8 de agosto de 2013

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: SANDOR FERENCZI


SANDOR FERENCZI, psiquiatra e psicanalista húngaro, nascido em Miskolc, em 07 de julho de 1873, vindo a falecer em Budapeste, em 22 de maio de 1933, foi o oitavo filho de Bernat Ferenczi e Rosa Eibenschütz – que teriam doze filhos.
Um dos mais íntimos colaboradores de Freud, originário de uma família de judeus poloneses imigrantes, Sandor Ferenczi foi não só o discípulo preferido de Sigmund Freud, mas também o clínico mais talentoso da história do freudismo. Foi através dele que a escola húngara de psicanálise, da qual foi o primeiro animador, produziu uma prestigiosa filiação de artífices do movimento, entre os quais Melanie Klein, Geza Roheim e Michael Balint. A obra escrita de Ferenczi é composta de numerosos artigos, redigidos em estilo inventivo e sempre ligados à realidade. Grande escritor de cartas, Ferenczi também foi autor de um Diário Clínico, publicado em 1969. Um ano antes de sua morte, havia registrado vários relatos de casos, muitas inovações, assim como as críticas que dirigia ao dogmatismo psicanalítico.
O pai de Ferenczi, falecido em 1888, era um simpático livreiro, que se empenhava com fervor na revolução de 1848 antes de se tornar editor militante, favorável à causa do renascimento húngaro. Assim, mudara seu nome, de sonoridade alemã (Baruch Fraenkel), para um patronímico magiar (Bernat Ferenczi). Deu ao filho predileto, uma educação em que prevaleciam o culto da liberdade e um gosto acentuado pela literatura e pela filosofia.
Optando pela carreira médica (formado em 1894, em Viena), o jovem Ferenczi, que já se interessava pelos fenômenos psíquicos e pela hipnose, trabalhou no Hospital Saint Roch, onde quarenta anos antes, outro grande médico húngaro, Philippe Ignace Semmelweis (1818-1865), tentou fazer com que o caráter infeccioso da febre puerperal, que descobrira, fosse reconhecido. Como seu ilustre antecessor, Ferenczi logo se mostrou adepto da medicina social, se tornando médico assistente no asilo de pobres e prostitutas. Sempre pronto a ajudar os oprimidos, a escutar os problemas das mulheres e a socorrer os excluídos e marginais, tomou, em 1906, a defesa dos homossexuais em um texto corajoso apresentado à Associação Médica de Budapeste. Atacava os preconceitos reacionários da classe dominante, que tendia a designar aqueles que se chamavam uranianos como degenerados responsáveis pela desordem social.
Entre 1899 e 1908, escreve inúmeros artigos pré-psicanalíticos, dentre eles, “Espiritismo”, dedicado à telepatia. Em 1900, Ferenczi estabelece-se como neurologista.

Esse era o homem que, depois de ler com entusiasmo A Interpretação Dos Sonhos, visitou Freud em fevereiro de 1908, acompanhado do seu colega e amigo Fulop Stein (1867-1917). Este o iniciou no teste de associação verbal, elaborado por Carl Gustav Jung. A partir desse dia, durante um quarto de século, Ferenczi trocaria com o mestre de Viena mil e duzentas cartas. Um verdadeiro tesouro de invenção teórica e clínica, com algumas confidências pessoais com aquele que se tornaria seu analista, mestre e íntimo amigo. Dono de uma curiosidade insaciável, Ferenczi se interessou, durante toda a vida, por múltiplas formas de pensamento, das mais eruditas às mais irracionais. Freud o chamava o seu “Paladino”, ou seu “Grão-vizir Secreto”. E Ferenczi gostava de se apresentar nos meios analíticos como “um astrólogo da corte”.
Em 1908 Ferenczi já participou do I Congresso de Psicanálise em Salzburgo e fez uma conferência sobre “Psicanálise e Pedagogia”, começando a praticar a psicanálise em Budapeste e realizando conferências de divulgação para médicos.
Partindo de um combate contra o niilismo terapêutico, Freud elaborou uma teoria da neurose e da psicose que superava amplamente os limites da clínica. Sempre consciente de seu próprio gênio e da importância de sua descoberta, sabia dominar seus afetos e mostrar-se implacável para com seus adversários. Acima de tudo, amava a razão, a lógica, as construções doutrinárias. Mais intuitivo, mais sensual e mais feminino, Ferenczi procurava na psicanálise os meios de aliviar o sofrimento dos pacientes. Era pois menos atraído pelas grandes hipóteses genéricas do que pelas questões técnicas. Assim, era mais inventivo que Freud na análise das relações com o outro. Em 1908, descobriu a existência da contratransferência, explicando a seu interlocutor sua tendência em considerar os assuntos do paciente como seus próprios. Dois anos depois, Freud conceitualizou essa noção, fazendo dela um elemento essencial na situação analítica. Entre ambos, portanto, o intercâmbio epistolar teve como função fazer surgir novas problemáticas, que serviam depois para alimentar a doutrina comum.

Como muitos pioneiros do freudismo, Ferenczi experimentou em si mesmo os efeitos de suas descobertas. Em 1904, tornou-se companheiro de Gizella Palos, oito anos mais velha que ele. Essa ligação era tolerada pelo marido desta, que entretanto lhe recusava o divórcio. Gizella vivia com suas duas filhas, Magda, casada com o irmão mais novo de Ferenczi, e Elma, nascida em 1887. Não só Ferenczi tornou-se, em 1908, analista de sua amante, como também não hesitou em tratar de Elma quando esta apresentou sintomas de depressão três anos depois.
Inutilmente Freud o advertiu contra os perigos de uma prática como essa. Implicado em uma espécie de autoanálise epistolar, ele procurava desafiar Freud, pedindo-lhe que o reconhecesse como um pai reconhece um filho, dando-lhe a entender ao mesmo tempo em que podia perfeitamente passar sem ele. Em novembro de 1911, depois do suicídio com arma de fogo do noivo de Elma, anunciou a Freud que estava apaixonado pela jovem. Disse que não sentia mais desejo sexual por Gizella, muito idosa, e queria fazer com que ela ocupasse uma posição de sogra, fundando uma família com sua filha. Na verdade, queria ficar com as duas. Logo, anunciou sua intenção de se casar com Elma.
Finalmente, percebeu que se envolvera em uma confusão transferencial e desistiu de desposar a jovem, junto a quem ocupou uma posição de médico e de analista. Mas, não podendo conduzir adequadamente o tratamento, obrigou Freud a analisar Elma e depois se fez analisar em três ocasiões pelo mestre, entre 1914 e 1916. Este agiu então como um pai autoritário, obrigando Ferenczi a casar-se com Gizella e a renunciar a Elma. Assim, acreditava confirmar a tese anunciada em Totem e Tabu em 1912, segundo a qual o desejo de incesto é inerente ao homem e só um interdito, formulado como uma lei, pode afastá-lo dele. Em 1919, Ferenczi casa-se com Gizella – o casal não teve filhos.
Se Freud se comportava à maneira dos famosos “casamenteiros” das histórias judaicas, Ferenczi tinha a impressão de ter sido despojado, por essa análise, de suas paixões e seus desejos. Em suma, aceitou pesarosamente ter sido “normalizado” por Freud: “Eu disse a Gizella que me tornara outro homem, menos interessante e mais normal. Confessei-lhe também que alguma coisa em mim lamenta o homem de antes, um pouco instável, mas tão capaz de grandes entusiasmos (e na verdade, muitas vezes inutilmente deprimido)”.
Assim, vemos como atuaram, nas relações entre Freud e Ferenczi, todas as contradições do tratamento psicanalítico que leva um sujeito a passar de um estado infantil para a idade adulta, da desrazão para a razão, da onipotência ilusória para a sabedoria, do gozo para o verdadeiro desejo. Mas arriscando-se a que essa perda, longe de ser benéfica e fonte de uma nova paixão, não seja nada mais do que a expressão da vontade normalizadora do analista e, além deste, da sociedade na qual ele vive. De qualquer forma, o episódio dessa confusão familiar e transferencial pode ser compreendido como a matriz de todas as reflexões posteriores sobre o estatuto incerto do tratamento psicanalítico, oscilando sempre entre um excesso de conformismo adaptador, que seria denunciado por Ferenczi e seus partidários, e a ausência de lei, contra a qual reagiriam os herdeiros ortodoxos de Freud.

Ao mesmo tempo em que prosseguia sua análise com Freud, Ferenczi se devotava de corpo e alma à “causa” freudiana. Em 1909, com Jung, acompanhou Freud na célebre viagem aos Estados Unidos, e publicou seu primeiro grande trabalho teórico, “Transferência e Introjeção” (onde introduz o termo “introjeção”, retomado por Freud posteriormente). Um anos depois, viajou com ele para a Itália, passando por Florença, Roma, Palermo e Siracusa. No mesmo ano, fundou a International Psychoanalytical Association (IPA). Enfim, em 1912, criou a Sociedade Psicanalítica de Budapeste, com Sandor Rado, Istvan Holos e Ignotus, além de publicar “O Conceito de Introjeção”. A partir de 1919, viriam Geza Roheim, René Spitz, Imre Hermann e Eugénie Sokolnicka.
Em 1913, publica o caso clínico “O Pequeno Homem-Galo”, além de redigir uma crítica de “Metamorfoses e Símbolos da Libido”, de Jung, expondo publicamente sua posição ao lado de Freud no tocando ao conflito entre Freud e Jung.
Membro do Comitê Secreto a partir de 1913, participou de todas as atividades de direção do movimento freudiano, formando com Otto Rank e Freud um polo “sulista” e austro-húngaro, diante das iniciativas mais rígidas e burocráticas dos discípulos vindos do norte da Europa: Karl Abraham, Ernest Jones e Max Eitingon. Foi nesse período que se desenrolou o grande debate sobre a telepatia, em torno do qual se cristalizaram os conflitos entre Jones, partidário de uma psicanálise racionalista empírica, e Ferenczi, muito mais aberto a experiências julgadas desviantes, irracionais ou extravagantes por seu adversário.
Em 1914, Ferenczi analisou duas grandes figuras do movimento psicanalítico: Geza Roheim e Melanie Klein. Analisou também Ernest Jones – análise marcada, obviamente, pela ambivalência.
Em 1918, é eleito presidente da IPA.

A derrota dos impérios centrais anunciou a insurreição húngara. Em março de 1919, Bela Kun proclamou a República dos Conselhos, enquanto em Budapeste era criada, pela primeira vez no mundo, uma cátedra de ensino da psicanálise na universidade. Ferenczi foi, naturalmente, nomeado para esse posto. Mas, quatro meses depois, a Comuna foi reprimida com sangue pelas tropas do almirante Miklos Horthy. A Hungria caiu então sob o jugo de outra ditadura, e os brilhantes representantes da escola húngara de psicanálise, florão do movimento, começaram a emigrar. Berlim tornou-se então o centro nevrálgico do movimento freudiano: efetivamente, foi nessa época que se fundou o Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI).

A partir de 1919, como Rank, Ferenczi se empenhou na reforma completa da técnica psicanalítica. Inventou primeiro a técnica ativa, que consiste em intervir diretamente no tratamento, através de gestos de ternura e afeto, e depois a análise mútua, durante a qual o analisando é convidado a “dirigir” o tratamento ao mesmo tempo em que o terapeuta, antes de reatar com a teoria do trauma, denunciando a hipocrisia da corporação analítica em um texto famoso de 1932, intitulado “Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança”. Através dessa exposição, que suscitou a oposição de Jones e de Freud, relançava todo o debate sobre a teoria da sedução.
De 1919 a 1924, Ferenczi publica vários textos. Entre eles: “A Técnica Psicanalítica” (1919); “Prolongamentos da Técnica Ativa em Psicanálise” (1921); “O Sonho do Bebê Sábio” (1923); “Perspectivas da Psicanálise” (1924, com Otto Rank).
Em 1921, Ferenczi conhece Groddeck, que seria seu amigo por toda a vida.
Em 1926, fez uma viagem de conferências pelos Estados Unidos, onde alguns terapeutas, como Clara Thompson (1893-1958), grande amiga de Harry Stack Sullivan, o reconheceram logo como um clínico genial.
Foi em 1924 que Ferenczi publicou Thalassa: Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade, obra próxima da de Rank, sobre o trauma do nascimento. Nos dois textos, desenha-se o abandono da tese da prioridade do pai em prol de uma pesquisa sobre as origens do vínculo arcaico da criança com a mãe, tema trabalhado por Melanie Klein na mesma época. Ao contrário dos kleinianos, Ferenczi se situava no terreno do evolucionismo darwiniano. Afirmava que a vida intrauterina reproduzia a existência dos organismos primitivos que viviam no oceano. Segundo ele, o homem teria a nostalgia do seio da mãe, mas também procuraria regredir ao estado fetal nas profundezas marítimas. Essa abordagem da psicanálise através da metáfora da cripta e das profundezas era acompanhada de inovações técnicas. Se a sessão analítica repetia uma sequência da história individual e se, aliás, a ontogênese recapitulava a filogênese, a reflexão sobre a própria sessão conduzia naturalmente à pergunta: qual o estado traumático que a ontogênese repete simbolicamente?

Duramente contestado por suas teses e suas inovações pelos partidários da ortodoxia, Ferenczi não deixaria o regaço freudiano como Rank. Jones, entretanto, o chamaria de psicótico: “Ferenczi sempre acreditou firmemente na telepatia. Depois, foram os delírios sobre a pretensa hostilidade de Freud. No fim, apareceu uma violenta paranoia, acompanhada até de explosões homicidas. Foi o fim trágico de uma personalidade brilhante”. Na verdade, Ferenczi morreu em consequência de problemas respiratórios, em decorrência de uma anemia perniciosa. Freud lhe prestou uma vibrante homenagem, mas enfatizando a excessiva importância que assumira, a seus olhos, o desejo de curar: “Ao voltar de uma temporada de trabalho na América, ele pareceu isolar-se cada vez mais em um trabalho solitário. Soubemos que um único problema monopolizava o seu interesse. A necessidade de curar e de ajudar nele se tornara avassaladora”.
Foi na França e na Suíça que a obra de Ferenczi foi particularmente apreciada, graças à sua tradutora Judith Dupont, sobrinha de Alice Balint (1898-1939), e a André Haynal, responsável em Genebra pelos arquivos de Michael Balint.
Dentre suas publicações, destacam-se: “Contraindicações da Técnica Ativa” (1926); “Fantasias Gulliverianas” (1926); “O Filho Mal Recebido e sua Pulsão de Morte” (1929); “Princípio de Relaxamento e Neocatarse” (1930); “Análises de Crianças e Adultos” (1931).


Este Artigo segue as diretrizes biográficas do verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE.