4 de abril de 2014

NOTÓRIOS DA PSICANÁLISE: THOMAS MANN



THOMAS MANN (1875-1955), escritor alemão, considerado por alguns críticos como um dos maiores romancistas do século XX, nascido em Lübeck, no norte da Alemanha, em 06 de junho de 1875, de mãe mestiça de origem brasileira, Júlia da Silva Bruhns, cuja beleza exótica e sensual inspiraria ao romancista alguns de seus personagens femininos mais fascinantes, e de um pai, Johann Heinrich Mann, comerciante originário de uma das mais ilustres famílias protestantes da cidade. Irmão mais novo do também romancista Heinrich Mann.
Em 1892, depois da morte de seu pai, dificuldades financeiras levaram a família a instalar-se em Munique, onde Thomas Mann publicou sua primeira novela em 1894. Em Munique, no bairro boêmio de Schwabing, a senhora Mann tornou-se uma agitadora cultural, promovendo saraus literários em sua residência. Aquele que se tornaria um dos maiores escritores alemães do século XX conheceu o sucesso desde 1901, com seu romance “Os Buddenbrook”, grandioso painel da decadência de uma família burguesa, amplamente inspirado na história de sua própria família paterna. Ainda em Munique, foi um dos editores do jornal satírico/humorístico “Simplicissimus”.
Em 1905, apesar de evidentes impulsos homossexuais que o acompanhariam por toda uma vida repleta de casos não correspondidos, casou-se com Katja Pingsheim, neta de Hedwig Dohm, importante ativista pelos direitos da mulher, com quem teria seis filhos: Erika, que se tornaria escritora e recolheria as confidências da mãe no fim de sua vida; Klaus, também escritor, que se suicidaria em 1949 em Cannes, depois de concluir “Le Tournant”, sua segunda autobiografia; Golo, jornalista; Monika, nascida em 1910, no ano do suicídio de Carla, uma das irmãs de Thomas Mann; Elisabeth e Michael.
Herdeiro do mundo prometeico da literatura romântica alemã, Thomas Mann foi ligado durante toda a vida à filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860), à de Friedrich Nietzsche (1844-1890) e ao universo wagneriano. Esse fascínio pelas grandes epopeias líricas, pelos sábios loucos e pelos mágicos, sua hostilidade pelas formas de pensamentos racionais, suspeitas, a seus olhos, de reducionismo, estavam na origem dos erros e das ambiguidades que caracterizariam sua relação com a Política e com a Psicanálise.
O ódio que Thomas Mann sentia pelos valores do mundo ocidental, do qual excluía a Alemanha, quer se tratasse do parlamentarismo, do internacionalismo, dos ideais socialistas e mais ainda da psicologia, o levou a tomar partido pelo imperialismo prussiano já em 1914. A guerra lhe parecia então uma cruzada em defesa da cultura germânica. Assim, indispôs-se com seu irmão mais velho, Heinrich (1871-1950), também escritor e jornalista, apaixonado pela França e pela Itália, que se engajou em 1914 contra o empreendimento militarista da Alemanha Guilhermina. Em 1918, Thomas Mann, amargurado com a derrota alemã, publicou uma obra-prima panfletária, “Considerações de um apolítico”, de tom populista e nacionalista, na qual atacava novamente, com incrível violência, a psicologia sob todas as suas formas, que acusava de cultivar a evidência e de não respeitar a arte e a criação.
Em 1924, depois de se reconciliar com o irmão, publicou uma de suas obras mais célebres, “A montanha mágica” (Der Zauberberg), que lhe valeu uma reputação internacional: o escritor alemão mais conhecido do mundo recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1929. Durante esses anos, suas opiniões políticas mudaram. Desde o surgimento dos primeiros sintomas anunciadores da ascensão do nazismo, aliou-se às forças de esquerda, empenhando todo o seu prestígio nas campanhas eleitorais, multiplicando as conferências para a juventude, colaborando com os sindicatos para impedir a volta da barbárie. Consternado, tomou consciência de uma reviravolta histórica: o nazismo triunfante tomava para si, de modo caricatural mas eficaz, os valores da Alemanha romântica aos quais ele era tão apegado. O justo combate dos filósofos românticos se tornou anacrônico; não era mais hora para a apologia do instinto e do irracional contra a alienação moderna; era preciso mobilizar todas as forças disponíveis para socorrer a civilização ameaçada.
Sem questionar a sinceridade e a força desse engajamento, parece, entretanto, que ele não foi tão espontâneo e enérgico quanto se relata. Em 1996, sua filha Erika, que foi uma Resistente ao nazismo desde a primeira hora, publicou um livro de memórias no qual transcreveu cartas trocadas com o pai, entre 1933 e 1936. Algumas dessas cartas mostram a demora do escritor, então na Suíça, em assumir uma posição pública contra os novos senhores de seu país. A seu irmão Klaus, Erika escreveu: “Cabe a nós, apesar de nossa juventude, uma pesada responsabilidade, na pessoa do nosso pai menor”. Em fevereiro de 1936, Thomas Mann publicou em um jornal suíço uma tomada de posição isenta de ambiguidade, que o reconciliaria com a filha, como prova o telegrama que ela lhe dirigiu: “Obrigada, parabéns, benção”.
Considerando-se os temas dominantes da obra de Thomas Mann - a doença, a sexualidade e a morte -, poder-se-ia pensar que seu encontro com a obra freudiana foi rápido e simples. Ideia equivocada.
Contraditório em suas declarações, Thomas Mann até se desculparia, em uma carta de 03 de janeiro de 1930 a Sigmund Freud, pelo caráter tardio de sua compreensão da teoria psicanalítica e de sua adesão aos valores de que ela era portadora, enquanto havia declarado, em 1925, que sua novela “Morte em Veneza”, publicada em 1912, havia sido escrita sob a influência direta de Freud. Na verdade, ele sempre cultivou a ambiguidade quanto a esse ponto.
Na primeira parte de sua vida e de sua obra, seu ódio a toda espécie de psicologia, seu temor de vê-la apoderar-se da arte e da literatura, se não permitem formular a tese de uma ignorância absoluta da descoberta freudiana, explicam, entretanto, sua distância em relação à Psicanálise e a ironia com a qual a comentava. Quanto a isso, Jean Finck observou: “Em um primeiro tempo, Thomas Mann desloca para a Psicanálise, pelo menos particularmente, suas suspeitas em relação à ação supostamente desmoralizadora e inimiga da vida que ele atribuiu à psicologia”.
Por outro lado, é verdade, e o próprio Thomas Mann reconheceria, que, por sua cultura e suas leituras, por seu amor à filosofia romântica alemã, ele estava preparado para abordar as ideias freudianas. Aliás, nunca deixaria de enfatizar, às vezes excessivamente, a filiação, evidente para ele, entre Schopenhauer e Freud. Mas só em meados dos anos 1920, quando se esboçava sua virada política, Thomas Mann se confrontou francamente com a obra de Freud, cuja influência é evidente em “José e seus irmãos”, esse grande afresco iniciado em 1926.
A partir de então, seu interesse, sua simpatia, e até sua admiração pela Psicanálise – e talvez mais ainda pela pessoa de Freud -, se expressariam de maneira sonora, quase como um engajamento moral.
Dois textos célebres ilustram esse reconhecimento: “Freud e o futuro”, escrito em 1936, por ocasião do 80º aniversário do inventor da Psicanálise; e “Freud e o pensamento moderno”, publicado em 1929, ano do Prêmio Nobel, sem dúvida um dos textos mais admiráveis redigidos sobre Freud, como certas linhas de Stefan Zweig.
Freud e o pensamento moderno” é um texto de combate filosófico e político. À maneira de Nietzsche, sob cuja inspiração ele inscreveu seu percurso, Thomas Mann revia algumas de suas posições anteriores, mas principalmente, como verdadeiro estrategista da luta das ideias, desmontava a utilização pervertida que as forças das trevas faziam dos valores ligados à cultura (e singularmente daqueles provenientes do romantismo alemão).
Em sua época, Nietzsche tinha analisado e criticado a trajetória dos pensadores alemães que acreditavam discernir nos valores do Aufklärung os germes do progresso, apelando para que se deixasse de considerar a filosofia romântica como uma obra reacionária e mostrando, principalmente, que a filosofia de Schopenhauer, na verdade, retornava aos valores tão elogiados por Petrarca, Erasmo e Voltaire.
Thomas Mann retomou essa bandeira e fez o elogio de “Totem e tabu”, que acabava de reler. Esse livro, escreveu ele, “nos incita mais do que a uma simples meditação sobre a espantosa origem psíquica do fenômeno religioso e sobre a natureza profundamente conservadora de toda reforma”. Freud, explorador das profundezas, se inscrevia evidentemente na linhagem dos pensadores dos séculos precedentes que, em vez de ignorar ou idolatrar a face noturna do ser, lançaram as premissas de seu conhecimento. Não acreditemos, prosseguiu o autor de “Mário, o mágico”, que Freud, por explorar o obscuro, analisar o Glauco e visitar a cloaca, fosse um obscurantista.
Defendendo assim o pensamento freudiano, Thomas Mann estava de pleno acordo consigo mesmo. O inconsciente freudiano era, efetivamente, o golpe fatal para essa psicologia clássica que ele detestava, e o anti-racionalismo de Freud “equivale a compreender a superioridade afetiva e dominante do instinto sobre o espírito; ele não equivale a uma prosternação admiradora diante dessa superioridade, a uma ironia do espírito”. O narcisismo e a pulsão de morte eram reconhecidos, nas entrelinhas, por Thomas Mann, na obra de Novalis e “o que se chamou erroneamente de pansexualismo de Freud, a sua teoria de libido, é, em resumo e sem qualquer mística, um romantismo que se tornou científico”. E Mann encontrou tons beethovenianos, como os do “Hino à alegria”, para concluir sua análise: a Psicanálise “é essa forma de irracionalismo moderno que resiste claramente a todo abuso reacionário que se faz dele. Ela é, declaramo-nos convictos, uma das pedras mais sólidas que contribuíram para edificar o futuro, morada de uma humanidade libertada, que chegou ao conhecimento”.
Em 1930, por ocasião de uma reedição de sua autobiografia, Freud acrescentou algumas linhas à guisa de conclusão, pelas quais ele aceitava enfim que o classificassem entre os grandes pensadores da humanidade. Ao fazer isso, era Thomas Mann quem ele saudava: “Foi em 1929, lembrava, que Thomas Mann, um dos autores que mais tinham vocação para porta-voz do povo alemão, me atribuiu um lugar na história do espírito moderno, em frases tão ricas de conteúdo quanto de amabilidade”.
Em 08 de maio de 1936, quando os nazistas não faziam mais mistério de suas intenções, Thomas Mann pronunciou em Viena um discurso lírico em honra do “psicólogo do inconsciente (...), verdadeiro filho do século de Schopenhauer e de Ibsen, entre os quais nasceu”. Demonstrou sua humildade, lembrando nessa ocasião que foi mais a Psicanálise que veio a ele do que ele a ela, e explicou que “mal ousava” falar de Freud, que devia ser honrado “como pioneiro de um humanismo do futuro”. Um mês depois, em 14 de junho de 1936, foi visitar Freud para ler-lhe pessoalmente esse texto. Max Schur relatou como esse elogio impressionou Freud, que escreveu, em uma carta de 17 de junho de 1936 a Arnold Zweig, como essa visita o emocionara: “Thomas Mann, que fez uma conferência sobre mim em cinco ou seis lugares diferentes, teve a gentileza de repeti-la para mim, no domingo, dia 14 deste mês, para mim pessoalmente, no meu quarto, aqui em Grinzing. Para mim e os meus, que estavam presentes, foi uma grande alegria”.
Mann deixou a Alemanha e foi para os Estados Unidos em 1938. Ensinou em Princeton, antes de fixar residência na Califórnia. Em 1944, adquiriu a nacionalidade americana e dedicou, a partir dessa data, muito de sua energia a descobrir as raízes do cataclisma cuja responsabilidade coletiva, a seus olhos, cabia a seu país natal. Como observou Jean-Michel Palmier, essa posição seria duramente criticada por Bertolt Brecht (1898-1956), que o acusaria de confundir alemão e nazista.
Em 1945, em um texto intitulado “Por que não volto à Alemanha”, explicou seu percurso intelectual e político e seu abandono progressivo das raízes alemãs: “É verdade que a Alemanha se tornou estranha para mim durante todos esses anos. Hão de convir comigo que é um país que dá medo”. Acusando os alemães em geral por sua participação, mesmo passiva, nessa “pavorosa guerra”, exclamou: “Que grau de insensibilidade não foi necessário para ouvir o ‘Fidelio’ na Alemanha de Himmler, sem cobrir o rosto com as mãos e sair do teatro correndo!”.
Em 1952, Thomas Mann deixou definitivamente os Estados Unidos e fixou-se na Suíça, a partir de onde percorreu a Europa fazendo conferências, inclusive na Alemanha. Morreu em Zurique, em 12 de agosto de 1955.
A obra de Thomas Mann, que apresenta descrições minuciosas e um realismo psicológico e preciso, com a análise de cada particularidade, é uma expressão estética do esforço de contrapor dois valores essenciais: de um lado a sociedade, o senso comum, o valor da vida; do outro a alienação, o individualismo, o escapismo romântico, o jogo estético, que culminam na doença e na morte.

OBSERVAÇÃO: Este texto segue as diretrizes biográficas redigidas por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon para o DICIONÁRIO DE PSICANÁLISE.