24 de dezembro de 2014

SAÍDAS, CORPOS E CIDADE (Juan Alexander Salazar Silva)



1
O que pode um corpo fora da instituição, desterritorializado na cidade e imantado sob o fluxo da multiplicidade? Esta pergunta que não se cala numa resposta única, demanda primeiramente um breve esclarecimento sobre a noção de corpo que construo neste trabalho.
Os corpos não se definem por seu gênero ou por sua espécie, por seus órgãos e por suas funções, mas por aquilo que podem, pelos afetos dos quais são capazes, tanto na paixão quanto na ação.” (Deleuze, 1998)
O que é o corpo em si, senão a própria psicose: um corpo cansado de seus órgãos que se recusa a ser feito e reduzido enquanto organismo, que se recusa a ser estratificado, conduzido a uma significação, a um sujeito: eis o Corpo sem Órgãos (CsO). Não se trata bem de um conceito, mas de uma prática (ou um conjunto de práticas), algo que se faz consigo mesmo, que se experimenta (Deleuze e Guattari, 2012).
(…) o CsO não é de modo algum o contrário dos órgãos. Seus inimigos não são os órgãos. O inimigo é o organismo. O CsO não se opõe aos órgãos, mas a essa organização dos órgãos que se chama organismo. É verdade que Artaud desenvolve sua luta contra os órgãos, mas, ao mesmo tempo, contra o organismo que ele tem: O corpo é o corpo. Ele é sozinho. E não tem necessidade de órgãos. O corpo nunca é um organismo. Os organismos são inimigos do corpo. O CsO não se opõe aos órgãos, mas, com seus 'órgãos verdadeiros' que devem ser compostos e colocados, ele se opõe ao organismo, à organização orgânica dos órgãos.” (Deleuze e Guattari, 2012, p.24)
Pensando neste corpo enquanto “capacidade psicótica” de afetos e intensidades que só esta pode oferecer e fazer; este texto busca compor uma saída, desfazendo-se assim do organismo institucional e da institucionalização da clínica, nos permitindo adentrar o terreno do Acompanhamento Terapêutico (AT).
Retomando a pergunta formulada ao início deste texto, e me propondo a investigá-la clinicamente, lhes apresento uma experimentação corpórea coletiva produzida num “Grupo de Saída”, configurada fora e dentro de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em São Paulo, e consistindo basicamente em saídas grupais semanais pela cidade afora, com usuários deste serviço.
Para tanto, acompanho o fluxo polifônico e caleidoscópico da cidade, costurando distintos acontecimentos clínicos destas saídas, reconhecendo assim seu funcionamento coletivo enquanto multiplicidade, “(...) que se desenvolve além do indivíduo, junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais, derivando de uma lógica de afetos mais do que uma lógica de conjuntos bem circunscritos” (Guattari, 2012, p.19).

2
Cássia temia que um gordo fosse cortar fora seu braço. Sua postura fragmentada diante do ambiente clamava sempre por um toque do outro, fosse apenas um dar as mãos ou uma presença corporal constante, a fim de lhe oferecer minimamente um braço ou esboço de um corpo que fosse seu mesmo – uma experiência de continuidade física e psíquica: holding (Barreto, 1998). Chorava constantemente, pedindo para que a levassem embora do CAPS, para que pudesse ficar junto de sua irmã – que a levava diariamente ao serviço pelo início da manhã e a buscava no final da tarde. Cássia temia ser abandonada por esta irmã, temia não ir embora nunca mais, ou que alguém a matasse.
Certo dia o pedido de Cássia é escutado e atendido. Acompanho-a junto de outra colega até a casa de sua irmã, onde ela morava no momento. Instaura-se assim outro movimento da relação institucional com Cássia, que é a possibilidade de ir e vir com ela, transitar entre a irmã e o CAPS e, concretamente, explorar este caminho, esta distância. O CAPS já não era mais uma entidade paralisada que atuava na manutenção do fusionamento Cássia-irmã, mas passava a se movimentar, aderindo ao devir-Cássia. Tal trânsito figura bem a necessidade de uma instituição nômade que efetiva o passeio do esquizo, permitindo assim sua relação com o fora (Deleuze e Guattari, 2010).
Nos primeiros Grupos de Saída, Cássia literalmente se desmembrava pelas ruas. Andava torta, era frágil e cansava-se facilmente. Não olhava o semáforo ou o movimento da rua – ela simplesmente ia. Descendo a ladeira, seu corpo simplesmente a levava, sem freio, ladeira abaixo.
Espera Cássia” – alguém a chamava em voz alta.
Não sou eu, é a descida que me leva” – ela respondia.
Uma vez, num gramado em pleno centro da cidade, nos deparamos com um galo e uma galinha. O grupo se aproxima, observa, alguns se lembram de sua vida no campo e conversamos disso. Para espanto de todos, percebemos que o galo não tinha um pé. Cássia, atemorizada, logo pergunta:
É assim que eu vou ficar?
Ao mesmo tempo em que havia esse fora que se agregava ao corpo de Cássia e o formava, havia também o pleno desmembramento desta experiência, desconexão junto ao aparente fluxo da cidade. Na Igreja da Nossa Senhora da Boa Morte, Cássia ajoelha e reza, pedindo a Deus que a cure e a salve; no entanto, reza de costas para o altar. Tal experiência, que poderia facilmente ser reconduzida por nós acompanhantes com o objetivo de apontar o “equívoco” de Cássia frente à posição correta em que se reza numa igreja – frente ao ambiente – é, ao contrário disso, sustentada e ambientalizada.
Cássia é a descida da rua, a igreja e a Nossa Senhora da Boa Morte – e assim é seu corpo. A diferenciação eu e não-eu, exterior e interior, desaparece, já não tendo mais importância (Deleuze e Guattari, 2010).

3
Rafael e Fábio são amigos, conseguiram construir uma relação além da instituição. Em nossas saídas, surgia sempre alguma brincadeira sexual da parte de Rafael, carregada de uma infantilidade ímpar. Ele estava sempre investigando. Nos percursos pela cidade, qualquer movimento de parada (fosse para o semáforo abrir, ou para observar um quadro), Rafael logo se posicionava atrás de Fábio, na expectativa de encochá-lo; mas depositando uma atividade presente no outro, e não nele. Ou seja, não era Rafael que o encochava e sim Fábio que se encostava a ele. Apesar do ensaio homossexual, ele não diferenciava os genitais. Uma vez, observando a escultura de Lucy (uma de nossas ancestrais), Rafael aponta ingenuamente para a região pubiana da figura perguntando o que era aquilo. Outro usuário logo lhe responde várias denominações populares acerca do “órgão sexual feminino” e eu lhe respondo didaticamente dizendo que aquilo era a vagina.
Paula também estava sempre a investigar sua sexualidade. Diferenciava os genitais dos cachorros nas ruas, nas esculturas, e em qualquer imagem da cidade que lhe remetesse a isso. Sua pergunta constante é se é “homem ou mulher, macho ou fêmea”. Certa vez me explica que nota esta diferença especialmente quando observa os cachorros de lado, pois se os olha de frente não é possível diferenciar. A presença e ausência do pênis é questão fundamental para ela. Sempre sorridente e com seus cabelos curtos, teme um possível enforcamento caso seus cabelos venham a crescer. Na Rua 25 de março, observando os bonés à venda, diz que apesar de um boné ser um acessório masculino, ele pode sim ser feminino, uma vez que ela tem um boné rosa. Intriga-se quando vê um casal de meninas de mãos dadas andando pelas ruas.
Darcy – que traz a cisão em seu próprio nome dúbio em relação ao gênero – defende-se da homossexualidade a partir do meu corpo e minha presença, se intrigando acerca da minha sexualidade e tendo a necessidade de reafirmar seu desejo sexual pelas mulheres para mim. Ao mesmo tempo, transmite uma agressividade, ora dirigida às mulheres, ora aos homens. Um toque intrusivo de Laura em seu corpo momentaneamente o desorganiza. Ela prontamente pergunta, ingenuamente:
Nossa, o que foi? Você vai me bater?
Não, eu não bato em mulher” – diz ele, se esforçando em tomar corpo novamente.
Sempre que nos organizamos para sair do CAPS, o grupo aguarda em frente ao elevador. Num destes momentos, Priscila esbarra sem querer em Darcy, que reage violentamente empurrando-a. Intervenho corporalmente entre os dois. Darcy, muito bravo, diz que ela o empurrou de propósito, e que estava “imitando” ele.
Na saída do prédio eles se desculpam, intermediados pela minha voz e pelo meu corpo. Era comum durante as saídas ele me abordar e perguntar o que eu estava falando, sendo que eu não estava falando nada. Ele pensava que eu estava falando dele.

4
Maria disputa meu corpo nas saídas. Inicialmente, pedia que eu andasse de mãos dadas com ela, pedido este ligado a certo “enamoramento”. A necessidade de dar as mãos de Cássia e de Maria era distinta, porém ambas psicóticas, já que tinham um corpo alienado no outro – distanciadas de um si mesmo. Se no início eu dava as mãos para Maria, com o tempo vou me separando, passando a não dar as mãos para ela, o que gera persecutoriedade, fazendo-a reafirmar seu lugar de “desprezada pela mãe” e consequentemente por todos.
Minha mãe falou que era pra eu ter nascido morta. Minha mãe disse que sou uma inútil, uma incrédula. Minha mãe me disse que nunca casei por ser feia.
Estes são alguns dos ecos de uma Maria alienada em sua mãe, todavia ligada a este corpo, colada a esta e, ao mesmo tempo, anulada e aniquilada.
Pegando o ônibus para ir ao Parque do Ibirapuera, se não me sento ao lado de Maria, esta se aterroriza e se põem a chorar, levanta-se e vem ao meu lado, implorando por um lugar – não importando quem esteja ao meu lado. Qualquer mulher que se aproxime de mim, reencena a mulher, mãe e filha abandonada que Maria é. Ela se aflige com a presença de Laura, que também se mantém colada a mim – é como se não houvesse rua e cidade a não ser que passando pelo meu corpo. O grupo se movimenta desta forma: tudo passa pelo corpo daqueles que se propõem a acompanhá-los e vice-versa.
Laura se cola a mim me olhando fixamente, fazendo sempre as mesmas perguntas, clamando por um afago de minha parte, disputando sempre também um lugar ao meu lado. Às vezes, enquanto falo com alguém ou simplesmente quando ando ou estou parado, me percebo sendo observado, e quando olho ao lado vejo Laura me olhando, paralisada, rindo deste momento de revelação. Há um misto de encantamento, deboche e curiosidade acerca do que é o meu corpo.
No AT em grupo, transitei por diferentes afetos em relação a Laura, muitas vezes me irritando e desprezando-a efetivamente, e em outros momentos tendo a necessidade de ampará-la. Ela me elogia constantemente, dizendo que sou muito legal, bonito, e que gosta muito de mim. Maria, enciumada, rapidamente se posiciona ao meu lado e faz questão de me lembrar de que também gosta muito de mim.
Diante disso, sentar-se nos bancos de um parque para descansar se torna atividade extremamente complexa. Quem senta ao lado de quem? A cidade desaparece e o que importa somos nós mesmos.

5
Francisco anda sempre muito a frente do grupo, ligeiramente curvado, falando sozinho e, por vezes, se perdendo na multidão. Fala com o “sentinela”, gosta de quadrinhos e super-heróis. Para em bancas de jornal e, sempre que consegue, adentra para verificar os quadrinhos. Francisco fala baixo, ri, olha-te meio que de lado – nunca tão diretamente.
Nos museus e centros culturais, ele anda sempre rente às obras de arte: não há linha que o separe de pisar onde não se deve. Temo sempre um acidente, um passo equivocado de Francisco. Com o convívio nas saídas, esses elementos vão se distanciando de algum aspecto adoecido de Francisco, revelando-se muito mais como um modo de funcionamento que é reconhecido por todos do grupo.
Ele tem um lugar de amigo para Fábio, que sempre sente pela sua ausência no grupo, notando-o quando ninguém tende a notá-lo. No Parque da Luz, acompanho Francisco por uma caminhada lenta sob o tapete de folhas secas do jardim. Posiciono-me ao seu lado, quase que seguindo seus passos, mas inaugurando também um passo meu ao seu lado. Olhamos-nos com o soar das folhas se quebrando e sorrimos. Francisco chega até a uma grande escultura no jardim, que lembra uma espécie de muro curvo de metal, e observa curioso e desconfiado do outro lado dela. Repito seu movimento, sempre numa tentativa de experimentar tal corpo e reafirmá-lo no espaço. Quando voltamos ao banco dos jardins, Paula nos fala que Francisco é um “menino contente”. Novamente, desaparece qualquer olhar de estranheza em relação ao outro, e entra em cena essa capacidade de agregar a diferença e dar lugar a esta. Respondo a Paula dizendo que ela também é uma menina contente, já que anda sempre sorrindo, assim como Francisco.
Mas andar coletivamente é constante produção. Como agregar os passos lentos de Marlene, que fica sempre para trás, produzindo ela também em nós o temor de um acidente ou atropelamento? Lentificada, anda vagarosamente pelas ruas agitadas de São Paulo. Não me esqueço jamais da vez em que paramos todos diante de uma estátua viva no centro velho da cidade, cujo personagem era Fernando Pessoa, e Marlene espantada com aquele corpo estático – no caso, um duplo seu – lhe toca lentamente com o dedo, onde ele vira-se lentamente também e manda um beijo sonoro para ela. Todos rimos, profundamente tocados com a potência daquele encontro. Ela ainda nos pergunta se aquele corpo “era de verdade”.
Aos poucos Marlene passa a sentir seu corpo, torna-se real. Assaduras formam-se em suas coxas, escondidas pelo jeans apertado e pelo seu aumento de peso. Pede-nos que a acompanhemos para pesquisar o preço das jaquetas – ela quer uma igual à da psicóloga do CAPS. Acompanhamos ela também até a Casas Bahia para ver os preços dos tanquinhos. Um corpo habitado passa a aparecer – alguém que existe e deseja, um corpo inclusive que dói. Certa vez, na confusão de pessoas e feirantes ao lado do Mercadão, alguém chuta uma garrafa plástica pela rua, e para minha surpresa Marlene prossegue com os chutes, sorrindo – arriscando um futebol com o grupo, ainda que lentamente, é extremamente potente.

6
Com estes acontecimentos clínicos esparsos na cidade, produzidos por um movimento de saída institucional, tento reproduzir a afetação do corpo que nos cabia neste grupo, imantados por uma multiplicidade e heterogeneidade de fazeres que envolvia o trio de acompanhantes, os usuários e o cenário caleidoscópico da cidade.
O AT surge como lugar para este corpo acontecer, como aquilo que sustenta a permanência deste corpo estranho na cidade, não marcando unicamente a disparidade entre o fora e o dentro, mas promovendo tal acontecimento indiferenciado no mundo, acompanhando assim desde o atravancamento dos corpos como seu desenfreamento. Tendo este corpo como limite, e partindo do limite entre a psicanálise e a esquizoanálise, produz-se assim uma clínica que segundo Guattari (2012, p.30)
(...) não é mais uma interpretação transferencial de sintomas em função de um conteúdo latente preexistente, mas invenção de novos focos catalíticos suscetíveis de fazer bifurcar a existência. Uma singularidade, uma ruptura de sentido, um corte, uma fragmentação, a separação de um conteúdo semiótico – por exemplo, à moda dadaísta ou surrealista – podem originar focos mutantes de subjetivação.
Trata-se, portanto, de produzir subjetividade, de fazer corpo. Nestas saídas, pensemos como Pankow (1989), uma vez que se releva muito mais a importância de se dar ao acompanhado sensações corporais táteis que o levem aos reconhecimentos do limite de seu corpo, buscando assim o reconhecimento de um desejo inconsciente, e não da satisfação dele.
No AT fazemos o mapa e não o decalque. Abrem-se conexões em todas as dimensões, desmonta-se, reverte-se. O mapa contribui para o desbloqueio do CsO, para sua abertura máxima sobre um plano de consistência. Fazer o mapa é adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo ou uma formação social (Deleuze e Guattari, 1995).
Novamente, não se trata de buscar as origens, interpretar ou significar, mas ir de um mapa a outro e avaliar seus deslocamentos. O inconsciente já não lida com pessoas e objetos, mas com trajetos e devires, já não sendo mais um inconsciente de comemoração arqueológica, porém de mobilização, cujos objetos, mais do que mantidos afundados na terra, podem “levantar voo” (Deleuze, 1997).
Para Deleuze e Guattari (1995) assim é o rizoma, uma antigenealogia, raízes múltiplas, heterogêneas e assignificantes: um princípio clínico que visa cartografar regiões ainda por vir. Corpo, cidade e instituição agenciam-se coletivamente nas saídas grupais descritas neste trabalho, podendo fazer o mapa rizomático de um CsO, bem como do próprio AT, que pode se produzir enquanto método clínico em si.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRETO, Kleber Duarte (1998) Ética e técnica no acompanhamento terapêutico: andanças com Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Unimarco Editora.
DELEUZE, Gilles (1997) “O que as crianças dizem” in Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34. (p. 83-90)
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix (1947) “Como criar para si um Corpo sem Órgãos” in Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol.3. São Paulo: Editora 34, 2012. (p. 11-34)
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix (1995) “Introdução: Rizoma” in Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol.1. São Paulo: Editora 34. (p. 17-50)
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix (2010) O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34.
DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire (1998) “Da superioridade da literatura anglo-americana” in Diálogos. São Paulo: Escuta. (p. 49-92)
GUATTARI, Félix (2012) Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34.
PANKOW, Gisela (1989) O homem e sua psicose. Campinas: Papirus.

JUAN SALAZAR é psicanalista e acompanhante terapêutico.
http://www.sitioat.com

12 de dezembro de 2014

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ERNEST JONES


ERNEST JONES (1879-1958), psiquiatra e psicanalista inglês, fundador da Psicanálise na Grã-Bretanha, criador do Comitê Secreto, artífice do debate sobre a Antropologia, organizador e presidente da International Psychoanalytical Association (IPA) durante dois períodos cruciais (1920-1924 e 1934-1949), excelente negociador durante as Grandes Controvérsias, pioneiro da historiografia psicanalítica e da tradução inglesa da obra freudiana (por James Strachey), teve um papel considerável na história política do freudismo. Durante muitos anos, foi o líder incontestável do movimento, e, se porventura se comprometeu com o nazismo, acreditando assim “salvar” a Psicanálise na Alemanha, também ajudou os emigrantes alemães, austríacos e húngaros a encontrar acolhimento nos países anglófonos, Estados Unidos e Inglaterra. Sigmund Freud não gostava dele, mas ao longo dos anos, embora desaprovando muitas vezes as suas iniciativas, confiou nele para administrar os assuntos políticos do movimento, especialmente depois da partida de Max Eitingon para a Palestina.
A despeito de sua personalidade difícil, de sua linguagem crua, das complicações de sua vida amorosa, que lhe valeram a hostilidade das ligas puritanas, e da maneira direta com que falava do erotismo ou dos defeitos do corpo, Jones era um homem insinuante e principalmente um trabalhador infatigável, preocupado em dominar todos os campos do saber. Tinha paixão pela “causa analítica” e queria defendê-la à sua maneira, se necessário contra o próprio Freud, o que explica seu apoio às inovações kleinianas e sua ambivalência em relação à análise leiga.
Conservador, pragmático e racionalista, mostrou-se injusto para com Otto Rank e Wilhelm Reich, intratável com a “esquerda freudiana” (na Rússia, por exemplo) e com os homossexuais, e bastante invejoso de seu analista, Sandor Ferenczi, clínico bem melhor que ele e discípulo preferido de Freud. Entretanto, conseguiu que a Psicanálise européia sobrevivesse diante do poder crescente dos Estados Unidos.
Nascido em Gowertown, no País de Gales, Alfred Ernest Jones era filho de um engenheiro de minas, que começara sua carreira como funcionário de escritório de um negociante de carvão. Autoritário e incapaz de admitir que podia errar, acreditava na superioridade dos adultos sobe as crianças. Não admitia nenhuma insubordinação. Sua mulher era conservadora, piedosa e fortemente ligada à cultura galesa: “Nasci em 1º de janeiro de 1879, escreveu Jones, em uma aldeia chamada Rhosfelyn. Fui o primeiro e único filho. A grande estrada de ferro do Oeste rebatizou a aldeia como Gower Road, nome que meu pai conseguiu mudar depois para o híbrido Gowertown”.
Desde muito cedo, o pequeno Jones conheceu perfeitamente todas as práticas sexuais, não hesitando em falar francamente: “A prática do coito já me era familiar aos seis ou sete anos de idade, escreveu em sua biografia; depois, eu a interrompi e só a retomei depois dos 24 anos; esse era um hábito bastante comum entre as crianças da aldeia”.
Depois de estudar na Universidade de Cardiff, orientou-se para a Medicina, foi aluno de John Hughlings Jackson e instalou-se em Londres. Graças a seu futuro cunhado, Wilfred Ballen Lewis Trotter (1872-1939), cirurgião honorário do rei Jorge V, erudito ilustre e apaixonado por filosofia, interessou-se pelos textos de Freud e começou a aprender alemão para ler a “Interpretação dos Sonhos”.
Em 1903, entrou para o North Eastern Hospital, do qual seria demitido seis meses depois por insubordinação. Rotulado como “indivíduo problemático”, teve posteriormente muita dificuldade para se integrar a outros serviços hospitalares. Interessado pela hipnose, a Neurologia e as doenças mentais, começou a praticar espontaneamente a psicanálise em 1906. No ano seguinte, foi a Amsterdã para o primeiro Congresso de Neurologia, Psiquiatria e assistência aos alienados, e ficou conhecendo Carl Gustav Jung, que o convidou a trabalhar na clínica do Hospital Burghölzli, dirigida por Eugen Bleuler. Em 1908, encontrou-se com Freud pela primeira vez, no Congresso da IPA em Salzburgo.
Sua nova orientação e a rudeza com que evocava os problemas da sexualidade na Inglaterra, ainda muito vitoriana, lhe valeram novos problemas. Denunciado publicamente pelo irmão de uma de suas pacientes, desejosa de divorciar-se depois de uma análise, Jones foi depois acusado de ter falado de maneira indecente com duas crianças pequenas, que estava submetendo a um teste. Registrou-se queixa contra ele, que passou uma noite na prisão, antes de ser absolvido de qualquer suspeita pela justiça e pela imprensa.
Não obstante, decidiu deixar a Grã-Bretanha e radicar-se no Canadá, com sua jovem companheira Loe Kann, que ele fazia passar por sua esposa. Foi o início de uma longa correspondência com Freud: 671 cartas no total. Como observou Ernst Falzeder, faltam, nessa correspondência “a intimidade, a amplitude, o dinamismo e o caráter trágico que caracterizam outras correspondências de Freud. O estilo inimitável de Freud sofre com isso”. Na verdade, tem-se a impressão de que o tom de Freud é de um “homem de negócios”. De qualquer forma, se Freud via em Jones o aliado indispensável, este se apresentava a ele como o Thomas Henry Huxley (1825-1895) de Charles Darwin, isto é, como o primeiro discípulo da doutrina freudiana em solo inglês.
Depois de passar cinco anos em Toronto e ser mais uma vez alvo de acusações “sexuais”, Jones voltou a Londres em julho de 1912 tendo criado a American Psychoanalytic Association (APsaA) e feito um importante trabalho de implantação das ideias freudianas no Canadá e nos Estados Unidos. Em junho de 1913, a conselho de Freud, passou dois meses em Budapeste, para fazer uma análise didática com Ferenczi. Foi então que se formou um daqueles imbróglios transferenciais característicos dos primeiros anos da prática psicanalítica.
A pedido de Jones, Freud aceitou analisar Loe Kann. Sofrendo de cálculos renais que a obrigavam a sucessivas operações, a jovem tinha adquirido o hábito de tomar morfina. Assim, tornou-se toxicômana. Aliás, suas relações com Jones haviam se degradado, principalmente quando este começou uma relação com uma de suas amigas, Lina. Ao longo das sessões, Freud se apegou a Loe Kann. Quando Jones começou o seu tratamento com Ferenczi, ignorava que a sua companheira estava prestes a deixá-lo para se casar com um americano chamado Herbert Jones (apelidado Jones II), e também que Freud informava Ferenczi de tudo o que ocorria durante as sessões de Loe.
A partir do mês de junho, Ferenczi, por sua vez, descreveu a Freud o desenrolar do tratamento de Jones: “Jones é muito agradável como amigo e colega. Na análise, seu excesso de bondade constitui um obstáculo; seus sonhos se resumem a ironizar-me e ridicularizar-me, o que ele tem que admitir sem que consiga acreditar realmente nessas particularidades de seu caráter, ocultas nele. Parece também temer que eu lhe conte tudo o que fico sabendo na análise. Assim, peço-lhe que nunca mencione nossa correspondência diante da Sra. Jones. Ele não se permite nenhuma dependência, o que é compensado depois por uma tendência para as intrigas, para os triunfos secretos e para a perfídia. Creio que as semanas passadas lhe serão proveitosas. Já o acho um pouco menos modesto, isto é, mais fraco com os outros e consigo mesmo”. Freud lhe respondeu, em 9 de julho: “O que você escreveu sobre Jones me alegra muito. Agora, sinto-me menos culpado quanto ao resultado do processo com sua mulher, a partir do momento em que a vejo expandir-se na liberdade. Apeguei-me extraordinariamente a Loe e junto dela desenvolvi um sentimento muito caloroso, completamente inibido sexualmente, como raramente aconteceu antes (provavelmente graças à idade)”. Loe se tornaria amiga de Anna Freud.
Em junho de 1914, sem dizer a Jones, Freud assistiu em Budapeste ao casamento de Loe com Herbert Jones. Um mês depois, Anna Freud, com 18 anos, fez uma viagem a Londres. Ernest Jones a acolheu e a levou para visitar os melhores lugares da cidade, não hesitando em cortejá-la. Prevenido por Loe, a quem Ana contava tudo, Freud interveio duramente, para impedir a filha de ceder à sedução de seu novo discípulo: “Sei de fonte segura (isto é, através de Loe), escreveu ele, que o doutor Jones tem a séria intenção de te fazer a corte. È a primeira vez que isso te acontece e não tenho nenhuma intenção de te dar a liberdade de escolha de que gozaram tuas irmãs”. E acrescentou que Jones não seria um bom marido para ela.
Quarenta e nove anos depois, em uma carta de 3 de julho de 1953, Jones declararia a Anna: “Ele (Freud) parece ter esquecido a existência da pulsão sexual, pois eu a achei e ainda a acho muito atraente. É verdade, eu queria substituir Loe, mas não tinha nenhum ressentimento para com ela, sua partida foi para mim um alívio. De qualquer forma sempre amei você, e de uma maneira bastante honrosa”.
Em julho de 1912, marcado pela secessão de Adler, de Stekel e de Jung, Jones encontra Ferenczi em Viena para falar sobre a situação. Ele propôs a criação de um pequeno grupo composto de discípulos mais próximos de Freud, a fim de defender a causa analítica. Ferenczi acatou a ideia, Freud apoiou-os, e Jones fundou o Comitê Secreto, formado por Sandor Ferenczi, Otto Rank, Karl Abraham, Hanns Sachs e, naturalmente, Jones e Freud.
Em 1916, Jones casou-se com Morfydd Owen (1891-1918), uma jovem artista, professora na Royal Academy of Music. Destinava-se à carreira de pianista e compositora, mas morreu bruscamente, dois anos depois, de uma crise de apendicite.
Foi em 1919, aos 40 anos de idade, que Jones conseguiu formar uma família, casando-se com Katherine Jolk, uma vienense de origem tcheca, que Hanns Sachs lhe apresentou e com quem teria quatro filhos: Gwenith, morta de pneumonia com a idade de oito anos, Mervyn, Nesta e Lewis. Katherine Jones, Gwenith e Mervyn foram analisados por Melanie Klein em 1926.
A partir de 1913, a vida de Jones se misturou estreitamente à história do movimento psicanalítico inglês e internacional. Durante a Primeira Guerra Mundial, prosseguiu suas atividades, mas por causa da publicação de diversos artigos no “Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen”, foi acusado pelo “Times” de colaboração com o inimigo. Todavia, depois de um inquérito feito pela Scotland Yard, foi oficialmente autorizado a receber, através da Suíça, periódicos em língua alemã. Assim, conseguiu manter contato com os psicanalistas dos países beligerantes. Em 1919, fundou a British Psychoanalytical Society (BPS). Como presidente, reuniu meios para criar e manter uma clínica psicanalítica com custo subsidiado, em Londres. Além disso, criou o Instituto de Psicanálise, instituição que provia facilitações de administração, publicação e treinamento para atender às necessidades da crescente rede de profissionais da Inglaterra. No ano seguinte, criou o “International Journal of Psycho-Analysis (IJP)” e, em 1922, no Congresso da IPA em Berlim, lançou o grande debate sobre a sexualidade feminina, que durante muito tempo dividiria a escola inglesa e a escola vienense. Enfim, em 1926, ajudou Melanie Klein a instalar-se definitivamente em Londres. Deu assim uma sólida base à BPS e à Psicanálise de Crianças na Grã-Bretanha. Com isso, irritou profundamente Freud e sua filha.
Confrontado com a questão da análise leiga, em especial com Abraham Arden Brill, que barrava o acesso dos não-médicos à New York Psychoanalytic Society (NYPS), Jones tentou uma conciliação no Congresso da IPA em Oxford, em 1929. Brill cedeu e aceitou a filiação dos não-médicos, mas no Congresso de Wiesbaden, em 1932, o assunto ressurgiu. Uma nova regulamentação foi então adotada, estipulando que os critérios de seleção dos candidatos dependeriam, a partir de então, das Sociedades locais, que se tornavam mais autônomas.
Em dezembro de 1935, Jones aceitou presidir a sessão da Deutsche Psychoanalytische Gesellachaft (DPG) durante a qual os membros judeus foram obrigados a se demitir. Adepto da tese do “salvamento”, apoiava assim a política de Felix Boehm e de Carl Müller-Braunschweig, que resultaria na integração dos freudianos ao Deutsche Institut für Psychologische Forschung, fundado por Matthias Heinrich Göring.
Em 1949, depois de atravessar a turbulência das Grandes Controvérsias e de participar da reintegração na IPA dos antigos terapeutas alemães colaboracionistas, Jones se aposentou. Apesar de uma trombose coronariana, começou a redigir a primeira grande biografia, em três volumes, dedicada à vida e à obra de Freud. Além de todos os livros publicados, conseguiu localizar e ler cerca de 5.000 cartas manuscritas da correspondência de Freud, dando assim sua contribuição a Kurt Eissler, que estava coletando os arquivos e realizando entrevistas com os grandes discípulos da primeira hora. Esse trabalho gigantesco, redigido em sete anos e baseado em uma impressionante quantidade de documentos, faria de Jones o fundador da historiografia freudiana. Traduzida no mundo inteiro, essa obra serviria de ponto de partida para todos os trabalhos posteriores da historiografia erudita. Antes mesmo de concluir o terceiro volume, Jones teve que se submeter com urgência à exerese de um tumor vesical. Em 1957, mesmo tendo tido um segundo ataque coronariano, nada deixava transparecer de seu estado e foi ao Congresso da IPA em Paris.
Jones elaborou os conceitos de “racionalização”, adotado por Freud como um dos mecanismos de defesa, e de “afânise”, que apontava em ambos os sexos, um receio mais fundamental do que o medo de castração.
Afora suas múltiplas atividades em prol da Psicanálise, Jones foi também um célebre jogador de xadrez e campeão de patinagem artística.
Morreu em 11 de fevereiro de 1958, com a mesma coragem do herói do livro que acabava de escrever. Suas cinzas repousam no crematório de Golders Green, próximas às de Freud.

OBS.: Este Artigo segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

18 de setembro de 2014

IV ENCONTRO "LER & ESCREVER"


Prezados Leitores

É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 11/out/2014, das 15h às 18h, o IV Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE.
O tema do Encontro será “DEUTUNG: O ESFORÇO RUMO À FICÇÃO”.

A análise não é muitas vezes um ensinamento, e talvez não o seja jamais. É, de preferência, uma experiência que modificará o sujeito que passa por ela. Quanto ao papel do pensamento teórico – ou do saber metapsicológico -, não é fácil precisá-lo. Disto não é questão na análise, mas, o que não impede que o analisando empreste ao analista um saber deste gênero e que ele espere (em vão, bem entendido) da boca do analista a palavra de sua verdade (aquela do paciente, é claro). Ora, esta palavra não tem provavelmente existência alguma.” (Octave Mannoni)
O analista recebe o paciente em espaços que vão se delineando progressivamente.” (Suzete Capobianco)

Através de recortes do Artigo de Octave Mannoni – “O Divã de Procusto” -, e do Artigo de Suzete Capobianco – “Apagar-se” -, que serão apresentados, deixamos a questão a ser discutida: Por falar no esforço do analista - não há nesses espaços que vão se delineando uma necessidade de nos apagarmos de nossas teorias e de nossos analistas/supervisores para adentrar-nos no território ficcional - palco de nossos pacientes?
   
O Encontro buscará um clima informal, de livre interação entre os participantes.

O Encontro será realizado em São Paulo/SP, na Rua Cardeal Arcoverde, 833 (cj. 1).
As inscrições são restritas a um número de 30 (trinta) participantes, e devem ser feitas através do Email da REVISTA (revistavortice@terra.com.br), informando seu nome completo, até o dia 10/out. Enviaremos um retorno confirmando a inscrição.

Atenciosamente,


CORPO EDITORIAL

8 de agosto de 2014

VERBETES: AB-REAÇÃO


AB-REAÇÃO, termo introduzido por Sigmund Freud e Josef Breuer em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos.
O termo “ab-reação” aparece pela primeira vez na “Comunicação Preliminar” de Josef Breuer e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do mecanismo psíquico atuante nos fenômenos histéricos.
Nesse texto pioneiro, os autores anunciam desde logo o sentido de seu procedimento: conseguir, tomando como ponto de partida as formas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a princípio e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno histérico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de “resistências”, e que somente o recurso à hipnose permite superar.
Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao acontecimento é evacuado, por menos que essa reação seja suficientemente intensa. Nos casos em que a reação não ocorre ou não é forte o bastante, o afeto permanece ligado à lembrança do acontecimento traumático, e é essa lembrança – e não o evento em si – que é o agente dos distúrbios histéricos. Breuer e Freud são muito precisos a esse respeito: “... é sobretudo de reminiscências que sofre o histérico”. Encontramos a mesma precisão no que concerne à adequação da reação do sujeito: quer ela seja imediata, voluntária ou não, quer seja adiada e provocada no âmbito de uma psicoterapia, sob a forma de rememorações e associações, ela tem que manter uma relação de intensidade ou proporção com o acontecimento incitador para surtir um efeito catártico, isto é, liberador. É o caso da vingança como resposta a uma ofensa, a qual, não sendo proporcional ou ajustada à ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada por esta.
Desde essa época, Breuer e Freud sublinham como é importante que o ato possa ser substituído pela linguagem, “graças à qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”. Eles acrescentam que, em alguns casos de queixa ou confissão, somente as palavras constituem “o reflexo adequado”.
Se o termo “ab-reação” permanece ligado ao trabalho com Breuer e à utilização do método catártico, nem por isso a instauração do método psicanalítico e o emprego, em 1896, do termo “psico-análise” significam o desaparecimento do termo “ab-reação”, e isso por duas razões, como deixam claro os autores do “Vocabulário da Psicanálise”: uma razão factual, de um lado, na medida em que, seja qual for o método, a análise continua sendo, sobretudo para alguns pacientes, um lugar de fortes reações emocionais; e uma teórica, de outro, uma vez que a conceituação da análise recorre à rememoração e à repetição, formas paralelas de “ab-reação”.
Por que Breuer e Freud empregaram essa palavra, que este último não renegaria ao evocar o método catártico em sua autobiografia?
Como neologismo, o termo “ab-reação” compõe-se do prefixo alemão “ab-” e da palavra “reação”, constituída, por sua vez, do prefixo “re-” e da palavra “ação”. A primeira razão dessa duplicação parece ser o cuidado dos autores de repelir o caráter excessivamente genérico da palavra “reação”. Além disso, porém, a palavra remete ao procedimento da fisiologia do século XIX, em cujo seio ela funciona como sinônima de “reflexo”, termo pelo qual se designa o elemento de uma relação que tem a forma de um arco linear – o arco reflexo – que relaciona, termo a termo, um estímulo pontual e uma resposta muscular. Essa referência constituía para Freud, nos anos de 1892-1895, uma espécie de garantia de cientificidade, consoante com sua esperança de inscrever a abordagem dos fenômenos histéricos numa continuidade com a fisiologia dos mecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean Starobinski em 1994, a referência ao modelo do arco reflexo sobreviveria à utilização dessa palavra, já que Freud se refere explicitamente a ela em seu texto sobre o destino das pulsões, onde distingue as excitações externas, que provocam respostas no estilo arco reflexo, das excitações internas, cujos efeitos são da ordem de uma reação.
Mais tarde, Freud utilizaria o termo “reação” num sentido radicalmente diferente: em vez de designar uma descarga liberadora, ele seria empregado para evocar um processo de bloqueio ou contenção, a “formação reativa”.

OBS.: Verbete redigido por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o Dicionário de Psicanálise.

6 de junho de 2014

SIMPLICISSIMUS ABSURDUM (Marcos InHauser Soriano)


O interesse extremo que ainda hoje desperta a Psicanálise vem em grande parte do fato de ser esta a mais forte candidata à posição de teoria científica da alma, estrategicamente colocada como está entre Filosofia, Psicologia, Medicina e Literatura.
(Fabio Herrmann)

Acordou decidido. Não havia mais o que protelar. Decididamente iria ter com ela. Ela, sua bailarina escolhida. Na verdade não dormiu direito, com a cabeça repousada sobre o travesseiro ficou a devanear minuciosamente os preparativos do grande dia que iria se seguir. A cabeça sobre o travesseiro e um leve sorriso de satisfação a repousar em seu rosto.
Flores... Compraria flores. Rosas vermelhas misturadas com rosas brancas de “bandeira branca, amor”. Toda mulher gosta de flores... Rosas para sua Rosa.
Papel e envelope rosa, de boa qualidade, para escrever a mensagem que se fazia à noite, na cabeça aconchegada pelo travesseiro.
Uma bonita caixa de bombons trufados, sortidos, que ela aprecia. Aqueles que se dissolvem em sua boca, deliciosamente.

Para ele, namorar não era um verbo a ser tratado de forma leviana. Ele que nunca namorara, levava a sério essa coisa de relação. Estava há tempos a se preparar para a realização da cena de relação que havia montado em sua cabeça, a mesma que tranquilamente repousava sobre o travesseiro, por noites sem fim. Um carro, uma casa, um salário digno, um cão labrador, tal qual propaganda de margarina – moldura perfeita para encaixar sua bailarina. Mas ele tinha seus receios. Na faixa dos quase sempre quarenta, só tinha da cena a margarina. Margaridas e não rosas. Às vezes, de repente, achava tudo uma bobagem só. Para que largar a zona de conforto da casa dos pais em rumo à construção de uma relação?!? Não tinha sentido algum!!! Mas o sentido que tomava o desejo da cena da margarina que viraria rosa era mais forte... Forte, fraco, forte... Temia ser fraco. Uma doença forte.

De certa maneira somos um pouco parecidos. Temos, todos, nossa particular cena de margarina, e nossa íntima zona de conforto. Movimentar-se exige esforço e dá trabalho. Suely Rolnik, em Artigo que analisa as implicações psicopatológicas na subjetividade, a partir do que ela denomina de “capitalismo cultural”, trata da ilusão de ideias religiosas deslocadas pelos veículos de massificação, onde o paraíso, que agora é terrestre, pode ser habitado por alguns privilegiados – as celebridades. Esperançosos, ao mesmo tempo desolados, envergonhados e humilhados, passamos a acreditar na possibilidade, ainda que distante, de sermos “Very Important Person” em nossas cenas da propaganda de margarina, investindo toda nossa energia “de desejo, de afeto, de conhecimento, de intelecto, de erotismo, de imaginação, de ação, etc.”, consumindo objetos e serviços que nos constroem.

Já estavam saindo faz um tempo, se conhecendo, despretensiosamente. Ele, fascinado pelos projetos de independência dela, às vezes ficava amedrontado com a percepção de algo mais sério. Foi quando surgiu o problema: ele não tinha carro... Fraco, forte, fraco... Out, in, out...
Ao longo de sua história pessoal, ele tinha desenvolvido uma estratégia particular para momentos nos quais sua zona de conforto era cutucada: inventava, como desculpa, estar doente. A desculpa foi funcionando perfeitamente, mas, ao decorrer do uso, foi-se suspeitosamente misturando-se e confundindo-se com sua realidade. No ápice da confusão, não sabia mais dizer o que era doença e o que era invenção. Desculpa e corpo fundiram-se no inventado.
Com medo da instituição de uma relação, sumiu por uns dias: “Me desculpe, fiquei doente”.

Na Conferência XXXI, das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, de 1933, abordando a personalidade psíquica, Sigmund Freud refere-se à extraordinária capacidade do Eu em se flexibilizar perante si próprio: “O Eu pode tomar-se a si próprio como objeto, pode tratar-se como trata outros objetos, pode observar-se, criticar-se, sabe-se lá o que pode fazer consigo mesmo”. Dentro dessa concepção, Freud aponta para a divisão do Eu, e de uma de suas facetas, caracterizada pela crueldade – um Eu incisivamente julgador, exigente de perfeição frente aos ideais construídos e introjetados pelo processo sociocultural. Como possibilidade de sobrevida frente ao esfacelamento cruel, o Eu recorre ao sintoma, à fuga para a doença – às vezes, literalmente. Não nos esqueçamos de que, inicialmente, em sua origem conceitual, Freud parte da ideia de um “princípio de desprazer” (que depois se tornaria “princípio de prazer”), situando o sintoma como defesa possível - formações de atenuação frente às pressões internas e externas desestabilizantes no aparelho psíquico.

Acordou decidido. Tomou um banho, fez sua habitual higiene bucal, e vestiu seu boné – o resto da roupa seguia como detalhe. Nunca andava sem seu boné, representante da adolescência que insistia em permanecer, transformando-o em Peter Pan, em sua Terra do Nunca particular, a casa dos pais.
Decidido, foi às compras. Primeiro papel de seda rosa, com delicadas flores de tom mais escuro, combinando com o envelope, onde escreveria “Quer ser minha namorada?”. Na bombonière especializada em importados, uma bela caixa de bombons sortidos. Na floricultura, meia dúzia de rosas brancas e meia dúzia de vermelhas, formando um equilibrado buquê. Depois de tudo meticulosamente preparado por horas, the grand finale: o nó no laço que prenderia o envelope à caixa de bombons. Ele queria fazer pessoalmente, artesanalmente, pois era ótimo em fazer nós.
Apesar de pouco usá-las, possuía diversas gravatas, nas quais, de tempos em tempos, de fronte ao espelho, treinava nós – nós de gravata. Às vezes se achava um idiota, mas na maioria dos nós se encontrava como um expert refletido no espelho – Very Important Person.

Criatura interessante o nó de gravata. Atualmente sobrevive com a exigência do traje à rigor, mas, ao adentrar no salão de baile, após a primeira talagada de uma bebida alcoólica qualquer, é violentamente desfeito e morre, silenciosamente desapercebido – um ultraje.

Decididamente, após muito trabalho, tudo estava pronto. O buquê, a caixa de bombons com o pequeno envelope rosa, delicadamente unidos pelo laço, e um brilhante nó, que o enchia de orgulho. “Quer namorar comigo?” fazia do conjunto uma ode à perfeição. Irresistible. E ele ali, ao som de um bolero, a admirar sua obra de arte. Ele ali, a admirar... Admirando cada ângulo sublime qual corpo feminino. Ali... Admirando... Ao som de um bolero... Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Atônito, acordou no dia seguinte, debruçado em meio a pétalas de rosas brancas e vermelhas, papelão misturado com chocolate derretido, papel de seda com chocolate e pedaços de rosa. Irreversible.

A pulsão de morte é um dos conceitos mais contundentes e mais discutidos do corpo teórico da Psicanálise. O próprio Freud, até o fim da vida, continuava a encontrar para Tanatos, um lugar adequado dentro de seus constructos. Criticado por alguns, estudado e explorado por outros, o contraditório conceito de pulsão de morte continua e buscar lugar comum dentro do léxico psicanalítico.
Para além de uma destrutividade ativa, poder-se-ia afirmar que uma das faces de Tanatos é a representação do Tédio. Um tédio mortificante, paralisante, que mantém o sujeito, despercebido, enclausurado apaticamente em particular Terra do Nunca – estrada que leva a lugar nenhum, mantendo alucinatoriamente o status quo da zona de conforto, excludente de Eros. “The Walking Dead”, sucesso internacional da compulsão à repetição – tédio crônico e silenciosamente destrutivo da subjetividade.

Logo após às primeiras entrevistas, ouve-se o recado, quase um sussurro de tom amarelado agradecendo a paciência, na secretária eletrônica do consultório: “Me desculpe, fiquei doente”.

Ela? Dizem que virou garçonete em uma lanchonete 24 horas nos Jardins. Em suas horas de folga, vive a devanear com príncipes e labradores, cantarolando baixinho “Eu quero uma casa no campo...” e “...são dois prá lá, dois prá cá”.
O analista? Bem... Começou a se interessar por boleros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund (1933) “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XXII). 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1994.
HERRMANN, Fabio (1999) A Psique e o Eu. São Paulo: Hepsyché.
ROLNIK, Suely (2006) “Geopolítica da cafetinagem”. ide, 29(43), 123-129, São Paulo.

MARCOS INHAUSER SORIANO é psicanalista.
Blog: http://umtranseunte.blogspot.com.br

25 de maio de 2014

MUITAS VEZES OUÇO, ALGUMAS VEZES OBSERVO E QUANDO POSSO EU SINTO... (José Antonio Da Rocha Ponce Soler)



O presente Artigo trata de uma reflexão sobre a qualidade da presença do analista durante a sessão de análise. O autor classifica três terrenos onde procura organizar algumas ideias a partir de cada um destes: quando o analista ouve; quando o analista observa; quando o analista sente.
O autor propõe que tal divisão é uma maneira de organizar a compreensão da experiência a posteriori, tentando aproximar-se do miúdo do que se desenrola em sua experiência emocional quando dentro de cada um destes terrenos.

A ‘observação’ psicanalítica não concerne nem ao que ocorreu nem ao que vai ocorrer, mas ao que está ocorrendo.
(Bion, 1967)
A experiência emocional que o analista pode se valer é aquela de que pode ter consciência e ao mesmo tempo, perceber que tem algum distanciamento da mesma para poder pensá-la. Não quer dizer que aquilo que sente é o que sente o analisando – é um sentimento seu próprio que pode estar sendo mobilizado por algo que está acontecendo no consultório ou por alguma atitude ou movimento que estaria sendo feito pelo analisando.
(Castelo Filho, 2013)


Percebendo em mim a necessidade de organizar o que vem se construindo a partir de minha formação psicanalítica, procuro aqui descrever uma maneira de pensar minha clínica. Quando aponto para a minha maneira, não estou de modo algum arrogando algo novo, inédito, ao contrário, aponto para alguma coisa que parece ser um olhar já um tanto influenciado por muitas maneiras de ver a clínica - isso inclui as teorias psicanalíticas, a convivência em minha análise pessoal, supervisão e instituição psicanalítica.
Em minha cabeça surgem sempre questões quando estou tentando fazer psicanálise. Algumas delas são: mas o que é isso que eu estou ouvindo? Do que se trata? O que é isso que eu estou vendo ou observando acontecer ali na minha frente? O que é isso que estou sentindo quando estou com essa pessoa?
Eu não tenho a pretensão de responder nenhuma destas questões, procuro com elas circunscrever o campo de minha atenção, creio que estas sejam comuns aos colegas.
Tenho feito para uso pessoal uma discriminação do meu estado emocional junto ao cliente. Didaticamente divido assim: 1) quando ouço o cliente; 2) quando observo o cliente e me observo; e 3) quando sinto algo em relação ao cliente ou a partir do contato com o mesmo.
É claro para mim que este esquema é artificial e não pode ser usado durante minha prática clínica, sendo apenas uma maneira de descrever o meu estado emocional durante a sessão. Essa reflexão é algo que se passa depois da experiência. 
Dentro destes diferentes terrenos (1-2-3) procuro perceber a qualidade da minha presença durante o encontro com o outro - esta é vista a partir deste modelo de observação, alterando-se. Procuro aproximar do leitor a natureza dessas alterações.
É para mim evidente que os três terrenos são intercambiáveis e não podem ser excludentes; são, na verdade, interdependentes. No entanto, aqui aponto para aquilo que é possível ao analista tocar ou sintonizar com a experiência em trânsito a partir de cada um destes terrenos, ou seja, a natureza da presença do analista dentro de cada um destes territórios.
Começo descrevendo uma situação clínica que me discrimino predominantemente dentro do terreno (1), ou seja, quando ouço:
H chega para a sessão pontualmente, abro a porta quando o vejo não me percebo tocado por aquele encontro e tampouco noto alguma emoção vinda de H. Ele se deita e fala longamente sobre sua mulher; queixa-se da autoridade desta sobre ele, do quanto se percebe ameaçado por suas opiniões. Estou ali ouvindo o que ele me diz, minha mente é levada para um tipo de articulação que denomino agora causal [1], me lembro daquilo que H pode ao longo do tempo me contar sobre sua tumultuada relação com sua mãe, seu estado de alerta diante desta e também da figura do pai. Alguns conceitos me surgem “livremente”: Complexo de Édipo, superego, transferência, etc.
Comento alguma coisa com H sobre o quanto aquilo que me descrevia, uma figura autoritária, poderosa e ameaçadora, parecia de algum modo já bastante presente desde muito em sua mente; a conversa fica produtiva, segundo pude notar naquele momento, ele trás outras associações e eu fico de algum modo satisfeito com aquele trabalho.
Percebo-me distante do analisando, sou um ouvido atento, ligado a uma mente que articula ideias que me parecem naquele momento pertinentes. Não percebo assombro ou grandes emoções presentes entre nós, a não ser uma espécie de concordância mútua: estamos no caminho, estou fazendo análise.
A qualidade da minha presença é calma, estou seguro para falar, “pensar”, pesquisar e tenho a noção de um espaço confortável entre o analisando e eu, me vejo pouco implicado nas questões, o que não implica em descaso ou rejeição pelo material ali presente.
Trata-se, segundo posso alcançar, de uma maneira de estar durante o contato com o outro. Uma maneira participativa e até bastante ativa, mas a minha questão é: o que em mim participa e age quando estou dentro deste terreno, que denomino “1- quando ouço?”. Suponho que o que participa ativamente nessa experiência seja uma dimensão mais lógica, ou até mesmo implicada em saber sobre, ou levar o outro, a saber sobre. O que age em mim nesta situação é uma intenção bastante importante de entender e fazê-lo entender sobre o que se passa consigo. Percebo agora que escrevo o quanto nesta situação estou lidando com memória, desejo e ânsia por saber. Para Bion (1957), “Toda sessão na qual o psicanalista toma parte não deve ter nem história nem futuro. O que se conhece sobre o paciente não tem maior importância: é falso ou irrelevante”.
Como sugeri acima, estes terrenos são intercambiáveis e até mesmo, creio, que interdependentes. Assim vou descrever uma situação clínica onde segundo o meu vértice de observação estive às voltas ou dentro dos terrenos “2-quando vejo e “3-quando sinto”.
W é um homem de aproximadamente quarenta anos, não se casou e me procurou para análise trazendo como queixa uma importante dificuldade de se relacionar, namorar... W está em trabalho analítico há um ano com três sessões semanais.
Fragmento de uma sessão:
Esta é uma sessão de reposição, um domingo antes do almoço.
Aguardo W, percebo ou observo em mim entusiasmo para o encontro, me sinto disponível e me noto, depois, tomando contato com o dia, um domingo, e com que facilidade propus-me a atendê-lo.
W chega alguns minutos atrasado, quando o vejo, noto alguma coisa intempestiva em seu modo, ao mesmo tempo vejo alguma outra coisa distante de intempestividade, talvez calma ou até, quem sabe, uma amorosidade.
Estou nesta experiência implicado, sou convocado espontaneamente a observar e a sentir, me vejo confuso, existe ali turbulência.  Noto um espaço, no entanto mínimo, entre o que sinto e o que posso pensar a partir do que estou observando naquela ou daquela situação e sentindo a partir disto. Não me está disponível aqui teorias psicanalíticas, me vejo vivendo ou sendo, não conjecturando sobre ser. Meu ouvido esta entupido e as palavras funcionam como ruído indesejado, que inclusive parecem querer impedir que se ouça o que está ali evoluindo ou sendo vivido.
W se deita e diz não perceber nada para dizer. Depois de um pequeno espaço de tempo começa a relatar um acontecimento de sábado à noite onde se viu às voltas com sentimentos de desvalia e humilhação.
Procuro de algum modo aproximar o cliente de elementos que poderiam estar ali presentes na sala e sobre os quais ele não estava podendo naquele momento fazer menção ou tomar sequer contato.
Ele fica atento e diz: “sabe, talvez você tenha razão, quando eu cheguei pensei: puxa vida é domingo e ele está aqui para me atender e eu nem trouxe o pagamento...”.
Neste momento o percebo realmente próximo a situações que estava vivendo naquele momento, mesmo que pareciam ser bastante difíceis de serem vividas.
Comunico isto ao cliente. Ele me ouve com alguma atenção, depois começa a falar longamente de situações em que se vê absolutamente dispensado pela namorada, se queixa do quão pouco esta o valoriza e até o humilha, maltrata. Além disso, relata que se sente como se ela nunca estivesse de fato presente nas situações.
Esta fala dura um tempo considerável; estou longe agora, me vejo desmotivado, sinto desânimo, talvez humilhado. Fico assim por um tempo, aceito sentir...
Não o sinto mais presente, o mesmo observo se dando comigo.
Sem que eu me dê conta, um espaço entre aquilo que sinto e o que vou podendo pensar parece que se estabelece. Uso a palavra pensamento aqui, mas esta muitas vezes me parece carregada de uma ideia de algo que foi ponderado ou avaliado, peneirado, conscientizado - este não é o caso do que estou contando que vivi; aponto para algo que a princípio não tem qualquer traço de consciência, uma conjunção constante talvez, elementos que se juntam formando espontaneamente um clarão. Lembro-me aqui do que Castelo Filho (2003) diz: “A transformação dos dados sensoriais em não sensoriais, como assinalei, não é uma operação intelectual e não depende da vontade. Está vinculada à operação da função alfa.
Não resolvo dizer, digo!
Conto que percebi que enquanto ele falava, se formava entre nós dois alguma coisa realmente intransponível, algo que nos colocava de fato muito distantes um do outro e que isto talvez tenha muita relação com sua queixa sobre a falta de presença que ele sentia nas pessoas com quem se relacionava; saliento que ele também ficava ausente, sem presença para lidar com o que estava se desenrolando ainda há pouco entre nós, na situação que percebia sobre o que sentiu de não ter podido me fazer o pagamento e da percepção que teve sobre a minha disposição para com ele, e o que isto poderia desencadear...
O clima muda novamente, me sinto próximo, ali, implicado e o convidando ao contato. Nesta situação não me valho até onde noto de “teorias fortes (Rezze, 2011), estou no escuro e me sinto muito mais atento ao miúdo que se desenrola entre nós. A qualidade da minha presença é intensa, estou vendo, estou sentindo; e mesmo não sabendo em última instância o que vejo e o que sinto, trabalho ou procuro trabalhar com este miúdo quase invisível ali se dando. Suponho que neste terreno estou “considerando a experiência emocional do analista para a captação da realidade psíquica” (Castelo Filho, no prelo, 2013).
As questões aqui apresentadas neste flash de material clínico são ricas em provocar as mais diferentes associações e interpretações em nós analistas, no entanto procuro aqui discriminar, se é que seja possível isto, os níveis diversos da qualidade da minha presença no encontro analítico.
Noto que no segundo exemplo, transito de um campo do que vou observando para o que vou sentindo e estou, aqui, muito menos atento ao que escuto. 
Minhas questões iniciais não foram respondias como eu anunciei em princípio. Ao contrário de respostas, outras foram às questões que pude pensar:
I. Estou mais próximo de que quando transito do terreno “1-quando ouço”, percorro o terreno “2-quando vejo” e chego em “3-quando sinto?”.
II. Estaria transitando de uma realidade mais sensorial para uma realidade psíquica não sensorial?
III. Posso pensar em gradação da qualidade da presença do analista durante a sessão de análise?
Termino citando um pequeno trecho do livro de Clarice Lispector, “A Paixão Segundo GH”:
Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as visões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo.” (Lispector, 2009)


NOTAS
[1] Em “Transformações”, diz Bion (2004): “Categorizo a ideia de causa, neste contexto, como D2, ou seja, uma pré-concepção relativamente primitiva, utilizada para impedir que algo mais venha à tona”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BION, W. R. (2004) Transformações: do aprendizado ao crescimento. Tradução de Paulo Cesar Sandler. São Paulo: Imago Ed.

BION, W. R. (1967) “Notas sobre memória e desejo” in Melanie Klein Hoje: Artigos predominantemente técnicos (Vol.2). São Paulo: Imago Ed., 1990.

CASTELO FILHO, C. (2003) O Processo Criativo: Transformações e Ruptura. São Paulo: Casa do Psicólogo.

CASTELO FILHO, C. (2013) O trabalho na experiência emocional. Os afetos como principal instrumento de trabalho do analista e como parte essencial no desenvolvimento e na capacitação do analisando. Trabalho apresentado na SBPSP, 04/setembro, São Paulo.

REZZE, C. J. (2011) “Teorias Fracas e o Cotidiano de um Psicanalista” in Psicanálise Bion: Clinica – Teoria. São Paulo: Vetor.

LISPECTOR, C. (2009) A Paixão Segundo GH. São Paulo: Rocco.


JOSÉ ANTONIO DA ROCHA PONCE SOLER é Membro filiado do Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP.