12 de dezembro de 2013

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: AURELIA (KRONICH) ÖHM



AURELIA KRONICH (1875-1929) - sobrenome de nascimento - é uma das pacientes de Sigmund Freud, cujo caso é apresentado sob o pseudônimo de Katharina, nos “Estudos Sobre a Histeria”. Sob a forma de um diálogo, Freud relata um encantador encontro que tiveram em 1893 nos Alpes austríacos (o Raxalpe), quando se encontrava de férias. Em uma taberna, uma jovem garçonete, com a idade de 18 anos, pede conselhos ao doutor Freud a propósito de seus sintomas “nervosos” – falta de ar, vertigens, sensação de sufocamento. Questionada por ele, evoca a cena de sedução traumatizante à qual assistira dois anos antes entre seu tio (o dono do albergue) e sua prima Franziska. Estavam os dois deitados um sobre o outro em uma cama e, ao ver esse espetáculo, Katharina teve acessos de vômitos e de vertigens. Foi em seguida contar a cena à sua tia, que decidiu então abandonar o marido, enquanto Franziska encontrava-se grávida dele.
Explorando suas lembranças, Katharina descobre cenas anteriores. Lembra que, quando tinha 14 anos, seu tio tentara igualmente seduzi-la. Freud conclui, de acordo com sua teoria da sedução de antes de 1896: “Desse ponto de vista, o caso de Katharina é típico. Em todas as análises de histeria fundadas em traumas sexuais, descobrimos que certas impressões sentidas em uma época pré-sexual, e que não haviam tido efeito algum sobre a criança, conservam mais tarde seu poder traumatizante enquanto lembranças, uma vez que a moça ou a mulher tenha adquirido a noção de sexualidade”. Segundo Freud, os sintomas de Katharina eram os representantes do “horror de que mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade”.
Em 1924, acrescentará uma nota para esclarecer que Katharina não era a sobrinha, mas a filha do dono do albergue.
Albrecht Hirschmüller e Gerhard Fichtner foram os primeiros a revelar, em 1985, a verdadeira identidade de Katharina. Tratava-se de Aurelia Kronich, a segunda filha de um casal de ricos hoteleiros vienenses. O pai, Julius Kronich, seduziu efetivamente Barbara Göschl, sua sobrinha por aliança, quando esta tinha 25 anos. Em seguida, desposou-a e teve com ela dois filhos. Quanto a Aurelia, casou-se com um húngaro, teve seis filhos e depois voltou a viver, em 1903, em seus Alpes austríacos, onde morreu vinte e seis anos mais tarde. Peter Swales considerou esse “caso princeps” como a primeira psicanálise selvagem.
Aurelia Öhm – Katharina -, que nunca chegou a se tornar paciente de Freud, é descrita assim pelo Pai da Psicanálise: “foi um caso agradável para mim”. Lisa Appignanesi & John Forrester escrevem que “foi assim que essa filha de estalajadeiro, com quem Freud conversou no alto de uma montanha de dois mil metros de altura num dia de agosto de 1893, se tornou a demonstração da nova terapia radical e da teoria da histeria que ele e Breuer propunham”.

Este Artigo segue as diretrizes biográficas do verbete redigido por Elisabeth Roudinesco & Michel Plon, para o Dicionário de Psicanálise.