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Mostrando postagens de 2014

SAÍDAS, CORPOS E CIDADE (Juan Alexander Salazar Silva)

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1 O que pode um corpo fora da instituição, desterritorializado na cidade e imantado sob o fluxo da multiplicidade? Esta pergunta que não se cala numa resposta única, demanda primeiramente um breve esclarecimento sobre a noção de corpo que construo neste trabalho. “Os corpos não se definem por seu gênero ou por sua espécie, por seus órgãos e por suas funções, mas por aquilo que podem, pelos afetos dos quais são capazes, tanto na paixão quanto na ação.” (Deleuze, 1998) O que é o corpo em si, senão a própria psicose: um corpo cansado de seus órgãos que se recusa a ser feito e reduzido enquanto organismo, que se recusa a ser estratificado, conduzido a uma significação, a um sujeito: eis o Corpo sem Órgãos (CsO). Não se trata bem de um conceito, mas de uma prática (ou um conjunto de práticas), algo que se faz consigo mesmo, que se experimenta (Deleuze e Guattari, 2012). “(…) o CsO não é de modo algum o contrário dos órgãos. Seus inimigos não são os órgãos. O inimigo é o organismo. O CsO não se…

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: ERNEST JONES

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ERNEST JONES(1879-1958), psiquiatra e psicanalista inglês, fundador da Psicanálise na Grã-Bretanha, criador do Comitê Secreto, artífice do debate sobre a Antropologia, organizador e presidente da International Psychoanalytical Association (IPA) durante dois períodos cruciais (1920-1924 e 1934-1949), excelente negociador durante as Grandes Controvérsias, pioneiro da historiografia psicanalítica e da tradução inglesa da obra freudiana (por James Strachey), teve um papel considerável na história política do freudismo. Durante muitos anos, foi o líder incontestável do movimento, e, se porventura se comprometeu com o nazismo, acreditando assim “salvar” a Psicanálise na Alemanha, também ajudou os emigrantes alemães, austríacos e húngaros a encontrar acolhimento nos países anglófonos, Estados Unidos e Inglaterra. Sigmund Freud não gostava dele, mas ao longo dos anos, embora desaprovando muitas vezes as suas iniciativas, confiou nele para administrar os assuntos políticos do movimento, especi…

IV ENCONTRO "LER & ESCREVER"

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Prezados Leitores
É com muita satisfação que convidamos para, no próximo dia 11/out/2014, das 15h às 18h, o IV Encontro “LER & ESCREVER”, promovido pela REVISTA VÓRTICE DE PSICANÁLISE. O tema do Encontro será “DEUTUNG: O ESFORÇO RUMO À FICÇÃO”.
A análise não é muitas vezes um ensinamento, e talvez não o seja jamais. É, de preferência, uma experiência que modificará o sujeito que passa por ela. Quanto ao papel do pensamento teórico – ou do saber metapsicológico -, não é fácil precisá-lo. Disto não é questão na análise, mas, o que não impede que o analisando empreste ao analista um saber deste gênero e que ele espere (em vão, bem entendido) da boca do analista a palavra de sua verdade (aquela do paciente, é claro). Ora, esta palavra não tem provavelmente existência alguma.” (Octave Mannoni) “O analista recebe o paciente em espaços que vão se delineando progressivamente.” (Suzete Capobianco)
Através de recortes do Artigo de Octave Mannoni – “O Divã de Procusto” -, e do Artigo de Suzete C…

VERBETES: AB-REAÇÃO

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AB-REAÇÃO, termo introduzido por Sigmund Freud e Josef Breuer em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos. O termo “ab-reação” aparece pela primeira vez na “Comunicação Preliminar” de Josef Breuer e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do mecanismo psíquico atuante nos fenômenos histéricos. Nesse texto pioneiro, os autores anunciam desde logo o sentido de seu procedimento: conseguir, tomando como ponto de partida as formas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a princípio e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno histérico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de “resistências”, e que somente o recurso à hipnose permite superar. Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao aconte…

SIMPLICISSIMUS ABSURDUM (Marcos InHauser Soriano)

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O interesse extremo que ainda hoje desperta a Psicanálise vem em grande parte do fato de ser esta a mais forte candidata à posição de teoria científica da alma, estrategicamente colocada como está entre Filosofia, Psicologia, Medicina e Literatura.” (Fabio Herrmann)
Acordou decidido. Não havia mais o que protelar. Decididamente iria ter com ela. Ela, sua bailarina escolhida. Na verdade não dormiu direito, com a cabeça repousada sobre o travesseiro ficou a devanear minuciosamente os preparativos do grande dia que iria se seguir. A cabeça sobre o travesseiro e um leve sorriso de satisfação a repousar em seu rosto. Flores... Compraria flores. Rosas vermelhas misturadas com rosas brancas de “bandeira branca, amor”. Toda mulher gosta de flores... Rosas para sua Rosa. Papel e envelope rosa, de boa qualidade, para escrever a mensagem que se fazia à noite, na cabeça aconchegada pelo travesseiro. Uma bonita caixa de bombons trufados, sortidos, que ela aprecia. Aqueles que se dissolvem em sua boca,…

MUITAS VEZES OUÇO, ALGUMAS VEZES OBSERVO E QUANDO POSSO EU SINTO... (José Antonio Da Rocha Ponce Soler)

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O presente Artigo trata de uma reflexão sobre a qualidade da presença do analista durante a sessão de análise. O autor classifica três terrenos onde procura organizar algumas ideias a partir de cada um destes: quando o analista ouve; quando o analista observa; quando o analista sente. O autor propõe que tal divisão é uma maneira de organizar a compreensão da experiência a posteriori, tentando aproximar-se do miúdo do que se desenrola em sua experiência emocional quando dentro de cada um destes terrenos.
A ‘observação’ psicanalítica não concerne nem ao que ocorreu nem ao que vai ocorrer, mas ao que está ocorrendo.” (Bion, 1967) “A experiência emocional que o analista pode se valer é aquela de que pode ter consciência e ao mesmo tempo, perceber que tem algum distanciamento da mesma para poder pensá-la. Não quer dizer que aquilo que sente é o que sente o analisando – é um sentimento seu próprio que pode estar sendo mobilizado por algo que está acontecendo no consultório ou por alguma atitu…