tradutora Judith Dupont, sobrinha de Alice Balint (1898-1939), e a André Haynal, responsável em Genebra pelos arquivos de Michael Balint.
Dentre suas publicações, destacam-se: “Contraindicações da Técnica Ativa” (1926); “Fantasias Gulliverianas” (1926); “O Filho Mal Recebido e sua Pulsão de Morte” (1929); “Princípio de Relaxamento e Neocatarse” (1930); “Análises de Crianças e Adultos” (1931).


Este Artigo segue as diretrizes biográficas do verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE.