16 de agosto de 2013

A NEGATIVIDADE DO ATO COMO RESISTÊNCIA AOS IMPERATIVOS DE GOZO DA SOCIEDADE CAPITALISTA (Milena Maria Sarti)


O que o reclamão ainda não percebeu
é que ele está inteiramente apegado a situações
que possam legitimar as suas infindáveis reclamações.
(Ricardo Coimbra)



INTRODUÇÃO
Pretendo discorrer sobre a atualidade do conceito de “política da negatividade do ato” ou “política Bartleby”, tal como elaborado por Zizek na obra “A visão em paralaxe” de 2006 (2008), em referência à personagem Bartleby do conto “Bartleby: o escriturário (uma história de Wall Street)” de Melville ([1853] 2008), cuja fala emblemática é “I would prefer not to (do)”.
Proponho com isso elaborar a forma pela qual a ética do fracasso ou a ontologia negativa em psicanálise lacaniana emerge como um grito do real frente aos imperativos de gozo que organizam a sociedade capitalista, uma vez que para a psicanálise o sujeito do desejo contém algo que vai além do princípio de identidade, ou do lugar oferecido a ele pelo simbólico. Esse algo a mais marca a existência contraditória do sujeito por uma espécie de “tudo é e não é”, pois embora o discurso capitalista dê como certa, positiva a possibilidade de gozar - o que torna a falta ou o “não é” um dolo que exige reparação -, no que se refere ao desejo, esse objeto é inexistente, é um não-objeto. Dessa forma, o desejo é um “lugar” que só pode aparecer como irredutivelmente negativo no sujeito, escapando sempre das posições de identidade, identificação social, reconhecimento intersubjetivo e auto apreensão reflexiva. A abertura dessa negatividade é onde o ato singular e o político devem ser resgatados, na medida em que marca o sujeito por uma inadequação/resistência ao que se pretende universalmente compartilhado e naturalizado na sociedade capitalista. Operando com o conceito da negação como ato singular e político buscamos também colocar em xeque a racionalidade social marcada pela submissão a significantes como auto empreendedorismo, atividade e participação sociais discutindo que o resgate das categorias de impossível e de contingente inerentes ao real corresponde a devolver ao sujeito e à história o potencial para acontecimentos, estes sim potencialmente revolucionários.

A RELEITURA: O VALOR SINGULAR E POLÍTICO DE BARTLEBY
O conto de Herman Melville surge pela voz de seu narrador, um advogado, tentando a custo compreender a estranha psicologia de Bartleby, o Escriturário. Melville compõe uma imagem fabulosa do cotidiano num escritório de advocacia: o advogado dispõe de dois escriturários encarregados de ‘copiar e colar’ as leis e toda a rotina resume-se a escrever documentos, e depois comparar aos originais. Estes copistas colaboram no escritório alternando dois estados típicos de humor: durante a manhã, um está bem, enquanto o outro está mal, e de tarde vice-versa, num ciclo de repetições que configuram um ritmo às cenas de fúria no escritório. É a história do advogado, que apresenta-se como ‘um homem já de certa idade’, com uma vida comprometida com as leis, com a racionalidade em geral, mas que, levado pelas circunstâncias em seus negócios, precisava de um novo escriturário, e assim contratou rapidamente Bartleby, mesmo que sem qualquer ‘referência’, julgando pela aparência tratar-se simplesmente de um homem pobre e tranquilo, que talvez fosse benéfico para acalmar o humor terrível dos seus outros copistas. Alojou-o em sua sala, atrás de um biombo e de frente para uma janela sem vistas [parede de tijolos], estrategicamente próximo para ser solicitado, no caso de pequenas necessidades [longe da visão, mas ao alcance da voz]” (SARTI, F. 2012).
Bartleby aqui aparece caracterizado pelo narrador-personagem como um homem de confiança, que permaneceria atrás do biombo copiando avidamente e não se negaria a atender a nenhuma de suas solicitações para a prestação de outros pequenos serviços: copiando sem ser visto e escutando em espera, “[...] sem voz e sem visão, oculto atrás do biombo em frente à janela e não mais que alguns metros distante; o trabalho vai muito bem durante uns três dias, até quando nosso caso começa” (SARTI, F. 2012).
Nessa caracterização vemos que Bartleby é convocado a identificar-se como um homem de confiança (o que deixa supor algum pacto tácito e compartilhado, que não conta com imprevistos), pronto a atender às demandas do advogado, à imagem e semelhança dos outros copistas e de suas funções (“copiar e colar”) no escritório. Aí Bartleby, ele mesmo, deveria responder a essa demanda imaginária assumindo o lugar e a função oferecidos a ele, ou seja, formando-se ele mesmo como cópia fidedigna da imagem da demanda dessa ordem simbólica, representada pelo discurso do advogado. Como sabemos pela Psicanálise, o sujeito é, ao mesmo tempo, sujeito do significante e sujeito do real. Isso significa afirmar que o sujeito do desejo contém algo que vai além do princípio de identidade, ou do lugar oferecido a ele pelo simbólico (SAFATLE, 2005). Logo, segundo essa ontologia negativa do sujeito em psicanálise, há uma recusa de um vínculo ontológico entre sujeito e princípio de identidade (SAFATLE, 2005) que veremos ser experimentada por Bartleby. 
Na sequência da obra, a imagem de uma plena identificação de Bartleby à demanda do advogado que, podemos entender operar como porta-voz dos mandatos do significante-mestre, é destruída por um acontecimento discursivo que desencadeia em múltiplas consequências: “pela primeira vez, o advogado solicita a Bartleby que o ajude numa comparação, com a ‘natural expectativa de ser atendido’, estendendo nervosamente as cópias, para que ele ressurgisse do seu isolamento e começasse a trabalhar, sem demora. Entretanto, Bartleby lhe responde sem se mover de seu lugar: ‘Prefiro não fazer’” (SARTI, F., 2012, grifo nosso). O advogado reduzido ao silêncio diante da irracionalidade dessa recusa de Bartleby em copiar-se e colar-se à imagem da demanda de ação, à imagem de cumprimento de um dever “usual e de bom senso”, pensa ter se enganado e repete a incitação/solicitação, obtendo a mesma resposta de forma tranquila e despreocupada de Bartleby: “Prefiro não fazer”. Segue-se a passagem:
Nem uma nesga de preocupação o afetava. Se houvesse o menor sinal de inquietação, raiva, impaciência ou impertinência em suas maneiras; noutras palavras, se houvesse qualquer coisa de ordinariamente humana a respeito dele, não havia dúvidas de que eu deveria tê-lo expulsado do escritório violentamente. (MELVILLE, [1853] 2008, p.31, grifo nosso)

Denotamos aqui que a tradução do inglês “I would prefer not to (do)” perdeu um elemento essencial para que possamos apreender a afirmação da negação de Bartleby como uma alegoria do que é o desejo em psicanálise, a saber, um lugar irredutivelmente negativo do sujeito. A partícula “to” do inglês cria uma zona de indeterminação entre o que seria preferido e o que seria recusado por Bartleby, o que interpretamos como materialização da universalidade da inadequação do desejo a qualquer positividade ou racionalidade, ou seja, a qualquer rede de determinações positivas. A irracionalidade de Bartleby rompe com a racionalidade que dá ancoragem ao advogado solapando os modelos de identificação adequados à demanda, ou seja, fazendo surgir o desejo no que ele sempre escapa à demanda, no que ele tem de Real, de vazio, de não-objeto.
Não há realidade senão do discurso, logo o discurso que organiza o microcosmo do escritório, que tomamos aqui como alegoria do discurso que organiza uma determinada racionalidade social, opera segundo uma rede de evidências diante da qual todos devem se inclinar, alguma coisa com a qual todos deveriam concordar numa espécie de universalização do sujeito do desejo, por sua vez, produtora de subjetividades que fazem funcionar um “para todos”, uma organização social do desejo e seus modos de gozar (formas de vida e critérios de ação). Mas, como pontua Soler, isso só pode funcionar ao preço de uma exclusão, a saber, a exclusão do que é impossível de se universalizar (SOLER, 1998), ou seja, a exclusão da parte Real do sujeito, da parte que marca a inadequação radical do desejo às demandas de um discurso e seus modelos de identificação.
Com efeito, a fórmula de Bartleby extrai todo seu vigor de grito do real ecoando por de trás do biombo da fantasia ideológica em sua “objetividade fantasmática” (SAFLATLE, 2008): ela rompe com os pressupostos da linguagem a partir dos quais os discursos são formulados como auto evidentes.  Nesse sentido, podemos dizer que Bartleby se utiliza do verbo “preferir” de modo que este negue-se a si mesmo, ou seja, o preferir não se refere a algo que se escolhe, entre uma coisa e outra, mas à escolha pelo nada, pelo vazio do desejo: “eu preferiria nada a algo” (DELEUZE, 1997) pode representar aí a função pura do desejo como “desejo de nada de nomeável” (SAFATLE, 2005). Isso pode ser entendido como uma resistência do sujeito do desejo (valor singular e político) frente aos imperativos de gozo que organizam “o novo espírito do capitalismo”.

POR UMA POLÍTICA BARTLEBY FRENTE AO NOVO ESPÍRITO DO CAPITALISMO
Na passagem da sociedade de produtores para a sociedade de consumo, o discurso da mercadoria assumiu às vezes de organizador da demanda e dos modelos de identificação sociais procurando coletivizar o sujeito do desejo segundo o imperativo “Todo desejo deve encontrar seu objeto” (DUFOUR, 2005). Isso criou uma “objetividade fantasmática” (SAFATLE, 2008) - realidade ideológica - produtora de subjetividades para as quais os objetos de consumo adquiriram o peso universal de “objetos irrecusáveis do desejo” (KEHL, 2008) com valor e significação de gozo garantidos pelo discurso do Outro (mercado): a possibilidade de gozar assim transmitida como certa, e sobretudo, feita obrigatória, além de fazer da falta um dolo que exige reparação, incitou os sujeitos, identificados como consumidores, à realização da tarefa falaciosa de apenas ter que procurar/escolher por sua felicidade de preferência dentre as opções disponíveis no “mercado de gozo” (LACAN, [1968/69] 2008). Aí o discurso de Bartleby ecoa subversivo como “manifestação da resistência do sujeito aos processos de instrumentalização social do gozo” (SAFATLE, 2003), operando como porta voz do que é impossível de se universalizar, e consequentemente, de se governar pelo espaço político: o vazio do desejo ou a parte Real do sujeito que se manifesta na expressão “Prefiro nada a algo” faz surgir de trás do biombo o impossível de se cumprir, algo da ordem de um reconhecimento do desejo em sua verdade pela via da indiferença aos objetos empíricos, o que faz aparecer os vestígios da impossibilidade de totalização do laço social que a fantasia ideológica procura apagar/conter.
Em outras palavras, Bartleby age como um louco ou um doente ou um inventor de novas coordenadas lógicas. Contradizendo o imperativo GOZA!, sua fórmula irracional assume a um só tempo o impossível de se universalizar e o contingente de um “tudo é e não é” (ROSA, [1956] 2005) no que se refere ao desejo: diante da inadequação radical do desejo aos objetos do mundo ou da “irremediável insuficiência do sujeito do desejo” (KEHL, 2009), que fará o vazio sempre persistir como mola propulsora (trazendo a injunção a uma administração política dessa insatisfação), “eu prefiro nada a algo”, prefiro manter o espaço vazio a “ceder de [meu] desejo” (LACAN, [1959/60] 1991) colando-o e copiando-o à imagem da ilusão compartilhada de preenchimento dada pelo consumo, ou por qualquer outro conteúdo ou realidade positivas determinadas.
Como é sinalizado no início da obra de Melville, Bartleby aparece como um escriturário ou copista sobre o qual “nada é passível de confirmação”. Bartleby não é razoável ou racionalizável pelas usuais coordenadas lógicas, é um original, e não uma cópia, como afirma Sarti(2012); ele não aceita os clichês ou as alternativas lógicas que lhe são oferecidas para ser, nem tampouco alguma função social. Daí Zizek concluir sua “política Bartleby” ou política da negatividade do ato para os tempos atuais: “Contra uma política da identidade, uma política da universalidade da inadequação” (SAFATLE, 2003, p. 184). Segue-se o trecho de Melville: “Nada irrita mais um homem sério do que uma resistência passiva”. Segundo Zizek (2008, p. 437):
É melhor não fazer nada do que participar de atos localizados cuja principal função é fazer o sistema funcionar mais azeitado (atos como dar espaço à miríade de novas subjetividades etc.) Hoje a ameaça não é a passividade, mas a pseudo-atividade, a ânsia de ser “ativo”, e “participar”, de mascarar a Nulidade do que acontece. Todos intervêm o tempo todo, “fazem alguma coisa”, os acadêmicos participam de debates sem sentido e assim por diante, mas a verdadeira dificuldade é dar um passo atrás, é se afastar disso tudo. Os que estão no poder muitas vezes preferem até a participação “crítica”, o diálogo, ao silêncio – só para nos envolver num “diálogo”, para garantir o rompimento de nossa agourenta passividade.

A miríade de discursos anticapitalistas, antineoliberalismo, anti isso, anti aquilo, ou pró isso, pró aquilo..., revela uma exigência revolucionária, algo constante girando em torno não do que é, mas do que poderia ser. Tudo isso é falsamente revolucionário para Zizek, para quem a verdadeira vontade revolucionária surge como um “não posso agir de outro modo”, um “impossível não fazer” ou não tem valor, i.e., um ato revolucionário é aquele que não presta conta a nada, não se endereça, não tem garantias, fiadores que os legitimem como contra-hegemônicos,  nem, tampouco, é o que possui ideais a serem atingidos, oferecendo apenas abertura lógica a novas coordenadas simbólicas que formariam uma outra organização social da ilusão, por retroação ao ato. Pontuamos que a revolução feita exigência ou obrigação moral, i.e., feita decalque do imperativo categórico consumista de procura e certeza de encontrar o objeto ideal para si, faz com que devamos ser críticos, devamos fazer algo, propor algo, ser algo novo e a mais sempre, numa “tirania da escolha que não deveria nos enganar, pois trata-se de seu verdadeiro oposto: da ausência da escolha real quanto à estrutura fundamental da sociedade” (ZIZEK, 2008, p. 455).
O que nos faz retornar a Bartleby e sua enlouquecedora resistência passiva como gesto exemplar de resistência singular e política adequada para os tempos atuais. Segundo Zizek (2008, p. 448), ao contrário da “passividade agressiva” que marca o modo comum de atividade e participação na vida sócio-ideológica atual, em que ficamos o tempo todo ativos e pró-ativos para garantir que nada aconteça, para que nada mude de verdade, o ato negativo de Bartleby seria um “recuo para a passividade”, um recusar-se a participar da festa, da ordem caótica do poder e do “serviço dos bens” (LACAN, [1959/60] 1991), para a qual somos perenemente “convidados”, ao modo da proposta irrecusável do Poderoso Chefão (escolha forçada). Nesse sentido, Bartleby parece-nos informar o caminho para um ponto de parada ou recuo no qual a insustentável leveza do ser, de que fala Milan Kundera (1985), pode ser comparada ao desejo em estado puro, aquele que se sustenta sem endereçamento, “como uma tendência desprovida de objeto” (SAFATLE, 2005). Isso perturba a fantasia ideológica que dá o peso do ser, faz barra a sua valoração e significação sociais, ou seja, evidencia o colapso ou o fracasso da ordem simbólica em ser total.
Ao final da obra de Melville, Bartleby é expulso do escritório que ocupava e enclausurado na prisão onde morre. Segue o único relato que o narrador-personagem nos fornece acerca da possível história pregressa de Bartleby: “ele seria ex-funcionário na ‘Seção de Cartas Extraviadas’, e o advogado pergunta, em meio a uma grande emoção, se isto não se parece com ‘homens extraviados’” (SARTI, F., 2012).
Pense em um homem cuja natureza ou má-sorte fizeram tender a uma pálida desesperança – pode qualquer trabalho parecer mais adequado para aumentar essa desesperança que lidar continuamente com cartas extraviadas e classificá-las para as chamas? Porque elas são incineradas anualmente em abundância. Algumas vezes, o pálido funcionário achava um anel dentro do papel dobrado – e o dedo a que se destinava, talvez, esteja apodrecendo debaixo da terra; uma nota bancária enviada numa rápida caridade – aquele a quem iria aliviar já não come ou passa fome; perdão para aqueles que morreram em desespero; boas novas para os que morreram sem assistência na calamidade. Com mensagens de vida, essas cartas correm até a morte. Oh, Bartleby! Oh, humanidade! (MELVILLE, [1853] 2008, p.88)

Concluímos que, embora a mensagem de vida de Bartleby caminhe para a morte, seja condenada ao extravio - pois o sujeito em sua existência contraditória entre submissão (sujeito do significante) e objeção (sujeito do real) tem como condição a inscrição em determinadas coordenadas simbólico-políticas - a política Bartleby -, a política da negatividade do ato, ou a política da universalidade da inadequação de Zizek, seja lá como prefiram chamá-la, evidencia um ato que faz o retorno daquilo, da impossibilidade, enquanto o que “precisa ser excluído da realidade para que a própria realidade se mostre consistente” (KYRILLOS NETO; MOREIRA, 2009). Isso deixa de reproduzir os modelos de identificação estabilizados, o “encaixe” na demanda tornando impossível a continuidade do discurso: Bartleby está em suspenso, leve, experimentando uma “destituição subjetiva” (SAFATLE, 2005) ou um “grau zero de subjetivação” (SARTI, F., 2012). Expressando um desejo em estado puro que não afirma nem nega nada, é vazio e em língua original, Bartleby torna potencial uma nova escritura, uma nova reordenação das coordenadas simbólicas que deverão ser engajadas de forma retroativa a seu ato revolucionário. Segundo Kyrilos Neto e Moreira (2009, p.411):
Ao contrário das ações correntes, um ato se situa sempre além do bem e do mal ou, mais precisamente, reconfigura aquilo que se entende por bem e mal. Do ponto de vista subjetivo, um ato ocorre quando o sujeito aceita perder a si mesmo e põe em questão aquilo que, a seu ver, o define, experimentando uma destituição subjetiva. No plano político, um ato ocorre quando alguém assume o risco de agir sem garantias, engajando-se numa aposta de que o ato em si há de criar as condições para sua própria legitimação democrática “retroativa”: é o que se chama revolução. O ato revela a inexistência do Outro, ou seja, de toda instância capaz de garantir nossos atos e fundar nossa vida. O resultado dessa aposta é um salto no abismo, único sentido válido para a palavra liberdade.

CONSIDERAÇÃO FINAL
O reconhecimento do vazio do desejo implicado no ato negativo de Bartleby, que como vimos faz o resgate das categorias de impossível e contingente do real, devolveria ao sujeito e à história o potencial para acontecimentos singulares e políticos verdadeiramente revolucionários. A saída do discurso do capitalista, atualmente regido por significantes como (auto)-empreendedorismo, participação e atividades sociais, assim pensada pela via da psicanálise, anuncia que a saída sempre esteve aí, como no clássico filme “Anjo Exterminador” de Buñuel, bastando que pensemos contra nós mesmos de forma a assumir a contingência e reconhecer o vazio, a lacuna em torno da qual se erguem as posições de identidade, identificação social, reconhecimento intersubjetivo e auto apreensão reflexiva. Essa seria uma aposta sem garantias na invenção de uma atual e verdadeira tinta vermelha, ou seja, da inscrição no discurso político da liberdade - inventar um lugar de linguagem para falar da falta de liberdade, como, de forma violentamente silenciosa, fez Bartleby ao profanar o preferir com o “preferir nada”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, G. (1997) Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34.
DUFOUR, D.–R. (2005) A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Cia de Freud.
KEHL, M. R. (2008) “Publicidade, perversões e fobias” in Ide: psicanálise e cultura. São Paulo, vol. 1, nº 1, pp. 27-38.
KEHL, M. R. (2009) O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo.
KUNDERA, M. (1985) A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Nova fronteira.
KYRILLOS NETO, F. & MOREIRA, J. O. (2009) “Psicanálise e política: conexões” in Psicol. Clin., vol. 21, nº 2, pp. 397-414.
LACAN, J. (1959/1960) O seminário, Livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
LACAN, J. (1969) O seminário, Livro 16: De um outro ao Outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
MELVILLE, H. (1853) Bartleby, o escriturário - uma história de Wall Street. Porto Alegre: LP&M, 2008.
ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
SAFATLE, V. “Posfácio: a política do real em Slavoj Zizek” in ZIZEK, S. (2003) Bem vindo ao deserto do real!. São Paulo: Boitempo. - (Estado de sítio).
SAFATLE, V. (2005) “Uma clínica do sensível: a respeito da relação entre destituição subjetiva e primado do objeto” in Interações, v. 10, nº19, pp. 123-150, jan./jun.
SAFATLE, V. (2008) Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo. - (Estado de sítio).
SARTI, F. (2012) O empirismo transcendental de Gilles Deleuze para análise dos fundamentos da Psicologia. Primeiro relatório Científico FAPESP – Tese de doutorado em andamento. FFCLRP-USP.
SOLER, C. (1998) A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa livraria.
ZIZEK, S. (2008) A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo.

MILENA MARIA SARTI é Professora Doutora na UNIP (Universidade Paulista) de São Paulo, SP.
Email: misarti@hotmail.com