25 de maio de 2014

MUITAS VEZES OUÇO, ALGUMAS VEZES OBSERVO E QUANDO POSSO EU SINTO... (José Antonio Da Rocha Ponce Soler)



O presente Artigo trata de uma reflexão sobre a qualidade da presença do analista durante a sessão de análise. O autor classifica três terrenos onde procura organizar algumas ideias a partir de cada um destes: quando o analista ouve; quando o analista observa; quando o analista sente.
O autor propõe que tal divisão é uma maneira de organizar a compreensão da experiência a posteriori, tentando aproximar-se do miúdo do que se desenrola em sua experiência emocional quando dentro de cada um destes terrenos.

A ‘observação’ psicanalítica não concerne nem ao que ocorreu nem ao que vai ocorrer, mas ao que está ocorrendo.
(Bion, 1967)
A experiência emocional que o analista pode se valer é aquela de que pode ter consciência e ao mesmo tempo, perceber que tem algum distanciamento da mesma para poder pensá-la. Não quer dizer que aquilo que sente é o que sente o analisando – é um sentimento seu próprio que pode estar sendo mobilizado por algo que está acontecendo no consultório ou por alguma atitude ou movimento que estaria sendo feito pelo analisando.
(Castelo Filho, 2013)


Percebendo em mim a necessidade de organizar o que vem se construindo a partir de minha formação psicanalítica, procuro aqui descrever uma maneira de pensar minha clínica. Quando aponto para a minha maneira, não estou de modo algum arrogando algo novo, inédito, ao contrário, aponto para alguma coisa que parece ser um olhar já um tanto influenciado por muitas maneiras de ver a clínica - isso inclui as teorias psicanalíticas, a convivência em minha análise pessoal, supervisão e instituição psicanalítica.
Em minha cabeça surgem sempre questões quando estou tentando fazer psicanálise. Algumas delas são: mas o que é isso que eu estou ouvindo? Do que se trata? O que é isso que eu estou vendo ou observando acontecer ali na minha frente? O que é isso que estou sentindo quando estou com essa pessoa?
Eu não tenho a pretensão de responder nenhuma destas questões, procuro com elas circunscrever o campo de minha atenção, creio que estas sejam comuns aos colegas.
Tenho feito para uso pessoal uma discriminação do meu estado emocional junto ao cliente. Didaticamente divido assim: 1) quando ouço o cliente; 2) quando observo o cliente e me observo; e 3) quando sinto algo em relação ao cliente ou a partir do contato com o mesmo.
É claro para mim que este esquema é artificial e não pode ser usado durante minha prática clínica, sendo apenas uma maneira de descrever o meu estado emocional durante a sessão. Essa reflexão é algo que se passa depois da experiência. 
Dentro destes diferentes terrenos (1-2-3) procuro perceber a qualidade da minha presença durante o encontro com o outro - esta é vista a partir deste modelo de observação, alterando-se. Procuro aproximar do leitor a natureza dessas alterações.
É para mim evidente que os três terrenos são intercambiáveis e não podem ser excludentes; são, na verdade, interdependentes. No entanto, aqui aponto para aquilo que é possível ao analista tocar ou sintonizar com a experiência em trânsito a partir de cada um destes terrenos, ou seja, a natureza da presença do analista dentro de cada um destes territórios.
Começo descrevendo uma situação clínica que me discrimino predominantemente dentro do terreno (1), ou seja, quando ouço:
H chega para a sessão pontualmente, abro a porta quando o vejo não me percebo tocado por aquele encontro e tampouco noto alguma emoção vinda de H. Ele se deita e fala longamente sobre sua mulher; queixa-se da autoridade desta sobre ele, do quanto se percebe ameaçado por suas opiniões. Estou ali ouvindo o que ele me diz, minha mente é levada para um tipo de articulação que denomino agora causal [1], me lembro daquilo que H pode ao longo do tempo me contar sobre sua tumultuada relação com sua mãe, seu estado de alerta diante desta e também da figura do pai. Alguns conceitos me surgem “livremente”: Complexo de Édipo, superego, transferência, etc.
Comento alguma coisa com H sobre o quanto aquilo que me descrevia, uma figura autoritária, poderosa e ameaçadora, parecia de algum modo já bastante presente desde muito em sua mente; a conversa fica produtiva, segundo pude notar naquele momento, ele trás outras associações e eu fico de algum modo satisfeito com aquele trabalho.
Percebo-me distante do analisando, sou um ouvido atento, ligado a uma mente que articula ideias que me parecem naquele momento pertinentes. Não percebo assombro ou grandes emoções presentes entre nós, a não ser uma espécie de concordância mútua: estamos no caminho, estou fazendo análise.
A qualidade da minha presença é calma, estou seguro para falar, “pensar”, pesquisar e tenho a noção de um espaço confortável entre o analisando e eu, me vejo pouco implicado nas questões, o que não implica em descaso ou rejeição pelo material ali presente.
Trata-se, segundo posso alcançar, de uma maneira de estar durante o contato com o outro. Uma maneira participativa e até bastante ativa, mas a minha questão é: o que em mim participa e age quando estou dentro deste terreno, que denomino “1- quando ouço?”. Suponho que o que participa ativamente nessa experiência seja uma dimensão mais lógica, ou até mesmo implicada em saber sobre, ou levar o outro, a saber sobre. O que age em mim nesta situação é uma intenção bastante importante de entender e fazê-lo entender sobre o que se passa consigo. Percebo agora que escrevo o quanto nesta situação estou lidando com memória, desejo e ânsia por saber. Para Bion (1957), “Toda sessão na qual o psicanalista toma parte não deve ter nem história nem futuro. O que se conhece sobre o paciente não tem maior importância: é falso ou irrelevante”.
Como sugeri acima, estes terrenos são intercambiáveis e até mesmo, creio, que interdependentes. Assim vou descrever uma situação clínica onde segundo o meu vértice de observação estive às voltas ou dentro dos terrenos “2-quando vejo e “3-quando sinto”.
W é um homem de aproximadamente quarenta anos, não se casou e me procurou para análise trazendo como queixa uma importante dificuldade de se relacionar, namorar... W está em trabalho analítico há um ano com três sessões semanais.
Fragmento de uma sessão:
Esta é uma sessão de reposição, um domingo antes do almoço.
Aguardo W, percebo ou observo em mim entusiasmo para o encontro, me sinto disponível e me noto, depois, tomando contato com o dia, um domingo, e com que facilidade propus-me a atendê-lo.
W chega alguns minutos atrasado, quando o vejo, noto alguma coisa intempestiva em seu modo, ao mesmo tempo vejo alguma outra coisa distante de intempestividade, talvez calma ou até, quem sabe, uma amorosidade.
Estou nesta experiência implicado, sou convocado espontaneamente a observar e a sentir, me vejo confuso, existe ali turbulência.  Noto um espaço, no entanto mínimo, entre o que sinto e o que posso pensar a partir do que estou observando naquela ou daquela situação e sentindo a partir disto. Não me está disponível aqui teorias psicanalíticas, me vejo vivendo ou sendo, não conjecturando sobre ser. Meu ouvido esta entupido e as palavras funcionam como ruído indesejado, que inclusive parecem querer impedir que se ouça o que está ali evoluindo ou sendo vivido.
W se deita e diz não perceber nada para dizer. Depois de um pequeno espaço de tempo começa a relatar um acontecimento de sábado à noite onde se viu às voltas com sentimentos de desvalia e humilhação.
Procuro de algum modo aproximar o cliente de elementos que poderiam estar ali presentes na sala e sobre os quais ele não estava podendo naquele momento fazer menção ou tomar sequer contato.
Ele fica atento e diz: “sabe, talvez você tenha razão, quando eu cheguei pensei: puxa vida é domingo e ele está aqui para me atender e eu nem trouxe o pagamento...”.
Neste momento o percebo realmente próximo a situações que estava vivendo naquele momento, mesmo que pareciam ser bastante difíceis de serem vividas.
Comunico isto ao cliente. Ele me ouve com alguma atenção, depois começa a falar longamente de situações em que se vê absolutamente dispensado pela namorada, se queixa do quão pouco esta o valoriza e até o humilha, maltrata. Além disso, relata que se sente como se ela nunca estivesse de fato presente nas situações.
Esta fala dura um tempo considerável; estou longe agora, me vejo desmotivado, sinto desânimo, talvez humilhado. Fico assim por um tempo, aceito sentir...
Não o sinto mais presente, o mesmo observo se dando comigo.
Sem que eu me dê conta, um espaço entre aquilo que sinto e o que vou podendo pensar parece que se estabelece. Uso a palavra pensamento aqui, mas esta muitas vezes me parece carregada de uma ideia de algo que foi ponderado ou avaliado, peneirado, conscientizado - este não é o caso do que estou contando que vivi; aponto para algo que a princípio não tem qualquer traço de consciência, uma conjunção constante talvez, elementos que se juntam formando espontaneamente um clarão. Lembro-me aqui do que Castelo Filho (2003) diz: “A transformação dos dados sensoriais em não sensoriais, como assinalei, não é uma operação intelectual e não depende da vontade. Está vinculada à operação da função alfa.
Não resolvo dizer, digo!
Conto que percebi que enquanto ele falava, se formava entre nós dois alguma coisa realmente intransponível, algo que nos colocava de fato muito distantes um do outro e que isto talvez tenha muita relação com sua queixa sobre a falta de presença que ele sentia nas pessoas com quem se relacionava; saliento que ele também ficava ausente, sem presença para lidar com o que estava se desenrolando ainda há pouco entre nós, na situação que percebia sobre o que sentiu de não ter podido me fazer o pagamento e da percepção que teve sobre a minha disposição para com ele, e o que isto poderia desencadear...
O clima muda novamente, me sinto próximo, ali, implicado e o convidando ao contato. Nesta situação não me valho até onde noto de “teorias fortes (Rezze, 2011), estou no escuro e me sinto muito mais atento ao miúdo que se desenrola entre nós. A qualidade da minha presença é intensa, estou vendo, estou sentindo; e mesmo não sabendo em última instância o que vejo e o que sinto, trabalho ou procuro trabalhar com este miúdo quase invisível ali se dando. Suponho que neste terreno estou “considerando a experiência emocional do analista para a captação da realidade psíquica” (Castelo Filho, no prelo, 2013).
As questões aqui apresentadas neste flash de material clínico são ricas em provocar as mais diferentes associações e interpretações em nós analistas, no entanto procuro aqui discriminar, se é que seja possível isto, os níveis diversos da qualidade da minha presença no encontro analítico.
Noto que no segundo exemplo, transito de um campo do que vou observando para o que vou sentindo e estou, aqui, muito menos atento ao que escuto. 
Minhas questões iniciais não foram respondias como eu anunciei em princípio. Ao contrário de respostas, outras foram às questões que pude pensar:
I. Estou mais próximo de que quando transito do terreno “1-quando ouço”, percorro o terreno “2-quando vejo” e chego em “3-quando sinto?”.
II. Estaria transitando de uma realidade mais sensorial para uma realidade psíquica não sensorial?
III. Posso pensar em gradação da qualidade da presença do analista durante a sessão de análise?
Termino citando um pequeno trecho do livro de Clarice Lispector, “A Paixão Segundo GH”:
Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as visões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo.” (Lispector, 2009)


NOTAS
[1] Em “Transformações”, diz Bion (2004): “Categorizo a ideia de causa, neste contexto, como D2, ou seja, uma pré-concepção relativamente primitiva, utilizada para impedir que algo mais venha à tona”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BION, W. R. (2004) Transformações: do aprendizado ao crescimento. Tradução de Paulo Cesar Sandler. São Paulo: Imago Ed.

BION, W. R. (1967) “Notas sobre memória e desejo” in Melanie Klein Hoje: Artigos predominantemente técnicos (Vol.2). São Paulo: Imago Ed., 1990.

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LISPECTOR, C. (2009) A Paixão Segundo GH. São Paulo: Rocco.


JOSÉ ANTONIO DA ROCHA PONCE SOLER é Membro filiado do Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP.


20 de maio de 2014

O SENTIMENTO DE CULPA NA PSICANÁLISE (Wagner da Matta Pereira)


O custo de um alto nível de civilização é o sentimento de culpa.
(Sigmund Freud)

O sentimento de culpa é algo amplamente abordado pela religião, filosofia e jurisprudência. Para a Psicanálise, é a experiência edípica que inaugura as bases da moralidade; e o superego, sequela deixada pelo Édipo, a instância responsável pela veiculação da culpa. O sentimento de culpa é o pilar da civilização, pois através deste, as pulsões de destruição inerentes ao ser humano seriam redirecionadas para o bem-estar da humanidade (FREUD, 1913/1974). A Psicanálise acredita que sem o sentimento de culpa a humanidade estaria fadada à destruição (FREUD, 1997).
Segundo Kahn (2005), existem três tipos de culpa: a ruidosa, que é explícita e consciente ao sujeito; a reservada, que não se anuncia como culpa; e a culpa silenciosa, a que não dá sinal de alerta, mas que pune através de diversos mecanismos, como o sentimento de infelicidade e menos valia. No entanto, em níveis distintos, todo sentimento de culpa pode ser nocivo para o indivíduo, podendo levá-lo ao adoecimento físico-psíquico. A culpa possui um caráter inibidor e patológico, ela se alimenta de uma grande quantidade de energia psíquica para manter a constância do seu sofrimento na pessoa, a qual se acha merecedora de punição. O castigo é infringido por um superego cruel que induz o sujeito a ter atitudes autopunitivas, levando-o ao desenvolvimento da depressão, da fobia e dos transtornos de ansiedade e alimentares, por exemplo.
Mas quando e onde nasce o sentimento de culpa na teoria psicanalítica? Ao longo da elaboração da teoria psicanalítica, Freud cria diversos conceitos importantes - um deles é o de superego, que assim como outros, foi criando forma com o tempo. Em 1914 Freud escreve “Sobre o Narcisismo: uma introdução” (Zur Einführung des Narizssmus). O texto foi elaborado tendo como base o estudo das parafrenias (psicoses). Nesse momento, Freud se questionava sobre o destino da pulsão, força motriz que impele o organismo para um alvo qualquer, em busca de satisfação. Nos esquizofrênicos esta pulsão seria possivelmente retirada do mundo externo e reinvestida no próprio sujeito. “La libido sustraída do mundo exterior há sido aportada ao yo, surgiendo así um estado al que podemos dar el nombre de narcisismo” (FREUD, 1967, p. 1083). Freud comentou que tal ideia não era é nova, pois já estava presente na criança e nos povos primitivos (narcisismo primário), e concluiu dizendo que havia dois tipos de libidos: a libido do “Eu” e a do objeto.  
 A libido objetal alcança sua maior força na paixão, quando grande parte da libido do “Eu” se volta para o objeto desejado. A extrema oposição desse processo dá-se na fantasia paranoica de fim de mundo, quando a libido se centra no “Eu”.  Freud argumenta que há outras ocasiões em que o interesse libidinal é retirado do objeto externo e reinvestido no “Eu” - por exemplo, quando o “Eu” passa por uma dor física, quando fica sonolento, ou hipocondríaco. Neste caso, a libido é retirada dos objetos do mundo externo e deslocada para o órgão enfermo. Outro comentário de Freud em “Sobre o Narcisismo”, diz respeito à formação do ideal do ego e do ego ideal, dois conceitos que até hoje geram confusão. O ideal do ego é fruto de uma representação narcísica nunca abandonada; o ego ideal é o substituto do narcisismo perdido na infância, na qual a criança era o seu próprio ideal. A partir desses dois conceitos, Freud dará início à elaboração de uma nova instância psíquica: o superego. Esta, a qual ele dará maiores contornos em sua segunda teoria do aparelho psíquico, também chamada de segunda tópica, surge da influência crítica dos pais, da opinião social e da cultura. O superego cumpre com o objetivo principal de observar constantemente o ego e criticar suas intenções (do ego) como um juiz. Segundo Laplanche e Pontalis (1983), o superego tem origem quando a criança, renunciando à satisfação de seus desejos edipianos atingidos pela interdição, transforma o seu investimento nos pais em identificação com os pais, interiorizando assim a interdição. Apesar de Laplanche e Pontalis não mencionarem o aspecto biológico contido na formação do superego, Freud não o descarta e retorna a ele em artigos posteriores.

Se considerarmos mais uma vez a origem do superego, tal como a descrevemos, reconheceremos que ele é o resultado de dois fatores altamente importantes, um de natureza biológica e outro de natureza histórica, a saber: a duração prolongada, no homem, do desamparo e dependência de sua infância, e o fato de seu complexo de Édipo, cuja repressão demonstramos achar-se vinculada à interrupção do desenvolvimento libidinal pelo período de latência, e, assim ao início bifásico da vida sexual do homem”. (FREUD, 1923/1974, p. 47)

Como descreveu Freud, existe uma culpa de natureza “biológica”, decorrente do estado de desamparo do infante, que depende dos cuidados primários do adulto para a sua sobrevivência; e a culpa originária da resolução do complexo de Édipo, a qual é reeditada na cultura, isto é, a culpa que nasce no núcleo familiar através do interdito que já se encontra latente no social. A hipótese freudiana da transcendência de uma vivência individual do Édipo culminou na culpa social descrita em “Totem e Tabu” (1912/1913). O remorso que se instaura nos irmãos da ordem primeva, em decorrência do assassinato do pai, coincide com o remorso da criança. Interpelado pelas exigências do Édipo, a criança anseia por livrar-se do pai para ficar com a mãe, embora o ame. Para Freud, a ambivalência entre os sentimentos de amor e ódio seriam fundadores dos conflitos humanos.

O que até então fora interdito por sua existência real foi doravante proibido pelos próprios filhos, de acordo com o procedimento psicológico que nos é tão familiar nas psicanálises, sob o nome de ‘obediência adiada’. Anularam o próprio ato proibindo a morte do totem, o substituto do pai; e renunciaram aos seus frutos abrindo mão da reivindicação às mulheres que agora tinham sido libertadas. Criaram assim, do sentimento de culpa filial (grifo nosso), os dois tabus fundamentais do totemismo, que, por essa própria razão, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos reprimidos do complexo de Édipo.” (FREUD, 1999, p. 147)
   
O sentimento de culpa está diretamente atrelado ao nascimento do superego, como uma sequela deste. A culpa surge da observação e críticas constantes dirigidas ao ego, da incapacidade de se cumprir com as exigências de uma idealização internalizada, de uma conduta moral ou ética a ser seguida e que foram estabelecidas pelo processo de socialização, primeiramente na família e depois na comunidade.  Em ambos os processos de identificação, isto é, com o “Pai” do núcleo familiar e com o da horda primitiva, a culpa tem a finalidade de civilizar o indivíduo a partir da repressão de suas exigências pessoais, na qual o ego tem o papel de mediador entre o id, regido pelo princípio do prazer, e o superego (ideal do ego), governado pelo princípio da realidade, teorizações feitas por Freud em artigos posteriores a “Totem e Tabu” e “Sobre o Narcisismo”.

O pensamento freudiano evidencia o conflito entre as exigências individuais e as sociais, e é neste embate que se dá a formação de uma sociedade, de uma cultura. Em todo agrupamento social está em jogo a urgência de um relacionamento possível entre seres humanos e a satisfação dos desejos individuais, estes muitas vezes contrários ao bom convívio social. Freud elabora uma teoria sobre a cultura que poderia ser dividida em dois momentos cruciais.” (GOLDENBERG & PEIXOTO, 2011, p.3)

Goldenberg e Peixoto se referem aos dois períodos que marcaram a evolução do pensamento freudiano. O primeiro, chamado de primeira tópica (1900 – 1920), é marcado pela a diferenciação entre o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Neste momento, Freud já estaria selecionando o material que, mais tarde, daria origem ao superego. O segundo momento apresenta as três instâncias psíquicas mais conhecidas de sua teoria: o id, o ego e superego (ROUDINESCO & PLON, 1998).
É no primeiro momento de sua tópica, que Freud escreve “Totem e Tabu” (1912-1913). A ideia principal exposta neste artigo é a de que a sociedade civilizada se funda pela culpa, em consequência do assassinato do pai primitivo. O ato em questão instaura os tabus do parricídio e do incesto, os quais fundam a civilização. A cultura nasceria do interdito - condição indispensável para que as pulsões sexuais, que levariam à mera satisfação egoísta dos indivíduos e à sua própria destruição, sejam barradas. Em “Totem e Tabu”, a culpa se configura em um elemento fundamental para a obediência do indivíduo à lei. O livro também supõe a existência da herança simbólica da culpa, a qual passa a ser transmitida filogeneticamente. “A culpa decorrente do assassinato do pai e fundadora da sociedade marca o psiquismo humano de forma duradoura e indelével” (GOLDENBERG & PEIXOTO, 2011, p.3). Freud sugere que o sentimento de culpa está cravado na carne humana e destinado a orientar os caminhos da humanidade (FREUD, 1999).
Figueiredo e Cintra (2008) dizem que as psicoses maníaco-depressivas, os estados bipolares, e todas as formas de melancolia e depressão, estão entre as oscilações mais graves do estado patológico. O luto patológico é um estado no qual o processo de superação da perda do objeto não é concluído. As catexias, ou investimento narcísico depositado no objeto perdido, não retomam ao ego, e é sobre isso que Freud fala em “Luto e Melancolia”.
Escrito em 1915 com o objetivo de esclarecer os estados melancólicos, comparando-os com a angustia normal sentida diante da perda do objeto amado (FREUD, 1967, p. 1075), “Luto e Melancolia” (Trauer und Melancolie) estabelece a diferença entre o luto normal e o patológico. Freud diz que a pessoa melancólica se encontra num luto que pode se estender por tempo indeterminado. Sem superar a sua perda, torna-se prisioneira do ego. Mas Freud também diz que o estado melancólico pode desaparecer inexplicavelmente.
O melancólico é envolvido por um profundo desânimo, falta de interesse pelo mundo, incapacidade de amar, inibição e perda da autoestima. Estas mesmas características fazem parte do luto, excetuando-se a falta de autoestima. No luto, existe uma alteridade, um Outro, ou algo cuja perda poder-se-ia racionalmente justificar. Quando superada a perda, a tristeza desvanece e o ego está pronto para reinvestir em outro objeto. Porém, na melancolia, há uma perda de si mesmo, nele se encontram fundidos o Eu e o Outro, passando a existir uma identificação narcísica e uma perda inexplicável. O objeto perdido e desconhecido não é encontrado na consciência: pode-se saber o que foi perdido, mas não o que foi perdido com o “Outro”. O melancólico é tão vazio e pobre de si, que pode perder a vontade de viver. Diante dessa dinâmica psíquica, Freud supôs que tal autocrítica só poderia ser possível caso houvesse uma parte do ego que se voltasse contra ele. Nesse caso, supomos que o ego se encontra dividido e que, provavelmente, uma dessas partes estaria atuando como um superego, punindo severamente o “Eu”.
Em “Criminosos em consequência de um sentimento de culpa” (1916), Freud comenta que a análise de seus pacientes conduziu-o a ter um olhar mais abrangente sobre pessoas com reputação respeitada e elevada moralidade que confessaram ter praticado atos ilícitos, pois após cometerem tais crimes sentiam-se aliviados. Para Freud, as ações proibidas desses pacientes provocava-lhes um “alivio mental”, pois sofriam de um esmagador sentimento de culpa cuja origem era desconhecida. Diante de tal descoberta, Freud cria a hipótese de que existia nesses pacientes um sentimento de culpa que precedia o ato criminoso, ao invés de ter surgido em decorrência deste.
Sedimentando o conceito de superego, em 1920 Freud escreve “Para além do princípio de prazer”, dando uma virada decisiva na maneira de ver o funcionamento do aparelho psíquico, que deixa de ser regido pelo modelo prazer-desprazer para se orientar pelo embate entre pulsão de vida e pulsão de morte (Eros x Thanatos).  De acordo com esse novo paradigma, o impulso à destruição passa a ser inerente à natureza humana e, mais tarde, justificará a inevitabilidade do sentimento de culpa e do mal-estar em toda organização social. Em 1923, com “O Ego e o Id”, Freud sugere a hipótese de que o sentimento de culpa nasce concomitantemente ao complexo de Édipo e reafirma a dimensão social deste. 
Havia se passado quase vinte anos desde que Freud vinculara o sentimento de culpa ao nascimento da civilização, em “Totem e Tabu”, quando escreve sobre o desconforto da sociedade em “O Mal-estar na Civilização (1929/1930). Neste trabalho, o sentimento de culpa é abordado de forma mais cuidadosa. O título, autoexplicativo, sugere a inevitabilidade da sensação de mal-estar em qualquer forma de agrupamento social. Isto se daria pelo fato de que a organização social vai de encontro à felicidade individual, visto que há um embate entre as satisfações individuais e as sociais - portanto, a felicidade jamais poderia ser alcançada.

Esta é a surpreendente premissa do principal estudo de Freud sobre o desenvolvimento da civilização: nós sacrificamos a felicidade por um alto nível de civilização, e o mecanismo da nossa infelicidade é um sentimento de culpa crescente, muitas vezes uma culpa decorrente de impulsos inconscientes.” (KAHN, 2005 p. 179)

Freud adota a teoria de que a tendência do indivíduo à agressividade não tem somente forte disposição pulsional (liberação de energia psíquica), mas também se constitui numa grande ameaça à civilização, pois toda agressividade gerada e sem via de escape volta-se contra o próprio indivíduo. Pode-se dizer então que existe uma culpa estruturante e civilizadora; mas também que há uma culpa patológica, pois uma sociedade movida pela culpa, adoece. Até o momento, discutiu-se a culpa como sequela do complexo de Édipo, a culpa como sentimento originário do assassinato do pai da ordem primitiva, e a culpa como expressão do conflito proveniente da luta entre Eros (pulsão de vida) e Thanatos (pulsão de morte).
Em “O Mal-estar na Civilização (1930), Freud cria uma nova roupagem para o sentimento de culpa, o qual não perde o status de inibidor de pulsões destrutivas. Ao contrário, nasce da tensão entre um superego severo e o ego, e manifesta-se através da necessidade de punição. A culpa passa a ser a grande controladora da civilização e tem sua origem no desamparo, no medo da perda do amor materno ou de um cuidador (FREUD, 1997). Através do sentimento de culpa, a cultura domina nossa inclinação à agressividade, debilitando-a, desarmando-a, e colocando em seu interior um agente para cuidar dela “como uma guarnição numa cidade conquistada” (FREUD, 1997, p.84). Supõe-se que o agente em questão nada mais é do que o superego que, inicialmente, na primeira tópica da teoria freudiana, não passava de um porteiro a serviço da censura (GARCIA-ROZA, 2002). Através do binômio “agressividade e culpa”, Freud renova a teoria da origem do superego. A agressividade seria inata, mas depois de ser expulsa para fora do indivíduo, retornaria para ele, para o ego, assumindo a função de consciência moral e pronta para deflagrar, contra o próprio ego, a mesma agressividade que o ego, de bom agrado, teria posto em ação contra outros indivíduos estranhos a ele (FREUD 1997). A culpa originária de impulsos agressivos que se deslocam para o sujeito é estruturante, na medida em que é experienciada de forma saudável.  Foi sobre esta culpa primária que nos falou Melanie Klein (1948).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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WAGNER DA MATTA PEREIRA é psicanalista (NUPSIR-RN/UNEPSI-PB); Mestre em Literatura Comparada (UFRN); formado em Letras (URFJ) e Psicologia (UNIRN).
E-mail: wag_mp@hotmail.com

10 de maio de 2014

DO EFEITO AO FEITO: MEMÓRIA MADALENA (Thomas Ferrari Ballis)



O presente texto tem como objetivo apresentar algumas reflexões acerca da memória. Ilustrarei estas reflexões com a memória involuntária tratada por Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido”. Mais especificamente na passagem da “madalena, narrada no primeiro volume da obra, intitulado “No Caminho de Swann.
Visitar e revisitar os textos freudianos foram de suma importância para o desenvolvimento do presente texto. Do universo teórico freudiano, o tema da memória foi o que invadiu com mais força o espaço do brincar reflexivo deste que agora escreve. Algumas experiências pessoais, outras testemunhadas na sala de análise também contribuíram para a escolha do tema. Algumas delas encontraram ancoragem na teoria freudiana, outras ganharam certa luminosidade nas madalenas de Marcel Proust.
A famosa passagem da “madalena” mostra todo o primor literário de Proust. Consagrou-se como uma das mais belas e marcantes do primeiro volume de sua obra. O fato dos psicanalistas frequentemente se utilizarem dela para suas reflexões só revela a sua força enquanto exemplar de expressão das produções humanas.  
No final do primeiro capítulo de “No caminho de Swann”, o narrador prova uma madalena embebida em uma xícara de chá. O bolinho amanteigado, que lhe fora oferecido pela mãe num dia de inverno, vem romper com “um dia tristonho com a perspectiva de um amanhã sombrio” (p.64). O clima belamente expresso pelo “drama de me deitar”, que compilava tédio, angustia, desamparo, e uma enorme dificuldade de se distanciar da mãe, dá lugar a uma felicidade extrema que lhe invade a boca, um sentimento oceânico, uma alegria poderosa mesmo sem o conhecimento da sua causa: “estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Um prazer delicioso me invadira, isolado, sem a noção de sua causa. Ele imediatamente me tornou as vicissitudes da vida indiferentes; seus desastres, inofensivos; sua brevidade, ilusória, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma essência preciosa: ou melhor essa essência não estava em mim, ela era eu. Cessei de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo esta poderosa alegria?”(p.55). 
Na passagem da “madalena”, o narrador distingue dois tipos de memória. A memória voluntária, ou da inteligência, e a memória involuntária. Descreve a memória voluntária como a tentativa de lembrarmos intencionalmente do passado. Estabelece as limitações deste tipo de memória demonstrando que, através dela não se conseguiu resgatar nada mais que uma espécie de “fragmento luminoso, recortado em meio a trevas indistintas”(p.54) de Combray, lugarejo de sua infância, próximo a Chartres. Que através dessa memória, o tal lugarejo consistia “apenas de dois andares ligados por uma escada estreita, e como se fossem sempre sete horas da noite” (p.54). Como se todo o resto de suas lembranças de Combray estivessem mortas.
Apresenta a memória involuntária, ligada aos órgãos de sentido da natureza humana, como marcas impressas no ser ao longo de sua história. Estabelece que ela se dá fora dos domínios e alcance da consciência, a revelia da vontade, e que depende de um encontro ao acaso com uma sensação despertada por algum objeto material, do qual sequer suspeitamos: “mas quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, solitários, mais frágeis mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fieis, o odor e o sabor restam ainda por muito tempo, como almas a recordar. A aguardar, a esperar, sobre a ruína de todo o resto, a carregar sem vergar, sobre a sua gotinha quase impalpável, o edifício imenso da lembrança” (p.56).
É através da memória involuntária, da sensação despertada pela madalena, que o narrador nos mostra sua heroica aventura ao reencontro de algo desperto por uma sensação em estado puro, ainda sem significação: “Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar intacto logo em seguida, à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Pouso a xícara e me volto para meu espírito. Cabe a ele encontrar a verdade. Mas como? É grave a incerteza todas as vezes que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando aquele que procura é ao mesmo tempo a região obscura onde deve procurar e onde toda a sua bagagem não lhe servirá para nada. Procurar? não apenas: criar. Ele está diante de alguma coisa que ainda não existe e que só ele pode tornar real, e depois fazer entrar na sua luz. E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não me apresentava nenhuma prova lógica da sua felicidade, e sim a evidência da sua realidade, ante a qual as outras desapareciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao momento em que tomei a primeira colher de chá. Reencontro o mesmo estado, sem um esclarecimento novo. Peço a meu espírito um esforço a mais, que me traga outra vez a sensação que escapa. E para que nada quebre o impulso com que ele vai tentar recuperá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia alheia, protejo meus ouvidos e minha atenção dos ruídos do quarto ao lado. Mas ao sentir que meu espírito se cansa sem conseguir, eu o forço no sentido contrário: a aceitar a distração que lhe negava, a pensar noutra coisa, a se refazer antes de uma tentativa suprema. E uma segunda vez cavo um vazio diante dele, reponho na sua frente o sabor ainda recente daquela primeira colherada, e sinto estremecer em mim alguma coisa que se desloca, gostaria de subir, alguma coisa que teria se soltado a uma grande profundidade; não sei o que é, mas ela sobe lentamente; sinto a resistência e escuto o rumor das distâncias atravessadas. Por certo o que palpita assim no fundo de mim deve ser a imagem, a lembrança visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas ela se debate demasiado longe, de modo demasiado confuso; mal percebo o reflexo neutro onde se confunde o inalcançável turbilhão de cores misturadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me ensine de qual circunstância particular, de qual época do passado se trata. Chegará à superfície da minha consciência clara essa lembrança, o instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, emocionar, levantar no mais fundo de mim? Não sei. Agora não sinto mais nada, ela parou, recaiu talvez; quem sabe se não reemergirá nunca mais da sua noite? Dez vezes preciso recomeçar, me debruçar rumo a ela. E todas as vezes a covardia, que nos desvia de toda tarefa difícil e de toda obra importante, me aconselhou a deixar isso de lado, a beber meu chá pensando simplesmente nos meus aborrecimentos de hoje e nos meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem custo” (p. 55-56).
E a madalena, enfim, reaviva o lugarejo de sua infância de uma forma que ele nunca desfrutara antes. “E de repente a lembrança me surgiu. Aquele gosto era o do pedacinho de madalena que nas manhãs de domingo em Combray (...), quando ia lhe dar bom-dia no quarto, minha tia Léonie me oferecia depois de molhá-lo na sua infusão de chá ou de tília. (...) E assim que reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado no chá que minha tia me dava (...), logo a velha casa cinza de frente para a rua, onde estava o quarto dela, surgiu como um cenário de teatro e se aplicou ao pequeno pavilhão dando no jardim, construído atrás para os meus pais (...); e com a casa, a cidade, desde a manhã até a noite e por todos os tempos, a praça aonde me mandavam antes do almoço, as ruas onde ia comprar coisas, os caminhos que pegávamos se o tempo estivesse bom. E como nesse jogo no qual os japoneses se divertem, pondo numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel até então indistintos que, ao serem mergulhados, logo se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, e assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque de monsieur Swann, e as ninfeias do rio Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas casas, e a igreja e toda Combray e seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá” (p.56).
As questões que a passagem da madalena nos coloca instigam tanto pela complexidade com a qual a memória se apresenta quanto pela probabilidade de que nós mesmos tenhamos experienciado algo semelhante em nossas vidas, em grau de surpresa e sobressalto. Guardadas, claro, as devidas ressalvas no que tange a felicidade. Uma identificação nos une a humanidade de nosso narrador.
No primeiro momento temos a narração de um clima emocional. Sentimos com o narrador o aperto de seu campo perceptivo, o estreito olhar de uma consciência, como uma pequena casa, cujas portas e janelas trancadas são reforçadas com tábuas de madeira resistente, de onde se olha somente através das frestas. Restrições de um psiquismo que transborda em angustia. As horas, os dias sombrios, a escuridão da noite como metáforas da solidão e do abandono. Por fim, algo que nosso narrador nomeia hábito, revelando a maquinal repetição deste clima emocional. “O hábito! Arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que apesar de tudo, a gente se sente bem feliz ao encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento” (p.19). É assim que nosso narrador descreve o hábito, antes mesmo da passagem da madalena. O que devemos acrescentar é que há um todo harmônico na narração. Sombrios se revelam os dias e as noites, um relógio que só vive de sete horas, um drama que não vive sem a hora de deitar, angustia e desamparo que não vivem sem narrador. Representantes e afetos especialmente selecionados que se harmonizam e se fusionam em uma gestalt, esteticamente em ordem e solidamente integrada. Representantes bifacies que dizem de narrador e seu mundo. Compõe também a paisagem seu escritor.  
Diante do quadro descrito podemos avançar um pouco e nos determos na seguinte pergunta: o que vem a provocar então a madalena?  Acompanhando suas próprias palavras, observamos que inicialmente o gosto da madalena o faz estremecer, que a experiência o coloca em um estado de incerteza por ter seu espírito como que ultrapassado por si mesmo. A madalena aqui, subvertendo certa interpretação de passagens bíblicas, é também a pedra lançada por um infante num lago tranquilo. Esta pedra vai se chocar com algo no fundo do lago, enquanto sua superfície lhe responderá de uma forma menos tranquila, em pequenas ondas que se afugentam circulares, até que se encaixe novamente em seu nome. Lago tranquilo. E depois que escrevo a metáfora do lago, que a pedra me volta com alguma coisa, a lembrar-me da “travessia de um rio bravo de mãos dadas com os pacientes”, referida por uma psicanalista há alguns anos. Rio bravo, lago tranquilo. Mas voltando a madalena, sabe-se que o que se passa com nosso narrador é algo da ordem desta analogia, o que gostaríamos de saber é o que se rompe com a madalena? O que se quebra? O que é que lhe ultrapassa e se choca com algo nas profundezas de seu ser? Em primeiro lugar, creio que a madalena rompe uma tradição, uma tradição subjetiva. Melhor, a madalena é a traição de uma tradição subjetiva que até então se repetia. Lembremos que nosso narrador quase recusa a oferta de sua mãe: “a princípio recusei, não sei por que, voltei atrás” (p.55). Em outras palavras, o que ela faz é provocar uma ruptura na superfície representacional, desfazendo a urdidura de um Eu. A metáfora do lago, seguida de uma pitada de gracejo com seu nome, não é fortuita. Pois se estamos apontando um choque que estremece uma superfície representacional, estamos falando de um choque com a realidade. Consequentemente o que se observa é uma identidade em crise. O narrador nos diz isso claramente ao tentar nomear a experiência: “a evidência da sua realidade, ante a qual as outras desapareciam” (p.56). O mais importante para os nossos propósitos aqui é que a lembrança que se reaviva posteriormente é o fruto desta experiência, causada por uma sensação.
Seguindo o desenrolar da narrativa, nosso narrador está em êxtase - uma extrema felicidade lhe invadira a boca. Mas, talvez, sejamos um pouco ingênuos ao pensarmos que ele está satisfeito. A madalena, na analogia freudiana do bloco mágico, é um estilete do acaso, mas um acaso que revela seu grau de intensidade à medida que encontra eco e refaz um caminho abandonado a inscrições primeiras, a marcas esquecidas. Eu a vejo análoga ao que Freud nomeou resto diurno em seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, mas posteriormente voltaremos a esta observação. A princípio, um encontro fortuito no presente que anima uma marca esquecida do passado, suspendendo nosso narrador no que chamamos tempo. Esta sensação de plenitude que torna as vicissitudes e os desastres da vida inofensivos, que cessa o sentimento de mediocridade, contingencia e mortalidade, nem por isso são suficientes para que o narrador simplesmente goze deste momento. O que chamarei de efeito madalena ainda está no campo das sensações; lembre-se que nosso narrador está em meio a uma crise de identidade\realidade e, para saná-la, ele precisará unificar, combinar (Freud, 1919 p.283). Expressa esta tendência humana compulsiva ao perguntar-se: “De onde poderia ter vindo esta poderosa alegria? (...) De onde vinha ela? O que significava? Onde apreendê-la?” (p.55).       
Chamo aventura a busca de nosso narrador, pois vejo nela a capacidade e esforço da criatura humana de utilizar todos os recursos de que dispõe para dar conta de uma experiência que lhe escapa, atravessa e desnorteia. Com suas estruturas vivenciais em crise, nosso narrador tem como únicas pistas um sabor e um prazer delicioso. Mas um novo narrador se posiciona agora, vitalizado neste tempo pós madalena, um novo Eu buscando aconchegar-se a uma nova realidade. A princípio, a tentativa de um segundo gole nada diz. Há sabor neste novo Eu encarnado, mas ele quer sentido, história e narrativa, uma síntese criativa entre passado e presente. Advém tal sabor de um narrador infante, o que ainda não fala, marcado somente pelos rastros das sensações. Memorável momento o de sua tentativa de retroceder pelo pensamento “a primeira colher de chá” (p.56), uma bela alegoria de um Freud obsessivo, ansiando as origens do psiquismo, perpassando a filogênese, a mitologia e a catástrofe glacial, em busca da primeira colher de chá da humanidade. Visitando e revisitando o humano e sua história através do pensamento, este consolo civilizatório pós-desilusão amorosa com o paraíso, de onde advém alguma ideia acerca do que é felicidade. Mas, voltemos ao nosso narrador, agora um Eu pensante, tentando eliminar todos os obstáculos, ruídos e ideias alheias de sua mente, determinação hercúlea de forçar uma espécie de sonho em vigília, para que surja novamente uma sensação que lhe escapa. Ou, no sentido contrário, deixando que suas distrações e pensamentos lhe guiem. Tentativas em vão. No entanto, palpita-lhe algo que nomeia imagem, uma lembrança visual que ele associa ao sabor da madalena, conjecturando esta testemunha contemporânea com algo proveniente de um passado. Uma narrativa truncada se desenrola; vemos agora um narrador trapeiro, colhendo fragmentos, restos, reminiscências, recomeçando inúmeras vezes a sua tarefa, como se pudesse achar na luz da memória voluntária o que se evidenciou no recôncavo escuro de seu espírito. Fraqueja. Sente-se vencido pela árdua tarefa de procurar na luz o que se perdeu no escuro. Mas de chofre, a lembrança lhe surge, e nosso narrador tem seu glorioso milésimo de segundo de um Irineu Funes, o memorioso de Borges.
A passagem da madalena é permeada pela investigação da origem das lembranças. Nosso narrador inicia sua investigação estabelecendo uma analogia entre uma crença céltica e a memória involuntária. Nelas, a possibilidade de acesso a determinadas lembranças do passado só se dão ao acaso de um encontro fortuito com um objeto material, ressaltando a sensação despertada pelo mesmo. Após a sensação despertada pela madalena ele compreende que a verdade não está nela, mas nele mesmo; no entanto supõe mais um elemento que fermenta a complexidade da origem de uma lembrança: “procurar? Não apenas: criar (grifo meu)” (p.56); “ele está diante de alguma coisa que ainda não existe (grifo meu) e que só ele pode tornar real” (p.56). E neste momento nos perguntamos: Afinal, o narrador vai resgatar uma lembrança que já existe ou vai inventar uma lembrança?  O narrador nos da uma aula sobre a transferência, ao enfatizar que o sabor da madalena é o testemunho contemporâneo de uma época do passado; “um estante antigo que a atração de um estante idêntico veio de tão longe solicitar, emocionar, levantar no mais fundo de mim?” (p.56). Para completar a complexidade do efeito madalena e a origem da lembrança, nosso narrador termina de forma poética o primeiro capítulo de sua obra dizendo que “toda Combray e seus arredores, tudo aquilo que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá (grifo meu)” (p.56).
Será somente uma forma poética de concluir sua aventura aos recôncavos da mente? Ou podemos pensar na importância dos elementos que surgiram ao acaso na paisagem de nosso narrador, como atores indispensáveis da cópula que parteja esta lembrança? A pergunta que se impõe neste momento é a mesma de Santo Agostinho no capítulo intitulado “O Palácio da Memória de suas Confissões”: “Ora esta potencia é própria do meu espírito e pertence a minha natureza. Não chego, porém, a apreender todo o meu ser. Será porque o espírito é demasiado estreito para se conter a si mesmo? Então onde está o que de si mesmo não encerra? Estará fora e não dentro dele? Mas como é que não o contém?” (p.146). Diante da complexidade que o narrador nos impõe, experimente caro leitor, imaginar um diálogo entre narrador, a madalena, o sabor e a xícara, a respeito do direito a maternidade biográfica da lembrança. Imaginemos:
O Narrador: Mas o menor sentido não se alcança no presente encontro, para além do absurdo expresso da incontestável loucura! É inexorável meus senhores que esta lembrança revela a mim, a minha infância, a minha vida! Há realmente alguma dúvida quanto a isso? Alguém tem alguma dúvida? Mas qual é a pergunta?
A Xícara: Argumentos cândidos meu senhor. Esta senhora xícara de cintilante nobreza, ainda invicta das lascas do tempo, lhe acompanha desde a infância em Combray, virtude da senhora sua mãe. Afinal, não se descartaria em uma mudança uma porcelana com tal vigor e pujança. E a propósito, não se olvides meu caro senhor, que a tintas fortes escrevestes que tudo saiu das minhas entranhas, mesmo a despeito da invasão de uma desonrada e desmedida madalena!
A Madalena: Admirável como me estimas Senhora Xícara, reconheço sutilmente nas suas palavras meu lugar cativo nos salões da burguesia, nas mesmas línguas que experimentam a virtude. Pois saibas que o vício e a virtude se cobiçam através de uma vidraça, separando-se ínfimos em sua transparência. A sua língua meu narrador, cospe lembranças ao deleitar-se comigo, no calor da alcova de seu palato!
O Sabor: Humildemo-nos um pouco meus senhores, que o pensamento é mais preciso no sereno! E as palavras, vós apercebereis um dia, mais escondem do que mostram! Todavia, se quereis mesmo as palavras meus senhores, os andaimes humanos da lembrança, as palavras pra flor ou para os jardins da pele, que nos encontremos mais meus senhores! Encontremo-nos também com a pele, nos encontremos com o cheiro, companheiros leais das mais primevas sensações. Aquietemos mais a razão e o sentido da vida, que a contextura da lembrança está na graça do encontro!                       
Ao referir-me a madalena como um resto diurno, encontro uma testemunha em Valter Benjamin: “Toda interpretação sintética de Proust deve partir necessariamente do sonho. Portas imperceptíveis a ele conduzem” (p.39). Em seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, Freud afirma que “em todo o sonho, é possível encontrar um ponto de contato com as experiências do dia anterior” (p.175). Freud é paradoxal quanto à importância do resto diurno, “às vezes ele aparece na teoria como um elemento inócuo da experiência de vigília, capturado de modo contingente pelo processo de elaboração onírica (...). Outras vezes parece ser a própria natureza do resto diurno o agente provocador do sonho” (Ferraz, 2012 p.32). Mais adiante, ainda no capitulo V de “A Interpretação dos Sonhos”, Freud parece estabelecer uma síntese teórica acerca do resto diurno: “O enigma de por que os sonhos se interessam apenas por fragmentos sem valor da vida de vigília parece haver perdido todo o seu significado; tampouco é possível continuar a sustentar que a vida de vigília não é levada adiante dos sonhos e que estes são, portanto, uma atividade psíquica desperdiçada num material descabido. O inverso é verdadeiro: nossos pensamentos oníricos são dominados pelo mesmo material que nos ocupou durante o dia e só nos damos o trabalho de sonhar com as coisas que nos deram motivo para reflexão durante o dia.” (p.185). O sabor da madalena é uma percepção emocionalmente significativa, um traço da realidade que guarda em si um aspecto enigmático, que faz do encontro uma solicitação de processamento psíquico. Sua evidencia é tão intensa que ela transforma o dia do sonho em um dia sonhado. O efeito madalena culmina no que Freud nomeou na famosa carta 52 de “rearranjo” ou “retranscrição” que a memória sofre de tempos em tempos. 
“Pra falar a verdade, eu poderia ter respondido a quem me perguntasse que Combray compreendia ainda outras coisas e existia noutras horas. Mas como o que então recordasse me seria fornecido pela memória voluntária, pela memória da inteligência e como as informações que ela dá sobre o passado não conservam nada dele, eu nunca teria tido interesse nesse resto de Combray. Tudo aquilo estava na realidade morto para mim” (p.54). Este trecho nos mostra uma Combray mais além da representação, mas indiferente ao nosso narrador, por não refleti-lo. Após a ruptura representacional, o sabor da madalena serve ao nosso narrador como suporte transferencial para um mergulho que desemboca no pretérito, e com esta experiência “modifica-se o solo da memória e o passado passa a ter sido outro. Como consequência, e em pequena medida, o presente, ou seja, o futuro de um novo passado, muda e também passa a ter sido sempre aquele que se criou” (Herrmann, 2008 p. 50). A rigor, nada nos garante que esta lembrança existia ou estava escondida em algum lugar da mente de nosso narrador, mas curiosamente podemos afirmar o contrário. O feito madalena é uma lembrança viva em toda sua forma e solidez, que amplia o universo dos possíveis ao ser incorporada à história de nosso narrador. Altera e amplia o solo da memória com novas representações, novos ingredientes pra palavra narrar o mundo. 
Minha excursão acerca da madalena de Marcel Proust obviamente aponta para a sala de análise, onde paciente e analista se encontram para uma prática da palavra falada. Mas uma palavra viva, esmiuçada em seu molejo etimológico, cultivada na sua emoção. Pois a sala de análise desperta a palavra do sono cotidiano, desamarrando sentidos outros, provocando estranhos encontros e desencontros, produzindo restos diurnos que serão dormidos e sonhados. Pois nesta perspectiva, o sonho é concebido tanto como expressão psíquica de sentido, como uma função de inscrição de novas representações (Ferraz, 2012 p.33) - que amadurecem e expandem a mente.
Este trabalho privilegia a alteridade e o real do encontro, aponta para o que ele pode ter de inédito, de inaugural, de não repetitivo. Pois como escreveu Marcel Proust: “Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento em relação a elas” (p.16).

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THOMAS FERRARI BALLIS é psicanalista.
Email: thomferrari@yahoo.com.br